
DESCOBRINDO CAMINHOS
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Edição 4.950 - Ano 97 - Caxias do Sul-RS, 17 de agosto de 2005.
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Reforma política urgente para estancar corrupção
Sem mudanças nas atuais regras, o cenário continuará propício para a prática de irregularidades
A freqüência com que as surpresas têm emergido nas investigações sobre os escândalos políticos alimenta e dissemina o ambiente de desânimo e de pessimismo no país. O inesperado altera quase que diariamente as informações e projeções, tornando mais abrangente o espectro do envolvimento de setores do Partido dos Trabalhadores e do governo federal.
Esse quadro se mantém apesar da falta de eficiência e da morosidade com que os trabalhos são conduzidas nas Comissões Parlamentares de Inquérito. Se houvesse um pouco mais de objetividade, provavelmente o brasileiro já teria conhecimento de quem participou da trama - como fornecedor, receptor ou intermediador - e da dimensão real das suas ramificações nas esferas pública e privada.
As deficiências, no entanto, não diminuem a importância das CPIs. Em especial porque elas têm mostrado à sociedade o quanto perigoso é dar um cheque em branco aos partidos políticos sem exercer a fiscalização.
A origem dessa seqüência de denúncias e acusações está atrelada às campanhas eleitorais. E é nesse particular que os parlamentares pecam. Há uma convicção generalizada de que é preciso mudar as regras para impedir, entre outras ilegalidades, o uso de caixa dois e prestações de contas fantasiosas.
O escândalo do "mensalão" e suas repercussões devem tornar a campanha política de 2006 uma das mais austeras. Porém, muito mais por inibir potenciais doadores do que por qualquer outra razão.
As campanhas realmente precisam ser menos caras, as contribuições devem ser absolutamente transparentes e as ilicitudes punidas com mais rigor. Isso tudo depende de nova legislação. As duas propostas mais divulgadas são a de financiamento público das campanhas e a de oferecer incentivos fiscais a pessoas físicas e empresas que fizerem doações. Há espaço para se chegar a um modelo melhor que esses. Mas o tempo é escasso: para vigorar no ano que vem, as mudanças têm de ser fixadas até outubro próximo. O empenho de muitos políticos nas CPIs - necessário para apurar os culpados - não é o mesmo para agilizar o processo de reforma política. E sem ela, por mais exemplares que sejam os resultados das investigações, o cenário continuará fértil para a prática de irregularidades.
Jovens temem mais doença e insegurança
Este é um dos dados da pesquisa com 8.300 jovens caxienses
Doenças, insegurança, drogas, traficante, desemprego e polícia. Esses são os maiores temores dos jovens caxienses, conforme resultado de pesquisa realizada pela Fundação Caxias e divulgada na segunda 15, durante reunião almoço na Câmara de Indústria, Comércio e Serviços (CIC).
O trabalho, denominado Conhecendo o Jovem Caxiense, se baseia na consulta feita a 8.300 caxienses com 12 a 18 anos, que representam 18% do universo da população dessa faixa etária (eram 45.704 jovens em 2000, pelo IBGE). Os dados obtidos com a aplicação de questionários, com respostas múltiplas, foram cruzados com informações do IBGE, da Assembléia Legislativa e de outros levantamentos, em especial de indicadores de desenvolvimento econômico.
Católicos - A pesquisa detectou ainda que as principais mudanças na cidade seriam ter mais segurança (35%) e mais emprego (12%). Revela, ainda, traços importantes do perfil do jovem caxiense: 85% são católicos; 81% moram em casa própria; 76% estudam pela manhã; e 24,4% pertencem a famílias com renda que varia de R$ 1.251 a R$ 3.400.
O trabalho comprovou ainda a desigualdade social e econômica entre bairros. No Exposição, de classe média alta, 44,5 das mães e 49,1% dos pais têm ensino superior; no Serrano (classe baixa), 51,7% das mães são analfabetas e no Jardelino Ramos, 55% dos pais são sabem ler e escrever.
Uma comparação entre os censos do IBGE de 1990 e 2000 mostra que aumentou em 11,2% o índice de pessoas que vivem com até meio salário mínimo por mês. Outra constatação, a partir do Relatório Azul, elaborado pela assembléia legislativa gaúcha, é de que de 2000 a 2004 as ocorrências de violência contra pessoas, roubos e furtos cresceram 26%.
Essa pesquisa, segundo o diretor executivo da Fundação Caxias, Fernando Poletti, apurou ainda que das 364 entidades cadastradas em Caxias, apenas 6% trabalham com adolescentes. Esse dado foi fundamental para que a Fundação mudasse seu foco, deixando de ser apenas de assistência social para voltar-se também para o lado comunitário. "Uma das necessidades é instalar centros educativos", afirmou Poletti. Atualmente, dos 25 mil jovens de famílias com renda mensal de até R$ 540, apenas 2.400 são absorvidos por esses centros. Através do Programa Centrário a entidade pretende comprar vagas para elevar o número de atendidos.
Concurso destaca vinhos de Caxias
Um vinho de boa qualidade, com os tintos viníferas se destacando entre as melhores surpresas. Esta é a síntese da avaliação da safra 2005 de vinhos caxienses, feita pelo enólogo Luiz Rizzon, coordenador da equipe de degustação formada por 33 enólogos. A entrega da premiação do 8º Concurso Melhores Vinhos de Caxias do Sul - safra 2005 ocorreu na quarta 10, em São Pedro da 3ª Légua, e reuniu mais de 600 pessoas.
Foram entregues 73 medalhas (11 de bronze, 44 de prata e 18 de ouro) em cinco categorias: branco e tinto de mesa, rosado de mesa, branco e tinto viníferas. Neste ano, 74 cantinas participaram com 244 amostras do concurso realizado pela Prefeitura, através da Secretaria da Agricultura. Foram premiados com troféus permanentes os vinhos com o mínimo de 80 pontos.
PARA ONDE VAI A IGREJA CATÓLICA NO BRASIL?
O censo do IBGE de 2000 confirmou com números a percepção que todos temos mais ou menos a olho nu: há, no Brasil, uma diminuição dos que se declaram pertencentes à Igreja Católica, e isso vem acontecendo desde o final dos anos 1960, em média de 1% ao ano, de forma bastante linear. Embora haja diferenças regionais, a média nacional alcança redução superior a 30%. Não há nenhum sinal de que este declínio pare na próxima década, e as melhores previsões dão 60% de católicos declarados em 2010, com algumas regiões, como Rio de Janeiro e Rondônia, em franca minoria. Indo mais fundo nos dados e na reflexão sobre eles, talvez consigamos um pouco mais de sabedoria sobre a situação da Igreja Católica no Brasil e sobre o que podemos esperar.
O mapa atual do catolicismo no Brasil nos remete à sua história, em primeiro lugar. O catolicismo que vigorou no Brasil até meados do século XX foi o barroco colonial. Os luteranos alemães procuravam cuidar de si mesmos em espaços pequenos dentro de uma cultura basicamente católica. Desde o início do século XX, a entrada de denominações missionárias e a criação da Assembléia de Deus e da Congregação do Brasil para Cristo, juntaram pessoas e famílias que estavam à margem e ergueram algumas obras educacionais de mérito, mas também permaneceram em grupos quase despercebidos. Então, é necessário entender duas realidades: como o catolicismo barroco foi tão abrangente até meados do século XX, e o que aconteceu nesse momento.
A religiosidade barroca do Brasil é ainda hoje um grande enigma, e vem sendo muito estudada. Há uma versão colonial, que é a síntese do catolicismo popular português, santeiro e festivo, centrado na semana santa, nas folias das grandes festas, com as influências indígenas regionais e africanas nas áreas urbanas. E há uma versão mais romanizada, trazida pelas migrações do século XIX e pelas congregações religiosas do início do século XX. Um dos segredos do barroco foi a sua capacidade de sincretismo, ou seja, de dar unidade e coerência a elementos contrários. O exemplo maior é a sexta-feira santa, com procissão feita de penitência e festa. É próprio do barroco agregar luz e sombras na pintura, pesado e leve na arquitetura, pecado e graça na moral, inferno e salvação na espiritualidade, enfim é a união dos contrários. O barroco colonial foi a matriz do sincretismo que rege o catolicismo brasileiro. Já o barroco romanizado, desde o Concílio de Trento, no século XVI, sempre foi governado com mão forte pelo clero e medido pela prática dos sacramentos. Católico "praticante", nesse catolicismo, é o católico dos sacramentos conforme ditado pela Igreja. Mas o "católico praticante" sempre foi minoria no Brasil. Esse catolicismo barroco, abrangente, popular e clerical misturados, foi a matriz da cultura religiosa sincrética do país do carnaval. Está mudando para um "cristianismo" barroco "modernizado".
Ruptura - Há, nas décadas de sessenta e setenta do século XX, alguns acontecimentos cruciais que revelam uma ruptura. Por um lado, o governo, a ditadura militar, é que foi autoritária naqueles "anos de chumbo". Isso possibilitou, a partir de intelectuais, estudantes e operários, uma contestação das instituições de forma mais secular, menos sagrada. Essa contestação foi reforçada por um clima mundial de contestação do autoritarismo institucional. As primaveras de Praga (contra o autoritarismo soviético), de Paris (contra o autoritarismo na escola e na fábrica, feita por estudantes e operários de todos os níveis) e de Woodstock (contra o autoritarismo nas relações e na família, com jeito hippie de viver a paz e o amor) tiveram seu influxo cultural e espiritual no Brasil, e a religião foi um dos aspectos em que mais refluiu, aqui onde a política era repressiva. Isso não deveria ser esquecido pelos analistas. Foi o começo da modernização da religiosidade brasileira, ganhando autonomia individual e grupal.
Dentro da Igreja Católica, coincidentemente, a renovação conciliar, com seu ar otimista de abertura e de participação nas esferas da Igreja, como também os exercícios de um jeito diferente de ser Igreja a partir das comunidades de base popular facilitaram para renunciar ao menos em parte o estilo bastante clerical e autoritário anterior, mas a meio caminho tal renovação ganhou um travão. Aqui está o ponto mais delicado de análise, ainda passível de algumas emoções e contestações. Por que a Igreja Católica não se acertou mais com o conjunto da cultura brasileira?
Desmistificação - Quando instâncias mais oficiais da Igreja se deram conta do tamanho do problema de "des-catolização", buscaram não a causa, mas quem seria culpado: o acento social e político da pastoral e da teologia de libertação. Portanto, culpados seriam os intelectuais remanescentes da Ação Católica que se uniram à organização de Comunidades Eclesiais de Base. Que, por sua vez, se misturou com movimentos populares em busca de direitos de sua dignidade na esfera política. E, nas esferas mais eclesiásticas, os teólogos orgânicos com tal direcionamento e os bispos que lideravam a Igreja desde meados da década de setenta inspirados por documentos da Igreja latino-americana e da própria Conferência dos Bispos do Brasil. Muita militância social e pouca espiritualidade, muito desafio e pouca consolação, muita política e pouca religião: assim se veio recitando um rosário estereotipado de razões rasas para uma desmobilização com resultados trágicos: esses bispos perderam importância e continuidade, a teologia de libertação foi desprestigiada, falar em pobres, em militância e transformação social, tornou-se quase uma obscenidade nos meios eclesiásticos.
Além do fato da injustiça na consideração de tais bispos proféticos que sempre aliaram seu dinamismo a muita energia espiritual e fidelidade eclesial, ou de tais teólogos que não foram considerados no conjunto de seus escritos, ou das motivações de tais leigos que se ocupavam com espírito evangélico das ações sociais, o que não dá para tapar o sol com peneira é que, se a razão da perda de católicos fosse realmente nessa direção, então o Rio de Janeiro, onde sempre predominou um catolicismo conservador e foi comandado todo esse tempo por uma estrutura eclesiástica controlada por mão forte, deveria estar melhor nas estatísticas. E, no entanto, é o lugar mais caótico do catolicismo hoje. O buraco é mais em baixo.
Adolescência do povo - Erguendo os olhos para o mundo globalizado de nosso tempo, encontramos a crise de instituição e de religião bem mais no fundo do poço. Pelo mundo todo, mas com o olho do furacão no Ocidente "cristão", um dos frutos da modernização foi o acento nas liberdades individuais, nas relações por experiências livres, enfim na autonomia e nas comunidades por livre adesão. As instituições tradicionais, associadas ao autoritarismo patriarcal pré-moderno, entram rapidamente em declínio. E pagam um grande preço por seu passado de alianças autoritárias. Mesmo que tenha méritos e heroísmo, santidade e doação até o martírio, a Igreja Católica sofre hoje contestações com a - vamos chamar assim - "adolescência do povo" que ruma para sua emancipação adulta. O atual pluralismo de formas de cristianismo, dentro do pluralismo religioso, da busca de experiências sem compromisso com a pertença, e, por isso, da grande mobilidade e do "conversionismo" de um lado para outro, faz parte da entrada da modernidade também no Brasil.
Mas há algo mais profundo ainda: essa "modernidade" não ajudou a superar a pobreza, o desemprego e a insegurança. Ela veio mais como ideologia desde as regiões e as classes mais abastadas. O povo se vê lançado cada vez mais em grandes periferias metropolitanas, individualidades flutuantes nas margens, com riscos de serem engolidas pela violência estrutural que é seu pão amargo de cada dia. Ao povo, a liberdade só serve para uma tremenda luta criativa para a sobrevivência de sua dignidade em ambientes onde diminui a solidariedade tradicional das comunidades.
"Sem religião" - Mas onde há pouca religião estabelecida e pouca identificação com as instituições da Igreja - onde nunca houve uma adesão consciente, livre e pessoal, a estas instituições - mesmo assim não há necessariamente o crescimento do ateísmo. No Brasil, cresceram os "sem religião" entre os pobres, que já se sabem "sem" muitas outras coisas. Mas não são sem espiritualidade, sem religiosidade. Apenas buscam se agarrar nas tábuas de salvação eventuais que surgem como cogumelos depois da chuvarada. O que disse o Cardeal Arcebispo do Rio a respeito do nosso presidente é uma verdade geral: o católico brasileiro se tornou mais caótico, o que, aliás, não é estranho ao estilo barroco, criativo sobre o caos. Não importa mais a Igreja, importa a experiência religiosa que devolva e mantenha sua dignidade e seu espírito de luta. Isso desborda de muito a capacidade da Igreja Católica, em suas instituições, de dar respostas e suporte em nossos dias.
Pelo contrário, parece que as medidas principais do governo romano da Igreja seriam suicidas do ponto de vista institucional se ela mesma não fosse atravessada por energias evangélicas e por testemunhos de grande fidelidade. Foi-se implantando uma "nova romanização na era de globalização" através de uma clara opção por movimentos pré-conciliares fortes, mais centralizados e mais de acordo com o perfil romano, tais como a organização Opus Dei, a congregação dos Legionários de Cristo, o movimento Comunhão e Libertação, o Caminho Neo-catecumenal, Schoenstatt. Esses movimentos e organizações, por estarem em plena expansão, ganharam apenas um verniz conciliar, mas não foram afetados pelo espírito mais profundo do Concílio. Têm uma natural aura elitista, um certo sabor pietista, uma grande veneração à hierarquia eclesiástica, mas não se misturam de jeito nenhum com a multidão dos pobres à deriva. Tornam-se, em muitas regiões, modelos de formação de um clero com o mesmo perfil e de nomeação de bispos, além de suscitarem novos grupos regionais com o mesmo estilo. Enquanto isso, as congregações de religiosos e religiosas de missão em geral, além de sofrerem os mesmos desgastes da base, do povo à deriva, foram também desautorizadas junto com os bispos mais identificados com o povo. Isso atingiu desde as Conferências de Religiosos até anônimos missionários inseridos no meio do povo. Como dizia Dom Thomaz Balduíno, irmãs como a missionária Dorothy Stang parecem uma espécie em extinção. Se estas opções neo-romanizantes estivessem certas, as igrejas, sobretudo nos países de origem desses movimentos, estariam cheias, até seriam absolutamente insuficientes. Está acontecendo exatamente o oposto.
Possibilidades de leitura e de postura diferentes
Em primeiro lugar, "o Espírito sopra onde quer", é ele quem garante o florescimento do Reino de Deus, novas compreensões do Evangelho e a continuidade de Cristo. Esses são horizontes maiores do que as Igrejas. Mas fora de uma plataforma de relacionamentos com um mínimo de estabilidade, fora de uma comunidade de pertença estável, com seus cuidados, seus rituais, sua sabedoria e palavra, os indivíduos se esgotam e se perdem. Para isso as Igrejas continuarão a ser importantes.
Em segundo lugar, o país do carnaval e do barroco tem um gênio popular capaz de novas sínteses, novos sincretismos. A cultura popular tem recursos de sabedoria e criatividade. O cristianismo brasileiro provavelmente terá a amálgama do catolicismo barroco, ritual e extrovertido, e do protestantismo centrado na Escritura e na interioridade, com um sincretismo mais pentecostal. Mas não terá a plataforma monolítica da instituição eclesiástica. Será mais flutuante, com os riscos inerentes.
Em terceiro lugar, a situação das pessoas não pergunta tanto pela ortodoxia como pela dignidade. Assim, por exemplo, há um ecumenismo na base e de fato, que atravessa famílias e vizinhança enquanto há nelas indivíduos seguindo diferentes espiritualidades, religiões ou não, igrejas ou movimentos, e que necessitam não só de tolerância, mas de um mínimo de valorização para conseguir continuar vivendo juntas. É um ecumenismo mais real, ainda que caótico, entre o povo do que o clássico diálogo dos teólogos sobre as ortodoxias. É bom lembrar que fora da centralidade dos mais frágeis e pobres não há evangelho autêntico: Jesus se identificou com os pequeninos.
O mesmo se pode dizer das relações familiares, das minorias e das questões na área da sexualidade no meio do povo. Há questões muito delicadas na área da vida, na proteção do seu começo e do seu final, mas não se pode deixar de reconhecer que movimentos de mulheres, inclusive populares, ou de homossexuais, não são mais simplesmente contestações como nas décadas de sessenta e setenta. Seja através de melhor controle da sexualidade e da reprodução, seja através do reconhecimento de direitos, na verdade hoje são os que mais desejam acertar relações de família como experiência humana, e por isso os que mais valorizam "ser família". E o que dizer de inumeráveis famílias de periferia em que as avós criam netos e que estes ficam deserdados por outros familiares e desorientados quando as avós morrem? Ou gente que faz o que e como pode em termos de relações, de famílias incompletas e de novas tentativas de concertar suas vidas, gente na multidão que vai se desidentificando cada vez mais da Igreja que não reconhece suficientemente sua dignidade e direitos, como aconteceu com os operários no século XIX?
Em quarto lugar, a repartição de responsabilidades, a participação de homens e mulheres nos serviços, na palavra e na decisão já não é, também na sociedade brasileira, privilégio de elites, mas algo que também faz parte da experiência popular "modernizada" na sua luta pela vida. Poderá a Igreja Católica dar conta disso em seus ministérios?
Que previsões podemos, afinal, desenhar? Dentro de uma década ou duas, muito provavelmente uma Igreja com algo pouco acima de 50% que se autodenominam católicos, mas com uma participação efetiva continuando abaixo de 10%, com um clero ainda masculino e celibatário sem exceções, com maior dificuldade para manter suas estruturas, com menor interesse por parte de intelectuais, com menor poder de fato para persuadir a respeito do estilo moral de vida. Rituais e festas da Igreja provavelmente continuarão a declinar em direção ao folclore, ao turismo, à tradição, sem forte incidência vital a não ser para minorias. Esse o lado mais institucional, ainda que haja bispos e padres de grande santidade e dedicação. Mas pessoas e grupos inquietos, bastante à margem, deverão surgir desse caldo com novos gestos orientadores. O caos é criativo. O futuro mais vivo da Igreja Católica virá dos que unirem forte experiência mística e contemplativa, para além de instituições, com corajosos compromissos proféticos na sociedade local brasileira.
O fenômeno pentecostal
O que há de mais criativo no cristianismo "caótico" atual é o movimento pentecostal que atravessa com seus ventos todas as Igrejas, todas as instituições, as religiões em geral: experiências espirituais soltas, pairando acima ou rompendo mais abaixo das instituições. Certamente não tem o mesmo sentido em países como os Estados Unidos e Coréia do Sul ou em continentes como a África e a América Latina. É verdade que há muita busca de dignidade, de consolação, de cura de toda sorte de feridas da grande batalha da vida, de sentido para a existência humana. Como há também continuidade com a alienação de consciências, dando a Marx a razão que a pastoral e a teologia de libertação tinham mostrado que não era necessariamente correta, que era possível um cristianismo transformador e não um belo ópio do povo. Enquanto, no grande mal-entendido teológico dos anos oitenta, a teologia da libertação foi acusada de ser cúmplice de Marx (como os psicólogos estariam errados por aprender algo de Freud), essa alienação hoje é mais grave na teologia da prosperidade e de fascinação através dos grandes auditórios midiáticos. O mercado religioso, que desde sempre tentou os seus líderes, está mais transparente e descarado exatamente na medida em que a alienação é mais apelativa e forte. O fascínio desse tipo de pentecostalismo, com diferentes nuances, já está fazendo água na Igreja Católica.
Por um lado, é importante reconhecer esta espiritualidade pentecostal como óleo nas máquinas ressequidas das instituições religiosas. Ou como respiro num mundo sufocante. E fonte de dignidade moral nas periferias degradantes. Mas, por outro lado, seu futuro é incerto, suas possíveis alienações vão cobrar um preço, sua tendência ao fundamentalismo de ordem emocional, assim como o fundamentalismo literário e institucional, pode gerar e aumentar a violência em nome da religião, tanto doméstica como pública.
Licenciamento ambiental integrado
Iniciativa, pioneira no país, beneficia criador de aves e suínos
O Rio Grande do Sul sai na frente e cria o licenciamento ambiental integrado para os criadores de aves e suínos. A parceria implica em mudança na concessão das licenças, aumentando a responsabilidade das integradoras e de associações empresariais no encaminhamento dos documentos.
Os convênios, assinados entre a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) e entidades gaúchas, permitem a redução de 90% no valor do licenciamento ambiental pago pelos produtores de aves e suínos (ver tabela abaixo). A partir de agora, a Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav), a Associação de Criadores de Suínos do Estado (Acsurs) e a Associação Sul-Brasileira da Indústria de Produtos Suínos (Asbips) vão cadastrar técnicos habilitados a fazer projetos ambientais.
Esses profissionais serão treinados pela Fepam e seus laudos dispensarão o processo de visita e avaliação até agora feito pela fundação. Com quadro reduzido para visitar as propriedades, o órgão passará a fazer apenas fiscalizações de forma aleatória ou após denúncia de irregularidades. "A expectativa é, gradualmente, legalizar a situação dos 50 mil produtores de aves e suínos do Estado. Hoje, apenas mil têm a licença de operação", declara o presidente da Fepam, Cláudio Dilda.
Atualmente, o tempo médio para conseguir uma licença é de seis meses a um ano. "Com a nova modalidade, o tempo de espera será muitíssimo menor", afirma. "Os produtores integrados deverão trabalhar com técnicos vinculados às empresas", observa o presidente da Acsurs, Valdecir Folador.
Funcionamento - Os produtores contratarão técnicos credenciados pelas associações ou pelas integradoras, que assumirão parte dos custos.
Os profissionais treinados protocolarão os projetos. Se não houver problema, a licença será expedida pela Fundação de Proteção Ambiental.
Malha hídrica poluída e com déficit
A maioria dos rios e arroios gaúchos está contaminada por coliformes fecais e descartes agropecuários. A afirmativa do presidente da Fepam, Cláudio Dilda, somada ao déficit hídrico do Estado que já chega a 38,5,%, é um alerta para o setor produtivo agropecuário. "Menos de 20% do esgoto cloacal recebe tratamento adequado", reforça Dilda.
Com o licenciamento ambiental integrado, o RS vive um momento histórico. Além de possibilitar mais rapidez no processo de licenciamento, haverá progressiva recuperação de passivos ambientais por meio da adesão a Termo de Compromisso Ambiental. "Estamos modificando uma cultura de décadas por meio da co-responsabilidade cidadã", diz.
Em parceria com a Universidade Federal de Santa Maria, a suinocultura e a avicultura começaram o processo de georreferenciamento das propriedades. O programa é desenvolvido com os objetivos de permitir a coleta de informações em tempo real, o que facilita o sistema de defesa sanitária; e fornecer dados para o licenciamento ambiental e integrá-los a projetos de gestão em cadeia.
Suinocultura, segunda no agronegócio gaúcho
A suinocultura é o segundo setor em importância para o agronegócio, considerado o valor bruto da produção e pela agregação de valor que representa. Com 8.500 suinocultores integrados, o RS é o segundo maior produtor.
O Estado abateu, no ano passado, 4,75 milhões de cabeças e produziu 660 mil toneladas, com a exportação de 120 mil toneladas. O RS é ainda o terceiro maior exportador de frangos do país. Abate mais de 160 milhões de aves, criadas em 4.000 propriedades.
Engº. Agrº. José Zugno
Gila: planta e utilidades
Peço mais informações sobre uma fruta chamada gila e suas utilidades. Só sei que é parecida com a melancia e dá em ramada, como a da batata-doce. Eu tinha uma amiga que fazia doces muito gostosos com esta fruta, mas ela já é falecida e não deixou receita.
MARIA E. ALVES
Bom Jesus - RS
Sobre a gila já tratamos em anos passados, mas não custa voltar ao assunto, pois se trata de um vegetal útil, que produz muito bem em nossos municípios da Serra gaúcha. A gila é uma cucurbitácea, a que pertencem todos os tipos de abóbora, melancia, melão, pepino, chuchu etc. Tem nome científico Cucurbita melanosperma. É planta rastejante, mas pode ser trepadeira, pois é dotada de gavinhas que se enrolam nos suportes. Os caules são angulosos, compridos e muito resistentes. As folhas são simples, alternas, de formato parecido com as da figueira: cinco lóbulos arredondados, de cor verde com manchas acinzentadas. As flores são amarelas, com cinco pétalas soldadas na base e de dois tipos: as masculinas com cinco estames, e as femininas, encimadas por três estigmas espessos, e na base um ovário globoso que, após a fecundação origina o fruto. O fruto é cilíndrico, com cerca de 30 cm de comprimento, e uns 20 cm de diâmetro. A casca é espessa e resistente, com faixas longitudinais, irregulares, verdes alternadas com brancas. A polpa é branca, macia e fibrosa. As sementes, numerosas, são pretas quando maduras. Semeia-se como a abóbora. Vegeta de fins de inverno até o outono. A geada mata a folhagem, mas a planta rebrota na primavera.
Utilidades - Os frutos tenros podem ser consumidos como o suqueti (abobrinha), em salada, refogados, ou fritos. As sementes, devidamente torradas, são comestíveis. As gilas maduras, bonitas e resistentes, são ornamentais. Podem enfeitar centro de mesa por longo tempo.
Mas também pode ser utilizada para fabricação de geléia e doces diversos.
Eis uma receita da excelente doceira Benta Alves Ramos, provavelmente, sua parente, pois tem o mesmo sobrenome (Alves), e é do mesmo município, Bom Jesus: "Limpo bem a casca, bato com um martelo para afrouxar a casca que é dura. Corto a gila em pedaços, retiro as sementes e as cascas. Afervento a polpa até amolecer. Após esfriar, desfio a polpa à mão, retirando as sementes brancas imaturas. Faço uma calda com açúcar e um pouco de água. Coloco a massa nesta calda e a deixo cozinhar até engrossar. Acrescento canela em rama e cravo à gosto. Retiro do fogo e deixo esfriar. Está pronto o doce para o uso. Pode ser conservado em vidro esterilizado, por alguns meses".
Receita de outra amiga, dona Lina Pons, esposa do colega engenheiro agrônomo Miguel A. Pons (espanhol de nascimento, mas naturalizado brasileiro): "Corta a gila, com facão, em quatro pedaços, e coloca-os numa panela deixando cozinhar com casca e tudo. Quando vê que a casca amolece, retira do fogo e deixa esfriar um pouco. Com um garfo reforçado, raspa a polpa que sai em fios e retira as sementes, à mão. À parte, prepara uma calda com açúcar. Com a calda ainda rala, junta a massa e também um pouco de canela e cravo; mistura bem e deixa cozinhar como se faz com a "chimia" de qualquer fruta. O doce fica bem clarinho e é fibroso como "cabelo de anjo" ou "fios de ovos". Na Espanha, uso estes fios para enfeitar bolos e tortas".
Doce de gila com coco - Ingredientes: 1 kg. de massa de gila cozida; 600 gr. de açúcar, ou mais, à gosto; 1 côco ralado. Junte numa panela a pasta de gila cozida, o coco ralado e o açúcar. Leve ao fogo mexendo até o ponto de enxergar o fundo da panela.
Também se pode obter gila cristalizada, da mesma forma que se obtém com a abóbora, usando água de cal.
Região Sul lidera índices de colesterol alto
Números de mau exemplo aproximam brasileiros dos norte-americanos, líderes mundiais
Um em cada cinco brasileiros tem colesterol alto, segundo pesquisa divulgada pelo projeto Corações do Brasil, realizada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC/Funcor). O índice maior está entre os que têm mais de 54 anos: um em cada três – a faixa mais propensa a sofrer eventos cardiovasculares graves, como o infarto e o acidente vascular cerebral.
Os resultados aproximam o Brasil dos Estados Unidos (o número um em colesterol alto no planeta), onde 25% da população estão acima do normal. A pesquisa revelou também que 8% dos jovens até 24 anos já ultrapassaram o limite de 200 miligramas por decilitro de sangue (mg/dL), conforme o convencionado por sociedades de cardiologia de todo o mundo. "Isso mostra o grave erro alimentar e o sedentarismo comuns de nossos adolescentes", disse o diretor-executivo da SBC, o cardilogista Raimundo Marques Neto.
Uma pesquisa realizada com 8.000 adolescentes de São Paulo confirma a preocupação do cardiologista da SBC. Coordenado pelo pediatra Marcos Fisberg, da Universidade de São Marcos, o estudo constatou que os jovens realizam menos de 10 minutos de atividade física por dia. O excesso de peso atinge 39% dos garotos que estudam em escolas particulares e 24% dos alunos dos colégios públicos. Entre as meninas, os índices são de 27% e 23%, respectivamente.
Se os números no país surpreenderam, os dados da região Sul não chegam a ser novidade para os especialistas. Gaúchos, catarinenses e paranaenses são campeões brasileiros em colesterol alto. Entre as pessoas avaliadas no Sul, 24,3% apresentavam índices de risco.
O elevado percentual detectado entre os sulinos é atribuído ao estilo de vida, caracterizado por alto consumo de carnes vermelhas, embutidos e gordura saturada. No caso do Rio Grande do Sul, a principal causa de morte é a doença arterial coronariana (infarto), cujo principal fator de risco é o colesterol.
Mapa - A coleta de dados teve início em 2004. O estudo envolveu 800 profissionais de saúde, que entrevistaram e mediram o colesterol pela coleta de sangue de 1.239 pessoas em 74 cidades, com idades de 15 a 60 anos. O mapa completo do colesterol no Brasil sairá até o final do ano.
Além do colesterol, o projeto Corações do Brasil, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, deve mapear outros fatores de riscos para doenças cardiovasculares como hipertensão, obesidade, tabagismo, diabetes, sedentarismo, doença vascular periférica, depressão, ansiedade e uso de álcool e drogas ilícitas.
Mais de 40% morrem por maus hábitos
Mais de 40% das mortes registradas no país ocorrem por causa das chamadas doenças não transmissíveis, como infarto, derrame cerebral, enfisema, cânceres e diabetes. Só em 2003, essas doenças provocaram mais de 400 mil mortes. Custam ao Brasil cerca de R$ 11 bilhões por ano em consultas, internações e cirurgias.
O mais importante é que grande parte desses problemas de saúde pode ser evitada com simples mudanças de hábitos. Para incentivar os brasileiros a adotarem hábitos saudáveis, o Ministério da Saúde estimula a população a praticar atividades físicas, a ter uma alimentação mais balanceada e a controlar o tabagismo.
Exercícios - Dados de uma pesquisa sobre o comportamento e a saúde do brasileiro mostraram que, em média, 40% da população adulta não praticam qualquer tipo de exercício físico. A pesquisa apontou também o aumento de brasileiros obesos. Em torno de 40% da população adulta está acima do peso recomendado. Segundo especialistas, isso significa aumentar o risco de doenças do coração ou de diabetes.
Entre os brasileiros com 40 anos ou mais, 11% têm diabetes. Já as doenças do coração atingem 65% dos adultos. Para incentivar a prática de atividades físicas, o governo montará núcleos de exercícios em todas as capitais do país, até 2006. Os locais vão funcionar como academias populares onde, além de se exercitar, a população contará com orientação de nutricionistas.
Guia - Em outubro, será lançado o guia alimentar da população brasileira, uma publicação do Ministério da Saúde para profissionais do setor. Com as informações, médicos e enfermeiros poderão orientar melhor a população sobre a importância da alimentação balanceada. O guia trará dados especiais sobre diabetes e pressão alta, doenças em alta no país.
Leonardo Boff
As elites querem liquidar o PT porque sentem-se mal fora do poder central, perdem privilégios que consideram como seus direitos. E Lula nunca foi o candidato delas
Há um provérbio alemão que se aplica à atual situação brasileira, quando lida em sua profundidade: "Bate-se no saco mas se pensa no animal que carrega o saco". Em outras palavras, bate-se no Presidente, especialmente na cúpula do PT (saco), mas o que se quer mesmo é bater no PT como um todo, especialmente em José Dirceu, seu principal quadro (animal). Por quê? Para entendê-lo precisa-se conhecer a lógica das elites, minuciosamente analisadas por José Honório Rodrigues em "Conciliação e Reforma no Brasil" e por Raymundo Faoro em "Os donos do poder". Esse fator não pode ser descartado como o estão fazendo alguns analistas.
Quem são essas elites? São os "donos do poder", políticos profissionais e intelectuais conservadores, grandes empresários e rentistas. É aquele estamento que controla o poder real e orienta a economia em seu benefício. O Estado, na maior parte de sua história, foi comandado a partir deste estamento, que mediante a fusão dos interesses públicos com os privados, criou o que se tem chamado de patrimonialismo. O propósito é aumentar o patrimônio pessoal ou empresarial, coisa que segundo Faoro perdurou até ao tempo de FHC.
Qual é a estratégia destas elites? Consoante José Honório Rodrigues, ela se resume nestes dois pontos: primeiro, adiar a solução dos problemas indefinidamente, ganhar tempo para inventar fórmulas sutis para enganar-se a si próprios e ludibriar a opinião pública e por fim abortar a solução natural dos problemas. Caso sejam obrigados a reformas, estas não passam de remendos que não põem em risco seus interesses. Segundo, fazer a conciliação, hoje se chamaria de "acordão", que não é um compromisso de concessões mútuas para um avanço coletivo, mas uma política finória que visa aparar divergências entre os grupos, ocultar a corrupção de sorte que os benefícios fiquem só entre eles, com exclusão do povo.
Por que não se pode subestimar estes "donos do poder" na crise atual? Por duas razões principais: primeiro, sentem-se mal fora do poder central, nem estão acostumados a isso e perdem privilégios que consideravam como seus direitos. Segundo, porque Lula nunca foi seu candidato. Seria até uma contradição de classe: Lula não os representa, nem o querem, apenas o toleram porque venceu a eleição e agora se sentem beneficiados pela opção macroeconômica de viés neoliberal que o governo assumiu. Mas não se sentem seguros com esta opção porque Lula pode mudar. Sob a pressão dos movimentos sociais ou pelo próprio partido em coerência com sua base social pode optar por outro modelo de economia submetida a imperativos da política social. Aí eles perderiam suas vantagens. A política atual não os tranqüiliza.
Mas o seu objetivo maior não é afastar Lula, obstáculo à sua volta ao poder. Bem que gostariam, mas sabem que será difícil devido à aceitação popular que ainda goza e à mobilização multitudinária dos movimentos sociais. Mas o propósito maior é liquidar com o PT como partido das mudanças, desmoralizá-lo, sangrá-lo, colocar contra ele o povo. É mais que fazê-lo perder as eleições. É liquidá-lo como partido de um projeto alternativo de Brasil. Só então se sentiriam tranqüilas por muitos anos para continuarem com sua dominação a partir do Estado, fazendo eventualmente mudanças para não ter nenhuma transformação que beneficiasse verdadeiramente o povo, como a reforma agrária.
Frei Betto
Todo esperto traz dentro de si um arrogante, um alpinista social, um invejoso. Ele quer subir rápido na vida, ostentar. É essa burrice que o denuncia. Todo corrupto acreditou-se esperto um dia
Atribui-se a Pedro Aleixo a observação de que o esperto julga-se tão esperto que acaba atolado na própria burrice. Considera-se intelectualmente superior àqueles que o cercam. Desse salto alto encara-os com um misto de superioridade e desdém. Superioridade por orgulhar-se de levar vantagem. Desdém por ver aquele pai de família ralando anos a fio para ganhar, de salário mensal, uma quantia que o esperto abocanha em poucas horas.
O esperto corrompe e se deixa corromper, porque sua burrice o convence de que jamais será pego de calça na mão. Sabe que não é um ladrãozinho pé-de-chinelo que furta na esquina. Nem o mafioso de arma pesada em mãos, trocando tiros com a polícia. O que o diferencia do bandido é que faz questão de passar por honesto aos olhos de quem o cerca. Seu jogo é sutil, refinado, maquiavélico. Não bate de frente com a lei. Procura contorná-la, burlá-la, agindo por cima ou por baixo dela, sem confronto.
O esperto adora labirintos. Não mete a mão diretamente na cumbuca do dinheiro. Prefere sujar a alma do que as mãos. Assim, inventa mecanismos pelos quais o dinheiro sai legalmente do Tesouro Nacional, a cavalo em robustos faturamentos aprovados na viciada roleta das licitações e, ao ingressar na malha bancária, gera filhotes bastardos.
Na prática cínica de suas maracutaias, se vangloria por tudo funcionar tão bem. Não se considera criminoso, mas esperto. Nessa cegueira, nem percebe que tece em volta uma rede de cúmplices ativos e passivos. Só toma consciência disso quando desaba seu frágil castelo de cartas. Então, secretárias, motoristas, contínuos, antes tidos como cegos, surdos e mudos, mostram-se mais vivos do que nunca. Até porque esperam que a fritura do esperto não respingue neles.
O esperto não é apenas o político malversador ou nepotista, o diretor de estatal que embolsa verbas com invejável assepsia ou o publicitário que nada de braçada em orçamentos superfaturados. É também o síndico que se aproveita de uma sobra contábil não percebida pelos condôminos; o gerente que desvia mercadorias; o caixa de banco que se vale da distração de um correntista; o padre que utiliza como seus os fundos da paróquia.
Evita-se criar espertos através de rígida educação ética. Meu pai era servidor público. Suas funções lhe permitiam entrar gratuitamente em cinemas. Fazia questão de pagar o bilhete. Trabalhou por um dia na rede bancária privada. Escalado, como advogado, para arrestar os bens de uma inadimplente, preferiu retornar com a carta de demissão a tirar de uma pobre costureira sua máquina Singer. E minha mãe me ensinou que o pobre é tão digno como o rico e, ao sumir um objeto na casa, é preferível desconfiar da própria memória que da faxineira.
Todo esperto traz dentro de si um arrogante, um alpinista social, um invejoso. Ele quer subir rápido na vida, ostentar bens que tanto ambiciona, refestelar-se em sua gorda conta bancária, morar em casa vistosa e andar em carro do ano. É essa burrice que denuncia fácil o esperto, pois os próprios familiares sabem que ele não ganha o suficiente para amealhar riqueza que parece brotar da lâmpada do Aladim.
O esperto tem horror a pobre e à pobreza, exceto como figuras de retórica. Nunca o convidem a ir à periferia ou subir uma favela. Se gosta de viajar, prefere o circuito Elizabeth Arden - Paris, Londres e Nova York. Se é chegado ao meio rural, cria cavalos e freqüenta rodeios. E adora andar na moda, com roupas de grife e sapatos lustrosos.
Todo corrupto acreditou-se esperto um dia. E a corrupção é um vírus presente em todas as instituições. Na Igreja Católica, muitos se lembram do caso Marcinkus e do Banco Ambrosiano. O corrupto acredita que a causa que defende justifica os meios pelos quais opera. E na sua obtusidade julga que seus cúmplices comungam o mesmo idealismo, quando na verdade tratam de multiplicar os dígitos de suas fortunas.
É benéfico à nação expor via TV, em tempo real, as inquirições das CPIs. Isso ajuda a criar vergonha na cara, temer passar pelo mesmo pelourinho, talvez inibindo muitos que andavam à beira da tentação. E é inútil os partidos, agora, tramarem um acordão. O eleitor não está cego. Exige a reforma política, prometida mas ainda não cumprida. As urnas de 2006 haverão de depurar o joio do trigo, malgrado a esperteza de alguns que ainda não se convenceram de sua burrice e insistem em se agasalhar sob o manto de suposta impunidade.
Bem que o Evangelho alerta em sua divina sabedoria: "Tudo o que disserdes às escuras, será ouvido à luz do dia; e o que falardes nos quartos, será proclamado sobre os telhados" (Lucas 12,1-3).
Escândalo fica cada vez mais perto do Planalto
Denúncias cercam Lula, que se diz traído, pede desculpas, mas não convence oposição
A proteção ao presidente Lula não está sendo suficiente para afastá-lo dos escândalos que abalam o país. O desconforto do presidente começou com a divulgação da injeção, pela Telemar, de R$ 5,2 milhões numa empresa recém criada por um de seus filhos, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, através de uma complexa e incomum operação. O problema é que boa parte do capital da Telemar vem do setor público. O embaraço se ampliou com a revelação de um empréstimo de R$ 29,4 mil concedido pelo Partido dos Trabalhadores ao seu então presidente, Lula, e quitado, segundo versão oficial, pelo atual presidente do Sebrae e tesoureiro da campanha de Lula, Paulo Okamotto.
Na seqüência, durante depoimento do deputado José Dirceu (PT) à CPI do "mensalão" - que investiga supostos subornos de deputados para votar a favor do governo -, o deputado Roberto Jefferson (PTB) denunciou um esquema criado para obter dinheiro da Portugal Telecom para saldar dívidas dos aliados PT e PTB. O mais grave, no entanto, veio com o depoimento espontâneo do publicitário responsável pela estratégia de marketing de Lula na campanha e após ter sido eleito, Duda Mendonça, à CPI dos Correios (investiga corrupção), que ligou o presidente a Marcos Valério de Souza, acusado de ser o operador do "mensalão".
Segundo Duda, quase a metade do valor gasto na campanha do PT no ano da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva foi paga pelo empresário Marcos Valério e, mais grave ainda, com remessas de dinheiro não declaradas para o exterior e sem emissão de nota fiscal. Dos R$ 25 milhões cobrados pelo publicitário por trabalhos prestados ao PT, que incluem a campanha de Lula, R$ 11,5 milhões provenientes de caixa dois teriam sido depositados em nome do publicitário numa conta nas Bahamas por Marcos Valério, a mando, ou com o conhecimento, do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares.
As declarações de Duda Mendonça estabeleceram um divisor: a partir delas, oposicionistas passaram a falar com mais insistência na possibilidade de impeachment (impedimento) de Lula. O presidente do PL (mesmo partido do vice-presidente José Alencar), Valdemar da Costa Neto, conseguiu jogar mais gasolina nas chamas sobre as quais arde o Planalto. Réu confesso do escândalo que convulsiona o país há mais de 60 dias - admitiu que recebia dinheiro do esquema "mensalão" -, o ex-deputado que preferiu renunciar para evitar a cassação contou em detalhes à revista Época o acordo de R$ 10 milhões que o seu partido fez com o PT para a campanha de 2002. E garantiu: Lula sabia de tudo. "Lula, Dirceu e Delúbio administravam o PT juntos. São a mesma família", afirmou. A entrevista tem contradições e Costa Neto voltou atrás em algumas afirmações. Apesar disso, sua repercussão teve o efeito de uma bomba.
Integrantes do PSDB e PFL, principalmente, anunciaram a-inda na quinta 11 o início de consultas sobre a viabilidade de encaminhar o processo de impeachment contra Lula. Na segunda 15 à tarde, lideranças dos dois partidos e de outras siglas, entre elas PDT e PPS, discutiriam o assunto.
Traído, indignado... Mas por quem?
Em seu primeiro pronunciamento à nação sobre as denúncias que envolvem o PT e o governo, na sexta 12, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que se sentia traído e indignado com a atual situação vivida pelo país. "Quero dizer com toda franqueza que me sinto traído por práticas inaceitáveis, das quais nunca tive conhecimento. Estou indignado com as revelações que aparecem a cada dia e que chocam o país", afirmou o presidente.
O pronunciamento, na Granja do Torto, antecedeu reunião ministerial, a primeira em que estavam presentes os oito novos ministros empossados recentemente. Lula disse que não tem vergonha de dizer ao povo brasileiro que o PT e o governo têm de pedir desculpas pelos erros que cometeram. Mas em nenhum momento ele se desculpou por suas atitudes - uma delas a de tentar impedir a criação da CPI dos Correios. "O PT foi criado justamente para fortalecer a ética na política e lutar ao lado do povo pobre e das camadas médias do nosso país", lembrou. Lula afirmou ainda que, se estivesse ao seu alcance, já teria identificado e punido os responsáveis pela crise. "Por ser o primeiro mandatário dessa nação, tenho o dever de zelar". O presidente falou de maneira genérica sobre a necessidade de uma reforma política e citou que perdeu três eleições e ganhou a quarta, mantendo seus ideais. Disse também que não mudou e que a indignação que sente é a mesma que qualquer cidadão honesto deve estar sentindo hoje diante da grave crise.
O discurso de Lula não conseguiu acalmar a oposição no Congresso. Mesmo petistas aderiram ao coro dos que consideraram o conteúdo inconsistente e superficial, além de pouco sincero. Em nota, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), classificou o pronunciamento de "frustrante" e "insuficiente" para amenizar a crise política. Ao contrário, diz a nota, "tornou-se mais um componente dela". Assim como políticos, a OAB cobrou: se Lula se considera "inocente e traído", deve revelar por quem e por que motivo.
Apoio no adeus a Arraes
O apoio que buscava na CNBB, através de carta em que diz "ter plena noção da gravidade" da crise no país, Lula obteve em Recife, ao participar no domingo 14 do velório do deputado federal e presidente nacional do PSB, Miguel Arraes. O presidente foi muito aplaudido. Arraes morreu aos 88 anos. Era o último grande político do período pré-64. Cearense, construiu sua carreira política em Pernambuco, Estado que governou por três vezes. No primeiro mandato, foi deposto pela ditadura militar. Foi para o exílio, na Argélia, em 1965, retornando ao Brasil 14 anos após, e foi eleito mais duas vezes.
Governo reage contra risco de impeachment
Desde sexta-feira 12 há um pelotão formado pelos cinco ministros mais influentes do governo atuando para evitar a abertura de um processo de impeachment (impedimento). O time é integrado pelos titulares da Fazenda, Antônio Palocci; da Casa Civil, Dilma Rousseff; da Justiça, Mário Thomas Bastos; das Relações Institucionais, Jacques Wagner; e da Integração, Ciro Gomes.
Pela estratégia de defesa montada, cada um tem uma missão, que vai de contatos com partidos políticos da oposição ao diálogo com a elite econômica do país, passando pela aproximação mais intensa com movimentos sociais. A reação busca conter também o grupo de esquerda do PT, do qual fazem parte 20 deputados (dos 91 que o partido tem) e quatro senadores, que já não seguem mais as lideranças da Câmara e ameaçam deixar o partido se não houver o imediato afastamento dos envolvidos no escândalo.
O mandato de Lula pode ser salvo por quem, em vários discursos, o presidente tem acusado de estar conspirando contra seu governo: as elites. Claro que com interesses muito claros. Cientistas políticos têm argumentado que as elites econômicas não querem o vice de Lula, José Alencar, na chefia do Estado. Elas temem que Alencar adote o populismo econômico - mudando uma política econômica que até o momento tem lhes beneficiado. Há um outro motivo: o vice participou da mesma campanha, ou seja, se foram constatadas irregularidades, ambos serão atingidos. Nesse caso, quem assumiria o governo é o presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti. E isso, nem os mais ferrenhos adversários de Lula desejam para o Brasil. Há, porém, outro risco: o de que o presidente se torne refém nos pouco mais de 16 meses de mandato que restam.
LA NONA TRADIÇÃO QUE SE APAGA
Lembrar da nona é lembrar do trabalho puro, da seriedade, do pão caseiro e de outras comidas maravilhosas, das histórias, da alegria, da harmonia, da ‘enfermeira", da guardiã dos bons costumes. Com a vovó é bem diferente
Arlindo Battistel
Frei capuchinho, pesquisador e escritor
Falar a respeito da nona é algo pleno de nostalgia e logo, de chofre, esbarramos com um problema: como traduzir a palavra nona para o português? Se deixarmos nona, confundimos com um numeral, se traduzirmos por vovó, há uma traição total.
La nona é menina que foi criada à beira da lareira, ou junto ao fogão. Um vestidinho somente, pés no chão, bonecas de pano, feitas pela mãe, responsável, desde os mais tenros anos, de tratar as galinhas, colher ovos, lavar a roupa, preparar comida e cuidar dos irmãozinhos menores, sempre numerosos.
Quando menina, literalmente, tomava conta da casa e de todos os serviços. Os pais iam para a roça. Estudo, pouco ou nada. O que importava era trabalhar, trabalhar, trabalhar! Quando adolescente, algumas fantasias, raras com certeza. Em seguida, surgia um namorado, geralmente indicado pelos pais e, num instante, lá estava ela, novamente, rodeada de crianças, desta vez seus filhos.
Entre um cuidado e outro, sempre metida em mil ocupações, o tempo passava e ela não percebia. Quando notava, seus filhos casavam, e rapidinho virava nona. Enquanto em casa ela se ocupava totalmente da família, lá fora o mundo mudava com furor - surgia o carro, o uso da eletricidade, os trens, o avião, as naves espaciais.
Suas filhas já não se ocupavam em fazer massa, pão, trança, bordados, mas se preocupavam com a escola, o estudo e os namorados. Muitos namorados! Elas já não se dedicavam tanto aos filhos, mas cultivavam vaidades próprias. Emprego, dinheiro, status. Mas a nona continuava a mesma!
Então, a nona se tornava para os netos a especialista que sabia fazer o pão e as bolachas mais gostosos do mundo, a comida mais saborosa do universo. Era aquela que sentava junto deles e contava mil histórias cheias de fantasia e realidade! Histórias de sua vida, dos seus nonos!
Guardiã - Enquanto as mães se ocupavam com o emprego, com os trajes, com as festas, a nona ensinava aos netos rezar, cantar, brincar, serem educados, sábios. Quando as crianças se machucavam, era a nona que fazia os curativos. Dor de barriga; era a nona a médica que, com o seu chazinho de ervas, resolvia o problema. Quando os pais brigavam, era a nona que restabelecia a paz. Despercebidamente, a nona era a mulher sábia, a enfermeira da casa, a contadora de histórias, o livro de história, a conciliadora, a teóloga, a professora, a guardiã da moral, dos bons costumes, das sadias tradições familiares, saco de pancadas das filhas solteiras que descarregavam nela as frustrações afetivas, amortecedora das broncas entre os filhos casados. Sempre pronta a dar um bom conselho.
A nona era trabalho puro, seriedade, mas era também alegria, encanto, felicidade, harmonia, serenidade, um baluarte seguro, sempre pronto a ajudar. Os netos a adoravam, respeitavam e amavam com devoção. Velava para que os filhos e filhas não descurassem do sagrado dever de educar bem seus filhos, não lhes dando nociva liberdade e nem prendendo-os demais, inibindo assim sua autonomia e criatividade. A nona era luz que brilhava dentro de casa, a especialista em comidas, só ela era capaz de pôr um dedinho mágico nos alimentos mais simples que preparava; doces e marmeladas com sabor inigualável. Com sua calma, sem alarido, ia educando os filhos que envelheciam, e os netos que cresciam sadios, trabalhadores, cheios de idealismo, honestos, virtuosos prontos, para, no futuro, levar adiante um novo e harmonioso lar.
Aos poucos, a nona via seus cabelos branquearem, os braços falharem, as pernas enfraquecerem. Os olhos já não viam, os ouvidos não escutavam, o terço ficava lustro de tanto rezar. Nem filhos nem netos percebiam que a nona, aos poucos, estava partindo, se consumindo, tão natural no ambiente de casa.
Um dia ela não acordou. Houve choro! Luto! Vazio. Um dia sem sol. Uma casa sem luz. A nona morreu! Um livro se fechou. Biblioteca que desapareceu! É uma época de alegria, carinho, encanto familiar, doação total, fé robusta, sabedoria, vida simples, sadia, que se encerrou.
No enterro esteve a filha, agora vovó! Roupas vistosas, anéis nos dedos, diploma na sacola, desquitada, vazio no coração. Um ou dois filhos, porque o que conta é sua realização pessoal e profissional, sua independência econômica.
Não conta histórias aos filhos, porque a televisão se encarrega disto. Contar seu passado? Os meninos nem querem ouvir! Fazer marmelada para os netos? Como concorrer com um bombom de chocolate? Um pão caseiro gostoso? Como superar os mil tipos de pães, cucas e bolos do mercado? Fazer chá para as crianças com dor de barriga? Nem aprendeu! É preciso manter os médicos que enchem as crianças com antibióticos e seus efeitos colaterais. Eles entendem de medicina!
Muitos filhos? Incomodam. Ocupação: novelas, cinema, cosméticos, moda. Bastante dinheiro. Egocêntrica. O importante é ter belas roupas, grana para ir a charmosos restaurantes, viagens para o exterior, praia, teatro, internet, vida artificial! Assim é a vovó, bem diferente da nona!
Uma história de vida
Angela Dall’Agnol Battistel*
Fui à escola até o terceiro livro. Mas meu pai viu que meus braços eram mais importantes na roça que a minha cabeça na escola. Aos 11 anos, peguei na enxada, depois no arado a bois. Trabalhava toda a semana. No domingo, minhas irmãs iam à missa; meus irmãos iam caçar, pescar, correr de carrinho de lomba... Mas eu, menina, nada disso podia fazer. Meu brinquedo era catar pulgas nos lençóis, varrer a casa, matar o galo para o almoço, manobrar o bigolaro, buscar água, lavar roupa e preparar o almoço.
Chegando da roça, os homens sentavam, comiam, sesteavam... Eu, minha mãe e minhas irmãs lavávamos a louça, passávamos pano na casa e ferro nas roupas, tratávamos as aves, cortávamos lenha. Após a sesta, os homens iam ao terço na capela, quando jogavam bochas, cartas, mora, bebericavam na bodega... As mulheres conversavam. Era estranho uma mulher beber, jogar...
Às 16 horas, terço na Capela. Homens à direita, mulheres à esquerda. Após o terço, os homens continuavam a jogar; as mulheres íamos para casa tratar os animais, tirar leite, preparar a polenta e o jantar. Os homens chegavam para jantar. Após a janta, nós mulheres lavávamos a louça, fazíamos trança, palhas para cigarros, porque o dinheiro das vendas dos produtos entrava só no bolso do pai. Para comprar algo, tínhamos que fazer e vender trança, ou palhas de milho.
Quando moços, os irmãos iam, com os amigos, dançar... Nós meninas, não. Mas fui crescendo e me apaixonei por um vizinho. Meu pai achou-o preguiçoso e me indicou outro, de quem não gostava. Mas, para evitar uma guerra, casei com ele e me acostumei a gostar. Saímos de casa com fogão, cama e algumas roupas, que nem encheram uma carroça. Fomos para terras novas, num rancho, no meio do mato. Lá me senti bem mulher! Sem horta, sem galinhas, sem vacas, sem chiqueiro, sem potreiro, sem dinheiro! Com um nenê na barriga e mato para cortar. Roças para fazer, milho para colher! E o tempo passava. Íamos construindo o necessário. E quanto trabalhar!
Com cinco crianças, dava conta de tudo: amamentar o menor, cuidar dos maiores, enviá-los à escola, ao catecismo... Preparar as refeições, cuidar dos animais, costurar, lavar, levar comida na roça, com o pequeno no colo. Durante o trabalho, colocava-o numa cesta de taquaras, pendurava-o numa árvore, e o amamentava quando chorasse. Às 11 horas, retornava para preparar o almoço, fazer os serviços e voltar à roça até o escurecer. Voltava à noite, tratava os animais, buscava água, fazia a polenta e preparava a janta. Depois da janta, fazer a limpeza, rezar o terço, fazer a trança e, mesmo morta de cançada, servir o marido na cama, quanto e como quisesse.
Enfim o sono! Mas logo o pequeno chora. Levanto, amamento-o adormecendo. Outro chora de dor de barriga, acordo com o pequeno ainda grudado na teta. Vou fazer um chá, acomodo o chorão na cama, e o galo canta... é hora de levantar.
Assim foi a vida. As 13 crianças cresceram, casaram... Envelheci trabalhando. Esqueci de passear, de me divertir, de me arrumar, fazer penteado. Hoje moro na cidade. Ao olhar para trás, me sinto feliz, nunca vivi para mim. Agora só aguardo a morte chegar, e ser acolhida por Deus.
Luta, trabalho, fé, dedicação e esperança de vencer sempre os tive em mim, como os aprendi de minha mãe italiana. Sou, pois, italiana como minha mãe.
*Angela deu o depoimento acima um pouco antes de morrer, em 17 de outubro de 1989, em Nova Prata. As histórias de vida de Angela e de antepassadas de imigrantes se encontram em três grandes volumes, em textos bilíngües (português e talian): 1. Histórias e estórias. 2. Histórias, estórias e poesias. 3. Histórias, estórias e orações. Telefone (51) 33361166; e-mail rovest@via-rs.net
Espanha prepara encontro da família
Evento mundial ocorre na cidade de Valência em julho de 2006
Em todas as comunidades do Brasil, de 14 a 20 de agosto é celebrada a Semana Nacional da Família. A Igreja reserva esse período, dentro do mês vocacional (agosto), para aprofundar as reflexões em torno dessa instituição que é considerada um dos bens mais preciosos da humanidade e fundamento da própria sociedade. Entretanto, como outras instituições, também a família vive suas crises, seus conflitos e grandes desafios.
Para o Papa João Paulo II, falecido em abril passado, o futuro da humanidade passa pela família. Suas preocupações em torno da instituição familiar fizeram surgir, em 1994, o I Encontro Mundial da Família, realizado em Roma. De lá para cá, esse evento é realizado a cada três anos. O segundo foi realizado no Rio de Janeiro em 1997, o terceiro em Roma (2000), durante o Ano Santo; e o quarto em Manila (Filipinas) em 2003. À exceção do encontro de Manila, todos foram presididos por João Paulo II e cada um deles reuniu mais de um milhão de pessoas.
A menos de um ano da realização do V Encontro Mundial da Família, que ocorre na cidade de Valência (Espanha), no início de julho de 2006, os preparativos prosseguem em ritmo intenso. O encontro será centralizado no lema "A transmissão da fé na família". Esse evento, que deverá contar com a presença do Papa Bento XVI, ocorre num momento histórico, em que as disposições legislativas de muitos países se põem em contraste com a visão cristã do matrimônio e da instituição familiar. A própria Espanha aprovou, recentemente, a união de casais homossexuais, numa afronta aos princípios não apenas da Igreja Católica, mas também de outras denominações cristãs e religiosas.
O cardeal colombiano Alfonso López Trujillo, presidente do Conselho Pontifício para a Família, está organizando, junto com a Fundação Encontro Mundial da Família, constituída em janeiro de 2005 (dela fazem parte o arcebispado de Valência, o prefeito, o presidente da Província e outras autoridades) para coordenar o encontro, os cenários dos principais atos e definindo o programa do evento.
Os encontros da família constam de cinco manifestações principais - um congresso internacional teológico-pastoral, um congresso dos filhos, celebrações eucarísticas para as famílias em peregrinação, um encontro com testemunhos de famílias e a missa de encerramento, que deverá ser presidida por Bento XVI e concelebrada por cardeais, bispos e sacerdotes do mundo inteiro.
Casais devem ser sinal do amor incondicional
Bento XVI também revelou sua preocupação com o aumento de divórcios e de uniões irregulares. Disse que uma das prioridades da Igreja é chamar os casais cristãos e darem testemunho do Evangelho da vida e da família. Ao analisar as dificuldades e os condicionamentos sociais e culturais impostos pelo momento histórico atual sobre as famílias, Bento XVI recordou que os esposos cristãos devem ser com sua vida "um sinal do amor fiel de Deus, devem colaborar com os sacerdotes na pastoral do namoro, dos casais jovens, das famílias e na educação cristã das novas gerações". Por isso, condenou as propostas de novas leis em muitos países que afetam a transmissão da vida, a família e o respeito ao matrimônio.
Papa diz que matrimônio é insubstituível
Numa carta dirigida ao cardeal Alfonso López Trujillo, presidente do Pontifício Conselho para a Família, o Papa Bento XVI afirma que "a Igreja não pode deixar de anunciar que, de acordo com os planos de Deus, o matrimônio e a família são insubstituíveis e não admitem alternativas". A carta foi enviada com o objetivo de motivar para o Encontro Mundial das Famílias de 2006.
O Papa destaca que se os povos quiserem dar um rosto verdadeiramente humano à sociedade não podem ignorar o bem precioso da família, fundada sobre o matrimônio. "A aliança matrimonial, pela qual o homem e a mulher constituem entre si um consórcio para toda a vida, ordenado por sua mesma índole natural ao bem dos cônjuges e à geração e educação da prole, é o fundamento da família, patrimônio e bem comum da humanidade", recorda o Santo Padre.
E durante um longo discurso feito na abertura do Congresso Eclesial da diocese de Roma sobre "família e comunidade", realizado no mês de junho, Bento XVI destacou que o matrimônio e a família "não são algo inventado, mas formam parte da natureza do homem e da mulher", convocados desde sempre para o amor e a dignidade. Condenou as uniões homossexuais declarando casamentos livres ou "pseudo-matrimônios" entre pessoas do mesmo sexo como manifestação de uma "liberdade anárquica, que se apresenta erroneamente como autêntica libertação do homem".
Padre Zezinho
Muita gente anda confusa com relação aos valores da família
Uma simples canção composta em 1974 para agradar minha mãe, que tinha saudade do meu pai, passou dos 30 anos e parece ficar cada dia mais atual. Raramente é tocada nas rádios, mas se eu não a cantar, ainda hoje, em meus shows, o povo reclama. E há centenas de cantores que pediram licença para usar em seus discos. Jovens, adultos e crianças a cantam de cor. Músicos a exaltam como mensagem forte. Deve ser porque a utopia existe.
Algumas pessoas me perguntam porque insisti em dar o nome de Utopia à minha canção, já que fala de uma família que deu certo. Pensei que fosse óbvio... É que ouve-se tanto na mídia que a família está decadente, a televisão quase sempre mostra o conflito, mais do que a unidade dos casais; o número de divórcios aumenta; há milhões de casais que não oficializam sua união e apenas juntam suas posses (quando as juntam); milhões de homens que saem de casa com outra mais nova; milhões de mulheres se cansam do lar e vão viver com outro homem, para não falar de milhões de filhos que pagam o alto preço do conflito entre seus pais.
Achei que chamando o casamento de Utopia que dá certo responderia a muita gente que anda confusa com relação aos valores da família. "Utopia" é uma palavra que significa: um país imaginário, quimera, fantasia; algo que dá certo, mas que certamente não é tão óbvio. É esperança de que a felicidade seja possível, mesmo que não facilmente realizável. Quem primeiro a cunhou foi Thomas Morus e corresponde à República de Platão e ao Shangri-lá de tantas canções modernas.
Ao chamar de utopia a minha canção, eu lembrava que as pessoas podem dizer o que quiserem, mas essas famílias existem. Meu pai morreu paralítico quando eu era menino e minha mãe estava paralítica quando fiz essa canção, a pedido dela. Fi-la bem simples, porque era o estilo de música que ela curtia, sendo cabocla de Machado, sul de Minas. As palavras e a melodia caíram no gosto das pessoas que se identificaram com a canção. Isso mostra que milhões de pessoas acreditam em família amorosa e boa, mesmo que ela tenha seus defeitos. E daí? É a nossa família!
Pensando bem, ela existe e acontece aqui bem perto. A boa família. De tanto ver a caricatura a gente não quer ver a verdade. Conheço milhares de famílias felizes. Aposto que você também as conhece. Então, por que a gente fica quieto quando alguém prega o oposto?
Catedral de Rio Grande faz 250 anos
Igreja, inaugurada em 1755, é a mais antiga do Rio Grande do Sul
No dia 25 de agosto, em Rio Grande (RS), será concluído o ano de celebrações jubilares da mais antiga igreja do Rio Grande do Sul. Nessa data, a catedral de São Pedro, de Rio Grande, completa os 250 anos da sua inauguração, ocorrida no dia 25 de agosto de 1755. Para o encerramento das comemorações jubilares estão previstas diversas atividades (veja, abaixo).
"A catedral de São Pedro é um monumento secular de fé, história e arte, símbolo da cidade de Rio Grande", salienta o pároco, padre Gianni Meneguzzi. Berço da evangelização do Estado, a igreja foi construída pelos colonizadores portugueses. A magnitude da obra, apesar da escassez de matéria-prima na região, fez com que ela passasse a ser denominada "catedral".
No século XVIII, durante a invasão espanhola ao Estado, que durou 13 anos, a igreja foi saqueada e dilapidada, mas com a expulsão dos espanhóis, em 1776, o templo foi restaurado e passou a ser marco da reconquista luso-brasileira. No início do século XX houve um movimento em favor da construção de uma nova matriz, mas venceu a resistência dos preservacionistas que defendiam a manutenção do prédio como depositário da memória histórica coletiva rio-grandense.
Em 1938, a igreja de São Pedro foi tombada como patrimônio histórico nacional. Foi um dos primeiros prédios no Estado a se tornar patrimônio nacional. Nos anos 70, o templo foi elevado à categoria de catedral, fazendo valer, de modo oficial, a denominação que recebera nos primeiros tempos. Danificada pelo tempo, nos anos 90 passou por completa restauração, que lhe restituiu toda a vitalidade original.
Na época da construção, a igreja de São Pedro servia apenas à nobreza. Por isso, nos fundos da catedral, dividida apenas por uma parede, foi erguida, alguns anos depois, a igreja dos escravos. Dedicado a São Francisco de Assis, hoje o belo templo abriga o museu de arte sacra da cidade, com cerca de 2.500 peças, entre as quais uma imagem de São Francisco da antiga colônia portuguesa de Sacramento, no Uruguai, estátuas, oratórios, vitrais, crucifixos, indumentárias etc.
A catedral também preserva imagens históricas de santos esculpidas em madeira, uma pia batismal vinda de Portugal, na qual teria sido batizado o Almirante Tamandaré, e inúmeras outras peças históricas, além dos túmulos de Pinto Bandeira e de Cabral da Câmara, primeiro governador do Estado.
Jubileu encerra com extensa programação
Ao longo do ano jubilar da catedral de São Pedro foram realizados vários eventos de caráter religioso e cultural. As comemorações prosseguem, no dia 21 de agosto, no Estádio Faryd Salomão (Praça Saraiva), com missa celebrada pelo padre cantor Antônio Maria e após show musical. No dia 22 inicia o tríduo festivo e, no dia 24, a Câmara de Vereadores de Rio Grande realiza sessão solene.
No dia 25, às 10 horas, no largo da catedral, ato cívico religioso e militar, com a presença do governador Germano Rigotto e autoridades e lançamento do livro "Uma Igreja, uma comunidade: 250 anos da catedral de São Pedro", obra do professor Francisco das Neves Alves. Às 15 horas, abraço à catedral; às 18 horas, missa solene, presidida por dom José Mário Ströher, bispo de Rio Grande e, às 20 horas, encerramento das festividades.
Aldo Colombo
A família é uma bênção de Deus, é uma realidade maravilhosa e única. Mas é preciso cuidar bem dela
Existia uma jovem senhora, rica e bonita. Muito bem casada, tinha dois filhos maravilhosos e um bom emprego. Sua vida girava em alta velocidade. Mas faltava alguma coisa para ser plenamente feliz: não conseguia conciliar marido, filhos e profissão. E sua família acabava ficando de lado. No aniversário, o pai - um homem muito sábio - deu-lhe como presente uma flor maravilhosa e rara. Era o único exemplar existente no mundo. Suas cores eram maravilhosas e seu perfume inebriante. E o pai deu-lhe as necessárias recomendações: terás de cuidá-la. Ela precisa de sol, de água e, algumas vezes, precisará ser podada. E converse com ela durante alguns minutos a cada dia.
Emocionada, a filha agradeceu o presente e colocou-o no melhor lugar da casa. Todos os dias, embevecida, passava longos minutos contemplando a flor, falando com ela, colocando-a alguns minutos ao sol, dando-lhe água e - sempre que necessário - fazia a poda. A flor era cada vez mais bonita e admirada, mas a vida foi girando, cada vez com mais velocidade e os problemas sempre crescentes. Ela olhava todos os dias para a flor, mas tinha cada vez menos tempo para ela. Mesmo assim continuava gloriosa e seu perfume enchia as dependências da casa.
Num certo dia, ela chegou em casa e teve uma surpresa: as folhas estavam secas e a flor pendia da haste. Ainda tentou dar água, mas era tarde. As raízes haviam secado e a flor estava morta. Ela chorou e foi falar com o pai. E este - também penalizado - esclareceu: eu não posso te dar outra, era o único exemplar existente.
O marido - ou a esposa - e os filhos também são únicos. São bênçãos de Deus, mas precisam ser cultivados. É precisão conversar com eles todos os dias. É preciso dispensar-lhes cuidados constantes. As crises começam devagar e não chegam a ser perceptíveis. A profissão e os problemas ocupam todo o tempo. Mais tarde - quando a vida acalmar - recupero o tempo perdido, pensam muitos. E num dia qualquer, a flor aparece morta, as raízes definitivamente secas. E trata-se de um exemplar único, insubstituível. As lágrimas e as preces chegaram tarde demais.
Na vida, é preciso estabelecer prioridades. Há coisas secundárias, dispensáveis, há coisas relativamente importantes, mas existe um valor absoluto. A família é uma benção de Deus. É uma realidade maravilhosa e única. Mas é preciso cuidar dela. Sem isso, num dia qualquer, essa flor estará definitivamente morta. Enquanto as chances existem, é preciso lutar por elas. Porque muitas vezes não é possível remediar, é inteligente prevenir. O Pai - alguém muito sábio - deu como presente a flor da felicidade. Ela pode ser permanente. É apenas questão de cuidá-la. Mesmo porque não há uma segunda chance.
Centro atende migrantes há 25 anos
Serviço mantido pelas scalabrinianas atende mil pessoas por mês
O Centro de Atendimento ao Migrante (CAM), fundado em 14 de outubro de 1980, está comemorando seus 25 anos de serviço ao migrante e ao refugiado. O CAM é mantido pela Associação Educadora São Carlos (Aesc), pertencente à congregação das Irmãs Scalabrinianas. A Aesc tem sua sede em Caxias do Sul.
"O principal objetivo da entidade é atender os migrantes e refugiados que chegam a Caxias. No início de agosto, por exemplo, acolhemos e orientamos um refugiado vindo do Sudão", conta irmã Eléia Scariot, que há poucos dias assumiu a presidência do CAM, junto com as irmãs Rosa Maria Smaniotto, tesoureira, e Rita Regalin, secretária.
Irmã Eléia explica que o centro também procura oferecer melhores possibilidades de vida aos migrantes, sobretudo os mais desprovidos de direitos elementares. Entre essas oportunidades está a realização de cursos de capacitação e qualificação profissional. Neste mês estão sendo realizadas oficinas de tricô, doces e produtos de higiene e limpeza.
Participam desses cursos, preferencialmente, migrantes. "Em julho realizamos curso de camareira, com 26 mulheres migrantes desempregadas. Antes do término do curso, algumas já tinham sido contratadas para trabalhar em hotéis da cidade", destaca irmã Eléia. Em setembro inicia um curso de cuidadores de idosos, com recursos do Fundo Municipal de Assistência Social de Caxias do Sul, em parceria com o Hospital Fátima.
Os valores cristãos e os direitos humanos orientam o funcionamento do CAM e todos os projetos são coordenados pelas scalabrinianas em conjunto com uma equipe técnica constituída de profissionais das áreas do Serviço Social e da Psicologia. Algumas atividades são desenvolvidas por estagiárias, supervisionadas pelas profissionais dessas áreas, e formandas da congregação. Em média, são acolhidos, orientados e acompanhados mensalmente cerca de mil migrantes.
O Centro de Atendimento ao Migrante está localizado no bairro Desvio Rizzo (Rua José Bresolin, 333, telefone (54) 227.1459 e-mail: cam.sebs@terra.com.br), em Caxias do Sul.
Concurso fotográfico destaca a migração
Para estimular o conhecimento e a sensibilidade diante da realidade migratória, a equipe scalabriniana de comunicação está promovendo o concurso fotográfico nacional "Um Click na Migração". O tema das fotos, coloridas, deverá ser, obrigatoriamente, em torno do universo da migração. Cada candidato poderá participar com até cinco fotos. A ficha de inscrição, que poderá ser obtida no site www.csem.org.br, e o material produzido deverão ser entregues até 20 de setembro de 2005. No Rio Grande do Sul, podem ser entregues nas lojas da Foto Scortegagna de Passo Fundo e Carazinho; ou remetidas a Concurso de Fotografia, Caixa Postal 245, cep 99001-970 Passo Fundo - RS; ou Concurso de Fotografia, Rua Luís Dall Alba, 1021, cep 95054-670 Caxias do Sul - RS. Mais informações no CAM, pelo telefone (54) 227.1459.
Morre frei Marciano, capuchinho dedicado à educação
No dia 13 de agosto, no Hospital Pompéia de Caxias do Sul, morreu frei Marciano Agostini. Contava com 73 anos, completados no dia 4 de agosto. Há três anos, frei Marciano havia passado por uma cirurgia do coração, com colocação de marcapasso e quatro pontes de safena. Também sofria de diabetes, era dependente de insulina via oral e injetável e tinhas seqüelas de isquemia. Passou os últimos meses por seguidos tratamentos, pois sua saúde vinha se agravando.
Filho de Angelo e Amabile De Carli Agostini, Alexandre (frei Marciano) nasceu aos 4 de agosto de 1932 em Ipê (RS). Ingressou no seminários dos capuchinhos de Veranópolis em 1944 e foi ordenado sacerdote, por dom Vicente Scherer, em 1958, na igreja Santo Antônio do Partenon, em Porto Alegre.
Como frade, atuou especialmente na formação, como professor, superior, reitor e diretor nos seminários de Veranópolis e Vila Flores, como vice-mestre e mestre dos pós-noviços em Canoas; como pároco da catedral São Francisco das Chagas, na Barra (BA), e administrador diocesano dessa diocese baiana; integrou a equipe missionária dos capuchinhos de 1965 a 1975; atuou na pastoral da saúde em Vacaria e, desde 2003 estava no seminário de Ipê.
Dom frei Osório Bebber destacou, na missa de corpo presente, celebrada na matriz de Ipê, que frei Marciano foi um grande educador, dedicado de corpo e alma à formação dos jovens seminaristas, aos quais procurou incutir os autênticos valores franciscano-capuchinhos.
Frei Marciano também foi missionário, antes integrando a equipe capuchinha e, mais tarde, trabalhando na Bahia. "Foi um homem de Deus. Sua alegria era contagiante, como também seu zelo e ardor missionário. Deixou entre nós o testemunho de um verdadeiro discípulo de São Francisco", salienta dom frei Luiz Flávio Cappio, OFM, bispo de Barra. E acima de, tudo, foi um homem fraterno e de oração. Está sepultado no cemitério municipal de Ipê.
Wilson João
O trabalho é o instrumento mais concreto para realizar os sonhos: plantar e colher, rir e chorar, planejar e realizar
Nasce-se. Corpos perfeitos. Corpos deficientes. Gênios. Seres inteligentes. Criativos. Menos inteligentes. Inconscientes. Vive-se. Uns, vida de poucos dias. Outros, vida adulta. Uma quantidade sempre maior chega à velhice. Cem anos. Para quê? E em cada coração humano vão desabrochando sonhos. Nascendo projetos. Desafiando o limitado tempo da vida. Acima de tudo, cultiva-se sonhos de vida, de amar e ser amado, de felicidade, de realização.
VIVER É REALIZAR SONHOS. Sonhos de gente acordada. Sonhos de quem se sente consciente que tem uma missão em sua existência. Sente que é responsável pelo tempo de sua vida. Sente, lê, escuta os sonhos de seu coração que deseja vida, liberdade, convivência, sabedoria... e vai, através do trabalho e da vida de cada dia, realizando esses sonhos. O trabalho é o instrumento mais concreto de realizar os sonhos: plantar e colher, ler e escrever, planejar e realizar, criar e comunicar, rir e chorar, comer e gastar energias, assistindo nascimentos e mortes, preenchendo todo o tempo que está à disposição. Morrer realizado é chegar ao final da vida e poder dizer: fiz o que sonhei, fiz o que devia fazer, estou satisfeito, realizei meus sonhos.
HÁ OS QUE NÃO PODEM MORRER. Não podem e não devem morrer os idosos que vivem angustiados por ter passado uma existência vazia, sem realizar seus sonhos. Idosos que passaram, apenas pisando nesta terra, sem deixar suas marcas de inteligência e criatividade. Esses não podem morrer, e que lhes seja concedido mais tempo para despertar sua consciência. Há adultos que não podem morrer porque apenas estão mendigando um trabalho e trabalham apenas para sobreviver, sem dar sentido à sua existência. Há jovens que não podem morrer porque não se permitem sonhar. Vivem o presente, como momento único, sem plantar sementes de estudo, de criatividade, de abrir caminhos, de planejar o amanhã. Muitos jovens se contentam em viver o sonho inútil do momento presente da festinha. Do passar o tempo bebericando e conversando inutilidades. Esquecem do grande provérbio da sabedoria da vida que diz: como se é na juventude, assim o será na velhice.
EU NÃO POSSO MORRER. Posso e não posso. Já realizei muitos sonhos. Muitos outros estão em meu coração e em minhas mãos. Gostaria de não levar meus sonhos para o túmulo. Preciso de mais tempo. Tenho a sensação de que está em meu futuro o melhor livro para ser escrito, a melhor canção para ser feita, o melhor momento para ajudar as pessoas, a melhor ocasião para colaborar para uma sociedade de mais esperança e paz. E se a morte vier despertar-me de meus sonhos, que eu tenha a certeza que eles se completam eternamente numa vida sem tempo e sem espaço, sem limitações e empecilhos. Agora, ou sem o agora, eu tenha a certeza de realizar o eterno sonho de viver plenamente.
O frade que está em frei Rovílio Costa
José Pagno
Professor, político e escritor
José Pagno, professor e escritor, autor das obras - Dom Vital (1957), Nos caminhos da promessa (2004) e de E o Verbo se fez carne e habitou entre nós (2005), depois de ler os textos de O Italiano que está em você, escreve a seu idealizador, frei Rovílio Costa:
Quando o conheci (1957), frei Rovílio Costa se chamava frei Cândido. Era estudante de Teologia, meu aluno em Garibaldi, no Convento São Francisco, e em Porto Alegre, no Convento São Lourenço de Bríndisi, que fica ao lado da Paróquia Santo Antônio do Partenon. Por isso, os capuchinhos de Porto Alegre eram conhecidos como os Capuchinhos de Santo Antônio do Partenon.
Desde então, eu via em frei Rovílio Costa um jovem bastante diferente dos demais. Nunca ficava parado, de atividade fora do comum. Até com os apenados, de Charqueadas, no município de São Jerônimo, trabalhou, como agente penitenciário concursado e capelão. Ao concluir um serviço, sua criatividade o levava a outro. Parado é que não ficava. Livros e bibliotecas eram sua paixão maior.
Eu pensava que se tratasse de uma explosão de juventude, embora esperasse muito dele, devido à sua brilhante inteligência.
Depois nos separamos, cada um seguiu seu caminho. Mas nossa separação foi apenas física. Uma forte amizade permanecia no subconsciente. E esta foi despertada em mim quando frei Rovílio apareceu como o grande incentivador de pesquisas das raízes das varias etnias que constituem a população sul-rio-grandense e brasileira. A Editora EST, que ele fundou em 1973, foi o marco referencial do seu sucesso. Pouco adiantaria os pesquisadores terem farta documentação armazenada, sem vir a publicá-la!
A editora EST faz chegar a toda parte o resultado dessas pesquisas, através de 2.600 obras publicadas e, também, pelo site www.via-rs.com.br/esteditora. Muitos trabalhos também de cultura popular, de grande valor antropológico, cultural e religioso, chegaram a público através de frei Rovílio.
Frei Rovílio, meus cumprimentos pela sua obra, pelo seu Talian, pela promoção de diferentes etnias como: açoriana, africana, germânica, polonesa, judia, hispânica, russa, japonesa, chinesa...
Cumprimento-o, sobretudo, por despertar o sentimento das origens que moram em cada um de nós, através do projeto: ‘O Italiano (alemão, polonês, japonês, judeu, português...) que está em você.’
Gosto muito dessas revelações dos sentimentos de origens que permanecem em cada um. É um válido testemunho de identidade e cidadania. Nenhum povo é grande sem conservar suas origens, cujo valor se torna ainda maior pela mescla de raças, etnias e culturas que fazem nascer novos povos, como é o caso do povo brasileiro.
Não esqueçamos, pois, donde viemos. Juntos seremos um novo povo, constituído de diferentes raças e etnias, cada uma dando o melhor do seu passado, para formar o melhor de próprio futuro.
Mais uma vez, frei Rovílio, meus cumprimentos. Continue! Muito obrigado por ter publicado meu livro - Nos Caminhos da Promessa: de Adão a Jesus Cristo" (José Pagno, fone (54) 2355071).
Prof. José Pagno, o meu idealismo, sonhos, utopias que me inquietam a cada dia, são conseqüência de suas aulas de História da Igreja, sempre presentes, objetivas, analíticas e prospectivas, mostrando o ministério e lugar de cada cristão na construção do reino de Deus. Meu muito obrigado, em meu nome e também de meus colegas que foram seus alunos (Rovílio Costa).
EL RITORNO DE NANETTO PIPETTA (322)
Nanetto tel passo velho do rio das Antas
Mario Gardelin
Professor, historiador e pesquisador, Caxias do Sul - RS
Desso bisogna che ndemo vanti. Semo al Capìtolo 56 del Frate Paolino, in tel libro Nanetto Pipetta, nassuo in Itàlia e vegnudo in Mèrica par catare la cuccagna. Nanetto el ze cascà te le aque turbolente del rio das Antas, ossia, el Mboaptari dei bùlgheri, in brasilian fetivo - rio das Antas. El se ga messo a sigar, a ciamar aiuto, el ga urlà a Santo Antònio, che’l ze un santo magnìfico. Gnente. Le aque lo ga travolto e lu el se ga fermà in t’un posto in che le onde le girava in torno, sempre depì. A serto punto, Nanetto ze restà in medo, come se’l fusse un busnel o na gran impìria. E lì, el ze stà sugà, e ga scominsià na penitensa.... Parà do par le aque furiose, el ze partio par le profondità dela tera. Ogni tanto, el perdea el fià.
- Qua son drio morir! E el continuava:
- No go gnanca ricevesto l’oio santo!
El ga proà dir el ato de contrission, e, in quela, un fùlmine de aqua lo ga parà ancora pi distante. El canalon, in che el ndava vanti, se ga tornà pi streto. Lora, pache de qua e bote de là. In pochi minuti, tuto el corpo zera macà.
Ghe parea de esser na pala de canon. El aqua lo butava avanti, insù, indó, a sinistra, a destra... A serto punto, el ga perso i sentimenti. El ga visto na fàcia zalda, de oci streti.
- San Benedeto dei negri, saron rivà in Giapon?
Nó, parché, in quel momento, el ze ndà in nantra diression. Solo el se ga fermà quando el ga visto meda dùsia de bùlgari, che ghe parea quei del Mato Grosso, dei missionari salesiani. No’l gavea gnanca finio de osservar sta gente e ghe ga tocà partir, in diression del Amazonas. El se ga catà in medo a bèstie grandìssime: crocodrili, onse, giboie, e anca qualche leon, anca se leoni su par quei posti no i ghe ze mia. Vedì che el savariava...
El se ga scoraià. El se ga lassà portar dal aqua. Fusse quel che fusse. El ga sarà i oci e, in quel momento, l’aqua se ga fermà. E lu, alora, el ga visto na pìcola tana, ghe parea de un palmo più o meno. Na ondeta bìscara lo ga alsà e butà rento. Nanetto ancora ga podesto véderse.
- Son perso. Me par esser na rana.
El ga sarà i oci e el ga sentio na voia mata de riposar. E el se ga indormensà.
Rovílio Costa e Arlindo Battistel
Imigrante dos tempos de guerra
Cesarina Bonotti Bicchieri nasceu a 9/08/1914 em Montignoso, província de Massa Carrara, Itália, onde faleceu a 5/07/2005. Casou em 1937 com Domenico Bicchieri, falecido em 24/10/2000, e já em 1938 o acompanhou no Quênia, permanecendo lá por um ano, vivendo de forma precária numa mineração da família. Mulher destemida, corajosa e forte, em 1943, enquanto o marido estava na guerra, teve que atravessar o front, passando do lado alemão para o lado americano através das montanhas dos Apeninos Apuanos, com os filhos Giovanna e Carlo Alberto ainda pequenos, enfrentando inimagináveis privações e perigos.
A aldeia onde moravam foi o marco da Linha Gótica e foi praticamente destruída. Em 1957, mais uma vez fazia as malas com os três filhos para juntar-se ao marido que já estava, há seis meses, no Brasil, montando um estabelecimento de gás engarrafado na Paraíba. Essa mudança, que não deveria demorar mais de um ano, durou mais de 40 anos e, para os filhos, que se espalharam pelo Brasil, virou a demora definitiva. Viajando para a Itália em 1998, ela e o marido resolveram ficar por lá. No ano 2000, com o falecimento do marido, não quis mais sair de perto dele, permanecendo na sua Montignoso até o último dia.
Mãe e educadora compreensiva e amorosa, colocava a educação religiosa em primeiro lugar, rezando o terço diário, lendo a Bíblia e rezando horas a fio pelos filhos, parentes, netos e bisnetos espalhados pelo mundo. Deixa sentidos, mas agradecidos a Deus pelo privilégio de mãe tão extraordinária, os filhos Giovanna, museóloga no Rio de Janeiro; Carlo Alberto, muitos anos presidente da Câmara de Comércio Italiana, e hoje empresário no setor de peixes, em Porto Alegre; e Marco, empresário em São Paulo, no setor de carnes; e os netos de sua adoração - Luca, Marco, Matteo, Marianna, Carlo Augusto, Luiza, Camila e Diego e os sonhados bisnetos - Maria Rita, Isabella, Mariana, Giácomo, Giúlia e Bruno.
Em Cesarina, recordamos todos os imigrantes italianos, que nestes 130 de imigração, nos deram lições de religiosidade e trabalho. É um exemplo de imigrante da época da guerra, cujos depoimentos são raros.
Cavando i ciodi dela croce
Rafael Baldissera
Professor, Curitiba - PR
Tea cesa dei capucini de Rovigo (Polésine, Itália) la Via Sacra la ga na stassion che no la ze stà finia. La ze la 11ª, rapresentando la crucificassion de Gesù. Ghe manca i ciodi dee man del Crucificà. Ai visitanti che i se inacorde e i domanda el motivo, el sisserone el spiega:
- Sucede che Giusepe Milani, el artista, el gera drio laorar in questa stassion, squasi finia, quando el ga dovesto ndar fora e el ga assà verta la porta del atelié. Quando el ritorna, el cata so fiol, de pochi ani de età, ocupà laboriosamente cavando i ciodi de Gesù. Emossionà con sta sena, Milani no’l ga buo coraio de repiantar i ciodi. E cossita la stassion l’è restada fin desso.
Programação diversificada marca aniversário de fundação da Lefan
Entidade completa 40 anos em setembro
A Legião Franciscana de Auxílio aos Necessitados (Lefan), mantida pela Associação Literária São Boaventura, vai completar 40 anos de fundação em 7 de setembro e já iniciou a programação para festejar a data. No próximo sábado, 20, será realizada uma ação social no ginásio do Colégio Santo Antônio para as famílias das escolas infantis e projetos da Lefan. Em parceria com o Círculo Operário Caxiense, serão oferecidos exames médicos gratuitos e vacinação infantil, além de atividades de recreação para as crianças.
No dia 30 de agosto, às 18 horas, celebração dos 40 anos com as famílias da Escola Infantil Nosso Amiguinho. Na Escola Infantil Consolação, a comemoração está marcada para o dia 2 de setembro às 18 horas. Os integrantes do Projeto Casa do Adolescente festejam em 3 de setembro no salão da Igreja Nossa Senhora Aparecida.
No dia 7 de setembro, campeonato de capoeira, das 9h às 12h, no Ginásio dos Capuchinhos. Às 16 horas, missa festiva dos 40 anos da Lefan com a presença de voluntários, parceiros e pessoas que fizeram parte da história da entidade. Após a celebração, coquetel para convidados e descerramento da Placa da Missão da Lefan, na sede da entidade.
Serra prioriza educação e agricultura
Na Consulta Popular, região selecionou 14 projetos para 2006
Educação e meio ambiente, com ênfase para a água, são as prioridades apontadas por cerca de 33 mil eleitores de 32 municípios integrantes do Conselho Regional de Desenvolvimento da Serra. Na Consulta Popular, a região selecionou 14 projetos que irão receber R$ 7,1 milhões em verbas do governo do Estado.
O item mais votado foi a reforma e a ampliação de laboratórios de informática, de ciências e acervos bibliográficos para as escolas. Foram 18.831 votos, que devem render mais de R$ 2 milhões em recursos financeiros. Já o fortalecimento da agricultura familiar vem em segundo lugar, com 13.896 votos e R$ 580 mil. Os 1.542 eleitores de Paraí, por exemplo, escolheram a agricultura como primeira prioridade.
Preocupações - Porém, o meio ambiente e a água despontam como preocupação para a comunidade. Mais de nove mil pessoas voltaram pela ampliação e substituição de rede d’água em cinco municípios, no valor de R$ 960 mil. A conclusão do diagnóstico e do planejamento ambiental da Serra recebeu 7.441 votos (R$ 200 mil); o desenvolvimento de tecnologias de captação e armazenagem da água obteve 4.669 votos (R$ 140 mil) e a avaliação da qualidade das águas angariou 2.292 votos (R$ 65,9 mil). Outros 5.172 elegeram as barragens na região de Veranópolis (R$ 472 mil).
A recuperação de 161 áreas degradadas recebeu 2.326 votos (R$ 65,9 mil). O resultado final da Consulta Popular no Estado não havia sido divulgado até segunda 15, à tarde, pela assessoria do vice-governador Antonio Hohlfeldt.