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Edição 4.929 - Ano 97 - Caxias do Sul-RS, 23 de março de 2005.
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Água, uma riqueza finita que desafia o bom senso
No Brasil, com reservas que atraem interesses do mundo, 45 milhões de pessoas bebem água sem qualidade
No Dia Mundial da Água, comemorado em 22 de março, os gaúchos e grande parte dos moradores do Sul do país vivem uma das piores secas da sua história. Perdas na agropecuária que comprometem o futuro de milhares de famílias de produtores rurais e o desconforto do racionamento em várias cidades dão a dimensão dos prejuízos causados pela estiagem - que tende a se prolongar por pelo menos mais três meses.
Esta, no entanto, é uma situação que deve ser superada. O mesmo não se pode dizer dos 45 milhões de brasileiros, entre eles 19 milhões de agricultores, que consomem água sem qualidade. Esses vão conviver com o problema por um tempo muito maior ainda, porque uma solução demanda investimentos de R$ 178 bilhões em duas décadas, recursos que o país não dispõe.
Quadro mais grave ainda é o que envolve cerca de 1,5 bilhão de pessoas no mundo, que não têm acesso à água potável. Esses tendem a se tornar vítimas permanentes da escassez do líquido, muitos deles morrendo justamente porque não têm o que beber, não podem plantar e, por decorrência, falta também alimento.
No caso de regiões inóspitas do planeta, até é compreensível a escassez de água. No Brasil, porém, isso não se admite. O país detém praticamente 15% de toda a água doce da Terra, o que equivale a 17 trilhões de metros cúbicos.
Deficiências de infra-estrutura impedem que essa riqueza chegue aos lares de todos os brasileiros. E criam uma situação absurda, tanto quanto vergonhosa, como a de não poder saciar a sede estando no meio de um rio.
A questão, porém, não se esgota nas vítimas da inoperância de governantes. A idéia de abundância infinita contribuiu para que crescessem os índices de desperdício e de poluição. Pesquisa apurou que 20 mil áreas com água no país estão contaminadas. Como o número de mananciais poluídos aumenta a cada ano, a menos que o brasileiro se conscientize da importância vital de preservar as fontes de água e a natureza em geral, não levará muito tempo para que o contingente de sedentos se multiplique.
Zona rural em situação de emergência
Decreto é resultado de perdas na agropecuária estimadas em R$ 35,5 milhões
Perdas de 90% nas lavouras de milho, de 70% nas de feijão, de 50% na produção de leite, de 30% da safra de uva e de 20% a 65% nas plantações de hortigranjeiros; prejuízo estimado de R$ 35,5 milhões; e incapacidade dos agricultores de pagar dívidas. Esses motivos levaram o prefeito José Ivo Sartori a decretar, na sexta 18, situação de emergência na zona rural de Caxias do Sul. O setor primário responde por 4,78% do PIB de Caxias, o 458º??? município gaúcho em emergência devido a problemas provocados pela longa estiagem (leia página 9).
A decisão de Sartori foi baseada em um estudo elaborado pela Comissão Municipal de Defesa Civil. "As condições atuais nos levaram a uma convicção, que se exige de um gestor municipal", afirmou durante entrevista coletiva. Se reconhecida pela União, a situação de emergência permite ao município agilizar obras pela dispensa de licitações. O prefeito também admitiu medidas punitivas para coibir o desperdício de água na cidade. "Se persistir a seca, poderemos nos obrigar a tomar medidas para garantir o uso racional e responsável da água", declarou.
O levantamento realizado por técnicos conclui que além das perdas na produtividade, há comprometimento da qualidade de frutas, entre elas maçã e caqui. Outra constatação: a área destinada ao plantio de olerícolas no município foi reduzida pela metade por falta de água para irrigação.
Quase 500 famílias de produtores rurais estão com problemas de abastecimento de água para consumo humano. Criúva e Vila Seca são os distritos mais atingidos pela estiagem. A Secretaria Municipal da Agricultura e a Emater também se depararam com o drama dos 450 agricultores que receberam sementes de milho pelo sistema troca-troca. Como perderam quase tudo, não terão como saldar o compromisso assumido ao trocar as sementes.
Gelson Palavro comanda também a organização da Festa da Uva 2006
O presidente da empresa Festa da Uva, Turismo e Empreendimentos S/A, Gelson Palavro, vai comandar também a Comissão Comunitária, responsável pela organização do evento marcado para 17 de fevereiro a 5 de março de 2006. O anúncio foi feito pelo prefeito José Ivo Sartori na quarta, 16, durante jantar que serviu para a derradeira despedida e prestação de contas do ex-presidente Ovídio Deitos e sua equipe (leia abaixo).
O primeiro passo de Palavro é definir os vice-presidentes da Comissão Comunitária para logo em seguida marcar a data da escolha das soberanas da próxima festa. "Não tenho ainda nomes da equipe", afirmou na segunda, 21. A escolha da rainha deverá ocorrer em setembro. "Precisamos começar a trabalhar no evento ainda em abril. Todas as idéias e experiências dos que nos sucederam são bem-vindas, mas precisaremos também do apoio de toda a comunidade para fazermos uma festa que possa pelo menos repetir o êxito da anterior", convocou Palavro.
Deitos anuncia lucro na Festa de 2004
A receita superou R$ 7 milhões, o lucro atingiu R$ 1,8 milhão e o público ultrapassou 800 mil pessoas. Esses foram os principais números apresentados pelo ex-presidente da festa da Uva, Ovídio Deitos, referindo-se ao evento de 2004. Emocionado, estendeu agradecimento a todos que o ajudaram. Elogiando muito o ex-prefeito Gilberto Pepe Vargas, a quem atribuiu a maior responsabilidade pelo sucesso da Festa, Deitos iniciou um ritual que marcou a transição: retirou da lapela do paletó e devolveu a Pepe um boton com cacho de uva; este, por sua vez, repassou-o ao atual prefeito José Ivo Sartori, que entregou ao presidente da Festa da Uva, Gelson Palavro - uns passando adiante e outros recebendo o "abacaxi", alusão às dificuldades que gera a organização do evento.
Ao comentar o balanço final, Deitos afirmou que deixava no caixa da Festa R$ 434 mil. Palavro, ao CR, disse que em dinheiro havia R$ 50 mil - o restante eram créditos da Lei de Incentivo à Cultura.
Lei libera crédito para os pavilhões
O prefeito José Ivo Sartori sancionou, na segunda 21, lei que autoriza abertura de crédito adicional especial no orçamento de 2005, no valor de R$ 4,3 milhões, para concretização das obras do Centro de Negócios da Agricultura Familiar, nome do novo pavilhão no parque da Festa da Uva. Esse valor corresponde à contrapartida da Prefeitura.
Segundo Gelson Palavro, presidente da Festa da Uva, o novo pavilhão tem custo orçado em R$ 10,7 milhões. Os ministérios do Desenvolvimento Agrário e do Turismo participam, respectivamente, com R$ 2,2 milhões e R$ 2,3 milhões - o restante sairá do caixa da Festa da Uva. Segundo Palavro, nos próximos dias serão lançadas duas licitações - de estrutura e cobertura e de mão-de-obra. A intenção é garantir o andamento das obras em função da realização da Mercopar, na segunda metade do ano.
"A vida humana não pode ser negociada"
A aprovação pelo Congresso Nacional no início deste mês da Lei de Biossegurança, por 352 votos a 60, não alterou a posição da Igreja Católica, contrária à pesquisa de células-tronco embrionárias humanas. Nesta entrevista, o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Geraldo Majella Agnelo, diz que o debate e a votação do Projeto de Lei foram influenciados por um clima emocional e que faltou cautela. Ele alerta para o risco de promessas de cura se transformarem em frustração, lamenta que no Legislativo brasileiro a vida humana tenha sido reduzida a "objeto ou mercadoria" e entende que pode haver reversão.
A Lei cria a mentalidade de que se pode destruir uma vida quando isso trouxer vantagem
Os embriões humanos não são apenas material biológico com valor social e comercial
Correio Riograndense - Muda a postura da Igreja a partir da aprovação da Lei de Biossegurança?
Dom Geraldo Majella Agnelo - Não muda a compreensão que a Igreja tem da dignidade da vida humana em todos os estágios de seu desenvolvimento, desde os momentos iniciais, no ventre materno, até os momentos finais da aventura terrena. A vida humana tem um valor sagrado, ela é inviolável. Quando se abre exceção a esta regra, a vida humana passa a ser considerada um bem do qual se pode dispor, passa a ser tratada de acordo com a utilidade que tem, podendo ser negociada, ferida, destruída, segundo os interesses dominantes. Aprovar uma lei que fere a vida, permitindo o uso de embriões para retirar deles as células-tronco não somente terá como conseqüência a destruição de uma grande quantidade de vidas humanas em seu estágio inicial, quando é mais indefesa e vulnerável, mas cria uma mentalidade que se difunde e penetra no quotidiano: todos aprenderão que se pode destruir uma vida sempre que isto traga alguma vantagem.
CR - Um dos principais argumentos para a aprovação da nova lei são futuros benefícios que a pesquisa poderá trazer a portadores de deficiências físicas. O senhor teme algo além disso?
Dom Geraldo - A civilização ocidental nasceu exatamente do respeito à vida como um bem sagrado, indisponível ao poder do ser humano. Não somente as crianças que nasciam com defeitos físicos eram preservadas, mas eram tratadas como sinal misterioso da presença divina que interpela através daquela criatura. Isto mudou as tradições do mundo pagão, que mesmo nas regiões mais desenvolvidas, como a antiga Grécia, matavam essas crianças. Acumulou-se, ao longo dos séculos, uma riqueza de experiência de acolhimento, de amor, de respeito à vida de grande valor. Lembro as cartas de Emanuel Mounier sobre o sofrimento, em que fala de como ele tratava sua menina nascida com grave deficiência física, colocando-a na cabeceira da mesa quando recebia hóspedes em sua casa, sinal que nenhuma deficiência diminui a dignidade de uma pessoa. O cuidado com os doentes, com hansenianos, quando sua doença era estigmatizada como lepra, a fundação dos hospitais, dos orfanatos, constituíram, mais do que serviços sociais, sinais de uma maneira de conviver em sociedade. A proteção da vida vulnerável ou em perigo plasmou a convivência nas sociedades ocidentais, dando origem a comportamentos heróicos admiráveis. Lamento que, no Brasil, tenha chegado o momento em que, até no plano legislativo, a vida humana é reduzida a objeto ou a mercadoria.
CR - Muitos políticos cristãos votaram a favor do projeto alegando que tomaram essa decisão guiados pela razão. O que o senhor recomenda que eles façam agora?
Dom Geraldo - Os políticos cristãos devem saber dar as razões de suas opções, de modo que não se diga que uma opção nasce da razão e outra nasce da fé. Esta é uma impostura para não enfrentar os argumentos e não se submeter ao diálogo racional. Quem afirma que os cristãos são contrários ao progresso da ciência, anti-modernos e coisas semelhantes, não está querendo dialogar, assume uma posição arrogante, tentando desqualificar o interlocutor. Vale a pena continuar o debate porque não terminou ainda o iter legislativo através do qual uma proposta se torna efetivamente lei.
CR - No plenário da câmara estavam pessoas deficientes reforçando o lobby para a votação da Lei de Biossegurança. A votação foi influenciada por esse clima?
Dom Geraldo - O debate a respeito das células-tronco foi conduzido no plano emocional, envolvendo pessoas doentes que, justamente, se apegam a qualquer esperança de cura. Por desinformação ou por interesses não revelados, curas obtidas em decorrência do uso de células-tronco adultas foram atribuídas a células embrionárias humanas. É o caso do editorial de um dos jornais de maior circulação nacional, que afirmava: "Os deputados certamente serão sensíveis aos argumentos a favor da liberação das pesquisas com células-tronco embrionárias, que se tornam particularmente convincentes (...) como no caso do menino italiano que foi curado de uma forma grave de anemia". A cientista Alice Teixeira Ferreira, professora de Biofísica na UNIFESP (área de Biologia Celular - Sinalização Celular), a esse respeito afirmou: "Cabe aqui referir que a notícia disponível no meio médico especializado é no sentido de que a anemia, designada por ‘anemia de Fanconi’, vem sendo tratada, desde 2001 pelo Dr Pasquini, com células-tronco de cordão umbilical, que são células-tronco adultas. Não se conhece qualquer relato científico de cura com células-tronco embrionárias humanas".
CR - Na sua avaliação, então, há uma promessa de cura que pode desembocar em decepções?
Dom Geraldo - O mesmo engano encontra-se no Jornal do Senado, do dia 11 de outubro de 2004, onde se afirma: "Essas células (tronco embrionárias humanas) têm a propriedade de transformar-se em diferentes tecidos do corpo humano e representam a esperança de cura de muitas doenças". A cientista acima citada, no entanto, depois de oferecer dados de revistas científicas como "Sciences" (vol 303 de 12 de março de 2004) e "Nature" (vol. 430, de 19 de agosto de 2004) conclui: "De tudo isso, pode-se afirmar que não correspondem à realidade as afirmações relativas à existência de curas, ou mesmo perspectiva ou esperança de cura com base em evidência científica, a partir da utilização de células-tronco embrionárias humanas. Ao contrário, "os estudos disponíveis demonstram claramente que a implantação de células-tronco embrionárias humanas geram teratomas, ou seja, tumores, podendo levar à morte. (...) Não tendo, mesmo em experiência com ratos e camundongos, alcançado qualquer resultado relatado e comprovado que aponte para efetividade de cura, pois, mesmo quando se consegue obter linhagens de células, elas vêm inseridas em teratomas "(cf. Evidence of a Pluripotent Human Embryonic Stem Cell Derived from Cloned Blastocyst", publicado em "Sciences" (vol. 303, 12 de março de 2004).
CR - A Constituição Brasileira garante no artigo 5º a "inviolabilidade do direito à vida". Não lhe parece inconstitucional a Lei de Biossegurança quando legitima o uso de embriões?"
Dom Geraldo - Provavelmente o Supremo (Tribunal Federal) deverá manifestar-se a esse respeito. Na realidade, a evidência de que no zigoto, isto é, num óvulo fecundado já estão presentes todas as informações genéticas que presidirão ao desenvolvimento daquele indivíduo, que a razão humana pode reconhecer, sem necessidade de recorrer à fé, só pode ser rejeitada, por alguma razão, não totalmente explicitada. Os embriões humanos não são apenas material biológico, como alguns pretendem, um grumo de células, um objeto que, devidamente aproveitado, passa a ter utilidade social e valor comercial.
CR - Alguns políticos afirmaram que assuntos da biossegurança não são da competência da Igreja. O senhor concorda com eles?
Dom Geraldo - É uma tentação de todas as bandeiras políticas economizar diálogo, rejeitando interlocutores. Trata-se de uma prática autoritária, conhecida durante o regime militar, que não reconhece a cidadania e direitos iguais a todos os brasileiros. Nós acreditamos que a sociedade moderna é pluralista e que é indispensável o respeito mútuo e muito diálogo para construir uma convivência verdadeiramente democrática.
CR - A Igreja é contra a pesquisa também em células-tronco adultas?
Dom Geraldo - Não devemos confundir o "vale tudo" de certos debates alimentados pela emoção ou pelo preconceito da realidade: a Igreja tem grande estima pela pesquisa científica e aguarda com muita esperança as contribuições que dela poderão vir para aliviar sofrimentos e melhorar a qualidade de vida de muitas pessoas. Nesse sentido, são bem-vindas as pesquisas com células-tronco adultas (incluídas as células-tronco do cordão umbilical e da placenta), sendo já muitos os artigos científicos que comprovam experiências de curas, e o Brasil está muito adiantado em tais pesquisas, que devem ser incentivadas pois apontam para efetivos e expressivos benefícios para a população. Não são poucos, no entanto, os exemplos de pesquisas cujos resultados tiveram uma utilização negativa. Basta lembrar a descoberta da energia atômica e a tragédia que provocou em Nagasaki e em Hiroshima.
CR - O que o senhor quer dizer com isso?
Dom Geraldo - Que é necessária muita cautela quando estamos diante de terrenos não suficientemente explorados e, mais ainda, quando está em jogo a possibilidade de ferir a dignidade humana, com graves repercussões na formação da mentalidade, especialmente das novas gerações. É inadmissível eliminar um ser humano para aproveitar-se de seu corpo ou de parte dele, o que ocorre com a utilização das células-tronco embrionárias humanas, mesmo que a finalidade seja procurar curas para algumas doenças. Tanta pressa não cabe, especialmente quando os especialistas não confirmam a rapidez de soluções, antes apontam para maiores complicações quando se trata de células-tronco retiradas de embriões humanos.
Avaliação parcial indica ótima qualidade da safra de uva 2005
Seca ajudou para a graduação média bem superior à de 2004
O primeiro indicativo sobre a safra de uva deste ano revela que a qualidade é superior à de 2004, considerada uma das melhores dos últimos anos. Com base em resultados preliminares de análises feitas sobre mais de 500 mil quilos de uva, o chefe da Divisão de Enologia da Secretaria da Agricultura e Abastecimento-RS, Plínio Manosso chega a arriscar: "É possível que esta seja até a melhor da história".
Esse indicativo foi obtido através da avaliação do grau babo (quantidade de açúcar em 100 gramas de mosto) de amostras colhidas em cerca de 150 visitas de técnicos da Divisão de Enologia a vinícolas. Em algumas variedades, a variação entre o resultado final do ano passado e o parcial de 2005 supera dois graus, caso das variedades bordô (amostragem de 56,3 mil quilos) e merlot (18,8 mil quilos analisados), ou chega a 3,08 graus - situação da cabernet sauvignon (26,5 mil quilos avaliados) - observe tabela. Manosso ressalta que deve haver alterações nessas diferenças, mas dificilmente a graduação média do ano passado será superior à de 2005.
O resultado revela ainda que a falta de chuvas ajudou a melhorar a qualidade da safra. "A estiagem prejudicou algumas variedades em determinados locais. No geral, beneficiou", afirma Manosso. Ele destaca, no entanto, que não foi medido o índice de acidez. "Podem ocorrer situações em que o grau babo está elevado e o de acidez também, provocada pela desidratação. Nesse caso vamos ter mais ácidos tartárico, málico e, em menor quantidade, cítrico", comenta o chefe da Divisão de Enologia. Isso tende a dificultar o trabalho de enólogos, exigir correções como a desacidificação, mas não afeta a qualidade do vinho.
A quantidade da safra deste ano só deverá ser conhecida no final de abril ou início de maio. É certo, porém, que não serão repetidos os mais de 590 milhões de quilos colhidos em 2004.
Programa Juntos para Competir chega à vitivinicultura
Os vitivinicultores do Vale dos Vinhedos, na Serra gaúcha, serão os primeiros a integrar o projeto que, ao longo dos próximos três anos, deverá contribuir para a melhoria da qualidade da uva e do vinho produzidos na região. A meta é disponibilizar orientações nas áreas de tecnologia, capacitação e mercado, focos do setor no Programa Juntos para Competir.
A iniciativa é do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Rio Grande do Sul (Sebrae/RS), em parceria com a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) e com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). Para o triênio 2005/2007, a previsão é de que os investimentos na vitivinicultura alcancem R$ 1,2 milhão.
O Programa Juntos para Competir tem como objetivo organizar e desenvolver as principais cadeias produtivas do Estado, por meio da capacitação e de uma maior integração e organização dos setores envolvidos. Lançado em agosto de 2003, abrange atualmente outras cinco cadeias produtivas (bovinocultura, suinocultura, ovinocaprinocultura, floricultura e cana-de-açúcar), distribuídas em todo o Rio Grande do Sul, por meio de 31 comitês regionais. Também são parceiros no programa de desenvolvimento da vitivinicultura a Associação dos Produtores de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos (Aprovale), Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) e Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
A primeira etapa do trabalho abrangerá as ações de tecnologia. "Os produtores já estão sendo reunidos e, nos próximos meses, cerca de 20 vinícolas do Vale dos Vinhedos também serão envolvidas no programa", adianta o diretor-superintendente do Sebrae/RS, Deomedes Talini. Na segunda fase, de capacitação e mercado, os empresários da região serão parceiros na formatação do plano de trabalho. Na área de tecnologia, de 11 a 15 de abril, será promovido um treinamento de gestão de segurança dos alimentos em vinícolas, com a utilização da ferramenta Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC), desenvolvida pelo Sebrae/RS e Senai/RS. "Os conceitos de segurança abordados nesta ferramenta são fundamentais, principalmente para as exportações, já que esta é uma exigência para que sejam aceitos no mercado", destaca a diretora de Operações do Sebrae/RS, Susana Kakuta.
Além do Vale dos Vinhedos, o programa deverá beneficiar, no segundo semestre de 2005, as cidades de Nova Pádua, Flores da Cunha e o distrito de Pinto Bandeira, onde já estão sendo feitas articulações com entidades locais.
Soja atingida pela seca vira silagem
Milho prejudicado pela seca não pode ser guardado, diz Emater
As plantas de soja prejudicadas pela estiagem podem ser utilizadas para produção de silagem e feno, transformando-se em uma boa alternativa para alimentação do gado, principalmente o leiteiro, que também sofre com falta de alimentos provocada pela escassez de chuvas.
A soja é uma planta com alto valor protéico, por isso indicada para alimentação dos animais. "Devem ser utilizadas plantas ainda verdes, mas que estão sem grãos ou vão produzir uma quantidade insuficiente para cobrir os custos da colheita", orienta o assistente técnico regional da Emater de Passo Fundo, Nildo Formigheri.
O técnico ensina que o produtor deve cortar a planta inteira com ensiladeira e picar em tamanho médio de um centímetro. O material deve ser ensilado e compactado. "A compactação é uma etapa importante, pois todo o ar deve ser retirado. Nessa etapa, deve ser adicionado inoculante e, opcionalmente, melaço para favorecer a fermentação", diz.
A quantidade de melaço a ser utilizado é de cinco a oito litros para cada tonelada de silagem. Após 45 dias, pode ser destinado para alimentar os animais. O procedimento inicial para produção do feno é o mesmo, mas a massa verde deve ser deixada na lavoura por três dias para perder a umidade, virando a cada 24 horas. Após, deve-se enfardar e armazenar.
Milho - O mesmo procedimento não deve ocorrer com o milho atingido pela seca, pois a silagem de qualidade só pode ser feita com a planta verde. "A dificuldade é na hora de compactar, pois entra oxigênio e estraga a silagem", explica Formigheri. O gado pode ser solto na lavoura e se alimentar de toda a planta. Essas orientações são para manter o peso dos animais. "A perda de peso influi no sistema reprodutivo. Sem peso, não ocorre cio e haverá a diminuição no nascimento de terneiros", observa.
A estiagem interrompeu o rebrote das pastagens nativas e cultivadas, reduzindo paulatinamente a oferta de alimento para os animais. A qualidade da forragem também foi prejudicada. O resultado é queda na produção leiteira e redução do peso dos bovinos de corte.
Engº. Agrº. José Zugno
Receitas de geléia de uva
Venâncio Horbach
Luzerna - SC
Completando as informações gerais sobre "geléia" da edição da semana passada, publicamos a seguir duas receitas de geléia de uva.
Uma receita de Lúcia C. Santos, em seu livro Frutas de Doce e Doces de Frutas, Ed. Briguiet, Rio de Janeiro, já esgotado, é a seguinte: Uma garrafa de caldo de uva, meia xícara d’água, um pacote de pectina em pó, três xícaras de açúcar cristal. Misture o caldo de uva e a água numa panela, leve ao fogo para ferver, acrescentando a pectina e mexendo até dissolver. Ajuntar o açúcar, deixar ferver até formar bolhas, durante meio minuto. Tirar do fogo, deixar descansar um minuto, coar a espuma e derramar em vidros já escaldados (vidros resistentes ao calor, tipo Pirex).
Outra é com esses ingredientes: 1/2 litro de suco (mosto) de uva; 250 gramas de açúcar cristal, 250 centímetros cúbicos (um quarto de litro) de pectina caseira.
"Mistura-se o suco de uva, o açúcar e a pectina caseira numa panela larga de alumínio. Ferve-se em fogo forte, retirando-se sempre a espuma até atingir o "ponto" de geléia. Para conservar deverá ser colocada ainda quente em vidro de conserva resistente ao calor tipo pirex" (Prof. Dr. Vicente Canechio Filho, do Instituto Agronômico de Campinas - SP). Segundo ele, "a boa geléia de uva é a que apresenta uma coloração atraente, livre de sedimentos e macia. Quando cortada apresenta superfície lisa e não agarra na colher ou faca".
Pectina - Obtenção da pectina com laranjas: Ingredientes: Uma parte de "pele branca", três partes de água e suco de limão (3 colheres de sopa dão para um quilo de mistura). As laranjas devem ser descascadas leve e superficialmente para tirar a parte amarga, deixando somente a pele branca. Esta deve ser moída com ajuda da máquina de moer carne, junta-se a água e o suco de limão. Ferve-se durante 20 a 30 minutos. Coa-se em flanela sem espremer. Uma colher desta solução de pectina em igual quantidade de álcool, após misturar bem, deverá formar uma sólida massa gelatinosa (pectina caseira) pronta para uso ou conservada.
Grãos verdes em cachos de isabel
Pergunto à Vida Agrícola porque na uva isabel, quando amadurece, em muitos cachos surgem grãos maduros e outros permanecem completamente verdes, geralmente menores. É por causa da variedade, da falta de tratamento ou de algum problema no terreno?
Luciano Dal Prá
Agente do CR, Paim Filho - RS
Para responder ao prezado agente, valho-me de informações do engenheiro agrônomo Antônio Conte, coordenador técnico em vitivinicultura da Emater Regional da Serra. Segundo Conte, a principal causa da presença de grãos verdes em cachos de uva isabel é a falta de boro, um elemento de solo que serve de alimento à videira.
O conselho do agrônomo é para que o produtor faça uma análise completa de solo, procure a assistência técnica local e aplique o micronutriente, conforme as recomendações.
Outra causa pode estar no excesso de carga da planta. Nesse caso, fazer a poda verde e retirada de parte dos cachos. Por último, o agricultor precisa fazer um acompanhamento das condições climáticas, pois se chover muito e com neblina no período de floração, ocorrerá problema de polinização e mal-formação de grãos. As bagas ficam pequenas e sem semente.
Outra causa é o míldio, chamada de mufa pelos viticultores, que causa desfolhamento precoce. Por causa disso, os grãos permanecem verdes e pequenos.
Aplicação: O boro deve ser aplicado via foliar, antes da floração e depois com o grão tamanho chumbinho. É bom lembrar que o viticultor não terá resposta da aplicação do produto no primeiro ano. Irá perceber a diferença no segundo ano.
Criança também pode ter gastrite
Além da bactéria causadora da doença, estresse infantil dá origem ao problema
"Minha barriga está queimando". Se esta é uma reclamação freqüente da criança, melhor dar atenção, pois ela pode estar com gastrite. Estudos atestam que atualmente a doença deixou de ser problema exclusivo dos adultos. Muitas crianças estão infectadas pela Helicobacter pylori, bactéria que inflama o estômago e provoca a gastrite. Porém, essa não é a única causa da doença. O estresse infantil também pode ser culpado pelo problema.
Segundo os especialistas, no ranking das doenças que mais provocam dores no abdômen, a gastrite só perde para a verminose. Não existem dados sobre a incidência da doença, mas uma pesquisa realizada na Universidade Federal de Pernambuco, pela pediatra Gisélia Pontes, com crianças de dois a dez anos, constatou que 32% delas têm a bactéria causadora da gastrite no estômago. Porém, nem todas adoecem, pois exitem vários tipos de H. Pylori e apenas alguns causam gastrite.
A doença também pode aparecer mesmo sem a presença da bactéria. Nesses casos, a culpa recai sobre o uso abusivo de antiinflamatórios, na alimentação inadequada, na predisposição genética e no estresse.
De acordo com os médicos, não há dúvida de que a rotina agitada das crianças de hoje faz aumentar o número de casos de gastrite. Natação, judô, balé, inglês, futebol, tarefas escolares etc. Com tantos compromissos, e muita cobrança dos pais, como encontrar tempo para brincar? A recomendação dos especialistas é liberá-las de algumas responsabilidades e abrir espaço para que expressem livremente o que sentem, o que realmente gostariam de fazer. A origem do problema também pode estar relacionada ao nascimento de um irmão ou à separação dos pais. Conforme os psicólogos, as emoções acabam se refletindo no estômago, um órgão-alvo. A criança precisa aprender a contornar crises.
Quando a gastrite é causada pela presença do microorganismo a criança precisa ser tratada com antibiótico e antiácido. Aliás, os antiácidos fazem parte do tratamento mesmo quando a doença não é provocada pela bactéria. Ocorre que o estômago arde toda vez que o ácido clorídrico, liberado com a chegada da comida, atinge o estômago. Para evitar a queimação, é necessário tomar esses remédios, que inibem a liberação do ácido.
Uma dieta adequada também é fundamental para o estômago se regenerar. É preciso cortar tudo o que agride o órgão. Nessa lista estão o leite, frutas cítricas e coisas que as crianças adoram, como chocolate, refrigerante, frituras e guloseimas cheias de corantes e aditivos. Ficar muito tempo de estômago vazio também é péssimo, portanto é necessário estabelecer horários para as refeições.
Bactéria pode resistir aos remédios
Para diagnosticar a gastrite, o melhor caminho é fazer uma endoscopia. Esse exame permite visualizar a inflamação, mas somente a biópsia detecta a presença ou não do microorganismo causador da gastrite.
Entre os microorganismos, a H. pylori é um dos poucos que conseguem sobreviver em um meio tão ácido quanto o estômago. Para sobreviver, ela se instala abaixo da camada de muco e vai liberando uma enzima capaz de mudar a acidez das áreas próximas.
Há casos em que os sintomas da gastrite desaparecem logo no início do tratamento, mesmo assim, é bom verificar se o problema foi realmente solucionado - há exames para isso. Nos pacientes em que a culpada pela inflamação foi a bactéria, ela pode continuar no estômago, preparando-se para um novo ataque.
Estudos concluíram que 15% dos infectados por H. pylori acabam tendo úlcera e 1% desenvolve câncer gástrico com o passar dos anos. A bactéria é muito resistente e, segundo os especialistas, pode ser necessário revezar os antibióticos para realmente destruí-la.
Campanha alerta contra tuberculose
O Ministério da Saúde retomou a campanha "Tuberculose tem remédio", como parte das atividades do dia mundial de luta contra a doença, em 24 de março. O Brasil está entre os 22 países que concentram 80% dos casos no mundo. A cada ano, 85 mil brasileiros contraem a doença e 6 mil morrem.
Segundo o ministro da Saúde, Humberto Costa, estão previstos investimentos de R$ 119 milhões no combate à doença até 2007. Os objetivos da campanha são aumentar a detecção de casos, elevar o percentual de cura e reduzir o abandono do tratamento. Atualmente, o índice de cura dos casos tratados é de 71%. A meta é aumentar para pelo menos 85%.
Quem apresenta tosse há mais de três semanas ininterruptas, o que pode indicar tuberculose, deve procurar um médico. A tuberculose é uma doença grave, transmitida pelo paciente ao falar, espirrar ou tossir, por meio das gotas de secreção respiratória que se propagam pelo ar. O tratamento dura seis meses e não pode ser abandonado.
Peixe melhora estado de ânimo
Cada vez mais, pesquisas científicas apontam novos benefícios do consumo de peixe para o organismo humano. Sabe-se que os pescados têm inúmeras vitaminas, são fonte de cálcio, fósforo, cobre e ferro e ricos em ômega 3, gordura insaturada que previne o colesterol.
A novidade é que o consumo de peixe exerce influência sobre o humor das pessoas. O ômega 3 também interfere na produção de serotonina, um neurotransmissor que tem ligação direta com o estado de ânimo das pessoas. Segundo os pesquisadores, quem ingere peixe com freqüência sente-se melhor, pois a serotonina é resposável pela sensação de prazer e bem-estar.
Um estudo realizado com jovens delinqüentes na Inglaterra constatou uma redução significativa nos níveis de agressividade do grupo alimentado à base de peixe. Porém, os benefícios do consumo de peixe dependem da qualidade do pescado. Isso significa que a maneira como o peixe é tratado interfere em suas características nutricionais. A qualidade do peixe depende de sua alimentação e do ambiente externo, como clima, infra-estrutura da criação e até de fatores sociais relacionados ao produtor.
Segundo o zootecnista João Sampaio, da Emater, no Rio Grande do Sul o consumo de peixe é de quatro quilos per capita por ano. No Nordeste do país, chega a sete quilos por pessoa em um ano.
Tudo pela paz
Maria Clara Lucchetti Bingemer
Quando muitos praticam a violência, o cristão é chamado a penitenciar-se construindo a paz, estendendo a mão, dando a outra face
A Quaresma é tempo propício para a penitência, uma vez que esta nos abre e nos dispõe à conversão que pede este tempo litúrgico. Em momentos como os que estamos vivendo, com o terror da violência abatendo-se não somente sobre o mundo senão também sobre nossa cidade, toma ainda mais sentido o exercício da penitência.
No entanto, em nossos tempos modernos e mesmo pós-modernos, somos levados a nos questionar sobre o sentido de mortificar o corpo, o desejo e o sentimento. Na impotência em que nos encontramos diante de horríveis, sangrentos e diários conflitos, nos perguntamos em que consiste a penitência e se pode realmente ajudar a que a violência cesse e a paz se faça.
"Fazer penitência", ou seja, mortificar corpo e espírito, só será algo autêntico se se traduzir em gestos e atos concretos. Esta dimensão objetiva e visível deve acompanhar o movimento interno e subjetivo, invisível, que generosamente se faz pela própria conversão e salvação da humanidade. A prática da penitência nos lembra que a vida cristã não se dá na tranqüilidade e no repouso. Seguir Jesus Cristo significa aventurar-se por uma estrada onde está de atalaia não a paz, mas a espada (Mt 10,34-36). O discípulo deve saber que a palavra de Jesus é um fogo e que caminhar no seu encalço provoca conflitos e divisões. Há na espiritualidade cristã algo de dramático. O que é pedido supera as forças humanas. E, no entanto, o ser humano se vê inexplicavelmente capacitado pelo mesmo Deus que o chama a responder a esse chamado. A exigência é precedida pelo dom e pela graça, não tirando nada, porém, da gravidade do seu radicalismo. O que está em jogo quando se fala de ser cristão é a vida ou a morte, a salvação ou a perdição. E dessa alternativa radical nenhuma categoria de cristão está excluída.
Mas essa vocação e essa espiritualidade, como tudo que diz respeito à vida cristã, não podem ser vividas solitariamente. O cristão é necessariamente um solidário. Por um lado, experimenta que o mal por ele produzido com o pecado é difusivo e deslancha um processo de espiral que vai atingir a outros além dele. Por outro, sente também e não menos que os outros são não apenas companheiros de jornada, como também sua condição mesma de possibilidade de viver o ideal proposto pelo Evangelho.
Dogma de fé hoje um tanto esquecido, a comunhão dos santos é a possibilidade mesma de que ainda possa haver santidade no mundo. Assim como só se peca porque se é precedido no mal, assim também a santidade é como um útero que recebe sempre mais e mais filhos, nutrindo-os da seiva vital que faz a própria vida da Igreja de Cristo. E, para isso, a prática da penitência é elemento constitutivo.
Onde um falha, o outro persiste; onde um desanima, o outro permanece na entrega; onde muitos desistem, um só é fiel e carrega em sua cansada mas vitoriosa fidelidade a fadiga dos irmãos que, por sua vez, o carregarão mais à frente, com sua oração, seu sacrifício, seu amor.
Quando muitos praticam a violência, o cristão é, portanto, chamado a penitenciar-se construindo a paz, fazendo gestos explícitos de não violência ativa, estendendo a mão, dando a outra face e arriscando a vida para mostrar que Deus é Pai e não quer que haja discórdia e matança entre seus filhos.
A santidade exige a comunhão. E, em se tratando da comunidade eclesial, a santidade do clérigo supõe a do leigo; a santidade do bispo exige a entrega humilde e anônima da mãe de família; a santidade do profissional jogado nas fronteiras da tecnologia de ponta é devedora a não sei que obscura carmelita perdida no fundo de algum mosteiro; a santidade do religioso necessita da militância apostólica daqueles que, desde sua condição leiga, escolheram a política ou a luta sindical como lugar de expressão de vivência plena do Evangelho. E ainda: o pecado de alguns poderosos tresloucados de ambição, que sacrificam vidas inocentes em nome de ambíguos objetivos, requer a penitência dos mansos que, preferindo morrer a matar, são proclamados bem aventurados e possuirão a terra.
Fazer penitência pela paz no mundo, no Brasil, no Rio de Janeiro e nas capitais brasileiras é, portanto, um dos grandes chamados a nós dirigidos nesta Quaresma.
Frei Betto
A Páscoa indica que, malgrado tanta miséria e desesperança, em Cristo temos a certeza da vitória da justiça sobre a injustiça e da vida sobre a morte
A Páscoa é a principal festa das igrejas cristãs: celebra a ressurreição de Jesus. Em sua origem, é a grande festa judaica que comemora a libertação dos hebreus da escravidão no Egito, em 1250 a.C., sob o reinado do faraó Ramsés 2º.
Curioso é que, ao contrário das religiões persas e mesopotâmicas, babilônias e gregas, o judaísmo e o cristianismo não celebram mitos, e sim fatos históricos.
É histórico que Moisés conduziu o processo que levou os hebreus a se livrarem do jugo em que viviam. E, malgrado as obras de Feuerbach e Renan e, posteriormente, o rasteiro ateísmo stalinista, hoje nenhum historiador de respeito nega a existência histórica de Jesus, atestada por historiadores não cristãos que lhe foram contemporâneos como Flávio Josefo e Tácito.
Aliás, há mais documentos científicos sobre a existência de Jesus que sobre a de Sócrates, que só conhecemos via Platão. O que ultrapassa a historiografia é a crença em sua ressurreição, que pertence à esfera da história.
Os evangelhos registram a presença de Jesus em Jerusalém por ocasião das festas pascais. Foi numa delas, a do ano 30, que ele, preso por blasfêmia e subversão, recebeu a pena capital e morreu crucificado. Tinha 36 ou 37 anos de idade, pois hoje sabemos que o monge Dionísio, o pequeno, se equivocou, no século 4º, ao calcular o início de nossa era.
A visão do tempo como processo histórico marca profundamente a nossa cultura. A Bíblia herdou-a dos persas e, assim, quebrou a circularidade grega. Três grandes pilares de nossos atuais paradigmas o demonstram: Jesus, Marx e Freud, todos os três judeus.
Para Jesus, a nossa felicidade (salvação) decide-se por nossa capacidade de amar no terreno da história. O reino de Deus não é algo "lá em cima", mas sim lá na frente, no futuro. Em que a história atinge a sua plenitude - num mundo livre de opressão - e também o seu limite, pela irrupção da presença divina entre nós.
Marx analisa o capitalismo a partir das formações sociais que o precedem e vislumbra, após a sua superação, um futuro de partilha e harmonia. Freud, nas mesmas águas da historicidade, vai buscar no inconsciente, marcado por nossas experiências primevas, a explicação para o nosso atual perfil psicológico, tendo em vista o resgate da saúde mental.
Ora, um dos efeitos mais nefastos do neoliberalismo está condensado no famoso vaticínio de Fukuyama: "A história acabou". É claro que o nipo-americano, funcionário do Departamento de Estado, sabe muito bem que as empresas transnacionais não pensam em deter seu ganancioso processo de acumulação do capital e, portanto, sua história de cobiça e espoliação. O que pretende sugerir é que nós, pobres mortais, devemos, como diria Dante hoje, abandonar à porta do mercado toda esperança.
Na lata de lixo da história, que recolhe os escombros do Muro de Berlim, devemos jogar também nossos ideais, utopias e sonhos de um mundo diferente e, conformados, sujeitar-nos ao império da livre concorrência e da globalização, o novo nome do antigo colonialismo, pois faz do planeta uma colônia sob a hegemonia de meia dúzia de nações ricas acolitadas pelo FMI e pelo Banco Mundial.
A Páscoa cristã sinaliza que, malgrado tanta miséria e desesperança, em Cristo temos a certeza da vitória da justiça sobre a injustiça e da vida sobre a morte.
Aceitar que "a história acabou" é cair no engodo da eternização do presente: a malhação que nos promete eterna juventude; o apego aos bens como se fôssemos imortais; a acumulação como se levássemos terras e tesouros para o além-túmulo; as drogas como sucedâneo diabólico de uma geração que não aprendeu a sonhar com Jesus, Gandhi, Luther King, Guevara e tantos outros heróis, santos e rebeldes.
É isto que a Igreja celebra na Páscoa: Criste vive, e sua vitória sobre os poderes deste mundo é a garantia de que os sonhos brotados do coração e da fé são semente de "um novo céu e uma nova terra", como prenuncia o Apocalipse. E, como diz a canção, um sonho que muitos sonham se faz realidade.
Lula só confirma as medidas anunciadas
Ao visitar o Sul, Lula demonstra solidariedade e oficializa R$ 1,2 bilhão
A passagem do presidente Lula por Coronel Freitas, em Santa Catarina, e Erexim, no Rio Grande do Sul, se limitou a visita de solidariedade. O presidente repetiu, na quarta, 16, as medidas de ajuda aos atingidos pela estiagem anunciadas cinco dias antes: seguro agrícola e da ampliação de prazos para pagar financiamentos para máquinas e investimentos.
"Estou numa região onde pensava que não tinha seca", disse o presidente Lula, acompanhado dos ministros do Desenvolvimento Agrário (MDA), Miguel Rossetto, e da Integração Nacional, Ciro Gomes. Os governos federal e estadual também não avançaram nas negociações para criação de um fundo paritário que pretende beneficiar 100 mil famílias não atendidas pelo Pronaf.
Por enquanto, as ações e-mergenciais do governo federal envolvem aproximadamente R$ 1,2 bilhão, entre recursos destinados ao seguro agrícola e a antecipação de créditos do Pronaf para a safra de inverno.
O governador Germano Rigotto lembrou, durante o ato, que já adotou 11 medidas que também protelam a quitação de dívidas com o programa troca-troca e representam R$ 20 milhões. Já o governador de Santa Catarina, Luiz Henrique, anunciou a transferência de R$ 10 milhões do Fundo Social para o Fundo de Desenvolvimento Rural. "O dinheiro será usado pelos agricultores atingidos na construção de sistemas que permitam a coleta e armazenamento da água da chuva", adiantou o governador.
Os protestos realizados pela Fetag/RS demonstram a insatisfação dos agricultores. A entidade entregou na segunda, 21, depois de sete mobilizações em todo o Estado, documento aos governos federal e estadual pedindo a prorrogação das dívidas e o não pagamento dos financiamentos "pela absoluta falta de condições".
O Ministério da Agricultura estima perdas de R$ 7 bilhões com a agricultura no Sul do país. A estiagem chegou também ao Mato Grosso do Sul. São 20 municípios que decretaram estado de emergência devido a perdas na safra. No RS já são 456 municípios na mesma situação; em SC, 146 cidades, e no Paraná, 51.
Conselhos indicarão famílias beneficiadas
Os Conselhos Municipais de Desenvolvimento Rural serão os responsáveis pela definição dos critérios para liberação do auxílio do fundo emergencial, formado por representantes dos governos federal e estadual. A decisão partiu do Comitê de Gerenciamento da Estiagem. A prioridade para o atendimento são as famílias que não estão amparadas pelos programas do MDA e que estejam com a sobrevivência comprometida.
A expectativa do ministro Miguel Rossetto é que sejam beneficiadas 100 mil famílias, a metade do que é reivindicado pelas lideranças rurais ligadas a entidades como a Fetag/RS, Fetraf-Sul e Via Campesina.
A criação do Comitê de Gerenciamento da Estiagem ocorreu na segunda-feira 14, durante reunião entre o ministro Miguel Rossetto e o governador Germano Rigotto. Participam do grupo de trabalho os ministérios do Desenvolvimento Agrário, Integração Nacional e da Agricultura, além da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Secretaria Estadual de Agricultura, Emater/RS, Gabinete da Reforma Agrária e Cooperativismo e a Secretaria Estadual de Obras Públicas.
TCMN atende as reivindicações de atingidos pela estiagem
O Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou a prorrogação dos financiamentos de investimento com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Bndes), daqueles produtores rurais que tiveram a produção afetada pela seca. A medida já havia sido anunciada pelo ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues.
De acordo com o ministério da Agricultura, os produtores de regiões atingidas pela seca, em grau de gravidade reconhecido como situação de calamidade ou de emergência por parte do governo federal, poderão prorrogar as parcelas vencidas ou vincendas em 2005 em até um ano após o vencimento da última prestação.
Para os produtores de outras regiões que tiveram dificuldade de comercialização em virtude de preços ou comprovada perda decorrente de estiagem, a prorrogação será de até três anos. Todas as prorrogações serão negociadas caso a caso com os bancos, mediante manifestação dos produtores.
O CMN aprovou a concessão de prazo adicional para o pagamento das parcelas de financiamento de custeio de trigo, da safra 2004/2005, vencidas a partir de dezembro de 2004 até março de 2005, no total de R$ 278,5 milhões. O pagamento poderá ser feito em três parcelas iguais e sucessivas, sendo a primeira em junho deste ano. A medida se aplica tanto para a agricultura comercial quanto para a familiar.
As prorrogações da securitização, Pesa, Recoop e Banco da Terra não foram ainda contemplados pelo Conselho.
Inmet prevê mais 10 anos de secas para a região Sul do país
O Sul do país foi atingido por estiagens severas dos anos 1940 a 1970. Nos quase 20 anos seguintes, até 1998, a quantidade de chuva na região foi, em geral, dentro da normalidade. A partir de 1999, o clima mudou novamente, reduzindo o volume de precipitações e gerando secas em 2001, 2002, 2003, 2004 e, a mais intensa delas, em 2005. É com base nesses dados, e em outros mais aprofundados por uma pesquisa, que o meteorologista Expedito Rebello projeta: "A tendência é de que nos próximos 10 anos a quantidade de chuvas no Sul do Brasil seja inferior à média histórica. É o que chamamos de oscilação decadal".
Chefe da Divisão de Meteorologia Aplicada do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), órgão do Ministério da Agricultura, Rebello fez outra comparação: "Há duas ou três décadas, o Rio Grande do Sul tinha perdas em uma a cada quatro safras devido ao clima. Agora perde em cinco safras seguidas".
Modelos - Em entrevista ao Correio Riograndense, o meteorologista projetou ainda que a quantidade de chuva no extremo Sul continuará abaixo da média histórica por pelo menos mais três meses - embora, segundo ele, os modelos indicam chuvas abaixo do normal até setembro. Esse quadro foi estabelecido a partir da última reunião mensal entre especialistas do Inmet e do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), realizada na quinta 17. "Mas esse prognóstico de longo prazo pode sofrer alterações", alerta.
Rebello ressalta que o Rio Grande do Sul sempre teve secas. A diferença é que elas se tornaram mais freqüentes. Ele conclui ainda que esta é não só a maior estiagem dos últimos 62 anos - está se constituindo na "maior seca dos últimos 100 anos".
Além de ter pouca chuva, o outono deste ano deverá ser mais frio que o de 2004. "Sem chuvas há mais perda de irradiação, o que torna as noites mais frias", explica.
ÁGUA FINITA
O brasileiro sabe que usa mal a água e que o país enfrentará problemas. Entretanto, age como se ela fosse um bem infinito: segue poluindo e desperdiçando
A poluição e o consumo das águas não eram motivos de preocupação para a sociedade brasileira. Afinal, o brasileiro crescia ouvindo dizer que o seu país possuía os maiores rios do mundo. A água jorrava em abundância na maioria das cidades. Apenas na região Nordeste a seca afligia os habitantes e originava a migração das populações locais para os grandes centros. O quadro mudou e, hoje, a escassez é uma realidade que chegou até a região Sul.
A estiagem que assola o RS, que pode ser a maior em um século (leia pág. 9), não mostrou apenas leitos de rios e lagos secos, lavouras queimadas pelo sol e agricultores insatisfeitos. Escancarou a necessidade de planejar e de conscientizar a sociedade sobre preservação do principal bem público: a água.
A contaminação das águas no Brasil aumentou cinco vezes nos últimos dez anos e o problema pode ser constatado em 20 mil áreas diferentes do país. Estes dados integram o relatório "O estado real das águas do Brasil", da Defensoria da Água, Cáritas e da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
O documento revela que a contaminação avança muito rápido num espaço de tempo considerado curto. Se a poluição das águas quintuplicou em 10 anos, a tendência é que a situação piore ainda mais. "Se a contaminação continuar no ritmo em que está, nos próximos dez anos a situação será realmente muito crítica", observa a coordenadora do relatório, Araceli Ferreira.
A poluição de águas nos países ricos é resultado da maneira como a sociedade consumista está organizada para produzir e desfrutar de sua riqueza, progresso material e bem-estar. Já nos países pobres, a poluição é resultado da pobreza e da ausência de educação de seus habitantes, que, assim, não têm base para exigir os seus direitos de cidadãos. A omissão na reivindicação de seus direitos leva à impunidade poluidores e governantes.
Dejetos - O lançamento de dejetos humanos nos rios, lagos e mares é a forma mais comum de poluição da água, mas não a mais grave. O problema são os resíduos industriais e agrícolas. "Não se trata de discutir quem polui mais. Todos os segmentos usam a água para seus fins. O que precisa mudar é a atitude em relação ao consumo", enfatiza ao Correio Riograndense o biólogo, doutor em ecologia e professor da Unisinos, Uwe Horst Schulz.
Para o doutor em engenharia de recursos hídricos e saneamento ambiental Marco Antonio Hansen, também professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, a sociedade precisa repensar o uso da água e estudar formas de melhorar a sua utilização no futuro.
A preservação e manutenção da água começam pela consciência de cada um que deve evitar o desperdício e dar destino adequado ao lixo. A destinação dos resíduos a partir da separação em orgânico e reciclável é fator determinante na manutenção dos recursos hídricos que são deteriorados quando recebem toneladas de lixo periodicamente.
Além disso, as pessoas devem cobrar das autoridades ações e campanhas não somente de preservação, mas principalmente a execução de obras que garantam o saneamento básico, ou seja, o tratamento do esgoto cloacal que polui mananciais e bacias hidrográficas. "A multiplicação de ações individuais, embora modestas, acabam gerando efeito global", conclui Hansen.
19 milhões de agricultores bebem água sem qualidade
Atualmente, 1,5 bilhão de pessoas no planeta não têm acesso à água potável e cerca de 2,4 bilhões vivem em áreas sem qualquer tipo de tratamento sanitário, conforme números divulgados no Fórum Social Mundial 2005. O mais grave é que, a cada dia, 30 mil morrem em função de doenças relacionadas à falta de qualidade da água. "Vivemos num mundo que está pedindo socorro", destaca Tânia Pacheco, da Federação Brasileira das Organizações Não-Governamentais.
Esgoto - Em 20 anos, a situação vai se agravar ainda mais. Estima-se que haverá três bilhões de pessoas vivendo na miséria absoluta. No Brasil, a situação também é preocupante. Conforme o Ministério das Cidades, cerca de 45 milhões de brasileiros não têm água de qualidade para beber em casa (19 milhões no interior) e 83 milhões (mais da metade da população) ainda não conquistaram acesso à rede de esgoto. Para zerar o déficit de água e esgoto no país, calcula-se que será necessário investir algo em torno de R$ 178 bilhões nos próximos 20 anos.
Vale lembrar que menos de 2% das reservas de água doce do planeta estão disponíveis para o consumo humano e cerca de 80 países enfrentam problemas de abastecimento. Para os especialistas, a água deverá ser o principal motivo dos conflitos bélicos deste século. Só nos últimos 30 anos, já ocorreram 52 disputas transnacionais relacionadas ao recurso natural.
Abundância garante título ao Brasil
Vista do espaço, a Terra parece o planeta água, pois o líquido cobre 75% da superfície terrestre, formando os oceanos, rios, lagos etc. No entanto, somente uma pequenina parte dessa água está à disposição da vida na Terra.
Apesar de parecer um número muito grande, o planeta, que suporta seis bilhões de seres humanos, corre o risco de não mais dispor de água limpa, o que em última análise significa que a grande máquina viva pode parar.
Se a Terra parece o planeta água, o Brasil poderia ser considerado sua capital, já que é dotado de uma extensa rede de rios e privilegiado por um clima excepcional, que assegura chuvas abundantes e regulares em quase todo seu território.
O Brasil dispõe de 15% de toda a água doce existente no mundo, ou seja, dos 113 trilhões de m3 disponíveis para a vida terrestre, 17 trilhões foram reservados aos brasileiros. No processo de reciclagem, quase a totalidade dessa água é recolhida por nove grandes bacias hidrográficas - áreas geográficas de interesse público e privado, pois as águas passam por cidades, propriedades agrícolas e indústrias. O país compartilha 74 das 270 bacias hidrográficas situadas em regiões fronteiriças.
Homem está alterando ciclo natural da chuva
A água é um recurso natural de importância fundamental para o homem e os demais seres vivos. E, também, a água não se esgota simplesmente porque ao mesmo tempo em que é retirada é também reposta no ambiente. As etapas do ciclo da água começam quando os raios do sol aquecem as águas dos rios, lagos, represas, oceanos e mares.
Esse vapor, juntamente com aquele produzido pela transpiração dos seres vivos, se acumula na atmosfera, formando as nuvens. Sob determinadas condições, essas partículas de vapor se condensam formando gotas de água que caem na superfície da terra sob a forma de chuva. "No entanto, apesar de se renovar continuamente, a água não é inesgotável", afirma o biólogo da Unisinos Uwe Horst Schulz. As modificações feitas pelo homem na natureza estão alterando o ciclo da água. Numa floresta quente e úmida, como a Amazônica, por exemplo, a transpiração das plantas repõe o vapor d’água na atmosfera numa quantidade que corresponde à metade das chuvas na região. Muitas vezes, as florestas são mais eficientes nessa reposição do que, por exemplo, um campo agrícola ou um lago.
É por isso que a derrubada da vegetação visando à construção de cidades, hidrelétricas, áreas de plantio, deve ser precedida de cuidadoso planejamento, que torne a destruição ambiental menor possível. Se isso não for feito, a quantidade de chuva e a época em que cai na região se alteram, originando estiagem e seca temporária dos rios.
Técnicas erradas secam e poluem as nascentes
Outra atividade humana que prejudica intensivamente o ciclo da água são certas técnicas agrícolas que deixam o solo desprotegido, permitindo que ele seja carregado com facilidade pela águas da chuva.
O problema fica mais grave se isto acontece no alto dos morros, locais onde a inclinação do terreno é grande, bem como nas margens de rios, lagos etc.
Sem ter como fixar-se, terra, capim e outros materiais são carregados pelas águas da chuva para o fundo dos rios, lagos e represas. Com o tempo, essas fontes naturais de água ficam poluídas e se tornam assoreadas, isto é, cada vez mais rasas, o que prejudica sua capacidade natural de armazenamento de águas.
Coberta por vegetação, a terra impede que a água da chuva se escoe em grandes correntes superficiais. Com isso, a água pode se infiltrar lentamente na terra, sem provocar grandes enchentes e sem arrastar para longe as faixas mais superficiais do solo, que são justamente as mais férteis. Além disso, infiltrando-se na terra, a água pode chegar até as camadas mais profundas e impermeáveis, onde forma os lençóis subterrâneos.
Ações simples evitam desperdício doméstico
Mais de 70% da superfície terrestre é coberta por águas. Do total de água do planeta, 97% formam os oceanos, 3% são de água doce (lagos, pântanos, águas subterrâneas, rios, atmosfera e umidade do solo). Desses 3%, apenas um terço está acessível, o equivalente a 113 trilhões de metros cúbicos. Mas a humanidade está correndo o perigo de não dispor de água limpa: para cada 1.000 litros de água utilizados no mundo, outros 10 mil são poluídos.
Não há vida sem água. Por isso, é bom lembrar que o desperdício é outra grande ameaça. A conscientização começa em casa. Ações simples, como lavar a louça e escovar os dentes de torneira fechada, geram economia de 20 litros de água por minuto. No chuveiro, a pessoa poupa 12 litros por minuto. A mangueira para lavar carros, calçadas e molhar o jardim deve ser aposentada.
No Dia Mundial da Água, comemorado em 22 de março, a Organização das Nações Unidas (ONU) lembrou a humanidade que está cada vez mais difícil conseguir água para todos, principalmente nos países em desenvolvimento, onde 50% das doenças e mortes ocorrem por falta de água ou pela sua contaminação.
A ressurreição é fundamento para a fé
Páscoa significa renascer, acolher o grande dom da vida
O termo "Páscoa" tem sua origem na palavra latina "paschalis", que por sua vez deriva do hebraico "pesach". Em sua antiga origem semítica significava saltar. No Antigo Testamento ganhou o sentido de "passagem" ou "travessia", para recordar a fuga do povo hebreu do Egito para a terra prometida. A Páscoa cristã deu um novo sentido a essa passagem. É a passagem de Jesus pela paixão e morte até a vitoriosa ressurreição, festejada no domingo da Páscoa.
A realidade da ressurreição fecha com vida em abundância uma semana de sofrimento, dor e morte. A Páscoa é precedida de morte que, emblematicamente, a tradição cristã denomina de paixão, um ato de amor, de entrega. "Jesus na cruz e no túmulo simboliza o silêncio, a volta ao mais íntimo de si mesmo, o abraçar a solidão sem se sentir solitário. Ressuscitar, renascer na ousadia de assumir valores altruístas e empenhar-se para que a justiça seja o fundamento da paz", salienta frei Betto.
Como o grão - Depois de uma semana de reflexões sobre a dor, o sofrimento e a morte, os cristãos chegam ao domingo da Páscoa vivendo a incrível experiência das mulheres e dos apóstolos que encontram o túmulo vazio, que confundem Jesus com um jardineiro. O ressuscitado ainda traz as marcas dos pregos nos pés e nas mãos. Quem sabe, para não deixar que a alegria da sua presença apague a lembrança do seu sacrifício, para lembrar que a paixão se repete cada vez que se exclui alguém do banquete da vida, cada vez que se faz sofrer, se fere, se mata, se pratica a injustiça.
A Páscoa é passagem. A vida é feita de muitas passagens. De fato, uma Páscoa feliz significa renascer, acolher o dom da vida. A vitória sobre a morte, que festejamos na Páscoa, é certeza de que não há desavença ou desgraça que não venha unida a alguma alegria consoladora ou libertadora. A Páscoa representa para a humanidade um convite à vitória definitiva sobre as forças do mal. A Páscoa quer fazer o cristão compreender que se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, ficará só, mas se morrer produzirá muitos frutos.
Também no cristão muitos grãos devem morrer, para que possam surgir os frutos dessa passagem vitoriosa que a Páscoa sempre quer fazer brotar em nossas vidas. "O mistério da redenção, que engloba a morte e a ressurreição, dá um sentido novo à vida humana e proporciona uma visão nova e sublime do sofrimento e da morte. A violência perde seu aspecto trágico e a morte não tem mais a última palavra sobre a vida", salienta dom Dadeus Grings, arcebispo de Porto Alegre.
Alegria - A Páscoa também tem o sentido da superação da tristeza e da dor para uma vida de serena alegria. A alegria é o sinal de uma existência verdadeiramente cristã. O pior sinal de desordem pessoal ou de uma comunidade, cristã ou humana, é a tristeza e o medo. Jesus mesmo nos questiona: "Por que tendes medo assim? Ainda não tendes fé?" (Mc 4,40).
Falar da alegria não significa ignorar a dor, o sofrimento e a morte. Significa descobrir o sentido da cruz proveniente da fecundidade do mistério pascal. Há um vínculo entre o amor e a cruz, a alegria, a esperança, a oração e o perdão. A partir da cruz entendemos a lição do perdão. Através dela compreendemos o sofrimento e encontramos forças para suportar o mal e irradiar em torno de nós paz e amor. "O mistério da redenção nos ensina que a essência da vida cristã é o amor. Então entendemos que católico realmente praticante é aquele que ama a Deus e ao próximo", afirma dom Dadeus.
Páscoa cristã transforma ritos judaicos
A Páscoa cristã deriva da Páscoa judaica. A última ceia de Jesus, na Quinta-feira Santa, foi celebrada, segundo o Novo Testamento, no quadro de uma refeição pascal, mas os rituais receberam novo significado. As referências aos acontecimentos ligados à libertação dos hebreus do jugo do faraó egípcio foram substituídas pela do que ocorreria nos dias seguintes em Jerusalém - a morte e a ressurreição de Jesus.
Na Páscoa da nova aliança (em contraposição à antiga, dos hebreus), o cordeiro pascal, que era imolado em sacrifício nos rituais judaicos e sua carne consumida em família durante a refeição pascal, cede seu lugar ao próprio Cristo, visto como o novo Cordeiro e a nova Páscoa. Também os pães ázimos (sem levedo) e o vinho adquirem outro significado sacramental. Sua consumação, na Eucaristia, representa a participação da Páscoa da nova aliança pelo corpo e pelo sangue do próprio Cristo, que se dá como alimento.
Padre Zezinho
Nunca seremos iluminadores se não nos deixarmos iluminar
Aquele homem simples, que nem sequer sabia falar, tinha uma luz naquela hora e naquele lugar e você não tinha. Seu carro enguiçou e, não fosse por ele, você teria que dormir na estrada perigosa. Porém ele veio todo humilde, falando errado, mas agindo certo, com sua luz salvadora.
Levou você a quem podia consertar seu carro e devolver você ao caminho. Não fez nenhum discurso; só iluminou sua estrada. Você era o doutor e ele o iletrado e inculto. Mas quem ficou sem luz foi você, não ele. Quem ficou nas trevas foi você, não ele. Quem precisou de luz foi você, não ele.
A luz dele salvou você. Da próxima vez que achar que só você é um iluminado, lembre-se daquele homem simples. Ele também, na hora certa e do jeito certo, iluminou você. A nosso modo, todos temos as nossas trevas, e ao modo deles, os outros têm as suas luzes. Por isso, dialogue e aprenda sempre. Você nunca sabe quando vai precisar da luz dos outros. Quem acha que já tem em casa todas as luzes de que precisa, não entendeu a vida. Nunca seremos iluminadores se não nos deixarmos iluminar.
Caxias do Sul e Farroupilha promovem festa de Corpus Christi em Caravaggio
Tradicional procissão será realizada dia 26 de maio diante do santuário
A festa de Nossa Senhora de Caravaggio, padroeira da diocese de Caxias do Sul, celebrada no dia 26 de maio, neste ano coincide com outra data religiosa importante para a Igreja católica – a festa de Corpus Christi. O distrito de Caravaggio, em Farroupilha, onde está o santuário dedicado a Nossa Senhora, é, nesse dia, ponto de atração de milhares de romeiros da região, de todo o Estado e até de outras partes do país.
Como o dia reúne duas datas importantes no calendário religioso da região, pela primeira vez as paróquias de Caxias do Sul e de Farroupilha deixam de realizar a tradicional procissão de Corpus Christi pelas ruas das cidades para concentrá-la no santuário de Caravaggio.
"A procissão será realizada às 14 horas e, como geralmente esse dia reúne milhares de romeiros diante do santuário, ao invés de os fiéis saírem em caminhada, o ostensório com o Santíssimo passará entre a multidão", informa o reitor do santuário, padre Volmir Comparin. A cerimônia deverá ser presidida pelo bispo diocesano, dom Paulo Moretto. À noite, nas paróquias das duas cidades, serão realizadas celebrações normais, mas sem a procissão.
O reitor destaca que, tradicionalmente, nas paróquias de Caxias e Farroupilha a celebração de Corpus Christi é realizada às 15 horas (em Caxias, procissões saem de diversos pontos da cidade para se encontrarem diante da catedral, onde é realizada solene missa e bênção com o Santíssimo), mas para facilitar o retorno dos milhares de fiéis a cerimônia no santuário foi antecipada em uma hora.
Por ser feriado nacional, está prevista a presença de um grande número de romeiros, especialmente se o tempo for bom. Padre Volmir salienta que a festa de Caravaggio se estenderá até o domingo, 29 de maio, favorecendo as visitas ao santuário. No ano passado, mesmo com chuva, em torno de 150 mil fiéis foram o santuário no dia da padroeira e, ao longo de 2004, cerca de 1,150 milhão de pessoas foram a Caravag-gio para reverenciar Nossa Senhora.
Festa proclama presença real de Cristo
A festa de Corpus Christi é celebrada na quinta-feira que segue o domingo da Santíssima Trindade. A primeira procissão foi realizada em 1246 na cidade de Liége, Bélgica, sob a inspiração da beata Juliana de Mont Cornillon, com a intenção de proclamar a presença real de Cristo na Eucaristia.
Em 1264, o Papa Urbano IV universalizou a procissão e instituiu a festa de Corpus Christi. A solene procissão tornou-se, desde então, uma manifestação pública da fé da Igreja na presença real de Cristo na Eucaristia. Em muitas cidades é costume confeccionar tapetes pelas ruas para a passagem do Santíssimo.
Aldo Colombo
Por trás de um comportamento complicado podem existir boas intenções ou experiências frustrantes
Ao ler este título, você pode ter lembrado uma série de nomes. É possível que o seu nome tenha sido lembrado por outra pessoa. Na realidade todos conhecemos pessoas que têm um fenomenal poder para provocar aborrecimentos onde passam. Estão de mal com o mundo, dizemos. Ou então: estão sempre chupando limões. Não apenas são infelizes, mas envenenam qualquer ambiente. O mundo tem seis bilhões de pessoas e logo esta convive com você.
Na realidade, ninguém é perfeito. Igualmente, ninguém consegue agradar a todos. O intolerável está nas melhores famílias, nas empresas, nas comunidades, em toda a parte. Em geral não tem papas na língua, mas é bem-intencionado e acha-se no direito de expressar suas opiniões. Não tem limites e não tem consciência que seu comportamento prejudica outras pessoas. Quase sempre está convencido que os outros precisam mudar.
Saber lidar com pessoas assim é importante para a realização pessoal e para o bom êxito de qualquer iniciativa ou comunidade. No dia-a-dia, as alternativas práticas são muitas, nem todas trazem resultados. As opções básicas são quatro:
Não fazer nada. Deixar as coisas como estão. Nesse caso, nada vai mudar e pode até piorar. Um dia desses vai acontecer uma explosão. Ou você terá uma úlcera.
Desistir. É a saída indicada para os insuportáveis crônicos, quando não houver mais nada a ser feito. Mas você tem certeza de que já tentou todas as alternativas?
Mudar de opinião. Tente ver a pessoa a quem não se suporta com outros olhos. Aproxime-se dela, tente entender o que está atrás de seu comportamento. Há sempre possibilidade de uma chave de entendimento ou de uma abertura. O homem do campo costuma dizer que todo o animal tem o lado certo de montar. O coice é significativo que o lado certo ainda não foi encontrado.
Mudar de atitude. Isso significa priorizar as qualidades da pessoa e assim os seus defeitos parecerão menores. Ao mudar de atitude frente às pessoas difíceis, elas podem passar a agir de forma diferente com você.
Em qualquer situação, ouça e tente compreender seu interlocutor. Respeite-o e demonstre que você se interessa por ele. Faça isso, nem que seja por humanidade, afinal esta pessoa sofre muito. Por trás de um comportamento complicado podem existir boas intenções ou experiências frustrantes. É possível que a pessoa nada tenha contra você, é apenas seu modo de tratar a todos. Mesmo assim você tem obrigação de revelar à pessoa como ela é vista e sentida. Talvez imagine que esteja agradando.
Por vezes, depois de anos, você perdeu todas as esperanças e tem certeza de que nada, nem coisa alguma, o fará mudar. Mas existe ainda uma grande alternativa: mude o seu comportamento e atitudes. Isso está a seu dispor. De qualquer maneira não deve reagir. Isso significa responder a uma agressão com outra agressão. Procure agir e não reagir.
CF quer cristãos trabalhando pela paz
Campanha de 2005 prossegue com ações ao longo de todo o ano
A Igreja Católica no Brasil, em conjunto com as Igrejas-membros do Conic (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil), está promovendo nesta Quaresma mais uma Campanha da Fraternidade ecumênica, motivada pelo tema "Solidariedade e Paz". A primeira foi realizada no ano 2000. O término da Quaresma, no dia 27 de março, não significa o encerramento da CF-2005.
Pelo contrário, as Igrejas cristãs deverão continuar, ao longo do ano, promovendo a reflexão e desenvolvendo ações em favor da paz. Uma das preocupações da campanha é a luta contra a violência armada e o aumento contínuo dos homicídios no país. Conforme o texto-base, em 2002 houve 40 mil mortes causadas por armas de fogo (no Vietnã, morreram 54 mil soldados norte-americanos em seis anos de guerra) e o Brasil é campeão mundial nesse tipo de morte.
Mas o objetivo maior da CF-2005 é motivar os brasileiros a construir uma cultura de solidariedade que leve a um mundo de paz - paz dentro de cada pessoa, na família e na comunidade. As Igrejas cristãs do Brasil têm uma longa caminhada nesse sentido educativo, potencializada pela união de forças, experiências e recursos entre elas e com entidades da sociedade civil. Um dos objetivos dessa prática educativa é a não violência ativa que tem em Mahatma Gandhi seu idealizador. "A humanidade somente acabará com a violência por meio da não-violência", salientava o pacifista indiano.
Não é suficiente desejar a paz. É preciso trabalhar por ela. E ela pode ser ensinada e aprendida. Entre as ações propostas pela CF-2005 destacam-se a criação de grupos ecumênicos de vivência cristã; a constituição nas comunidades locais do Fórum pela Paz; apoio e participação na campanha pela devolução de armas de fogo; apoio ao Estatuto do Desarmamento, que prevê um referendo em outubro de 2005, visando a proibição da comercialização de armas de fogo e munição.
A CF também incentiva a participação em conselhos para a defesa de direitos e controle social das políticas públicas; atuação em conselhos de direitos da criança e do adolescente; fazer conhecer e exigir o cumprimento do Estatuto do Idoso, entre outras ações.
Dom Aloísio prega na catedral de Caxias
A Igreja em Caxias do Sul está com uma programação intensa durante a Semana Santa. Na quinta-feira, dia 24, reunião do clero com dom Paulo Moretto, em Caravaggio, para recordar a instituição do sacerdócio. À noite, na catedral diocesana, cerimônia do lava-pés e recordação da última ceia do Senhor.
Na catedral, as celebrações prosseguem na Sexta-feira Santa, com realização da via-sacra, às 9 horas; confissão comunitária às 10 e 18 horas; procissão com o Senhor Jesus pelas ruas da cidade às 15 horas e em seguida a mensagem de dom Aloísio Lorscheider, arcebispo emérito de Aparecida, a convite de dom Paulo. No sábado, vigília pascal, bênção do fogo e da água e missa às 20 horas. No domingo de Páscoa, missas festivas às 9, 10h30 e 19 horas.
Anta Gorda - Na paróquia de Anta Gorda (RS), 180 figurantes encenam na sexta-feira, a partir das 18h45, a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, no Morro Girotto, espetáculo que deverá atrair milhares de fiéis do município e da região.
Wilson João
A sociedade atual está doente. Há insegurança e incapacidade de suportar-se. Há o medo de si mesmo
Nem tudo o que tem aparência de música é música. Barulho não é música e música não é barulho. Música é linguagem de comunicação que se faz através da combinação de sons. Sons que nascem dos sentimentos e emoções. A música expressa a situação emocional, psicológica e espiritual da sociedade em seu momento. A sociedade atual está doente. Há muita confusão e medo em seu interior. Há insegurança e incapacidade de suportar-se. É o medo de si mesmo que se reflete em cada ser humano. E a música expressa esse momento de não suportar-se. Busca-se uma fuga. Uma música feito música, música que se torna canal de escutar-se, torna-se muito perigosa. Ela facilita o interiorizar-se. E sentir-se, conhecer-se se torna muito perigoso e doloroso. É mais fácil abafar as emoções doentias com o barulho, que impede de escutar-se e sentir-se como se está.
AS BANDAS DE MÚSICA SÃO CONFUSAS. São especialistas em produzir sons. Os instrumentos perdem a individualidade. Não comunicam e impedem a comunicação. Enquanto uma banda executa sua música é proibido falar. É impossível a comunicação. O que importa é a intensidade do som. É a concorrência entre bandas para ver quem consegue mais volume. São os carros que nas ruas disputam o espaço maior para mostrar seu som. Pela aparência somos uma sociedade de surdos, ou uma indústria de surdos. Já está se tornando obrigatório o exame de audição na admissão ao emprego nas empresas. Parece que esse tema não é poesia. É realidade que machuca muita gente. Escutar uma banda, especialmente uma banda de rock, é encaminhar-se para a surdez e para a insensibilidade do belo e do artístico. A arte não conta. Conta a música consumista que exige que seja assim.
SER ORQUESTRA É SER IDENTIDADE. O universo é orquestra. Cada astro é um instrumento afinadíssimo que executa sua música em harmonia com todos os outros. E o universo é música, tão música, que se torna silêncio. O silêncio é o máximo da música. Provoca escutar-se. Escutar a música que vem de dentro. Escutar uma orquestra, ser um instrumento numa orquestra é ser individualidade. É permitir que cada instrumento execute sua música. Todos são escutados. Não há confusão. Não há disputa de volume. É a harmonia. É o respeito de um pelo outro em sua maneira de ser. Assim é a orquestra social. É permitir que cada ser humano se expresse em sua individualidade, se expresse como um ser único e irrepetível.
CONSTRUINDO UMA ORQUESTRA. Todos nesta tarefa. Tarefa para tornar a sociedade uma orquestra de músicos e executores de música. Cada um na sua tonalidade e especialidade. Fazer da música social um ambiente de comunicação e de arte. Música comunicação e não confusão. Música onde a sociedade possa escutar-se em suas dores e alegrias, anseios e desejos de infinito, pois a música é a expressão do infinito que nasce em cada pessoa.
O italiano que está em meu coração
LIGIA CARRION ALBERTI
Bancária aposentada - Porto Alegre
Ligia Carrion Alberti, natural de Santa Maria, reside em Porto Alegre, é descendente de espanhóis de Carrion de los Condes:
"Eu não sou italiana, nem brasileira, mas brasileira com raízes castelhanas. Não sou italiana de origem, mas de experiência de vida. Sempre gostei de coisas simples: conversas entre amigos, com comes e bebes; encontros, comemorações e festas, especialmente as religiosas, com os familiares, que somos numerosos e muito ligados uns aos outros.
Homens? Passaram tantos pelo meu olhar! Mas não me detive em nenhum. Parecia-me que o homem de minha vida estava para vir. E um dia ele veio! Veio de longe. Veio da Itália, precisamente da Toscana, com importante passagem familiar e empresarial na formosa Sicília, que moldou um pouco seu caráter, porém sem o peculiar toque mafioso. Mas bem cioso. Cioso de mim. Cioso por me ter encontrado. Cioso de eu o ter apaixonado. E apaixonado à primeira vista! Chegou, sim, de longe, o homem certo da minha vida. Simples. Cordato. Amigo. Não se repete. No amor é sempre novo, criativamente amável. Sempre estende as mãos a quem dele precisar. E eu precisei do seu amor.
Mas, me perguntava: como, um italiano em minha vida? E havia tantos em minha cidade, e logo um italiano originário, com pouco tempo de Brasil, falando como gringo, com 10 anos de marinheiro?! Sempre trabalhando! Sempre ocupado e preocupado por novas idéias, novas coisas a fazer?
Será que este italiano sobra tempo para mim e minha família? Fui percebendo que é, de fato, o homem que eu achava que não existiria. Mas Deus o fez para mim, e a mim para ele. E o fez italiano, que deixou a Itália e veio para cá, e fez de mim e do Rio Grande do Sul suas duas novas paixões, que nos confundimos no seu coração e na sua mente.
Posso dizer que não sou italiana, mas tenho um toscano/siciliano/italiano em mim. Curiosa, fui para a história, e me deparei com o Alberti, de nome Antônio, o Antônio já estava em mim mediante o Santo de Pádua, mas faltava o Alberti. Perguntava-me: será que este homem, de ascendência tão extraordinária, vai intercambiar com meu universo cultural?
Os papos fluíram tão espontâneos que, enquanto ele comia, eu o escutava; enquanto eu comia, ele me escutava. Falando, comendo e amando, descobri o homem dos meus sonhos - um italiano siciliano!
Percorrendo os misteriosos caminhos do amor, concluí que Deus também é pregador de peças. Ele sempre nos surpreende com o melhor, com uma proposta de felicidade maior do que aquela que nós idealizamos.
Quando Alberti me falava da sua infância, das agruras da guerra, dos laços familiares que lhe deram mais força de corpo e de espírito, que a comida em sua mesa, cheguei à definitiva e apoteótica conclusão:
Estou diante de um homem que vive de amor e faz tudo com amor, porque sua vida nasceu e foi amparada por um grande amor. Prova de seu amor por mim e pelo Rio Grande do Sul foi renunciar ao seu sonho maior, de voltar à Itália nos anos de 1980-90, e reencontrar-se com tudo e todos os que deixara. Eu não o teria seguido. E ele me venceu, ficando, integrando-se à armada de meus parentes como se fossem seus próprios parentes.
Razão eu tinha de não achar o homem que me parecia ter sonhado, porque Deus o sonhou primeiro para mim, e dele e com ele vivo. E dele e com ele nosso amor será eterno quanto o Deus que nos escolheu, desde toda a eternidade.
Eis o Alberti, italiano e siciliano, que está em mim. Sou brasileira e castelhana; toscana, siciliana e italiana; cidadã do mundo, ao qual alegremente garantimos que a felicidade está no amor."
Cada italiano é um, mas, para Lígia, Antônio Alberti é só um! E Lígia, para Antônio Alberti, só existe uma! (Rovílio Costa)
EL RITORNO DE NANETTO PIPETTA (301)
Par scomissiar el secondo viaio de Nanetto
Silvino Santin
Santa Maria - RS
Introdussion:
Nanetto, chi zelo?
– Son mi, te si ti, semo noantri che, come i nostri antenati semo via pal mondo, par catar el posto da meter do la cucagna.
Dopo 130 ani che i primi taliani i ze vegnesti sapar in colònia tel Rio Grande do Sul, tanti i ga molà la sapa, i se ga messo a far altri laori, i ga cambià la sapa par el coltelo del dotore, par la piera del maestro, par la càtedra del prete, par la toga del avocato, par la diression del càmion, par na dita industriale o comerciale..., in fati, tuti drio far la cucagna a la so maniera.
E Nanetto ze l’ànima de tuti, el sogno de tuti, la speransa de tuti, el insegna a no dassarse toler in giro, ma anca no far na bruta ghigna davanti la vita.
Come tuti i volaria scriver el Nanetto che i ga par rento, desso, ai 130 ani de la imigrassion, ogni sínque stimane, cambiemo l’autore del Ritorno de Nanetto. Scominsiemo con Silvino Santin, ndemo vanti con Luiz Bavaresco, Mário Gardelin, Eduardo Grigolo, Rafael Baldissera... e tuti quei che i vol scriver al manco sinque testi che i li fassa rivar in redassion del giornal. Saluti a tuti i Nanetti del mondo. Con la me benedission e preghiera – Frei Rovílio Costa.
Na note freda de inverno del mese de giùlio, Giulieto el riva a San Giusepe, a casa de Àndolo par saver se Nanetto el volea compagnarlo nel secondo viaio a la Quarta Colònia. I gera tuti intorno el fogon che i magnea gróstoli, i bevea vin o mate dolso. Nanetto lu el rosegava de gusto na bela patata dolsa. La gera dele ùltime metes-te via in cantina in te la sàbia, come se costumea in quel tempo, par mantègnerle fresche. I gera drio far festa par via che la Gelina la fea i ani.
Dopo de vèrsele contae, Giulieto el ghe dimanda a Nanetto se el gera disposto a far un secondo viaio a la Quarta Colònia. No ga ocoresto dirlo due volte. Nanetto squasi el se stofega co la patata, de la prèssia par risponder, el bocon el ghe ze ndà do par roerso. Dopo finir de parar do la patata traversada, Giulieto el ghe dise:
- Ben, lora ràngete su i to afari, pronta la maleta parché là par la metà del mese de setembro, quando el tempo el ze meio, vegno torte, ma due o tre giorni prima passo qua par saver se tuto va ben.
Ma prima de parlar del secondo viaio de Nanetto a la Quarta Colònia, bisogna che tornemo ndrio par saver cosa ga sucedesto suito dopo el so ritorno del primo viaio.
Giulieto e Nanetto i ze ritornai parché la filmadora e la màchina de far ritrati le gavea presentà difeti. Bisognea farle veder de un spessialista. Dopo messi in strada, se ve ricordè, Nanetto no l’era mia pròpio coi sentimenti a posto. El parea medo inseminio.Tuto pensieroso, squasi tristo. Robe che no le se giustava con lu, sempre contento, disposto e ciacolon. Ma anca, cosa volio, dopo de ver vedesto e sentio tante robe diverse, qualcheduna spaventosa, i sarvei de Nanetto i ga da esser ndai in ramengon.
Là par le tante, Giulieto el dise:
- Ben, se fermemo par magnar un bocon, bever na gossa de aqua mineral o na gasosa, e riposar un poco. E par inticar Nanetto, Giulieto el ghe dise:
- Védito come semo rivai ben fin qua, sensa el to penel col buso sora!
- Si, te ghè rason, sensa i me penei, ma nò sensa le me racomandassion al àngelo custode, che ti no te le disi su mai. El Signor el ne ga dato un Àngelo par tender i nostri passi. O te gheto desmentegà anca de questo? E no stà sprosiarte parché fin che semo in strada, no se pol mia cantar come le galine che le canta prima da ver fato el ovo.
E Giulieto el ghe ga risposto:
- Opa, Nanetto, ndove gheto imparà far ste bele prèdiche? Go paura che te la finissi par farte frate.
Sensa altri distùrbii che qualche inticada de na parte e de l’altra, i due compagni i ze rivai a Cassia. Giulieto el volea menarlo a San Giusepe, saria un gran aiuto par la pròsia de Nanetto rivar de autin, e nò a pié con la maleta in schena. Ma Nanetto el ga volesto fermarse a Cassia, el ga dito che’l gavea raquanti afari da meter in òrdine.
Rovílio Costa e Arlindo Battistel
Par via dei pissacan
Claudio Ganassin
Venèzia, Itàlia
Lesendo, nel Correio Riograndense del 2 de marso 2005, el testo del Prof. Antònio Durante – Par Via dei pissacan, me go deciso anca mi de scriver sora i pissacan.
No ghe ze na roba pi véneta che i pissacan, cusì ciamadi parché i fa pissar pròpio come i can. Quando se iera póvari, se passava el inverno magnando farine e robe mal conservade, e lora bisognava ritemprar el corpo con vitamine necessàrie al corpo. El Signor, parché el savea che i prodoti del orto i zera ancora da vegner, el mandava zo par i prai sta erba miracolosa che, racolta dale fémene, finiva ntele tece a rossolar co on poco de panseta, o lessade ntel aqua, che dopo vegnea bevesta, o magnadi crui, consai col aseo. Polenta ben brustolada mai podea mancar co sti radici. Oltre che portar vitamine, ste erbe miracolose le snetea el sangue e el fégato. Al di de ancó ancora, chi ga possibilità, i va catar su sta erbeta via pai campi, tenti, però, come dise Durante, de star distante dai campi rovinadi dai veleni.
Vien anca coltivai sti radici, come i fa là in Bèlgio, e lora ze possìbile comprarli ntele erbarie. Intanto scrivo, la neve ancora coverse i campi, ma soto, mi go bele visto, la natura la laora a la granda, e ghe ze romai fileti dei radiceti che i ga butà fora la testa. Penso mi che al fin de marso, tuto sarà pronto, e i primi pissacan finirà in técia a casa mia. Concordo col Prof. Durante che la stòria ze tuto quel che se ga intorno, e lora lassemo che anca sta ùmile erba e na fetina de polenta brustolada i contìnue far la stòria. El nome sientìfico de sto radìcio ze Taraxacum officinalis, ma in ogni region ga i so nomi: in Toscana i lo ciama: tarassaco, dente di leone, Capo di frate, piscialletto; in Ligùria: piscialeto, dente de can, testa de frate, ti-me-voe-ben; in Piemeonte: sicòria servaja, denc de lion, pissacan, denc ad’can; in Lombardia: dent de can, sicòria, buff; in Véneto: pissacani, zicòria, radìcio de can; in Friuli: pisse-cian; in Emìlia Romagna: lampiun, pessacan, pessalet, suffion; in Campania: cicòria selvàgia; in Sicìlia: dente di liuni, erva di pirnici, tarassacu; in Sardegna: sicòria burda, gicòria burda.
Le onse e la tosa de maridar
Rafael Baldissera
Professor, Curitiba – PR
Te na proprietà ghe gera due onse che le atachea gente, le magnea le piégore, i vedei, le fea misèrie. El fasendero, che’l gavea na fiola tanto bela, el ga ciamà i tosi dea fasenda e el ghe ga dito:
- Chi copa le due onse el pol maridarse coa me tosa.
Tonin, che a tenpi el gavea i ocii sora la tosa, l’è ndà fin là. El fasendero el ghe ga mandà altri due capanghi co lu, parché le onse le gera ben ferose. I ze ndai rento tel mato, i ga armà na baraca ntel posto dove le onse le stea e là i ga passà la note. Tel di drio, Tonin el se leva su bonora e el va rento tel bosco, intanto che i so compagni i resta tea baraca par far el cafè.
Pena ndà rento tel mato, Tonin el se cata davanti na pi bruta de na pintada, che la vien tea so diression sgnaolando e con due bruti ocii relusenti. Lu el scanpa via corendo come un mato e la onsa drio; el va rento tea baraca come na ventania... e la onsa drio. Alora, intanto che’l va fora de quelaltra banda el se volta indrio e el osa ai so compagni:
- Tegné questa, che mi vao tor quelaltra!
Memorial inaugura o Espaço Décio Freitas
O Memorial do Rio Grande do Sul, instituição da Secretaria de Estado da Cultura, inaugurou no dia 9 de março o Espaço Cultural Décio Freitas, em homenagem a um de seus mais ilustres conselheiros. O espaço será destinado a atividades relacionadas à história do Estado e do Brasil. Uma exposição fotográfica sobre o historiador e jornalista Décio Bergamaschi Freitas (1922-2004) contando a vida e a obra do pesquisador gaúcho ficará aberta até 9 de abril no Memorial e depois assumirá caráter itinerante.
Caxias do Sul promove concurso literário
Estão abertas desde o dia 15 de março as inscrições para o 39º concurso Anual Literário de Caxias do Sul. São oferecidas duas modalidades – "obra literária" e "contos, crônicas e poesias". Na modalidade obra literária, podem participar maiores de 16 anos, residentes nos municípios da Encosta Superior do Nordeste do RS. Cada concorrente pode apresentar só uma obra, com no mínimo 50 páginas. O vencedor ganhará troféu e 200 exemplares impressos da obra.
Na modalidade contos, crônicas e poesias, podem se inscrever maiores de 16 anos que residam em Caxias do Sul. Cada candidato deve apresentar três trabalhos do gênero escolhido. Pode participar dos três gêneros e também com uma obra literária. O vencedor ganhará troféu e a publicação dos trabalhos numa antologia com os demais premiados. O concurso foi criado em 1965 pelo prefeito Hermes Webber.
Inscrições até 15 de abril na Biblioteca Pública Municipal (Rua Dr. Montaury, 1333) ou pela Caixa Postal 918 – Cep 95001-970 Caxias do Sul – RS. Informações pelos telefones (54) 221.1118 ou 218.6188.
Amesne busca a integração
Prefeito de Garibaldi preside 45 cidades da região da Serra
Integrar e resolver de forma conjunta os problemas enfrentados pelos prefeitos da Serra gaúcha. Esse é o principal objetivo do novo presidente da Associação dos Municípios da Encosta Superior do Nordeste (Amesne) e prefeito de Garibaldi, Antonio Cettolin. A entidade congrega 45 municípios. "A meta é resolvermos juntos problemas comuns, como a seca e as questões que afetam a cadeia da uva e do vinho", diz ao CR.
Eleito por aclamação na quinta-feira, 17, Cettolin assume a gestão de 2005, em substituição ao ex-prefeito de Flores da Cunha, Heleno Oliboni. Cettolin terá em sua diretoria Vilmar Zanchin (Marau) como 1º vice-presidente e Irani Chies (Carlos Barbosa) como 2º vice-presidente.
Já o prefeito de Bento Gonçalves, Alcindo Gabrieli, foi escolhido 1º secretário; Milton Dal’Ast (Santo Antônio do Palma), 2º secretário; Alcenir Dalmago (Gentil), tesoureiro. O Conselho Fiscal é composto pelos prefeitos José Ivo Sartori (Caxias do Sul), Ivo Sonda (Nova Pádua) e Bolívar Pasqual (Farroupilha).
Famurs preside Consema pela 1ª vez
O representante da Federação das Associações de Municípios do RS (Famurs), Valtemir Goldmeir, foi eleito para a presidência do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema), para o biênio 2005/2006. A posse deverá ocorrer no próximo dia 15 de abril.
A Famurs foi fundada em 1976 e congrega os 496 municípios gaúchos através de 26 associações regionais. Valtemir Goldmeir está vinculado ao Consema desde sua criação, em 1994.