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Desde 1909, onde o conteúdo faz a diferença.

Edição 4.951 - Ano 97 - Caxias do Sul-RS, 24 de agosto de 2005.

EDITORIAL

Um novo horizonte para a vida de jovens e adolescentes

Projeto Pescar comprova que o conhecimento faz a diferença e devolve a esperança a milhares de carentes

 

Uma chance na vida. É isso o que buscam milhões de jovens e adolescentes, a maioria deles sem obter êxito. Recebem em troca de um direito, que as dificuldades transformaram em sonho, as portas do emprego lacradas, a escola profissional sem vagas, programas sociais limitados... e seguem a vida marcados pelo pesadelo da desesperança, um atalho tentador para o mundo do crime.

Esse quadro, que se agrava a cada ano devido a um modelo econômico que não privilegia o emprego e que incentiva a já inadmissível concentração de renda, torna ainda mais importantes iniciativas que ofereçam uma oportunidade a esses cidadãos. É o caso do Projeto Pescar, que existe desde 1976 e que já formou 8.500 jovens, todos oriundos de famílias pobres.

Tema de matéria especial da página central desta edição, o Pescar preenche uma lacuna que escancara a ineficiência do Estado. Abre unidades dentro de empresas que aderem para educar e qualificar profissionalmente adolescentes e jovens carentes. Mais do que isso, abre as portas para o emprego e um novo horizonte para a vida dessas pessoas.

Os depoimentos de jovens beneficiados pelo Projeto, em especial aqueles que ocupam uma vaga no mercado de trabalho, revela que o conhecimento realmente faz a diferença e que muitos dos obstáculos que antes eram considerados insuperáveis hoje fazem parte de uma etapa suplantada. Não é sem razão que o Pescar, lançado no Rio Grande do Sul, chegou a mais oito Estados e à Argentina.

Atualmente, o Pescar atende 1.500 adolescentes por ano. O número já é expressivo, mas muito inferior à procura. As empresas não conseguem absorver todos os interessados. Os resultados alcançados, no entanto, possibilitam projeções otimistas. Uma delas é de que o Projeto venha a ser referência como agente de transformação social de jovens, disseminando-se por pelo menos 50% dos Estados brasileiros e absorvendo 3.000 candidatos por ano. Quanto mais iniciativas como esta avançarem, maiores serão os benefícios à sociedade e ao país.

 

CAXIAS DO SUL

Prefeitura pede suspensão por um ano de contrato com Comissão Européia

Um dos motivos alegados é dificuldade para prosseguir ações

 

A Prefeitura de Caxias do Sul solicitou a suspensão por um ano da execução do Programa URB-AL, pelo qual a Comunidade Européia (Comissão Européia) repassa recursos para projetos de valorização do turismo integrado à identidade cultural. Correspondência com este objetivo, assinada pelo prefeito José Ivo Sartori, foi enviada por sedex na semana passada ao escritório da Comissão, em Bruxelas, Bélgica, dirigida a Riccardo Gambini.

Caxias coordena o programa do qual fazem parte também 11 parceiros (leia abaixo). Desde outubro do ano passado estão depositados numa conta da Prefeitura cerca de R$ 1,3 milhão para serem aplicados em projetos, entre eles o da escola de agriturismo na 3ª Légua, interior de Caxias. Se esses recursos não forem utilizados até outubro de 2006, serão perdidos.

O documento remetido inicia explicando a troca da administração municipal. O item seguinte fala na necessidade de cuidados especiais para o correto atendimento do contrato, "para assegurar sua continuidade para o futuro". Na seqüência, diz que o Município viu-se obrigado a substituir o gerente executivo do programa, o que provocou atraso na implementação dos projetos.

A correspondência informa ainda que "o Município tem encontrado dificuldades para dar prosseguimento às ações contratadas", inclusive "ao correto entendimento das cláusulas", e reforça a necessidade da realização de auditorias "que já deveriam ter sido executadas" e não foram por força de transição do governo. Descrevendo a importância de contato direto, a Prefeitura pede que seja designado um técnico para vir a Caxias com o objetivo de resolver questões ainda pendentes. Por fim, solicita mais 12 meses para iniciar a execução do contrato, "período no qual buscar-se-ão todas as alternativas visando a retomada definitiva da execução do ajuste".

O gerente executivo do URB-AL, Antônio Feldmann, ouvido pelo CR, afirmou ainda que está sendo contratada uma consultoria especializada permanente e que o convênio entre a Prefeitura e a Associação Turismo Estrada do Imigrante (Assotur), responsável pelo projeto de agriturismo, "terá de ser refeito". O motivo principal se refere ao prédio indicado pela entidade para abrigar a escola. É o ex-seminário da 3ª Légua, que foi adquirido por um grupo de pessoas ligadas à Associação e oferecido em comodato por cinco anos.

 

Dinheiro está parado há quase um ano

 

Em meados de 2004, a Prefeitura de Caxias do Sul assinou convênio com a Comunidade Européia no valor de 1,142 milhão de euros (em torno de R$ 4 milhões) para aplicar, com contrapartida de 30%, em projetos do município e de outros 10 parceiros - a Assotur e as prefeituras de Bento Gonçalves, de Flores da Cunha, mais quatro da Itália, uma da Espanha, uma do Uruguai e uma do Chile. No final de setembro de 2004 foi liberada a primeira parcela, destinada aos projetos da escola de agriturismo em Caxias, e de projetos em Bento e Flores da Cunha. São cerca de R$ 1,3 milhão que estão depositados numa conta bancária da Prefeitura, no Banco do Brasil.

Ao assumir, em janeiro, setores da nova administração municipal começaram a questionar itens do contrato. Há quase um mês, laudo emitido pelo Igam revelou a existência de "situações críticas e muitas dúvidas" no convênio. Se o dinheiro destinado não for aplicado até outubro do ano que vem, há o sério risco de retornar para a Comunidade Européia.

 

REPORTAGEM

Frei Álvaro Morés assume a Província dos Capuchinhos do RS

Freis Cleonir Dalbosco, Alceu Ferronatto, Genésio Fracasso e Evaldo de Freitas são os definidores

 

Frei Álvaro Morés, 41 anos, é o novo Provincial dos Capuchinhos gaúchos. A escolha, com 93,2% dos votos, foi feita na quinta 18, mesmo dia da posse, durante o XX Capítulo Provincial, realizado na cidade de Garibaldi, berço da Ordem no Estado. Natural de Paraí, frei Álvaro foi ordenado sacerdote no dia 11 de março de 1990. Após ter atuado alguns anos na equipe das Missões Populares, fez Missionologia na Universidade Gregoriana de Roma. No triênio passado foi responsável pela Pastoral e pelos Meios de Comunicação Social dos Capuchinhos, acumulando ainda a função de vigário provincial.

Frei Álvaro terá como auxiliares no Governo Provincial os freis Cleonir Dalbosco (definidor da Pastoral e Meios de Comunicação), Alceu Ferronatto (Economia e Finanças), Genésio Antônio Fracasso (Promoção Vocacional) e Evaldo Valdir de Freitas (Formação Inicial). Os freis Alceu e Genésio faziam parte do Governo Provincial anterior. Frei Cleonir estava à frente da paróquia de Fátima, em Santa Maria, e frei Evaldo de Freitas trabalhava em Pelotas, na área da formação.

O XX Capítulo foi presidido por frei Manoel Délson Pedreira da Cruz, representante do Ministro Geral da Ordem. Também estiveram presentes os vice-provinciais do Brasil Oeste, com sede em Cuiabá, e de Santo Domingo-Haiti, respectivamente freis Faustino Paludo e Demétrio de la Cruz. As duas vice-províncias estão subordinadas à Província gaúcha. Na condição de convidados participaram três bispos eméritos da Província: dom Clóvis Frainer, dom Osório Bebber e dom Orlando Dotti. O Capítulo reuniu 85 frades, 74 deles com direito a voto.

Diretrizes - Além da revisão do último triênio, os capitulares apontaram as linhas básicas para os próximos três anos. As Diretrizes Capitulares estão nucleadas em cinco capítulos: Vida Fraterna e Espiritualidade, Promoção Vocacional, Formação Inicial, Ação Pastoral e Meios de Comunicação Social e Economia Fraterna e Promoção da Vida. Ao todo somam 95 artigos. Também foram aprovados alguns projetos especiais, que serão agora implementados pelo Provincial e Definidores.

Como na parábola do mercador do Evangelho, o Capítulo tirou de seu tesouro "coisas novas e velhas". Foram confirmadas pastorais tradicionais, mas também incentivado o profetismo. Os Meios de Comunicação Social também têm destaque na programação para os próximos anos.

As vice-províncias também manifestaram suas carências, esperando o auxílio de mais religiosos. É o caso, especialmente, da vice-província de Santo Domingo, que pensa num Noviciado próprio e quer abrir a primeira fraternidade no Haiti. As três circunscrições religiosas somam mais de 350 frades.

 

109 anos de presença em solo gaúcho

 

A Província do Rio Grande do Sul foi fundada pelos capuchinhos franceses, que aqui chegaram a 18 de janeiro de 1896. Os pioneiros foram os freis Bruno de Gillonnay e Leão de Montsapey, que se estabeleceram em Garibaldi. Em 1982, uma fundação gaúcha tornou-se província independente, com sede em Brasília. É a Província de Nossa Senhora de Fátima do Brasil Central. A presença no Mato Grosso e em Rondônia data de 1984. Na República Dominicana e no Haiti, desde 2004.

 

Desafios e o compromisso renovado

Frei Luiz Turra

Ex-provincial dos Capuchinhos no RS

 

Com realismo, o XX Capítulo Povincial procurou estar atento aos grandes desafios do nosso momento histórico, sem perder de vista o ideal evangélico que gerou o movimento franciscano. A análise do relatório apresentado pelo governo provincial cessante ajudou aos capitulares a perceber o todo da vida e missão da Província e das vice-províncias. Com a consciência do todo se pode partir para a elaboração das novas diretrizes que animarão o próximo triênio.

A eleição do provincial e dos quatro conselheiros foi um gesto de profundo respeito pelas prévias realizadas anteriormente em toda a Província. Todo o clima em que transcorreu o Capítulo Provincial deve-se à caminhada de preparação. Desde a abertura do ano capitular, os constantes diálogo e empenho das fraternidades, o espírito de oração e a solidariedade de tantas pessoas fizeram com que o momento capitular se tornasse uma verdadeira experiência de Pentecostes.

O acontecimento capitular torna-se um pedra fundamental sobre a qual a fraternidade provincial irá construindo o cotidiano de sua vida, e animando seus compromissos. Com a graça de Deus, a generosidade da equipe eleita, a comunhão e a participação de todos os frades, renovamos o nosso compromisso de serviço ao Reino de Deus.

 

Um novo Capítulo em nossa história

Frei Álvaro Mores

Provincial dos Capuchinhos no RS

 

Ao finalizar o XX Capítulo Provincial, a Província dos Freis Capuchinhos do Rio Grande do Sul está iniciando um novo triênio com um novo planejamento, novas diretrizes, nova coordenação e novos desafios. É mais um período de história que se abre à nossa frente e precisa ser vivido e construído na fidelidade ao chamado e mandato do Senhor, na fidelidade ao carisma franciscano-capuchinho e na atenção aos apelos que nos vêm do nosso tempo. Aliás, as diretrizes para o triênio 2005-2008 contemplam muito bem estas três realidades, desde o lema iluminador para o triênio "Chamados e enviados, como frades menores, a serviço do Reino", como em todos os projetos assumidos.

Ao longo do triênio deveremos dar atenção e dispensar cuidados especiais a cinco pontos básicos: O primeiro diz respeito ao cultivo de uma espiritualidade que dê sentido e sustentação para a vida, uma espiritualidade da experiência e encontro com Deus e do seguimento a Cristo que se fez irmão, pequeno, pobre e servidor. O segundo é sobre a fraternidade local, atenção ao cotidiano como espaço de comunhão e co-responsabilidade de todos pela vida da fraternidade. O terceiro diz respeito à animação vocacional. Neste aspecto devemos aprofundar a consciência que o testemunho de vida é a grande forma de dizer aos outros que esta vida vale a pena ser vivida. O quarto se refere à animação e dinamização de toda a vida da Província através dos seis Conselhos. Este deverá ser o espaço da comunhão e da colegialidade. O quinto diz respeito à missão. A atenção às pessoas, a acolhida, a defesa da vida, o cuidado com o meio ambiente, o serviço aos pobres, pequenos e excluídos devem ser nosso principal apostolado. Além disso, a atenção e a solidariedade com as vice-províncias deverão sempre estar presentes.

O Espírito Santo inspirou a escolha e elaboração das novas diretrizes. Sem dúvida, Ele continuará nos inspirando na sua vivência.

 

AGRONEGÓCIO

Cai o consumo de arroz no Brasil

Brasileiro está deixando de comer, em média, cinco quilos do grão por ano

 

O brasileiro está comendo menos arroz. Em 1987, o consumo per capita era de 30 quilos por habitante ao ano. Em 2003, o índice caiu para 25 kg pessoa/ano. A pesquisa realizada pela Universidade Federal do RS (UFRGS) aponta que os Estados que mais diminuíram o consumo são Rio Grande do Sul, principal produtor brasileiro, São Paulo e Belo Horizonte.

A pesquisa analisou o comportamento do consumidor gaúcho, a partir da renda. Foram entrevistados cerca de 500 consumidores, de cinco regiões do Estado. Em 1996, o consumo de arroz em famílias com renda de cinco a seis salários mínimos era de 37 quilos por habitante ao ano. Em 2003, o índice caiu para 29 kg/pessoa/ano. A queda também aconteceu nas classes mais altas. Em 1996, famílias com renda superior a 30 salários mínimos consumiam cerca de 24 kg por habitante ao ano. Já em 2003, o índice passou para 18 quilos per capita/ano.

Para o pesquisador Tiago Sarmento Barata, é preciso estimular o consumo de arroz no Brasil, tornando o produto mais competitivo no mercado. "Essa tem sido uma tarefa difícil, já que médicos e nutricionistas têm feito campanha contra a utilização do produto, justificando o alto teor de colesterol, entre outras características", diz.

Segundo Barata, o arroz é um dos alimentos com menor índice de colesterol e é muito saudável. "Precisamos desmistificar essas informações que circulam entre os consumidores", avalia. Uma medida de incentivo ao consumo é o desenvolvimento de linhas de produtos a base de arroz, de preparo rápido e acessível aos consumidores.

 

Embrapa lança "querência" na Expointer

 

A Embrapa Clima Temperado, localizada em Pelotas (RS), vai lançar durante a Expointer 2005, o arroz querência, sua mais nova cultivar do cereal para lavouras irrigadas. O novo arroz tem demonstrado bom rendimento, tem ciclo precoce (110 dias), grãos longos finos e elevado rendimento industrial.

"O querência surpreende positivamente pelo elevado rendimento de grãos inteiros, que pode chegar a 67%. Apresenta resistência genética aos estresses ambientais, o que possibilita redução de custos", observa o melhorista Paulo Fagundes.

Na próxima safra, serão cultivados no Estado 165 hectares do novo arroz, para sementes. A expectativa é de que, na safra 2006/07, sejam plantados no Sul mais de 10 mil hectares de querência.

 

Gaúcho aguarda chuva para definir plantio

 

A escassez de água pode restringir a área de cultivo de arroz no Rio Grande do Sul. As reservas na região da Campanha, por exemplo, estão 50% abaixo do normal para esta época do ano, devido à estiagem do último verão. "O produtor vai otimizar a lavoura, usar áreas mais limpas, onde precisa levar menos água", diz o presidente da Federação das Associações dos Arrozeiros, Valter José Pötter.

Como o período ideal de semeadura (varia conforme o zoneamento agrícola) começa em setembro, a definição da extensão das lavouras ainda depende das chuvas de agosto e setembro. "Muitos produtores afirmam que vão reduzir a área de plantio", relata Luis Antônio Valente, chefe da divisão de assistência e extensão do Instituto Riograndense do Arroz (Irga).

Já na zona sul do Estado, a preocupação é com o alto teor de sal nas águas da Lagoa dos Patos, que abastecem os plantios da região. Com a falta de chuva, o nível da lagoa baixa e entra mais água do mar.

Preços - Os baixos preços pagos ao produtor e as importações do grão também são apontados como causas da redução na área de plantio.

A realização de leilões de contratos de opção privada e pública, reivindicada pelos produtores gaúchos, não foi suficiente para conter a queda de preços no mercado interno. A saca de 60 quilos varia de R$ 17,50 a R$ 19,00 pelo país.

 

Epagri indica andosan para lavoura irrigada

 

Depois de 12 anos de trabalho, a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri/Itajaí), lançou na quinta,18, o cultivar de arroz irrigado SCS 114 andosan. A origem é mutante de uma antiga variedade plantada no Estado, a IR 841.

Conforme técnicos da Epagri, a IR 841 é bastante produtiva, mas de má qualidade. O novo tipo de arroz tende a melhorar ainda mais a produtividade de grãos, apresentando excelente qualidade e possibilitando o beneficiamento industrial para arroz branco.

A semente começou a ser estudada em 1993 com o apoio do pesquisador do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), da USP em Piracicaba, Akihiko Ando. A origem do nome da nova variedade é uma homenagem ao pesquisador.

Atualmente a lavoura de arroz irrigado de Santa Catarina é referência nacional na produtividade de grãos, com média estadual de sete toneladas por hectare. A produção garante renda para 8.000 pequenas e médias famílias das regiões litorâneas e Vale do Itajaí.

 

Cooperativismo chega à produção de alho

São Marcos sai na frente e cria no Estado rede para a venda de alho

 

Está nascendo no Rio Grande do Sul a primeira Rede de Cooperativismo para a Venda de Alho. A idéia tomou forma após o encontro "Despertando para o Cooperativismo", realizado na segunda, 22, em São Marcos. O município é o maior produtor de alho do Estado. Nesta safra 2005/2006, os 500 produtores plantaram 360 hectares e a expectativa é de colher 2.880 toneladas.

Hoje, os agricultores cultivam e vendem o produto bruto. Os intermediários fazem a classificação, embalam e comercializam o bulbo. "Se os próprios produtores realizassem todo o processo, agregariam mais valor ao alho e, conseqüentemente, maior lucro para o alhicultor", afirma ao CR o secretário municipal da Agricultura, Robson Castilhos.

A rede será constituída de pequenas associações, no máximo 20 integrantes, e vai começar pelos produtores de alho da Linha Tiradentes. A iniciativa busca ainda a compra conjunta de insumos para as lavouras. Experiência semelhante funciona em Curitibanos (SC), maior produtor de alho do país, onde o bulbo já é processado pelo agricultor.

Além - Só que os alhicultores de São Marcos querem ir mais além. "O grupo pretende industrializar o bulbo. O próximo passo é processar o alho, transformando-o em pasta e molho", adianta o secretário. Os produtos serão, posteriormente, comercializados com a marca de cada associação.

Safra - Nas regiões Sudeste e Centro-Oeste do país, os trabalhos de colheita são intensificados e, por conse-qüência, o mercado tem registrado crescimento da oferta interna. Os valores de venda apresentam-se estabilizados: R$ 50,00 a R$ 55,00 a caixa de 10 quilos.

Em Santa Catarina, está definitivamente concluído o plantio da nova safra, correspondente ao ano agrícola 2005/06. Os indicativos da Epagri/Cepa apontam para a manutenção da área de cultivo ao redor de 1.500 hectares no Estado.

O plantio também está encerrado no Rio Grande do Sul e no Paraná. A tendência é de manutenção da área, de 3.200 hectares em território gaúcho e 650 hectares entre os produtores paranaenses.

 

Desenvolvimento do frango vai a debate

 

"Desenvolvimento do frango frente às diferentes categorias de pesos de ovos e pintos" será tema da palestra que o professor de saúde aviária da Universidade Uniquímica de Negócios, Joram Saullu, fará durante o V Simpósio Técnico sobre Incubação, Matrizes de Corte e Nutrição, promovido pela Associação Catarinense de Avicultura.

O evento ocorre de 26 a 28 de outubro, no Centro de Eventos Itália, em Balneário Camboriú (SC). Reunirá especialistas do setor avícola do Brasil e exterior. Informações (49) 3322 2386.

 

VIDA AGRÍCOLA

Engº. Agrº. José Zugno

Hortênsias com poucas flores

Sou gaúcho de Passo Fundo, e quando ia a Santa Maria visitar parentes e amigos, observava, nos diversos lugares por onde passava, hortênsias em flor. Passei a gostar muito desta planta florífera. Quando vim a Curitiba, onde atualmente resido, resolvi cultivar a hortênsia e tenho uma boa quantidade de plantas que já têm três anos de idade. O solo é bom, de terra preta. No ano passado fiz uma poda total, cortando bem embaixo todos os ramos. Na primavera veio uma brotação muito viçosa, de mais de um metro de altura, mas produziu poucas flores azuis. Como sou assinante antigo do Correio Riograndense e sempre leio seus artigos em Vida Agrícola, tomo a liberdade de perguntar porque minhas hortênsias produziram poucas flores, se procurei fazer tudo certo?

 

LEONILDO NARZETTI

Curitiba - PR

 

O amigo fez tudo certo em favor de suas hortênsias preferidas, evitou terrenos alagadiços, plantou em solo apropriado: permeável, com boa drenagem, rico em matéria orgânica (terra preta). Efetuou nas jovens mudas (do ano passado) uma poda drástica, cortando todos os ramos quase rente ao chão, obrigando à formação de numerosos ramos, que se não produziram flores nas extremidades, no primeiro ano, servirão de base para abundante floração nos anos seguintes.

Convém lembrar que a hortênsia é planta "subarbustiva", pois seus ramos são lenhosos apenas na base, e herbáceos na extremidade, que se desenvolve plenamente no segundo ano, produzindo a cachopa de flores azuis. Após a florada, este caule herbáceo seca.

O conhecimento deste fato é que orienta a poda anual: todas as hastes secas que deram flores devem ser eliminadas e os caules lenhosos, cortados a um palmo (mais ou menos) do solo, conservando algumas gemas (bem visíveis) que produzirão a nova brotação florífera. Deve-se remover pela base apenas os ramos danificados, mortos ou malformados. Na hortênsia, as folhas são "caducas", caem com a chegada dos frios de outono e inverno. A queda das folhas facilita os trabalhos de poda, efetuados neste período. Depois da poda, é conveniente incorporar à terra, em torno das plantas, um pouco de composto orgânico ou estrume bem curtido.

Origem, variedades, colorido das flores - A hortênsia é originária da Ásia: "Os antepassados silvestres devem ser procurados na velha China" (H. Blossfeld). Cultivada no Japão, foi introduzida no Ocidente a partir de 1790.

A principal espécie botânica tem nome científico Hydrangea macrophylla, caracterizada como planta subarbusto, até dois metros de altura, com folhas grandes, brilhantes, coriáceas, caducas, e flores individuais brancas, azuis, ou róseas, estéreis, muito numerosas, reunidas em grandes cachos; propaga-se por meio de estacas ou divisão de touceiras.

Das hibridações realizadas resultaram variedades de várias tonalidades, de róseas até vermelhas, de azuis até roxas, e variedades de cor branca pura. Aliás, o colorido das pétalas da hortênsia é variável dentro da mesma variedade, rósea ou azul. Só não variam as de cor branca. O colorido é determinado por um pigmento do suco celular denominado "antociano" que reage conforme o índice de acidez (pH). PH abaixo de 6,0, determina a cor azul, e tanto mais azul quanto mais baixo o índice. PH acima de 6,0 vai dando cor rósea, tanto mais intensa quanto mais alto o índice de pH.

As hortênsias cultivadas em abundância aqui na serra gaúcha (Caxias, Canela, Gramado, Nova Petrópolis, São Francisco de Paula etc), de clima temperado, com bastante frio no inverno, são as de cor azul, porque os solos são ácidos.

Desejando acentuar a cor azul, basta regar, durante o crescimento, em torno da planta, com uma solução de adubo acidificante como o sulfato de alumínio (alumen ou pedra hume), três gramas dissolvidas em um litro d’água. Repetir a rega até o início da floração. Para ter cores róseas e avermelhadas é preciso aplicar na terra pó calcáreo, 200 a 400 gramas por metro quadrado, de reação alcalina.

 

SAÚDE

Ronco é sinal de alerta para saúde

Distúrbio pode causar problemas cardíacos, fadiga e ansiedade

 

Roncar não apenas irrita o parceiro com quem se divide o quarto, mas também é um fator de risco para a saúde. Dependendo da intensidade, esse distúrbio do sono pode levar a problemas cardíacos, fadiga, ansiedade, sonolência diurna, dificuldade de concentração. Apesar dos prejuízos à saúde, como o ronco é socialmente bem aceito, poucas pessoas procuram tratar o problema.

O ronco é um ruído provocado pela vibração das vias áreas superiores durante a passagem do ar, com dificuldade, por essas vias. O único estudo brasileiro sobre o ronco, realizado pelo Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo, em 1995, mostra que antes dos 40 anos, 26,5% dos homens e 9% das mulheres roncam mais do que três vezes por semana. Depois dessa idade, possivelmente pela influência da menopausa ou do aumento de peso corporal, o número de mulheres quase triplica e passa para 25%, enquanto os homens chegam a 36%.

Vários fatores influenciam o ronco. O problema pode ser causado por adenóides ou amígdalas muito grandes, tumores, rinites, desvio de septo, hipertrofia dos cornetos e pólipos nasais. Essas patologias obstruem as vias aéreas, dificultando a passagem do ar. O indivíduo passa a respirar pela boca, o que aumenta ainda mais o ruído. Álcool e medicamentos calmantes também podem causar ronco, pois levam ao relaxamento do músculo da faringe. A obesidade pode ser outra causa, pois a gordura também pode acumular-se na faringe, levando à obstrução.

A apnéia é considerada uma fase avançada do ronco. Enquanto a pessoa dorme, a respiração é totalmente interrompida por alguns segundos devido ao fechamento da faringe.

As causas do ronco e da apnéia podem ser muitas, mas atualmente está mais fácil descobri-las com o exame de polissonografia. Sensores ligados ao paciente mostram o que acontece no organismo enquanto ele dorme e podem indicar a origem do problema com maior precisão.

 

Tratamento melhora qualidade do sono

 

Para livrar-se do ronco e da apnéia é necessário tratar as causas. Em alguns pacientes, a perda de peso é suficiente para acabar com o ruído. Quando a origem é a obstrução das vias aéreas, o otorrinolaringologista pode resolver o problema indicando uma cirurgia para retirada de adenóides ou amígdalas ou receitando algum medicamento anti-alérgico, por exemplo.

Para casos de ronco mais persistentes, indica-se o uso de uma prótese intra-bucal que puxa a mandíbula inferior para frente, evitando que a língua bloqueie a passagem de ar. Os casos de apnéia leve também podem ser controlados com essa prótese. Cerca de 90% dos pacientes obtêm melhoras significativas com o uso do dispositivo, que é confortável, feito de um material que se torna flexível em contato com a saliva.

Em casos mais complexos, recomenda-se uma máscara de silicone (CPAP). Ela é acomodada nas narinas e joga ar comprimido pelo nariz, dilatando a garganta, que abre para a passagem do ar. A descrição da máscara pode assustar, mas as mais modernas têm o tamanho de um chaveiro. A somnoplastia usa ondas de radiofreqüência que, aliadas ao laser, diminuem o volume dos músculos da boca e da garganta que atrapalham a passagem do ar e provocam o ronco. O tratamento é individual e só um especialista pode indicar o melhor caminho para solucionar o problema e recuperar a qualidade do sono.

 

Autorizado remédio que promete acabar com a insônia

 

A agência americana que controla a venda de alimentos e remédios (FDA) autorizou, no mês passado, a comercialização nos Estados Unidos de um medicamento que promete acabar com a insônia que assombra milhões de pessoas todas as noites. De acordo com os testes divulgados, o produto não provoca dependência nem está sujeito ao processo de tolerância, que leva o organismo a se habituar a certas substâncias e a exigir doses cada vez maiores para reagir.

O remédio é o primeiro cuja atuação se dá nos mesmos receptores cerebrais da melatonina, o hormônio que regula o ciclo sono-vigília. Ele tem substâncias que simulam melhor os caminhos naturais do organismo para o sono, com menor intensidade. Com isso diminui a probabilidade de tolerância e dependência ao medicamento.

O uso de remédios para dormir é necessário em algumas fases do tratamento da insônia. Porém, é bom lembrar que eles não atacam as causas do distúrbio. Essas drogas só devem ser usadas sob recomendação médica e por períodos curtos.

 

Técnica cirúrgica fortalece o palato

 

Uma nova técnica, baseada no fortalecimento do palato, promete tratar o ronco de forma indolor. Desenvolvido por médicos do hospital norueguês Trondheim e por uma companhia americana, o procedimento, com anestesia local, consiste na injeção de três finíssimas linhas de poliéster no palato macio. Elas limitam sua vibração e abrem caminho para a passagem do ar.

"Depois de um ano, 80% dos pacientes e 70% dos seus parceiros estavam satisfeitos", garantiu o doutor Staale Nordgaard. Dói menos e não deixa cicatriz", complementou. A cirurgia convencional retira a popular "campainha" com anestesia geral.

 

ALIMENTAÇÃO & SAÚDE

Cardápio do bom humor

 

Estudo do Serviço de Nutrição e Dietética do Hospital Sírio Libanês (SP) concluiu que nutrientes têm efeito direto sobre a produção ou inibição de neurotransmissores responsáveis pelas variações de humor. Gordura saturada em excesso, por exemplo, pode provocar letargia e fadiga. Muita bebida alcoólica e café aumentam a sensação de ansiedade.

Outros alimentos tendem a melhorar o humor. É o caso da banana, rica em carboidratos que estimulam a produção de serotonina, responsável pela sensação de bem-estar. Uma ou duas unidades da fruta podem ser benéficas em crises de estresse. O cálcio do leite é relaxante muscular, e o triptofano também aumenta a produção de serotonina. O consumo recomendado é de pelo menos um copo de leite por dia.

 

OPINIÃO

Novas formas de crer

Maria Clara Lucchetti Bingemer

 

Percebe-se maior mobilidade das pessoas de uma religião para outra. Muitos não hesitam até em enfrentar o vazio dos sem religião. Em meio a esse complexo cenário, importa reconhecer que não cessam de buscar

 

Através de pesquisa divulgada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o Brasil fica sabendo que quase um quarto da sua população já mudou de religião em algum momento da vida. Sob o título Novas Formas de Crer, a pesquisa foi encomendada pela CNBB ao Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (CERIS) e é a primeira de nível nacional que mapeia a troca de identidade religiosa e revela por que isso acontece.

Foram apontados como principais motivos a discordância da doutrina e o convite de amigos e familiares, além da falta de apoio da instituição anterior em momentos difíceis. O "sentimento de bem-estar" em um determinado grupo religioso e a "aproximação com Deus" também aparecem como motivação para a mudança de pertença religiosa.

Mesmo sendo as igrejas evangélicas pentecostais o que mais seguem recebendo maior número de adeptos no país, é constatado um movimento significativo de mudança de religião também em direção à Igreja Católica. Essa foi uma das grandes surpresas da pesquisa: a constatação de que a Igreja Católica também recebe novos fiéis nesse movimento de migração. Ou seja, há também mobilidade religiosa no Catolicismo, não apenas de êxodo, mas também de entrada.

Por outro lado, um dos dados que mais preocuparam os bispos foi o índice dos que declararam não ter religião: 7,4%. Segundo o Censo de 2000, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), este percentual era, então, de 4,7% da população. O índice dos sem-religião, portanto, aumentou significativamente no espaço de apenas cinco anos.

A Igreja Católica pretende, conforme entrevista dada pelos próprios bispos, debruçar-se com atenção sobre os dados da pesquisa para estudar e refletir sobre os elementos que esta apresenta. Inegavelmente aparecem aí diversos elementos de grande interpelação para o catolicismo, religião maciçamente majoritária do Brasil.

Estamos, sem dúvida, em um momento no qual a opção da fé e da pertença religiosa já não é mais herdada pela etnia ou pela nacionalidade, nem tampouco pela família. Os fatores sociológicos não têm mais peso decisivo sobre a escolha do indivíduo em termos de sua filiação religiosa.

Por outro lado, pesa, sim, a situação cultural vigente em nosso país neste início de milênio e de século, que se apresenta como algo paradoxal. Primeiramente, as grandes instituições religiosas encontram-se diante de uma nova situação, na qual não são mais hegemônicas nem ocupam lugar privilegiado dentro do campo religioso. Em segundo lugar, está o surgimento de novas propostas religiosas e devoções.

O processo de secularização que a modernidade trouxe consigo não pode ser identificado, portanto, apenas como "perda" ou "banimento" da religião do horizonte humano. Trata-se, sim, de uma "recomposição" em novas chaves e novas bases do sentimento religioso e das crenças, que têm lugar em uma sociedade motivada pela incapacidade da mesma em responder aos apelos nela suscitados. Estamos diante, portanto, daquilo que a pesquisa do CERIS intitula tão apropriadamente "novas formas de crer".

Nessa nova formatação da crença e da fé, percebe-se maior mobilidade e maior trânsito das pessoas de uma religião para outra. Muitas vezes desorientados e perdidos em meio a um mar de propostas religiosas, o homem e a mulher do século XXI buscam ardentemente uma experiência transcendente que dê sentido a suas vidas. E não hesitam em transitar entre diferentes instituições até encontrarem o que procuram. Não hesitam inclusive em enfrentar o vazio e o deserto de não aderir a nenhuma religião em seu processo de busca da verdade e do sentido para a vida.

No entanto, em meio a todo esse complexo cenário, importa reconhecer que não cessam de buscar. E nessa busca, encontram novas formas de crer. Novas formas de viver e expressar aquilo que desde os primórdios da história da humanidade está presente, fazendo do ser humano o único ser vivo que não se conforma com os limites do tangível e deseja mais além de onde sua vista alcança e sua vida biológica dura. Nessa busca, enquanto inventa novas formas de crer, o ser humano continua vivendo a bela e verdadeira exclamação do grande Agostinho de Hipona: "Fizeste-nos para vós, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não descansar em Ti."

 

Onde o PT errou?

Frei Betto

 

Quando objetivos como a libertação dos pobres se apagam, o político transforma-se em militante de suas ambições pessoais ou de interesses corporativos, ainda que profira discursos retoricamente revolucionários

 

O PT errou e pede desculpas à nação. Falta apresentar os culpados. Dois são confessos: Sílvio Pereira, ex-secretário geral do partido, que se valeu do cargo para benefício próprio; e Delúbio Soares, ex-tesoureiro, que admitiu à CPI ter montado o esquema de caixa dois operado por Marcos Valério. O primeiro desligou-se do PT; o segundo permanece filiado, graças a manobras internas que protelam a apuração da Comissão de Ética. Talvez a resistência dele em revestir-se de boi de piranha represente uma ameaça a outros envolvidos em maracutaias.

Onde o PT errou? Podem-se apontar vários indícios: o pragmatismo eleitoralista que resultou no uso de caixa dois; as alianças espúrias, coligando-se com partidos historicamente adversários; os empréstimos irresponsáveis tomados de Marcos Valério; a evasão de divisas e a sonegação fiscal em pagamentos a Duda Mendonça.

Tudo isso, a meu ver, são efeitos. Há um momento em que a pessoa manda os escrúpulos às favas, dá as costas aos princípios éticos, fia-se na suposta invulnerabilidade de sua armadura de esperto e vira corrupto. Esse processo costuma ser mais coletivo que individual. Cria-se um caldo de cultura, em geral aquecido por funções de poder que induzem dirigentes a agirem ao arrepio das bases, dos estatutos e dos valores morais. É a velha convicção de que os fins justificam os meios.

A causa dessa erosão ética é a perda de princípios ideológicos, que deveriam reger desde a escolha de critérios no marketing eleitoral aos parâmetros da macroeconomia. O que não significa que sejam honestos todos que lutam pela mudança social. Conheci uns tantos que o faziam por ambição de poder e de prestígio. Uma vez destituídos de suas funções - na igreja, no partido, no sindicato - aburguesaram-se sem culpa, indiferentes às causas que defendiam e voltados ao próprio umbigo.

Alertava Brecht que não somos os melhores, melhor é a causa que defendemos, de erradicação da miséria e construção de uma sociedade livre e justa. Para tanto é imprescindível fazer política. E os meios destoam muito dos fins que almejamos. Não se faz o omelete sem quebrar os ovos. Mas quando se olvida a receita, corre-se o risco de trocar os fins pelos meios, como o apego ao poder.

O modelo de poder imperante em nossa sociedade é o criticado por Jesus em Lucas 22, 24-27: prepotência, arrogância, demagogia. Daí a constatação de Paulo Freire, de que a cabeça do oprimido tende a hospedar o opressor. São infindáveis as tentações do poder: o dinheiro fácil, o desejável coincidindo com o possível, o assédio sexual, a fama, o prestígio social. Em volta, abrem-se os lábios em sorrisos; as mãos em aplausos; os braços em abraços; as mansões em recepções e, aos poucos, o político é cooptado pelo requintado clube dos que tiram proveito dessa perversa desigualdade social que assola o país.

Torna-se mais vulnerável a essa cooptação quem suprime de seu horizonte ideológico o compromisso com a libertação dos pobres e a edificação de uma ordem social em que todos vivam com dignidade.

Quando esses objetivos se apagam, o político transforma-se em militante de suas ambições pessoais ou de interesses corporativos, ainda que profira discursos retoricamente revolucionários.

O PT precisa ser refundado, como assinala seu atual presidente nacional, Tarso Genro. Essa proposta faz sentido enquanto volta às inspirações originárias: organizar a classe trabalhadora (e, hoje, também os desempregados, sem-terra e sem-teto), fortalecer os movimentos populares, levar a cidadania e a democracia à sua radicalidade - o socialismo. Não a impostura que ruiu no Leste europeu, mas a proposta de emancipação de todo o conjunto da sociedade, na qual liberdade individual e justiça social se completem.

No próximo dia 18 de setembro, salvo manobras suspeitas, todos os filiados petistas deverão ir às urnas para eleger a nova direção nacional. Refundar o partido significa partir de um novo patamar que sobreponha a ética à política e esta à economia. Entre os candidatos, todo o meu apoio a Plínio de Arruda Sampaio, homem justo, íntegro e competente, provado em muitas instâncias de poder. Nenhuma delas o seduziu. Antes, fortaleceram sua opção pelos pobres, inclusive no que concerne ao modelo econômico.

 

NACIONAL

Guerra amplia mercado de atuação

Empresa inaugura fábricas em Caxias, São Paulo e Argentina

 

A Guerra S/A, segunda maior fabricante de implementos rodoviários da América Latina, está comemorando 35 anos de fundação e marca a data com a inauguração de uma nova fábrica em Caxias do Sul e o lançamento de outras duas unidades industriais, em São Paulo e na Argentina. O investimento total nas três fábricas supera os R$ 30 milhões (R$ 21 milhões em Caxias).

A nova fábrica de Caxias coloca em prática uma inédita linha de montagem contínua, com 600 metros de comprimento, a mais longa entre os fabricantes latino-americanos de semi-reboques. O sistema inicia com a montagem do chassi e termina com o produto pronto para ser entregue ao cliente. "O modelo que construímos aqui para a linha de implementos não tem similar no mundo", ressalta o diretor comercial e de marketing Marcos Guerra.

A inauguração da linha de montagem deflagra a implantação de novas estratégias mercadológicas. A Guerra quer mais participação nos mercados nacional e internacional. Para isso, intensifica suas exportações e inaugura as fábricas de São Paulo e Argentina. "A partir de agora, a Guerra coloca o pé no mundo. Essa é a única maneira de sustentar o volume de produção da empresa", afirma Marcos Guerra.

Em setembro, será inaugurada a unidade fabril de Garulhos (SP), com 80 funcionários e área de 21.000m2. "São Paulo deve funcionar como um centro logístico, atendendo os mercados centro-oeste, norte e nordeste do país", explica Marcos. A fábrica de Rosário, na Argentina, inaugura em outubro com 30 funcionários. O objetivo da unidade argentina é a fabricação integral de todos os produtos naquele país, visando à obtenção de benefícios fiscais.

O projeto de exportação da Guerra tem como meta sair de uma participação atual de 5% do seu faturamento para cerca de 20% a médio ou longo prazo. Para isso, a empresa está buscando novas parcerias comerciais. No Oriente Médio, por exemplo, firmou este ano uma joint venture com a empresa Excel, dos Emirados Árabes, que vai responder pela montagem de toda linha de produtos Guerra e pela venda em toda a região do Golfo. Hoje, os produtos Guerra estão presentes em 16 países das américas do Sul e Central, Oriente Médio e África.

 

Empresa investe em tecnologia que não agride o ambiente

 

O diretor industrial da Guerra S/A, Valmor Zanandrea, destaca que a nova unidade da Guerra em Caxias do Sul é a única que utiliza o sistema de pintura a pó para grandes peças, como chassis de semi-reboques e de bitrens. O processo oferece mais qualidade ao produto e protege o meio ambiente. Ele explica que o tratamento da superfície é feito com jato de granalha de aço, considerado mais ecológico que o tradicional método por desengraxantes. A tinta a pó homologada é orgânica, ou seja, isenta de metais pesados na sua composição. Segundo o diretor, a perda nesse processo é de apenas 0,2%, enquanto na tinta líquida aplicada por spray o desperdício pode chegar a 50%. "O resultado é uma pintura homogênea, 3,5 vezes mais resistente a impactos e às intempéries", afirma Zanandrea.

Em entrevista coletiva à imprensa, os diretores também destacaram o desenvolvimento de produtos exclusivos, com sistemas patenteados, como o Tecno 5, cuja tecnologia utiliza placas de polipropileno na confecção das laterais, em substituição à madeira. "O polipropileno aumenta a vida útil da lateral, reduz em 450 quilos a tara do produto, é atóxico e ecologicamente correto por ser 100% reciclável", finaliza Zanandrea.

 

Reação de Palocci repercute bem

 

Os primeiros reflexos da postura adotada pelo ministro da Fazenda Antônio Palocci, em relação às denúncias de corrupção, mostraram reação positiva do mercado. A cotação do dólar despencava na abertura dos negócios na segunda 22, influenciado pelas explicações do ministro. Ao meio-dia, o Ibovespa avançava 2,34%. No mesmo horário, o dólar caía 1,75%, para R$ 2,408.

O ministro da Fazenda veio a público no domingo para se defender de denúncia feita pelo seu ex-assessor Rogério Buratti, de que ele teria recebido propina de R$ 50 mil mensais da empreiteira Leão & Leão, repassados ao PT, quando era prefeito de Ribeirão Preto (SP). Depois de dizer que fica no cargo com o respaldo do presidente Lula, Palocci negou veementemente que recebia o dinheiro.

"Nego com veemência porque são falsas as denúncias. Eu não recebi e não autorizei que o diretório nacional do PT ou qualquer outra instância do partido recebesse recursos", afirmou. Palocci disse que havia conversado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a possibilidade de tirar uma licença temporária para se defender, mas Lula não aceitou e disse que ele continua no cargo.

O ministro também fez questão de afirmar, por várias vezes, que "ninguém é insubstituível" e que a economia poderia seguir sem ele porque ela está baseada em fundamentos sólidos que foram conquistados ao longo dos tempos. Palocci rechaçou ainda denúncia publicada no final de semana pela revista Veja, de que Buratti intermediaria encontros entre ele e empresários interessados em fazer lobby na Fazenda. Ele disse que o Ministério Público monitorou Rogério Buratti por oito meses, e que nenhuma ligação telefônica grampeada ofereceu qualquer prova contra ele.

Sobre o Grupo Leão & Leão, o ministro admitiu que recebeu doações da empresa durante a campanha eleitoral. "Eu recebi contribuições dessas empresas durante a campanha. Recebi e registrei. Todas as contribuições estão registradas pelo Tribunal Regional Eleitoral."

 

ESPECIAL

MULTIPLICAÇÃO DOS PEIXES

Não basta dar o peixe, o melhor é ensinar a pescar. O RS pôs em prática o ditado oriental e, em 1976, lançou o Projeto Pescar. A experiência gaúcha chegou a mais oito Estados, foi copiada na Argentina e segue colecionando adesões. Em 29 anos, o projeto formou uma legião de 8.500 jovens, todos de famílias pobres

 

Eles vêm de todas as partes. Têm algo em comum. São jovens em risco social, que caíram na rede do Projeto Pescar. A iniciativa objetiva a formação profissional de jovens carentes, de 15 aos 18 anos, e sem acesso ao mercado de trabalho. Em parceria com empresários e a Fundação Projeto Pescar, o projeto promove a inclusão desses adolescentes. A proposta é abrir unidades dentro de empresas, capacitando-as a conduzir e administrar um espaço para educação e qualificação profissional desse grupo de baixa renda.

É o que faz a indústria caxiense PCP Produtos Siderúrgicos Ltda. Da turma de 20 jovens do ano passado, a maioria está trabalhando. E do grupo que se forma em dezembro, alguns já foram sondados. "Os jovens preparados pelo Projeto Pescar estão se tornando referência no mercado de trabalho. O comportamento deles desperta a atenção dos empresários", destaca o orientador Casemiro Tisatto.

O programa está mudando a vida dos interessados. "O Pescar foi a coisa mais importante que aconteceu em minha vida", afirma o jovem Moisés Amaral de Morais, 17 anos, que está concluindo o curso na PCP. Os conhecimentos adquiridos o ajudaram a definir o futuro. "Quero ser engenheiro mecânico", enfatiza.

O curso surpreendeu Luana Freitas, 17, de Caxias do Sul. "Não esperava muita coisa", diz ela, que só se inscreveu influenciada pelas amigas. "Aprendi muito. Os conhecimentos servirão de base para a minha profissão", aposta. "Sessenta por cento dos conteúdos são noções de cidadania e 40%, conhecimentos técnicos e gerais, voltados à profissionalização", explica o orientador.

Vagas - Há mais candidatos do que vagas. As empresas não conseguem absorver todos os interessados. A caxiense Lilian Rodrigues Martins, 17 anos, vibrou ao ser admitida. Vive no bairro Jardim América com os irmãos Suzana, 34, e Leandro, 28. Inscreveu-se no curso sem avisar os familiares e foi aprovada. "Não poderia ter feito coisa melhor", assegura. Trabalhando na Precisotec - Laboratório de Metrologia e fazendo o 2º ano do Ensino Médio, já decidiu que quer fazer engenharia. "Hoje, sou uma outra pessoa, mais responsável, nem me reconhecem", conta.

Feliz também está Priscila Ribeiro Vargas, 17, que mora no bairro Brandalise e está no 2º ano do Ensino Médio. Priscila, como os demais colegas, passou pelo Pescar, recebeu cerca de 900 horas de aulas, treinamento, alimentação e transporte. "O projeto mudou o meu ser. Sou mais determinada e deu um rumo à minha vida", assegura.

Priscila é auxiliar de programação na Unylaser. Entusiasmada, planeja cursar a faculdade de engenharia ou medicina. Está incentivando o irmão Vinicius, 14, para se inscrever no projeto. "O conhecimento faz a diferença e aprende-se a superar os obstáculos", conclui ela.

O vice-presidente da Fundação Projeto Pescar, Rubens Hemb, espera que o número de empresas associadas aumente para 100 até o final do ano. É o êxito do projeto que atrai candidatos. "Dos que fizeram o curso nesses 29 anos, 75% estão trabalhando. Aprenderam a fisgar o próprio peixe", comemora.

 

Meta é atingir 50% dos Estados até 2010

"O objetivo do Projeto Pescar é oferecer uma solução para o Brasil de hoje, para o Brasil que tem pressa para resolver seus problemas sociais. Se toda a comunidade participar, resolveremos os problemas do país em pouco tempo."

Geraldo Tollens Linck

Fundador do Projeto Pescar (1927-1998)

 

Ser referência, como agente de transformação social de jovens, atingindo, até 2010, 50% dos Estados brasileiros e atendendo 3.000 jovens anualmente. Essa é a meta da Fundação Projeto Pescar, que funciona por meio de franquia social. As franqueadas pela Fundação abrem espaço para a formação pessoal e profissional de adolescentes de baixa renda em suas próprias dependências, encaminhando-os ao mercado de trabalho.

Além de promover a aprendizagem básica para o exercício de uma profissão nas mais diversas áreas da indústria, do comércio e da prestação de serviços, o projeto estimula os jovens a adotar novos hábitos e atitudes de convivência e cidadania. "O princípio básico é simples e de fácil operacionalização: cada um pode ensinar aquilo que sabe fazer bem", declara o empresário caxiense Humberto Edson Cervelin, diretor da PCP Produtos Siderúrgicos, que mantém uma unidade na empresa.

 

Modelo gaúcho inclui jovens em risco pelo emprego

"Se deres um peixe a um homem faminto, vais alimentá-lo por um dia. Se o ensinares a pescar, vais alimentá-lo por toda a vida."

Lao Tsé

Filósofo chinês (604-517 a.C.)

 

O provérbio chinês que inspirou o Projeto Pescar desde sua origem, em 1976, continua até hoje orientando a linha de ação da rede de unidades. A presidente da Fundação Projeto Pescar, Rose Marie Vieira Motta Linck, lembra que o Pescar nasceu do idealismo do marido, Geraldo, fundador da Linck, de Porto Alegre.

Ao sair de uma reunião, no centro da capital gaúcha, em 76, Geraldo testemunhou um adolescente assaltando um idoso. Naquela ocasião, Rose ouviu do marido, morto em 1998, aos 70 anos: "Olha, vamos ter de fazer alguma coisa. O melhor é ensinar o que a gente sabe fazer, trabalhar com máquina, vamos ensinar isso."

A idéia de tirar jovens da marginalidade pelo emprego prosperou. Mais empresas seguiram o exemplo da Linck, oferecendo cursos por tempo determinado. Quatro empresas da Argentina adotaram o modelo gaúcho de ação social

Toda empresa socialmente responsável, independentemente de seu porte, área de atuação e localização geográfica, pode participar do Projeto Pescar, seja como franqueada, mantenedora, apoiadora ou empregadora que acolhe os formados.

Abrir um Projeto Pescar na empresa é uma ação social de fácil implementação e custo baixo. Ao tornar-se franqueada, a empresa passa a receber suporte e orientação técnica da Fundação, tendo acesso ao conhecimento e à experiência de 29 anos de trabalho na área. Para mais informações, interessados devem entrar em contato com a equipe da Fundação Pescar pelo telefone (51) 3337-7400.

 

Assalto origina primeira franquia social do país

 

Em 1976, após presenciar o assalto de um jovem a um idoso, em frente à sede da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), em Porto Alegre, o empresário gaúcho Geraldo Tollens Linck iniciou um trabalho de capacitação com adolescentes de baixa renda. Nascia a Escola Técnica Linck. Em um ano, 15 alunos foram aprovados no curso e inseridos no mercado de trabalho.

A avaliação positiva resultou na formação de outras turmas. O curso foi reestruturado e, em seis meses, formou mais 30 alunos. Na grade curricular, além de conhecimentos técnicos em mecânica, foram inseridos módulos sobre higiene e normas de convívio social. Também foi desenvolvido um processo pelo qual os alunos faziam pequenos estágios em outros departamentos, como, por exemplo, na área administrativa. Nascia o Projeto Pescar.

Unesco - O resultado atraiu parceiros e, dois anos depois, já havia outras quatro unidades em funcionamento. O crescimento das atividades e a expansão das escolas geraram uma demanda de financiamentos e, em 1995, foi criada a Fundação Pescar, em parceria com o governo do Estado do Rio Grande do Sul. A iniciativa gaúcha já tem o aval e reconhecimento da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

O Projeto Pescar tornou-se a primeira franquia social do país, mantendo-se - como queria o fundador - como experiência simples e objetiva para desenvolver as potencialidades humanas através da educação. "A proposta frutificou porque teve como pedra de toque o entusiasmo de empresários, professores, voluntários, mantenedores e apoiadores", garante a presidente voluntária da Fundação Projeto Pescar, Rose Marie Vieira Motta Linck.

 

66% preservam profissão que descobriram na sala de aula

 

Atualmente, existem 20 unidades funcionando em municípios gaúchos com população superior a 100 mil habitantes. Com o Projeto Pescar, são atendidos mais de 1.500 adolescentes por ano no país. "Com oito unidades, Caxias do Sul é o município com maior participação no Brasil", relata o empresário Humberto Cervelin. Outras duas unidades deverão entrar em funcionamento até o fim deste ano.

Egressos - Uma pesquisa realizada com egressos revelou que cerca de 80% dos formados pelo Pescar foram inseridos no mercado formal de trabalho e 66% continuavam na profissão que aprenderam nas salas de aula hospedadas nas empresas.

Apesar de o projeto implicar custos, a empresa também é beneficiada pela implantação das escolas. Explicitar sua identificação com a comunidade em que está inserida e mostrar-se disposta a buscar soluções para a superação de problemas locais geram visibilidade no mercado e dão à empresa uma projeção talvez inatingível por estratégias tradicionais de marketing.

 

Fundação dissemina iniciativa para ampliar a oferta de vagas

 

Fundação Projeto Pescar é uma organização não-governamental sem fins lucrativos mantida por empresas e apoiada por instituições privadas e públicas, nacionais e internacionais. Foi criada em 1995 para disseminar o modelo de franquia social desenvolvido pelo Pescar no Brasil.

Sua principal atividade é sensibilizar e envolver organizações empresariais no resgate da cidadania e na preparação de adolescentes de baixa renda por meio do exercício de uma profissão, de modo a promover inclusão social. Graças à Fundação, a experiência do Projeto Pescar, em seus 29 anos dedicados à educação, é hoje compartilhada com empresas franqueadas que mantêm suas próprias unidades e encaminham os jovens formados ao mercado de trabalho.

Mais de 8.500 estudantes já passaram pelas franqueadas da Rede Pescar, que hoje conta com 76 unidades, nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Norte, Rondônia, Ceará e Brasília (DF).

A expansão nacional da rede e a ampliação da oferta de vagas são metas permanentes da Fundação Projeto Pescar.

Com sede em Porto Alegre, a Fundação foi declarada de Utilidade Pública pela Secretaria do Trabalho, Cidadania e Assistência Social do Estado do Rio Grande do Sul (Registro nº 311538) e de Utilidade Pública Federal (Portaria n° 1522 de 08/11/02 publicada no D.O.U de 11/11/02).

 

IGREJA

Papa celebra para um milhão de fiéis

Bento XVI participou da XX Jornada Mundial da Juventude, em Colônia

 

No encerramento de sua visita à Alemanha, a primeira viagem apostólica internacional de Bento XVI depois de eleito, em abril, o Papa fez um apelo aos jovens para que evitem a religião do "faça você mesmo", na qual escolhem o que querem e ignoram o resto. Cerca de um milhão de pessoas de 193 países participou da missa de encerramento da XX Jornada Mundial da Juventude, celebrada ao ar livre por Bento XVI na cidade de Colônia, no domingo 21.

Parte da multidão, composta na maioria por adolescentes e jovens com 20 e poucos anos, passou a noite fria em barracas e sacos de dormir, cantando e rezando, num clima festivo, antes da chegada do Papa para a missa, acompanhado por cerca de 800 bispos. Na homilia, lida em cinco idiomas, Bento XVI pediu aos jovens que não vejam a religião como um "produto de consumo", de onde as pessoas escolhem somente o que querem e desconsideram normas que às vezes são difíceis de cumprir.

"A religião construída na base do ‘faça você mesmo’ não pode nos ajudar", afirmou o Papa. "Pode ser confortável, mas nos momentos de crise somos deixados sozinhos. A liberdade não é simplesmente desfrutar a vida com autonomia total, mas sim viver pela medida da verdade e da bondade, para que nós nos possamos tornar verdadeiros e bons", disse o Pontífice.

A visita à Alemanha possibilitou que Bento XVI mostrasse seu lado mais bondoso e afável. Antes de ser eleito Papa, o cardeal alemão Joseph Ratzinger sempre foi mostrado como um homem frio e duro. A visita também deu ao Papa a oportunidade de manter diálogo com outras religiões, como o islamismo e o judaísmo (tornou-se o segundo Papa na história ao visitar uma sinagoga em Colônia - mais detalhes na página 2).

Terrorismo - Bento XVI voltou satisfeito a Roma. Em primeiro lugar, pelo entusiasmo e sensibilidade dos jovens, com quem compartilhou momentos de oração, de reflexão e de festa. Em segundo lugar, porque a Jornada permitiu mostrar ao mundo uma Alemanha diferente da dos nazistas. "Todos somos conscientes do mal causado por nossa pátria no século XX e o reconhecemos com vergonha e dor", disse o Pontífice antes de embarcar no avião que o levou de volta ao Vaticano.

O Papa também aproveitou para condenar com veemência os totalitarismos, as ideologias e os atentados terroristas, "opção perversa e cruel que desdenha a vida e corrói a convivência na sociedade". Destacou que muitos falam de Deus, mas em seu nome praticam o ódio e a violência.

 

Austrália vai sediar a Jornada de 2008

 

O Papa Bento XVI anunciou, no final da XX Jornada Mundial da Juventude, que a cidade de Sydney, na Austrália, será a sede do próximo encontro mundial de jovens, no ano de 2008. Assim que o Pontífice anunciou o nome da cidade, numerosos jovens procedentes da Austrália vestiram camisetas que diziam "Sydney 2008". A Jornada Mundial da Juventude foi criada em 1984, quando, após encerrar o Ano Santo da Redenção, João Paulo II entregou aos jovens uma cruz de madeira de quatro metros de altura, pedindo-lhes que a levassem pelo mundo todo.

Bento XVI foi muito aplaudido pelos jovens. "Ele assumiu sua missão com dignidade e ganhou a simpatia de todos com sua modesta forma de apresentar-se", disse o presidente da Conferência Episcopal alemã, cardeal Karl Lehmann.

 

Nossa própria ética

Padre Zezinho

A ética tem que ser maior do que qualquer partido político, Igreja ou grupo

 

Um porta-voz da TV Globo, respondendo a quem o questionava por dar uma notícia que deveria ser guardada pelo bem da vítima respondeu: "Nós temos a nossa própria ética". Foi no episódio do seqüestro da filha do empresário Silvio Santos e mais tarde o dele próprio. A resposta do porta-voz foi profundamente infeliz. "Temos a nossa própria ética" é dizer o mesmo que não ter ética, porque ética, certamente, não é propriedade particular de ninguém, de nenhuma Igreja, emissora ou grupo humano.

Se ética existe ela paira acima de qualquer grupo, não importa de que lado ele esteja. A ética tem que ser maior do que qualquer partido político, Igreja ou grupo de comunicação para que mereça o nome de ética. A resposta dele equivale a dizer: temos nossos próprios faróis e sinaleiras e nos governamos de acordo com os nossos sinais de verde, amarelo e vermelho; não importam os sinais dos outros. É desastre na certa. Nenhum grupo tem o direito de ter a sua própria ética quando os direitos dos outros estão em risco. Por ter sua própria ética é que o ladrão assalta um banco, que um sujeito massacra. Por ter a sua própria ética é que Hitler matou seis milhões de judeus; que os ditadores fazem o que bem entendem.

O Brasil precisa de mais cidadania. Para construirmos a nossa cidadania e a nossa democracia todos teremos que ter a mesma ética, ainda que vivida sob um ângulo diferente, mas no essencial não há como desrespeitá-la e quando se trata de vida humana estamos falando do essencial. Um jornal ou repórter nem sempre está certo e até mesmo quando acha que tem todas as informações tem que tomar cuidado extremo ao publicá-las.

O episódio da escola base que nunca foi resolvido até hoje faz pensar nisso. Por ter sua própria ética vários meios de comunicação embarcaram numa notícia errada e destruíram pessoas humildes e trabalhadoras, feriram profundamente a ética dessas pessoas. Não é por aí!

 

Morre fundador da comunidade de Taizé

Irmão Roger Schutz foi assassinado durante uma jornada de oração

 

A Jornada Mundial da Juventude, realizada em Colônia, Alemanha, recebeu com tristeza e comoção a notícia do assassinato do irmão Roger Schutz, de 90 anos, fundador da comunidade ecumênica de Taizé. O crime ocorreu na noite de terça-feira, 16 de agosto, durante uma jornada de oração na igreja da Reconciliação, em Taizé, na França, durante uma missa da qual participavam cerca de 2.500 pessoas. Uma romena, de 36 anos, com problemas mentais, se infiltrou em um coral de monges e feriu irmão Roger mortalmente na garganta com uma arma branca.

Irmão Roger concentrou seu trabalho pastoral no contato com os jovens e era considerado um dos precursores da idéia da Jornada da Juventude, criada pelo Papa João Paulo II. Filho de pai protestante suíço e mãe católica francesa, irmão Roger nasceu em Jura (Suíça), aos 12 de maio de 1915, e se mudou para a França em 1940, onde fundou a comunidade ecumênica internacional de Taizé.

Em Taizé, onde comprou uma casa abandonada, começou a acolher, junto com sua irmã, Genevière, refugiados durante a II Guerra Mundial. Entre eles havia judeus. Por causa dessa atividade, em 1942 os dois irmãos tiveram que abandonar Taizé para salvar a vida. Roger voltou em 1944 e junto com alguns companheiros iniciaram uma vida comum de oração e fraternidade.

Pouco a pouco, outros homens passaram a compartilhar aquele modo de vida e, no dia da Páscoa de 1949, surgia oficialmente uma comunidade que se comprometia a uma vida de celibato, num ambiente de grande simplicidade e despojamento, na partilha dos bens materiais e espirituais. Hoje a comunidade de Taizé reúne cerca de 100 irmãos, católicos e de diversas origens evangélicas, procedentes de mais de 25 países.

Os irmãos vivem do próprio trabalho. Não aceitam nenhuma doação, nenhum presente. Também não aceitam para si as próprias heranças, mas a comunidade faz doação delas aos mais pobres, porque Taizé acolhe todos e reparte com todos. Vive a alegria profunda de uma vida diferente. Os irmãos da comunidade, auto-suficiente, vivem da venda de artesanato em barro e madeira.

Recolhimento - Desde os anos 50 alguns irmãos foram viver em lugares desfavorecidos do mundo para ser testemunhas de paz e para estar ao lado dos que sofrem. Hoje alguns irmãos vivem em pequenas fraternidades em bairros pobres de cidades da Ásia, da África e da América Latina. Procuram ser "uma presença de amor ao lado dos mais pobres, das crianças de rua, dos prisioneiros, dos moribundos, daqueles que foram feridos até no mais profundo por causa de rupturas de afeto, pelos abandonos humanos", explica sua página web.

Também desde o final da década de 50 começaram a chegar a Taizé jovens para recolher-se em oração. Do início da primavera até o final do outono, cada semana, rapazes e moças de diversos continentes e de diferentes confissões cristãs chegam à colina de Taizé para viver dias de oração e recolhimento. Em algumas semanas de verão Taizé chega a reunir mais de seis mil jovens de dezenas de nações.

 

Irmão Roger deu sua vida pela juventude

 

João Paulo II teve uma grande estima por irmão Roger. O Papa visitou Taizé em outubro de 1986. Na cidadezinha francesa afirmou: "Passa-se por Taizé como se passa junto a uma fonte. O viajante se detém, sacia a sede, e continua seu caminho". O Papa também se fazia presente nos encontros de jovens, organizados a cada ano em uma diferente cidade da Europa, com uma mensagem de alento. A última foi em Lisboa e a deste ano será em Milão.

Irmão Roger foi um grande amigo de João Paulo II, que o recebia todos os anos em audiência no Vaticano. Os dois se conheceram durante o Concílio Vaticano II, em 1962. Apóstolo da reconciliação, irmão Roger recebeu, em 1988, o prêmio educação para a paz, concedido pela Unesco. Com a morte do fundador da Comunidade de Taizé, o sucessor, designado pelo próprio irmão Roger, passa a ser irmão Alois, um católico alemão.

 

Três Passos realiza encontro de famílias

 

A área pastoral de Três Passos (RS) - paróquias de Três Passos, Miraguaí, Tenente Portela, Derrubadas e Tiradentes do Sul - promove no dia 28 de agosto o 8º Encontrão de Famílias. "O evento será realizado no Bairro Promenor, em Três Passos, no local do martírio de padre Manoel Gomes Gonzales e do coroinha Adílio Daronch", informa padre Hélio Welter, pároco da cidade. O encontro terá uma palestra na parte da manhã, almoço partilhado e momentos de confraternização, de oração e de reflexão. Encerra às 15 horas, com uma celebração litúrgica.

 

Franciscana missionária celebra profissão

 

A congregação das Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria Auxiliadora - província "Santa Clara" - com sede em Chapecó (SC), celebra a consagração definitiva de irmã Cláudia Tonet (foto), filha de Ivo Tonet e Lurdes Dalpizzol Tonet. O casal reside no município de Abelardo Luz (SC).

A celebração será realizada na igreja matriz de Abelardo Luz no dia 28 de agosto de 2005. A profissão religiosa de irmã Cláudia está sendo precedida de uma semana de animação vocacional, em todas as comunidades da paróquia, que iniciou no dia 22. Irmã Cláudia escolheu como lema de vida "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me consagrou com a unção".

"Com esse lema, a jovem religiosa quer dar continuidade à missão da fundadora, bem-aventurada Madre Maria Bernarda Bütler, que nos deixou como meta de vida ‘Meu viver é o Evangelho’. ‘Sou e devo ser missionária’", explica a superiora provincial da congregação, irmã Maria Presotto.

 

Encontrei a Deus

Aldo Colombo

Nós somos as mãos de Deus na história. Ele poderia resolver tudo por milagres, mas optou por contar conosco

 

Havia um menino – seis anos – que queria se encontrar com Deus. Ele sabia que teria um longo caminho pela frente e, por isso, tomou as necessárias providências: encheu sua lancheira de sanduíches e guaranás e, naturalmente, dois bombons para a sobremesa. Era uma tarde bonita de sol, já no fim da primavera. Discretamente saiu da casa, afagou o cachorro e seguiu seu caminho. Ele andou três quadras e ficou encantado com o parque. Havia um chafariz, alguns pássaros e muitas flores. Havia também um banco vazio. Sentou no banco e abriu a lancheira, de onde pescou um sanduíche.

Ele nem havia notado, mas na ponta de outro banco estava sentado um velhinho, encantado com as flores e os pássaros. O menino lembrou que poderia oferecer ao velhinho um sanduíche, talvez estivesse com fome. O velhinho aceitou e sorriu para o menino. Seu sorriso era incrível, e o menino queria ver de novo e ofereceu-lhe guaraná. Mais uma vez o velhinho sorriu. E os dois ficaram a tarde inteira, comendo sanduíches e tomando guaraná, sem falarem um ao outro. Já ia escurecendo, o menino estava cansado e resolveu voltar para casa. Antes de sair ele voltou-se, deu um bombom e um grande abraço ao velhinho. E o velhinho respondeu com um novo sorriso, o melhor de todos.

Quando o menino chegou em casa, o cachorro latiu e acudiu o rabo. Já a mãe reclamou que havia chegado tarde. E o menino, com o rosto iluminado de felicidade, explicou: passei a tarde no parque, com Deus. A mãe, perplexa, arriscou uma pergunta: Como é Deus? E o menino explicou: como é no retrato da igreja: velhinho, barbas brancas e muito bom. Não longe dali, numa vila da periferia, a filha perguntou ao pai onde estivera a tarde toda. Ele respondeu: comi sanduíches e tomei guaraná, no parque, com Deus. E antes que a filha perguntasse, ele explicou: sabe, ele é bem mais jovem do que eu pensava!

O apóstolo João afirma: "Deus é amor, aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele" (1Jo 4,16). E, na lógica do Evangelho, Deus se esconde nos caminhos do mundo. No dia do Juízo, ficaremos sabendo que ele estava escondido no rosto do pobre, do preso, do doente e na pessoa de cada irmão ou irmã. Nossa salvação passa por este caminho.

E Deus - hoje - precisa de nossas mãos, de nossos pés, de nosso sorriso para anunciar a Boa Nova. Fazemos aquilo que Deus já não pode fazer, lembra Andrés Torres Quirruga. Nós somos as mãos de Deus na história. Ele poderia resolver todas as situações por meio de milagres, mas Ele optou por contar conosco. Nós somos encarregados de ajudar Deus a eliminar os sofrimentos do mundo. Ele nos deixou um único encargo: amar os outros. Nós nos encontramos com Ele no templo, normalmente, uma vez por semana, mas Ele está presente, constantemente, em nosso cotidiano. Ele é o Deus da vida e da ternura. E João esclarece: "Se alguém disser: amo a Deus, mas odeia o irmão, é um mentiroso, pois quem não ama o irmão, a quem vê, a Deus que não vê, não poderá amar" ( 1Jo 4, 20).

 

Bispos refletem sobre desafios atuais

Assembléia Geral da CNBB reuniu 279 bispos de todo país em Itaici

 

Encerrou na quarta 17, em Itaici, Indaiatuba (SP), a 43ª Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que reuniu 279 bispos das diversas regiões do país. De 9 a 17 de agosto, os bispos estudaram e discutiram o tema central da assembléia "Evangelização e profetismo - missão da Igreja diante dos desafios atuais". Nessa proposta estão contidos temas como a dignidade da vida humana, o testemunho da fé cristã e o pluralismo cultural e religioso, o compromisso eclesial e a inclusão social.

Também refletiram sobre a realidade político-social do país e sobre a missão da Igreja, confrontando dados trazidos por estudos importantes, como a pesquisa pioneira sobre a mobilidade religiosa no Brasil, realizada pelo Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (CERIS), que revelou os números percentuais dos adeptos das diversas religiões e o que os faz mudar de credo.

Os bispos discutiram ainda a questão do desenvolvimento de novas biotecnologias e sua conotação ética, como por exemplo a pesquisa com células-tronco, e outros temas relacionados com a bioética, como o aborto, e firmaram sua posição de jamais abrir mão do empenho em valorizar, promover e defender a vida humana. Durante a assembléia, os bispos aprovaram o Diretório Nacional de Catequese; abordaram assuntos como liturgia, Comissão de Doutrina e as diretrizes sobre dízimo, doações e coletas.

Trataram ainda de temas como a análise de conjuntura sócio-econômica e a situação sócio-religiosa; sobre evangelização da juventude, vida e ministério dos presbíteros, Comissão Episcopal para a Amazônia e a Pastoral do Menor. No dia 12, emitiram uma declaração oficial da CNBB sobre a crise política do Brasil e divulgaram uma nota a respeito do referendo sobre a proibição do comércio de armas de fogo e munição.

Mobilidade - Em uma pesquisa pioneira, realizada pelo CERIS, foram apresentados aos bispos e ao público durante a 43ª Assembléia, números sobre o trânsito religioso no país. De acordo com o levantamento do CERIS, nos últimos anos o número de católicos no Brasil está em queda. Em 1991, 83,9% dos brasileiros se declaravam católicos. No ano 2000, esse número caiu para 73,9% e em 2005, são 67,2%. Segundo a pesquisa, há uma presença crescente de instituições evangélicas e novos movimentos religiosos. (Mais informações sobre o tema na página 8).

 

Existem seis dioceses sem bispos no Brasil

 

Na abertura da assembléia, o secretário-geral da CNBB, dom Odilo Scherer, revelou que a Igreja Católica no país conta com 429 bispos, dos quais 136 são eméritos. Há seis dioceses sem bispos e, desde a 42ª Assembléia Geral (abril de 2004), faleceram oito bispos; foram nomeados 23, inclusive dois capuchinhos - dom Severino Batista de França, auxiliar da diocese de Santarém (PR) e dom Antônio Canuto, bispo de Itapipoca (CE) -; e 21 renunciaram.

 

Crise política preocupa o episcopado

 

Durante a assembléia de Itaici, os bispos revelaram suas preocupações quanto à crise política do Brasil. Uma declaração da CNBB, emitida pelos bispos no dia 12, destaca que "a atual crise está levando o povo ao descrédito da ação política, em contraste com as expectativas de mudanças que haviam sido suscitadas nos últimos anos".

A indignação ética provocada por tantas denúncias de corrupção que emergem de forma escandalosa a cada dia deve levar, necessariamente, segundo os bispos, ao resgate da dignidade da política e a uma radical reforma do sistema político-eleitoral brasileiro. Os bispos exigem que a corrupção pessoal seja investigada e punida inclusive com a devolução dos recursos desviados e também prevenida por meio de uma maior transparência na administração dos bens públicos. Os bispos concluem sua declaração apostando "nas convicções éticas e cristãs do povo brasileiro", diante da crise atual.

 

Normal e anormal

Wilson João

No meio de um mundo injusto é preciso ser justo; no meio do desonesto é preciso ser honesto

 

É perigoso quando uma sociedade mistura e confunde as realidades. Trata o bem como mal e o mal como bem. Faz da verdade mentira e torna as mentiras verdades. Proclama o certo como errado e o errado como certo. Declara normal o anormal, natural o antinatural, verdadeiro o falso.

NÃO É NORMAL que as crianças sejam tratadas como animais e os animais sejam tratados como crianças. É uma aberração ouvir da boca de uma mulher: "um cachorrinho incomoda muito menos do que uma criança". Somente uma mulher com um coração de cachorro pode dizer tal anormalidade. Somente corações corruptos se recusam levar crianças a festas e restaurantes porque incomodam, e se animalizam de tal maneira que não sentem vergonha em levar no colo um cachorrinho perfumado, e que até recebe beijinhos na boca. E as crianças ficam mendigando carinho!

NÃO É NORMAL que uma pessoa assista, em noticiários, mortes de crianças pela fome, ou em sua cidade se façam campanhas para sustentar obras de caridade para dar uma alimentação melhor para crianças de famílias carentes, e se continue gastando, sem critérios, em cosméticos e em uma infinidade de supérfluos. É sinal de uma sociedade doente!

NÃO É NORMAL criar uma mentalidade de "todo mundo faz assim", e encarnando essa filosofia de vida, se passe a legitimar toda robalheira, mentira e engano. No meio do injusto é preciso ser justo. No meio do desleal é preciso ser leal. No meio do desonesto é preciso ser honesto. No meio do "todo mundo faz assim" é preciso erguer a voz e dizer "eu não faço assim, não sou assim!"

NÃO É NORMAL concordar e aplaudir uma marcha gay de milhares de pessoas, em nome da liberdade, e até rindo à toa da humanidade normal e sadia, banalizando o ser-homem e o ser-mulher. Poucos percebem que tudo isso se faz em nome de uma sociedade de mercado, onde grupos de interesse, rindo da ingenuidade humana, ganham somas enormes.

NÃO É NORMAL que se fique diante de um televisor vendo noticiários de corrupção política, de violentamento das mentes humanas, condenando pessoas, partidos e instituições, que os grandes meios de comunicação marcam para que sejam eliminados da sociedade, porque incomodam, e se defenda corruptos, que ficam gritando alto e condenando outras pessoas para defesa de seus crimes. Numa sociedade dessas, os justos passam por vítimas, e os corruptos e mentirosos passam por heróis.

NÃO É NORMAL que se diga que "todas as religiões são boas" se nem todas são caminho para o Deus único e verdadeiro. Há religiões de "bolso" e outras de mentiras. É preciso ter um olhar de Deus, e viver a verdade que nasce do coração de Deus, e não de pessoas que se acham iluminadas, curadoras, salvadoras e donas da verdade.

NÃO É NORMAL que se torne normal o anormal. O caminho é escutar o coração humano, é estar atento às leis da natureza humana e do universo, é ter a humildade de descobrir em tudo onde está a liberdade de amar e servir. Ali está o caminho da vida e da normalidade.

 

CULTURA DA IMIGRAÇÃO

O italiano que está em você

Frei Clemente Dotti

Capuchinho, administrador de empresa, Caxias do Sul-RS

 

Frei Clemente Dotti é a própria italianidade. Diz:

 

"Eu fui um privilegiado, pois na Linha Silva Tavares de Antônio Prado, onde nasci, nem se sabia da proibição de falar o Talian, que avós e netos seguimos falando.

Vindo de Poggio Rusco, Mântua, meu avô se estabeleceu em Flores da Cunha, seguindo depois à Linha 10 de Julho de Antônio Prado. Mais tarde comprou as terras da família Pesavento na Linha Silva Tavares, onde se estabeleceu em definitivo.

Fui criado na roça, com a escola a dois quilômetros de casa. O professor era o Albino, tio do frei Ambrósio Tondello. Na escola falávamos o Talian, mas o professor insistia que falássemos o Português, que nem ele sabia bem. Se contrariado, pegava uma régua e gritava:

- Se vier alguém do paese (cidade) e escutar vocês falar Talian, é uma vergogna smarsa (vergonha podre) para mim. Parece ironia, pois a atual professora, Vânia Slaviero Ciotta, ensina aos alunos a falar e escrever o Talian.

Aos 12 anos, quando entrei no seminário dos capuchinhos em Veranópolis, eu ainda não falava Português. Certo dia, um colega me interpelou:

- Escuta, guri, tu não fala brasileiro?

- Não, mas o estou agora imparando (aprendendo). Respondi.

Muitas palavras-chaves do nosso falar familiar são difíceis de traduzir, porque fluem espontâneas como a vida. Sempre falei Talian com os colegas que, muitas vezes, riem de palavras que a maioria não assumiu.

- L’è che nuater son mantuan, che’l Signur à vert la boca col badil (É que somos mantuanos, a quem Deus abriu a boca com a pá). Riem de palavras como estas: faleti, samambaias; sélega, espécie de pássaro; pòcio, molho, em vez de tòcio, como diz a maioria.

Minhas comidas preferidas continuam sendo: polenta sob todas as formas; menestra coi fasoi bianchi, sopa de feijão branco; galina col pòcio, galinha em molho; taiadele consae col salame, massa com tempero de salame; radici col lardo vècio, radite com toucinho curtido; sùgolo con la mufa, creme de uva mofando; ua col aqua dolse, uva com água doce. El pupà sempre disea: Col sucro anca i scatoroni i è boni (O pai sempre dizia: com açúcar, até os sabugos são saborosos).

Em 1999, me encontrei com nosso antigo peão, o negro Jerônimo, de 90 anos, que falava fluentemente o Talian.

"No início, dizia ele, zera pròpio difìssile parlar coi Dotti (era mesmo difícil falar com os Dotti). Quando el zio Gìgio zera drio gussar el roncon el me disea: Jerônimo, para sta mola, e mi me fermava, invense zera per ndar depiù" (Quando tio Gìgio, afiando a foice no rebolo, dizia: Jerônimo, toca (pára) este rebolo, eu parava, ao invés de tocar mais, como ele ordenava).

Falando Talian, o município de Antônio Prado mantém vivo seu passado italiano, preservando 49 casarões típicos, tombados como patrimônio nacional. Em 1995, estava em Pádua, perto da Basílica do Santo, com o amigo Sérgio Bálico numa pizzaria, quando a servente nos disse que seu tio queria falar conosco. Na saída fomos conversar com ele, que logo nos interrompeu:

- Falem como vocês falavam antes.

Voltamos a falar nosso Talian, e a servente exclamou:

- Guarda, zio, parlano proprio come il nonno. - Veja, tio, falam mesmo como o avô.

Jamais esqueci este fato que me deixou feliz com o glorioso passado do Talian, a língua viva de nossa viva história" (Fone 054 2203232; e-mail  cdotti@editorasaomiguel.com.br).

49 mais um dá 50. Se fosse possível, junto aos 49 casarões de Antônio Prado, tombar o frei Clemente, teríamos perenizado a história, vida, cultura e fé dos italianos (Rovílio Costa).

 

EL RITORNO DE NANETTO PIPETTA (323)

Dopo na bruta tempesta, un bel giorno de sol

Mario Gardelin

Professor, historiador e pesquisador, Caxias do Sul - RS

 

Quanto Nanetto el ga dormio, no se sa. Un di, na stimana, un mese? Vedì che’l zera fora del tempo. In verità, tute quele bote che’l ga ciapà in te la corsa del aqua, lo ga trasformà. Desmissià, poco ghe gera del Nanetto dei tempi del Frate Paolino. El se sentia legero, come un passarin. In testa, el gavea tanta pace. Fame e sé no ghe ne sentia. Voia de alsarse e ndar a spasso, gnanca pensarghe sora. E come el gavea imparà dela mama che, de note e de matina, bisogna dir tre ave-marie, el se ga indenocià, e le ga dite su con gran devossion. No’l gavea finio la tersa ave-maria, e una tromba potente la ga sonà, ribombando par tuto. Nanetto ze saltà su, e solo lora el ga visto che la so tana la zera granda, e che’l gavea dormio in un bel leto.

El zera ben vestio, con robe de ndar a messa granda. Bele scarpe, braghe ancora pi bele, na giacheta in gamba e un capelasso in testa.

- Me piasaria de ver un spècio. Son sicuro che son un galantomo e che podaria ndar fin a Porto Alegre, e saludar Borges de Medeiros.

A dir la verità, romai el se la sprosiava. In fondo, ndar ben vestì ze na necessità, ai nostri tempi e, anca, a quei de Nanetto!

E lora, cari, na fanfara de trombe se ga messo a sonar. Prima da distante, ma dopo sempre pi darente, sentinaia de cavai i corea a galopo, con un strèpito favoloso. Na luce potente ga iluminà el posto. E una cavalaria meraviliosa, de soldai in grande uniforme, se ga messa in órdine. Un general ze vegnesto avanti e ga urlà:

- Achtung! Der Kaiser!

Nanetto, che diverse volte zera stà do par le bande dei tedeschi, a Nova Petrópolis, el gavea imparà qualche parola in tedesco. Achtung! El savea che volea dir – Stè atenti! El se ga messo in pié. Kaiser anca el savea che volea dir – el Re. Ma, suito el se ga domandà: – Che Re, e che cavalerie?

Na vose potente ga comandà:

- Nanetto! In denòcio!

El ga obedio come un autómato. Lora ze veg-nesto avanti un omenasso, in un caval che meio no ghenè al mondo. El gavea na spada estupenda. In testa, na corona tuta de oro sfavilante; in peto, na corassa. Nanetto el gavea la impression de cog-nósserlo, ma no ghe gera maniere de ricordarse onde lo gavea visto. Na roba el savea: el zera un Re. Ma un re bon, sensa stòrie e protocoli. El Re se ga messo a rìdere, e el ga domandà:

- Nanetto! No te me riconossi pi?

- De testa bassa, Nanetto ga risposto:

- Me par de verve visto, ma no sò ndove. Chi sio?

- De tanti ani indrio, na doménega de sol, te me ghè visto. Te ghè pensà che mi zera un puat, e te volea portarme a casa par dugar...

- El Santo. El Santo de Venèssia. El Santo che me ga strucà de òcio tre volte.

- Son pròpio mi. Quando te sì cascà tel aqua, davanti la to casa, e le onde te ga portà via, mi son corso a giutarte. Te go salvà.

- Al Passo Velho zera bisogno de purgarte de tuto. E te ghè passà par un purgatòrio aquoso, gèlido e penitente.

- In tanto, ve ringràssio.

E Nanetto se ga indenocià e el ga dito un padre-nostro e un tocheto de Te Deum, ma poco, parché no lo savea intiero, a mente!

Finio le orassion de ringrassiamento, el Re el ghe ga dito:

- Mi go tanti afari. Esser un Re, anca se in paradiso, bisogna laorare. Diverse persone le resta qua, e una dopo l’altra, te insegnarà quel che devi imparare. Ma varda de far puito, de ver sempre giudìssio. E mi, che sarò sempre informà, vegno ogni tanto e parlemo.

- E come zelo el vostro nome?

In quela, el general el ga dito solene:

- Santo Enrico, Imperatore del Sacro Impero Romano Germànico!

Do pensieri ga saltà in testa de Nanetto. El primo:

- Mi son un stùpido, che volea portarme a casa el puat. Vardè che omenasso. E che santo!

El secondo:

- Questo ze un miràcolo!

El generale el ga ciapà un libro grosso e lo ga dà a Nanetto.

- Lèdelo e mételo a mente. El te piasarà.

Nanetto el ga domandà:

- Zelo in talian o in cìcara?

- Stà tranquilo. Te capissarà tuto.

El general el ga saltà in gropa al caval. Ga fato segno al trombetiere...– squili de tromba da riempir i soteranei del Rio das Antas, e i monti de Bento Gonçalves e Alfredo Chaves, che desso se ciama Veranópolis.

Re, cavai, trombetieri i ze partidi. Nanetto ze restà de boca verta. Mai visto! El se ga domandà:

- Sarà gente del Rio Grande, de Pelotas, de Bagé? Sarà quei del Barão do Triunfo?

E lora el se ga messo a balare, a saltare e a gridare.

- Viva Santo Enrico, Imperatore del Sacro Impero Romano Germànico. Ghe ze vegnesto in mente do o tre parole in tedesco:

- Heil der Kaiser! Heil der Keiser!

E, de contento, el se ga messo a far continensa, a inchinarse, a presentar arme!...Dopo quìndese minuti, el se ga sentà:

- Me par da esser aleman! E el ga molà na gran ridada!

 

VITA STÒRIA E FRÒTOLE

Rovílio Costa e Arlindo Battistel

 

El viaio dei bisnoni Giuseppe e Regina Moro

Silvino Santin

Professor, Santa Maria - RS

 

Là pal fin del 1870, in Itàlia, ze stà un tempo de tanta fame, fredo, misèrie, par via dela guera per l’unità italiana. Giuseppe Moro (Bepo), el fea el infermiero militar, ma, finia la guera, el ze restà sensa laoro, lora l’è tornà a casa de so zio Thomaso e de altri parenti. Ma i barufea parché i gera sempre drio dirghe su, i lo coionea par via que l’era un "magnon", nò tanto parché a tola el magnasse massa, ma parché tuto quel che’l guadagnea lo guastea par mantegner la so fameia che, no ocor dirlo, la gera granda. Così la so vita la ze deventada piena de tribulassion.

Bepo el ga savesto che in tel Brasil el gera fàcile far fortuna - far la cucagna in Mèrica, se disea – lora el se ga partio con tuta la fameia verso el Brasil, ndove l’è rivà a Val Véneta, rente Santa Maria. Quando el ze rivà, el ga ciapà un toco de tera, par pagarla col tempo. Lì su sto toco de tera el ga fato su na caseta. I brasiliani i ghe ciamaria un ranceto. Ma, bisogna dirlo con tuto el orgólio, l’era su el suo.

Pena rivà, Bepo el se ga nicorto che con pochi soldi se podea comprar tanta tera, cavai, farse su na bela casa e altre maraveie, ma lu no’l gavea gnente. Le poche economie le se gavea svampio col viaio e par rangiarse su un pochetin. In questo momento, el se ga ricordà del zio Thomaso, lu si el gavea tanti soldi, così el podea far bei negòsii. Col poco che’l savea scriver, el ghe dise che qua in tel Brasil ghe ze de tuto con abondansa. Ghe ze tera a volontà par piantar tuto quel che se vol, formento, patate, mìlio, vigne; se pol slevar vache, cavai, porchi, piégore, cavre, galine e anca ghe ze tanti osei, oseleti e bèstie salvàdeghe par magnar. E Bepo, furbo, che come so zio ghe piasea tabacar, el ghe da el colpo final: zio, squasi me desmenteghea, qua se pol piantar fumo fin che se vol, e el vien su pi bel che le sucare, piantae rente la stala.

Par capirla mèio bisogna ricordarse che in’Itália el tabaco l’era tuto controlà dal Rè.

Thomaso, bisogna dirlo, romai el gera vecioto, ma co le stòrie de so neodo Bepo, el ga parlà co la fameia, e come tuti i ze ndai d’acordo, el ga vendesto tuto quel che’l gavea, e, par farse pi importante, el ga comprà i bilieti del viaio par tuta la fameia, in torno de quaranta persone, lu no’l ga volesto viaiar par carità.

Ma rivà a Val Véneta, romai el gavea guastà tuti i soldi, l’è restà co na man davanti e nantra dadrio. La solussion l’è stà inmuciarse rento la caseta de Bepo, fin che le cose le se indrissasse un fià.

Cossita la ga scominsià la stòria dei Moro tel Rio Grande del Sud.

(Testo de Silvino Santin, stòria contada par Valdir Moro nel corso de Talian dela Associassione Italiana de Santa Maria, 2003).

 

GERAL

Mais de 25% das cidades gaúchas sem plano diretor

Outros 153 municípios precisam revisar o seu planejamento urbano

 

No RS, 121 municípios precisam elaborar o Plano Diretor até outubro de 2006, conforme a lei federal 10.257/2001. Além disso, outros 153 municípios devem revisar seus planos, de acordo com as novas normas do Estatuto das Cidades.

Já os municípios com áreas de especial interesse turístico ou que estejam sob influência de empreendimentos de significativo impacto ambiental também devem elaborar seu plano, mas não há um prazo estipulado.

A principal determinação da lei é a obrigatoriedade na elaboração do Plano Diretor para as cidades com mais de 20 mil habitantes ou que integrem, independente do número de habitantes, regiões metropolitanas e aglomerações urbanas.

O responsável pela área de infra-estrutura da Famurs, Conceição Krusser, lembra que o Plano Diretor é o instrumento fundamental para a política de desenvolvimento de expansão urbana. Ele garante aos cidadãos lugar adequado para morar, trabalhar e viver com dignidade, acesso à habitação, ao saneamento ambiental, ao transporte e aos serviços e equipamentos urbanos.

"Os prefeitos que não cumprirem a determinação poderão sofrer sanções e serem acusados de improbidade administrativa", alerta o consultor jurídico da CNM, Rodrigo Garrido Dias.

Conferência - A Confederação Nacional de Municípios (CNM) espera reunir cerca de 2.000 participantes na Conferência de Fortalecimento do Movimento Municipalista Brasileiro, que acontece de 24 a 26 de agosto no Rio de Janeiro. A imagem do prefeito como agente de construção de uma realidade melhor para suas comunidades está entre as preocupações do evento.