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Edição 4.932 - Ano 97 - Caxias do Sul-RS, 13 de abril de 2005.

EDITORIAL

Uma profecia que os séculos não conseguiram desmentir

Os funerais de João Paulo confirmam a credibilidade da Igreja. As crises não ameaçam a barca de Pedro

 

A mais desafiante das profecias foi feita há dois mil anos às margens de um lago que os pescadores chamavam, pretensiosamente, de Mar da Galiléia. Foi feita por um jovem Rabi a um simples pescador: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja e as portas do Inferno nada poderão contra ela" (Mt 16,16). E o Rabi - morto e ressuscitado - deixou aos 11 apóstolos a missão de ir e pregar até os confins do mundo e dos tempos. Nunca existiu desafio igual: os Onze contra o mundo. E entre as dificuldades, as fraquezas e a miopia de seus próprios filhos.

Pouco depois, Pedro deixou a Galiléia e foi para Roma, capital do mundo, onde morreu mártir. Foram dias difíceis para sua Igreja. E um filósofo pagão, Celso, proclamou: "Mais 20 anos e ninguém mais ouvirá falar de Cristo". Algum tempo depois, Roma, a orgulhosa senhora do mundo, acordou cristã. Mas o êxito foi parcial. Vindas do norte, hordas bárbaras incendiaram, saquearam e destruíram a Roma cristã. Desde Belém, onde se encontrava, São Jerônimo lamentou: "É o fim de Roma... não será o fim do Cristianismo?".

Pouco depois, os bárbaros, abraçando o Cristianismo, tornaram-se os novos evangelizadores da Europa. Mas o drama da Igreja não terminara. Primeiro a ameaça dos muçulmanos, depois o Iluminismo, a Revolução Francesa... e Voltaire repetiu a profecia de Celso: mais 20 anos e ninguém falará mais de Cristo. No século XX, Stalin desafiou: quantas Divisões tem o papa? Stalin também passou e da oprimida e escravizada Polônia, Karol Wojtyla foi escolhido como o 264° sucessor de Pedro. Avalista da profecia, durante 26 anos João de Deus percorreu o mundo, como peregrino da paz, do amor e da esperança.

Ele também foi "sinal de contradição" como seu Mestre. Mas a morte revelou ao mundo a grandeza de sua imagem. Foi uma apoteose jamais vista. Tardiamente, o mundo reconheceu que ele tinha razão. Agora, um novo papa será eleito. Sem dúvida, será o homem certo para o momento certo, a continuação da profecia feita a Pedro. As tempestades continuarão agitando a Igreja, mas ela tem garantia de perenidade. A Igreja nasceu na grande crise do Calvário e continuará em crise até o fim do mundo. Formada por homens, ela é dirigida pelo Espírito Santo.

 

CAXIAS DO SUL

Definidas formas de participação popular no orçamento municipal

OC está organizado em três níveis: bairros, regiões e Município

 

O Orçamento Comunitário (OC), expressão usada para a participação popular nas aplicações dos recursos da Prefeitura, muda o nome em relação ao Orçamento Participativo, uma das marcas da administração do PT, e também a dinâmica. Ao anunciar como será esse canal de aferição da vontade popular, o prefeito José Ivo Sartori (PMDB) destacou algumas características do processo, como o estímulo ao fortalecimento das comunidades organizadas e a "garantia da transparência e da democratização do orçamento municipal" e frisou: "O OC não será um instrumento político-partidário, nem da Administração, mas de toda a sociedade".

Os aspectos técnicos do OC foram apresentados pelo assessor da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplam), Izidoro Zorzi. Segundo ele, essa ferramenta de identificação das necessidades para investimentos e ações da administração municipal visa permitir que a comunidade "decida suas prioridades, fiscalize as ações do governo e aplicação de recursos públicos". O OC está organizado em três níveis: local (bairros, vilas, loteamentos e distritos), regional (nove regiões do Plano Físico Urbano e zona rural), e municipal (conjunto do Município).

De acordo com Zorzi, o bairro (ou distrito) é o ponto de partida. Lá será organizado o Conselho Comunitário do Bairro (CCB) ou do Distrito (CCD). Participam dois representantes da associação dos moradores (Amobs), um de cada segmento das demais entidades (clubes de mães, times de futebol, igrejas etc) e um representante dos cidadãos na proporção de 1 por 10 até 50 presentes à assembléia geral - acima de 50, 1 por 20 presentes.

A próxima etapa é o Conselho Comunitário Regional (CCR). Participam dois representantes das Amobs de cada bairro, dois das demais entidades de cada bairro e dois representantes dos cidadãos de cada bairro.

Depois, no Conselho Comunitário Municipal (CCM), participam um representante das Amobs de cada região, um das demais entidades de cada região, um representante dos cidadãos de cada região, um de cada Conselho Setorial do Município, um da UAB, um dos servidores municipais e quatro representantes da Administração Municipal (sendo um por área temática).

O CCB e o CCD encaminham as necessidades para análise técnica e econômica à Coordenadoria de Relações Comunitárias (CRC) e elegem as prioridades das respectivas localidades. O CCR compatibiliza as demandas dos respectivos bairros e distritos e elege as prioridades em caráter regional. O CCM compatibiliza as demandas das regiões e elege as prioridades de caráter municipal.

 

Pompéia inaugura pronto atendimento

 

Com uma nova área de pronto atendimento, o hospital Pompéia de Caxias do Sul deseja oferecer um serviço de referência em saúde para 35 municípios da Serra. A inauguração do prédio ocorreu na quinta-feira 7.

Com uma área total de 480 metros quadrados, o local tem salas de procedimento cirúrgico, consultórios para médicos plantonistas, uma sala de espera com 25 lugares, uma área de observação de pacientes com 15 lugares, uma ala para enfermagem e uma sala de pequenos procedimentos. O novo pronto atendimento do Pompéia separa os serviços de emergência, urgência e observação, adequando-se às normas do Ministério da Saúde.

Os atuais pronto-socorro e ambulatório também estão sendo reformados. A obra deve ser concluída até o final do ano. Após as reformas, as três áreas funcionarão em conjunto. Hoje, são realizados cerca de 5,5 mil atendimentos mensais nesses três setores, 70% pelo Sistema Único de Saúde. A obra foi orçada em R$ 404.592,85.

Desde março de 2002, o hospital está sendo reformado com recursos próprios e provenientes de doações, por meio do projeto Amigos do Pompéia. Dos R$ 404,592 mil gastos, as doações e subvenção municipal corresponderam a R$ 296 mil. A inauguração do novo pronto atendimento contou com a presença do garoto-propaganda voluntário do projeto, o técnico pentacampeão pelo Brasil que dirige a seleção portuguesa de futebol, Luiz Felipe Scolari.

 

REPORTAGEM

Curso de noivos torna casais mais maduros

O que parece mais uma obrigação acaba agradando por seus bons conteúdos e orientações

 

Um dos sonhos de todo casal de namorados que pretende oficializar sua vida a dois é a realização do casamento numa igreja - a noiva, de vestido branco, véu e grinalda; o noivo de terno -, coroado com as bênçãos do celebrante e de Deus. Nos preparativos para esse passo importante, porém, os casais esbarram em um compromisso que, num primeiro momento, é visto como algo chato e enfadonho – o curso de noivos.

Frei Jaime Bettega, pároco da Imaculada Conceição, em Caxias do Sul, e que há 14 anos atua na paróquia, explica que muitos dos jovens casais chegam ao curso com uma visível má vontade. "O curso de noivos é obrigatório. Isso, por si só, cria reações". Mas depois que o curso começa os jovens vão percebendo que as orientações repassadas nas palestras são muito mais importantes do que a maioria imaginava. "Aos poucos vão se soltando, passam a se interessar e a gostar de tudo. A própria metodologia e coordenação ajudam para isso", revela frei Jaime.

Preparação - Essa realidade pôde ser comprovada mais uma vez nos dias 2 e 3 de abril, durante a realização do curso de noivos na paróquia Imaculada Conceição, do qual participaram 84 casais de diversas paróquias da cidade e também do interior. Elvis Luis de Azevedo e a noiva, Carla Bernardi, ambos de Galópolis, confessaram que não estavam muito entusiasmados para fazer o curso, apesar do incentivo dado pelos pais. Achavam que ele seria chato, não valeria a pena e estariam perdendo um final de semana. Surpresos, na conclusão do curso manifestaram sua satisfação. "Aprendemos coisas muitos importantes para a nossa vida", resumiu Carla. Eles casam em setembro.

Os noivos Patrícia Modena e Marcelo Garcia, que vão se casar em novembro, revelaram que já sabiam da importância do curso como preparação para uma vida nova, diferente, a dois. "Tínhamos consciência de que o encontro é feito para facilitar as coisas para nós", contou Patrícia. "O curso respondeu a muitas perguntas e dúvidas que tínhamos", acrescentou Marcelo. Para Patrícia, tudo o que o curso repassou gira em torno de um aspecto – a importância do amor entre o casal. "Não só ser feliz, mas fazer o outro feliz".

Frei Jaime salienta que todas as paróquias da cidade falam a mesma língua: "Todos os casais devem fazer o curso de noivos!". A insistência é baseada no próprio testemunho dos casais que já o fizeram. Eles acabam dando sugestões e defendendo a necessidade do curso: "Não casem ninguém sem o curso de noivos, pois esse encontro abre novos horizontes". Patrícia e Marcelo reforçam esse testemunho. "Com certeza, vale a pena, e o recomendamos a todos os que pretendem casar".

 

Temas valorizam constituição da família

 

Frei Jaime Bettega destaca que os noivos gostam muito da estrutura dinâmica do curso, pois nas palestras há muitos testemunhos de quem já está casado, além da abordagem de temas e conteúdos que interessam diretamente aos casais, sempre abordados por especialistas no assunto.

No curso realizado nos dias 2 e 3 de abril as palestras giraram em torno dos temas "Amor e diálogo no casamento e adaptação à vida a dois", "Administração do lar e paternidade responsável", "Aspectos jurídicos do casamento civil", "Aspectos biológicos do casamento", "Ajuste sexual e harmonia conjugal" e "Sacramento do matrimônio e liturgia do casamento". O curso sempre encerra com missa e entrega de certificados.

O coordenador Generino Comerlato revela que a satisfação é quase unânime. "Muitos não se contentam em responder às alternativas regular, bom ou ótimo do questionário de avaliação e acrescentam por conta fantástico, espetacular".

 

Equipe de apoio dá dinamismo ao curso

 

Frei Jaime Bettega destaca que os motivos que tornam os cursos de noivos bem aceitos e conceituados são a metodologia e a coordenação. Em Caxias do Sul os cursos seguem praticamente o mesmo esquema nas 11 paróquias que os ministram. Neste ano serão realizados 19 cursos, três dos quais na paróquia Imaculada (um em abril, um em agosto e o terceiro em novembro). Em todos, há uma equipe de apoio, formada por casais que se desdobram no atendimento, na acolhida, nas palestras, na organização, na aplicação das avaliações, na preparação dos certificados.

No encontro dos dias 2 e 3 de abril, 14 casais prestaram ajuda. Todos atuam de forma voluntária. Generino e Irani Comerlato e José e Marina Lusa são os casais que atualmente coordenam os cursos de noivos na paróquia Imaculada.

 

AGRONEGÓCIO

Produção de macela ganha incentivo

Emater orienta cultivo da planta que está ameaçada no Estado

 

A macela (Achyrocline satureioides), vegetal silvestre, anual e freqüente na região Sul do país, tem seu cultivo incentivado pela Emater/RS, que lançou a campanha "Plante macela". Popularmente conhecida como marcela ou paina, a planta está às vésperas da extinção. A causa é a colheita desenfreada que ocorre na Semana Santa.

O mais comum no Estado é a colheita da macela nas beiras de estradas e em lavouras onde são aplicados agrotóxicos. "Além do risco de consumir um produto inadequado, devido aos poluentes de carros e caminhões e venenos agrícolas, a planta está sendo arrancada de seu hábitat", alerta a extensionista da Emater Lisiana Ramos.

Plantio - O plantio é feito por sementes, em setembro. Os solos férteis e levemente úmidos são os mais indicados. "Terras secas e arenosas comprometem a produção", orienta a extensionista. A planta prefere climas temperado e subtropical. O agricultor deve obedecer o espaçamento de 30 cm entre as linhas e 25 cm entre as plantas na linha, "sempre em locais protegidos, para evitar a contaminação da planta."

Um hectare rende de 2.000 a 3.000 quilos. "Agricultores que vendem a macela em feiras, como é o caso em Não-Me-Toque, recebem em torno de R$ 1,50 por 200 gr de flores", diz.

A colheita deve ser feita logo cedo de manhã ou à tardinha, no início do outono (março/abril). "Devem ser coletadas apenas as flores bem amarelas, nunca com o sol forte, pois ele compromete o metabolismo da planta", ensina Lisiana.

A armazenagem é outro ponto importante. As flores devem ser guardadas em vidros ou sacos de papel escuros, em lugares secos. A durabilidade é de um ano, no mínimo.

A planta medicinal símbolo do Rio Grande do Sul tem entre seus princípios ativos componentes indicados para o combate de febres e enxaquecas. Os capítulos florais são comercializados, ainda, para uso no tratamento caseiro de problemas digestivos e intestinais, cólicas, gases, azia, má digestão e diarréia, bem como nos casos de irregularidades menstruais.

A macela é utilizada também como expectorante, antiinflamatória, elimina toxinas e clareia o cabelo. Banhos com a flor purificam a pele. Pode ser usada em forma de chás, pomadas ou entrar na composição de outros medicamentos; e no artesanato.

 

Relógio do corpo orienta consumo de chá

 

Um trabalho inovador feito pela área de fitoterapia da Emater/RS está conquistando municípios gaúchos. Trata-se do projeto "Relógio do Corpo Humano". A iniciativa relaciona o funcionamento dos principais órgãos com seus horários de maior atividade e com as plantas medicinais que têm ação farmacológica sobre eles. A pesquisa une conhecimentos da medicina oriental com a ocidental e contribui para que as pessoas conheçam seu corpo e saibam prevenir doenças.

Um deles funciona o ano todo dentro do parque da Expodireto Cotrijal, em Não-Me-Toque, juntamente com o horto de plantas medicinais. Em uma das parcelas do parque pode-se conhecer mais de 150 espécies de plantas medicinais, entre elas a macela; aromáticas, condimentares e tóxicas. Conforme a extensionista Lisiana Ramos, o trabalho orienta as pessoas sobre a correta utilização de chás e ervas que têm indicação específica para cada sistema humano.

O espaço do horto medicinal traz, ainda, dez exemplares de plantas tóxicas para que as pessoas conheçam e saibam os problemas que podem ocorrer com o uso inadequado.

 

Expoclara exibe potencial de gado leiteiro

 

Mostrar a qualidade do plantel é o principal objetivo da V Exposição de Gado Leiteiro, Máquinas e Produtos (Expoclara), que se realiza de 22 a 24 de abril, em Carlos Barbosa. A promoção é da Cooperativa Santa Clara, entidade que congrega 2.523 associados em 63 municípios gaúchos. "Estão sendo aguardados mais de 200 animais das raças jérsei e holandesa", diz o engº agrº Carlos Alberto Araújo.

A exposição inicia dia 22 de abril com abertura oficial e julgamento da raça jérsei; dia 23, julgamento da raça holandesa e entrega de prêmios aos vencedores. No domingo, 24, mateada, apresentação do grupo Os Mateadores e encerramento. "O parque funciona das 9h às 23h; no domingo, das 9 às 18, sempre com entrada franca", informa Araújo ao CR.

O prefeito Irani Chies e os presidentes da Cooperativa Santa Clara, Rogério Bruno Sauthier, e da Expoclara, Vilí Quintino Costa (foto), entregaram convite ao governador do Estado, Germano Rigotto. "A comunidade de Carlos Barbosa está de parabéns, uma exposição como esta mostra a capacidade de desenvolvimento do município", disse o governador.

 

Dia de campo aborda a cobertura de solos

 

A Embrapa e a Emater promovem no período de 13 a 15 de abril, dias de campo sobre cobertura de solo e elaboração de vinhos, em Bento Gonçalves, Monte Belo do Sul e Santa Tereza. O objetivo é mostrar aos agricultores a importância de preservar o solo e como eles podem elaborar um bom vinho caseiro.

Nos eventos, o pesquisador da Embrapa Odoni Oliveira irá abordar cobertura do solo. Já o engenheiro agrônomo da Emater, Gilberto Salvador, irá falar sobre a elaboração de vinhos. Os dias de campo são abertos aos interessados, mas é preciso confirmar presença. Informações (54) 452 2289.

 

Lula mantém poder decisório da CTNBio

 

Com a sanção da Lei de Biossegurança, o presidente Lula mantém o poder da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) no processo de liberação de plantio e comercialização de organismos geneticamente modificados (OGMs), bem como estão liberadas as pesquisas científicas com células-tronco embrionárias.

O texto foi sancionado na quinta-feira, 24, com sete vetos. No caso do processo de liberação de OGMs, dois dos vetos do presidente têm o poder de pelo menos atrasar liberações aprovadas pela CTNBio. Isso porque, na sanção de Lula, os prazos para que o Conselho Nacional de Biossegurança analise pedidos contrários às decisões da CTNBio foram retirados.

O projeto de biossegurança foi elaborado em junho de 2003. Foi aprovado pela Câmara dos Deputados em 2 de março deste ano, acabando com a edição de medidas provisórias.

 

Trabalhador do setor avícola será vacinado

 

Os 500 mil trabalhadores do setor de avicultura devem ser vacinados a partir deste mês. A decisão é da Secretaria de Defesa Agropecuária e do Ministério da Saúde. O objetivo da vacinação é evitar o risco de mutação do vírus da influenza, o que poderia ocorrer no contato dos empregados com as aves.

A influenza aviária, comum em aves migratórias, não existe no Brasil, por isso o governo quer evitar uma eventual mutação do vírus e está recorrendo à vacinação dos empregados.

 

Saem verbas para atingidos pela seca

Auxílio emergencial beneficia 100 mil famílias no Sul

 

Auxílio emergencial de R$ 300,00 aos agricultores prejudicados pela estiagem na região Sul. O anúncio do ministro do Desenvolvimento Agrário (MDA), Miguel Rossetto, foi a melhor notícia dos últimos dias para as cerca de 100 mil famílias atingidas nos três Estados do Sul do país. O ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, também liberou verbas (leia abaixo).

A lei 10.954/2004 estabelece que o auxílio federal pode ser concedido às pessoas com renda de até dois salários mínimos e que tenham sido vítimas de desastres naturais, desde que morem em municípios que tiveram a situação de emergência reconhecida pelo governo federal. "O pagamento dos R$ 300,00 será feito em uma vez, mesmo que a legislação permita a divisão em cinco parcelas", garantiu Rossetto.

O ministro também afirmou que o governo federal continuará dialogando com os Estados sobre a participação financeira deles no fundo de atendimento emergencial às famílias atingidas pela seca.

O ministro Rossetto confirmou, ainda, o rebate de R$ 650,00 nos contratos dos agricultores que tiveram perdas acima de 50% e que não estão cobertos pelo Seguro da Agricultura Familiar. Além disso, já está certa a prorrogação por até dois anos (com pagamento de 50% no primeiro e 50% no segundo) dos contratos de custeio do Pronaf.

Outra medida de apoio aos trabalhadores que tiveram perdas com a estiagem é a ampliação do prazo de vencimento dos contratos do custeio pecuário para 12 meses depois da assinatura. Antes, todos os contratos tinham vencimento no final de novembro.

Seguro - Emenda da senadora Ideli Salvatti (SC) ao texto da Medida Provisória 226, aprovada na quarta-feira, 30, pelo Senado, estendeu o seguro rural aos agricultores que tomaram empréstimos de custeio e não comunicaram a mudança de cultura no momento do plantio. Já os produtores que plantaram até 30% da área inicialmente prevista terão direito ao seguro proporcional.

No conjunto de medidas anunciadas pelo MDA também está prevista a prorrogação do vencimento da parcela de 2005 dos contratos do Pronaf Investimento. Além disso, os agentes financeiros que operam o Pronaf já colocaram à disposição dos agricultores da região Sul os recursos para a safra de inverno, num total de R$ 800 milhões.

 

Ações visam capacitar agricultores de Casca

 

Consolidar a parceria entre a Prefeitura de Casca, Universidade de Passo Fundo e a Emater foi um dos resultados da reunião sobre as ações que visam desenvolver o Centro de Capacitação e Incubadora Tecnológica Agroindustrial. O centro objetiva capacitar produtores da região, abrangendo cerca de 14 mil famílias dos 22 municípios, na área de processamento de frutas, compotas, conservas e destilados.

De acordo com o gerente regional da Emater de Passo Fundo, José Gilberto Weide, o centro tecnológico de Casca possui uma estrutura apta a absorver a produção e a mão-de-obra. "A área física está distribuída em dois pavilhões, num total de 587 m2, com equipamentos adequados às atividades", explica.

A Emater/RS desenvolveu um diagnóstico onde detectou centenas de pequenas experiências em agroindústrias.

 

Crédito para cooperativas e venda de soja

 

Crédito de R$ 180 milhões para pequenas empresas, R$ 300 milhões para capitalização das cooperativas das regiões prejudicadas pela seca e R$ 1 milhão para comercialização da soja gaúcha. O anúncio da liberação das verbas foi feito pelo ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, após visitar o Norte do RS a convite da Federação da Agricultura do RS (Farsul), para ver os resultados da estiagem nas lavouras.

Acompanharam o ministro o secretário estadual da Agricultura, Odacir Klein, e o presidente da Farsul, Carlos Sperotto. "Produtores e cooperativas ficarão descapitalizados por causa da colheita frustrada - quebra de 45% na soja, 40% no milho, e 7% no arroz", reforçou Sperotto. Os produtores também reivindicaram recursos para custeio e comercialização da safra de trigo, que tem previsão de plantio de mais de um milhão de hectares.

Privado – Foi dado o primeiro passo para renegociação das dívidas dos produtores atingidos pela seca com as indústrias de agroquímicos e de máquinas e implementos agrícolas. O encontro reuniu na terça-feira, 5, representantes de cooperativas e agroindústrias gaúchas, o secretário de Política Agrícola, Ivan Wedekin, e o deputado federal Luis Carlos Heinze.

Cálculos indicam que 300 mil agricultores devem R$ 2 bilhões ao setor privado – 40% dos financiamentos agrícolas são contraídos junto ao setor privado. Os segmentos produtivos e o secretário Wedekin começaram a traçar a criação de uma linha de crédito com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador.

O grupo defende que seja fechado acordo entre governo, agricultores e o setor privado para que a taxa de juros, que pode chegar a 2% ao mês, seja dividida. "Os produtores pagariam a taxa aplicada para os empréstimos do crédito rural (8,75% ao ano) e os fornecedores assumiriam o restante da equalização", explica Heinze.

 

VIDA AGRÍCOLA

Engº. Agrº. José Zugno

Identificação de videira desconhecida

Escrevo-lhe para solicitar identificação de uma nova qualidade de parreira que cultivo. Envio-lhe amostra das uvas, exemplares de folhas e ramos desta novidade. Recebi dos stados Unidos sementes desta uva através de um amigo. Semeei-as e obtive as mudas com as quais organizei um pequeno parreiral. Há 15 anos estou cultivando essa espécie de parreira que produz uva rosada de gosto peculiar, mas supergostosa. A casca da uva é resistente, o cacho é pequeno e suas folhas também são de formato pequeno. Agradeço a atenção que dispensar em Vida Agrícola a este pedido e a oportunidade de divulgar uma nova qualidade de uva.

Sétimo Granzotto

Pato Branco - PR

 

Cumprimentos ao prezado Sétimo Granzotto, de Pato Branco, assinante e leitor do Correio Riograndense, que soube nos remeter a amostra de uva, cujo nome desconhece, embora a cultive há 15 anos. Recebi a amostra bem acondicionada em recipiente plástico, em boas condições. Pedi a nossa editora assistente Maria de Fátima que a encaminhasse ao exame da equipe especializada da Embrapa, Unidade Uva e Vinho de Bento Gonçalves. Obtivemos a pronta e gentil colaboração do engenheiro agrônomo Umberto de Almeida Camargo (natural de Lages, SC, formado pela Universidade Federal de Santa Maria-RS). Ele é especialista em Ampelografia – parte da botânica em que se estuda a videira. Atualmente é uma das mais expressivas autoridades no domínio deste assunto que é fundamental para o melhoramento genético de nossas vinhas, essencial para a grandeza da vitivinicultura nacional.

Eis o que informou o engenheiro agrônomo e pesquisador da área de melhoramento genético da Embrapa Uva e Vinho: "A nova uva pertence à espécie Vitis rotundifolia que engloba 60 variedades. A uva é de maturação tardia, muito cultivada no Sul do Estados Unidos, onde é comercializada em grãos, como se vende na região da Serra os morangos em bandejas. Suas bagas amadurecem de maneira desuniforme, por isso, são colhidos os grãos e não os cachos. Suas bagas se desprendem como o que acontece com as jaboticabas.

A espécie é apropriada para consumo in natura e na fabricação de sucos e geléias. Muito resistente, é indicada para produção com adubação orgânica.

A videira é uma planta pertencente à família Vitaceae, cujas principais cultivares comerciais estão no gênero Vitis, em especial nas espécies Vitis vinifera e Vitis labrusca. As espécies Vitis rupestris, Vitis berlandiere e Vitis rotundifolia, entre outras, têm sido utilizadas em cruzamentos para a obtenção de porta-enxertos.

A videira adaptou-se e foi difundida por diversas regiões do país. Atualmente as áreas cultivadas com uva concentram-se nas regiões Sul e Sudeste, onde Rio Grande do Sul, São Paulo, Santa Catarina e Paraná são os principais Estados produtores. Outro importante pólo vitícola está surgindo no Vale do Rio São Francisco, onde produz-se uvas finas de mesa."

Para mais informações: Embrapa Uva e Vinho. Rua Livramento, nº 515. CEP 95700 000 - Bento Gonçalves - RS. Telefone (54) 455 8084.

 

Saúde

Mal de Chagas ataca o coração

Casos recentes em Santa Catarina alertam para doença que era considerada sob controle

 

O Mal de Chagas era considerado uma doença sob controle em todo o Brasil. Porém, casos recentes de contaminação por meio do consumo de caldo de cana, em Santa Catarina, e açaí, no Pará, reacenderam o alerta vermelho para se discutir a prevenção, diagnóstico e tratamento do problema. Segundo o último balanço divulgado pela Vigilância Epidemiológica Catarinense, já chega a 156 o número de notificações da doença, com 26 casos confirmados de pessoas que contraíram o Mal de Chagas após a ingestão do caldo de cana infectado. Outros quatro casos foram confirmados como sendo crônicos, ou seja, os indivíduos já tinham a doença e não sabiam. Três pessoas já morreram no Estado.

O inseto conhecido como barbeiro ou chupão é hospedeiro do protozoário causador do Mal de Chagas, o Trypanosoma cruzy. O inseto pica as pessoas e logo depois defeca ao lado da ferida, liberando os protozoários. Quando a pessoa coça o local da picada, ocorre a forma de contaminação mais conhecida. Outra maneira de contágio é de mãe para filho, durante a gestação, ou através de transfusão de sangue.

A transmissão por meio oral é mais rara, mas há possibilidades de se ingerir partes do próprio inseto ou suas fezes no consumo de alimentos mal conservados, como ocorreu em Santa Catarina. Essa forma de contágio resulta em quadros mais graves da doença, pois a quantidade de protozoários absorvida é bem maior do que por meio da picada do barbeiro.

Em média, depois de cinco dias da contaminação, manifesta-se a fase aguda da doença. Os sintomas são náuseas, febre, aumento dos gânglios, diarréia, indisposição e inchaço do fígado e baço. O efeito mais perigoso da fase aguda, que pode levar à morte, é a arritmia cardíaca. Em casos graves, há a necessidade de uma cirurgia para a introdução de um marca-passo.

A fase crônica da doença só se manifesta de 15 a 30 anos depois da contaminação e causa inchaço no coração, que pode levar à insuficiência cardíaca, e comprometimento do esôfago e do estômago. Segundo os especialistas, não existe cura total para o Mal de Chagas. Porém, a descoberta da doença na fase inicial é extremamente importante, pois o tratamento adequado controla as possíveis complicações e pode evitar a manifestação da forma crônica da doença no futuro.

A prevenção do Mal de Chagas depende do controle do inseto transmissor. Não importa a forma de contágio, o Trypanossoma cruzy chega ao homem principalmente através do barbeiro. Uma das maneiras de mantê-lo bem longe de casa é zelar pelo saneamento básico, evitar frestas em casas de pau a pique ou de alvenaria e proteger portas e janelas. O uso de inseticidas também é eficaz para eliminar o barbeiro de regiões muito infestadas, mas deve ser usado com moderação e precaução.

O Ministério da Saúde também orienta a população que vive nas áreas de risco para evitar fazer estoque de madeira e comida dentro de casa, pois servem de alimentos para animais pequenos. O problema é que esses animais podem carregar o inseto transmissor da doença de maneira passiva para dentro de casa. Gambás, morcegos, tatus e alguns tipos de ratos também são hospedeiros do protozoário causador do Mal de Chagas.

 

Identificado foco de contaminação

 

A comercialização de caldo de cana está proibida em Santa Catarina. No Rio Grande do Sul, a Secretaria da Saúde também proibiu a venda do suco no litoral Norte, até que se esclareça o surto do Mal de Chagas no Estado vizinho. A recomendação é para que as pessoas que beberam caldo de cana, no período de 1° de fevereiro a 20 de março, nas cidades catarinenses de Navegantes, Itajaí, Penha, Piçarras, Barra Velha, Araquari, Joinville, Balneário Barra do Sul, Garuva, Itapema, Camboriu, São Francisco do Sul e Itapoá, procurem os postos de saúde para fazer exames.

A Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina acredita que o foco de contaminação do Mal de Chagas se restrinja a um único quiosque, em Navegantes. De acordo com o órgão, das 26 pessoas que contraíram a doença, 22 tomaram o caldo de cana no dia 13 de fevereiro, no Barracão da Penha 2, às margens da BR 101.

A Secretaria da Saúde identificou o parasita causador da doença em um inseto barbeiro e em um gambá nas proximidades do quiosque. Resta saber como a cana-de-açúcar foi infectada. Há três hipóteses: a do barbeiro ter sido moído durante a confecção do caldo; do barbeiro ter infectado a cana durante seu armazenamento e a cana ter sido contaminada pelas secreções do gambá.

A Vigilância Sanitária do Estado disse que novas normas estão sendo elaboradas com a Anvisa para disciplinar a venda de todos os sucos naturais. Para garantir o cumprimento das novas regras, a Anvisa, o Sebrae e a Caixa Econômica Federal irão dispor de uma linha de financiamento para quem comercializa suco in natura.

 

Novas regras para a venda de sucos

 

As novas normas para venda de caldo de cana em Santa Catarina deverão abranger quatro aspectos: cuidado com armazenamento da matéria-prima, proteção das aberturas do equipamento de moagem, tratamento adequado dos dejetos e atenção do manipulador da cana com a higiene, principalmente lavando as mãos antes e depois de tocar o alimento. As regras devem evitar que o barbeiro - hospedeiro do Trypanosoma cruzi, transmissor do Mal de Chagas - se instale na cana. A médica Helena Cristina Rocha, da Vigilância Sanitária de Santa Catarina, disse que as normas não servem apenas para o caldo de cana, mas também para a comercialização de bebidas à base de vegetais de modo geral. Ela alertou o consumidor para que observe as condições de higiene dos locais de venda de sucos.

 

Inseto é útil ao equilíbrio ecológico

 

A doença de Chagas ainda desperta a atenção das autoridades sanitárias brasileiras, embora tenha havido uma importante redução na transmissão em todo o país. Erradicá-la é uma tarefa impossível, pois a doença é transmitida pelo barbeiro, inseto necessário para o equilíbrio ecológico nas matas.

Algumas medidas são importantes para garantir o controle da doença. Uma delas é a eliminação do barbeiro Triatoma infestans, principal espécie transmissora da doença e a única possível de ser exterminada. Esse tipo de barbeiro pode ser eliminado do Brasil porque foi introduzido no país. Originário da Bolívia, chegou ao país pela região Sul e se adaptou. Essa espécie é o mais importante transmissor da doença de Chagas no país devido à sua preferência por sangue humano e ao seu elevado índice de infecção natural.

O Ministério da Saúde trabalha para combater os últimos focos da espécie no Brasil. Para isso, vai destinar R$ 1,31 milhão, até o final do ano, a cerca de 30 municípios baianos. Após 20 anos de ações regulares de combate e controle da doença, a área de dispersão da espécie T. infestans está reduzida hoje a pequenos focos, a maioria na Bahia. O dinheiro será usado em ações de controle químico, como borrifações domiciliares de inseticida para reduzir a presença do vetor dentro das casas.

O Mal de Chagas é assim chamado em homenagem ao médico mineiro Carlos Ribeiro Justiniano Chagas, que identificou o parasita causador da doença em 1907. Ao parasita ele deu o nome de Trypanosoma cruzi, em homenagem ao sanitarista Oswaldo Cruz.

 

INTERNacional

Gravidez e parto matam 1,4 mil mulheres por dia

Outras 14 milhões de mortes poderiam ser evitadas por ano

 

O relatório anual que a Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou por conta do Dia Mundial da Saúde, na quinta 7, alerta que 529 mil mulheres morrem durante a gravidez, o parto ou logo após o nascimento da criança - em média, 1,4 mil por dia. Dessas, 68 mil morrem em conseqüência de abortos feitos sem condições de segurança. Todos os anos, 3,3 milhões de bebês são natimortos, mais de 4 milhões morrem nos primeiros 28 dias de vida e outros 6,6 milhões não chegam ao quinto ano de vida.

De acordo com o relatório da OMS, as causas dessas mortes poderiam ser evitadas. Para diminuir esses números é preciso, como recomendam as Metas do Milênio, que cada mãe e cada criança tenha acesso aos serviços de saúde durante a gravidez, nascimento, período neo-natal e infância. Definidas durante assembléia pelos países integrantes da Organização das Nações Unidas (ONU) em 2000, as metas incluem ainda a redução, em dois terços, da mortalidade de menores de cinco anos até 2015. A meta para a mortalidade materna é reduzir o total em três quartos.

O número de casos de gravidez não intencional ou indesejada no mundo é estimado, no mesmo relatório, em 87 milhões por ano. Porém, a assistência a esses casos aumentou 20% durante os anos 1990 e continua a aumentar na maior parte do mundo. Mais de a metade dessas mulheres (46 milhões por ano) recorre ao aborto induzido - 18 milhões o fazem sem as mínimas condições de segurança.

O relatório revela também que a quase totalidade das mortes maternas e de recém-nascidos ocorre em países pobres e que as diferenças entre ricos e pobres vêm aumentando. Menos de 2% das mortes de recém-nascidos foram registrados atualmente em países onde a renda per capita é mais elevada. Das 529 mil mortes maternas anuais, incluindo as atribuídas ao aborto realizado sem segurança, apenas 1% ocorrem nos países ricos.

Investimentos - De acordo com a OMS, se houver um aumento maciço das despesas com saúde infantil será possível atingir as Metas do Milênio na próxima década. A cobertura total em 75 países que apresentam a maior parcela da taxa de mortalidade infantil custaria US$ 2,2 bilhões em 2006. O valor aumentaria, na medida do aumento da cobertura, para US$ 7,8 bilhões em 2015.

Em dez anos, o total seria de US$ 52,4 bilhões, além das despesas atuais em saúde infantil. Isso corresponde, inicialmente, a um gasto anual extra de cerca de US$ 0,47 por habitante e, em 2015, a US$ 1,48. Esse aumento significa hoje um investimento de 6% a partir da atual despesa pública média em saúde nesses países, com previsão de subir a 18% em 2015.

Nos 21 países que enfrentam maiores dificuldades e que precisarão de um longo período de avanço, segundo o relatório, a atual despesa pública em saúde teria de aumentar até 27%, a partir de 2006, e chegar a cerca de 76% em 2015.

 

opinião

O legado: o resgate da religião

Leonardo Boff

 

O importante não é a avalanche de documentos que o Papa deixou. O que permanecerá na história é sua imagem carismática, ao mesmo tempo vigorosa e terna e profundamente religiosa

 

João Paulo II foi um homem de profunda fé. Creu em tudo o que perfaz a galáxia eclesial, desde a água benta, as relíquias, os santos, os lugares sagrados até a Santíssima Trindade. A metafísica católica (a forma como os católicos entendem e organizam o mundo) é assumida em sua inteireza sem nenhuma restrição. Ele creu e assumiu aquilo que a Igreja diz que é sua função como Papa, descrita na primeira página do Annuario Pontificio: "Bispo de Roma, vigário de Jesus Cristo, sucessor do príncipe dos Apóstolos, sumo pontífice da Igreja universal, patriarca do Ocidente, primaz da Itália, arcebispo metropolitano da Província romana, soberano do Estado da Cidade do Vaticano e servo dos servos de Deus".

O Papa subjetivamente incorporou este seu múnus. E o fez com absoluta convicção e inteireza. Ajudou-o o carisma que recebeu de Deus: a sedução de sua figura imponente, atlética e irradiante. Ajudou-o o fato de ter sido ator e que, naturalmente e com "grazie", sabia produzir uma irresistível dramatização mediática com o gesto impactante e a palavra exata. E tudo isso a serviço da causa da religião. Há nele uma fortíssima condensação do religioso, do espiritual e do místico que transparece no rosto que ora se transfigura, ora se fecha em contemplação e ora se contorce em dor. Empunhava a cruz com solenidade e força como quem empunha uma lança de cavaleiro conquistador.

O importante não é a avalanche de documentos de toda ordem que deixou, ultrapassando mais de cem mil páginas. O grande discurso é sua figura. O que permanecerá na história é sua imagem carismática, ao mesmo tempo vigorosa e terna e profundamente religiosa. Qual é o seu legado? Ele mesmo. Qual o conteúdo deste legado: a religião.

O legado: ele mesmo como uma figura carismática que veio preencher um vazio sentido no mundo inteiro. Há uma orfandade de líderes carismáticos. Os que existem ou são belicosos ou burocratas do poder. Não há um Gandhi, um Luther King, um Che Guevara ou uma Madre Teresa. As massas sentem a carência de um Édipo benfazejo, de um pai com características de mãe, do qual derivam inspiração e direção para o futuro. João Paulo II apontou um caminho.

O conteúdo: o resgate da religião para a publicidade do mundo, como força que galvaniza massas e como poder político, decisivo na derrocada do regime soviético. Contra a tendência secularizante da modernidade que tornara a religião politicamente invisível, João Paulo II mostrou que ela é parte essencial da realidade e que pode produzir paz ou guerras.

Podemos discutir a orientação que deu à religião, numa linha conservadora, doutrinariamente fixista e moralmente rígida. Mas não podemos negar a relevância do elemento religioso e místico na configuração da nova humanidade.

Não obstante todos estes valores positivos, um cristão crítico não deixa de se angustiar: esse Pontificado nos chamou para a essência do legado de Jesus que nos disse: "Vós sois todos irmãos e irmãs, não chameis a ninguém de pai na Terra porque um só é vosso Pai, aquele que está nos céus, não vos façais chamar de mestres, porque um só é vosso Mestre, o Cristo". Os verdadeiros adoradores se encontram no grande espetáculo mediático ou quando "adoram o Pai em espírito e verdade"? Mas aqui outros são os critérios de avaliação.

 

O Papa é nosso rei

Frei Betto

Monarca absoluto, o papa não dispõe de tropas. Seu poder é mais moral que legal; sua autoridade transpõe fronteiras e chega ao coração de fiéis em todos os recantos do mundo

 

Estamos em plena era monárquica, alimentada pela morte de João Paulo II e a eleição do novo papa, o casamento do príncipe Charles e a sucessão no Principado de Mônaco. Há em nós uma nostalgia do reino, infundida pelas histórias infantis, pelo imaginário coletivo dessa nação que já foi império e cujo povo consagra rei um jogador de futebol e um cantor, e rainha uma animadora de auditório. No carnaval, os desfiles de escolas de samba costumam ser tão suntuosos quanto as cerimônias reais em países onde há nobreza.

Fora a decisão da copa do mundo em 1970, nada superou a audiência televisiva no Brasil por ocasião das visitas do Papa ao nosso país. Há muitos fatores que influem no nosso inconsciente. O papa é o único e o último monarca absoluto do Ocidente. Não está obrigado nem a respeitar as próprias leis que promulga. A fé católica o reveste de sacralidade. Ele representa Jesus na Terra. E o dogma reforça o seu poder: desde o século XIX é considerado infalível quando imprime sua autoridade em questões de fé e moral.

Todos os poderes são ampliados pela liturgia que o cerca. Não há governante sem protocolo e nem este sem rubricas. No caso do papa, a liturgia resulta da função que ocupa, tributária do Império Romano. É chamado de Sumo Pontífice, título herdado de César; ao ser eleito é coroado; à sua volta os cardeais fazem às vezes do senado romano. Acrescem-se a isso a natureza religiosa da liturgia católica; a suntuosidade do Vaticano, ornado com esculturas e pinturas de artistas imortais; a pompa da basílica de São Pedro, o maior templo da Igreja Católica, com 74 metros de comprimento.

Essa magnificência é reforçada pelo seu caráter paradoxal. Monarca absoluto, o papa não dispõe de tropas; seu poder é mais moral que legal; sua autoridade transpõe fronteiras e chega ao coração de fiéis em todos os recantos do mundo; ele é capaz de descer de seu trono para abraçar crianças, indígenas, miseráveis, enfermos e outros socialmente marginalizados.

Sempre estive convencido de que telenovela não faz sucesso na Europa porque lá existem, ainda, suficientes casas reais para que o público prefira trocar a realidade pela fantasia. Nada pode dar mais ibope que as trapalhadas do príncipe Charles, a simpatia da casa real da Espanha, o fausto lúdico de príncipes e princesas de Mônaco, o esplendor da rainha Elizabeth II e a divinização da figura do papa, como se ele tivesse a obrigação de ser imune à doença, à velhice, ao peso dos anos e do cargo.

Em conferência na Universidade de Roma, poucos dias antes da morte de João Paulo II, me perguntaram sobre o sincretismo da religiosidade brasileira. De que modo convivemos aqui com esse cristianismo que mescla tradições indígenas e africanas, onde devotos de Santa Bárbara e de São Jorge se confundem com os de Iansã e de Ogum? Respondi que o nosso sincretismo não difere do que impera no Vaticano. Ficaram perplexos. Expliquei: a religiosidade vaticana está impregnada de elementos judaicos e pagãos, herdados do Império Romano e da nobreza européia. Basta conferir seus símbolos e rituais.

O grande desafio para o papa é como transparecer, no mundo de hoje, não como um monarca religioso, mas sim como discípulo de Jesus, que conviveu com os pobres, entrou em Jerusalém montado num burrico, morreu na cruz como prisioneiro político. Essa a diferença entre o reino de César e o de Deus.

O Vaticano oscila entre dois pesos e duas medidas. De um lado, é a sede de um monarca confinado numa área de apenas 0,44 km2 e, no entanto, com mais de 1 bilhão de súditos mundo afora. De outro, traz nos ombros a responsabilidade de tornar o Evangelho boa nova para todos. E Jesus ensina que fora dos pobres a Igreja não tem salvação.

 

especial

MUNDO PÁRA NO ADEUS AO PAPA

Mais de três milhões de pessoas acompanharam os funerais em Roma e centenas de milhões viram cerimônia fúnebre pela TV no mundo inteiro

 

Roma, a cidade eterna, jamais viu uma multidão igual à que se reuniu na sexta-feira, 8 de abril, para a cerimônia de despedida do Papa João Paulo II, falecido no dia 2 de abril aos 84 anos. Mais de 200 presidentes, chefes de Estado e líderes de praticamente todas as religiões, 140 cardeais, milhares de sacerdotes e religiosos e pelo menos 300 mil fiéis assistiram ao funeral na Praça de São Pedro.

O mundo praticamente parou para o adeus a João Paulo II. Calcula-se que a cerimônia, que durou cerca de três horas, foi acompanhada por três milhões de pessoas através de 27 telões instalados em diversos pontos de Roma, fora do Vaticano, e outras centenas de milhões assistiram os funerais transmitidos ao vivo por redes de Televisão do mundo inteiro, inclusive as emissoras árabes al-Jazeera e al-Arabiya, que registraram audiência recorde. Considerado o evento mais noticiado da história, a missa de corpo presente só não foi transmitida ao vivo para a Rússia e a China, que não mandou representante.

A Polônia, terra natal de Karol Wojtyla, literalmente parou para acompanhar os funerais do Papa. Estimativas dão conta de que até 2 milhões de poloneses foram a Roma despedir-se de seu mais ilustre conterrâneo. No dia do enterro, na cidade de Cracóvia, 300 mil se reuniram diante dos telões na praça central da cidade e 200 mil foram ao santuário da Virgem Negra de Czestochowa.

Despedida - Uma prolongada ovação de mais de oito minutos, toque de sinos e um coro de "Viva o Papa" acompanharam o encerramento solene dos funerais, quando o corpo de João Paulo II foi levado para ser sepultado nas grutas vaticanas. O caixão está na mesma cripta que foi ocupada pelo corpo de João XXIII, que ficou sepultado até o ano 2000, quando, ao ser proclamado bem-aventurado por João Paulo II, foi levado à Basílica de São Pedro. Na segunda-feira, a cripta onde está o corpo do Papa foi aberta à visitação pública e centenas de milhares de fiéis ainda deverão prestar homenagens a João Paulo II.

Em Roma, da segunda até a sexta-feira, mais de cinco milhões de pessoas foram ver o Papa. Cerca de 15 mil soldados e policiais patrulharam a cidade, 3.500 jornalistas cobriram o evento e mais de 500 mil litros de água mineral foram distribuídos aos peregrinos, que chegaram a ficar até 24 horas na fila para dar adeus ao Papa enquanto estava sendo velado na Basílica.

 

Roma viveu jornada mundial da juventude

 

Entre os mais de cinco milhões de pessoas que passaram pelo Vaticano desde o início do velório do Papa até o seu sepultamento, chamou atenção a presença impressionante de jovens do mundo inteiro. "Parecia um ambiente de Jornada Mundial da Juventude. Creio que o Papa antecipou o encontro de Colônia (que ocorre na Alemanha em agosto próximo), convocando-nos aqui", reconheceu o jovem padre e jornalista espanhol Josetxo Vera, da revista La Verdad, de Navarra.

Na sexta-feira, durante a cerimônia de despedida de João Paulo II, muitos jovens levaram cartazes com mensagens como "nós somos a juventude do Papa". Caterina Avantagiato, uma jovem do Sul da Itália que esperou longas horas na fila para ver o Papa, disse que "foi uma linda experiência testemunhar a paixão de João Paulo II".

Também foi impressionante a presença de pessoas enfermas, em cadeiras de roda. "Esse Papa teve próximos a si os enfermos, as pessoas que sofrem", disse padre Vera. "Independente de crenças e tendências, João Paulo II era o único líder moral que permanecia; então vemos a reação que gerou", conclui a mexicana Maria Guamán Mariscal.

 

Morte provoca comoção no mundo inteiro

 

As manifestações de pesar que se sucederam em Roma e em todas as partes do mundo mostraram que a comoção provocada pela morte de João Paulo II não atingiu apenas os católicos. As cerimônias fúnebres foram uma pequena demonstração de que os povos e nações do mundo, graças aos incansáveis esforços do Papa e da Igreja, poderiam viver em mais harmonia, fraternidade e paz.

Entre os 200 líderes políticos e religiosos do mundo presentes na Praça de São Pedro estavam, lado a lado, representantes de credos distintos e inimigos políticos publicamente declarados, como o presidente norte-americano George W. Bush e o presidente do Irã, Mohammad Khatami. Também estava o presidente africano do Zimbábue, Robert Mugabe, que a União Européia proibiu de entrar nos países-membros, mas que se beneficiou do convite formal da Santa Sé.

A delegação dos Estados Unidos reuniu três presidentes, o atual e seus antecessores Bill Clinton e George Bush, além da secretária de Estado, Condoleezza Rice. O Brasil reuniu quatro - Luiz Inácio Lula da Silva e os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, José Sarney e Itamar Franco. O reconhecimento ao Papa por seu esforço em favor do ecumenismo esteve representado pelos líderes de praticamente todas as religiões do planeta.

 

Povo aclama João Paulo II como santo

 

"Santo subito" (santo já) aclamava e pedia através de faixas a multidão presente aos funerais de João Paulo II na Praça de São Pedro. O grito espontâneo, acompanhado de intermináveis aplausos, começou a ser escutado depois que o cardeal Joseph Ratzinger concluiu a homilia. Em segundos, a onda se propagou por toda a praça e chegou aos locais de Roma onde foram instalados os telões.

Oficialmente, o Vaticano não deverá manifestar-se sobre isso e a eventual beatificação de João Paulo II será competência exclusiva do próximo papa. É a vontade do povo, porém, que faz um santo. Isso pode impulsionar as manifestações em favor da abertura do processo de beatificação de João Paulo II, o papa que mais proclamou bem-aventurados (1.338) e santos (482) na história da Igreja. Na segunda-feira, jornais já publicavam relatos de milagres, entre os quais a cura de um judeu norte-americano, ocorridos antes da morte do Papa.

O fato de João Paulo II ter decretado a beatificação e canonização de tantas pessoas pode dar a impressão de que o processo é simples. Não é. Para chegar a santo são necessárias diversas etapas. As mais exigentes são a beatificação, feita depois do reconhecimento, pela Santa Sé, de um milagre ocorrido por intercessão de uma pessoa (que esteja morta), e mais um para que ela passe à condição de santa. Essa exigência deixa sem valor os que estão sendo atribuídos a João Paulo II.

Para a beatificação de um católico é preciso esperar cinco anos depois de sua morte. Porém, esse prazo pode ser reduzido pelo papa.

 

TESTAMENTO PARA A HISTÓRIA

 

No documento, Papa João Paulo II deixou indicação, no Jubileu do Ano 2000, que teria chegado o momento de renunciar ao trono de São Pedro

O testamento de João Paulo II, escrito de próprio punho e em polonês, revela que Karol Wojtyla pensou em renunciar durante o Jubileu de 2000. No documento, o Papa pediu que todas as suas anotações fossem queimadas. Não deixou disposições práticas sobre sua tumba e nenhum bem material.

O testamento do Papa João Paulo II foi lido na manhã de quinta-feira 7, durante a congregação geral dos cardeais. São 15 páginas de conteúdo estritamente espiritual, escritas em momentos distintos de sua vida. O primeiro é de 6 de março de 1979. Trechos foram incluídos em 1980, 1982, 1985 e em 2000.

A principal revelação do documento é quanto à sua permanência à frente da Igreja. No ano de 2000, com problemas sérios de saúde, o Papa deixou uma indicação de que poderia renunciar. "De acordo com a Divina Providência, me foi dado viver o difícil século que está se tornando parte do passado", registrou. "Seria necessário perguntar se não seria o tempo de repetir ‘Nunc dimitis’ (renuncie agora)."

A possível saída do trono de São Pedro em 2000 gerou controvérsia entre os vaticanistas. Alguns avaliam que não há provas concretas de que ele teria pensado em renúncia antes de morrer. "O Papa teve dúvidas e optou por uma interpretação espiritual de sua missão. Isso não quer dizer que tivesse a intenção de renunciar", analisou padre Michel Kubler, redador-chefe do jornal católico francês La Croix.

O testamento do Pontífice foi classificado "como um diário de linguagem acessível". O Papa deixou ainda comentários sobre o fim do comunismo e sobre o perigo de uma guerra nuclear: "Agradeço à Divina Providência por o período da dita guerra fria ter se encerrado sem um violento conflito nuclear, um perigo que pesava sobre o mundo no período precedente." Em outro momento, relata que foi Deus que o salvou no dia 13 de maio de 1981, quando sofreu atentado em plena Praça de São Pedro, sendo atingido pelos tiros do turco Ali Agca.

João Paulo II não deixou de citar e agradecer os representantes das demais religiões em seu testamento, chamando-os de irmãos. Cita o rabino de Roma, Elio Toa, que em 1986 o convidou para visitar a sinagoga. Reservou ainda palavras de agradecimento a seu secretário particular, Stanislaw Dziwisz. Lembrou ainda seus pais e irmãos, além de companheiros de escola e do tempo da ocupação da Polônia quando trabalhou como operário. "Todos os outros agradecimentos faço-os em meu coração a Deus, porque é difícil exprimi-los."

 

Ide à mídia, e anunciai meu Evangelho

Rovílio Costa

Capuchinho, pesquisador e escritor

 

Cristo mudaria, hoje, o "Ide e anunciai o meu Evangelho a toda criatura" para: "Ide à mídia e anunciai meu Evangelho." João Paulo II, na Carta Apostólica de 21-2-2005 - O rápido desenvolvimento - afirma: "A Igreja não é chamada a unicamente usar a mídia para anunciar o Evangelho, mas a integrar a mensagem de salvação nesta nova cultura, cujo uso é parte integrante da sua missão no terceiro milênio." Na Encíclica Redemptoris Missio, realçou que o primeiro areópago do tempo moderno é a mídia, "capaz de unificar a humanidade, tornando-a uma aldeia global. Mas o mundo da comunicação também necessita da redenção de Cristo."

"Fazendo nosso o ‘ensina-nos a rezar’ (Lc 11, 1) dos discípulos, peçamos que o Senhor nos guie a compreender a comunicar-nos com Deus e com os homens através desses maravilhosos meios, para alcançar os homens em todas as latitudes, superando barreiras de tempo, espaço e língua, oferecendo a todos metas seguras para entrar em diálogo com o mistério de Deus, revelado em Cristo, que explica as Escrituras em parábolas, nas casas, praças, caminhos, margens de lagos, cimos dos montes, depois proclama: ‘O que vos digo ao ouvido, proclamai-o sobre os telhados’ (Mt 10, 27)".

"Muitos usam, de maneira criativa, este novo instrumento, a Internet, mas também devem ser usados os outros novos meios e verificadas as possibilidades de instrumentos tradicionais."

Comunicação com Deus e com os homens são as duas vertentes da comunicação cristã proposta por João Paulo, seja qual for o meio empregado. Mais que às igrejas, as pessoas recorrem às rádios, TVs, jornais... Por eles, João Paulo falou ao mundo. E nos convida a fazermos o mesmo. Eis o desafio ao comunicador cristão.

 

Papa não revela cardeal "in pectore"

 

João Paulo II levou consigo o segredo sobre o cardeal "in pectore" (no coração, em segredo) designado no consistório de outubro de 2003. Falou-se no bispo de Hong-Kong, Joseph Zen, mas muitos acreditaram que o nome em sigilo era o do secretário pontifício, Stanislaw Dziwisz, que o acompanhou nas últimas quatro décadas.

O Papa não disse publicamente o nome do eleito quando em vida e nem sequer deixou escrito em seu testamento ou em qualquer outro documento. "Confirmo que o Papa antes de sua morte não comunicou o nome do cardeal ‘in pectore’", disse o porta-voz vaticano Joaquin Navarro-Valls.

A nomeação de um cardeal "in pectore" é usada pelo Papa por motivos especiais. O designado pode pertencer a um país onde é perseguido e, neste caso, prefere-se manter a identidade do novo prelado em sigilo.

 

Sigilo e rituais marcam eleição do novo papa

Juramento, voto secreto e sinal de fumaça fazem parte do processo de escolha do sucessor de João Paulo II

 

O conclave que vai escolher o sucessor de João Paulo II já tem data marcada: inicia dia 18 de abril. O encontro dos cardeais que vão eleger o futuro papa deve ocorrer em sigilo absoluto e é cercado de rituais e formalidades. Na manhã do próximo dia 18, o Colégio Cardinalício reúne-se na basílica de São Pedro para a chamada missa votiva "Pro elegendo papa". No mesmo dia, à tarde, seguem em procissão da residência Santa Marta, onde ficam hospedados, até a Capela Sistina, para a primeira votação. A capela está fechada desde o último dia 7, para as preparações do conclave. No trajeto, invocam a inspiração do Espírito Santo.

Antes de iniciar a votação, os cardeais fazem o juramento de manter segredo absoluto sobre o conclave, mesmo depois de encerrada a eleição. Durante a votação, os também chamados príncipes da igreja ficam em cadeiras cobertas por baldaquinos.

As cédulas para o voto secreto têm impressa a inscrição "elijo como sumo pontífice" (elejo como sumo pontífice). Abaixo da inscrição, os eleitores devem escrever o nome do indicado. Alguns cardeais até mudam a caligrafia para garantir ainda mais sigilo ao voto. A cédula deve ser dobrada ao meio uma única vez e depositada em um cálice de prata que fica no altar da Capela Sistina e serve de urna.

Votos - Para eleger um papa, inicialmente são necessários dois terços dos votos mais um. Se nenhum cardeal obtiver o número de sufrágios suficiente, a votação vai se repetindo. Não há limite de tempo para escolher o papa. A regra atual é que nos primeiros 14 dias seja eleito aquele que obtiver 2/3 mais um do total de votos. A partir do 16° dia passa a valer a regra da eleição por maioria simples, ou seja, metade dos votos mais um.

Em cada escrutínio os cardeais preenchem uma nova cédula e caminham solenemente até o altar para depositá-la na urna. Quando a eleição termina indefinida, todas as cédulas são queimadas com uma substância que solta fumaça preta, canalizada para uma chaminé sobre a Capela Sistina. Assim, os fiéis que aguardam o resultado na Praça da São Pedro tomam conhecimento que terão de esperar até a próxima votação para saber o nome do novo papa.

Quando finalmente o sumo pontífice é escolhido, todos os baldaquinos das cadeiras são desmontados, exceto o do novo papa. Então, o cardeal decano, que hoje é Joseph Ratzinger, também presidente do Colégio Cardinalício, pergunta ao indicado se ele aceita o papado e por qual nome deseja ser chamado daquele momento em diante.

Após a votação conclusiva, as cédulas são queimadas juntamente com uma substância que solta fumaça branca, sinalizando ao povo que já foi escolhido o novo chefe da Igreja Católica. Enquanto isso, o papa veste seus trajes.

Neste conclave, pa-ra indicar que o novo papa foi eleito, além da fumaça branca, haverá um dobre de sinos da basílica de São Pedro. Segundo o arcebispo Piero Marini, mestre de cerimônias de celebrações litúrgicas do Vaticano, o motivo é evitar a confusão quanto à cor da fumaça expelida.

No conclave de 1978, que elegeu João Paulo II, o sistema de produção de fumaça não funcionou corretamente e a multidão reunida à espera do resultado da eleição ficou em dúvida se havia ou não um novo sumo pontífice. Na ocasião, a fumaça que saía da chaminé da Capela Sistina não era branca nem preta, mas cinza.

O último passo do conclave é comunicar a escolha aos fiéis. O cardeal diácono mais antigo, atualmente Jorge Arturo Medina Estévez, vai até a sacada da basílica de São Pedro e anuncia, em latim: "Habemus papam!" (Temos um papa). Em seguida, o pontífice aparece para o seu primeiro pronunciamento.

 

Origem do processo

 

A palavra conclave vem do latim, "cum clavis", e significa "fechado a chave". Foi Gregório X que usou pela primeira vez o termo e instituiu o processo. Seu objetivo era evitar que a escolha do pontífice demorasse tanto tempo.

A indicação de Gregório X, em 1271, durou mais de dois anos e meio. Para forçar uma decisão, os cardeais passaram a receber só pão e água. Como o impasse continuou, destelhou-se a sala do conclave em pleno inverno. Então, o novo papa foi anunciado.

Com o tempo, mudaram algumas regras, mas a base da eleição se manteve. O atual conclave, que indicará o sucessor de João Paulo II, foi definido por ele mesmo, em 1996, quando promulgou a Constituição Apostólica (Universi Dominici Gregis), que substituiu a normativa de 1975.

 

Líder da Igreja sai do Colégio Cardinalício

 

Teoricamente, todo homem batizado na Igreja Católica pode ser escolhido papa. Se eleito, deve abandonar a família, abraçar o celibato, ser ordenado padre e bispo. Porém, na prática, o líder da Igreja Católica sai do Colégio Cardinalício. O último papa não cardeal foi Gregório XI, eleito em 1370. Para ser papa também é necessário ser ordenado bispo. Como a idade mínima para o bispado é de 35 anos, indiretamente este também é o limite mínimo de idade para o papado.

Todos os cardeais podem ser eleitos papa, mas somente os que têm menos de 80 anos votam para escolher o pontífice. O conclave deve ter, no máximo, 120 cardeais. Atualmente, há 183 cardeais, mas só 115 vão eleger o sucessor de João Paulo II. Haveria mais dois cardeais aptos a votar, mas por problemas de saúde o filipino Jaime Lachica Sin e o mexicano Alfonso Antonio Rivera não vão participar do conclave.

Dos 115 cardeais que elegerão o novo papa, apenas dois não foram nomeados por João Paulo II, William Baum e Joseph Ratzinger. Quatro brasileiros votam no conclave: Dom Geraldo Majella Agnelo, presidente da CNBB; Dom Cláudio Hummes, arcebispo de São Paulo; Dom Eusébio Oscar Scheid, arcebispo do Rio de Janeiro; e Dom José Freire Falcão, arcebispo emérito de Brasília.

 

Dinâmica geográfica deve influenciar a eleição do pontífice

 

Uma análise feita por John Allen Jr., correspondente da revista semanal National Catholic Repórter em Roma e um dos mais respeitados especialistas em Vaticano de todo o mundo, ajuda a esclarecer sobre as possibilidades quanto ao novo papa. Dos 115 cardeais que vão eleger o novo papa, os italianos formam o maior bloco nacional, com 20 cardeais. Apesar do número expressivo, vale lembrar que 83% do colégio é formado por cardeais de outras nacionalidades, fato que sugere que os italianos por si só não possuem a força numérica necessária para ditar a eleição do sucessor de João Paulo II.

Metade dos príncipes da igreja, ou seja, 58, é de europeus. Entre os demais, muitos estudaram na Europa ou passaram bastante tempo indo e vindo daquele continente, especialmente de Roma. Isso significa que questões e preocupações européias tendem a exercer influência sobre os cardeais. Segundo o especialista, as ameaças do secularismo e do islã tendem a ser vistas como importantes "questões de campanha" no conclave.

Os Estados Unidos têm 11 dos 115 cardeais que vão participar da próxima eleição papal. Embora formem o segundo maior bloco nacional, a eleição de um americano é vista como praticamente impossível. John Allen Jr. observa que a Igreja Católica não poderia ser liderada por um papa de uma superpotência, pois isso comprometeria o que é visto como a independência da diplomacia do Vaticano.

Há 20 latino-americanos entre os cardeais com menos de 80 anos, vários figurando entre os principais candidatos ao pontificado. Da África são 11 cardeais e da Ásia, dez. Ambos os continentes também têm um cardeal entre os favoritos a assumir a liderança da Igreja Católica.

Vinte e oito dos cardeais são da Cúria Romana. Muitos acreditam que a eleição do próximo papa é uma oportunidade para introduzir na Igreja uma perspectiva diferente, não romana. Considerando esse fato, pode-se dizer que a possibilidade de ser eleito um papa saído diretamente da Cúria seja relativamente remota.

 

A trajetória do candidato gaúcho a papa

Dom Cláudio Hummes nasceu em Batinga Sul e desde menino demonstrou vocação para a vida religiosa

 

A primeira demonstração da vocação para a vida religiosa do cardeal gaúcho dom Cláudio Hummes, apontado como um dos favoritos à sucessão de João Paulo II, foi percebida quando ele tinha oito anos. Ao ver o colega Edgar Stein embarcar no trem rumo ao Seminário Seráfico São Francisco de Assis, em Taquari, o menino Aury Affonso Hummes chorou, sentado no banco da estação de Linha Stein, hoje interior de Salvador do Sul. Ele queria ir junto, como testemunhou o irmão de Edgar, o jesuíta Hugo Stein. Nova prova de sua precoce obstinação daria poucos meses após, quando convidou o padre promotor vocacional para almoçar em sua casa com a intenção de que o ajudasse a convencer o pai a enviá-lo para o seminário. Deu certo: em janeiro de 1944 Aury seguiu para Taquari (leia abaixo), primeiro passo no percurso que o levou a ser um dos 115 cardeais que começam a decidir segunda 18 quem será o futuro papa.

Dom Cláudio nasceu em 8 de agosto de 1934, em Batinga Sul, interior de Brochier (98 km de Porto Alegre), então distrito de Montenegro, emancipado desde 1988. É o terceiro dos 13 filhos que teve o casal Pedro Adão Hummes e Anna Maria Franke (Adão, como todos os chamam, teve mais um filho com a segunda esposa e uma filha adotiva) e pertencia a uma das duas únicas famílias católicas da localidade - todas as demais, imigrantes alemães ou descendentes, eram luteranas. Hoje, segundo o pároco Inácio Winter, 60% da população da Brochier são católicos.

Da casa onde nasceu restou apenas um pilar de madeira guajuvira com cerca de um metro de altura, saliente entre pequenos pés de milho plantados pelo dono, o agricultor Lávio Kussler. Outro sinal é o declive onde ficava o porão, que abrigava uma queijaria. Dom Cláudio esteve neste local em janeiro passado e prometeu voltar dia 29 de maio para uma celebração ecumênica - estão previstas também homenagens em Brochier e Salvador do Sul.

O cardeal gaúcho foi batizado em 17 de setembro de 1934, na igreja São João Batista, em Brochier, a mesma que os Hummes andavam nove quilômetros para assistir à missa. E morou apenas oito meses em Batinga Sul. "O Adão foi obrigado a fechar a queijaria e ir embora, temendo perseguições", lembra Beno Fetzner, 84, vizinho que na época trabalhava para os Hummes. O destino da família foi Linha Stein, distrito de Linha Comprida, Salvador do Sul.

Marcas - A casa da Linha Stein também não existe mais. "Ficou a estrutura de pedra e parte da madeira, que usamos como forro", explica Rudi Rhoden, atual proprietário. Duas pereiras e um bambu são as marcas mais antigas. Adão mudou-se para a sede do município de Salvador do Sul em 1961, 10 anos após ter morrido a esposa. Casou-se novamente, com Laura, e faleceu em 4 de abril de 2003, aos 94 anos. À falta de marcas materiais do passado de dom Cláudio se sobrepõe a abundância de lembranças carinhosas do menino inteligente, interessado em estudar (como comprovam anotações em seus cadernos feitas por professores em Taquari, entre eles o cardeal dom Aloísio Lorscheider), gostava de pescar, jogar bolinha de gude e tocar violino.

Aury fez o primeiro grau no Seminário de Taquari (1944 a 1951), depois fez o noviciado e estudou Filosofia no Convento São Boaventura, em Daltro Filho, hoje distrito de Imigrante (1952 a 1954) e cursou Teologia no Convento Santo Antônio, em Divinópolis, Minas Gerais (1955 a 1958). Foi ordenado sacerdote em 1958 e celebrou sua primeira missa em 1º de janeiro de 1959, na igreja Santo André, em Linha Comprida. Quarenta e dois anos depois era cardeal.

 

Pescar e tocar violino, hobbys de dom Cláudio

 

"Nós, irmãos, estamos mais nervosos que ele". A declaração é de Arthemio Aloysio Hummes, irmão de dom Cláudio, 64, e foi dada ao Correio Riograndense em sua casa, em Salvador do Sul, na semana passada. "Ele sempre descarta, evita falar em ser papa. Não fala sobre ele nem sobre sua preferência", continua Arthemio, que há duas semanas dedica quase todo o seu tempo a atender a imprensa - jornais, rádios e redes de televisão de quase todo o país e dos Estados Unidos passaram a procurá-lo desde que dom Cláudio foi cogitado para suceder João Paulo II.

O contato do cardeal gaúcho com seus familiares é por telefone, em geral a cada 15 dias. As visitas a Salvador do Sul, a cada ano. "Toda vez que ele vem, reza missa no asilo para os mais de 70 idosos e, após, cumprimenta um por um com um aperto de mão", revela Arthemio. É o irmão quem afirma: dom Cláudio não pratica esportes físicos, mas gosta muito de pescar, de caniço, em riachos e açudes. Foi a vontade de pescar que custou um susto ao menino Aury e colegas: quando voltavam de uma pescaria foram interceptados pelo Papai Noel, que ameaçou-os e proibiu-os de se aproximar de um açude. Era o agricultor e vizinho Wilibaldo Lizefeld, que não queria os meninos no açude de suas terras. "Eles nunca mais foram lá", assegura Arthemio.

Outro hobby que o cardeal gaúcho, torcedor do Grêmio e do Corinthians, conserva desde os 10 anos de idade: tocar violino. "Na primeira vez que voltou do seminário trouxe o violino e tocou Noite Feliz para a mamãe. Emocionou a todos", recorda o irmão. Simples, culto (doutor em Filosofia, fala cinco idiomas), discreto e generoso são traços marcantes do perfil de dom Cláudio ressaltados pelo irmão.

Dos oito cardeais brasileiros, mais três têm direito a voto: Geraldo Majella Agnelo (BA), que também passou a ser cotado; José Freire Falcão (DF) e Eusébio Oscar Scheid (RJ).

 

Uma viagem de aventura para chegar ao seminário

 

Edgar Frederico Stein, 74 anos, é primo em segundo grau de dom Cláudio Hummes. Foi ele, quatro anos mais velho, quem acompanhou o menino Aury na viagem ao Seminário São Francisco de Assis de Taquari. Edgar voltava para o seu segundo ano no Seminário quando soube que seu primo, vizinho de 500 metros e colega de brincadeiras e pescaria, iria junto. Era janeiro de 1944.

Na primeira etapa do trajeto, os dois meninos sobre o lombo de um cavalo, malas dos lados, tiveram a companhia dos pais. Foi de Linha Stein até Maratá (8 km). Depois seguiram sozinhos, de ônibus, até Estrela (cerca de 80 km). Cruzaram o rio Taquari de balsa, para chegar a Cruzeiro do Sul, onde pernoitaram na casa de um tio. Na madrugada do dia seguinte cruzaram o rio de volta, desta vez num caíque. "Estávamos em cinco pessoas e parecia que o barquinho ia afundar", recorda Edgar.

De Estrela um outro ônibus levou-os a Porto Mariante. Agora a viagem seria de barco a vapor, até Taquari. A última etapa da viagem, uns 2 km até a porta do seminário, foram caminhando. "Aquele foi meu último ano no seminário. Dom Cláudio continuou e, se Deus quiser, será papa", afirmou ao CR Edgar, que ainda mora na mesma casa onde nasceu, na Linha Stein.

 

Igreja

Catedral oficializa missa ao meio-dia

Novidade, iniciada na Quaresma, agrada católicos caxienses

 

A paróquia Santa Teresa d’Avila (catedral de Caxias do Sul) oficializou, na semana após a Páscoa, uma iniciativa que durante a Quaresma foi adotada apenas como experiência – a celebração, de segunda a sexta-feira, de uma missa ao meio-dia. A iniciativa adotada pela catedral não é inédita - surgiu de experiências já realizadas em outras cidades, como Curitiba e São Paulo -, mas na diocese de Caxias é novidade.

Padre Joone Fachinelli, vigário paroquial da catedral, destaca que a primeira missa nesse horário foi celebrada na Quarta-feira de Cinzas, 9 de fevereiro. "Tínhamos medo que pudesse não dar certo. Tanto que passei o dia pedindo as luzes do Espírito Santo". Para surpresa do sacerdote, que geralmente celebra a missa do meio-dia, e do pároco, padre Leomar Brustolin, a catedral lotou.

Celebrada sempre às 12h05, a missa do meio-dia reúne, em média, 150 pessoas, às vezes até mais de 200. "É uma missa mais breve, com cerca de 25 minutos. Não há cantos e damos mais espaço ao silêncio e à reflexão. A própria cidade, nessa hora, está mais silenciosa", explica padre Joone. A missa do meio-dia acaba beneficiando muitas pessoas que não têm condições de participar de celebrações em outros horários. "Constatamos a participação de muitos jovens, estudantes e universitários, além de funcionários de empresas", revela padre Joone.

Durante a semana, a paróquia da catedral conta com celebrações às 6h45 e às 19 horas, além da missa da bênção da saúde, nas terças-feiras às 16 horas.

Herança - Ao inovar no horário de suas celebrações, a catedral rompe de algum modo com antigas tradições, herdadas ao longo do tempo. No campo, a natureza dita os horários. Isso influenciou a definição dos próprios horários das missas dominicais – às 6 horas da manhã, por exemplo, para liberar os que, depois de cumprida sua obrigação cristã, gostavam de sair para caçar, pescar... Depois vieram as fábricas, com seu período de trabalho definido e, então, durante a semana, as missas passaram a ser celebradas bem cedo ou no final da tarde, fora do expediente.

Hoje, a realidade mostra que é possível mudar essa tradição, sem prejuízo para os fiéis. Na paróquia Imaculada, por exemplo, todas as quartas-feiras é celebrada missa às 16 horas, com bênção da saúde. A igreja sempre fica lotada. O número de fiéis é ainda maior na primeira quarta-feira do mês, quando também há a exposição e bênção com a relíquia de Santo Antônio e, geralmente se fazem presentes caravanas de devotos do santo de diversas partes do Rio Grande do Sul e até de outros Estados.

O exemplo da Imaculada não é um caso isolado. A afluência de fiéis também é expressiva nas missas com bênção da saúde celebradas na igreja de São Pelegrino todas as quintas-feiras às 16 horas e na catedral, às terças. Para muitas pessoas, especialmente idosos, aposentados, doentes e estudantes, esse horário acaba se tornando o mais oportuno.

 

Capital tem celebração há quatro anos

 

No Rio Grande do Sul, a primeira experiência de uma missa ao meio-dia surgiu em Porto Alegre, há quatro anos, na capela São José, pertencente ao Santuário Nossa Senhora do Rosário. As missas são celebradas de segunda a sexta-feira, das 12h10 às 12h40. "Nossa celebração é conhecida como ‘missa dos executivos’, pois participam muitos profissionais do centro da cidade. Há um público fixo, em torno de 100 pessoas por dia", destaca Maria de Fátima Nunes, idealizadora, junto com Rosângela Antoniazzi, da missa nesse horário na capela.

Aprovada pelo padre Oscar Nedel, reitor da capela São José, essa missa facilita a participação de pessoas que, num outro horário, não teriam como fazê-lo. Maria de Fátima conta que a capela é conhecida como a igreja dos alemães - a comunidade foi fundada há 134 anos e a igreja há 85, por descendentes dessa etnia. Todos os domingos, às 9h30, é celebrada missa em alemão.

 

Escola de Formação realiza segunda etapa

 

Será realizada nos dias 16 e 17 de abril, no Centro Diocesano de Pastoral, em Caxias do Sul, a 2ª etapa da Escola de Formação, Fé, Política e Trabalho. Participam lideranças de toda a diocese de Caxias do Sul, que realizaram a primeira etapa do curso em março. Objetivo é contribuir para a formação e articulação de lideranças nos vários âmbitos de atuação. A exemplo do ano passado, em 2005 a Escola de Formação terá dez etapas sendo que a última será realizada nos dias 10 e 11 de dezembro.

 

Globalização e religião

Padre Zezinho

O dinheiro sempre foi um Deus e agora ele tem um credo

 

Quem ainda não viu direito, tente ver. Pouco a pouco, em menos de 50 anos, as grandes indústrias de alimentos, roupas, carros, aviões e espetáculos tomaram conta de todos os países e quase todo mundo está bebendo, comendo, falando, dançando, cantando, vestindo-se e vivendo como o grande irmão do Norte.

Quem detém as patentes, o dinheiro e o poder de persuadir criou, com alguns parceiros, um mundo no qual vão desaparecendo costumes de falar, pensar, vestir, comer e tudo fica cada dia mais parecido com o que os irmãos do Norte fazem. Nem as tradições e os folclores nacionais aparecem no vídeo. Vemos mais histórias de lá do que daqui. É por isso que a música que ouvimos tem o jeito deles, seus ídolos são os nossos, nossos lanches, sanduíches e bebidas vieram deles. Por todas as cidades espalham-se lojas e oficinas com nomes estrangeiros. No meu bairro há pelo menos umas 50 com nome que nem o dono consegue pronunciar.

Globalização é isso. Todo mundo, concordando ou não, faz como os 7 irmãos do Norte – pede emprestado deles e para eles para ficar como eles. Eles determinam os preços e nos vendem caro. E quando compram de nós, compram mais barato. E se tentamos vender mais, nos boicotam. A força está com eles. Queríamos uma religião universal onde todos orassem do mesmo jeito. Nenhuma religião conseguiu. Ao que tudo indica, os que queriam uma economia universal, onde todos comem, bebem e se vestem do mesmo jeito, estão conseguindo.

A nova religião chama-se neo-liberalismo. O individualismo é o dogma, a submissão ao lucro uma doutrina inquestionável e o domínio sobre todas as economias o sinal claro de que há uma nova Roma e uma nova Meca no hemisfério Norte. O dinheiro sempre foi um deus. Só que agora ele tem um credo, não poucas vezes abençoado por igrejas também pragmáticas que garantem prosperidade e sucesso num reino dos céus aqui, agora, já. Ouça e confira!

 

Marau revitaliza a torre da matriz

Cidade transforma seu maior símbolo em acervo histórico-cultural

 

No dia 26 de março, sábado de Aleluia, Marau reinaugurou um de seus maiores símbolos - a torre da igreja matriz Cristo Rei. O evento marca três datas importantes - os 50 anos de inauguração da torre, feita em abril de 1955; os 50 anos da elevação de Marau à condição de município, ocorrida no dia 28 de fevereiro de 1955; e os 85 anos de presença dos freis capuchinhos na cidade.

Na realidade, conforme salienta a responsável pelo resgate da história do campanário, Clélia Rigo Bortolini, "a torre está sendo reaberta para visitas públicas e ao mesmo tempo para transformar-se em espaço cultural e histórico". Em 2004 foram iniciados os trabalhos de adequação da torre a um novo uso. Os elementos tradicionais foram mantidos e novos elementos incorporados, como a nova escadaria com 205 degraus, que facilita o acesso dos visitantes até o alto da torre.

"O contato com a beleza escondida no espaço interno da torre, as possibilidades de ar e luz que as aberturas revelam, fizeram surgir a proposta de aproveitar o monumento como espaço expositivo para acolher os registros históricos e a produção simbólica dos marauenses, isto é, um verdadeiro memorial da cidade", revela Clélia. A finalidade desse projeto talvez faça da torre de Marau um marco único no país.

O projeto foi se realizando graças ao trabalho de conjunto e com a colaboração da Associação Amigos da Torre. Vinte equipes de serviço dedicaram-se a esse trabalho. Nas escadarias e outras complementações foram empregadas 15 toneladas de aço, utilizados mais de dois quilômetros de fios para a iluminação e dedicadas quatro mil horas de trabalho. Também houve a reforma e recolocação da estrutura de suporte dos sinos e do relógio.

"Ver tantas pessoas envolvidas nesse processo de transformação da torre é viver uma sensação de povo que constrói a própria história, e mais ainda o sonho que foi realizado de tornar esse monumento num acervo cultural e histórico", disse o pároco, frei Wilson João Sperandio, que há 20 anos atua em Marau.

 

Campanário é maior símbolo do município

 

A torre da matriz, com seus 37 metros, sem incluir a cruz, é um dos pontos mais privilegiados para admirar a cidade de Marau. A iniciativa de construir uma torre ao lado da igreja surgiu em 1946, quando era vigário da paróquia frei Vitorino Vian. Na época, um velho campanário de madeira, com sérios problemas em sua estrutura, sustentava os sinos da matriz.

Nesse tempo, Marau já lutava por sua emancipação de Passo Fundo e frei Vitorino viu nesse momento uma oportunidade para integrar os marauenses. Na concepção do frade capuchinho, a torre não abrigaria apenas os sinos, mas mostraria a pujança desse povo nascente. Em 1952 foi lançada a pedra fundamental e três anos após, em abril de 1955, era inaugurada a torre, pouco mais de um mês depois da instalação do município.

 

Tática do camaleão

Aldo Colombo

O Evangelho aconselha a imitar o comportamento de dois animais: a simplicidade da pomba e a prudência da serpente

 

O camaleão é um pequeno réptil, vertebrado, lembrando vagamente um pequeno lagarto. Ele se alimenta especialmente de insetos, que apanha com uma longa e certeira língua. Existem mais de oitenta diferentes espécies de camaleões. Sua característica mais conhecida é tomar a cor do ambiente onde se encontra. Suas células são portadoras de diferentes pigmentos, que ele aciona conforme a necessidade. Ele assume a cor verde quando está entre as folhagens, o amarelo entre as folhas secas, a cor parda na superfície de uma pedra... Com isso desfruta de duas grandes vantagens. Ele não é percebido pelos seus inimigos naturais e também não é visto pelos pequenos insetos que se constituem sua alimentação.

A sobrevivência é a grande, a maior lei da natureza. Em função dela, cada animal dispõe de meios para superar os outros animais ou, pelo menos, não ser aniquilado por eles. O leão conta com sua força e agilidade, a zebra monta sua defesa na velocidade, a tartaruga fecha-se em sua casa natural. Um grande grupo de animais tem vida noturna, pois as trevas os protegem, outros constroem trincheiras no fundo da terra, onde podem passar semanas e meses sem deixar seu esconderijo. O camaleão troca de cor, assumindo a coloração do ambiente tornando-se praticamente invisível.

Todos esses comportamentos aparecem também na vida das pessoas, uns mais outros menos. Não há dúvida nenhuma que a tática do camaleão tem numerosos seguidores.

Uns por fraqueza. Preferem sempre concordar com seus interlocutores, tentando mesmo adivinhar o que pensam. Se ele se engana neste lance, muda rapidamente de opinião. É a tática da covardia. Nunca sai em defesa de seus valores, nunca externa uma opinião que contrarie a maioria ou mesmo um grupo influente. Assemelha-se a um barco à vela, levado ao sabor dos ventos. Muitas vezes é a maioria silenciosa. Porque silenciosa, permite a minoria assumir o controle.

Um segundo grupo imita o camaleão para faturar alto, surpreender. Existe em todas as classes sociais, mas aparece de maneira mais ostensiva na classe política. Procura se identificar com os eleitores, mas só nas palavras, nas promessas do palanque. Suas palavras são cuidadosamente selecionadas para agradar a todos. Mudando o ambiente, muda também seu discurso. Mas ele muda, sobretudo, após a tomada do poder. Ele confia muito na pouca memória dos outros.

O Evangelho nos indica o comportamento de dois animais e aconselha imitá-los: sede simples como a pomba e prudentes como a serpente... E aconselha os filhos da luz a imitar e, se possível, superar os filhos das trevas. Não é suficiente ser bom, precisamos também ser competentes. E o exemplo mais claro é o próprio Jesus, quando colocou uma lei áurea: "Que vossas palavras sejam claras e definitivas. Nada de mais ou menos, mas sim ou não".

 

Romaria celebra o mundo do trabalho

Caxias acolhe, dia 1º de maio, trabalhadores de todo Rio Grande do Sul

 

A 10ª Romaria do Trabalhador e da Trabalhadora, que ocorre em Caxias do Sul no dia 1º de maio de 2005, será um momento de celebração e reflexão sobre as radicais mudanças no mundo do trabalho. A proposta é manter o vínculo indissociável entre a evangelização e a promoção da vida e da dignidade humana. Não haveria uma verdadeira evangelização sem um compromisso de conversão e transformação na ordem social, econômica e política do país.

"O trabalho que ocupa um lugar central na vida das pessoas é o assunto que articula as várias forças sociais que estão coordenando o evento. De obri-gação o trabalho chegou a ser um direito e hoje é um privilégio", salienta padre Gilnei Fronza, coordenador da romaria, que tem como tema "Trabalho, fonte de dignidade, direito de todos". Padre Gilnei destaca que a pessoa que não trabalha, ainda que receba a sua subsistência da sociedade tem sentimento de estar excluída e de não ter valor. "Ela não é digna de contribuir para a ação transformadora do mundo. A dignidade do trabalhador significa em primeiro lugar o direito ao trabalho".

A programação do dia 1º de maio inicia às 8h30 com concentração dos romeiros na rótula da av. Rubem Bento Alves com Ivo Comandulli. Às 9 horas, os participantes seguem em caminhada até os pavilhões da Festa da Uva onde, às 10h30, haverá celebração eucarística. O almoço será de responsabilidade de cada romeiro, podendo encontrar algumas alternativas no local, como lanches rápidos.

Na parte da tarde, as atividades prosseguem com momento cultural às 13h30 e, às 14 horas, manifestação das entidades participantes. O encerramento está previsto para as 16 horas. A expectativa da equipe de coordenação é de reunir entre 10 mil a 15 mil pessoas. Esta é a segunda romaria do trabalhador realizada em Caxias do Sul – a primeira ocorreu em 1991. A próxima (11ª) está marcada para ocorrer na diocese de Cruz Alta, em 2007.

 

Estudo revela mapa da violência no RS

 

Durante o fórum estadual em preparação à romaria do trabalhador foi feito o lançamento de um estudo sobre a violência no Estado e em Caxias do Sul. Denominado "Violência Criminalizada", o estudo do Banco de Dados do Centro de Direitos Humanos da diocese de Caxias do Sul faz um apanhado das notícias de homicídios ocorridos no período de 1º de janeiro de 1994 a 30 de novembro de 2004.

O trabalho tem a intenção de aprofundar a CF-2005 que propõe a construção de um cultura de paz. "Do estudo brotam algumas indicações, entre as quais a de que a violência como causa de morte é um fenômeno tipicamente masculino e que o maior número de vítimas está na faixa etária dos 22 aos 35 anos", constata o coordenador diocesano de pastoral, padre Gilnei Fronza.

 

Líderanças refletem sobre transformações

 

Para aprofundar as discussões sobre a romaria de 1º de maio, lideranças das 17 dioceses do Rio Grande do Sul participaram no sábado, 2 de abril, no Centro Diocesano de Formação Pastoral, em Caxias do Sul, do 2º Fórum Estadual em preparação a 10ª Romaria do Trabalhador. O encontro foi assessorado pelo padre jesuíta Inácio Neutzling, doutor em teologia, professor e pesquisador da Unisinos, que abordou o tema "Para compreender as transformações do trabalho".

Padre Inácio destacou que o evento do dia 1º de maio precisa, antes de tudo, servir de alerta. "Ou aceitamos de forma passiva as reformas que estão sendo propostas na área trabalhista e retrocedemos ou avançamos na luta de uma maior proteção do trabalho e dos trabalhadores". Ele defendeu a idéia de que a romaria deve ser um movimento de resistência às mudanças que estão sendo sugeridas na reforma trabalhista. Essa perspectiva preocupa, pois "existe uma multidão de pessoas que está fora do mercado de trabalho, que precisa ser ouvida, representada e atendida na sua luta e reivindicações", disse o palestrante.

 

CNBB cria prêmio Clara de Assis para TV

 

Com o objetivo de premiar programas nacionais, produzidos e exibidos pela televisão brasileira, e que trazem no seu conteúdo valores éticos, humanos e cristãos, a CNBB, através da Comissão Episcopal Pastoral para a Cultura, Educação e Comunicação Social, lançou o Prêmio Clara de Assis para a Televisão. Trata-se de uma iniciativa de valorização do trabalho dos diretores da televisão e da promoção de novos produtores que, com talento, ajudam na construção de uma sociedade mais fraterna e solidária. Visa ainda promover a leitura crítica da comunicação televisiva.

O prêmio destina-se a produtores das televisões comerciais, educativas e comunitárias de todo país. Serão premiadas as categorias jornalismo, dramaturgia, documentário e musical. Os vencedores receberão o troféu Clara de Assis, em cristal, e um certificado. Informações no site www.cnbb.org.br e inscrições pelo telefone (61) 313.8300 ou e-mail comsocial@cnbb.org.br. Clara de Assis foi escolhida porque é a padroeira da televisão. Ela foi assim proclamada em 1958, pelo papa Pio XII.

 

Formação cristã é tema de encontro de jovens

 

A Fundação Mãe de Deus promove, de 22 a 24 de abril, o encontro "Coragem, somos vencedores!", tendo como pregador padre Gilson de Oliveira, de Belo Horizonte. O encontro, direcionado à formação cristã dos jovens, ocorre no pavilhão Adorai a Deus (RS 122, km 86, bairro Pedancino, Caxias do Sul). Padre Gilson vai abordar temas como maturidade e imaturidade dos jovens diante dos desafios que o mundo apresenta referentes à fé e aos relacionamentos humanos. Informações pelo fone (54) 3028.3888.

 

Rir faz bem

Wilson João

Caminhamos olhando demais para nossos pés e esquecemos de olhar para o céu e para as realidades que nos cercam

 

Conta a história que um importante executivo de Nova York, de quarenta e cinco anos, foi acometido de câncer. Depois de muitos tratamentos, o médico constatou que não havia mais possibilidade de vida. E falou declaradamente: "você tem seis meses de vida. Seu câncer é irreversível".

Como tinha uma casa num sítio, combinou com a mulher que iriam passar os últimos momentos da vida ali nessa casa. Um amigo, um dia chegou de visita e falou: "Faça uma experiência. Esqueça que você tem câncer. Divirta-se. Ria da vida. Viaje. Não fique esperando a morte". O doente escutou o amigo e decidiu viver no sítio. Todos os dias, ele e a mulher passavam quatro a cinco horas vendo filmes de comédia, especialmente os filmes dos irmãos Marx. Com os três patetas começou a rir e mais rir. O tempo foi passando, e de tanto rir com os patetas esqueceu que estava doente. Para a surpresa do médico, uns meses depois desapareceu a doença. Curou-se pelo riso.

HÁ DEMAIS GENTE SÉRIA. Gente que se toma a sério. Fala demais de seus problemas. De suas doenças. De suas desgraças. Esquece de se olhar no espelho e rir de si. Afinal de contas, ninguém é tão importante assim! Todos somos gente. Todos somos um tanto palhaços nesta sociedade. E temos boca para quê? Temos dentes para quê? Temos um rosto para quê? Usamos demais a máscara da seriedade e da preocupação, a máscara da auto-suficiência e do orgulho.

LEVAR AS COISAS COM BOM HUMOR. Há refeições que parecem velórios. Não! Refeição é festa! É momento de conversar e rir. Nada de engolir problemas e reclamações. Há ambientes de trabalho sérios demais. É preciso fazer do trabalho um momento de lazer. Fazer do trabalho um ambiente de descontração. Se não for assim, o trabalho vai se tornando uma fonte de tensões e de doenças. Um corpo tenso se torna uma fonte de colesterol e triglicerídios, uma fonte de dor de estômago e cabeça. É preciso descontrair.

GARGALHAR É UM BOM REMÉDIO. E não custa nada. Não se compra nas drogarias. É de graça. Mas tem que nascer do coração. Tem que nascer de uma vida descontraída. Solta. Saber contar e escutar piadas. Rir de si e dos outros. Achar graça. Encantar-se com as coisas. Rir, gargalhar produz o relaxamento do corpo e da mente. E nosso corpo necessita relaxar-se para ter um bom funcionamento. E mais. Rir faz esquecer as preocupações. Somos uma sociedade séria demais, e por isso mesmo, somos uma sociedade doente demais. Comemos e trabalhamos sérios demais. Rezamos e conversamos sérios demais. Caminhamos olhando demais nossos pés e esquecemos de olhar para o céu e para a realidade que nos cerca. Temos que deixar de lado novelas briguentas demais, filmes de suspense e policiais, e ver muito mais programas de rir. Ou mais do que ver programas de rir, fazer programas de rir. Rir faz bem à saúde.

 

cultura da imigração

O ítalo-gaúcho brasileiro que está em mim

Solange Soccol

Administadora, jornalista, música e poetisa

 

Solange Soccol, administadora, jornalista, música e poetisa, primeira gaúcha candidata a deputado na Eleições Regionais Italianas, pelo Vêneto, assim se define na constelação da italianidade:

 

"Sou vêneto-brasileira, de Serafina Correa-RS, a mais importante jazida de costumes, cultura e tradições italianas.

A cultura italiana foi se constituindo uma referência de amor em minha vida, transformou meu tempo livre no lazer de estudar a Serra gaúcha, fazer da vida música e poesia, com os acordes e rimas do Talian. Nenhum amor foi em mim tão puro, profundo, sincero e honesto.

Participando de encontros da Federação das Associações Ítalo-Brasileiras (FIBRA), em contato com pesquisadores, escritores, tendo como luzeiro frei Rovílio Costa, a paixão pelas origens exigiu meu retorno à fonte da minha identidade.

Voltei à terra de origem pelo Projeto Rientro da Região Vêneto, fazendo-me a pergunta: por que o amor nos leva a desvendar enigmas, buscando compreendê-los? O Vêneto atual silenciou o espaço dedicado ao ser e tenta situar a italianidade apenas no ter, o que não correponde aos valores de minha história original. A gente descobre quem é quando sabe o que não é.

Sou gaúcha brasileira, descendente de vênetos, reverencio aqueles que mantiveram nossa verdadeira cultura, baseada na verdade, amor, respeito e solidariedade. Ser italiana é sentir-se italiana.

Inquietude, frustração e revolta me envolvem na atual sociedade vêneta que considero injusta. A cultura, ontem amada e idolatrada, hoje é estranha, contraditória e sem encantos. As experiências contraditórias do retorno, com problemas de convivência, alimentação, desorganização, racismo, desrespeito, insegurança e as diferenças sociais decepcionaram minha cabeça de vêneto-brasileira, habituada a responder aos desafios com a razão, a moral e a ética. Meu Deus! É impossível propor outro ponto de vista ou hastear outra bandeira em um país apenas consumista e desumano. Um país que vive no passado e se diz primeiro mundo. Para viver aqui é necessário abdicar da própria identidade.

Hoje, sou simplesmente vêneto-brasileira. Amo a cultura que herdei, conservei e ajudei a resgatar. Mas não considero um amor à Itália. Amor é ao que somos, e não ao que nossos bisavós deixaram para trás. Para mim os verdadeiros italianos continuam sendo os que saíram. É desses avós, bisavós, pais e mães que somos descendentes.

Da força dos braços e vibração do coração dos emigrados, haurimos a liberdade que nos impulsiona à ação, à superação dos obstáculos, através da solidariedade, da fé e do trabalho. Hoje somos italianos de um país continente, não maquiado por aparências, que não lança a culpa em pressupostos políticos ou sociais, mas busca respostas reais aos próprios problemas. Na opinião da maioria, nós brasileiros somos considerados organizados, educados e multiétnicos. Somos um povo considerado de baixa cultura, mas que temos conhecimentos e sabedoria. Somos povo de fé, sentimentos e abraço total.

Amo minhas raízes, mas a italiana que sou não abarca os ramos que ficaram, os quais, por terem ficado, deveriam ter sido mais produtivos em sentimentos e humanismo. Resumindo, sou, desde sempre, uma italiana simplesmente verdadeira, sem etiquetas, que não tem preço" (s.soccol@virgilio.it)

No dia em que um filho de uma família européia partiu para fazer o mundo, e outro ficou, abriram-se dois mundos: do continuísmo de quem ficou e da aventura e construtivismo do quem emigrou. Pertencemos à Itália da emigração, por isto à Itália da criação.

 

el ritorno de nanetto pipetta (304)

In tel semitero, el ghe mostra la patatina de oro

Silvino Santin

Santa Maria - RS

 

Finie le ciàcole, Nanetto el ghe dimanda la benedission e el parte par atender el so primo compromíssio, che lu lo tegnea par sacrosanto - far na vísita al semitero, par pregar in tela tomba de Piero Parenti.

Dopo na caminadina de squasi meda ora, sempre de passo verto, Nanetto el riva. E tuto silénsio.

- Son pròpio in tel semitero, el dise. Sol mi e i morti. Quante tombe e quanti morti!

El se maraveia.

- E dirlo che un giorno i caminea e i parlea come mi. Con questi pensieri l’è rivà in tela tomba de Piero. El cava el capel, el smorsa la pipa e li mete sora la tomba. Prima el dise na corona de rechiemeterna, che la ze la orassion pai morti. Dopo el dimanda permesso par sentarse in te un cantoneto dela tomba, e el taca contarghe el viaio. El ghe mostra la patatina de oro, ciapada par via de ver cavà su un spropòsito de patatine, insieme con Juquinha, là a Silveira Martins. No’l se ga desmentegà de parlar dele bele limòsine che’l gavea fato. Adesso si son diventà un omo grando, con le scarsele piene de schei. El ga seguità parlando sora tuto, no’l ga assà fora gnente. Ma là par le tante, el se ga lamentà parché el parlea lu sol. Lora, el dise:

- Piero, sò che no te pol vegner fora, te sì sensa core, sensa oci, sensa rognoni e figà, parché te li ghè dai ai altri, ma ben che te podarissi dirghe a la to ànima che la vegnesse sentarse sora la tomba par ciacolar un poco co mi.

Ma gnente, tuto silénsio.

- In soma, par parlar polito, seto Piero, bisogna dir che el core, i oci, el figà e i rognoni i ze lì in volta, in tela pansa, in tel peto o in fàcia de qualche persona. Lora no te sì mia morto dal tuto. E, po, son mi qua vivo.

Par finarla, Nanetto el dise:

- El sol romai l’è alteto e, come te te ricordi, el scota la melona. Lora te saludo e, se no’l ze un distùrbio par ti, te dimandaria che te comandessi la to ànima a saludar, quando lo trova, el Padre Paulino, quel che me ga menà in Mèrica par far la cucagna. E anca la pol dirghe che no me son mia negà in tel rio de La Zanta. Son qua che laoro par finir de ciapar la me colònia. La Gelina, anca, la ze ritornà del convento dele móneghe ndove lu la gavea mandà pregar par la me pora ànima, e, come no son morto, la ze vegnesta casa soa e semo ncora morosi.

Nanetto, intanto che’l se metea su el capel e el tolea su la pipa, el saluda Piero con una rechiemeterna e el ghe ga dito che presto, presto el ritornaria, adesso el gavea altri afari.

 

VITA STÒRIA E FRÒTOLE

Rovílio Costa e Arlindo Battistel

Darcy e la Odiles: 50 ani de amore

 

Far nosse de oro de matrimònio ze na dópia gràssia, parché porta rento na longa vita e un longo amore. Darcy José Rossetto, nato in Guaporé-RS, nipote de Giovanni Rosseto, de Moriago della Battaglia-TV, e de Stella Giacomo, de Torrebelvicino-TV, de tanto vardar in giro, el ga catà fora la Odiles Bernardethe Soldatelli, nata in Vacaria-RS, nipote de Luigi Soldatelli, de San Benedetto Pó-MN.

Zera el 1947, Darcy el zera trassiador dea strada BR 116 de Vacaria al rio Pelotas, e intanto che’l vardava el fil del trassiamento dea strada, ghe ze capità vanti i oci la Odiles, el ga sentio el pel de oca, e tuto un mestier par rento, che’l ga vardà el celo e el ga dito al Signore: "Questa te la ghè fata e mandada par mi." E, intanto el parlava con la Odiles, ela la ghe dise: "Varda, ti te sì pròpio el omo che Dio ga fato par mi." I se ga maridà solo in 1955, tea catedrale Nossa Senhora da Oliveira, de Vacaria, con celebrante Don Frei Càndido Maria Bampi, capucino, con barba, mitra e bàculo – tuto par far solene l’eterno amore de Darcy e Odiles.

I ze stai nove ani de inamoro. Se no fusse par via dei fioi che i volea meter al mondo, i saria stai eterni inamorai come Nanetto e la Gelina.

Darcy el ze vegnesto laorar in São Leopoldo, dove el ga fato tuta la scala possìbile dei incàrichi dela DNER, e el se ga messo in pension come Capo del Laoro Interestaduale e Internassionale, par questo el ze stà uno dei fondatori del Mercosul, come integrante del progeto dei periti dele Infra-struture dei Trasporti Rodoviari, Aeroviari e Fluviali dei Paesi dela Stua del Prata. Ze stà lu che’l ga creà la Contrif – Controle Nacional de Transporte Rodoviário da Fronteira, in rason de che, con autorisassion del presidente Ernesto Geisel, el ga impiegà 50 funsionàrii par le rodovie de Uruguaiana, Livramento, Jaguarão e Chuí.

Sempre con nove idee in testa, Darcy el ga scominsià studiar de note, intanto el laorava de giorno, e el se ga fato tècnico in contabilità in 1965 e in 1971 el ciapea la làurea in Sciense Giurìdiche e Sociali per la Università Federale del Rio Grande do Sul. Come el laorava in Porto Alegre e el studiava, chi praticamente ga slevà i fioi ze stà la Odiles, con norme ciare, li ga fati studiar, tuti quatro i ga finio el corso superiore e i laora in setori importanti e diversi: Rafael el ze gerente generale par la Amèrica Latina dea firma giaponesa Shimadzu; Miguel el ze Ministro del Desenvolvimento Agrário del Brasile; Gabriel el ze dotore in Medicina; Raquel la ze assistente comerciale dea firma Jucosa, in San Fernando nel Cile. In fati e in efeti, Darcy e la Odiles i riva vitoriosi, in tuti i sensi, ai 50 ani de matrimònio. Darcy, col aiuto de la Odiles, el ga fondà e el ze el presidente dea Sociedade Italiana Giuseppe Verdi, de San Leopoldo, mantegnendo viva la cultura italiana in medo i tedeschi. Ndando casa de Darcy e de la Odiles, no se sa quel che ze pi geloso del altro. E quando se parla dei fioi, lora, e dei nipoti, starghe distante, bisogna senar tardi, na stòria meio del altra.

Darcy e la Odiles, tute le stimane, i lede el Correio Riograndense e i lo fa leder dei amici, e i augura a tuti i maridai che i rive ai sinquanta ani, laorando, studiando, volendose ben e fando el ben in comunità come i lo fa lori in assossiassion assistensiali e sociali.

Auguri a Darcy e la Odiles! (Rovílio Costa)

 

GERAL

Uma em cada 8 crianças no RS trabalha

Dados revelam que 62% da mão-de-obra estão na agricultura

 

Cerca de 13% das crianças gaúchas, de 10 a 14 anos, trabalham. Embora elevado, o índice melhorou. Em 1995, 20,5% de meninos e meninas eram economicamente ativos no Estado. Os números foram divulgados durante o Fórum Estadual de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil e Proteção ao Trabalho do Adolescente, realizado pela Delegacia Regional do Trabalho (DRT/RS), em Porto Alegre.

Os levantamentos apontam ainda que 62% da mão-de-obra infantil trabalham na agricultura familiar. "Somente com a erradicação da pobreza será possível solucionar esse problema", acredita a socióloga Eridan Moreira Magalhães, do Núcleo de Apoio a Projetos Especiais da DRT/RS.

O principal desafio dos especialistas é fazer com que a sociedade tenha consciência dos direitos das crianças e dos adolescentes. Em 2002, 2.789 crianças que trabalhavam foram inseridas em programas sociais em 23 municípios gaúchos. Neste ano, o número de beneficiados chega a 8.009, envolvendo 27 cidades nas ações de erradicação do trabalho infantil. "Ao trabalhar, a criança fica impedida de freqüentar a escola, comprometendo o processo de aprendizagem", avalia a socióloga. Estudos da Organização Internacional do Trabalho revelam que 3 milhões de crianças e adolescentes brasileiros trabalham.

 

Projeto visa reduzir gás de lixões urbanos

 

De 9 a 19 de maio, o Ministério das Cidades recebe propostas de prefeituras que tenham interesse em implantar o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo para melhorar a gestão dos resíduos sólidos e reduzir as emissões de gases que provocam o efeito estufa, oriundos de lixões e aterros sanitários.

Podem participar os 200 maiores municípios - os que têm mais de 118 mil habitantes. Serão selecionados, no máximo, 30. Edital e documentos para participar do projeto no site www.cidades.gov.br

 

Fenachamp já tem sua corte

Soberanas vão divulgar champanha e Garibaldi

 

Mariana Milani é a rainha da Festa Nacional do Champanha (Fenachamp), que ocorre de 7 a 23 de outubro em Garibaldi. Na sexta, 8, o júri escolheu como primeira princesa Marizete Locatelli e como segunda princesa, Fernanda Sbeghen. No sábado, porém, houve mudança na corte. Fernanda Sbeghen renunciou, alegando convite de trabalho. A jovem Vanessa Dalla Vale Sabbei assumiu como segunda princesa.

A participação no Festival Colonial Italiano, no domingo, 10, foi a primeira atividade oficial das novas soberanas. Rainha e princesas esmagaram uvas com os pés, gesto tradicional nos eventos que resgatam a importância do cultivo da uva e fabricação de vinho na Serra gaúcha.

A coroação da rainha e princesas acontece no baile programado para 25 de julho. A Festa do Champanha é presidida por Antenor Fellini, especialista na área de vitivinicultura.