
DESCOBRINDO CAMINHOS
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Edição 4.940 - Ano 97 - Caxias do Sul-RS, 8 de junho de 2005.
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Uma nação que chega à fronteira do suportável
Concentração de renda, miséria, mortes no campo, corrupção... Até onde o brasileiro suporta?
A redução do número de assassinatos é o dado menos grave do relatório sobre conflitos no campo referente a 2004, divulgado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). Mas não há a menor razão para festejar, porque é inconcebível que num país com as dimensões do Brasil 39 pessoas, em média mais de três por mês, tenham perdido a vida em disputas por terra.
Ao encolhimento de vítimas fatais se contrapõem outras informações que só contribuem para aumentar o grau de preocupação em torno da violência no campo. Uma delas é o recorde do número de conflitos registrados, 1.801 - em média cinco a cada dia -, envolvendo mais de um milhão de pessoas, como mostra reportagem da página 4 desta edição. Chega a ser vergonhoso que entre esses conflitos 60 tenham como origem a água, riqueza em abundância no Brasil.
Indecorosa também é a conclusão do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), de que os 1,7 milhão de brasileiros mais ricos, que correspondem a 1% da população do país, têm renda familiar equivalente à soma da renda obtida por 86,9 milhões de cidadãos mais pobres, que representam 50% dos habitantes. Essa concentração de renda só é inferior à de Serra Leoa, na África. Esse destaque negativo praticamente anula os avanços que ocorreram na educação e no combate à pobreza, porque o objetivo final dessas ações sempre foi justamente melhorar a distribuição de renda.
Para agravar ainda mais o quadro, os acontecimentos políticos da semana passada, envolvendo denúncias de corrupção em estatais federais e a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito no Congresso Nacional, revelaram que a incoerência, o oportunismo e o fisiologismo não têm limites no país. Talvez a soma de todas essas situações seja a maior prova da força do Brasil, mas seu povo já chegou à fronteira do suportável.
Festa da Uva abre inscrições para o concurso da rainha e princesas
Escolha será nos pavilhões de exposição, dia 10 de setembro
Solteira, maior de 18 anos e residente em Caxias há pelo menos dois anos. Esses são alguns dos requisitos exigidos das candidatas a rainha e princesas da Festa da Uva 2006. O prazo de inscrições, abertas dia 1º, vai até 30 de junho e a escolha ocorre na noite de 10 de setembro, no pavilhão 2 do parque de exposições da Festa da Uva.
O lançamento do concurso foi feito pelo diretor da comissão social do evento, Reomar Slaviero, no mesmo dia em que apresentou os demais integrantes da comissão. A escolha seguirá modelo da última Festa, com baile de apresentação das candidatas, mas Slaviero admitiu que pode haver pequenas alterações. Mais importante, pelo seu pronunciamento, é conseguir mobilizar a comunidade, "para que a escola antecipe o sucesso da Festa da Uva 2006", afirmou.
Para poder se inscrever as candidatas precisarão ser apresentadas por entidades legalmente constituídas - clubes sociais, esportivos, culturais, recreativos, entidades de classe, empresas... A inscrição deve ser feita na secretaria da Festa da Uva (casa 3 da Réplica), das 14 às 18 horas de segunda a sexta-feira e das 9 às 12 horas no sábado. No último dia, a quinta-feira 30, o horário será estendido até as 24 horas.
Slaviero adiantou ainda que a comissão que dirige procura marcar eventos e treinamento em dias e horários que não prejudiquem o trabalho ou o estudo das candidatas. Após a escolha, no entanto, as soberanas terão de se dedicar integralmente à Festa.
Agricultura lança plano estratégico
Comercialização, água potável, qualificação do produtor, informatização e qualidade de vida são alguns dos 10 programas que compõem o Plano Estratégico da Agricultura para o período 2005/2008. O plano foi apresentado na segunda, 6, pelo secretário da Agricultura, Nestor Pistorello, e pelo prefeito José Ivo Sartori. "Nosso objetivo é atingir a excelência", descreveu Pistorello ao CR. "A tendência de mercado é que está balizando os programas. Vamos olhar a propriedade como um todo", destacou.
Para atingir essa meta, serão reavaliados a Feira do Produtor e o Ponto de Safra. A viticultura ganha atenção, mas o foco será voltado para a uva de mesa - na administração anterior era a uva destinada à produção de vinho. "Vamos incentivar o plantio em estufa, a criação de selo, para incrementar outro potencial de nosso município", explicou o secretário.
No item informatização no meio rural, a preocupação é, além de facilitar a aquisição de equipamentos, criar um software para o gerenciamento da propriedade. Para que o agricultor tenha água potável, o programa prevê proteção das fontes, saneamento, recolhimento de lixo e das embalagens de agrotóxicos.
Conflitos no campo atingem índice recorde
Em 2004, ocorreram 1.801 conflitos, maior número dos últimos 20 anos de registro
O assassinato da Irmã Dorothy Stang, agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 12 de fevereiro passado, em Anapu, no Pará, ganhou destaque internacional e escancarou para a sociedade a realidade de violência no campo brasileiro. Segundo dados da publicação "Conflitos no Campo Brasil", divulgada anualmente pela CPT desde 1985, a violência se manteve em índices elevados no ano passado.
Em 2004, foram registrados 1.801 conflitos, o maior número destes 20 anos de pesquisa, envolvendo 1.083.232 pessoas. O número de conflitos vinha se mantendo estável de 2000 até 2002, com pequenos acréscimos. No ano seguinte, porém, houve aumento significativo, passando de 925 conflitos em 2002 para 1.690 em 2003 e chegando ao recorde no ano passado.
Em média, no Brasil, um a cada 29,4 habitantes da área rural esteve envolvido em conflitos em 2004. A análise dos números revela ainda que os índices de conflitividade (número dos conflitos em relação ao número da população rural) são maiores onde se dá a chamada expansão do agronegócio, ou seja, nos três Estados da região Centro-Oeste. No Mato Grosso do Sul, uma em cada cinco pessoas esteve envolvida em conflitos; no Mato Grosso, uma em cada 7,3; e em Goiás, uma em cada 7,4 pessoas. Segundo as pesquisas da CPT, a grilagem de terras e, principalmente, o avanço do agronegócio, tanto na produção de grãos quanto na pecuária e no setor madeireiro, estão por trás de muitos conflitos e de grande parte do trabalho escravo.
Apesar de em 2004 os 39 assassinatos representarem uma queda de 46,6% em relação a 2003, quando foram registrados 73, o ano passado foi considerado especialmente violento pela CPT devido a dois brutais massacres ocorridos em Minas Gerais: o assassinato de três fiscais e um motorista do Ministério do Trabalho, em Unaí, e de cinco sem-terra em Felisburgo. Esses episódios fizeram com que a região Sudeste do país registrasse aumento de 450% no número de assassinatos de pessoas ligadas às lutas do campo, passando de dois casos em 2003 para nove no ano passado.
Os dados de 2004 também mostram crescimento na violência do poder privado, quanto ao número de famílias expulsas por proprietários ou grileiros. Foram 3.063 expulsões, 5,4% mais que em 2003. Mas é a violência do poder público, ou seja, do Judiciário, que tem aumentado mais intensamente desde 2003. O ano de 2004 registrou um aumento de 10,8% no número de prisões (421 presos) e de 5,5% no de famílias despejadas, 37.220, o maior número desde que a CPT começou a efetuar os registros.
Pará lidera em mão-de-obra escrava
O trabalho escravo foi responsável por 236 conflitos em 2004. Segundo a Comissão Pastoral da Terra, as denúncias que chegaram a conhecimento público no ano passado totalizam 6.075 pessoas em situação de trabalho escravo e dois assassinatos. De 1995 até 2004, 13.563 pessoas que trabalhavam em regime de escravidão foram libertadas em ações dos chamados grupos móveis de fiscalização. Nesse período, 1.282 propriedades foram vistoriadas.
A quantidade de trabalhadores libertados pelos grupos móveis saltou de 84 em 1995 para 4.879 em 2003 e 2.849 em 2004. O total de libertações somente em 2003 foi equivalente à soma das ações entre 1995, quando os grupos móveis de fiscalização foram criados, e 2002.
Conforme os levantamentos da CPT, o foco do trabalho escravo no Brasil se localiza exatamente no "arco do desmatamento" da Amazônia, região da fronteira agrícola do país. O Pará é o Estado com maior número de libertados, com 5.695 trabalhadores entre 1995 e a primeira quinzena de dezembro do ano passado. A maioria deles estava em propriedades ligadas à pecuária, derrubando a floresta para aumentar a área ou limpando o pasto.
Trabalho explorado
Os conflitos trabalhistas somaram 107 casos em 2004, envolvendo 4.202 pessoas. Em situações de superexploração do trabalho, os Estados do Pará e Tocantins registraram mais ocorrências, 23 e 28 respectivamente. Essas regiões têm na exploração madeireira e nas carvoarias os principais agentes desse tipo de violência. Na verdade, esses dados complementam os de trabalho escravo, a situação mais crítica de superexploração. Os números não podem se constituir em amostra estatística, pois indicam só os casos levantados pela CPT, mas dão uma idéia da situação do trabalhador rural.
Mulheres ameaçadas
Nos últimos cinco anos, houve um crescimento significativo das ameaças de morte contra as mulheres do campo. De acordo com os dados da CPT, das 133 ocorrências registradas nesse período, nove foram em 2000, 13 em 2001, 28 em 2002, 35 em 2003 e 48 em 2004, um aumento de mais de 500% em cinco anos.
As ameaçadas de morte são, sobretudo, as mulheres que atuam nas regiões Norte e Nordeste. De 2000 a 2004, foram 79 (60%) ocorrências na região Norte e 45 na Nordeste (34%). Nas demais regiões há poucos registros desse tipo: apenas um no Sul, três no Sudeste e cinco no Centro-Oeste.
Cresce luta contra barragens e açudes
A partir de 2002, a Comissão Pastoral da Terra começou a registrar os conflitos em torno da água. Desde então eles estão aumentando. No primeiro ano, foram registrados 13 conflitos; em 2003, 20, e no ano passado o número saltou para 60 conflitos.
Entre os conflitos pela água, crescem principalmente aqueles relacionados à construção de açudes e barragens, sobretudo as destinadas à produção de energia elétrica. Dos 60 conflitos ocorridos no ano passado, 24 se deram em função de barragens e açudes.
Um dos grandes conflitos que marcaram o ano de 2004 foi o da construção da Hidrelétrica de Barra Grande, sobre o rio Pelotas, na divisa dos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Os atingidos pela hidrelétrica (1.500 famílias) montaram acampamento por mais de 50 dias tentando impedir a continuação da obra.
Pastoral comemora 30 anos de atuação
A Comissão Pastoral da Terra (CPT) está completando 30 anos este mês. Foi fundada em junho de 1975, em plena ditadura militar, como resposta à grave situação dos trabalhadores rurais, posseiros e peões, sobretudo na Amazônia. Nasceu ligada à Igreja Católica, mas logo adquiriu caráter ecumênico. A CPT define-se como um serviço à causa dos trabalhadores rurais, sendo um suporte para a sua organização.
Os primeiros a receberem atenção da CPT foram os posseiros da Amazônia. Rapidamente sua ação se estendeu por todo Brasil, envolvendo-se com pequenos agricultores, atingidos por barragens, sem-terra, assalariados rurais e trabalho escravo.
Atualmente a CPT está em todo território nacional, com uma Secretaria Nacional, em Goiânia, e 21 regionais. A cada ano, desde 1985, publica um relatório sobre a violência que atinge os camponeses, intitulado "Conflitos no Campo Brasil". A obra é reconhecida pela comunidade científica como o maior e melhor acervo sobre o tema na América Latina.
Congresso - Reforma agrária, trabalho escravo, agroecologia e água serão alguns dos temas debatidos no II Congresso Nacional da Comissão Pastoral da Terra, que se realizará em Goiás de 14 a 18 de junho. O evento vai reunir mil pessoas de todo o país, entre trabalhadores rurais, agentes da CPT, convidados e pesquisadores. Nesses encontros os participantes apontam o rumo e as grandes temáticas para as ações da CPT. O lema deste II Congresso é "Fidelidade ao Deus dos Pobres, a serviço dos povos da Terra".
Resíduos de uva podem virar negócio
Pesquisa da UCS cria composto que entra na fabricação de alimentos, cosméticos e remédios
Os resíduos de uva são desprezados no Brasil, país que produz anualmente em torno de 500 mil toneladas por safra. A atividade está concentrada na região da Serra gaúcha. "Os resíduos representam de 10% a 15% do total vinificado", informa Luiz Antenor Rizzon, engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, com sede em Bento Gonçalves.
Os resíduos do processamento de uvas são compostos pelos cachos ou engace, pela casca ou película e pela semente. O cacho representa de 2% a 5% dos resíduos, bem como a semente. Outro tanto é formado pela casca. "De 10% a 15% da semente é óleo, produto muito valorizado no exterior e que o Brasil importa para fabricar cosméticos, principalmente", revela Rizzon ao CR.
Uma pesquisa, desenvolvida pelo Instituto de Biotecnologia da Universidade de Caxias do Sul (UCS), deve dar outra destinação a esse subproduto da uva. "Usando uma tecnologia simples, barata e não poluente, tendo como solvente a água, estamos extraindo dessa matéria-prima descartada pela indústria vinícola um extrato aquoso antioxidante – antioxidante age contra radicais livres, que causam doenças degenerativas como o câncer e a arterioesclerose", revela a coordenadora da pesquisa da UCS, professora e doutora Miriam Salvador.
Antioxidante - Os estudos do Instituto de Biotecnologia também apontaram a capacidade antioxidante de extratos aquosos obtidos a partir de resíduos de vinificação das viníferas merlot e cabernet sauvignon e das cultivares americanas (comuns) bordô e isabel. "Os resultados demonstraram significativa atividade antioxidante para todas as variedades, destacando-se as viníferas", informa a professora da UCS.
De acordo com a coordenadora do projeto, a solução aquosa poderá entrar na fabricação de cosméticos, medicamentos ou compor alimentos. Ela é mais potente do que antioxidantes tradicionais, como as vitaminas C e E. "A solução aquosa não substitui o óleo de uva, mas preenche uma lacuna deixada por esse produto", frisa ela ao CR.
Outra vantagem do composto é o baixo custo. Para extrair o óleo da semente, o processo é mais caro e exige equipamentos mais sofisticados. O projeto está sendo desenvolvido em parceria com a Fapergs, o Laboratório Vitamed de Caxias do Sul e a Farmácia-Escola da UCS. O que falta agora é uma empresa interessada em fabricar o produto.
Pesquisa visa fortalecer cadeia do vinho e uva
A cadeia produtiva do vinho receberá importante impulso nos próximos meses. Uma parceria entre o governo do Estado e o Instituto Brasileiro do Vinho pretende viabilizar recursos para o desenvolvimento tecnológico da vitivinicultura. O anúncio foi feito pelo secretário da Ciência e Tecnologia, Kalil Sehbe.
A intenção é criar um edital de financiamento que permita realizar um diagnóstico amplo do setor. Serão observados os gargalos, elencadas as principais necessidades e apontadas soluções para tornar a atividade mais lucrativa e competitiva no mercado internacional. "O incentivo deverá estar à disposição ainda este ano, com recursos do Fundo de Desenvolvimento da Vitivinicultura", afirma Sehbe.
Sustentabilidade vitivinícola em debate
Refletir sobre os principais entraves enfrentados pelo vinho nacional, avaliando-os e buscando estratégias para o desenvolvimento da cadeia produtiva vitivinícola é o principal objetivo da 6ª Jornada da Viticultura Gaúcha, que ocorre dia 15, em Antônio Prado. O encontro vai debater alternativas de manejo da videira diante da estiagem e as perspectivas para safra 2006.
O destaque do encontro são as palestras que vão abordar "Panorama da vitivinicultura nacional: os gargalos do vinho e diretrizes para o setor", com o pesquisador da Embrapa José Fernando Protas; "A nova vitivinicultura brasileira", com o presidente da Câmara da Viticultura, Vinhos e Derivados, Hermes Zaneti, e "Importações, carga tributária e competição com bebidas que imitam o vinho", com o secretário de Política Agrícola, Ivan Wedekin.
Serão discutidas ainda as "Políticas públicas para a vitivinicultura", com o professor da UFRGS, Jaime Fensterseifer; "Diretrizes estratégicas para a cadeia produtiva da uva e do vinho", com a coordenadora do laboratório de Referência em Enologia (Laren), Regina Vanderlinde; e o "Papel do Laren", com o presidente do Ibravin, Carlos Paviani.
A jornada encerra com painel técnico sobre "Alternativas de manejo na videira", com o pesquisador da Embrapa Henrique Pessoa; e o "Comportamento do clima na safra 2005", com o pesquisador da Embrapa Francisco Mandelli. Informações (54) 293 1131.
Agricultura familiar garante R$ 9 bi
Verbas foram anunciadas pelo presidente Lula no Grito da Terra Brasil
O governo federal irá disponibilizar R$ 9 bilhões para o plano safra 2005/2006. O anúncio foi feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva a representantes da Confederação Nacional de Trabalhadores na Agricultura (Contag), no encerramento do 11º Grito da Terra Brasil. Acompanhado pelo ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, Lula ampliou em R$ 2 bilhões os investimentos para a agricultura familiar e os assentados da reforma agrária.
Também ficou decidida a manutenção da condição de segurado especial no regime da Previdência Social dos agricultores familiares, uma das principais reivindicações da Contag no Grito da Terra 2005. A lei atual prevê que, até julho de 2006, os agricultores sejam atendidos pela Previdência como segurados especiais. "Em um ano, essa lei perderá o efeito e será necessário aprovar o projeto de lei com novas regras", defende o secretário de Política Agrícola da Contag, Antoninho Rovaris.
Além disto, o governo reafirmou o compromisso de enviar para o Congresso Nacional o projeto de suplementação orçamentária no valor de R$ 700 milhões, mantendo a meta de assentar 115 mil famílias em 2006. Durante o encontro com a Contag o presidente Lula assinou ainda um decreto de desapropriação de terras que, somadas, totalizam 36 mil hectares.
Miguel Rossetto destacou a seqüência de sucessivas ampliações dos recursos para investimento produtivo durante o atual governo, referindo-se ao crescimento de 30% do Plano Safra 2005-2006 em comparação ao atual, que é de R$ 7 bilhões. Plano Safra 2004-2005 beneficiou cerca de 1 milhão e 600 mil agricultores. Segundo o ministro, a estimativa para o próximo ano é de chegar aos dois milhões de produtores rurais.
Fetag - Já a Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag) decidiu que as manifestações do Grito da Terra, no Estado, ocorrerão no próximo dia 23, em Porto Alegre. As lideranças do movimento sindical se reuniram na segunda-feira, 6, para definir a pauta estadual.
Entre as reivindicações, estão os financiamentos para a agricultura, o crédito fundiário e a habitação rural.
Sai primeiro repasse do seguro agrícola
Os primeiros repasses do Seguro da Agricultura Familiar aos agricultores que tiveram prejuízos com a estiagem de verão foram liberados pelo Banco Central, na terça, 31. O Rio Grande do Sul tem 187 mil contratos do Pronaf protegidos pelo seguro.
Desse total, 148 mil receberão o benefício, o que representa uma perda média de 80% nas lavouras gaúchas, em especial nas culturas de milho, soja e feijão. Ao todo serão destinados R$ 400 milhões para o pagamento do Seguro da Agricultura Familiar no país, sendo a metade destinada aos agricultores gaúchos.
Codefat refinancia dívidas da estiagem
O Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador (Codefat) aprovou, na quinta-feira, 2, liberação de R$ 1 bilhão para crédito na área rural. Os recursos serão destinados a repactuação de dívidas que produtores firmaram com fornecedores de insumos no ano passado, e que não puderam ser pagas devido à frustração de safra causada pela estiagem.
Dessa forma, o crédito será liberado diretamente ao fornecedor do insumo, em valor idêntico ao débito do produtor. O mecanismo é destinado apenas para produtores que estejam em municípios nos quais houve reconhecimento, pelo governo federal, de situação de emergência causada pela seca. Na prática, o programa está direcionado a 886 municípios, distribuídos por 14 Estados.
A contratação dos financiamentos começa a ser praticada na próxima semana, por meio da rede do Banco do Brasil. "Nesta nova linha, não há equalização de taxas de juros pelo Tesouro, portanto não é gerado ônus para o governo, explica presidente da Comissão Nacional de Crédito da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Carlos Sperotto.
Os juros de 18,5% ao ano serão divididos entre os fornecedores (9,75%) e os produtores (8,75%). O reparcelamento será feito em até 24 meses.
Fecolônia homenageia os 50 anos da Emater
Programação diversificada, que inclui gastronomia colonial, shows com talentos regionais, brincadeiras para as crianças, bailes, demonstração de elaboração de queijos e embutidos, vai caracterizar a I Feira Estadual da Agroindústria Colonial (Fecolônia).
A Fecolônia realiza-se de 10 a 12 de junho, no Parque Wanderley Burmann, em Ijuí, para lembrar o cinqüentenário da extensão rural no RS. "A programação está em sintonia com a diversidade das ações que a Emater desempenha", avalia o coordenador da feira, Antônio Altíssimo.
Engº. Agrº. José Zugno
O mundo das aranhas (II)
Tenho uma chácara que fica afastada da cidade. Minha mãe tem alergia à picada da aranha. Como é no meio do mato, está sempre cheio de pragas. O que se deve fazer para combater a aranha?
Roberta de Castro
Galópolis - RS
Em atenção ao pedido da prezada leitora Roberta de Castro, de Galópolis, continuamos o assunto sobre as aranhas iniciado na edição passada. Agora dando informações sobre caranguejeira, outras espécies e a síntese das espécies peçonhentas que existem no Rio Grande do Sul.
Caranguejeira - As caranguejeiras são as maiores aranhas atingindo o tamanho de um palmo, e algo mais, de diâmetro e pesam cerca de 30 gramas. São terrestres, ovíparas, carnívoras, alimentando-se de pequenos animais (larvas, baratas, besouros, grilos, etc), e até "pequenas cobras, inclusive as venenosas", no dizer do naturalista Balduíno Rambo. Têm hábitos noturnos, vivem em esconderijos debaixo de pedras, de tocos caídos, de capins e folhas secas e outros materiais. Só se deslocam durante o dia quando o céu está encoberto, pois o sol forte lhes é fatal. Pertencem ao grupo das "vagabundas", não constroem teias nas suas "fiandeiras", tecem os fios que formam os casulos que protegem os ovos, e atapetam os ninhos.
No RS existem algumas espécies de caranguejeiras, todas incluídas no gênero Gramostola. Grandes, peludas, negras ou negro-ferruginosas, inspiram pavor e por tal motivo muitos as consideram as aranhas mais venenosas, o que é errôneo, de fato elas têm veneno, mas apenas para subjulgar as vítimas de que se alimentam. Elas são inofensivas ao homem, mesmo quando manipuladas para estudos não demonstram agressividade. Pessoalmente, nas andanças pelo interior do município, uma vez nos caminhos estreitos do Rincão das Flores, outra vez nos dos peraus do rio Piaí, em dia sombrio, capturei caranguejeiras a mão (com luvas de serviço), sem reação agressiva das aranhas que as utilizei em minhas aulas práticas de História Natural.
As espécies de aranhas caseiras, as que fazem teias nos galpões e cantos das casas, não são perigosas. Assim também a maioria das espécies de jardins, menos as dos gêneros Lycosa (Lycosa raptoria e L.erythrognatha) e Ctenus (Ctenus nigriventer e C. ferus) que são peçonhentas e responsáveis pelos incidentes que ocorrem com certa freqüência nas propriedades rurais, casas de campo, de praia e raramente nas cidades. São aranhas corredeiras, perseguem e caçam suas presas.
Vivem em jardins, ocultando-se debaixo de pedras, paus podres, tufos de gramas... mas podem penetrar nas casas descuidadas por debaixo das portas procurando lugares escuros e úmidos, como os banheiros.
As Lycosas medem 3cm de corpo e 5 a 7cm entre as pontas das extremidades. Quase sem pêlos têm cor cinza-pardacenta com estrias brancas no cefalotórax e no abdômen. Não são agressivas, tentam fugir quando atacadas.
A picada injeta veneno de ação apenas local e cutânea onde costumam aparecer bolhas cheias de líquido, podendo resultar em ulcerações.
Mariconi recomenda que se aplique compressas molhadas em amoníaco no local da picada. Mais eficaz é o uso do soro específico (antilicosico) do Instituto Butantan - SP, que deve existir nos Centros de Saúde das cidades.
As Ctenus medem 3,5 cm de corpo e uns 10 cm de ponta a ponta das extremidades. Suas pernas são de cor cinza-amarelada, dotadas de espinhos longos, negros, implantados em pontos brancos. É agressiva "quando atacada, dobra as pernas traseiras apoiando nelas o peso do corpo, levantando as patas dianteiras; distende os ferrões, por onde, às vezes, borrifa o veneno e prepara-se para o pulo certeiro", diz Wolfgang Ruchril, pesquisador do Instituto Butantan.
"O veneno dessa espécie possui uma ação muito enérgica sobre o sistema nervoso, caracterizada por dores intoleráveis com paroxismos, câimbras, tremores, suores, pulsação rápida e irregular. Não há medicamento eficaz a não ser o soro específico (anti-ctenídico)", afirma o doutor Rodolfo von Ihering. (continua na próxima edição)
Parâmetros de saúde ficam cada vez mais rigorosos
Taxas ideais de colesterol e diabetes reduziram. Objetivo é evitar doença crônica
Nos últimos anos, entraram em vigor diretrizes novas e mais rigorosas para a identificação de diversas doenças. Com isso, homens e mulheres até então considerados saudáveis foram enquadrados em um novo grupo, o de "pré-doentes". Essas pessoas têm características que podem propiciar o aparecimento de alguns distúrbios. O objetivo das mudanças nas diretrizes da medicina é chamar a atenção para os riscos das doenças crônicas e, com isso, estimular a mudança de hábitos de vida.
Quanto mais precoce é a identificação de uma doença, maiores são as chances de cura e menores os riscos de seqüelas. Baseados nessa idéia, os índices de normalidade foram se tornando cada vez mais rígidos. A mudança mais recente refere-se às taxas de colesterol. Os níveis ideais de HDL, o bom colesterol, aumentaram e os de LDL, o colesterol ruim, baixaram.
Alguns médicos defendem que quanto menores os níveis de colesterol, melhor para o paciente. Porém, é preciso considerar que a redução exagerada causa danos ao organismo. Essa substância é essencial para a produção de hormônios e membranas celulares, entre outras funções.
O diabetes também sofreu mudanças em seus parâmetros de normalidade. O novo índice resultou num aumento de 30% no número de pré-diabéticos no Brasil. O pré-diabetes seria uma menor sensibilidade do organismo à ação da insulina. Isso exige que o pâncreas produza cada vez mais insulina, o que pode levar ao diabetes. O pré-diabetes aumenta 2,5 vezes os riscos de distúrbios cardiovasculares.
A pressão arterial tem gerado controvérsias. Americanos passaram a considerar que a pressão de 12 por 8 caracteriza-se pré-hipertensão. Os europeus defendem que não há comprovação científica suficiente para justificar a medida. Os brasileiros concordam com os europeus, pelo menos por enquanto.
O argumento a favor desses novos diagnósticos tão precoces é que as pessoas que se encontram na faixa de risco para diversas enfermidades seriam alertadas para a importância das medidas de prevenção. No entanto, é bom lembrar que a notícia da pré-doença sempre traz conseqüências emocionais ao paciente, e esse estresse não deve ser desprezado. Há quem acredite que por trás dessas mudanças está a indústria farmacêutica, que deseja vender mais. Porém, na maioria dos casos, para atingir os níveis recomendados basta melhorar os hábitos cotidianos.
Leonardo Boff
A falta de uma cultura ecológica na sociedade e na política não oferece sustentação a uma opção preservacionista
Os dados de 26.130 quilômetros quadrados de desflorestamento da Amazônia em 2004 representam uma verdadeira devastação. Não sem razão se fizeram ouvir protestos no Brasil e na imprensa internacional. Por que ocorre exatamente sob o governo Lula, no qual a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, é profunda conhecedora das questões amazônicas e possui consciência ecológica como ninguém antes na administração pública?
A razão principal reside na contradição entre duas opções de governo: a do crescimento econômico e a da preservação ambiental. Urgido a pagar a dívida interna e externa, o governo optou pelo crescimento econômico, especialmente por aquelas frentes de produção que exportam grãos e carnes e que trazem dólares. A soja e o gado exigem grandes dimensões de terra, que são conquistadas pelo desmatamento das florestas, principalmente no Mato Grosso, onde o governador é apresentado como o "rei mundial da soja". O crescimento é preferencial embora a retórica do governo o queira com justiça e distribuição de renda. Os dados, entretanto, desmentem tal objetivo: a concentração de renda está aumentando, gerando desigualdade social, que é o verdadeiro nome da injustiça.
A outra opção é por políticas de preservação do meio ambiente e da biodiversidade com medidas inteligentes, mas cujos efeitos demoram para se produzir. Ocorre que a falta de uma cultura ecológica na sociedade e na política não oferece sustentação a esta opção preservacionista. Ela não tem hegemonia e se restringe ao Ministério do Meio Ambiente. A transversalidade da ministra Marina Silva tem pouco curso.
O principal responsável pelo desmatamento não é o governo brasileiro, mas o paradigma mundial de produção de bens materiais, que se impõe a todos como modelo único. Acoçado pela alta dívida externa, o Brasil se vê forçado a assumir este paradigma, quando poderia ser um dos poucos paises do mundo a apresentar e realizar uma alternativa. Lamentavelmente não há neste governo massa crítica para ousar outra via. Entretanto, os mais importantes analistas mundiais já há anos estão advertindo que esse modelo nos poderá levar a um grande impasse. A médio prazo, ele será simplesmente insustentável, especialmente agora que a China e a Índia se fizeram verdadeiras bombas de sucção de recursos naturais escassos no mundo inteiro.
Quanto à Amazônia, precisamos cuidar dela senão o mundo usará contra nós o argumento válido sobre toda propriedade privada: ela só se legitima se guardar sua função social. Caso contrário, poderá ser desapropriada. As políticas de governo devem garantir que a propriedade privada brasileira sobre a Amazônia tenha clara função social mundial.
Esperamos não ir, gaiamente, em direção do pior. Senão nossos filhos e netos irão dentro de pouco dizer contra nós: vocês sabiam do desastre possível. Não quiseram ouvir a ministra Marina Silva e tantos outros. Vejam que Terra nos legaram, devastada, sem mancha verde, sem água suficiente, sem biodiversidade e sem integridade. Talvez nem possamos mais regenerá-la. E então? Et erat videre miseriam...
Frei Betto
Severino é a cara do eleitor brasileiro, que vota pela emoção no que a razão desconhece. O PT continuará a ser vítima de seus equívocos enquanto não se adequar, no poder, ao discurso que fazia na oposição
O deputado Severino Cavalcanti é um homem coerente, sem subterfúgios, caso raro na política brasileira. Prova disso é a sabatina a que se submeteu promovida pelo jornal Folha de São Paulo. Eleito presidente da Câmara dos Deputados, ele faz o que prometeu enquanto candidato. Aumentou a verba de gabinete dos deputados federais e defende, sem pudor ou constrangimento, o nepotismo. Câmara dos Deputados: empregam-se parentes.
Sua Excelência conseguiu o inimaginável: aproveitou-se da perda de identidade do PT – que não sabe como ser partido do governo sem ser correia de transmissão do Planalto – e elegeu-se presidente da Câmara. Filiado ao PP, partido da base governista, Severino padece e reage como se fosse oposição. E leva certa vantagem diante de um Executivo que excluiu do alicerce de sua governabilidade os movimentos sociais, dos quais deveria ser a expressão política, e optou por ampliar a base aliada no Congresso sem indagar dos partidos coligados se há entre eles um projeto comum para o Brasil.
A equação desafia os mais cartesianos matemáticos: PP é governo, mas o governo considera o deputado do PP um estorvo. Tanto que o presidente da República e o ministro-chefe da Casa Civil declararam considerar a eleição dele como a principal derrota do governo e do PT nesses quase dois anos e meio da gestão Lula.
Severino derrotou o governo na Medida Provisória 232 e, agora, promete repetir a dose em outros projetos que estão na fila. Discípulo da escola malufiana ("estupra, mas não mata"), o presidente da Câmara opina que "estupro é acidente horrendo", quem sabe por ter visto um homem descuidado tropeçar sobre a mulher com quem cruzou numa esquina… Severino nem veste a carapuça mesmo vaiado por milhares de pessoas no 1º de maio. Transfere o ônus para o Executivo, e se agarra ao bônus. A Fazenda corta dos ministérios – vide o Ministério do Desenvolvimento Agrário e a reforma agrária – mas jamais do Legislativo. Nós, contribuintes, pagamos a conta, sem que a maioria dos deputados do discurso ético tenha a nobreza de devolver aos cofres públicos as cifras da exorbitância.
Severino é a cara do eleitor brasileiro, que vota pela emoção no que a razão desconhece. Nada a ver com o nosso ínfimo grau de educação formal, comparada a outras nações. Bush filho foi reeleito nos EUA e Tony Blair não teve por que temer as urnas. O mundo é de direita. Troca-se a liberdade pela segurança e, no caso dos pobres, a emancipação pela dependência. A compra de votos e o jogo de marketing explicam os gastos astronômicos de campanha. E a reforma política, fora maquiagens como a verticalização, fica para as calendas…
As pessoas não mudam quando chegam ao poder. Elas se revelam. Como se diz em Minas quando o sujeito enlouquece: "Fulano se manifestou". Severino é um caso raro de quem era antes o que é agora. Casou "mais ou menos virgem" nesse país de mais ou menos corruptos ou mais ou menos éticos, com políticos mais ou menos coerentes de partidos mais ou menos coesos. Total coerência, sem que lhe possa acusar de duas caras ou de ter blefado no palanque ao se aferir o que faz no poder.
Severino é o resultado do nível de consciência política do eleitor brasileiro. E se aproveita do privilégio de ter sobre si o foco da mídia. Não importa que os cartunistas o ridicularizem ou que os comentaristas o desprezem. Falem mal, mas falem de mim, ele repete diante do espelho todas as manhãs.
Ano que vem haverá eleições. Inclusive para renovar o mandato do deputado federal Severino Cavalcanti. Ele nem precisa se dar ao trabalho de fazer campanha. Já tem régua e compasso e, agora, o caminho ele mesmo traça. E como diz o presidente Lula, não adianta ter nojo de políticos e da política. Quem tem nojo é governado por quem não tem. O jogo só muda quando houver reforma política e o cidadão deixar de votar por interesses corporativos - do par de sapatos prometido na campanha aos lucros e vantagens de uma empresa ou instituição. No fundo, vota-se em si, e não nos direitos da maioria e na qualidade de vida da população. Assim, dá Severinos, ainda que revestidos de aparente severidade.
O PT continuará a ser vítima de seus equívocos enquanto não se adequar, no poder, ao discurso que fazia na oposição. Contar entre seus coligados com o PP e o PTB é favorecer o pragmatismo em detrimento dos princípios. Isso tem preço. O lastimável é que o ônus não se restringe à esfera do poder. Recai pesadamente sobre a nação, em especial os mais pobres. Esses conhecem, na pele e no espírito, o que significa, de fato, a morte e vida severina.
IMAGEM ABALADA
Denúncias de corrupção e tentativas de barrar CPI afetam governo Lula, maculam um patrimônio simbólico do PT - a ética - e diluem esperanças
"A gestão atual faz de maneira bem mais eficiente todo o mal que a administração anterior já fazia muito bem". A frase, do jornalista Josias de Souza, compara os governos Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso. Em tom de crítica, carrega muitas verdades.
Quando Lula assumiu a presidência da República, deixou um rastro de esperança bem mais forte do que de medo, para citar um binômio que marcou sua campanha e, em especial, sua vitória. Havia cheiro saliente de mudanças, de abertura de novos horizontes. Um homem do povo ascende ao poder para dar à camada social de onde veio uma nova vida - este era o conceito mais comum entre os brasileiros.
A expectativa maior nunca esteve na capacidade de Lula gerir o país, mas na aplicação das idéias que o diferenciaram, no discurso, de tantos e tantos políticos que o cenário recente da história do país acolheu. Não precisava ser "doutor" em economia, nem sequer foi questionada a formação cultural do novo presidente. Sua concepção de sociedade justa - gerada pela experiência de retirante nordestino que enfrentara a pobreza, a miséria e a fome - era mais importante.
Mas havia um sentimento mais forte ainda: o de que, independente das transformações que viessem, corrupção não teria mais vez neste Brasil. Não por opção, mas por imposição, afinal, como concluiu o economista Marcos Fernandes, da Fundação Getúlio Vargas, a corrupção tira da economia brasileira de 3% a 5% do PIB, algo em torno de R$ 72 bilhões - a metade de toda riqueza produzida no Rio Grande do Sul em 2004 (FEE). Só que Lula precisou buscar uma base de apoio para implantar seu programa - ainda não muito claro - de governo. Abriu as portas do Palácio do Planalto, despejou cargos sem seleção adequada, e nunca deixou de negociar votos no Congresso, montando um balcão do tamanho das necessidades, ou seja, imensurável.
O resultado desse processo começou a aflorar em fevereiro de 2004, quando estourou o escândalo envolvendo Waldomiro Diniz, um dos assessores do todo-poderoso chefe da Casa Civil José Dirceu, que tentou extorquir dinheiro de um empresário ligado ao jogo do bicho. À promessa de uma investigação rigorosa e punição se contrapõe, mais de um ano depois, pelo menos uma dúvida: o que foi apurado até agora?
Denúncia mais abrangente, no entanto, veio no mês passado, com a divulgação de fitas onde aparece o servidor público Maurício Marinho recebendo dinheiro em troca, segundo ele mesmo, de favorecimento a fornecedores, e contando detalhes de um esquema de corrupção nos Correios e em outras estatais, através de ocupantes de cargos loteados entre militantes do PTB, sigla que empresta apoio político a Lula. Mas não está descartado o envolvimento de pessoas ligadas ao PT, o que explica situação mais grave ainda: a tentativa de barrar, de todas as formas (ameaças, apelos, chantagens...) e com todas as ofertas possíveis e imagináveis (cargos, liberação de verbas...), a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Congresso Nacional. A CPI foi criada, mas a resistência do governo continua forte.
A CPI dos Correios serviu de moldura para um novo quadro na política nacional, pintado com as cores da incoerência e do oportunismo. O PT, que sempre lutou para criar CPIs no governo Fernando Henrique Cardoso, sob o argumento de que era preciso investigar todas denúncias de irregularidades e corrupção, agora procurou evitar uma contra sua administração; e os tucanos, que antes bloqueavam investigações, agora se proclamam intransigentes defensores da transparência. Ambos acusam-se de incoerentes, o que faz lembrar a frase do jornalista norte-americano Henry Louiz Menken (1880-1965): "Na democracia, um partido sempre dedica suas principais energias tentando provar que o outro partido não está preparado para governar. Em geral, ambos são bem-sucedidos e têm razão."
Os atuais movimentos políticos estão intimamente associados à eleição presidencial do ano que vem. E a disputa mais evidente é entre as coligações que chegaram ao segundo turno em 2002, lideradas de um lado pelo PT e de outro, pelo PSDB. E a reeleição de Lula, que até poucos meses atrás parecia líquida e certa, já encontra grandes obstáculos.
Ética - A questão levantada na semana passada pela revista Veja é intrigante: por que o PT tem tanto medo da CPI? Dois nomes do Partido dos Trabalhadores têm aparecido em casos assemelhados, o do tesoureiro e o do secretário-geral do partido, respectivamente Delúbio Soares e Silvio Pereira, responsáveis pelo preenchimento de grande parte dos 20 mil cargos de confiança que o governo federal dispõe. Mas crescem as suspeitas de que as denúncias dos Correios são apenas o fio de uma meada que pode trazer danos ainda mais sérios ao governo.
Independentemente do que virá a acontecer, a imagem do governo já está gravemente arranhada. E num de seus mais preciosos patrimônios, pelo menos simbolicamente: a ética. A seqüência de fatos envolvendo a CPI demonstrou um recuo no respeito a princípios que o PT, essa era a idéia geral, sempre procurou manter. Na realidade, esse patrimônio, difundido como ‘uma maneira diferente de fazer política’, começou a ser questionado com a conquista de prefeituras e governos estaduais. Agora sofre um abalo de efeitos ainda sem condições de ser dimensionado.
A indignação que avança sobre a sociedade foi bem dimensionada pelo jornalista Ricardo Kotscho, ex-secretário de imprensa da Presidência e amigo particular de Lula há décadas: "Você pega os jornais e não sobra pedra sobre pedra no cenário político, pinta um clima de fim de feira moral, de desesperança, de indignação, de salve-se-quem-puder, tudo ao mesmo tempo", escreveu.
Popularidade - O desgaste político ainda não atingiu o presidente Lula em proporções acentuadas. Mas a sua popularidade já sofre os efeitos: caiu pela terceira vez consecutiva na última pesquisa CNT/Sensus. A aprovação do desempenho pessoal de Lula, que iniciou seu mandato em 2003 com 83,6%, caiu de 60,1% para 57,4% de abril para maio deste ano. Já a popularidade de seu governo baixou de 41,9% para 39,8% nos dois últimos meses. Os índices são conseqüência de percepção popular sobre o delicado momento que o governo atravessa, marcado pelas denúncias sobre corrupção nos Correios, pela paralisia governamental e dificuldades na articulação política.
O resultado da pesquisa foi interpretado como um sinal de alerta ao Palácio do Planalto. A queda na popularidade pode ser maior ainda se o governo não conseguir administrar a situação. Isso está evidente na medida em que a maioria dos entrevistados apontou a corrupção como o principal motivo de vergonha, hoje, para os brasileiros. Ultrapassou a violência, até então imbatível entre as mazelas que mais afetam o orgulho nacional.
Renda - Nem a viagem que fez à Coréia do Sul e ao Japão, que deve render bons dividendos ao Brasil, o presidente Lula pôde comemorar. O IBGE apurou, pelo segundo trimestre consecutivo, redução dos investimentos. A expansão do PIB de janeiro a março deste ano foi de apenas 0,3%. A política de juros altos do Banco Central resfriou a economia, e o crescimento projetado para este ano já está sendo revisto.
O desempenho positivo da economia, que de certa forma servia para tentar explicar os reduzidos e ineficazes investimentos no campo social - origem de outra profunda frustração -, emite alertas de fragilidade. Mais grave do que isso: apesar dos avanços nos últimos anos nas áreas de educação e combate à pobreza, o Brasil continua a ter uma das piores distribuições de renda do mundo, superando apenas Serra Leoa, na África. Estudo divulgado na quarta 1º pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelou ainda que 1% dos brasileiros mais ricos detém uma renda equivalente aos ganhos dos 50% mais pobres. A impressão é de que elos se unem para fechar o cerco. E as reações, tanto no campo político como econômico e social, não reacendem a esperança - no mínimo, despertam receio.
VITÓRIA DA ECOLOGIA
A prática com agricultura ecológica em Ipê, que espalhou a idéia pelo país, faz 20 anos. Continua com o resgate e preservação da biodiversidade
Quem imaginaria que um pequeno município de 5.543 habitantes e apenas 593 quilômetros quadrados faria tamanha revolução. Encravado na Serra gaúcha, com terrenos pedregosos, recortado por vales e montanhas, está Ipê, conhecido como a Capital da Ecologia. Há 20 anos, nascia nesta localidade, então distrito de Vacaria, a agricultura ecológica, que viria mudar a produção agrícola do Brasil.
Essa façanha foi conquistada por um grupo corajoso de produtores rurais. Descendentes de imigrantes italianos, herdaram de seus pais terras tomadas por videiras e saturadas pelo uso de agrotóxicos, para garantir a pequena produção e a sobrevivência da família.
A bem-sucedida experiência de agricultura ecológica nas terras de Ipê difundiu-se. Hoje, de acordo com a Fundação de Agricultura e Ecologia, o Brasil possui cerca de 900 mil hectares cultivados de forma limpa. O país já ocupa o primeiro lugar em área dedicada a esse tipo de agricultura. São 19 mil propriedades espalhadas em todo território nacional que tiram do solo 300 mil toneladas de alimentos limpos por ano. Exporta US$ 300 milhões por ano (95% da soja, 90% do açúcar e 50% do café).
Visão - Orientados por uma visionária, a engenheira agrônoma Maria José Guazzelli, e com o apoio da Pastoral da Terra, os agricultores de Ipê e, depois, Antônio Prado e arredores, aboliram inteiramente os agrotóxicos e aditivos químicos. A briga é para evitar doenças na família e prevenir as culturas contra as pragas e males típicos da agricultura convencional.
Para alcançar o objetivo, tiveram que abandonar os ensinamentos técnicos inquestionáveis nas últimas décadas, como a dependência de venenos, uso de máquinas pesadas e sementes de multinacionais. Muitos dos procedimentos vieram com os imigrantes da Europa, considerados fundamentais para a sobrevivência dos cultivos.
Deixar o mato entre os canteiros de hortaliças ou sob os parreirais, por exemplo, era, até então, um procedimento inadmissível. O agricultor era taxado de preguiçoso. Os imigrantes italianos mantiveram, na Serra, o costume de limpar toda a vegetação rasteira. E se tornaram inimigos das ervas consideradas daninhas. Na Europa, limpar o solo significa deixar penetrar o sol para aquecer a terra e alcançar as plantações.
Atualmente, são 27 grupos de agricultores assessorados diretamente pelo Centro Ecológico Ipê (CE) em todo o Estado, totalizando 265 famílias envolvidas com a produção e comercialização de alimentos ecológicos. "Na Serra gaúcha, outras 150 famílias estão em transição de agricultura convencional para a ecológica", informa o engenheiro agrônomo do CE, Luis Carlos Diel.
Parceria e pequenos grupos caracterizam associações rurais
Os anos 80 foram de muita efervescência no meio rural no Brasil. Os impactos sócio-ambientais negativos da Revolução Verde, a distensão da ditadura militar e a retomada das lutas sociais no campo criam o cenário oportuno para o surgimento de organizações que buscavam um desenvolvimento baseado na agricultura ecológica e na cooperação.
É neste contexto que, em 10 de janeiro de 1985, surge o Projeto Vacaria, em uma área situada no atual município de Ipê. Nascido no seio do movimento ambientalista, o objetivo do projeto foi demonstrar a viabilidade técnica e econômica da agricultura ecológica.
Após três anos de experimentação e prática, em uma propriedade de 70 ha, em Vacaria, os técnicos vinculados ao projeto buscam maior inserção na comunidade, visando a disseminação da proposta junto a agricultores familiares da região.
As parcerias frutificaram na forma de Associações de Agricultores Ecologistas (AAEs), que se caracterizam por estarem organizados em pequenos grupos, industrialização artesanal de seus produtos e comercialização direta de sua produção.
Consumidor estimulado a formar cooperativas
Em 1991, o projeto Vacaria passa a se denominar Centro de Agricultura Ecológica Ipê (CAE-Ipê), caracterizando uma nova fase do trabalho, onde o foco passa a ser mais o acompanhamento às AAEs.
Em 1997, nova modificação: o trabalho se caracteriza por ir além da produção ecológica e se vincula à ecologização da propriedade como um todo, do indivíduo que nela trabalha e das relações sociais. Assim, o CAE-Ipê passa a se denominar simplesmente Centro Ecológico Ipê (CE).
A partir de 1999 o Centro Ecológico se envolve também com o estímulo à formação de Cooperativas de Consumidores de Produtos Ecológicos, a partir da percepção que uma participação ativa dos consumidores é condição indispensável para o desenvolvimento do trabalho com agricultura ecológica.
Área de atuação vai da Serra ao Litoral
O Centro Ecológico concentra sua atuação em duas regiões agroecológicas distintas do Rio Grande do Sul: a Serra e o Litoral Norte - atua também no Sul de SC. "Cada uma destas regiões possui características socioambientais diferenciadas, o que têm contribuído para alimentar um esforço permanente de reflexão sobre os princípios da agricultura ecológica e sua forma de operacionalização em contextos específicos", explicam os agrônomos e coordenadores do Núcleo Litoral, Ana e Laércio Meirelles.
A dimensão do trabalho do Centro Ecológico não pode ser avaliada somente pelo número de grupos de agricultores estruturados ao longo da trajetória do Centro - na Serra são 14. "Entretanto, o surgimento das primeiras associações de agricultores ecologistas, nos municípios de Ipê e Antônio Prado, foi um ponto importante na consolidação do trabalho do CE junto às comunidades rurais", afirmam.
Feira - Com o apoio dos técnicos do Centro Ecológico, da Pastoral Rural de Antonio Prado e do escritório da Emater em Ipê, agricultores da região começaram a se mobilizar, no final da década de 80, no sentido de comercializar sua produção na Feira dos Agricultores Ecologistas da Cooperativa Coolméia, em Porto Alegre. "Agricultores da Serra e do Litoral Norte, assessorados pelo CE, respondem por pelo menos por 50% das bancas na Feira da Coolméia", diz ao CR o agrônomo Luis Carlos Rupp.
"É importante destacar que a equipe técnica do Centro Ecológico busca, junto com os agricultores familiares, construir os conhecimentos necessários para produzir", conclui a agrônoma Ana Meirelles.
Consumidor diversifica dieta com produtos agroflorestais
Diversificação, sustentabilidade, busca da auto-suficiência são palavras-chave quando se fala em produção ecológica e ecologização da propriedade. Os cultivos são diversos, seguindo as épocas naturais. "Não se busca produzir uma cultura fora da sua época", declaram os agrônomos do Centro Ecológico.
Outro aspecto da prática ecológica é a não utilização de sementes híbridas e transgênicas. O trabalho dos técnicos busca incessantemente resgatar sementes crioulas e promover a troca de sementes entre os agricultores. Já, junto aos consumidores das feiras, pontos de venda e cooperativas ecológicas, incentiva o consumo de alimentos da biodiversidade, diversificando a dieta.
"Por que não consumir batata-cará ao invés de batata inglesa?", questionam os técnicos do CE. A mesma linha de pensamento vale para frutas. Os produtores da Serra gaúcha já processam uma linha de sucos diferenciados, com frutas produzidas na agrofloresta (floresta cultivada).
Erva-mate - Os alimentos produzidos nas agroflorestas são outro diferencial do trabalho dos assessorados do Centro Ecológico. No litoral, os produtos vindos do sistema agroflorestal são a banana, o mamão e o araçá. Na Serra, tem os sucos e a erva-mate, também cultivada nesse sistema.
Os agricultores ecologistas produzem 30 tipos de hortaliças, com ênfase para tomate, cenoura e beterraba, grãos, principalmente milho e feijão, e frutas diversas. Os destaques são a uva, pêssego, maçã, caqui e figo, na Serra, e banana, na região litorânea.
A produção de uva supera um milhão de quilos. "Garibaldi responde por 600 mil quilos e Campestre da Serra colhe 200 mil quilos de uvas ecológicas por ano", relata o agrônomo Luis Carlos Rupp. As variedades comuns são as preferidas. Quase toda colheita é transformada em suco. O restante é vendido in natura nas feiras, pontos de venda e cooperativas.
Sem lucro e com a saúde ameaçada, produtores adotam a nova proposta
A virada agrícola na região de Ipê respondeu a um clamor dos agricultores empobrecidos e ameaçados por doenças. É o caso de Volmir Forlin, 41, e Gilmar Bellé, 32, que se sentiram desde cedo atraídos pela proposta do projeto, encabeçado por Maria José Guazzelli, baseada na produção, experimentação e demonstração de práticas em agricultura ecológica.
A família de Volmir Forlin abandonou a agricultura convencional por uma questão de sobrevivência. "O modelo que estava aí não servia mais, precisávamos estancar os problemas de saúde, devido ao uso de venenos na lavoura, e combater a indústria química, que apresentava como regra única o uso intensivo de agrotóxicos", declara Forlin, em entrevista ao CR. "Éramos tachados de loucos", emenda (risos).
Os dois jovens agricultores de Antônio Prado ajudaram a fundar a Cooperativa de Produtores Ecologistas de Ipê e Antônio Prado (Aecia), com 22 famílias. A Aecia se destaca no mercado pela produção de sucos e molhos naturais. Na última semana, esteve expondo seus produtos no Salão de Turismo, em São Paulo.
Todas as famílias assessoradas pelo CE substituíram suas antigas lavouras por outras trabalhadas de forma a deixar o mato crescer livremente entre cenouras e beterrabas. Adotando rotação de culturas, combinando simultaneamente diversas espécies e fazendo adubação verde discobriram que os venenos são dispensáveis.
CE mescla saber popular e científico
A receptividade da proposta desenvolvida pelo Centro Ecológico pode ser medida, hoje, pela diversidade de instituições e públicos envolvidos nos cursos, palestras e assessorias prestadas, em distintos locais do Rio Grande do Sul, do Brasil e do exterior.
Os resultados alcançados encontram-se fundamentados nos princípios de uma visão ecológica da agricultura e de sua relação com os ecossistemas naturais. "Os sistemas de produção agrícola são interpretados e manejados como sistemas sócio-ecológicos, multideterminados, complexos e em permanente transformação, cuja reestruturação envolve diferentes níveis de intervenção", explicam.
Outro dos princípios prevê a necessária combinação entre saber científico e saber popular, na construção de um conhecimento capaz de fundamentar um processo mais amplo de transformação social.
O CE busca ainda a viabilização econômica e social da agricultura familiar. "Os produtores não são considerados objeto de experimentação, mas sujeitos da construção da nova alternativa de desenvolvimento", enfatizam os técnicos.
Produto limpo integra merenda escolar
Um grande passo em direção à proposta do Centro Ecológico é o fornecimento de alimentos para a merenda escolar. Caxias do Sul é um dos municípios que assinaram convênio de compra de produtos com esse fim. Outro município é Três Cachoeiras, no Litoral
Três Cachoeiras, por exemplo, integra o programa Compra Antecipada do governo federal. O Ministério da Agricultura (leia-se Conab) adquire a produção e a distribui gratuitamente a escolas, creches, asilo e Apae do município. "Esses produtos ecológicos compõem a merenda e dieta de alunos e pessoas dessas instituições", conta Ana Meirelles.
Os produtos ecológicos são certificados pela rede Ecovida, com atuação no Sul do país.
Mundo tem 200 milhões de migrantes
Semana motiva reflexões sobre o contexto vivido pelos desenraizados
O mundo nunca teve tanta gente morando fora do país de origem como nos dias atuais. Pelas mais variadas razões, desde a mudança temporária por exigência de trabalho à tentativa de uma vida melhor no exterior fugindo das guerras e da miséria, mais de 200 milhões de pessoas vivem longe de sua pátria. Em sintonia com a ação pastoral da Igreja no Brasil, o Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM) promove, de 12 a 19 de junho, a 20ª Semana do Migrante. O período culmina, no domingo 19, com o Dia Nacional do Migrante.
Como ocorre desde 1986, quando passou a ser celebrada a Semana do Migrante, esse tempo pretende ser um momento forte de conscientização e acolhida aos migrantes, em sintonia com a Campanha da Fraternidade. Por isso, a Semana insere seu tema no contexto das migrações - "Migração, solidariedade e paz" -, com o lema "Mensageiros de justiça e de paz".
O fenômeno migratório, tão em evidência nos dias atuais, reflete duas realidades. A globalização, que favorece ainda mais a mobilidade humana, e as desigualdades cada vez maiores entre os países do Terceiro Mundo e as nações mais ricas. O fenômeno da globalização se reflete na mobilização cada vez mais crescente registrada nos últimos anos. Em 1960, eram contabilizados 76 milhões de migrantes; passaram para 175 milhões no ano 2000 e, hoje, já são mais de 200 milhões - 90 milhões dos quais são mulheres, muitas das quais exploradas.
Brasil - Os Estados Unidos dão uma idéia do que representa a atração pelos países ricos. Visto como uma espécie de Terra Prometida, os EUA são o país que mais acolhe imigrantes. Hoje, vivem em solo norte-americano, mais de 57 milhões de migrantes (11 milhões dos quais ilegais), em grande parte oriundos da América Latina - 16 milhões só do México.
A história do povo brasileiro é uma história de migrações, de busca contínua pela conquista da sobrevivência. Se em muitos países e regiões do globo, o êxodo acontece por causa das guerras e da extrema pobreza, no Brasil as migrações são fruto da inconstância dos ciclos econômicos e de uma economia planejada independentemente das necessidades da população.
No Brasil, mais de 50 milhões de pessoas não vivem no lugar onde nasceram. Conforme dados do IBGE, em 2000 havia 1,59 milhão de cearenses vivendo fora de seu Estado. Mas não é apenas internamente que o brasileiro perde suas raízes. Hoje, há dois milhões de brasileiros no exterior, um milhão dos quais nos Estados Unidos (300 mil na região de Nova York), 300 mil no Paraguai, seguindo-se o Japão, França, Inglaterra, Itália e Espanha.
Por sua vez, o Brasil também atrai emigrados de regiões ainda mais pobres, especialmente dos países vizinhos - Bolívia, Paraguai, Peru, Equador etc. Só em São Paulo vivem 150 mil bolivianos, a maioria em condições ilegais.
Emigração ajuda os países mais pobres
Em meio a tantos problemas enfrentados pelas migrações, há efeitos positivos. Além da qualificação e novas habilidades que muitos migrantes obtém em países mais desenvolvidos, o dinheiro enviado ao país natal é benéfico para as nações em desenvolvimento. É o que mostra um estudo da Organização Internacional para as Migrações. Em 2003, revela a pesquisa, emigrados remeteram US$ 38,5 bilhões a suas famílias no país de origem. Em El Salvador, por exemplo, essas remessas já são a principal receita do governo.
Paulo VI estabeleceu dia de celebração
A comemoração do dia do migrante foi estabelecida pelo Papa Paulo VI, em 1969. Os bispos do Brasil logo colocaram a idéia em prática, passando a celebrar a data anualmente. Mas pouco se fez em torno do Dia do Migrante até a realização da Campanha da Fraternidade de 1980, que tratou sobre o tema e adotou como lema "Para onde vais?". A realização da Campanha da Fraternidade daquele ano sensibilizou muita gente, instituições e organismos no país.
Em 1985 foi fundado o Serviço Pastoral dos Migrantes e, no ano seguinte, passou-se a celebrar a Semana do Migrante, que se transformou num momento forte de conscientização e de acolhida aos migrantes.
Ela é realizada todos os anos, em âmbito nacional, na terceira semana de junho e acompanha a reflexão da Campanha da Fraternidade do ano em curso, retomando o tema sob a ótica das migrações. Por determinação da CNBB, o Dia Nacional do Migrante passou a ser celebrado aos 25 de junho, quando cair em domingo ou no domingo imediatamente anterior a essa data - neste ano, dia 19 de junho.
Padre Zezinho
Uma vela não perde sua luz só porque junta seu brilho ao de outra
Aprenda a elogiar o que é bom dos outros e nos outros. Uma vela não perde nem seu fogo nem sua luz porque passou seu fogo a outra vela ou juntou o seu brilho ao brilho dela. Brilhe e reconheça o brilho dos outros. Uma estrela não fica menor porque admite que a outra é maior. Continua brilhando como sempre brilhou.
Querer o primeiro lugar, ainda que inconscientemente, é sinal de excesso de auto-estima. Aceitar, perder ou elogiar quem é melhor do que nós em alguma coisa é um bom sinal. Mostra que o "eu" dessa pessoa não ultrapassou o "nós" de quem aquele eu depende. Quem acha que só da sua colina e só do seu telescópio se podem ver as crateras da lua é, no mínimo, um astrônomo tolo. Quem acha que só do seu ângulo de fé se pode chegar a Deus nega o brilho de Deus e a capacidade dos outros.
Religiosos de cabeça fechada são também pessoas de coração fechado. Não viram o que acham ter visto! Quem acha que a lua ou o sol só brilham no telhado da sua casa não está precisando de óculos. Precisa é de mais juízo e de mais humildade.
Quem acha que Deus só ilumina gente da sua Igreja, precisa de outra mente, não de outras lentes. Se não consegue enxergar um palmo além da porta de seu templo, o problema é a sua mente mais do que as suas lentes.
Capuchinho brasileiro é nomeado bispo
Frei Antônio Cavuto será bispo da diocese cearense de Itapipoca
Acolhendo pedido de renúncia apresentado por dom Benedito Francisco de Albuquerque, o Papa Bento XVI nomeou, no dia 25 de maio, bispo da diocese de Itapipoca (CE) o capuchinho frei Antônio Roberto Cavuto. O novo bispo atua como vigário provincial da província dos capuchinhos de Minas Gerais, é vice-diretor dos formandos do pós-noviciado, pároco da paróquia Nossa Senhora do Rosário de Pompéia e vigário forâneo da arquidiocese de Belo Horizonte, além de assistente da Ordem Franciscana Secular.
Filho de Antônio e Rosalia de Oliveira Cavuto, frei Antônio Roberto nasceu em Espírito Santo do Pinhal (SP) aos 19 de maio de 1944. Ingressou no seminário dos capuchinhos em Ouro Fino (MG). Foi ordenado sacerdote em sua terra natal em 24 de janeiro de 1971. Exerceu seu ministério como vigário paroquial e vice-diretor dos postulantes, em Uberaba; foi vice-mestre e mestre de noviços, em Belo Horizonte. Em 1977 foi eleito vice-provincial da vice-província dos capuchinhos de Minas Gerais e, em 1980, ao ser criada a província mineira, foi eleito ministro provincial, sendo reeleito em 1983.
Depois, atuou como guardião e pároco em Patos de Minas; diretor dos formandos do pós-noviciado, em Belo Horizonte; guardião e pároco na paróquia N. Sra. do Rosário de Pompéia e também definidor provincial; e pároco em Uberlândia. Em 2005 foi transferido para Belo Horizonte, onde exercia diversos cargos, entre os quais o de vigário provincial.
Conventual - Na mesma data, o Papa Bento XVI nomeou bispo da vacante diocese de Piracicaba (SP), dom Fernando Mason, frade conventual, transferindo-o da sede episcopal de Caraguatatuba (SP). Italiano de Loreggia, Pádua, está no Brasil desde 1972. Atuou como frade conventual em Toledo, Guaraniaçu e Cascavel. Foi nomeado bispo de Caraguatatuba e ordenado em 1999.
Paróquia de Cianorte é elevada a santuário
Centenas de pessoas participaram da celebração que elevou a paróquia Nossa Senhora de Fátima de Cianorte (PR) à condição de Santuário Eucarístico Diocesano. A cerimônia foi realizada no dia 13 de maio, festa de Nossa Senhora de Fátima. Em 2001, conforme o pároco, padre Orlando de Camargo, foi instituída a adoração diária ao Santíssimo, com a construção da capela, anexa ao santuário. "O objetivo era adorar o Jesus Eucarístico todos os dias e houve boa aceitação da comunidade", revela.
Com a instituição do Ano Eucarístico, em 2004, padre Camargo enviou pedido oficial de elevação da paróquia a santuário ao bispo de Umuarama, dom Vicente Costa. Agora são três os santuários na diocese - o de Cianorte; Santo Antônio, em Iporã; e Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Umuarama.
Frei Leônidas Salvador morre aos 75 anos
Faleceu no dia 26 de maio de 2005, em Goiânia (GO), vítima de infecção generalizada, em conseqüência de uma batida que afetou os rins, o capuchinho frei Leônidas Salvador. Membro da Província Nossa Senhora de Fátima, Brasil Central, atuava como guardião da fraternidade de Piracanjuba (GO) e como vigário paroquial na paróquia Nossa Senhora d’Abadia. Contava 75 anos.
Filho de João e Sylvia Boscato Salvador, Leônidas (Lourenço era seu nome de batismo) nasceu aos 21 de agosto de 1929 na comunidade de Nova Roma, Flores da Cunha (RS). Foi ordenado sacerdote em sua terra natal no dia 13 de fevereiro de 1955, por dom Benedito Zorzi. Nos primeiros anos foi pároco em São João da Urtiga e desde 1958 atuava no Brasil Central, nas missões populares e na pastoral paroquial, especialmente nas paróquias de Piracanjuba, Hidrolândia, Rio Verde e Goiânia (GO) e em Rio Verde (MT).
No dia 13 de fevereiro de 2005 celebrou, em Flores da Cunha, 50 anos de ordenação sacerdotal, com outros seis confrades capuchinhos (dois dos quais bispos – dom Clóvis Frainer e dom Osório Bebber) que juntos iniciaram a caminhada formativa em Veranópolis, no ano de 1940. Frei Leônidas foi sepultado no dia 28 de maio no cemitério da capela de Nova Roma, em Flores da Cunha.
Aldo Colombo
Se cada pessoa não cantar sua canção, ela será levada pelo vento e se perderá para sempre
Numa tribo africana, quando a mulher percebe que está grávida trata de preparar uma canção para a criança que vai nascer. Para isso, retira-se com algumas amigas para a floresta para rezar e meditar. E aos poucos vai nascendo a canção. Quando a criança nasce, pela primeira vez é cantada a canção. E esse canto voltará a ser cantado, algumas vezes, na vida: no início da puberdade, no casamento e, finalmente, na hora da morte. Se ele cometer algum crime, seus amigos se reúnem com ele e cantam essa canção. Não se trata de castigo, mas da recordação de sua verdadeira identidade: ele é maior do que o crime. E, nesse caso, a canção lembra seus valores, seu potencial e sua capacidade de redimir-se.
Conhecendo ou não o costume da tribo africana, o poeta indiano Tagore imagina que todo o ser humano, ao nascer, carrega consigo uma canção, que ele pode cantar ou não. E na caminhada da vida, muitas pessoas se questionam sobre a "canção que eu vim cantar... e ainda não cantei". É uma canção única, cujo segredo é individual. Ou será cantada por ele ou se perderá para sempre.
Cada criança, ao nascer, é um sonho. Um sonho de seus pais e um sonho de Deus. É um ser individual e social. Ela traz consigo uma canção única e individual, mas ela recebe também uma canção composta pelos outros. As duas canções formam sua verdadeira identidade e sua grandeza. Ninguém jamais terá a mesma canção. Se ele não a cantar, se ele não for digno dela, a canção será levada pelo vento e se perderá para sempre.
"Hoje é cedo demais", alegamos como desculpa. E assim passam os dias, os meses, os anos, as etapas da vida. Depois – sempre como desculpa – "agora é tarde demais". E assim muitas canções jamais serão cantadas, outras canções jamais ficarão como lembrança de nossa grandeza. Serão apenas sonhos desfeitos.
O Evangelho nos ensina que nossa vida pode recomeçar a cada momento. Nunca é tarde demais. No alto da cruz, o bom ladrão cantou sua canção, que havia ficado sufocada toda a vida. Outros, mais felizes, cantarão sua canção pelas estradas da vida. E por isso são recordados para sempre. Todos conhecemos a canção chamada Francisco de Assis, Martin Luther King ou Teresa de Calcutá. Mas existem outras canções maravilhosas e conhecidas por poucos. Todos nós conhecemos canções bonitas, vidas maravilhosas e anônimas. Não tiveram grandes platéias, mas cumpriram com perfeição seu papel individual e social. Eles cantaram sua canção. Eles transformaram em realidade o sonho de Deus e dos seus. Eles se deram conta de sua grandeza e possibilidades.
"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena", proclamava o poeta Fernando Pessoa. Não deixe para amanhã. Desafie seus limites. E terá a certeza de que não passou inutilmente pelo mundo. E terá deixado, após si, uma melodia única, uma parceria entre você, os seus e Deus.
Amazônia é tema de encontro da CNBB
Participantes debatem sobre situação econômica e religiosa da região
Com o tema "Amazônia: desafios e perspectivas para a missão", e o lema "Cristo aponta para a Amazônia", realiza-se de 9 a 11 de junho, no Centro de Convenções Israel Pinheiro, em Brasília, o Encontro Nacional do Mutirão pela Amazônia. Além da comissão episcopal para a Amazônia, participam do evento representantes dos regionais, bispos, padres, religiosos e leigos.
O principal objetivo é animar o espírito missionário da Igreja e sensibilizar a sociedade brasileira para diversas questões que se referem à Amazônia. O encontro também pretende analisar a situação atual da região - os riscos, necessidades e oportunidades - nos campos socioeconômico, político e religioso.
Estarão presentes na abertura do evento o presidente da CNBB, dom Geraldo Majella Agnelo, e o presidente da Comissão Episcopal para a Amazônia, dom Jayme Chemello. No primeiro dia, ocorrem os debates da situação atual da Igreja na Amazônia; a realidade atual da região, suas necessidades e oportunidades no campo socioeconômico e político; a questão do narcotráfico, da biopirataria, do desmatamento e da militarização da Amazônia.
No dia 10, serão realizadas palestras e debates sobre o resgate histórico, o panorama religioso e a cultura da Amazônia; "Desafios e perspectivas para o desenvolvimento sustentável", com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva; e "Desafios e perspectivas para uma renovada evangelização na Amazônia". À noite, haverá apresentação de culturas amazonenses. No último dia, serão debatidas e definidas propostas de ações para a região e encaminhamentos. Mais informações pelo telefone (61) 313.8300 ou pelo e-mail: amazonia@cnbb.org.br.
Cartilha de arcebispo trata sobre segurança
Dom Dadeus Grings, arcebispo de Porto Alegre, lançou na quarta, 1º de junho, na Câmara Municipal da capital gaúcha, a Cartilha da Segurança, um documento de 112 páginas que propõe um grande mutirão em favor da paz. Dom Dadeus destacou que a construção de uma sociedade justa e solitária tem como exigência a superação da violência. O arcebispo disse que "ninguém pode se considerar católico praticante se não ajuda a promover um clima de paz".
No documento, dom Dadeus cita pesquisa realizada pela Igreja no Estado de São Paulo apontando as causas da violência e da insegurança. Foram ouvidas 190 mil pessoas. Dos entrevistados, 60% indicaram como causa da insegurança a falta de vivência de uma religião, 20% a miséria e a pobreza, 10% a impunidade e outros 10% a estrutura social.
Wilson João
Está na hora do povo se organizar em defesa dos direitos de todos, para que não prevaleça a dominação de uns poucos
O desrespeito pelo espaço do outro está se tornando cada vez mais problema. Há uma soma de direitos e deveres que se completam. Quando só se defendem direitos sem dar oportunidade aos deveres, a invasão do espaço alheio se torna um direito que rouba o direito que o outro tem. São muitos os fatos que demonstram que há uma invasão de espaços.
JOTAVÊ tem um cachorro muito barulhento. O vizinho, com respeito, foi pedir que desse um jeito com essa barulheira. O vizinho simplesmente afirmou: "o cachorro é meu, o terreno é meu e a casa é minha. Faço disso tudo o que quero e como quero". E o vizinho, medroso, saiu calado. Faltou inspiração para dizer: "sim a casa é sua, o terreno e o cachorro são seus, mas fique também com o barulho do cachorro". Jotavê está invadindo o espaço do vizinho injustamente. E quantos Jotavês estão tirando a paciência dos vizinhos com seus cachorros!
JOTACÊ colocou em seu carro um som de primeira grandeza. O dono da lanchonete pediu com respeito para que diminuísse o som do carro quando estacionasse nesse local. A resposta veio de um jeito ditador: "o carro é meu e o som é meu. Faço dele o que eu quero". Jotacê estava invadindo o que era de todos: o direito ao espaço. Que Jotacê coloque fones em seus ouvidos e coloque todo o som que desejar! Assim tudo será dele.
JOTABÊ é fumante inveterado. Fuma sem respeitar o ambiente e a presença de pessoas. Jotabê se defende dizendo: "o espaço é meu, o ar também é meu, o corpo é meu, faço de mim o que eu quiser". Jotabê esqueceu o sagrado direito do espaço de todos, a vida que vem do ar para todos, e que também ele não tem o direito de pisar em seu corpo e com seu corpo envenenar o corpo de quem está por perto.
JOTAQUÊ tem um bordel numa das ruas principais da cidade. Ali acontece um desfile de "madames" convidando os vazios de coração para programas. A vizinhança reclamou junto das autoridades do barulho e dessa presença desrespeitosa, querendo preservar os filhos dessas imagens pouco convenientes. Mas o dono do bordel, mostrando o alvará de licença, falou que ele era o dono da casa e dispunha dela com a licença das autoridades. E onde ficam os direitos dos vizinhos, que merecem o silêncio da noite e o ambiente sadio para a educação dos filhos e para uma vizinhança tranqüila?
Infelizmente, a invasão do espaço pessoal acontece em muitas situações e em muitos ambientes, desde dentro de casa com a senhora ditadora televisão até o cansativo e enjoado ladrar de um cachorro de estimação que passa horas e horas ferindo a sensibilidade dos tímpanos. Está na hora do povo se organizar em defesa dos direitos de todos, ou ao menos da maioria, para que não prevaleça a maldosa dominação de poucos que usam e abusam da paciência dos indefesos, invadindo seus espaços.
O italiano que está em você
Silvino Santin
Professor, de Santa Maria - RS
O Prof. Silvino Santin, de Santa Maria, define sua italianidade:
"Nasci italiano, não o da Itália, mas ítalo-sul-rio-grandense. A Itália sem esperanças, da pobreza, desnutrição e opressão senhoril, história ouvida desde a infância, estava separada de mim por um mar de 40 dias de màchina a vapore.
Falava o mais legítimo vêneto. A culinária italiana era absoluta. A mesa farta tinha a polenta como rainha, presente no café, almoço e janta, com folga aos domingos, menos ao jantar. Descobri, ainda criança, que havia vários tipos de italianos: trentinos, cremoneses, bergamascos, friulanos, veroneses etc. Do lado materno, sou vêneto-veronês, e do lado paterno, friulano. Os tios maternos, com certa ironia, me chamavam furlaneto. Percebi, assim, que havia reservas entre esses tipos.
Meu primeiro impacto maior, como italiano, foi na escola. Precisei aprender a falar, ler e escrever português. No primeiro mês de aula, recebi um prêmio por ser um aluno silencioso. Muito mais tarde desconfiei que o prêmio não era merecido. O meu silêncio devia-se ao fato de não saber falar português. Entretanto, nada abalou minha auto-estima italiana, todos os colegas eram de origem italiana.
Com o passar do tempo, a minha italianidade foi encolhendo e lentamente desaparecendo. Começou pelo abandono da fala dialetal. Em casa a mãe decidiu que os filhos deveriam aprender português desde o nascimento. O golpe mais mortal de minha auto-estima italiana aconteceu na adolescência, já no ensino secundário. O meu sotaque, a dificuldade da pronúncia do ão, a distinção entre erre simples e duplo me humilhavam. Jamais dizia que minha língua materna fora o vêneto. Foi aí que pensei por que não mudar de sobrenome de Santin para Santos. Era só trocar duas letras. E assim senti vontade de esganar o italiano dentro de mim. Não foi possível. Descobri que ele estava inscrito no meu código genético. Hoje, proclamo: por sorte!
Com o tempo, diante da valorização da diversidade cultural e lingüística, descobri que todas as culturas e línguas têm sua importância. Comecei a me interessar pela imigração italiana presente na Quarta Colônia, Silveira Martins. Aos poucos fui me reconciliando com o italiano oculto no meu interior. Posteriormente, com o apoio do Frei Rovílio, aprendi a escrever o Talian ou Vêneto Rio-Grandense. O primeiro ensaio aconteceu em Serafina Correa-RS, palestrando em vêneto sobre os falares dialetais, na semana do município, cuja língua oficial é o vêneto. Depois veio o trabalho mais envolvente, retomar o seriado Nanetto Pipetta, ressuscitado pelo carisma de Pedro Parenti, que, por sua morte prematura, o deixara órfão. Por fim, como consagração do meu italiano de nascença revivido, a convite do Círculo Vêneto de Santa Maria, ministrei um curso de língua e cultura vêneta, que repeti na Universidade Integrada de Erechim, do qual resultou o livro Stòrie Taliane: una ociada in drio, em colaboração com os alunos e com o apoio do coordenador, prof. Neuton A. Pasin e do prof. Valdir Moro.
A recuperação do meu italiano interior não só me levou a reviver a fala e a escrita vênetas, mas me impeliu a voltar a praticar as lides coloniais com a aquisição de uma chácara. Aí me sinto plenamente italiano, inclusive em algumas bestemas.
Com isso julgo ter feito as pazes, - e pazes gratificantes! - com o meu italiano de nascença. Sinto-me orgulhoso da minha língua materna e proclamo minha italianidade dizendo que a minha fala tem cheiro de polenta.
Peço licença, como conclusão, para dizer que espero me seja permitido concluir a minha caminhada neste mundo como um italiano por inteiro, repito, o italiano ítalo-gaúcho, assim, da mesma maneira como nasci." E-mail mailto:santin@terra.com.br
Dizer que Silvino Santin é um íntegro ítalo-sul-rio-grandense, depois de seu depoimento, é proclamar o óbvio (Rovílio Costa).
el ritorno de nanetto pipetta (312)
I ani e i biceri de vin no se li conta mai
Rafael Baldissera
Professor, Curitiba - PR
- Adesso, dise Edilson, ndemo visitar Orvieto, na sità medieval, costruida sora un montesel de sasso de alti rivoni. Par tanto, co na granda protession. Par so posission, par l’antichità etrusca e soratuto par la sèlebre Catedrale, Orvieto la ze una dele pi singolare e interessante sità dela Itàlia. Orvieto vien dal Latin Urbs Vetus; vol dir, Sità Vècia. Ancora dal tempo dei Romani la gera vècia. Antigamente el so nome el zera Urbileto. La ze na sità fortessa. La singolar posission geogràfica la ga fato de Orvieto un sentro naturalmente fortificà, par questo, no la ze stà mai sircondada de muri de difesa. Chi cognosse Vila Velha, in Ponta Grossa, tel Paranà, el pol ver na idea de Orvieto sora na cole con paredoni tuto in torno.
- Come i fa, domanda Nanetto, par ndar rento e fora de sta sità cossì alta? Lori no i ze macachi par rampegar su par quei sassi!
- I ingegneri i ga scavà el paredon de sasso e fato un piano inchinà, i ga istalà trìlii con denti e metesto un treno con rode de denti e stironà co na grossa corda de asso. Ma adesso ndemo visitar la Catedrale, che la ze na òpera de arte, col fronte de marmo, con tante stàtoe e con piture in mosaico, brilante come la luce del sole. Le porte le ze coerte de bronzo, con figure bìbliche in alto rilievo. Vui dir, sto laoro se lo vede in tute le porte dee cese del Itàlia. La Catedrale la ze dedicada a la Madona Incoronata. Fin i pilari del frontispìssio i ze revestidi de bronzo con personagi bìblichi. La costrussion dea spléndida Catedrale de Orvieto la ze stà scominsiada in 1290, e la ga durà tre sècoli. La ze stà costruta par onorar e ricordar el Miràcolo de Bolsena: I dise che, nel 1263, el prete Pietro de Praga el ga dubità dela transustansiassion, sioè, de la vera presensa de Gesù nel Òstia e, intanto el selebrea messa ntea Cesa de Santa Cristina, in Bolsena, el ga visto cascar dela Òstia gosse de sàngue, che le ga bagnà el corporal che, par desision del Papa Urbano IV, che, in quel època el zera in Orvieto, l’è stà trasportà in cità. Lo stesso Pontìfisse, nel 1264, el ga istituio la festa del Corpus christi.
Finia la spiegassion, tuti i ringràssia Edilson che’l dassa na ora de tempo lìbero par vardar intorno e Nanetto, ledendo te na botega la frase - I ani e i biceri de vin no se li conta mai - el ga ciamà atension de tuti, e tuti i ga lesesto e ridesto a boca granda.
Rovílio Costa e Arlindo Battistel
Braghe curte, tirache e morenigne
Geraldo Sostizzo
Agente consular italiano, Cascavel – PR
Quando un tosato el gera vestio con le braghe curte, le tirache e tei pié le morenigne, fea fin ràbia véderlo, maginàrsela quando tochea a noantri meter su chele robe lì. Mi gavea voia de scónderme. Braghe curte par i fradei pi veci, la mama le fea sempre con roba nova e dopo che le scominsiea restar pìcole le passea a queli che vegnea dopo.
Mi che gera el penùltimo, go doperà le braghe de tuti i me fradei pi veci. Go idea che i fea braghe curte, sol parché ocorea manco tessuto par farle. Par tegner su le braghe, no ghe gera cinture par i pìcoli, lora quei che gavea soldi i comprea tirache de fàbrica, e quei che no ghenavea, la mama ghe fea e tirache de tessuto.
Quando cateimo tosati che gavea le tirache de sireloide, ndeimo par de drio e le tireimo longhe e dopo le moleimo e tochea scampar distante par no ciaparle. Prima le fea na ràbia e dopo un mal da can. Quando ndeimo cagar tel mato o tea scapoera, tante volte se desmentegheimo dele tirache, e quando tireimo su le braghe, dopo fato el laoro, le gera belche smerdae. Lora zo le braghe, par snetar le tirache su par le scapoere.
Dopereimo le braghe curte fin ai 10 o 11 ani e le tirache mi le dòpero fin ai giorni de ncoi, in certe ocasion. Le morenigne gera nantro afar del vestirse. Chi no ga messo su un paro de morenigne?! Mi, se podesse scoier, ndea via coi pié par tera. Nei giorni de ncoi, i porta le medèsime morenigne e i cata che le ze na cosa nova e moderna. Pori grami...
El orco
Questa parola – el orco - , fea tremar fin quei che disea che gavea gran coraio e che no i gavea paura de gnente. Quando scominsiea restar scuro, tute le stòrie, vere o nò, le vegnea in testa. Guaia ciaparse fora e distante de casa de note. Quando la mama domandea se gaveimo sarà el punaro, mi me vegnea el pel de oca, parché savea che me tochea ndar veder.
E quando un porcheto sighea, lora ndea zo veder se no’l se gavea ingancià na gamba, o la porca se gavea butà sora. Fin quando ndeimo tor salami in cantina, prima vardeimo par tute le bande, par dopo ndar zo dei scalini. Me fradel pi vècio, Clemente, el conta che, na volta, in tea campagna, i fea el balo al venerdì dea stimana santa. I se ga metesti intesi in due, e i se ga impienio de cadene torno el corpo, e in scarsela i ga metesto pólvera. I se ga pintà la fàcia de rosso, e i ze ndai rento tel balo.
I gera intesi con nantro, che’l resta darente el lampion, e lo ga rabaltà e i ze restai tuti tel scuro. I ga butà la pólvera in tera, e dopo i ghe ga metesto fogo. No ghinè restà un rento tel salon. Dopo, magari, i ze scapai via in meso el mato, senò i negri li copea, ma i ga fenio col balo.
Tante volte quando ndeimo dormir e scolteimo un buio strano fora, Maria Vérgine, sareimo i oci e stropeimo le rece, par no veder e gnanca scoltar gnente.
Ridé valtri, ma ghemo passà un mùcio de ani con paura del scuro, dea note e dei orchi.
Arquipélago de Açores valoriza raízes
A convite da presidência do governo da Região Autônoma dos Açores, o colunista do CR, frei Rovílio Costa, integrou o grupo de 40 participantes do Uruguai, Brasil, Canadá e Estados Unidos que participaram em Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, do curso "Açores à descoberta das Raízes". O evento foi realizado de 7 a 15 de maio.
Frei Rovílio revela que se impressionou com a manutenção cultural das nove ilhas do Arquipélago, destacando-se as festividades do Divino que iniciam após a Páscoa e se prolongam por 50 dias. Elas são festas da comunidade, com promoções de comes e bebes distribuídos entre a população.
Os Açores são patrimônio da humanidade por definição da Unesco, que está investindo grandes somas na conservação e recuperação do casario, das igrejas, dos museus e palácios, inclusive os destruídos por terremotos. Na Freguesia de Altares, na Ilha Terceira, Rovílio Costa encantou os participantes na pregação da festa de Pentecostes, com seu alegre e típico jeito ítalo-brasileiro.
Um dos maiores problemas das ilhas é o êxodo. Em Santa Cruz, na Ilha Graciosa, o pároco que chegou há 40 anos e hoje atende quatro freguesias, diz que há quatro décadas eram 12 mil os habitantes. Hoje são apenas quatro mil.
Fagundes Varela comemora centenário de fundação
Programação alusiva aos 100 anos de criação segue até dezembro
No ano em que o Rio Grande do Sul comemora os 130 anos da imigração italiana, o município de Fagundes Varela, localizado na Serra gaúcha, festeja seu centenário de fundação. A pequena Bella Vista foi elevada a distrito de Alfredo Chaves, hoje Veranópolis, em 12 de junho de 1905.
Atividades como desfile de trajes típicos, festival de cantos em dialeto italiano, filó, declamação de poesias, apresentação de peças de teatro, retratando os costumes, as dificuldades e as lutas dos imigrantes para chegarem ao Brasil, estão sendo desenvolvidas em todo município.
O esporte não ficou de fora do calendário festivo. Estão sendo realizadas a Copa Centenário de Futebol de Campo e a Copa Centenário de Bocha 48. As competições estão sendo realizadas na sede e nas comunidades do interior.
Em dezembro, será lançada a coletânea de Poesias/Contos/Artigos/Fotos/Desenhos com o tema "Bella Vista: uma história sempre viva", buscando, além da valorização da história de um povo, a criatividade de uma geração que está sendo motivada a resgatar os costumes de seus antepassados.
Características - Fagundes Varela emancipou-se em 8 de dezembro de 1987. Possui 2.471 habitantes, na sua maioria descendentes de imigrantes italianos. Tem sua economia baseada na agricultura e na agroindústria. As belezas naturais e o patrimônio arquitetônico religioso representam forte potencial para desenvolver o turismo rural, ecológico e religioso, apoiado pela gastronomia típica colonial italiana.
Famurs prioriza municipalismo
Novo presidente quer distribuição mais justa do bolo tributário
"O nosso objetivo maior é o fortalecimento do municipalismo", disse o prefeito de Ibirubá, Mauri Barros Heinrich (PMDB), ao ser eleito presidente da Federação das Associações de Municípios do RS (Famurs). Outras prioridades são o asfaltamento de rodovias e a distribuição mais justa da arrecadação de tributos. Heinrich assume no próximo dia 30, durante o 25º Congresso de Municípios, em Porto Alegre, no lugar de Heitor Petry.
Na vice-presidência ficaram os prefeitos de Cerro Largo, Adair José Trott (PP); Victor Graeff, Flávio Lammel (PDT), e de Porto Alegre, José Fogaça (PPS). Para 1º secretário foi eleito o prefeito de São Leopoldo, Ary Vanaz-zi (PT); 2º secretário, prefeita de Esteio, Sandra Beatriz Silveira (PSB); 1º tesoureiro, prefeito de Santa Cruz do Sul, José Alberto Wenzel (PSDB), e 2º tesoureiro, prefeito de Igrejinha, Elir Girardi.
Heinrich, 52 anos, conhecido como Lulo, lembrou a alteração aprovada no estatuto para democratizar as eleições na entidade. "Com a mudança, estão aptos a concorrer aos cargos de diretoria todos os prefeitos. Anteriormente, somente os presidentes das Associações Regionais poderiam se candidatar aos cargos da diretoria", diz Lulo ao CR.