
DESCOBRINDO CAMINHOS
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Edição 4.931 - Ano 97 - Caxias do Sul-RS, 6 de abril de 2005.
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O PASTOR DO MUNDO
João Paulo II desenvolveu um intenso trabalho apostólico e evangelizador e foi um ferrenho defensor da paz mundial
O pontificado de João Paulo II passa para a história como um dos mais importantes da Igreja Católica. Nenhum Papa visitou tantas nações como ele, favorecido por seu admirável conhecimento e domínio de vários idiomas. "Graças à globalização (mídia sem fronteiras e rapidez das viagens aéreas), arrancou o papado de seu histórico confinamento no Vaticano e tornou, efetivamente, o bispo de Roma pastor do mundo", opina frei Betto.
O Papa visitou 129 países e 617 povoados e teve influência, pelo seu empenho, no redesenho do mapa político de algumas nações, como é o caso do Leste Europeu. Ao todo, percorreu, em 104 viagens, 1,3 milhão de quilômetros, suficientes para dar a volta à Terra 31 vezes. Além do seu intenso trabalho apostólico e evangelizador e de seu ferrenho empenho em favor da paz universal, João Paulo II será lembrado como um dos protagonistas na derrubada do Muro de Berlim e do fim do regime comunista, especialmente no Leste da Europa.
Um dos méritos menos conhecidos de João Paulo II, conforme Frei Betto, está em seu apoio intransigente às causas sociais. São inúmeros o seus pronunciamentos, inclusive encíclicas, em favor da reforma agrária, da liberdade sindical e de uma economia centrada nos direitos da maioria.
Coragem - A experiência da guerra e sua ação nos porões da clandestinidade, engajado na resistência dos poloneses contra a invasão das tropas nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, fizeram de João Paulo II um homem de coragem. "Não tenham medo" foi a frase-chave de seu primeiro pronunciamento como Papa.
A frase virou slogan, infundindo coragem e alegria entre os cristãos. Profeta do Terceiro Milênio, João Paulo II aprendeu de São João Maria Vianney, o Santo Cura D’Ars, um gesto original e um símbolo de evangelização: ajoelhar-se e beijar o chão dos países por ele visitados. Com esse gesto, manifestou o profundo respeito às tradições e culturas de cada país e de cada povo. E quando já doente e alquebrado, não pôde mais prostrar-se ao solo, beijou com reverência um pouco de terra local, apresentada por crianças em uma bandeja. O beijo no solo é um gesto que o Sumo Pontífice usa para abençoar o local. O mesmo papa só deve beijar uma vez um país, segundo o rito da Igreja Católica. Mas João Paulo II quebrou a tradição beijando duas vezes o solo brasileiro, a primeira vez em Brasília (1980) e a segunda em Natal (1991).
Do Santo Cura D’Ars aprendeu também uma outra lição: o amor ao confessionário. Às Sextas-Feiras Santas, o dia do máximo amor e do perdão de Deus, punha-se a confessar os fiéis na Basílica de São Pedro. E para valorizar o sentido da confissão e do perdão, no dia 16 de outubro de 1983 canonizou o capuchinho iugoslavo Leopoldo Mandic, apóstolo do confessionário, que dedicou 50 anos de sua vida atendendo diariamente as pessoas em busca de consolo e perdão. E no dia 16 de junho de 2002 canonizou outro capuchinho, Frei Pio de Pietrelcina, o frade dos estigmas, homem do sofrimento, que também passou grande parte de sua vida no confessionário e no paciente atendimento às pessoas em procura de conforto espiritual.
Esportista - João Paulo II não foi apenas um infatigável homem de Deus, pastor de um rebanho de mais de um bilhão de católicos. Foi também um homem de múltiplas facetas - de ator a esportista, de poeta a escritor. Provavelmente, foi o mais esportista de todos os papas. Quando jovem, adorava excursões, natação e futebol - jogava de goleiro no time dos judeus de sua cidade. Em caiaques, enfrentava as perigosas correntezas do rio Swaka, durante as enchentes. Esquiava e escalava montanhas e até que teve forças, tirava alguns dias de férias para caminhar entre as montanhas nevadas do norte da Itália.
Aos 14 anos, atuou como ator e roteirista em peças de teatro em Cracóvia. Adorava poemas e compôs diversos. Também escreveu diversos livros, entre os quais Sinal de contradição, obra que reúne palestras e sermões espirituais feitos durante o retiro pregado em 1976 ao papa Paulo VI e a cardeais e bispos que trabalhavam na Cúria Romana; "Cruzando o limiar da esperança", publicado em 1994 e que se tornou um best-seller - ultrapassou os 13 milhões de exemplares e foi traduzido para 26 idiomas. Para comemorar os 50 anos de sacerdócio, em 1996 escreveu "Dom e mistério, no 50º ano do meu sacerdócio". Em março de 2003 lançou um pequeno livro de reflexões - Tríptico Romano - que em menos de um ano alcançou um milhão de exemplares vendidos e foi publicado em mais de 20 idiomas. No dia 23 de fevereiro de 2005 lança sua quinta obra - o livro "Memória e Identidade", através do qual oferece importantes reflexões sobre temas importantes do século XX, como liberdade, direitos humanos e democracia contemporânea, além de dados sobre o atentado que ele sofreu no dia 13 de maio de 1981.
Bem humorado, grande contador de causos, João Paulo II foi visto como um cultor da imagem de saúde. Comia pouco e à noite ia para a cama quase sempre sem jantar, mas nunca deixava de lado um de seus prazeres, um bom capuccino. Não gostava de bebidas alcoólicas e não tinha preferências alimentares, mas apreciava a cozinha polonesa.
PERSEVERANÇA E FÉ DO 1º PAPA POLONÊS
Karol Wojtyla nasceu em maio de 1920, sofreu os horrores da II Guerra, despertou para o sacerdócio em 1942 e em 1978 foi escolhido o 264º Papa
Karol (Carlos) Jósef Wojtyla, conhecido como João Paulo II desde sua eleição ao papado em 16 de outubro de 1978, nasceu em Wadowice, uma pequena cidade polonesa a 50 quilômetros de Cracóvia, no dia 18 de maio de 1920. Era o terceiro dos três filhos de Karol e Emilia Kaczorowska. Sua mãe faleceu em 1929, seu irmão Edmundo, médico, morreu em 1932 e sua pai, sub-oficial do exército polonês, em 1941. A irmã morreu com poucos dias de vida, em 1914.
O futuro Papa era chamado pelo diminutivo Lolek ou Lolus (Carlinhos). Aos 9 anos fez a primeira comunhão e aos 18 recebeu o Crisma. Concluídos os estudos do ensino médio na escola Marcin Wadowita de Wadowice, Karol matriculou-se em 1938 na faculdade de Letras da Universidade Jagellonica de Cracóvia e numa escola de Arte Dramática. Foi em Cracóvia que Karol Wojtyla enfrentou as conseqüências da Segunda Guerra Mundial.
Quando as forças de ocupação nazistas fecharam a Universidade, em 1939, o jovem Karol foi obrigado a empregar-se inicialmente numa pedreira e depois na usina química Solvay, para ganhar a vida e para evitar a deportação à Alemanha. Através do teatro e por outras articulações, colaborou intensamente na resistência polonesa contra os invasores nazistas. Para despistar a polícia e não ser preso, precisou refugiar-se e deslocar-se diversas vezes de um lugar para outro.
A partir de 1942, começou a sentir o chamado ao sacerdócio, despertado principalmente por um velho magro, de olhos vivos, rosto radiante, amigo dos pobres, alfaiate no quarteirão onde morava. Se a Igreja teve um Papa polonês foi graças a Tjranonski, aquele humilde alfaiate. "Nesse homem resplandecia a beleza de Deus", repetia Karol.
Seguiu os estudos preparatórios ao sacerdócio no seminário clandestino de Cracóvia, dirigido pelo arcebispo Adam Stefan Sapieha. Terminada a guerra, continuou os estudos no seminário maior, agora reaberto, e na Faculdade de Teologia de Jagellonica até sua ordenação sacerdotal em Cracóvia no dia 1° de novembro de 1946.
Seguiu para Roma, onde doutorou-se em Teologia no ano de 1948, com uma tese sobre a fé nas obras de São João da Cruz. Voltou à Polônia e assumiu como vigário de diversas paróquias de Cracóvia e também como capelão dos universitários até 1951, quando retomou os estudos de filosofia e teologia. Formou-se dois anos depois, quando passou a ser professor de Teologia Moral e Ética Social no seminário maior de Cracóvia e na faculdade de Teologia de Lublin.
No dia 4 de julho de 1958 foi nomeado bispo auxiliar de Cracóvia pelo Papa Pio XII, recebendo a ordenação episcopal em 28 de setembro de 1958, na catedral de Wawel (Cracóvia). Aos 13 de janeiro de 1964 foi nomeado arcebispo de Cracóvia por Paulo VI, que o fez cardeal no dia 26 de junho de 1967. Participou ativamente no Concílio Vaticano II (1962-1965), prestando importante contribuição na elaboração da constituição Gaudium et Spes, e tomou parte em todas as assembléias do Sínodo dos Bispos.
Recordes - Com a morte de João Paulo I, o Papa Sorriso, no dia 23 de setembro de 1978, apenas 33 dias depois de assumir o trono de Pedro, o cardeal Karol Wojtyla foi eleito, no dia 16 de outubro de 1978, como o 264° Papa da Igreja Católica, escolhendo o nome de João Paulo II. Tinha 58 anos, era o primeiro Papa polonês da História, o primeiro não italiano desde 1522 e o mais jovem desde 1846.
João Paulo II marcou seu pontificado por seu intenso espírito de oração e grande atividade. Em seus 26 anos, cinco meses e 15 dias de pontificado, realizou 104 viagens apostólicas fora da Itália e esteve em 604 cidades de 129 países. As viagens de seu pontificado duraram mais de 560 dias e ele percorreu 1,3 milhão de quilômetros, o equivalente a 3,23 vezes a distância entre o planeta e a lua.
Também realizou 146 viagens na Itália, sem incluir Roma e, como bispo de Roma, visitou 317 das 333 paróquias romanas. Fez ainda 740 visitas à diocese de Roma e a Castelgandolfo.
Entre seus documentos principais se incluem 14 Encíclicas, 15 Exortações apostólicas, 11 Constituições apostólicas e 45 Cartas Apostólicas e 28 Motu proprio. Também publicou cinco livros, entre os quais "Cruzando o limiar da esperança" (1994) e "Memória e Identidade", em fevereiro de 2005. Em sua viagens proferiu 2.409 discursos, sem contar os pronunciamentos.
João Paulo II presidiu 147 cerimônias de beatificação, nas quais proclamou 1.338 beatos, e 51 canonizações, com um total de 482 santos. Celebrou nove consistórios, durante os quais nomeou 232 cardeais, um dos quais in pectore (secreto). Também presidiu seis assembléias plenárias do Colegiado Cardinalício e 15 sínodos de bispos.
Nenhum outro Papa se encontrou com tantas pessoas como João Paulo II. Em cifras, mais de 17,5 milhões de peregrinos de todo o mundo participaram das mais de 1.160 audiências gerais celebradas às quartas-feiras. Esse número não inclui as 677 audiências especiais, encontros com chefes de Estado e as cerimônias religiosas (mais de oito milhões de peregrinos durante o Grande Jubileu do Ano 2000) e os milhões de fiéis que o Papa encontrou durante as visitas pastorais efetuadas na Itália e no resto do mundo. É necessário também mencionar as numerosas personalidades de governo com as quais se encontrou durante as 38 visitas oficiais e as 738 audiências ou encontros com chefes de Estado e as 246 audiências e encontros com Primeiros Ministros.
Em sua viagem à Bulgária, em 2002, diante de especulações de que poderia renunciar, por causa da idade e dos problemas de saúde, respondeu aos que perguntaram sobre essa possibilidade: "Se Cristo tivesse descido da cruz, eu teria o direito de renunciar...".
Fatos que mais marcaram o pontificado de João Paulo II, o terceiro mais longo da história da Igreja Católica, superado por São Pedro (34 a 37 anos) e Pio IX (31 anos e sete meses)
1978 - 16 de outubro: anúncio da eleição no no-vo Sumo Pontífice. Karol Wojtyla assume o nome de João Paulo II. 22 de outubro: solene início do ministério de supremo pastor da Igreja. 25 de outubro: primeira visita a Castelgandolfo, a residência oficial do Papa fora do Vaticano. 5 de novembro: visita a Assis, para venerar São Francisco, padroeiro da Itália.
1979 - 24 de janeiro: João Paulo II aceita ser o mediador na questão da controvérsia entre a Argentina e o Chile. 25 de janeiro: primeira visita apostólica fora da Itália. O Papa vai ao México, Santo Domingo e Bahamas. 4 de março: publica a primeira encíclica - Redemptor hominis. 2 de junho: visita pastoral à Polônia. 30 de junho: primeiro consistório: criação de 14 cardeais. 29 de setembro: visita a Irlanda e a sede da ONU, nos Estados Unidos. 28 de novembro: visita pastoral à Turquia.
1980 - 4 de abril: Sexta-Feira Santa, pela primeira vez João Paulo II confessa fiéis na Basílica. 2 de maio: visita pastoral ao Zaire, Congo, Quênia, Gana, Alto Volta e Costa do Marfim. 30 de maio: visita à França. 21 de junho: audiência com Jimmy Carter, presidente dos EUA. 30 de junho: 1ª visita pastoral ao Brasil (leia página 8). 15 de novembro: visita à Alemanha.
1981 - 6 de fevereiro: encontro com o rabino de Roma, Elio Toaff. 16 de fevereiro: visita ao Paquistão, Filipinas Guam e Japão. 13 de maio: João Paulo II sofre o atentado perpetrado pelo turco Ali Agca, na Praça de São Pedro. Gravemente ferido, o Papa é internado na Policlínica Gemelli onde fica seis horas em operação. Chegou a receber a unção dos enfermos. 3 de junho: o Papa volta ao Vaticano após 22 dias. 22 de novembro: publica a exortação apostólica Familiaris consortio.
1982 - 12 de fevereiro: 10ª visita pastoral, à Nigéria, Benin, Gabão e Guiné Equatorial. 12 de maio: visita Portugal. No dia seguinte, diante da imagem de Nossa Senhora de Fátima, agradece por ter sobrevivido ao atentado, um ano antes. 28 de maio: visita a Grã-Bretanha. 10 de junho: vai à Argentina. 15 de junho: visita Genebra. 29 de agosto: visita a República de San Marino e Rimini. 15 de setembro: recebe em audiência o líder palestino Yasser Arafat. 10 de outubro: canoniza Maximiliano Kolbe, franciscano morto pelos nazistas no campo de concentração de Auschwitz. 31 de outubro: visita pastoral à Espanha, para o encerramento do 4° centenário da morte de Santa Teresa d’Ávila.
1983 - 2 de fevereiro: realiza o segundo consistório para a criação de 18 cardeais. 18 de março: visita pastoral a Lisboa (Portugal), Costa Rica, Nicarágua, Panamá, El Salvador, Guatemala, Honduras, Belize e Haiti. 25 de março: abertura do Ano Santo da Redenção. 15 de junho: vai à Polônia. 14 de agosto: visita Lourdes (França). 10 de setembro: viagem à Austria. 5 de novembro: publica carta para o 500° ano de nascimento de Martinho Lutero. 27 de dezembro: visita Ali Agca, o turco que atentou contra sua vida.
1984 - 22 de fevereiro: assina documento para a Fundação João Paulo II para o Sahel, no Saara, instituída para a luta contra a seca e a desertificação na região africana. 2 de maio: visita à Coréia, Papua Nova Guiné, Ilhas Salomão e Tailândia. 12 de junho: visita à Suíça. 9 de setembro: viagem apostólica ao Canadá. 10 de outubro: viagem à Espanha, República Dominicana e Porto Rico.
1985 - 26 de janeiro: visita pastoral à Venezuela, Equador, Peru e Trinidad e Tobago. 11 de maio: visita Luxemburgo e Bélgica. 25 de maio: Terceiro Consistório, para criar 28 novos cardeais. 8 de agosto: visita a Togo, Camarões, Costa do Marfim, República Centroafricana, Zaire, Quênia e Marrocos. 8 de setembro: visita a Suíça e Liechtenstein.
1986 - 31 de janeiro: visita pastoral à Índia. 13 de abril: visita do Papa à sinagoga de Roma. 1° de julho: visita à Colômbia e Santa Lúcia. 4 de outubro: visita à França. 27 de outubro: Jornada Mundial de Oração pela Paz, em Assis. 18 de novembro: visita pastoral a Bangladesch, Cingapura, Ilhas Fiji, Nova Zelândia, Austrália e Seychelles.
1987 - 31 de março: visita ao Uruguai, Chile e Argentina para a 2ª Jornada Mundial da Juventude. 30 de abril: visita à Alemanha Federal. 6 de junho: recebe o presidente dos EUA, Ronald Reagan. 8 de junho: visita à Polônia. 10 de setembro: Visita apostólica aos EUA e Fort Simpson (Canadá).
1988 - 7 de maio: visita ao Uruguai, Bolívia, Paraguai e Peru. 23 de junho: visita pastoral à Áustria. 28 de junho: realiza o Quarto Consistório, para a criação de 24 novos cardeais. 15 de agosto: publica a carta apostólica Mulieris dignitatem, sobre a dignidade e a vocação da mulher. 10 de setembro: vai à África em visita ao Zimbabwe, Botswana, Lesotho, Suazilândia e Moçambique. 8 de outubro: visita pastoral às Instituições Européias de Strasburgo.
1989 - 28 de abril: visita a Madagascar, Reunião, Zâmbia e Malawi. 27 de maio: audiência a George Bush, presidente dos EUA. 1° de junho: visita a Noruega, Islândia, Finlândia, Dinamarca e Suécia. 19 de agosto: visita Santiago de Compostela para a 4ª Jornada Mundial da Juventude, e Astúrias. 27 de agosto: escreve carta apostólica por ocasião dos 50 anos do início da Segunda Guerra Mundial. 6 de outubro: visita Seul (Coréia), Indonésia e Ilhas Maurício. 1° de dezembro: visita do presidente da Rússia, Mikhail Gorbachov.
1990 - 25 de janeiro: visita Cabo Verde, Guiné-Bissau, Mali, Burkina Fasso e Chade. 21 de abril: vai à Tchecoslováquia. 6 de maio: visita pastoral ao México e Curaçao. 25 de maio: visita Malta. 1° de setembro: viagem apostólica à Tanzânia, Burundi, Ruanda e Yamousoukro. 24 de novembro: visita ad limina dos bispos vietnamitas. Pela primeira vez participam todos os bispos do Vietnã. 25 de dezembro: na mensagem de Natal Urbi et Orbi apela para a paz no Golfo Pérsico, afirmando que a "guerra é uma aventura sem retorno".
1991 - 5 de fevereiro: recebe o presidente da Polônia Lech Walesa. 10 de maio: 50ª visita apostólica, a Portugal. 1° de junho: volta à Polônia. 28 de junho: Quinto Consistório de João Paulo II para a criação de 22 cardeais e a publicação do cardeal in pectore de 1979, Ignatius Kung Pin-mei. 13 de agosto: visita à Hungria e a Czestochowa (Polônia) para a 5ª Jornada Mundial da Juventude. 12 de outubro: visita pastoral ao Brasil.
1992 - 13 de fevereiro: O Papa cria a Fundação Populorum Progressio, a serviço dos povos indígenas e pobres da América Latina. 19 de fevereiro: visita ao Senegal, Gâmbia e Guiné. 4 de junho: visita a Angola e a São Tomé e Príncipe. 9 de outubro: visita pastoral a Santo Domingo, por ocasião dos 500 anos de evangelização da América Latina e da Quarta Conferência do Episcopado Latino-americano.
1993 - 9 de janeiro: Em Assis, Encontro de Oração pela Paz na Europa e especialmente nos Balcãs. 3 de fevereiro: visita Benin, Uganda e Kartum. 25 de abril: viaja à Albânia. 12 de junho: visita a Espanha. 6 de agosto: publica a encíclica Veritatis splendor, sobre os fundamentos da moral católica, condenando principalmente o homossexualismo, o adultério e o aborto. 9 de agosto: visita pastoral à Jamaica, Merida e Denver, para a 8ª Jornada Mundial da Juventude. 4 de setembro: visita à Lituânia, Letônia e Estônia. 26 de dezembro: abertura do Ano Internacional da Família.
1994 - 2 de fevereiro: escreve a Carta às Famílias. 5 de março: a Santa Sé estabelece relações diplomáticas com a África do Sul. 8 de abril: preside missa na Capela Sistina, por ocasião da inauguração dos restauros dos afrescos de Michelângelo. 29 de abril: fratura o colo do fêmur numa queda acidental. 2 de junho: audiência a Bill Clinton, presidente dos EUA. 15 de junho: Santa Sé estabelece relações diplomáticas com Israel. 10 de setembro: visita pastoral à Croácia. 20 de outubro: publica o livro "Cruzando o limiar da esperança". 10 de novembro: publica a carta apostólica Tertio millennio adveniente, em preparação ao Jubileu do Ano 2000. 29 de novembro: realiza o Sexto Consistório para a criação de 30 novos cardeais.
1995 - 11 de janeiro: visita Manila (Filipinas) para a 10ª Jornada Mundial da Juventude. Missa reúne um público recorde avaliado em 4 milhões de pessoas. 14 de janeiro: através da Rádio Veritas, de Manila, o Papa lê uma mensagem aos católicos da China. 25 de março: publica a encíclica Evangelium vitae, sobre o valor da inviolabilidade da vida humana. Também volta a condenar o aborto, a eutanásia e o uso de preservativos na contracepção e contra a Aids. 20 de maio: visita a República Checa. 3 de junho: visita pastoral à Bélgica. 30 de junho: viagem à Eslováquia. 14 de setembro: visita Camarões, África do Sul e Quênia. Em Yaoundé (Camarões) firma a exortação apostólica Ecclesia in Africa - o primeiro documento de tal importância firmado fora do Vaticano. 4 de outubro: visita a sede da ONU em Nova York, onde profere discurso pelos 50 anos de fundação da organização.
1996 - 5 de fevereiro: visita pastoral à Guatemala, Nicarágua, El Salvador e Venezuela. 25 de março: lança a exortação apostólica Vita consecrata, sobre a vida religiosa e sua missão na Igreja e no mundo. 14 de abril: visita a Tunísia. 17 de maio: visita à Eslovênia. 21 de junho: viagem pastoral à Alemanha. 6 de setembro: visita à Hungria. 19 de setembro: viagem à França. 6 de outubro: é internado para operação de apendicite. 1° de novembro: festeja 50 anos de ordenação sacerdotal, com padres de todo o mundo que também celebram esse jubileu. 19 de novembro: recebe Fidel Castro, presidente de Cuba. 30 de novembro: celebra na Basílica do Vaticano o início do triênio de preparação do Grande Jubileu de 2000 e o anúncio da abertura da Porta Santa no dia 24 de dezembro/1999. 19 de dezembro: audiência a Yasser Arafat.
1997 - 14 de fevereiro: recebe o presidente Fernando Henrique Cardoso. É o primeiro encontro oficial em 171 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Vaticano. 12 de abril: visita pastoral a Sarajevo. 25 de abril: visita à República Checa, na celebração do milênio de martírio de Santo Adalberto. 10 de maio: visita Beirute (Líbano). 16 de junho: envia carta ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e a Yasser Arafat, presidente da Autoridade Palestina, pedindo a paz. 21 de agosto: visita Paris e participa da XII Jornada Mundial da Juventude. 2 de outubro: visita o Rio de Janeiro, por ocasião do II Encontro Mundial das Famílias. 19 de outubro: proclama Santa Teresa do Menino Jesus Doutora da Igreja. É o 33° Doutor da Igreja e a terceira mulher, depois de Teresa d’Ávila e Santa Catarina de Sena.
1998 - 3 de janeiro: visita a Úmbria e as Marcas, depois dos terremotos que abalaram a região e danificaram inclusive a basílica de Assis. 21 de janeiro: realiza visita histórica de cinco dias a Cuba. 21 de fevereiro: realiza o sétimo consistório para a criação de 20 novos cardeais. 15 de março: beatifica o bispo Eugenio Bossilkov, primeiro mártir da perseguição comunista elevado à honra dos altares. 31 de maio: lança a carta apostólica Dies Domini, sobre a santificação do domingo. 18 de junho: recebe em audiência Nelson Mandela, presidente da África do Sul. 19 de junho: visita à Áustria. 2 de outubro: visita à Croácia. 11 de outubro: canoniza Edith Stein, mártir da 2ª Guerra Mundial.
1999 - 22 de janeiro: visita a Cidade do México e St. Louis (EUA). 11 de março: recebe o presidente do Irã, Mohammad Khatami. 2 de maio: beatifica Padre Pio de Pietrelcina. 7 de maio: visita a Romênia. 5 de junho: visita pastoral à Polônia. 19 de setembro: visita pastoral à Eslovênia. 30 de setembro: inaugura a fachada da Basílica de São Pedro, restaurada para o jubileu de 2000. 1° de outubro: publica a Carta aos Anciãos. 5 de novembro: visita Nova Delhi (Índia) e a Geórgia. 24 de dezembro: início do Grande Jubileu do Ano 2000 e abertura da Porta Santa da Basílica de São Pedro. 25 de dezembro: abertura da Porta Santa da Basílica de São João de Latrão.
2000 - 1º de janeiro: abertura da Porta Santa da Basílica de Santa Maria Maior. 18 de janeiro: abertura da Porta Santa da Basílica de São Paulo Fora dos Muros e celebração ecumênica com representantes de outras Igrejas. 24 de fevereiro: peregrinação jubilar ao Monte Sinai. É a 90ª viagem apostólica internacional. 4 de março: visita do presidente da Coréia, Kim Dae-Jung. 12 de março: celebração, na Basílica de São Pedro, do Dia do Perdão do Ano Santo de 2000 e apresentação do documento "Memória e reconciliação: a Igreja e as culpas do passado". 20 de março: peregrinação à Terra Santa, um dos maiores sonhos do Papa. Sua visita aos lugares santos foi aproveitada para o recolhimento e a meditação. 12 de maio: visita apostólica a Fátima, Portugal. 13 de maio: beatificação dos pastorinhos Francisco e Jacinta. 21 de maio: canonização de 27 beatos, entre os quais 25 mártires mexicanos. 5 de junho: audiência ao presidente da Rússia, Vladimir Putin. 15 de junho: João Paulo II almoça com 200 pobres no Vaticano. 18 a 25 de junho: celebra, em Roma, o 43° Congresso Eucarístico Internacional. 15-20 de agosto: celebração da XV Jornada Mundial da Juventude, com mais de dois milhões de jovens reunidos perto de Roma. 3 de setembro: beatificação de cinco servos de Deus, entre os quais Pio IX e João XXIII. 1° de outubro: canonização de 123 beatos, 120 dos quais mártires na China. 14 de outubro: jubileu das famílias. 8 de novembro: recebe o Patriarca Supremo e Catholicos dos armênios, Sua Santidade Karekin II.
2001 - 6 de janeiro: fechamento da Porta Santa da Basílica de São Pedro, conclusão do Grande Jubileu do Ano 2000 e apresentação da carta apostólica Novo millennio ineunte. 21 de fevereiro: Oitavo Consistório para a criação de 44 novos cardeais, entre os quais os brasileiros dom Cláudio Hummes e dom Geraldo Magella Agnelo. 11 de março: beatificação de 233 servos de Deus, mártires da Guerra Civil Espanhola. 4 de março: peregrinação jubilar à Grécia, Síria e Malta, seguindo os passos de São Paulo Apóstolo. 23 de junho: visita pastoral à Ucrânia. 1° de agosto: 1.000ª audiência geral de João Paulo II. 22 de setembro: visita ao Casaquistão e à Armênia. 20 de outubro: primeira beatificação de um casal - Luigi e Maria Corsini Quattrocchi. 18 de novembro: depois dos atentados terroristas de 11 de setembro e durante a guerra no Afeganistão, o Papa convida os católicos a um dia de jejum pela paz e aos representantes das religiões do mundo a uma Jornada de oração pela paz no mundo em Assis (24 de janeiro de 2002). 22 de novembro: promulga a exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in Oceania. 16 de dezembro: 300ª visita pastoral às paróquias da diocese de Roma, que são 334.
2002 - 24 de janeiro: jornada de oração pela paz no mundo em Assis, com lideranças de diferentes religiões. 11 de fevereiro: criação de uma província eclesiástica e elevação à condição de dioceses quatro administrações apostólicas da Rússia. 19 de maio: canonização de Madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus, primeira santa brasileira. 16 de junho: canonização de Padre Pio de Pietrelcina. Julho/agosto: participa da XVI Jornada Mundial da Juventude em Toronto, Canadá; na Guatemala, canoniza Pedro de Betancur, primeiro santo do país, e no México, o índio Juan Diego, vidente de Nossa Senhora de Guadalupe. Agosto: 8ª visita pastoral à Polônia. 16 de outubro: na celebração dos 24 anos de seu pontificado, lança a carta apostólica Rosarium Virginis Mariae, um resgate histórico do terço, cria os Mistérios da Luz (luminosos), destacando a vida pública de Jesus, e decreta o período de 16 de outubro de 2002 a 16 de outubro de 2003, o Ano do Rosário.
2003 - 05 de março: convida o mundo católico a rezar e jejuar pela paz no mundo, diante da iminência da guerra entre Estados Unidos e Iraque. Apesar do empenho do Papa contra a guerra, os norte-americanos atacam o Iraque e em 20 dias destroçam as forças de Sad-dam Hussein. Dia 17 de abril: publica a 14ª Carta Encíclica "Ecclesia de Eucharistia", sobre a importância da Eucaristia na realidade da Igreja. Dia 27 de abril: beatifica, em Roma, Tiago de Alberione, fundador da Família Paulina e apóstolo das comunicações, e o capuchinho frei Marcos de Aviano, além de quatro religiosas, fundadoras de congregações. Dias 3 e 4: visita apostólica a Madri (Espanha), onde canoniza cinco beatos espanhóis. De 4 a 9 de junho vai à Croácia, na 100ª visita apostólica de seu pontificado, e no dia 22 de junho, à Bósnia-Herzegóvina. De 11 a 14 de setembro realiza a 102ª viagem apostólica, desta vez para a Eslováquia, onde beatifica dois mártires do comunismo. Dá visíveis sinais de cansaço e não consegue concluir nenhum de seus pronunciamentos, sendo ajudado por seus assessores. No dia 7 de outubro vai ao santuário Nossa Senhora do Rosário de Pompéia, Itália, para encerrar o Ano do Rosário. No dia 16 de outubro comemora 25 anos de pontificado e beatifica Madre Teresa de Calcutá. No dia 21 realiza o nono consistório de seu pontificado, sagrando 31 novos cardeais, entre os quais o brasileiro dom Eusébio Oscar Scheid, catarinense de Luzerna.
2004 - No dia 16 de maio, canoniza seis beatos, entre eles Gianna Beretta Molla, a santa contra o aborto e em favor da vida, e Luíz Orione. Ao completar 84 anos no dia 18 de maio, lança uma nova autobiografia - "Levantai-vos! Vamos!", obra que concentra seu ministério episcopal e retrata memórias do Papa a paritr de 1958, ano em que foi nomeado bispo de Cracóvia. Dias 5 e 6 de junho realiza a 103ª viagem apostólica, à Suíça. Nos dias 14 e 15 de agosto vai a Lourdes, na França, para celebrar os 150 anos da Proclamação do Dogma da Imaculada Conceição. No dia 5 de setembro visita Loreto, o maior santuário mariano da Itália, e proclama novos beatos. No dia 3 de outubro proclama cinco novos beatos, entre os quais o imperador austro-húngaro Carlos I e a religiosa mística Anna Katharina Emmerich, elevando para 1.338 os beatificados em seus quase 26 anos de pontificado e 482 santos. No dia 17 de outubro abre o Ano da Eucaristia, que se prolongará até outubro de 2005.
2005 - Piora o estado de saúde do Papa e no dia 1º de fevereiro é internado às pressas no Hospital Gemelli por causa de uma laringotraqueíte e crise de laringoespasmos, que lhe dificultavam a respiração. No dia 23 de fevereiro lançou seu quinto livro em 26 anos de pontificado - "Memoria e Identidade". Depois de dez dias hospitalizado, teve alta, mas voltou às pressas ao hospital no dia 24 de fevereiro, com aguda crise respiratória, sendo submetido a uma traqueostomia (incisão na traquéia, para facilitar a respiração). 31 de março: recebe a unção dos enfermos. 1º de abril: sofre parada cardíaca, mas está lúcido; 2 de abril: começa a perder os sentidos - às 21h37 (Roma) o Vaticano comunica a morte de João Paulo II.
João Paulo II foi o maior promotor e mensageiro da paz em mais de 26 anos. Em nome da Igreja, também pediu perdão
No dia 6 de outubro de 1979, às vésperas de completar seu primeiro ano de pontificado, ao encontrar-se com o presidente norte-americano Jimmy Carter, em Washington, o Papa recebeu um inusitado elogio: "Caminhaste entre nós como um campeão de dignidade e decência para todo ser humano, e como peregrino da paz entre as nações". Em resposta, João Paulo II disse que ele quis ser "o mensageiro da paz e da fraternidade, uma testemunha da grandeza da pessoa humana".
Na ocasião, o Papa visitou a sede da ONU e a sede da OEA (Organização dos Estados Americanos), afirmando aos membros do corpo diplomático que "a diplomacia é a arte de construir a paz". De fato, nenhuma personalidade, em todo o planeta, nas últimas décadas do século XX e nos primeiros anos do terceiro milênio, preocupou-se tanto com a questão da paz como João Paulo II.
Foram inúmeras as vezes que João Paulo II dissertou sobre a paz, em milhares de documentos, alocuções e exortações, conclamando os povos e nações à concórdia. Promotor e mensageiro da paz, convidou e acolheu líderes religiosos de todo o mundo para rezar com eles, por ocasião da Jornada Mundial de Oração pela Paz, em 27 de outubro de 1986, em Assis, junto ao túmulo de São Francisco, o maior pregador e cantor da paz universal. O convite seria repetido em janeiro do ano 2000.
Para o Dia Mundial da Paz, celebrado em 1° de janeiro, de alguma forma sempre escolheu temas fortes. Foi assim na celebração de 1° de janeiro de 1997, quando apresentou o sugestivo tema "Oferece o perdão, recebe a paz". No ano seguinte, indicaria outro tema igualmente importante: "Da justiça de cada um, nasce a paz para todos". (ver temas dos últimos anos, no CR)
O intenso apostolado de João Paulo II em favor da paz talvez não decorra apenas porque, como pastor do mundo, ele tenha que zelar pela segurança e harmonia de seu imenso rebanho, mas também porque ele é um homem duramente provado pela guerra. Ele viu seu povo ser massacrado e humilhado. Milhares de homens, mulheres e crianças sendo levados para as câmaras de gás. Wojtyla testemunhou o extermínio da população de Varsóvia, onde, de cada mil habitantes, 800 morreram sob o jugo nazista. Era um homem que escondia as cicatrizes.
O perdão - "Em nome da Igreja, eu peço perdão". Esta é a mensagem-chave de seu discurso em Olomuc, na República Checa, em 1995, quando evoca as guerras entre católicos e protestantes, que fizeram milhares de mártires de ambos os lados "Hoje, eu, Papa da Igreja de Roma, em nome de todos os católicos, peço perdão das injustiças infligidas aos não-católicos, no curso da história atribulada desses povos", disse João Paulo II. Em seu livro Quando o Papa pede perdão, publicado pelo vaticanista Luigi Accattoli, são enumerados 94 pedidos de perdão do Papa João Paulo II antes do início do terceiro milênio.
Os "mea-culpa" do Papa são uma confissão pública, em nome da Igreja, que se reconhece Santa e Pecadora, "pelos erros, infidelidades, incoerências e atrasos" cometidos ao longo da história, pelos quais os filhos da Igreja são responsáveis. Já em 1979, João Paulo II tinha mandado revisar o processo contra Galileu Galilei, concluído em 1992 com um sincero reconhecimento dos erros de que o cientista italiano foi vítima.
No mesmo ano, na África, pede perdão pelo crime do Ocidente no tráfico e escravidão dos negros e na viagem a Santo Domingo (Caribe), pede perdão pelos massacres perpetrados contra os índios, com certa conivência da Igreja. Em outras oportunidades pede perdão pelos erros dos cristãos nas relações com as mulheres, os judeus, os povos indígenas; na prática das cruzadas e da Santa Inquisição; nas guerras de religião e no tratamento dado aos líderes da reforma protestante.
Em dezembro de 1994, a revista Time elegeu João Paulo II "Homem do Ano". Justificou assim a escolha: "Em um ano em que tantas pessoas lamentam a deterioração dos valores morais ou buscam pretextos diante de um mau comportamento, o Papa João Paulo II levou adiante, com determinação, sua visão de uma vida reta e convidou o mundo a fazer o mesmo. Por essa retidão, ele é o Homem do Ano".
Outra revista norte-americana, Newsweek, também escolheu João Paulo II como o Homem do Ano de 1996, reconhecendo que ele "dominou o cenário internacional, viajando mais longe e mais freqüentemente do que qualquer outro chefe de Estado... Ele é o único que propôs uma filosofia coerente dos direitos do homem... com uma visão de esperança para a humanidade".
Há quem afirme que o Papa João Paulo II pode ser reconhecido e proclamado como o "Homem do Século". O Papa que veio de longe, o primeiro eslavo e primeiro polonês da história bimilenar da Igreja foi, de fato, um viajante a serviço de seu vasto rebanho. "Viajarei por onde me chamarem as exigências da fé e dos valores humanos", disse o Papa no dia 25 de janeiro de 1979, depois de beijar o solo da República Dominicana em sua primeira viagem apostólica.
Prometeu que governaria suas ovelhas em meio a elas. E assim o fez. Abandonou a sisudez e segurança do Vaticano e saiu pelo mundo, fazendo por merecer o apelido de "peregrino da fé", "mensageiro da paz", multiplicando a presença do papado em quase todas as nações.
Durante seu pontificado, percorreu todos os continentes e não se furtou a abordar todos os problemas-chaves do mundo contemporâneo, dando novo e extraordinário destaque ao ministério do sucessor de Pedro e uma nova e extraordinária força à pessoa e à autoridade do Papa.
Foi líder inconteste das últimas décadas do século XX e do início do terceiro milênio. Foi um diplomata singular, que soube como poucos, conquistar posição estratégica no convívio das nações, com missão de paz e de liderança no coração da história. Personalidade de ilimitada força moral, "desfez tramas e minou bloqueios do imperialismo comunista, derrubando por terra mitos e muralhas seculares", afirma Aury Azélio Brunetti, no livro "João Paulo II, vinte anos de pastor" (E. Santuário). "Sem este Papa, não se pode compreender o que aconteceu no Leste da Europa no final dos anos 80", disse Mikhail Gorbachov, o ex-presidente russo responsável pela fratura da União Soviética.
João Paulo II entra para a história como um Papa corajoso, homem do diá-logo, afeito a surpresas e desafios; um homem preocupado com a paz, a justiça e o bem-estar da humanidade, não apenas no sentido espiritual, mas também material. Em seus pronunciamentos, atacou com dureza o terrorismo, a violação dos direitos humanos, os conflitos internos entre etnias ou entre nações. Pregou intensamente contra as desigualdades entre países ricos e pobres e foi decisiva sua atuação pela paz na África, na Bósnia, na Irlanda do Norte...
São marcantes suas preocupações com a natureza, os pobres e oprimidos. Para tanto, instituiu fundações para recuperação das regiões desérticas ao longo do deserto do Saara, no norte da África. Acima de tudo, lutou intensamente em defesa de uma Igreja Católica mais forte e mais expressiva. Foi um homem de olhar sereno e de voz firme, que percorreu o mundo para proclamar a palavra de Cristo. Foi o mensageiro da vida e da paz.
João Paulo II foi o primeiro pontífice a visitar sinagoga e mesquita e a reunir líderes de diferentes religiões pela paz
Karol Wojtyla entrará para a história como o Pontífice que mais contribuiu para a reaproximação entre católicos, protestantes, ortodoxos, judeus e, em menor escala, o grande contingente muçulmano. Ainda como bispo, sempre defendeu a tese, vencedora no Concílio Vaticano II (1962-1965), de que a Igreja Católica deveria apoiar a liberdade de pensamento, ação e palavra também para outras confissões religiosas.
Foi o primeiro pontífice a visitar e falar numa sinagoga em Roma, no dia 13 de abril de 1986, a visitar uma mesquita (16 de maio de 2001, na grande mesquita dos Omayyadi, em Damasco, na Síria, onde estão os espólios de São João Batista) e também o primeiro que rezou e pregou em uma igreja protestante (11 de dezembro de 1983), junto a cristãos não católicos. Abriu a porta santa do Jubileu de 2000 com a ajuda de um representante das Igrejas ortodoxa e anglicana.
Em seu pontificado, ele promoveu encontros marcantes no campo do ecumenismo e do diálogo inter-religioso. Entre eles, destaca-se o primeiro Dia Mundial de Oração pela Paz, com representantes das Igrejas Cristãs, comunidades eclesiais e religiões do mundo, no dia 27 de outubro de 1986, em Assis, Itália - outros dois encontros seriam realizados com o mesmo objetivo e no mesmo local, em 1993 e em 2002, para rezarem juntos pela paz.
Muitos julgaram contraditórias suas atitudes dentro da Igreja e fora dela, no diálogo com as outras religiões. "João Paulo II negocia, dialoga, surpreende na ousadia de convocar representantes de outras religiões, de buscar uma aproximação com líderes tão discutidos quanto Saddam Hussein, Kadafi ou Fidel Castro. Internamente, na sua Igreja, busca uma unidade disciplinar e doutrinal muito estreita, que parece limitar a liberdade de bispos e teólogos", afirmou o teólogo brasileiro padre Alberto Antoniazzi, falecido em dezembro passado.
Segundo o teólogo, uma tentativa de explicação dessa estratégia pode ser encontrada no modelo polonês. Desde os anos 50, a Igreja polonesa se defendeu contra as limitações impostas pelo comunismo adotando a linha da negociação com o regime e mantendo a unidade absoluta dos católicos (só o primaz falava em nome da Igreja). Com João Paulo II o esquema praticamente se repetiu: ele dialogou com os não-cristãos, negociou com os adversários, sem deixar de reforçar sua posição quanto possível, mas só ele falou em nome da Igreja. Outro traço polonês: "o Papa fala mais ao povo do que aos governos e a estes fala em nome do povo", disse Antoniazzi.
Portas - Visto como alguém insatisfeito com a política vaticana, entende que o mundo precisa de uma nova evangelização. "Abri as portas a Cristo!" é a palavra de início do seu ministério. Ela marca a fase inicial de seu pontificado, sua projeção missionária para todos os continentes, o uso criativo da mídia, que leva instantaneamente a figura e a voz do Papa ao mundo inteiro e reforça sua presença e influência em todo lugar. "Devemos alargar as nossas vistas para mais longe, para o largo", afirma na encíclica "Dominum et Vivificantem".
Caracteriza um tempo de novo ardor missionário, que supera todos os limites tradicionais. E essa nova evangelização ele a fez em primeira pessoa, através das viagens apostólicas a numerosos países, não só católicos. Chama os judeus de "nossos irmãos mais velhos", fala às multidões muçulmanas, convoca assembléias inter-religiosas. Ao longo de seu pontificado sonha com uma união da Igreja Católica com as Igrejas ortodoxas. Apenas parte do sonho se realiza porque não consegue uma aproximação maior com a Igreja Ortodoxa Russa, a mais representativa de todas, diante da intransigência de seu Patriarca, Alexis II.
O Papa esteve três vezes no país. Em todas, atraiu multidões, deixou sua mensagem pastoral e cobrou ações na área social
Por onde João Paulo II andou, multidões encheram estádios, ruas e praças para ouvi-lo e saudá-lo. Não foi diferente no Brasil, que recebeu o Papa três vezes.
A primeira visita foi entre 30 de junho e 12 de julho de 1980. Ao desembarcar do avião na Base Aérea de Brasília, e beijar o solo brasileiro no dia 30 de junho, o país começou a viver uma das experiências mais marcantes de sua história. Nos 13 dias de permanência no Brasil, visitando vários Estados e capitais, calcula-se que quase cinco milhões de pessoas acorreram às ruas para recepcioná-lo.
O impacto da visita ao maior país católico do mundo provocou mudanças radicais nas cidades por onde o Pontífice passou. A viagem ocorreu menos de dois anos depois da eleição de João Paulo II. Ele estava em seu pleno vigor físico, justificando a denominação "Atleta de Cristo" e, além disso, era sua sétima viagem apostólica. Até então, tinha estado em apenas 13 países.
Na época, o Brasil realizava 16% dos batizados em todo o mundo e um em cada dez bispos era brasileiro ou servia o país. Nos 13 dias em solo brasileiro, visitou um sétimo de todos os católicos passando por Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Aparecida, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife, Fortaleza, Belém e Manaus.
Em Porto Alegre, chegou no dia 4 de julho. A recepção foi a maior já vista na capital gaúcha. João Paulo II tomou chimarrão, encontrou-se com oito mil religiosos e vocacionados no Gigantinho e em seu primeiro pronunciamento mencionou que o Rio Grande do Sul era um Estado "rico em vocações".
Ao apresentar-se no palanque, montado em frente à catedral metropolitana, 60 mil pessoas que o aguardavam na praça da matriz saudaram o Papa com um refrão que surpreendeu o Pontífice: "Ucho, ucho, ucho, o Papa é gaúcho". João Paulo II jamais esqueceu essa espontânea concessão de cidadania e, por ocasião da canonização de Madre Paulina, a primeira santa brasileira, em maio de 2002, na audiência com o presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, esqueceu o Brasil, dizendo que o "Papa era gaúcho". Constrangido, Fernando Henrique salientou que o "Papa era brasileiro".
No dia 5 de julho de 1980, na rótula das avenidas José de Alencar e Érico Veríssimo, onde rezou missa campal, sua homilia foi interrompida 17 vezes por gritos, refrões e cantos.
Na segunda vinda ao Brasil, de 12 a 21 de outubro de 1991, João Paulo II esteve em Natal, São Luís, Brasília, Goiânia, Cuiabá, Campo Grande, Florianópolis, Vitória, Maceió e Salvador. Em Natal, no dia 13, celebrou a missa de encerramento do 12° Congresso Eucarístico Nacional. Cinco dias depois, em Florianópolis, presidiu a beatificação de Madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus, que 11 anos depois canonizaria em Roma.
Em São Luís (MA), abordou a necessidade de reforma agrária, mas condenou a invasão de terras. "A reforma agrária no Brasil não pode falhar", disse o Papa. No Mato Grosso defendeu a ecologia e a necessidade de respeito aos povos indígenas.
A terceira visita do Santo Padre ao país foi mais breve - ocorreu de 2 a 7 de outubro de 1997. João Paulo II esteve no Rio de Janeiro, onde presidiu a Segunda Jornada Mundial da Família e encerrou o Congresso Eucarístico Teológico Internacional sobre a Família. Na missa solene de encerramento, no aterro do Flamengo, acorreram cerca de dois milhões de fiéis. Apesar de visivelmente debilitado pela doença, o Papa espalhou ânimo e alegria.
Milhões de brasileiros foram tomados pela emoção ao ouvir suas palavras. Os cantores Roberto Carlos e Fafá de Belém homenagearam o Papa com seus cantos e Pe. Zezinho entoou, visivelmente emocionado, o "Hino da Família".