LEITORES 

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Edição 4.938 - Ano 97 - Caxias do Sul-RS, 25 de maio de 2005.

EDITORIAL

Meio século de conquistas e um futuro cheio de desafios

A Emater-RS, que chega a meio século de atividades, se tornou imprescindível ao agricultor

 

Os números das safras já seriam suficientes para dimensionar a importância da Associação Rio-grandense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-RS) para a agropecuária gaúcha. Em meio século de atuação, a Emater-RS contribuiu decisivamente para elevar índices de produtividade, agregar receita e ampliar alternativas de culturas ao homem do campo.

Em 50 anos, a Emater não apenas ajudou a construir indicadores econômicos favoráveis - descritos em detalhes na página central desta edição. Ao promover o desenvolvimento sustentável e a geração de emprego e renda, contribuiu para a preservação ambiental e melhorou a qualidade de vida do agricultor gaúcho. Os reflexos dessa mudança profunda chegaram à cidade e se espalharam pelo Estado.

A estrutura da Emater é outro demonstrativo da amplitude de sua atuação. Presente em 482 dos 496 municípios gaúchos, ela coloca a campo mais de 2.400 profissionais, responsáveis por um trabalho que no ano passado atingiu 800 mil pessoas.

Ninguém sequer ousaria imaginar a agricultura atual sem assistência e extensão. E, certamente, sem elas, muitos produtores rurais abandonariam a atividade, engrossando as fileiras do êxodo e da exclusão social. Por isso, o papel da Emater está atrelado ao futuro do próprio Estado.

Os responsáveis pela criação desse serviço tiveram uma visão de longo prazo. Os atuais governantes precisam estar atentos e garantir condições para que ele seja mantido e aprimorado. Nas comemorações pelo meio século é justo lembrar o que foi realizado, porém, é imprescindível projetar-se um futuro em que as conquistas obtidas sejam ampliadas. Não por mero discurso político, mas pelas exigências e os desafios que o mercado agrícola impõe de forma permanente.

 

CAXIAS DO SUL

Filó comemora 130 anos de imigração

Evento, realizado no parque da Festa da Uva, reuniu mil pessoas

 

O Rio Grande do Sul parou para comemorar, na sexta-feira 20, os 130 anos da imigração italiana no Estado. Em Caxias do Sul, o evento que mais atraiu público foi o filó realizado no restaurante do parque de exposições da Festa da Uva no sábado à noite. Segundo o secretário municipal de turismo, Daniel Guerra, cerca de mil pessoas participaram da promoção, que teve música, jogos e muita comida típica ao preço de R$ 5,00 por pessoa.

"Graças ao espírito de envolvimento de todos os distritos e da participação geral da comunidade, tivemos momentos de muita alegria, num clima de absoluta informalidade", descreve Guerra. Satisfeito com a receptividade à proposta de sensibilizar os caxienses a resgatar as tradições e valorizar a história dos imigrantes, ele anunciou na segunda 23 que o filó vai se repetir, um pouco antes ou durante a Festa da Uva marcada para o ano que vem. Além da gastronomia italiana, a noite, organizada pela Prefeitura, Círculo Cultural Ítalo-Brasileiro e Mitra Diocesana, teve a apresentação de nove corais, duas bandinhas e um grupo de teatro.

No domingo, ao final da tarde, também no parque da Festa da Uva, foi celebrada missa. Após, espetáculo Som e Luz. Reestruturado, o Som e Luz ganhou uma sonoridade melhor, equiparando-se à qualidade da iluminação, que havia sido melhorada no ano passado. Mas a temperatura baixa de domingo expôs uma deficiência: a falta de proteção nas arquibancadas contra o frio. "Vamos tentar buscar, numa parceria público-privada, recursos para adequar a estrutura", afirmou o secretário de Turismo, consciente de que sem melhorias será difícil atrair o turista, em especial aquele que vem de regiões mais quentes do país.

Seqüência - A programação pelos 130 anos da imigração italiana no RS prossegue até o final de agosto em Caxias. Para os próximos dias estão previstas exposições em Criúva, nos museus Municipal, Júlio de Castilhos e da Uva e do Vinho, além de concerto da Orquestra Sinfônica de Padova e do Vêneto, dia 31 de maio, às 21 horas, no UCS Teatro, e jantar de confraternização, às 20 horas de 5 de junho, no Salão Paroquial de São Romédio.

 

Jovens participam de caminhada pela paz

 

Engajados à Campanha da Fraternidade 2005, 700 jovens da catequese de Crisma e Pré-crisma da Paróquia de Lourdes, em Caxias do Sul, participaram no domingo 22 da Caminhada pela Paz pelas ruas do bairro. O evento, além de integrar gincana promovida pela Paróquia, esteve inserido no Mutirão Nacional da Entrega de Armas da Campanha do Desarmamento, sugerido pela CNBB às igrejas do país.

 

Apae Caxias promove feijoada beneficente

 

No dia 12 de junho, a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Caxias do Sul promove mais uma edição da feijoada beneficente. Objetivo é arrecadar recursos para a manutenção da entidade. A expectativa é reunir 1,2 mil pessoas no Centro Esportivo do Sesi. Evento está marcado para as 12 horas, o valor do ingresso é R$ 25 e pode ser adquirido na Apae. Informações pelo (54) 3028-2417.

 

Prorrogado prazo para shows na Festa da Uva

 

Prazo de inscrição para os shows da Festa da Uva 2006, que encerraria nesta quinta 26 foi estendido até 5 de junho. Motivo principal: só sete artistas estavam inscritos até segunda 23. Todos artistas ou grupos do Estado, maiores de 18 anos, podem participar, mas a preferência é por shows regionais - italianos e gaúchos. Mais informações nos sites www.festuva.com.br ou www.Caxias.rs.gov.br

 

REPORTAGEM

Nova ofensiva tenta controlar o consumo de tabaco

Governo quer elevar o preço para diminuir o consumo e substituir a cultura do tabaco

 

O Ministério da Saúde vai começar mais uma ofensiva de opinião pública para tentar aprovar, no Senado, a convenção-quadro para o controle do tabaco. Na véspera do Dia Mundial de Combate ao Tabaco (31 de maio), os senadores receberão uma cartilha com esclarecimentos sobre a convenção e a importância da ratificação do documento, para a política de saúde pública e a imagem internacional do Brasil.

O principal objetivo da cartilha é desmistificar a idéia de que a aprovação da convenção pode significar o desemprego dos trabalhadores que plantam o fumo em estados do Sul e Nordeste do país - o Brasil é o segundo maior produtor e o primeiro exportador de tabaco no mundo.

O material deixa claro que a convenção-quadro prevê a redução da produção, mas determina, por outro lado, que o governo crie mecanismos de substituição de culturas, sem perdas para os trabalhadores. Já foi encaminhada ao Ministério da Fazenda uma proposta de contribuição financeira que incidiria sobre o preço dos cigarros no Brasil. A proposta visa reduzir o consumo pelo aumento do preço do produto final ao consumidor e criar, com os recursos arrecadados, um fundo para a substituição da cultura do tabaco.

Preço - Embora para os padrões de renda do brasileiro o valor de uma carteira de cigarros seja elevado - em média R$ 2 -, o Brasil está em sexto lugar no ranking dos cigarros mais baratos do mundo - atrás apenas de Taiwan, Indonésia, Rússia, Espanha e Argentina. Na Inglaterra, um maço custa em média o equivalente a R$ 20.

Segundo a diretora do Programa de Controle de Tabagismo da Organização Mundial de Saúde (OMS), Vera Luiza da Costa e Silva, a experiência mundial mostra que a elevação no preço dos cigarros se reflete na imediata redução da quantidade de fumantes. Mas, faz crescer o contrabando, que no Brasil já é responsável por 40% do cigarro comercializado.

Campanha - Em outra frente, vem aí mais uma campanha de massa para combater o consumo de tabaco no país. Um dos objetivos dessa ação é atingir especialmente o público jovem - 90% dos fumantes brasileiros começaram a consumir cigarro antes dos 19 anos de idade.

Motivos não faltam para essa nova investida contra o tabagismo. As pesquisas mais recentes divulgadas pela OMS indicam que 35 milhões de brasileiros fumam. O mais trágico resultado dessa fumaceira constante é a morte de cerca de 200 mil pessoas por ano em decorrência do tabagismo (dado é de 2002). E entre as vítimas estão os fumantes passivos. A fumaça do cigarro é considerada a maior responsável pela poluição doméstica. Segundo a OMS, em 20 minutos de contato com a fumaça o organismo começa a sofrer as primeiras alterações fisiológicas.

Proporcionalmente, o consumo de cigarros no Brasil não cresceu nos últimos anos. Mas o fumo resiste bravamente a pelo menos 19 anos de campanhas e introdução de leis que divulgam os seus males à saúde e restringem o seu consumo.

 

Fuma-se mais no Sul e no meio rural

 

O percentual de fumantes no Brasil é considerado alto quando comparado com outros países, principalmente da América Latina. Fuma-se mais na região Sul (42% dos habitantes). Porto Alegre é a cidade brasileira com os maiores índices conhecidos de câncer de pulmão no país. Embora se fume menos na região Nordeste (31% da população), este percentual é ainda considerado muito alto.

A proporção de fumantes na zona rural é maior do que na zona urbana em todas as faixas etárias. A prevalência de fumantes entre crianças e adolescentes (com idade entre 5 e 19 anos) é de 5% na zona urbana contra 6% na zona rural. Na população rural se encontram 30.531 menores de 10 anos fumando, comparados a 1.412 fumantes da população urbana na mesma faixa de idade (dados de 2003). Provavelmente, esta diferença é causada pelo acesso limitado ao sistema de saúde e o baixo nível de informação sobre os malefícios do cigarro, associados à grande penetração das propagandas na zona rural e à necessidade de se copiar o estilo de vida urbano.

No Brasil, um terço da população adulta fuma, sendo mais de 12 milhões de mulheres e em torno de 17 milhões de homens. Atualmente, existem no país cerca de 3 milhões de fumantes entre a população com 5 a 19 anos de idade

A maioria dos fumantes tem entre 20 e 49 anos de idade. Os homens fumam em maior proporção que as mulheres em todas as faixas etárias. Porém, a mulher vem aumentando sua participação no número de fumantes, sobretudo na faixa etária mais jovem.

 

A principal causa de morte evitável

 

As doenças decorrentes do tabagismo são a principal causa evitável de morte do planeta. Segundo a Organização Mundial de Saúde, o cigarro causa mais mortes prematuras do que a soma das mortes causadas por Aids, cocaína, heroína, álcool, incêndios, acidentes de automóveis e suicídios.

O alcatrão, um dos principais componentes do cigarro, é um dos mais potentes cancerígenos que o ser humano introduz voluntariamente no organismo. Além dele, um cigarro comum contém, aproximadamente, 4.700 substâncias tóxicas, incluindo a nicotina, a amônia, o monóxido de carbono e diversos agrotóxicos.

Por causa dessas substâncias, o fumo provoca, entre tantas conseqüências trágicas, 30% das mortes por câncer (observe quadro). Mas, se o cigarro faz tanto mal, por que é tão difícil abandoná-lo? O inglês Martin Raw, uma das maiores autoridades mundiais em campanhas antitabagistas, em visita ao Brasil no início deste ano afirmou que o consumo de cigarros está relacionado com o preço e que a nicotina vicia tanto quanto a heroína e a cocaína. Foi além: são poucos os fumantes que deixam o vício sem ajuda - na Inglaterra, apenas 3%.

 

Pesquisa revela: fumo prejudica fertilidade

 

Pessoas que fumam cinco ou mais cigarros por dia podem ter sua fertilidade prejudicada. Segundo o urologista Fábio Firmbach Pasqualotto, nos homens, o cigarro diminui o número, a movimentação e a forma dos espermatozóides. Nas mulheres, o fumo torna o óvulo menos fértil.

A constatação veio por meio de pesquisa realizada na Universidade de Caxias do Sul em parceria com a Cleveland Clinic Foundation, um dos maiores centros de pesquisas médicas do mundo. Pasqualotto, junto com as médicas Eleonora Bedin Pasqualotto e Mirian Salvador, comparou dois grupos de fumantes; um fértil e outro infértil. "Quem fumava de 1 a 1,5 cigarro por dia era fértil; quem fumava cinco ou mais, infértil", observa o urologista. "Não significa que o fumante não pode ter filhos, mas o cigarro diminui os antioxidantes relacionados à fertilidade, piorando a qualidade do sêmen e do óvulo", explica Pasqualotto.

 

No mundo há 1,2 bilhão de fumantes

 

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), no mundo, existem 1,2 bilhão de pessoas que fumam, ou um quinto da população. No Brasil, são 35 milhões de fumantes que acendem, em média, 600 milhões de cigarros por dia. Assim, o tabagismo passivo é um problema de saúde pública em todos os países.

Estima-se que até o ano 2025, o tabagismo estará relacionado a 500 milhões de mortes, 200 milhões correspondem às crianças e adolescentes que vivem hoje em todo o mundo. Na fumaça dos produtos oferecidos e promovidos pela indústria fumageira (cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos etc.) podem ser detectadas cerca de 4700 substâncias tóxicas diferentes, dentre elas o alcatrão, a nicotina, o monóxido de carbono, resíduos de fertilizantes e pesticidas, metais pesados, e até substâncias radioativas.

 

Cigarro tira 10 anos de vida, diz pesquisa

 

A mais longa pesquisa já feita sobre os efeitos do tabaco revela que, em média, os fumantes morrem dez anos antes e mostra que deixar de fumar em qualquer idade reduz o risco de morrer por doenças ligadas ao fumo. Os resultados foram publicados no British Medical Journal no ano passado, meio século depois que as conclusões iniciais dessa mesma pesquisa confirmaram que fumar causa câncer de pulmão.

A pesquisa foi feita com 34.439 médicos nascidos entre 1900 e 1930, que tiveram seus hábitos tabagistas monitorados desde 1951. Desde que o estudo começou, o fumo matou 100 milhões de pessoas no mundo inteiro. Entre metade e dois terços dos fumantes teriam morrido por causa desse hábito.

 

Vacina em teste eleva chance de deixar vício

 

Uma vacina experimental contra a nicotina, batizada de CYT002-NicQB, ajudou 40% dos fumantes freqüentes a largar o hábito durante seis meses num teste clínico realizado com 341 voluntários. A vacina, desenvolvida por uma empresa suíça, teve os resultados de seu teste da segunda etapa dos ensaios clínicos em seres humanos divulgados na semana passada e pode chegar ao mercado em 2010.

Para surpresa dos cientistas, 31% dos pacientes que receberam placebo - uma substância inócua - também pararam de fumar, o que traria a eficiência média da vacina para cerca de 10%. O grau de abstinência variou de acordo com a resposta do sistema imunológico. Daqueles que produziram um número alto de anticorpos - tiveram uma reação forte -, 57% abandonaram o hábito.

 

AGRONEGÓCIO

Biodiesel, novo estímulo à agricultura familiar

Com a mistura do óleo vegetal ao diesel, o Brasil impulsiona agronegócio

 

O presidente Lula aprovou, na quarta, 18, a lei que permite a mistura de 2% de biodiesel ao óleo diesel de petróleo, o que deve gerar um mercado de 800 milhões de litros. Também autorizou a criação do selo "Combustível Social" para o biodiesel. Em 2013, segundo o governo, o percentual de adição deverá ser de 5%. O biodiesel é um combustível pouco poluente derivado de fontes renováveis. Ele pode ser produzido a partir de gorduras animais ou de óleos vegetais, tais como mamona, dendê. O país importa 6,4 bilhões de litros de óleo diesel por ano. Segundo o Ministério de Minas e Energia, a produção de biodiesel significará uma economia anual de US$ 160 milhões com a importação de petróleo.

O incentivo ao combustível renovável deve gerar mudanças positivas no país. A primeira é o estímulo à agricultura, em especial à familiar, que terá de ampliar sua capacidade de produção para abastecer a demanda. O segundo efeito é ambiental, já que o óleo vegetal é bem menos poluente (leia acima). Por último, sua produção geraria empregos e fixação de agricultores na área rural.

A implicação social do projeto é a menina-dos-olhos do governo Lula, que inaugurou no mês passado, em Belém, a primeira fábrica nacional do combustível verde. A expectativa é que até 2008 aproximadamente 250 mil famílias estejam envolvidas na produção de biodiesel, podendo gerar ou manter empregados na agricultura 500 mil trabalhadores.

O óleo verde espalhou onda de entusiasmo no país. A pesquisa nacional, em parceria com empresas e indústrias automobilísticas, está trabalhando a todo vapor. Porém, os críticos dizem que o preço do biodiesel é mais elevado do que o diesel comum. "Para produzir um litro de biodiesel de soja é preciso despender energia de quase um litro de gasolina", calcula o físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite.

Alertam ainda que a potência do motor fica reduzida com o novo óleo. Tudo isso é verdade, respondem os defensores do biocombustível. "Só que os benefícios com a redução da importação do diesel e o ganho social, com estímulo do agronegócio e a produção de um combustível menos poluente, compensam os problemas", diz o engenheiro Hugo Ferreira, da Sociedade dos Engenheiros da Mobilidade (SAE/Brasil). O Brasil busca caminho para auto-suficiência em combustíveis. A União Européia, por exemplo, é a maior produtora mundial com 2,2 bilhões de litros anuais de biodiesel.

 

Mamona, boa aposta à produção de diesel verde

 

A mamoneira é uma planta da família das Euforbiáceas (Euphorbiacease), do gênero Ricinus e da espécie communis L. Entre seus parentes mais próximos estão a mandioca, a borracha e o pinhão. Ela é considerada inço, pois cresce espontaneamente em terrenos baldios e chega a ser considerada praga em algumas cidades. Agora surge como grande opção para diversificar a produção e aumentar a renda dos agricultores: o biodiesel.

Bastante produtiva, é mais conhecida como carrapateira, rícino ou palma christi. A mamoneira é uma planta exótica, de origem afro-asiática. Nativa e muito resistente, é encontrada em grande quantidade na Etiópia e na Índia. Há indícios de que os egípcios atribuíam valores curativos à mamona. Em várias pirâmides foram encontradas, em grandes quantidades, sementes dessa planta, principalmente nos sarcófagos que guardavam as múmias dos faraós. No Brasil, as sementes foram trazidas, possivelmente, pelos escravos no século XVI.

Aproveitamento - Da folha à semente, a planta tem vários usos. Com ela são fabricados mais de 500 produtos. A folha serve de matéria-prima para indústrias de alimentos, cosméticos e higiene. O caule fornece fibras para indústria têxtil e fabricação de celulose. Da semente se extrai o óleo. Cascas e caule rendem matéria-prima para a produção de substratos orgânicos no plantio. O adubo é rico em nutrientes e combate nematóides.

 

Clima e solo fazem do Brasil país rico em oleaginosas

 

Pelas características de solo e clima, o Brasil produz diversas oleaginosas que servem de matéria-prima para o biodiesel.

De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove), a região Sul se destaca pela produção de soja, girassol, colza, além da mamona - o RS é o terceiro maior produtor de oleaginosas com destaque para a soja, colza e girassol. O potencial abrange gordura animal e óleo de peixe.

Já a região Centro-Oeste produz soja, mamona, algodão, girassol, pequi e macaúba. No Norte do país, encontram-se a palma, soja, buriti e macaúba - no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Tocantins, babaçu. A região Nordeste surge como grande produtora de mamona, babaçu, soja, palma, algodão e dendê.

Fontes - Porém, o desafio do programa para obtenção de biodiesel é a adequação dos centros de pesquisa nacionais. A Embrapa já trabalha no desenvolvimento de tecnologias agroindustriais para obtenção de biocombustíveis. Um projeto, liderado pelo pesquisador da Embrapa Soja, Décio Luiz Gaz-zoni, envolve mais de 100 pesquisadores e quase 30 instituições. "Serão estudadas inicialmente as cadeias produtivas de soja, girassol, canola, mamona e dendê e dos co-produtos resultantes (principalmente glicerol e tortas)", explica Gazzoni.

O biodiesel (ésteres mono alquila), combustível de queima limpa derivado de fontes naturais e renováveis, pode ser obtido também com o uso do amendoim, gordura animal e óleo de peixe. A alternativa renovável resolve dois problemas ambientais ao mesmo tempo: aproveita resíduos, aliviando os aterros sanitários, e reduz a poluição atmosférica. É uma alternativa para os combustíveis tradicionais.

 

Seca causa demissões no meio rural

Número de demitidos cresceu 9,9% no Sul e 18,7% no Centro-Oeste

 

A quebra da safra, a redução dos preços internacionais dos produtos agropecuários e a situação cambial já afetaram a renda do produtor e reduziram o fôlego exportador do setor. Agora, começam a provocar as demissões no meio rural. O número de demitidos aumentou 18,7% no Centro-Oeste e 9,9% no Sul, segundo dados do Ministério do Trabalho.

O coordenador do Instituto de Formação Sindical Irmão Miguel (Ifsim), ligado à Fetag, Sérgio Poletto, garante que demissões também estão ocorrendo no meio agrícola gaúcho. "Não temos números, mas essa preocupação está sendo levada a Brasília para o Grito da Terra", adianta Poletto ao CR.

Tempo de cortes também no setor de máquinas devido à queda de renda da agricultura. Fabricantes de máquinas e implementos agrícolas reduziram atividades e promoveram dispensas de pessoal. A CUT e a Força Sindical calculam que, em todo o país, foram demitidos 4.000 trabalhadores, quase 10% do quadro da indústria agrícola.

A projeção do Produto Interno Bruto da agropecuária para 2005 já reflete a crise. Atingido pela forte seca no Sul e em partes do Centro-Oeste do país, o setor agropecuário registrará uma redução de 3,6% em seu PIB neste ano, prevê pesquisa realizada pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-USP). "É a maior queda de produção por razões climáticas em 20 anos, representando perda de R$ 10 bilhões para o agronegócio", disse o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. No ano passado, o PIB do agronegócio foi 2,55% maior que o registrado em 2003, somando US$ 533,98 bilhões.

O PIB da agricultura, considerada apenas a soma das riquezas produzidas dentro das propriedades, terá um recuo ainda mais forte: 6,1%. A pecuária deve se manter estável, com um leve crescimento de 0,1% em 2005. É o pior desempenho desde a queda recorde de 7,13% registrada em 2000, segundo dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Diante deste quadro e da quebra da safra, o setor teme a redução na área de plantio. "O produtor vai reduzir também custos e tecnologia empregada e trocar culturas", prevê o presidente da Federação da Agricultura do RS (Farsul), Carlos Sperotto. "Há descompasso entre o custo de produção e a receita da lavora", emenda. Por isso, o setor produtivo reivindica aporte de R$ 81 bilhões de crédito para a safra de verão.

 

VIDA AGRÍCOLA

Engº. Agrº. José Zugno

Oliveira medicinal

A oliveira é utilizada para dois fins: azeitonas e Domingo de Ramos. A planta serve também para fins medicinais?

PEDRO PAULO PASA

Ibarama -RS

 

A oliveira, símbolo da agricultura antiga nas regiões mediterrâneas, produz as preciosas azeitonas consumidas ao natural em conserva e matéria prima para a extração do afamado "azeite de oliva".

A azeitona contém glicídios, protídeos, enzimas, ácidos orgânicos, vitaminas, sobretudo B1 e B2, e importantes minerais como o cálcio. O óleo de oliva, extraído por pressão a frio, conserva tais componentes, que lhe dão a virtude de ser alimento excelente, também diurético e medicinal. Na antiguidade, o azeite de oliva teve numerosas aplicações terapêuticas tanto para o uso interno quanto externo.

"A folha de oliveira além da fama de antitérmica e cicatrizante, deve a descobertas modernas a reputação de ser um dos hipotensores vegetais de maior interesse. Hipoglicemiante, hipotensora, diurética, laxante são, dentre outras, propriedades das folhas de oliveira". (Segredos e Virtudes das Plantas Medicinais - Seleções da Reader´s Digest - Lisboa).

"O chá da folha é indicado para diabetes, arteriosclerose, gota, reumatismo e equilibra a pressão". (Plantas e Ervas - Pe. Ivanir Franco e Prof. Vilson Fontana - Erechim-RS).

"As folhas combatem a febre e baixam não só a pressão arterial como também a taxa de glicose". (As Plantas da Saúde - Marcos Gomes - Ed. Paulinas- SP).

"O azeite é muito usado em remédios e fricções. O chá ou tintura das folhas ajuda a baixar a pressão alta". (Plantas Medicinais - Irmão Cirilo, lassalista - Francisco Beltrão - PR).

"Propriedades medicinais: baixa a pressão arterial, combate a febre, o diabetes; é depurativo, digestivo e dilata os vasos sangüíneos. Como usar: 5 gramas de folhas em 100 ml de água. Ferver rapidamente e deixar em infusão por 10 minutos. Tomar 3 vezes por dia antes das refeições. Óleo: tomar uma colher pequena antes das refeições". (Plantas que curam - Moacyr P. Rigueiro - Ed. Paulus - SP).

Domingo de Ramos - Tradicional cerimônia anualmente celebrada em todas as igrejas católicas da região para relembrar a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém montado num jumentinho: "Vê, teu rei vem a ti, Israel, afável e montado em jumentinho" (Zac.9,9). "A multidão estendia mantos nos caminhos, enquanto outros cortavam ramos de árvores e cobriam as estradas" (Mc.11,8).

Dentre os ramos, certamente estavam os de oliveira, tão freqüentes naquelas paragens, como atesta o Monte das Oliveiras, de tanta importância na história do Salvador; dele iniciou-se a caminhada a Jerusalém, nele, mais tarde, ocorreu a Ascensão do Senhor aos Céus. As oliveiras de hoje são lembrança daqueles fatos gloriosos.

Aqui, neste município e nos da região, a oliveira viceja muito bem, livre de doenças e pragas, porém frutifica pouco, principalmente porque os solos aqui são muito ácidos, enquanto nas regiões produtoras o solo é calcário, de reação alcalina, que a oliveira prefere. Entretanto, nossas oliveiras produzem abundantes ramos com muitas folhas para o festivo Domingo de Ramos.

 

Saúde

Medicamentos terão preços reduzidos

Com isenção de taxas, mil remédios ficarão até 11% mais baratos

 

Estão isentas do pagamento do PIS e Cofins 253 substâncias utilizadas na fabricação de medicamentos. Com isso, cerca de mil remédios, usados no tratamento de 60 doenças, terão o preço reduzido em até 11%. A medida foi anunciada na sexta, 20, pelo ministro da Saúde, Humberto Costa.

Entre os medicamentos incluídos no decreto estão antidepressivos, antialzheimer, anti-hipertensivos, antiasmáticos, anticoncepcionais, anticonvulsivantes, antidiabéticos, antiinflamatórios, antineoplásicos, antinfecciosos, antiparkinsonianos, antipsicóticos, anti-retrovirais, anti-reumáticos, hipocolesterolêmicos, imunomoduladores. Também serão beneficiados os pacientes que fazem tratamento para as hepatites B e C, esquizofrenia, osteoartrose, osteoporose, psoríase e hipertensão arterial pulmonar. A redução do preço terá variação de um Estado para outro porque depende também da alíquota do ICMS cobrada em cada localidade.

Para ter direito ao crédito, as indústrias precisarão encaminhar à Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (Cmed) pedido de isenção das taxas. Com a isenção, o governo deixará de arrecadar em impostos cerca de R$ 125 milhões por ano.

Também já foi publicada a resolução que permite a venda fracionada de medicamentos. As farmácias interessadas terão que pedir registro das vigilâncias regionais. O medicamento deve ser sempre separado por um farmacêutico e a venda não poderá ser feita em número inferior ao recomendado pelo médico.

 

Estado lança ações contra males do frio

 

No Rio Grande do Sul, as infecções respiratórias agudas representam 4% dos óbitos em crianças com menos de um ano e o aumento das internações hospitalares no inverno, especialmente na população de zero a cinco anos. Para enfrentar o frio, a Secretaria Estadual da Saúde lançou o programa Inverno Gaúcho com Saúde.

O programa prevê incentivo financeiro de R$ 5,1 milhões aos municípios para a abertura do terceiro turno de atendimento nos postos de saúde nos meses de junho, julho e agosto. Para receber os recursos as prefeituras devem se habilitar junto a Secretaria Estadual da Saúde até 30 de maio. Além disso, serão distribuídos aos municípios kits de medicamentos básicos para a população de zero a cinco anos. Haverá também um aumento de 20% nos serviços de radiologia, especialmente raio-x de tórax. "Objetivo é diminuir as internações hospitalares de crianças e abrir leitos para outras patologias", justificou o secretário Osmar Terra.

 

Alimentação & Saúde

Água de enlatados

 

A água dos enlatados pode ser utilizada no preparo dos pratos. Ela pode ajudar a dar um sabor extra à comida. O líquido, porém, não tem vitaminas e minerais. Ele contém apenas um pouco de amido, resultante do alimento armazenado na lata, sal e ácidos orgânicos em concentrações adequadas ao consumo. É esterilizada e, por isso, livre de microorganismos prejudiciais à saúde. A água deve ser utilizada imediatamente após aberta a lata. Exposta, ou mesmo sob refrigeração, a água dos enlatados pode se tornar um meio propício ao desenvolvimento de fungos e bactérias.

 

OPINIÃO

MST e outra humanidade possível

Leonardo Boff

 

Marx, Lênin e Mao jamais pensaram num tipo de revolução que fizesse esta síntese tão feliz entre luta e estudo, caminhada e festa

 

Que o Movimento dos Sem Terra (MST) luta pela reforma agrária todos sabemos. Que para ele terra não é apenas, como quer a cultura capitalista, meio de produção, mas é muito mais, é nossa casa comum, está viva, com uma comunidade de vida única e que nós somos seus filhos e filhas com a missão de cuidar dela e de libertá-la de um sistema social consumista que a devasta, isto é surpreendente.

Este é seu sonho maior, expressão do novo paradigma civilizatório emergente. Ele deixa para trás muita inteligência acadêmica que se orienta exclusivamente pela razão instrumental-analítica, funcional ao modo de produção atual que está ameaçando o futuro comum da Terra e da Humanidade. Captar esta novidade do MST e da Via Campesina é captar sua força de convocação para o Brasil e para toda a sociedade mundial.

Eles se encontram na ponta da visão alternativa de que outra humanidade é possível. Com suas práticas não obstante aqui e acolá as contradições inerentes ao processo histórico, estão mostrando sua viabilidade. Basta observar, com olho isento, o que dizem, como se organizam e o que fazem. As vítimas da ordem vigente dão corpo a um sonho novo.

Há dias, eu e minha companheira Márcia que apóia o MST desde sua fundação no acampamento Ronda Alta-RS, pudemos participar da marcha de Goiânia a Brasília. Foram dois dias de convivência e de marcha com aqueles 12.272 caminhantes. Precisa-se de muita acumulação de consciência solidária, de disciplina e de sentido do bem comum para fazer funcionar esse processo popular multitudinário com mais perfeição que uma escola de samba carioca. Nem falemos da comida pontualíssima, da montagem e desmontagem das barracas, da água potável abundante e do serviço sanitário. A preocupação ecológica era quase obsessiva. Se alguém, no dia seguinte, quisesse saber onde acamparam aqueles milhares, não o saberia porque a limpeza era tão minuciosa que sequer uma réstia de papel ficava para trás.

Entre os objetivos explícitos da caminhada, além da reforma agrária e da discussão de um projeto popular para o Brasil, havia o de "desenvolver atividades de solidariedade para fortalecer a luta e os sonhos do povo". Em função disso, por mais de duas horas, à tarde, promoviam-se palestras transmitidas pela rádio interna, seguidas de grupos de discussão. A mim me foi pedido falar sobre a nova visão da Terra e como cuidar dela à luz das sugestões da Carta da Terra. Passando pelos grupos vi a seriedade com que se discutia. Mas não só. A marcha se propôs "resgatar e promover a cultura brasileira através de canções, poemas, teatros e outras manifestações típicas do povo". Ao sermos acolhidos em sua barraca pelo grupo de Paraná (mais de 800 pessoas), ouvimos canções e poemas de rara beleza. Uma estrofe dizia: "Ouçam a harmonia de igualdade do homem pobre." Se o sistema nos atordoa, por todos os meios, com palavras "acumulação, consumo, riqueza, prazer", aqui o que mais se ouvia era "solidariedade, cooperação, justiça, homem e mulher novos, nova Terra". Quem está no melhor caminho?

Eu matutava comigo mesmo: seguramente Marx, Lenin e Mao jamais pensaram num tipo de revolução que fizesse esta síntese tão feliz entre luta e estudo, caminhada e festa. Um movimento que incorpora poesia e música será invencível. O MST nos dá sinais de que outra humanidade quer emergir.

 

Planejamento familiar

Frei Betto

 

É preciso tratar a educação sexual com profundidade, quebrando tabus e preconceitos. Não devemos ter vergonha de falar do que Deus não teve de criar

 

A Fundação Getúlio Vargas está divulgando o perfil da mãe brasileira (www.fgv.br/cps). Os dados, aqui arredondados por razões didáticas, são preocupantes. Em 2003, existiam cerca de 46 milhões de mães no Brasil - cerca de metade das mulheres brasileiras. Dito de outro modo: sem contar as meninas com menos de 10 anos de idade, de cada 100 mulheres brasileiras, 62 eram mães.

Cada mãe tinha em média cerca de três filhos. O número de filhos homens era maior do que o número de filhas. Porém, havia mais filhos homens morando com os pais do que filhas. O que prova que as mulheres formam família mais cedo do que os homens.

Em 1970, a mulher brasileira tinha, em média, 5,8 filhos. Dez anos depois, em 1980, ela já tinha decidido ter menos filhos: 4,4 filhos por mulher. Em 1991, este número baixou para 2,9 filhos. Em 2000, 2,3 filhos por mulher brasileira.

Aparentemente estamos nos aproximando do índice ideal de reprodução, 2,1 filhos por casal, ou seja, os dois que nascem "repõem" demograficamente os dois adultos que, pela ordem natural, morrerão antes deles.

Ocorre que as estatísticas são como biquínis. Escondem o essencial. O número de filhos nas classes altas, mais escolarizadas, decresce, enquanto ainda é grande nas camadas mais pobres.

A fecundidade de mulheres nas favelas cariocas é duas vezes maior do que nos bairros de renda mais alta, mas no caso de adolescentes a taxa é cinco vezes maior.

No Brasil, nascem mais meninos do que meninas. De cada 100 bebês, 51 são meninos e 49, meninas. De cada 100 mães, 60 têm mães vivas e 13 moram com a mãe, sobretudo as mais pobres.

Em 2003, de cada cinco crianças nascidas no Brasil, uma era filha de mães com menos de 18 anos de idade. A gravidez precoce aumenta, sobretudo nas classes mais pobres. Meninas de favelas fazem da gravidez um meio de se emancipar mais cedo da dependência familiar e também de serem respeitadas pelo segmento masculino.

Menina que fica grávida muito cedo tem dificuldade de continuar na escola. Se deixa a escola para cuidar do filho, não adquire qualificação mínima para ingressar no mercado de trabalho. Então, é grande o risco de cair na prostituição, tornando-se transmissora de doenças sexualmente transmissíveis. E o filho dificilmente escapa de virar criança de rua.

Segundo o Unicef (Fundo das Nações Unidas de Socorro à Infância), a educação escolar de uma menina tem mais valor social que a de um menino. Quanto menos tempo a mulher fica na escola, mais filhos terá no futuro. As que estudam mais têm menos filhos.

Cerca de 40% das mulheres entre 15 e 49 anos estão esterilizadas no Brasil - dado agravante, visto que se trata de um método irreversível e desnecessário. E enganam-se os que pensam que o aumento da miséria está associado ao da população. Mais importante que conscientizar os pobres sobre o planejamento familiar é promover a distribuição de renda. Há muitos países com baixa densidade demográfica e, no entanto, muito pobres.

Na América Latina, de cada quatro famílias, uma é chefiada por mulher. No Brasil, de cada 100 mulheres com mais de 50 anos, 71 vivem desacompanhadas de marido ou parceiro.

O governo está devendo à nação uma campanha intensiva de planejamento familiar. Não confundir com controle da natalidade, que é impositivo e autoritário. A mulher tem direitos sobre o próprio corpo e o casal deve ser educado para decidir como, quando e quantos filhos deseja ter.

Esclarecer o que é paternidade e maternidade responsáveis é uma obrigação não só do poder público, mas também das escolas e denominações religiosas.

O Catecismo da Igreja Católica, redigido pelo então cardeal Ratzinger, reconhece que "o Estado é responsável pelo bem-estar dos cidadãos. Por isso, é legítimo que ele intervenha para orientar a demografia da população. Pode fazer isso mediante uma informação objetiva e respeitosa, mas nunca por via autoritária e por coação" (2372).

Nas famílias, escolas e espaços religiosos, não basta favorecer a educação sexual - em geral, noções higiênicas para evitar doenças sexualmente transmissíveis. É preciso tratar o tema com profundidade, quebrando tabus e preconceitos. Não devemos ter vergonha de falar do que Deus não teve de criar.

A educação sexual só é completa quando acompanhada da afetiva. É imprescindível tratar de temas como amor, sentimentos, fidelidade, traição, separação, valores subjetivos, antivalores mercantilistas etc. Debater as concepções amorosas emanadas de filmes, telenovelas e clipes publicitários.

Sexo é como política, quanto menos se fala, mais bobagem se faz.

 

NACIONAL

Governo atende MST com promessa polêmica

Há forte resistência à atualização dos índices de produtividade

 

Depois de 15 dias de caminhada e confrontos com a polícia em Brasília - e em Porto Alegre, onde ocorreram manifestações da Via Campesina -, os cerca de 12 mil militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) comemoram na terça 17 os resultados da Marcha Nacional pela Reforma Agrária, que havia iniciado dia 2, em Goiânia. Das 18 reivindicações levadas, o governo, através do ministro do Desenvolvimento Agrário (MDA), Miguel Rossetto, negociou sete itens.

O governo reafirmou o compromisso de assentar 115 mil famílias em 2005 (em 2003 e 2004 foram beneficiados 118 mil) e 400 mil no mandato inteiro - até o final de 2006.

Outra questão negociada entre sem-terras e governo federal foi a reestruturação do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). O Ministério do Planejamento autorizou a contratação de 137 servidores já aprovados em concursos. E também a realização de um novo concurso, ainda este ano, com a abertura de 1.300 vagas. Foi assumido ainda com as lideranças do MST o compromisso de entregar mensalmente cestas básicas para cada família sem terra.

O ponto considerado mais importante por lideranças do MST, entre elas o coordenador Jaime Amorim, é a atualização de índices de produtividade - "exigência antiga, já que o índice está completamente desatualizado desde 1975 e havia necessidade revisão", afirmou à Agência Brasil, acrescentando: "Esta é a grande conquista da marcha".

O governo federal se comprometeu a publicar nas próximas semanas uma portaria interministerial com os índices de produtividade atualizados. Esses índices determinam qual deve ser a produção mínima para que a terra seja considerada produtiva. O ministério do Desenvolvimento Agrário já havia apresentado os índices atualizados em abril, entretanto, para serem colocados em prática, as alterações precisam da aprovação do Ministério da Agricultura. Esta é uma questão polêmica e o ministro Roberto Rodrigues já disse publicamente que não concorda com os critérios propostos - os ruralistas muito menos.

Continua - O governo federal prometeu ainda instituir um Crédito de Recuperação de Assentamentos, no valor de até R$ 6 mil por família. Além disso, reajustou o teto de financiamento dirigido de R$ 15 mil para R$ 18 mil. "Esperávamos que o teto do crédito investimento fosse para R$ 20 mil e tivéssemos um crédito novo para a reforma agrária. Esperávamos mais, trabalhávamos por mais. No entanto, não é por isso que vamos sair decepcionados", ressaltou Amorim.

O final da marcha e o atendimento a pedidos, no entanto, não significam o fim de ocupações e invasões. "A luta do movimento não pára. Terminamos uma etapa, que é a Marcha, agora vamos retornar aos Estados. A luta continua, os latifúndios improdutivos continuam no país, infelizmente."

 

Concentração torna reforma mais difícil

 

Não há como resolver imediatamente um problema historicamente crônico como o da reforma agrária. A posição é do coordenador geral do Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural (Nead), Caio França. O agrônomo, com mestrado em sociologia, atribui a dificuldade de realizar a reforma agrária à extrema concentração fundiária brasileira.

Em entrevista à agência ABr no início deste ano, ele havia destacado que mesmo que a política caminhe em uma velocidade e a demanda social em outra, os dados sobre famílias assentadas, estoque de terras e qualificação dos assentamentos demonstram que existe uma estratégia do governo federal para a execução da reforma agrária no país. Pelo jeito, essa estratégia necessita mudar.

Um dos pontos que precisam ser revistos é o critério para a seleção de terras desapropriadas. "A maior parte das terras desapropriadas em 2004, quase 50% delas, foi na região da Amazônia, que não é uma região de maior demanda por reforma agrária", diz o coordenador nacional da Comissão Pastoral da Terra, Isidoro Revers. Para ele, o Nordeste, o Paraná e o Rio Grande do Sul são os locais onde deveria haver maior número de terras desapropriadas.

 

especial

50 ANOS A CAMPO

Em 2 de junho de 1955 iniciava, em 11 municípios gaúchos, a trajetória da Associação Sulina de Crédito e Assistência Rural, hoje Emater. Cinqüenta anos depois, a empresa atende 482 dos 496 municípios do Estado. Somente no último ano, a Emater assistiu cerca de 800 mil pessoas no interior, mobilizando um exército de mais de 2.400 técnicos e extensionistas

 

A história da assistência técnica e extensão rural do Rio Grande do Sul vem sendo contada há 50 anos. A trajetória, hoje, é encenada pelos cerca de 250 mil agricultores familiares atendidos anualmente pela Emater/RS-Ascar. Com eles, estão a campo mais de 2.400 profissionais, em 482 dos 496 municípios gaúchos.

Em 2004, a instituição promoveu 1.135 cursos de capacitação onde participaram 50.707 alunos. A atuação da Emater também pode ser medida pela realização de mais de 3.000 eventos integrantes das áreas de saúde, cultura, social, educação etc. "No último ano, foi assistido um público de cerca de 800 mil pessoas", revela o presidente da Emater/RS, Caio Tibério da Rocha.

O trabalho de pesquisa e extensão faz a diferença na realidade agrícola. Enquanto nos últimos 40 anos a produção mundial dos principais grãos destinados à alimentação humana cresceu 172%, no Brasil se elevou em 496%. E a agropecuária tornou-se mais dinâmica a cada década. Nos anos 70, por exemplo, o tempo necessário para duplicar o Produto Interno Bruto (PIB) da agropecuária era de 15 anos, da indústria, 7,8 anos, e dos serviços, 7,7 anos. Já no início deste século, o tempo para a agropecuária foi encurtado para 13,1 anos, o da indústria aumentou para 193 anos e o de serviços, para 65,5 anos. Hoje, o agronegócio responde por 40% do PIB gaúcho.

Atividades - "Foi uma época que transformou o agronegócio na locomotiva da economia nacional, gerando R$ 1,00 de cada R$ 3,00 do que é produzido no Brasil", relata Caio Rocha. Boa parte dos bons resultados deve-se aos porta-vozes da extensão rural, profissionais que promovem o desenvolvimento sustentável, a melhoria da qualidade de vida da família rural, a geração de emprego e renda e a preservação ambiental.

O trabalho da Emater está distribuído nas mais variadas atividades educativas, sociais, culturais, esportivas, uma multiplicidade identificada pelos programas e iniciativas oficiais. Os profissionais da instituição orientam, levando os produtores a optar pelo sistema que melhor se adapta ao ambiente onde vivem e atuam. "A atuação da extensão rural, considerando toda pluralidade de público e de técnicas, é a forma de refrear o processo de exclusão", declara Caio da Rocha.

O trabalho está igualmente direcionado à agregação de valor nas cadeias produtivas regionais, com força para a instalação de agroindústrias domésticas. Duas outras atividades avançam no Estado: o turismo e o artesanato. Ambas geram emprego e ampliam a renda familiar.

Aos poucos, os agricultores abrem as portas de suas propriedades para praticar o turismo rural. Ajudam a compor 3% do PIB do Rio Grande do Sul. Já o artesanato significa fonte de geração de renda, intercâmbio de vivências e reciprocidade entre as pessoas. Segundo a Emater, o artesanato é responsável por 2,8% do PIB do Estado. "Parte desse arsenal de rara beleza foi resgatado pela extensão rural, num trabalho silencioso das trabalhadoras rurais."

Atenta aos avanços, a Emater amplia sua identidade ao desenvolver atividades agroecológicas, como o resgate de sementes crioulas. A instituição incentiva a multiplicação do material genético e a continuidade desta tradição entre as famílias. Com isso, eleva-se a produtividade, diminuindo os custos, incrementando a pesquisa, integrando agricultores e preservando a biodiversidade das regiões.

A manutenção do meio ambiente está, igualmente, contemplada na inclinação da agricultura familiar para não apenas produzir bens econômicos, mas também se tornar responsável pela conservação da natureza. Com atenção constante, o extensionista exerce tarefa diária junto aos assistidos no sentido de motivá-los a adotar sistemas que garantam a preservação.

 

Ascar foi inspirada em modelo mineiro

 

Em 2 de junho, comemora-se os 50 anos dos serviços de extensão rural oficial no Rio Grande do Sul. A data marca a fundação da Associação Sulina de Crédito e Assistência Rural (Ascar). Esse serviço surgia com o objetivo de preencher duas necessidades: o desenvolvimento da agricultura e o bem-estar das populações rurais. Os médios e grandes produtores eram atendidos pela estão Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio do Estado.

Terceira empresa de extensão rural do país, a Ascar foi organizada nos moldes dos serviços de extensão rural que existiam em outros países. Em Minas Gerais e na região Nordeste iniciavam os trabalhos nessa época. A criação da instituição teve a participação financeira, em partes iguais, do Ministério da Agricultura, do Escritório Técnico da Agricultura Brasil-Estados Unidos e da Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio do Estado.

A primeira denominação foi Escritório Técnico de Agricultura Projeto 11-Ascar, relacionado aos 11 primeiros municípios onde o serviço passou a funcionar. A experiência da Ascar mineira serviu de modelo para o projeto implantado no RS. Na reunião de fundação, em Porto Alegre, foi aprovado o estatuto da instituição, que se mantém até hoje. Ali está definido que a Ascar é uma associação civil, sem fins lucrativos.

A primeira diretoria da Ascar foi formada por Kurt Weissheimer, presidente; Geraldo Veloso Nunes Vieira, vice-presidente; Mário Fonseca, secretário, e Adel Carvalho, tesoureiro. Em março de 1977, é fundada a Associação Rio-grandense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater/RS), que passa a atuar juntamente com a Ascar.

 

Programas atendem índios e quilombolas

 

As comunidades indígenas de etnias kaingang e guarani do RS fazem parte dos públicos assistidos pela Emater/RS-Ascar, dentro do objetivo de melhorar a qualidade de vida das famílias rurais, incluindo, em especial, as populações diferenciadas.

Para isso, a extensão rural promove ações que aumentem a renda, estimulem a organização social e cultural, o conhecimento e a defesa da biodiversidade. Com relação aos indígenas, a atuação se dá no sentido de reconstruir sistemas sustentáveis com características culturais e ambientais favoráveis, valorizando os saberes.

No ano passado, os índios foram contemplados com 40 projetos do programa RS Rural Indígenas. Para 2005, a Emater confirma a execução de 23 projetos para as comunidades kaingang e 17 para as guarani, beneficiando cerca de 2.500 famílias. O investimento projetado é de R$ 5,5 milhões. "A instituição trabalha em parceria com as comunidades e outras entidades, respeitando as diferenças étnicas e culturais", afirma a antropóloga Mariana Andrade Soares, que atua no Núcleo de Desenvolvimento Social da Emater.

Um dos exemplos do trabalho da extensão rural oficial com as comunidades indígenas está nas ações de segurança alimentar, com a produção de alimentos de subsistência, respeitando a cultura das lavouras comunitárias ou familiares. Entre as culturas, estão mandioca, milho, feijão, batata-doce, amendoim, abóbora, melancia e hortaliças. Além disso, há o resgate de sementes tradicionais da região, assim como a criação de galinhas caipiras, suínos e vacas leiteiras.

Até o dia 10 de maio, o Rio Grande do Sul tinha apenas cinco comunidades quilombolas (remanescentes de quilombos) identificadas. "Durante os últimos 24 meses, extensionistas venceram obstáculos para resgatar a história das quilombolas", revela a antropóloga.

A partir do diagnóstico feito a campo pelos extensionistas, foram identificadas 42 comunidades quilombolas, somando 1.400 famílias. Elas estão localizadas em 28 municípios gaúchos de oito da 10 regionais da Emater. A partir do levantamento, o governo elaborou ações que vão desde a habitação até o abastecimento de água, passando por trabalhos que possibilitem a geração de renda.

 

Ações diferenciadas para as mulheres

 

Garantir que as mulheres gaúchas tenham maior acesso aos recursos públicos, como terra, crédito e oportunidades de formação em atividades agrícolas é uma das metas da Emater. Em 2004, o trabalho permitiu a formação de 109.676 grupos e capacitação de lideranças femininas no Estado.

Conforme dados da Emater, em 2004 a instituição prestou ainda atendimento a 4.902 grupos, que reuniram 103.361 mulheres. Além disso, no ano passado 29.190 mulheres receberam capacitação em artesanato (palha de milho, lã crua, flores pintura, bordado, crochê, jornal, macramê, hardanger, tapeçaria com retalhos e aproveitamento de material reciclável).

Entre as ações de assistência à mulher, estão a promoção da cidadania e organização social, políticas de gênero destinadas às comunidades indígenas, remanescentes de quilombolas, pescadores artesanais e assentados. Os programas do governo do Estado executados pela Emater também contemplam iniciativas na área da educação e a promoção em saúde e lazer.

 

Igreja

Brasil é marcado pela devoção a Maria

No país, Nossa Senhora é invocada através de 123 diferentes títulos

 

O Brasil é um dos países com maior devoção mariana do mundo. Como ocorre todos os anos, as manifestações de apreço à mãe de Deus, no Brasil, comovem e atraem multidões de norte a sul do país. Na Serra gaúcha, um exemplo dessa devoção é a Romaria de Caravaggio, realizada nesta quinta-feira 26. "Os católicos brasileiros amam sua mãe, Nossa Senhora, seja qual for, de Nazaré, no Norte, ou de Caravaggio, no Sul, que são expressões de proteção e do amor de Deus ao povo brasileiro", salienta dom Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida (SP).

Matéria da Revista Família Cristã, edição de outubro/2004, feita pelo escritor mariano e pároco da paróquia N. Sra. da Conceição Aparecida, de Aparecida (SP), padre Eugênio Antônio Bisinoto, destaca que a devoção mariana se revela na veneração especial que as pessoas fazem a Nossa Senhora. "Essa prática é expressa de diversas maneiras, como orações, festas, meditações, cantos, consagrações, romarias, santuários, imitação das virtudes de Maria, entre outras". Maio, por exemplo, é consagrado a Maria.

Padre Eugênio afirma que o povo brasileiro é particularmente devoto de Maria, respeita-a como mãe e rainha e chama-a carinhosamente de Nossa Senhora. Na religiosidade popular, Maria ocupa, entre todos os santos, no céu e na terra, um lugar preferencial. A presença de Nossa Senhora faz parte da vida brasileira desde a chegada de Pedro Álvares Cabral.

O navegador português, que aportou em terras brasileiras no ano de 1500, era devoto de Maria e levava sempre consigo a imagem de Nossa Senhora da Esperança. Aliás, os títulos de Nossa Senhora são muitos. Uma pesquisa da professora, historiadora e folclorista Nilza Botelho Megale, revela que, no Brasil, a Virgem Maria é venerada através de 123 diferentes invocações. "Como é impossível conhecer todas, certamente temos mais de 150 invocações", estima Nilza.

A mais conhecida e a que mais integra a religiosidade popular brasileira é a devoção a Nossa Senhora Aparecida. Existem, no país, pelo menos cinco catedrais e 296 paróquias com esse título. Matéria da Família Cristã revela que no Brasil 38 catedrais, 198 dioceses e 13 prelazias têm nomes marianos. Há 3.216 paróquias com um dos nomes de Maria. São 130 institutos masculinos de vida religiosa radicados no Brasil, 40 dos quais com o nome da Virgem Maria. E dos 281 institutos femininos, 110 levam o nome de Maria.

 

Invocações diferentes enriquecem devoção

 

Ao longo da história da Igreja, Nossa Senhora recebeu muitos nomes dados pelo povo. O liturgista F. G. Holweck catalogou cerca de 1.025 títulos marianos, de acordo com a Enciclopédia Católica (Itália). Cada um tem sua história. A de Nossa Senhora de Lujan, padroeira da Argentina, por exemplo, foi "exportada" do Brasil.

Em 1630 um fidalgo português decidiu erguer em Córdoba, Argentina, uma ermida para a Imaculada Conceição e encomendou a imagem a um brasileiro. Já na Argentina, às margens do rio Lujan, o carro de boi que levava a imagem empacou e só andava ao retirá-la. Foi o suficiente para o povo interpretar que o desejo da Virgem era permanecer ali. Hoje há uma grande basílica no local.

 

Fé no Corpus Christi

Padre Zezinho

 

Celebrar Corpus Christi é mais que crer na Eucaristia. É assumir suas conseqüências

 

Os católicos são convidados pelo dogma da Eucaristia a cuidar bem do corpo humano e a respeitá-lo em sua sacralidade, sem medo e sem tabus, mas também sem bandeiras erradas. O corpo humano é o que é, com seus valores e suas misérias. Nada de endeusá-lo ou demonizá-lo. É bom. Não é sujo e não é lixo, porque Deus não cria nem a maldade, nem a sujeira, nem o lixo.

Tem seus limites e tem suas possibilidades. O da mulher e o do homem. É sem dúvida uma complexa e maravilhosa máquina, um complexo e maravilhoso composto orgânico cheio de vida que mudou a face da Terra, para o bem e para o mal. Foi essa máquina que fez o que fez nesse planeta. A mente humana jamais teria conseguido isso sem os seus cúmplices: olhos, braços, pernas, boca, ouvidos, dedos, órgãos reprodutivos, pés, circulação, sistema nervoso, juntas, articulações...

Por isso, faz enorme sentido festejar o corpo sagrado do mais Filho dentre todos os filhos de Deus. Alguém por cuja causa temos a coragem de chamar a Deus de Pai e nos declaramos filhos Dele.

Nesta era do corpo humano nu, exposto nas telas, exibido, mostrado sob todos os ângulos, explorado, comprado, vendido, banalizado, endeusado, entronizado, erotizado, mercantilizado, cantado em verso e prosa, filmado, teatralizado, malhado e também torturado e massacrado, faz muito sentido, urgente até, buscar uma referência que eleve o conceito de corporeidade. Não basta ter um corpo sadio, malhado e bonito. Isso ainda não faz nem o homem nem a mulher. É apenas estrutura ou fachada do monumento que um ser humano é ou pode vir a ser.

De repente, um corpo oferecido em sacrifício e torturado numa cruz; depois, outra vez, oferecido misticamente sob as espécies de pão e de vinho, também eles esmagados e frutos do suor e do trabalho humano podem dar enorme sentido aos nossos corpos. Se soubermos o que fazer com ele, certamente influiremos no mundo, para melhor. Se o usarmos como isca para ganhar fama, emprego, posição, dinheiro e vantagens, também influiremos, mas de maneira infeliz e muito, mas muito superficial. Valeremos pelas nossas medidas.

Nós, católicos, celebramos a festa do Corpo de Cristo dado em comunhão para entender isso. É mais do que crer na Eucaristia. É assumir suas conseqüências. Na era do poder do corpo, temos feito o que com o nosso? Comungamos por quê? Com quem? Para obter o quê? Aprendendo o que? Jesus deixou seu corpo nesse ritual com que finalidade? O que significa para nós comer deste pão e deste vinho transformados em corpo e sangue? Na festa da Eucaristia, da presença real de Cristo no pão e no vinho, reflitamos sobre tudo isso com carinho e fé.

 

Evento da CNBB aborda a dignidade da vida humana e as biotecnologias

Seminário sobre o tema ocorre de 3 a 5 de junho em Brasília

 

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), através do Instituto Nacional de Pastoral (INP), promove de 3 a 5 de junho de 2005, no Centro de Convenções Israel Pinheiro, em Brasília (DF), o seminário sobre "A dignidade da vida humana e as biotecnologias".

O objetivo desse seminário, segundo o secretário executivo do INP, padre Valdeir dos Santos Goulart, "é aprofundar, num diálogo aberto e fraterno, os temas polêmicos da atualidade, como a questão dos transgênicos, o uso dos embriões na pesquisa científica, o aborto dos anencéfalos e a despenalização do aborto". O secretário salienta que estão sendo convidados a participar desse seminário senadores, deputados, juristas, especialistas da área da saúde e outras pessoas que poderão ajudar na reflexão e nos debates sobre esses temas tão importantes para a sociedade brasileira.

O evento terá seis conferências, em quatro áreas distintas – saúde, direito civil, filosofia e teologia. O professor e padre Márcio Fabri dos Anjos profere a primeira e a última conferências. Na primeira, apresenta um "Panorama da problemática da vida humana diante das biotecnologias" e no final do evento vai conceder uma "Visão sintética dos trabalhos do seminário". Eliane Elisa Souza de Azevedo aborda a "Dignidade humana e as biotecnologias. Questões desde a Medicina" e Olinto Pegoraro trata da "Dignidade humana e as biotecnologias. Questões desde a Filosofia".

Paulo Silveira Martins Leão Júnior fala sobre "A dignidade humana e as biotecnolgoias. Questões desde o Direito"; e frei Antônio Moser, franciscano, aborda "A dignidade humana e as biotecnologias. Questões desde a Teologia". Cada conferencista terá dois debatedores, entre os quais o capuchinho gaúcho frei Luís Carlos Susin, que divide os debates da conferência de frei Antônio Moser com André Machado dos Santos. As oficinas e o plenário serão um momento oportuno para os participantes e convidados se manifestarem sobres cada um dos temas.

 

Caxias realiza semana sobre teologia e ética

 

De 6 a 10 de junho de 2005, o Curso de Teologia da Diocese de Caxias do Sul, coordenado pelo pároco da catedral, padre Leomar Brustolin, promove uma semana de conferências e debates sobre a "Teologia e a Ética do Cuidado". Objetivo é refletir a relação entre fé e práticas sociais a partir dos princípios da ética do cuidado. A semana, destinada a educadores, agentes de saúde, lideranças comunitárias e pastorais e demais interessados, será realizada no Colégio São José, das 19h30 às 22 horas. Será fornecido certificado de extensão universitária para quem obtiver mais de 75% de freqüência. Para participar basta adquirir o convite na secretaria da catedral. As vagas são limitadas.

 

Nova Palmira celebra festa de Caravaggio

 

No domingo, 29 de maio, a comunidade São Rafael, de Nova Palmira, Caxias do Sul, promove a festa de Nossa Senhora de Caravaggio, com solene missa celebrada às 10 horas pelo pároco, padre Luciano Royer. Ao meio-dia, haverá almoço de confraternização (com reserva de ingressos). A capela é atendida pela paróquia de Vale Real, que pertence à arquidiocese de Porto Alegre.

A comunidade São Rafael é uma das mais antigas da Serra gaúcha. Nova Palmira abrigou os primeiros colonizadores de Caxias do Sul. Essa estreita ligação influenciou o primeiro nome de Caxias do Sul - "Colônia dos fundos de Nova Palmira". Junto com a festa de Caravaggio, a comunidade também recorda os 130 anos da chegada dos primeiros imigrantes italianos ao Rio Grande do Sul.

 

Moeda falsa

Aldo Colombo

 

Muitas vezes na vida somos moedas falsas. Aparentamos valores que não possuímos.

 

Por anos e anos, um discreto camelô armou sua tenda na velha praça. Vendia apenas bugigangas. Não fazia propaganda de seu negócio e até parecia que não regulava bem. Algumas pessoas o pagavam com moedas e outras, simplesmente, não pagavam, garantindo que já o tinham feito. Ele aceitava suas palavras. A todos acolhia com a mesma bondade e o mesmo sorriso.

Ao aproximar-se a hora da morte, ele pediu a Deus: ao longo da vida aceitei muitas moedas falsas das pessoas, mas nem uma só vez eu as julguei em meu coração. Simplesmente supus que não sabiam o que faziam. Por favor, ò Deus, agora é a minha vez de ser julgado. Também sou moeda falsa e espero ser julgado com misericórdia.

E, no acerto final, ouviu do Juiz: como é possível julgar alguém que nunca julgou os outros? E no dia seguinte ele brilhava, como um diamante, em meio aos bem-aventurados.

Pobreza e misericórdia precisam, necessariamente, andar juntas. Todos somos pecadores e por isso, logicamente, precisamos da misericórdia do Pai. Ele é infinitamente misericordioso. Mais ainda, ele possibilita que nós mesmos escolhamos a maneira de julgamento: "Com a mesma medida que julgardes, sereis julgados". Não é suficiente julgar com misericórdia. Jesus vai além: não julgueis.

Muitas vezes na vida somos moedas falsas. Aparentamos valores que não possuímos. Cultivamos uma aparência que não condiz com a realidade. Dizemos que somos cristãos, mas temos atitudes de indiferentes. Rezamos pela manhã e passamos o dia como pagãos. Aos domingos louvamos alegremente o Senhor na Igreja e durante a semana, cuidadosamente, enganamos os irmãos.

No entanto existe uma diferença muito grande entre fraqueza e incoerência. Fracos somos todos, incoerentes não podemos ser. Fraco é aquele que, mesmo não consentindo, peca muitas vezes. Sente-se moeda falsa, mas não se conforma com isso. Incoerente é o que cultiva a mentira, a duplicidade, não tendo a mínima intenção de mudar. A vida está cheia de ambigüidades. Na mesma pessoa mora o santo e o pecador. O certo é que nunca alcançaremos a perfeição, embora devamos desejá-la.

A porta mais fácil de acesso ao céu é a da misericórdia. Se não somos santos, como gostaríamos de ser, sejamos, pelo menos, misericordiosos e com isso passaremos por essa porta. No Sermão das Bem-aventuranças, o próprio Jesus proclama: "Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia". No Banco da Misericórdia, mesmo as moedas falsas poderão ter valor.

 

Capuchinho morre vítima de acidente

Frei Ildo Giordani faleceu no dia 22 de maio, aos 55 anos

 

Um grave acidente automobilístico, ocorrido no trevo de acesso a Paraí, vitimou o capuchinho frei Ildo Giordani que, desde 2001, trabalhava em Marau como vigário paroquial e, a partir de 2003, também como juiz do Tribunal Eclesiástico de Passo Fundo. Filho de Elya Paulo e Delvina Maria Giordani, frei Ildo nasceu em São Valentim do Sul aos 14 de abril de 1950.

Ingressou no seminário de Vila Flores em 1964. Fez o noviciado em Marau no ano de 1973. Formou-se em Filosofia pela UFRGS, em Teologia pela PUC-RS e em Direito Civil pela Universidade de Passo Fundo. Foi ordenado sacerdote no dia 22 de outubro de 1977 por dom Paulo Moretto, em Bento Gonçalves.

Exerceu sua missão em Veranópolis, Paim Filho, Soledade, Fontoura Xavier, São José do Herval e Marau, atuando como professor, pároco e vigário paroquial. Entre 2000 e 2001 trabalhou na França, junto ao mundo muçulmano e, ao retornar, passou a atuar em Marau. Em 2003 foi nomeado juiz do Tribunal Eclesiástico de Passo Fundo.

Na sexta-feira, 20 de maio, ao acolher convite do governo provincial para que participasse de um curso "latu senso" sobre Direito Canônico na PUC-RS, disse, feliz: "Vocês estão confiando demais em mim. Espero corresponder a essa confiança". No domingo 22, retornava de Veranópolis quando teve a frente de seu automóvel cortada por um veículo que ingressava na pista. Frei Ildo morreu como viveu: alegre, espontâneo, disponível, cheio de entusiasmo, após um dia feliz junto ao povo que amava e onde esteve como frade e sacerdote. Foi sepultado no cemitério da capela das Almas, Linha Leopoldina, em Bento Gonçalves.

 

Cáritas Brasileira abre jubileu de ouro

 

Organismo da CNBB, a Cáritas Brasileira vai completar 50 anos. No Brasil, há meio século a Cáritas atua nas linhas da defesa e promoção dos direitos das pessoas que vivem em situação de exclusão social, nas mobilizações cidadãs e conquistas de relações democráticas; no desenvolvimento sustentável e solidário; no fortalecimento e organização da entidade.

Para iniciar as atividades celebrativas, a Cáritas está realizando o concurso "Cáritas Brasileira - 50 anos de solidariedade em defesa da vida", para a criação de um selo, que será utilizado nos materiais de divulgação e publicações do jubileu, em nível nacional, durante todo o ano de 2006. As sugestões deverão ser entregues até 6 de junho (etapa estadual). As três melhores de cada Estado participam da etapa nacional. Informações pelo telefone (51) 3286.1787 ou caritasrs@caritasrs.org.br

 

Curso da ADCE reúne empresários cristãos

 

A Associação de Dirigentes Cristãos de Empresa (ADCE) - Regional da Serra - promoveu mais um curso de reflexão voltado para a Doutrina Social da Igreja. Realizado no Centro de Pastoral, de 13 a 15 de maio, teve a presença de 45 empresários e empresárias. Com cerca de 40 horas de duração, o curso abordou temas como mundo globalizado, o cristão dirigente de empresa, o dirigente cristão de empresa e a família, fé e política, Jesus Cristo e seu projeto de vida. O próximo está marcado para os dias 7, 8 e 9 de outubro.

No dia 18 de novembro, a ADCE vai comemorar 20 anos de fundação em Caxias do Sul. Na oportunidade, serão homenageadas 20 personalidades que atuaram decisivamente na entidade. De caráter ecumênico, a ADCE se inspira na Uniapac, fundada há quase 100 anos na Bélgica, com o objetivo de divulgar a Doutrina Social da Igreja.

 

CNBB Sul 3 prepara assembléia regional

 

A Igreja do Rio Grande do Sul realiza, de 17 a 19 de junho, a 3ª Assembléia Regional da Ação Evangelizadora. O encontro será realizado em Porto Alegre. O presidente do Regional Sul 3, dom Dadeus Grings, enviou convocação aos representantes de todos os organismos da Igreja, presentes nas 17 dioceses do Estado. O tema escolhido para as discussões e reflexões será a "Promoção da dignidade da pessoa", em sintonia com o tema da orientação das Diretrizes da Ação Evangelizadora, da CNBB. A assembléia terá assessoria do teólogo padre João Edênio Valle.

 

Um romance com a vida

Wilson João

 

Céu é estar eternamente de romance com todas as realidades que amamos, cuidamos e cultivamos

 

Nossa sociedade está com a cara triste porque não está se dando tempo para enamorar-se da vida. Não se dá tempo de viver o essencial da vida, que é enamorar-se. Gasta-se todo o tempo e todas as energias em torno de coisas e não se sobra tempo e energia para romancear a vida. Romancear a vida é colocar tempero gostoso em tudo o que se faz e, na verdade, é o que permanece. Infelizmente gastamos demais energia e tempo naquilo que passa.

TODAS AS COISAS TÊM ALMA. A gente esquece disso. A flor tem alma, tem vida. A lua tem alma, tem vida. O átomo tem alma, tem vida. E para enamorar-se da vida é preciso descobrir, sentir e admitir que tudo tem vida, que tudo tem alma. Nossa sociedade é destruidora da terra, do vento, das matas e das fontes porque perdeu a sensibilidade e já não percebe mais vida nessas realidades. Já o poeta cantava: "e a fonte a cantar...!" Na verdade, ser poeta é atar um contrato de romance com a vida. Quando se toca a água e já não se sente a vida, tudo se torna objeto de uso e lucro. Tudo se torna descartável. Usa-se e joga-se fora. E a terra se torna um grande lixeiro.

TODAS AS PESSOAS TÊM ALMA. Mas não são tratadas assim. Até as crianças perderam o brilho nos olhos. Perderam o encantamento e se tornaram instrumentos nas mãos dos adultos que as manejam segundo a norma da sociedade de mercado. Valem pelo que consomem. Uma sociedade que tira a alma das crianças já está a caminho da autodestruição. Há uma sensação estranha no relacionamento entre as pessoas. Uma relação de "você para mim". Relação de uso. Assim é no mundo do trabalho, no mundo do esporte, do negócio, e muito mais, no mundo das relações emocionais e afetivas, no mundo mágico do sexo. Há um sexo sem alma. Apenas corpo e sensação do momento. Pornografia total. Toda relação sem alma é pornografia. Como conseqüência, troca-se de parceiros como convém. Usa-se e joga-se fora. É preciso acreditar que todas as pessoas têm alma, e tendo alma, elas merecem ser tratadas com respeito e elegância.

TER UM ROMANCE COM A VIDA é encantar-se. É o segredo. É parar. É sentir. É ir além. É tomar consciência que todas as coisas têm alma e são sensíveis. É tomar consciência que há uma ligação direta entre minha vida e cada vida que eu toco. É tomar consciência que, quando eu destruo a vida ao meu redor, estou destruindo a mim mesmo. Na verdade o que fica em nossa história pessoal, e que levaremos para a eternidade, é a ligação tu a tu com todos os sinais de vida deste universo. E o céu o que é, a não ser ver, sentir, pisar, andar, celebrar a vida que está em todo o universo? É fazer um passeio abraçado com a vida eternamente. O que é o céu, a não ser estar de romance eternamente com todas as realidades que amamos, cuidamos, cultivamos durante nossa pequena existência?

 

CULTURA DA IMIGRAÇÃO

O italiano que está em você

Luis Alberto De Boni

Professor, filósofo e escritor, reside em Porto Alegre

 

O professor Luis Alberto De Boni, nascido em Bom Jesus-RS, residente em Porto Alegre, é 100% italiano jurídico, e 50% italiano biológico.

 

"Para meus conhecidos e leitores de meus textos sobre imigração italiana, devo ser tido como um oriundo puro-sangue, de mãe e pai italianos. Engano! Se a legislação brasileira atual a respeito do sobrenome dos filhos valesse em 1940, quando nasci, e me tivessem dado o sobrenome materno, eu seria Luis Alberto Pereira de Lima.

Nascido num município de fazendeiros, em criança não percebi a fusão de culturas a que estava sujeito. E isto começava pela mesa, onde à abundância de carne de gado assada, ao feijão com arroz, à coalhada, aos bolos-fritos, aos sequilhos, misturavam-se polenta, tortèi, macarronada, codeghino, salame e vinho.

Só no final da II Guerra Mundial, soube que era um brasileiro suspeito e apenas tolerado. Os poucos filhos de alemães e italianos da minha cidade, ouvíamos estes desagradáveis versinhos: "Alemão batata, pé na bunda e mão na lata!" "Gringo polenteiro, come bosta de terneiro!" Percebi, porém, que as coisas mudaram, embora não tenha feito nenhuma ligação com um fato que movimentou a cidade: a volta dos pracinhas, que haviam combatido na Itália. Entre eles estava meu primo, Romeu Zuanazzi. Muitas festas e acalorados discursos de recepção, mas meus familiares resmungavam: "Fazem festa para o Romeu, mas não deixaram o seu Gelmino (avô do Romeu e italiano de nascimento) ir à praia do Arroio Silva-SC. De certo, temiam que ele fosse, a nado, encontrar-se com algum submarino do Mussolini!" Pelo final de 1947 e início de 1948, outra novidade. Os italianos começaram a se orgulhar da própria origem. E quando a Voz Amiga de Bom Jesus - serviço de alto-falantes da Igreja - colocava músicas como Santa Lucia, Le campane di San Giusto, Torna Sorrento, Marinarello..., a gringada estufava o peito e cantava.

É lógico que, naquele ambiente, minha geração não apreendeu o Talian. Eu sabia dizer: "Porca pipa! Fiol dun can! To nona in cariola!" Ríamos da vó Joana, nossa vó paterna, que nos pedia de serrar a porta. Uma minha irmã, que estudava em Caxias, quis mostrar ao namorado que aprendera falar Talian e lhe disse, para espanto da avó e da futura sogra: "Se te ciapo sensa braghe!" [Em lugar de: "Se te ciapo, sensa vergogna!]

No seminário dos capuchinhos, onde o regulamento proibia falar Talian, apreendi um pouco desta língua. Durante o noviciado li o Nanetto Pipetta e o Togno Brusafrati, para escândalo do mestre frei Urbano Poli, que esperava ver-me lendo livros mais espirituais e menos espirituosos. A importância dessas obras descobri-a 20 anos depois.

No seminário reparei que as propriedades dos habitantes da região eram bem menores que as dos fazendeiros, que os proprietários eram todos de origem italiana e que não tinham peões. Percebi que meus colegas tinham hábitos alimentares diferentes, comiam mais verduras - e como eram amargos os radicci - e menos carne, até hoje não os compreendo.

Bem mais tarde, interessei-me em saber algo de meu bisavô paterno, o velho Bacco, que emigrou para o Brasil. Pelos meus tios, soube que ele vinha do norte da Itália, perto da Áustria, e que fora soldado austríaco e depois soldado contra a Áustria. Mas só quando estudei na Alemanha, e de lá viajei pela Itália, descobri o que significava norte e sul daquela península. Trabalhando com imigrantes estrangeiros (os Gastarbeiter) na Alemanha, comecei a entender o que significou, para os imigrantes, abandonar a terra natal, dar um salto no escuro e cair no outro lado do Oceano." e-mail ldeboni@pucrs.br

De Boni continua de corpo, alma e estômago multiétnicos (Rovílio Costa).

 

Semana Cultural em Farroupilha homenageia a imigração italiana

Programação inclui filó, apresentações artísticas e missa

 

O Seminário Apostólico Nossa Senhora de Caravággio, em Farroupilha, realiza a IX Semana da Cultura Italiana de 10 a 18 de junho. O objetivo do evento é reviver a história dos imigrantes italianos que passaram, de geração a geração, os ideais de fé, trabalho e progresso.

A abertura oficial das atividades ocorre dia 10 de junho a partir das 18h30. Haverá apresentação do grupo teatral Qui Semo Noi, do tenor Dirceu Pastori, do grupo de dança Caminhos de Pedra e show com Inês Rizzardo. No sábado, 11, noite do filó, com comida típica e atrações artísticas, a partir das 19h30.

O evento continua no dia 15 de junho com noite cultural, quando apresentam-se o Grupo de Flautas Caminho de Pedras e o Musical Sul Paion. Em 17 de junho, encontro de corais, com grupos de Farroupilha. Caxias do Sul, Flores da Cunha, Bento Gonçalves, Carlos Barbosa e Garibaldi. De 13 a 17 de junho, visitas ao Museu da Imigração - escolas devem agendar com antecedência (54-261-1196).

O evento encerra em 18 de junho com missa italiana às 18h30. Após, Janta da Polenta. Para a programação noturna, a entrada é um quilo de alimento não perecível. Durante o dia, o ingresso custa R$ 0,50.

 

Guia de negócios saúda imigrantes

 

Para comemorar os 130 anos da imigração italiana no Rio Grande do Sul, o "Guia de Negócios Farroupilha" promoveu um concurso para a escolha da imagem da capa da sua 14ª edição, com o tema: Farroupilha, Berço da Imigração Italiana no RS - 130 Anos de História.

A obra "Os plantadores de sonhos", de Rosamaria Feltrin, venceu e vai ilustrar os 18.000 exemplares da edição de 2005. Em julho, durante a realização da Fenakiwi, será publicada uma obra histórico-jornalística da imigração italiana com a participação dos 45 municípios da Associação dos Municípios da Encosta Superior do Nordeste (Amesne), descrevendo seu perfil geográfico, econômico, cultural e social, com distribuição dirigida nos municípios que comemoram os 130 anos de Imigração Italiana no RS.

 

Washington desafia italianos na bríscola

 

O "Circolo della Brìscola di Washington", Estados Unidos, iniciou nesta semana e prossegue até o dia 5 de junho, um torneio de bisca (jogo de cartas) contra clubes de três províncias italianas - Latina, Catania e Pavia. O evento, único do mundo no gênero, celebra os 15 anos do Círculo de Washington que, todos os meses, reúne seus associados para um campeonato que, no final do ano confere ao campeão um troféu, em forma de mão com três cartas. O Círculo pratica também o jogo de trissete e escova.

 

EL RITORNO DE NANETTO PIPETTA (310)

Desso ve copo tuti, maladeti sordoni de diaol

Luiz Bavaresco

Bancário, Nova Prata (RS)

 

Con la broada che’l ga ciapà col aqua calda del simaron de Matia, Nanetto se ga ramenà tuta la note in leto. Co’l ga dormisto, el se ga insonià che’l gavea magnà na bronsa granda che la ga impienio la boca e la se ga tacà te la carne e dopo de tanto patir, el mola na bruta spuada, e la bronsa l’è ndata sora el paion de scartosse de mìlio, che’l ga tacà brusar.

Desperà, el ciapa la giacheta de brin diamantino, el taca batar tel fogo par coparlo. Alora el vede che’l gavea fogo in te le mudande de riscado, e la caseta tuta là che fumegava. De un salto, el se ga catà fora e schinsà rento l’aqua dela sécia par smorsar el fogo te le mudande. L’aqua l’era freda e, con un bruto spauron, el se ga desmisià. L’era in leto, sfondà tel paion de scartosse e de na banda che lo vardava imbambio el cagneto Faísca.

La note l’era bela, co na luna granda che lo vardava par la finestra. Parea che la gaveva i oci e la boca, alora el se ga ricordà de so mama che l’era stata in Itàlia distante e dele stòrie che la ghe contava dela luna. Se ga ricordà de na storieta che la disea che el profeta Isaia l’è ndato su al celo co na caretina tirada par due mule de fogo e che la è ndata fin la luna, e de là Isaia el vardava tuta la tera insieme cole mule de fogo. El se ga domandà cosa serà che so mama zera drio far quele ore in Itàlia, alora el ga piandesto lu sol e el so cagneto Faísca.

La boca la brusava e anca la léngua e, par guarir un poco, el bevea dele sboconade de aqua freda ogni tanto.

Ma, in quela note patia, el ga visto che no’l gera solo in te la caseta. Rento te le casete del coerto, soto le scàndole, in te le bande, sora el leto, el ga visto sordoni che i ndea e vegnea, e par quel Faísca el sbaiava quasi tute le note. Nanetto el ga pensà: "Doman ve copo tuti, podì spetar, vedarè!..."

Vegnesto matina. Leva su, tira zo le mudande de riscado, e meti su le braghe de brin diamantino, e na giacheta grossa che’l gavea portà del Itàlia e che la gera de so nono, poareto, che l’era morto. La gavea le màneghe longhe e larghe. La matina l’era freda. Ga ciapà na sbranca de rissi de pin, ùrteli soto la siapa del fogoneto, e méteghe fogo. Co’l fogon l’era caldo, el ga brus-tolà sinque fete de polenta, parché ghe piasea magnarla col formaio. Dopo ghe ze capità na voia de pipar te la pipeta, ma el se ga nicorto che la gavea perso par via dele brespe. Come zera ancora bonora, el se ga ricordà dei sordoni e el ga dito:

- Desso ve copo tuti, maladeti! Vedarè! Vedarè!...

El ciapa un spóncio de legno de angico, salta su nel leto, dopo pi insù, nela fiarola, fin che’l se ga picà co la man sanca ntela caseta del coerto. El se ga tirà su, e el ga visto in tel fondo dela caseta, e el dise:

- Ve copo tuti.

El ciapa el spóncio con la man drita e, in tanto che’l se tegnea su con la man sanca, el ghe smira e el ghe taca te un colpo, na stocada su pai sordoni. L’è stato un bacan de sordoni che piandea, sordoni che saltava, e un sordon el vien drito rento par la mànega dea giacheta, e in te un colpo l’era drio far spissa soto el brasso de Nanetto. No’l ga gnanca pensá... el se ga molà zo come un saco de sassi, e el ga bio sorte parché l’è cascà in tel vodo dela tàola che la se ga spacà, e Nanetto el ze ndato sora la vacheta che l’era in stala soto el quarto. Maladeti sordoni, el dise, el leva su e desso el gavea mal par tuto el corpo e anca la boca. El ga pensà che’l podea essar morto, e lora la Gelina la restava védova prima da maridarse. El ga ringrassià a Dio de no ver sucedesto el peso e el ga pensà che te la doménega che vien vao al rosàrio te la ceseta e anca in serca de un scapulàrio novo e dopo ghe conto tuto a la Gelina e Àndolo. Resto del giorno el ga netà vanti la caseta le foie de sinamon che l’era tute in tera par via del fredo.

 

VITA STÒRIA E FRÒTOLE

Rovílio Costa e Arlindo Battistel

Robe de San Paulin

Nestor José Foresti

Agente turístico, Bento Gonçalves - RS

 

Na olta ghe zera un posto ciamà San Paulin, ndoe a la fine dela giornada un bel grupo de òmini i se catea in tela bodega par giugar le carte e ciacolar. Tra un bicer e naltro de caciassa i fea le sue, prinsipalmente coionar i altri e gòderse. Ghenera un che no’l manchea mai: Nani. Col so bel nasoto negro, ghe zera due robe che ghe piasea far prima de scurir: pescar in tela stua dea Marieta e ndar bever un goto o due de caciassa in compagnia dei amici. Un bel di, quando el vien zo del monte par far la so pescada, la Marieta lo vede de distante e la ghe osa:

- Va pescar tel rio! Gheto mia vergogna robarme i pessi!

- Se no i tira, vuto che fo che? Dopo i toi i è pi bei!

Vedéndolo così sfacià, i fioi dela Marieta i se ga messi intesi de farghe un dispeto. El di drio, ala sòlita ora, eco de novo Nani che, pacìfico, el pesca in tela sude dela Marieta. I tosi i se combina e i speta che’l parta par ndar con la compagnia bever quela roba gialda che ghe fea el naso diventar pi negro e le rece pi calde. I tosati i perde mia tempo e i ghe cata fora suito el sacheto con un bel carpa sconto in meso le scapoere. Come paroni, i ciapa el carpa e i se lo porta a casa e i ghe mete in tel posto un bel toco de legno tondo.

Riva la ora de Nani ndar a casa, parché zera drio diventar scuro. El passa in medo le scapoere e el cata su el so saco che’l pesa un poco depì de quel che el pensea prima:

- Orco cane, che bel carpa che go ciapà nco! Stassera si che mi e la vècia femo na bela magnada!

El riva casa sufiando dopo la riva che el ghea fato e, tuto contento, el buta el so sacheto sul secer che el fa anca un bel s-cioco. E el ghe osa ala dona:

- Vècia! Cusìnelo in ùmedo!

Un’altro di, Nani e el so compare i è in strada, medo distantoto de casa. In quei tempi in tele strade ghe zera mia el rasto dei penei dei auti in tera. Ghe zera sol el stampo dei feri dele musse e anca altri segnai dei so bisogni.

I due compari i è mesi onti e, sia parché romai ze massa scuro o sia parché i oci no i ghe vedea ciaro, infati ancora de distante i vede in tera, in medo la strada, na bela roba gialda. Toni el se mete a corer. Ma Nani el ghe osa:

- E nò, caro! Quel bel pelego bianco l’è mio parché lo go visto prima!

I due i core e quando i ghe mete le man par tórselo su, i sente un profumo che i cognosse ben e i se nicorde, invergognai, che la zera na bela e ancora calda pissada de mussa.

Sempre a San Paulin, un di Nani el se decide a comprar na vacheta. Però, come manda la tradission, ghe vol farghe na bela staleta par poder mónderla. Alora el fa i so conti e el ghe tira anca la misura dela longhessa dela vaca. E el se mete a fabricar. Par sparagnar tégole, però, el decide farla nele misure giuste. Ma el se desméntega de far la grìpia par la vaca magnar. Finio el sofito el se nicorde che manca la grìpia, e el dise:

- Bon! Ma ghe ze ancora tempo!

El compra un per de tole de pin, le sega col segoto e el fa na bela grìpia granda e còmoda. Quando, però, el para rento la vaca, la resta col cul fora dea stala e Nani ghe toca inciodar su na foia de zingo, parché la pora vacheta no la se bagne el cul nei giorni de piova.

Con storiete come queste, i noni i se la godea e i vivea pi contenti de noantri che ghemo de bisogno de tantìssime comodità e no ghemo tempo de far bele rideste, par parar via la strachessa.

 

GERAL

Asfalto da VRS 834 sai do papel

Mato Perso reivindica obra há quase 30 anos

 

Depois de quase 30 anos, as famílias de Mato Perso, distrito de Flores da Cunha, poderá ver concluída a VRS 834, trecho de 16,3 quilômetros que une a localidade à comunidade de Forqueta, interior caxiense. "Os trabalhos de drenagem, sinalização e asfaltamento devem começar em 15 dias", anunciou o governador Germano Rigotto, durante a 15ª edição da festa Magnar di Polenta.

Para executar o trecho, que sai da capela Santa Juliana, serão necessários cerca de R$ 8 milhões. Do montante, R$ 3,7 milhões foram aprovados no orçamento do Estado pelos processos de consulta popular. "A intenção do governo é concluir a pavimentação até o final de 2006", disse o secretário estadual dos Transportes, Alexandre Postal.

A obra transformou-se em bandeira regional. "O asfaltamento da VRS 834 foi eleito pela comunidade por duas vezes no Orçamento Participativo e outras duas na Consulta Popular", lembra ao CR o vice-prefeito de Mato Perso, Valdir Luvison. A rodovia é considerada fundamental para o escoamento da produção agrícola, principalmente uva, vinho, frutas, em direção à Ceasa de Porto Alegre.

 

Amserra pede melhorias na rodovia 285

 

A conservação da BR 285, trecho de Bom Jesus a São José dos Ausentes e divisa com SC, assim como da RS 020, no trecho entre São José dos Ausentes e Cambará do Sul, é a reivindicação da Associação dos Municípios de Turismo da Serra (Amserra), junto ao governo do Estado.

A região está em plena safra de maçã e batata. "O fluxo de caminhões na BR 285 é grande", diz o presidente da Amserra, Erivelto Sinval Velho, acompanhados dos prefeitos de Bom Jesus, José Paulo de Almeida; Cambará, Aurélio Alves; Canela, Cléo Port; Gramado, Pedro Bertolucci; Jaquirana, Isaias Castilhos; Nova Petrópolis, Luiz Irineu Schenkel; Picada Café, Luciano Klein, e São Francisco, Décio Antônio Colla.

 

São Francisco de Paula festeja pinhão

 

A 1ª Mostra da Gastronomia Serrana é a novidade da Festa do Pinhão, evento que ocorre de sexta a domingo, do dia 3 até o dia 12 de junho, em São Francisco de Paula, nas dependências da Sociedade Cruzeiro. A entrada é gratuita. Estão sendo aguardadas em torno de 60 mil pessoas. A promoção é da Prefeitura.

Uma tonelada de pinhão será distribuída gratuitamente. A feira vai mostrar o artesanato típico e malhas. Os visitantes poderão conferir pratos à base de pinhão, charque e doces. Outras atrações são os shows e os pontos turísticos. A rainha Ana Lídia Martins Corrêa e as princesas Vanessa Zucatti Barcarolo e Mariane da Silva Brocker estiveram na redação do CR divulgando o evento.