LEITORES 

 DESCOBRINDO CAMINHOS

 

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Edição 4.952 - Ano 97 - Caxias do Sul-RS, 31 de agosto de 2005.

EDITORIAL

Quatro décadas voltadas para a promoção humana

Num mundo de desigualdades e injustiças sociais, que bom que existe a Lefan

 

O sonho das pessoas de bem é viver num mundo sem desigualdades. E a maioria delas luta, com as armas que dispõe, para concretizá-lo. Mas a realidade mostra que é cada vez maior o exército de necessitados - formado por famintos, desagasalhados, desempregados, pelos sem escola... pelos sem perspectiva, que sobrevivem excluídos até da possibilidade de vislumbrar um futuro melhor.

Há 40 anos, uma iniciativa dos freis capuchinhos em Caxias do Sul para combater a pobreza encontrou respaldo decisivo na comunidade. A partir de então um grupo de abnegados passou a atuar como agente que detecta problemas sociais, envolve a participação comunitária para solucioná-los, ou minimizá-los, e consegue beneficiar milhares de crianças e adultos.

A Legião Franciscana de Assistência aos Necessitados (Lefan), criada em 7 de setembro de 1965 para auxiliar os caxienses carentes do bairro Rio Branco, se tornou um exemplo. Não apenas pelos números que comprovam o êxito estatisticamente, mas, e principalmente, pela qualidade do atendimento que oferece.

Mantendo cinco escolas de educação infantil, organizando grupos de pessoas para retirar o sustento da reciclagem de lixo, promovendo cursos de formação profissional a adolescentes, jovens e adultos, ou distribuindo ranchos mensalmente, através da Pastoral do Pão, a 600 famílias, a entidade mostra que não se deve ignorar necessidades imediatas, mas é preciso olhar também para a frente. Só assim se formarão cidadãos conscientes e não dependentes do assistencialismo - freqüentemente adotado por organismos oficiais guiados por interesses político-partidários.

A Lefan, mantida pela Associação Literária São Boaventura, encontra a força para viabilizar suas ações no voluntariado. São centenas de pessoas que se dedicam a ajudar o próximo, um trabalho elogiável pelos resultados sociais que produz e pela demonstração de sensibilidade coletiva, contraponto ao individualismo egoísta que permeia nossa sociedade.

É importante manter o sonho de um mundo em que cada indivíduo tenha pelo menos acesso ao básico indispensável, em que a família possa viver com dignidade e um mínimo de conforto. Mas enquanto isso não existir, que bom que existem entidades como a Lefan.

 

CAXIAS DO SUL

Feira do Livro inicia regionalização

Evento terá uma banca para municípios da Serra gaúcha. Sete confirmaram presença

 

A 21ª Feira do Livro de Caxias do Sul abre no próximo dia 2, às 18h30, na Praça Dante Alighieri. Nesta edição, o evento terá a participação de 26 livreiros de Caxias do Sul e 12 de Porto Alegre. Todos os livros serão vendidos com 20% de desconto.

A coordenadora do evento, Luiza Motta, afirma que este ano a feira dá os primeiros passos para a regionalização. "Teremos uma banca para receber municípios da região. Já confirmaram presença Bento Gonçalves, Flores da Cunha, Farroupilha, Monte Belo do Sul, Nova Pádua, Carlos Barbosa e Garibaldi".

Luiza destaca ainda a participação da Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que trará obras de universidades de todo o país. "A presença da UFRGS qualifica muito a feira. "Fizemos contato com outras universidades, mas elas alegaram que precisam de tempo para se organizar e prometeram participação no próximo ano", explica ela.

A coordenadora também ressalta a realização do projeto Passaporte para Leitura. "Em junho, diversas obras foram distribuídas para as escolas trabalharem com os estudantes e com a comunidade. O resultado será mostrado na feira. O objetivo é que os alunos conheçam mais o universo da obra trabalhada em sala de aula", explica Luiza.

A feira ainda terá palestras, bate-papo com autores, mais de 60 sessões de autógrafos, lançamentos de obras, apresentações artísticas. Vários escritores já confirmaram participação no evento, entre eles: Marina Colassanti, Afonso Romano de Sant’Anna, Luiz Antônio de Assis Brasil, Martha Medeiros e Moacyr Scliar.

No ano do centenário de Erico Verissimo, várias atividades lembrarão o escritor gaúcho. Haverá a pré-estréia nacional do filme O Continente, no Teatro Municipal e a exposição Erico, contador de histórias, na Galeria Municipal.

No ano passado, mais de 24,7 mil livros foram comercializados durante a feira. Para esta edição, os organizadores projetam um acréscimo de 15% a 20% nas vendas. A expectativa é que o evento receba de 120 a 150 mil visitantes. A feira ocorre de 2 a 18 de setembro, das 12h às 20h, na Praça Dante Alighieri. Nos sábados, domingos e feriados, o horário de funcionamento é das 10h às 20h.

 

Evento tem madrinha e homenageada

 

No lugar do tradicional "patrono", a 21ª Feira do Livro de Caxias do Sul terá a madrinha Cleodes Piazza Ribeiro e a homenageada Beatriz Helena Rech. A professora Cleodes tem uma longa tragetória de cumplicidade com o livro e com a leitura. É professora de Literatura na Universidade de Caxias do Sul (UCS), mestre em Letras pela PUC/RS, doutora em Educação pela Universidade Federal de São Carlos. Atualmente desenvolve a pesquisa "O Cancioneiro Popular da Imigração Italiana no Nordeste do RS" e o "Projeto Salvamento do Patrimônio Histórico e Cultural nas áreas do complexo Rio das Antas".

A bibliotecária Beatriz Helena Rech dedicou grande parte de sua vida aos livros. Ela concluiu o Magistério em 1963 e o curso de Biblioteconomia e Documentação em 1972. Ingressou como bibliotecária na Prefeitura em 1973 e aposentou-se em 2003. Foi diretora da Biblioteca Pública Municipal de 1973 a 1996. Durante este período, foi criada a Feira do Livro e construído o prédio onde funciona a Biblioteca Pública Dr. Demétrio Niederauer. Beatriz foi também diretora da Biblioteca da UCS.

 

REPORTAGEM

Espumante e suco puxam crescimento da área vitícola

Rio Grande do Sul já cultiva 35,3 mil hectares com videiras, sendo 80% de americanas e híbridas

 

O Rio Grande do Sul tem 35.263,07 hectares com videiras, sendo 15.448,33 de cultivares americanas, 12.718,06 de cultivares híbridas, 6.955,11 hectares de viníferas e 141,57 de mistura de cultivares em coleções e porta-enxertos.

O cadastro vitícola completa 10 anos. Iniciou em 1995 com a medição dos vinhedos comerciais do Estado, quando foram contabilizados 24.318,58 hectares, sendo 9.625,39 hectares de cultivares americanas, 9.944,42 de híbridas e 4.606,44 de viníferas. Em 10 anos, a área ocupada por vinhedos no Estado foi ampliada em 10.944,49 hectares, ou 45%. "O crescimento médio foi de 3,97% ao ano", informa a coordenadora do Cadastro Vitícola, Loiva Maria Ribeiro de Mello, economista rural da Embrapa Uva e Vinho.

As cultivares americanas apresentaram crescimento de 5,25% na última década, com destaque para a tinta bordô com aumento de 9,77% ao ano. É utilizada para elaboração de suco, de vinho de mesa e também, embora em menor parcela, para consumo in natura. "É uma cultivar rústica, resistente às doenças fúngicas e apresenta alta concentração de matéria corante, motivo do grande crescimento na área plantada", explica Loiva.

As tradicionais niágara branca e niágara rosada cresceram em média 5,39% e 3,6% ao ano, respectivamente. Por serem preferidas por grande parcela dos consumidores brasileiros, grande parte da uva se destina ao consumo in natura, embora também seja usada para elaboração de vinho branco de mesa, com sabor característico marcante.

A cultivar concord obteve crescimento médio na área plantada de 2% ao ano. É utilizada para mesa, suco e vinho, e preferida para elaboração de suco, pelas suas características de aroma e sabor.

A área das cultivares híbridas aumentou 2,5% ao ano, ficando abaixo do incremento da área total. Faz parte deste grupo a tradicional isabel, que representa 28,12% da área total de vinhedos do Estado e 77,96% da cultivares híbridas. Essa cultivar teve um incremento de apenas 0,71% ao ano. É utilizada para elaboração de vinho de mesa, suco e para o consumo in natura.

Algumas cultivares híbridas tiveram aumentos significativos no plantio, destacando-se a moscato embrapa, lançada em 1997 e que em sete anos atingiu 250 hectares, com crescimento anual de 31,12% ao ano. "A moscato embrapa é voltada para produção de espumantes e vinhos", diz Loiva ao CR. Já a cultivar tinta seibel 1077 cresceu 12,74% ao ano. É usada em grande parte para elaboração de suco. A branca couderc 13, voltada à elaboração de vinho de mesa, apresentou aumento de 8,72% ao ano.

Viníferas - As cultivares viníferas tiveram incremento de área de 3,97% ao ano, o mesmo aumento da área vitícola do Estado. Neste grupo destacam-se as tintas. A cabernet sauvignon, que origina vinhos com reputação mundial, com intensa coloração e complexidade em aroma e buquê, teve acréscimo de área de 16,05% ao ano. A pinot noir, utilizada para elaboração de vinhos varietais e espumantes, teve a área aumentada em 13,36% ao ano.

A cultivar merlot, que origina vinhos de alta qualidade tanto de varietal quanto na composição com outras castas, cresceu 11,62% ao ano em área. A cultivar tannat, rica em cor, usada para elaboração de vinho varietal e para corte, cresceu 10,6 % ao ano. A cabernet franc, que origina vinho com tipicidade apropriada para ser consumido ainda jovem, teve incremento de área em 3,53% ao ano.

No grupo das brancas, a cultivar chardonnay se destacou com incremento de 5,86%. É usada para elaboração de vinho varietal e espumante. A cultivar riesling itálico apresentou decréscimo de 5,02% ao ano, na área cultivada. "É uma pena, pois trata-se de uma variedade tradicional, adaptada na região e responsável por vinhos de qualidade", lamenta a economista rural da Embrapa.

 

Bento Gonçalves lidera produção de uvas no Estado

 

Confirmando a tradição, Bento Gonçalves é o maior produtor de uvas do Rio Grande do Sul e do país, com 5.672,89 hectares cultivados e produção de 121.562,7 toneladas. O destaque é para a variedade isabel, com mais de 55 mil toneladas. Os números são do Cadastro Vitícola, divulgado na sexta, 26, durante as festividades dos 30 anos da Embrapa Uva e Vinho.

O maior produtor de vinhos do Brasil, Flores da Cunha, ocupa o segundo posto no ranking. O município destina uma área de 4.506,42 hectares a videiras. As variedades isabel, com 45 mil toneladas, e bordô, 24,3 mil toneladas, se destacam na produção próxima a 100 mil toneladas por ano.

Difusão - A viticultura gaúcha está difundida em 24 microrregiões (MR). A tradicional região produtora, MR 016, na Serra, ocupa 84,3% da área vitícola do Estado. Apresentou, na década, acréscimo de 3,18% ao ano. Compõem a região Antônio Prado, Bento Gonçalves, Boa Vista do Sul, Carlos Barbosa, Caxias do Sul, Coronel Pilar, Cotiporã, Fagundes Varela, Farroupilha, Flores da Cunha, Garibaldi, Monte Belo do Sul, Nova Pádua, Nova Roma, Santa Tereza, São Marcos, Veranópolis e Vila Flores.

A segunda maior produtora, MR 014/Guaporé, ocupa 3,79% da área com viticultura. De 1995-2004 apresentou acréscimo de 9,95% ao ano na área plantada. A terceira, MR 015/Vacaria, que contém 3,66% da área total, nos Campos de Cima da Serra, aumentou 6,01% ao ano.

A região MR 030/Campanha central, a quarta em termos de área vitícola, representa 1,95% da área estadual. Na década aumentou 3,5% ao ano. É nesta que se localiza Santana do Livramento, produtor de viníferas. As MR 031/Campanha Meridional e a MR-031/Serras do Sudeste, com 201,08 e 240,71 ha plantados, respectivamente, estão implementando a produção de uvas viníferas para a produção de vinhos de alta qualidade.

 

Isabel predomina na vinicultura gaúcha

 

Rainha Isabel. Assim pode ser chamada a variedade isabel, híbrida tinta que ocupa a maior área de plantio no RS, 9.914,47 hectares, e responde pela maior produção de uvas do Estado: 257.454,22 toneladas anuais, em média, segundo o último Cadastro Vitícola (ver tabela ao lado, à dir.).

Já a variedade americana tinta bordô aparece em segundo lugar, com 5.872,39 hectares cultivados e uma produção anual de 78.522,24 toneladas. "Nos últimos dez anos, a cultivar bordô foi a única que cresceu em todos os municípios", constata a pesquisadora Loiva de Mello.

O terceiro posto é ocupado pela niágara branca, uva americana com 2.598,07 hectares e 48.961,55 toneladas. "A uva niágara tem mercado cativo, pois é uma variedade de duplo propósito, isto é, para consumo in natura e vinho", diz Loiva.

A antiga cultivar de Vitis bourquina, a Jacquez, é cultivada sob a denominação errônea de seibel (seibel pica longa). A planta é vigorosa e muito produtiva, tem elevado potencial de açúcar e normalmente é plantada de pé-franco. Origina vinho tinto de coloração intensa, porém, a coloração é pouco estável. Com 1,49 mil hectares, ocupa o 6º lugar em área e o quarto em produção: 39.314,48 toneladas.

 

AGRONEGÓCIO

A cada sete anos, gaúchos perdem uma safra

Nos últimos 10 anos, ocorreram sete estiagens no RS, comprometendo a produção de grãos

 

A cada dois anos o Rio Grande do Sul registra uma estiagem, comprometendo a produção de grãos, em especial de milho e soja. Nos últimos 20 anos, ocorreram 10 estiagens no Estado que causaram redução de cerca de 40 milhões de toneladas de grãos, apenas nessas duas culturas. "Nesse período, o Estado perdeu três safras completas só de soja e milho", analisa o engº agrº e agrometeorologista da Fepagro, Ronaldo Matzenauer. Isto é, uma safra a cada sete anos.

"A freqüência de ocorrência de estiagens é assustadora, pois nos últimos 10 anos ocorreram sete estiagens", observa o agrometeorologista e engenheiro agrônomo da Fepagro, Nídio Antonio Barni. Estudos realizados pelo Laboratório de Agrometeorologia da Fepagro demonstram que a quantidade normal de chuva (média climatológica), durante o período primavera-verão, não é suficiente para suprir o consumo de água das principais culturas de verão.

De acordo com o estudo dos agrometeorologistas da instituição, ocorre deficiência hídrica às culturas praticamente todos os anos. "A falta de água acontece justamente nos períodos críticos da soja e do milho, ou seja, na floração e enchimento de grãos", destaca Matzenauer ao CR.

A safra 2004/2005 é a prova conclusiva dos danos provocados pela seca. No caso da soja, o Rio Grande do Sul deixou de colher 6 milhões de toneladas, uma quebra de 72%. As perdas no milho foram um pouco menores: 65%. O Estado deixou de colher 2,9 milhões de toneladas, de um total previsto de 4,5 milhões de toneladas do grão. "Só com o preço desses dois grãos, o RS perdeu neste ano R$ 3,7 bilhões. Se contabilizadas todas as despesas, os prejuízos passariam de R$ 10 bilhões", calcula Ronaldo Matzenauer.

Irrigação - O Rio Grande do Sul precisa implementar um audacioso e forte programa de irrigação para dar estabilidade ao setor primário, mola mestra de sustentação de sua economia. "Está provado e comprovado que naqueles anos em que a precipitação é acima da normal climática (chuvas abundantes) as safras de verão no Estado são cheias", alertam. "Não existe insumo industrial que substitua a água. A melhor variedade, a melhor adubação, os melhores tratos culturais e os esmerados controles de pragas e doenças são infrutíferos quando ocorre deficiência hídrica", reforçam os técnicos da Fepagro.

Para os engenheiros agrônomos é preciso conscientização, de todos os setores envolvidos na cadeia produtiva, de que a irrigação é um investimento fundamental à produção. "A irrigação é o melhor seguro agrícola para o RS", argumentam.

Reconversão - A par da irrigação, necessária aos cultivos de verão, também deve merecer atenção a chamada reconversão agrícola. "Talvez, seja necessário rever a matriz produtiva gaúcha, hoje fortemente embasada nas lavouras de soja, milho e arroz", constata Matzenauer. A diversificação de cultivos e explorações precisa se impor economicamente.

"Alternativas deverão ser buscadas no contexto do princípio milenar de não colocar todos os ovos na mesma cesta", conclui Ronaldo Matzenauer. Entre elas, a produção de frutas (citros, ameixa e pêssego), como o que ocorre na zona Sul do Estado. Nesse processo, conta ainda a participação do agricultor, com medidas simples, como o armazenamento da água da chuva em tanques, pequenos açudes e barragens; a busca de informações e assistência técnica.

 

RS não deve recuperar déficit hídrico este ano

 

O Rio Grande do Sul deve ter uma primavera seca. As chuvas devem aumentar no final da estação. O prognóstico do 8º Distrito de Meteorologia/Inmet, com sede em Porto Alegre, para o próximo trimestre indica pancadas de chuvas de forte intensidade, ventos fortes e queda de granizo, em pontos esparsos no Estado.

No início do trimestre, o predomínio ainda é de temperaturas mais amenas, inclusive com a ocorrência de geadas. "Neste período é comum grandes amplitudes diárias de temperatura (frio de manhã e noite e calor à tarde), características das estações intermediárias", explica o meteorologista Custódio Simonetti.

Em meados de outubro começam a predominar dias com temperaturas elevadas, mas ainda podem ocorrer entradas de massas de ar frio, ocasionando geadas tardias nas re-giões altas, episódios extremamente danosos à agricultura.

Déficit - No mês de setembro, a maior probabilidade é de a precipitação ficar ainda entre o padrão climatológico nas demais regiões. Em outubro e novembro, a maior probabilidade indica precipitação dentro do padrão climatológico em todo o Estado, com exceção da região Nordeste, onde as chuvas ficarão abaixo. "Apesar de se esperar chuvas dentro do padrão climatológico, ainda não deverá ser recuperado o déficit hídrico em algumas regiões, como o Sul do Estado," diz o meteorologista ao CR.

Temperatura - Com relação à temperatura máxima, para o mês de setembro, deverá ficar acima do padrão climatológico; para os meses de outubro e novembro, dentro do padrão. As temperaturas mínimas deverão ficar dentro do padrão climatológico em todo trimestre. Por exemplo, mínimas, na Serra, de 8º a 10ºC e máximas em torno de 20º C.

 

Miolo vai produzir vinhos no Chile

Acordo com empresa chilena será ampliado ao Uruguai e Argentina

 

Abrir caminhos que possam viabilizar interesses da sexta maior vinícola chilena e de uma das maiores do Brasil. Este é o objetivo básico da joint venture (associação) entre a Via Wines e a Vinícola Miolo. Entre os interesses se salientam o intercâmbio tecnológico, a produção de vinhos e de espumantes e a comercialização, principalmente para o exterior.

O resultado desse acordo é o surgimento de uma nova empresa, a Viasul Wine Group. No lançamento dessa parceria a empresários e lideranças da vinicultura brasileira, na sexta 26, na Miolo, em Bento Gonçalves, o presidente da Via Wines, Jorge Coderch, explicou que a nova empresa produzirá vinhos em várias regiões chilenas, "a quatro mãos", ou seja, por enólogos chilenos e brasileiros, com a marca DO (significa domínio, propriedade). Esse será o produto top de linha e terá preço equivalente entre R$ 60 e R$ 70. No Brasil será produzida a linha Sesmarias, utilizando a uva dos vinhedos que a Miolo possui em Candiota, na região da Campanha gaúcha. Esse vinho, também "a quatro mãos", será comercializado aqui e no exterior. Ao todo, no mês que vem, 11 produtos estarão no mercado, oito elaborados no Chile e três no Brasil.

"Esses vinhos terão como marca um intercâmbio de produção, de tecnologia e de filosofia enológica", afirmou Coderch. A intenção da Via Wines, que terá sede no Chile e no Brasil e uma diretoria formada por representantes das duas empresas-mães, vai além da associação entre os dois paí-ses. "Nossa idéia será expressar o terroir sul-americano, incorporando no futuro projetos similares a estes na Argentina e no Uruguai", acrescenta Coderch - terroir são as características de clima e solo de uma região, às quais o chileno acrescenta técnicas, clones e gente. "Não temos ainda definido se vamos nos associar a empresas no Uruguai e na Argentina. Podemos até investir diretamente", reforça Adriano Miolo, diretor-técnico da Vinícola Miolo. Segundo ele, os investimentos, por enquanto, se restringem à organização - o projeto foi discutido durante dois anos - e lançamento da nova empresa.

Espumantes - Assim como a Miolo terá acesso à maior tradição chilena na produção de vinhos, os chilenos se beneficiarão com o avanço brasileiro na elaboração de espumantes - que eles não produzem. O acordo prevê o desenvolvimento de uma linha de espumantes nas unidades da Miolo do Vale dos Vinhedos (Bento) e na Fazenda Ouro Verde (Vale do São Francisco, no Nordeste do país). O novo produto levará a marca Oveja Negra e visa o mercado internacional. A marca servirá também para vinhos - o tempranillo-touriga foi degustado na noite do lançamento. "Oveja Negra é um conceito: ser diferente, ter atitude diferente no mercado", detalha Jorge Coderch. "Não se pode crescer no meio vinho fazendo o mesmo que outras 300, 400 vinícolas", avalia.

Desde que o setor ficou sabendo da intenção das duas empresas, surgiu o temor de que a associação poderia representar o ingresso ainda mais acentuado (hoje lideram as importações) de vinhos chilenos ao Brasil. "Pelo contrário. Vamos é levar mais vinhos brasileiros ao exterior", assegura Adriano Miolo.

 

A estrutura que sustenta a parceria

 

A família Miolo atua na viticultura desde 1897. Mas foi em 1989 que começou a produzir seu próprio vinho, dando início à Vinícola Miolo. Hoje é uma das maiores empresas brasileiras do setor: possui 763 hectares de vinhedos em cinco regiões (Vale dos Vinhedos e outras áreas da Serra gaúcha, Campos de Cima da Serra - em parceria), Campanha gaúcha (em Candiota, na Fortaleza do Seival) e na Fazenda Ouro Verde (Vale do São Francisco); duas vinícolas; e produziu no ano passado cinco milhões de litros de vinhos e espumantes. Meta da empresa é exportar 30% de sua produção até 2012. Hoje vende para dez países, entre eles EUA, onde tem escritório comercial, França e Itália.

A Via Wines foi fundada em 1998. Tem quatro unidades de processamento, 1.578 hectares de vinhedos em 11 vales e produziu, em 2004, 27 milhões de litros de vinho - entre eles a famosa marca Caballo Loco. A empresa exporta 95% de sua produção.

 

Estado renova convênio de R$ 3,12 milhões com o Ibravin

 

O Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) vai receber R$ 3,12 milhões para a promoção institucional das uvas e vinhos gaúchos, cadastro vitivinícola, capacitação de vitivinicultores, apoio ao Laboratório de Referência em Enologia, e desenvolvimento tecnológico do setor.

A renovação do convênio foi assinada entre o governador Germano Rigotto e o Ibravin, na terça-feira 23, no Palácio Piratini. Os recursos provêm do Fundo de Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado (Fundovitis), responsável pelo fomento ao setor. Participaram, entre outros, o presidente do Ibravin, Carlos Paviani, e o presidente da Câmara Setorial do Vinho, Hermes Zanetti.

 

VIDA AGRÍCOLA

Engº. Agrº. José Zugno

Laranjeira de umbigo que não frutifica

Meu irmão Mário Carbonera tem uma planta de laranja de umbigo que dá muitas flores, mas amarelam e caem todas. Qual será o motivo que não formam e seguram os frutos?

 

FRANCISCO CARBONERA

Sananduva - RS

 

As informações, embora dizem do essencial, são insuficientes para um exame correto da situação, pois a falta de frutificação depende de fatores internos (da própria laranjeira) e externos (ambientais, climáticos, edáficos (solos), doenças, parasitas).

As laranjas de umbigo têm aspectos exteriores como raízes, tronco, ramagem, vegetação, flores... semelhantes às diversas variedades de laranjas doces (Citrus sinensis). Destas diferem, fundamentalmente, porque a frutificação é "partenocárpica", e portanto não produzem sementes, a não ser por exceção.

A laranja de umbigo é brasileiríssima, porque surgiu na Bahia, há pouco mais de duzentos anos atrás, de uma mutação da variedade Seleta, trazida da Europa pelos colonizadores portugueses. A laranja mutante se chamou bahia, e reproduziu as novas e boas qualidades por enxertia. Levada para os Estados Unidos, foi cultivada na zona citrícola da Flórida, com o nome de Washington Navel e outros.

As flores das diversas variedades de laranjeiras doces, não de umbigo, são hermafroditas, quer dizer, que têm uma parte masculina (androceu) constituída por estames - quinze em cada flor, no mínimo, produtores de pólen, fértil; e uma parte feminina (gineceu), com ovário súpero, multilocular, e multiovular, com estigma grande (receptoras do pólen). Estas laranjeiras produzem anualmente dezenas de milhares de flores, mas só uma pequena porcentagem frutifica. A própria planta não teria condições de suportar se todas frutificassem. O grãos de pólen férteis fecundam os óvulos, originando as sementes, e assim o ovário desenvolve o fruto que é a laranja.

Na de umbigo não ocorre a fecundação. Não há portanto a formação de semente, mas o fruto desenvolve-se assim mesmo. O processo denomina-se partenocárpico. O aparelho feminino sofre profunda transformação: sobre o principal forma-se um secundário que procura desenvolver um segundo fruto redondo, mas geralmente apenas fica a marca conhecida como umbigo. Os grãos de pólen, desintegram-se e tornam-se incapazes de efetuar a fecundação. Os frutos desenvolvem-se, porém, sem sementes.

Tal característica da laranja de umbigo é genética e, nas condições normais, deve multiplicar-se naturalmente. Se isto não ocorrer, a causa deve ser atribuída a fatores externos já referidos, que influem, principalmente na florescência, como o excesso de chuvas, temperaturas anormais, período de seca (à qual as laranjas são muito sensíveis), solo deficiente em nutrientes, muito ácidos (as laranjas exigem pH 6,0 a 6,5), doenças de fungos ou vírus, e de parasitas como os trips e os pulgões nos brotos e flores, cochonilhas nas folhas, nematóides nas raízes.

A recomendação é examinar atentamente a planta levando em consideração esses fatores ambientais, se necessário, com a colaboração de algum técnico de extensão rural da região e tratar de solucionar qualquer problema que venha a ser constatado.

Se não constatar nem doenças, nem parasitas, a solução é, mediante análise do solo, adubar adequadamente, corrigir a acidez, e irrigar em caso de estiagem.

 

SAÚDE

Mau humor constante deve ser investigado

A distimia é um transtorno mental que atinge 180 milhões de pessoas no mundo

 

Ansiedade, irritação, pessimismo. Esses são sentimentos naturais que podem se manifestar no dia-a-dia de qualquer pessoa. Quem nunca perdeu a paciência ao enfrentar um congestionamento de trânsito ou ficou irritado quando o guarda-chuva quebrou no meio de uma tempestade? Em situações como essas, é normal que o mau humor apareça. Porém, quando este estado de espírito é rotineiro, o motivo pode ser distimia, a doença do mau humor. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 3% da população, cerca de 180 milhões de pessoas, sofrem com esse distúrbio.

A distimia é um transtorno mental caracterizado por um constante descontentamento. Quem enfrenta esse problema tem sentimentos de pessimismo, baixa auto-estima, cansaço constante, sente-se rejeitado. Desencadeada por um desequilíbrio na atividade química do cérebro, a doença aparece sem avisar e provoca mudança lenta de comportamento. De acordo com especialistas, a distimia é um tipo de depressão com sintomas leves ou moderados que persistem por pelo menos dois anos consecutivos. Atinge todas as faixas etárias, mas, em geral, surge no início da vida adulta. Apenas um especialista é capaz de identificar o problema por meio de uma avaliação psiquiátrica.

A doença pode ter várias causas, entre elas a vivência de situações desgastantes no dia-a-dia. Se o problema aparecer antes dos 21 anos, ele é considerado hereditário. Quando ocorre mais tarde, está associado a fatores de ordem biológica, física, psicológica ou social. Pessoas submetidas a estresse constante, por exemplo, podem adquirir a doença com o passar do tempo.

Como diferenciar alguém com mau humor normal de um distímico? Quem sofre da doença não consegue regular seu humor, independente das situações que vivencia, ou seja, anda sempre de mal com a vida, mesmo sem motivo aparente. As vítimas da doença do mau humor também são mais suscetíveis a desenvolver problemas cardiovasculares, câncer, distúrbios imunológicos.

 

Tratamento inclui remédios e terapia

 

O tratamento é feito com antidepressivos e psicoterapia, com resultados positivos em 80% dos casos. O remédio faz desaparecer os sintomas e a terapia é indicada para restabelecer hábitos de vida saudável e para ajudar o paciente e entender seu modo de ser no mundo. A melhora, porém, não é imediata. O acompanhamento pode ser necessário por vários anos.

De acordo com os médicos, o preconceito e a ignorância por parte de que tem a doença são os principais empecilhos para o tratamento. Muitas vítimas acreditam que essa incapacidade de desfrutar a vida com mais alegria faz parte de sua personalidade. Nesses casos, a família é fundamental, cabe a ela intervir ao notar sinais de mau humor constante sem motivo aparente.

 

Ouvir música diminui sensação de dor

 

Ouvir música pode ajudar a diminuir a dor, segundo os resultados de uma pesquisa realizada por uma universidade da Escócia. O estudo pode levar a novas pesquisas sobre o uso da música como tratamento em hospitais, por exemplo.

Psicólogos da Caledonian University realizaram um estudo com voluntários que ouviram melodias variadas, punk, rock, clássica e regional. Os resultados foram apresentados na conferência da Sociedade Psicológica Britânica na cidade de Manchester. Segundo o psicólogo Raymond MacDonald os pacientes estudados estavam se recuperando de pequenas cirurgias em hospitais. Eles relataram sentir menos dor e uma sensação de maior controle sobre o corpo.

Em outra experiência os voluntários tiveram que manter as mãos imersas em água gelada pelo máximo tempo que conseguissem. Eles podiam escolher uma atividade, entre ouvir música, fazer cálculos mentais ou assistir a um comediante na TV, para realizar durante a experiência. Todos aqueles que escolheram ouvir música conseguiram permanecer mais tempo com as mãos na água gelada, às vezes até cinco vezes mais tempo do que os outros voluntários. Os pesquisadores explicam que a música, além de distrair o paciente pode envolvê-lo emocionalmente, ao contrário de outros estimulantes.

 

Vitamina não reduz incidência de gripe

 

Harri Hemilla, da Universidade de Helsinki, na Finlândia, e Robert Douglas, da Universidade Nacional da Austrália, afirmam que a vitamina C não evita a gripe. A partir da análise de pesquisas, os cientistas garantem que a incidência de gripe não diminui quando os pacientes tomam até dois gramas de vitamina C por dia. Segundo eles, a substância não é uma medida profilática contra a gripe, mas reduz o tempo dos seus efeitos, em média, em 14% nas crianças e 8% em adultos.

O interesse pelo papel da vitamina na prevenção e tratamento da gripe cresceu com um estudo sobre o tema feito por Linus Pauling, em 1970. Segundo ele, grandes doses de vitamina C serviriam para evitar gripes e encurtar a sua duração. Novas pesquisas atestam que a vitamina C pode encurtar a duração da gripe, mas não preveni-la.

 

ALIMENTAÇÃO & SAÚDE

Maçã ajuda viver mais e melhor

 

Segundo Edson Credidio, médico presidente da Associação Brasileira de Nutrologia, a maçã tem propriedades reguladoras únicas. Ajuda a digestão, modera o apetite, controla o colesterol, previne alergias e irritações físicas, evita a formação de cálculos, limpa o sangue, previne o câncer digestivo.

No Núcleo de Alimentos Funcionais da Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre (PUC-RS), foram analisados os efeitos da maçã no organismo das drosófilas, as mosquinhas que adoram frutas. A bióloga Guendalina Turcato explica que comparando um grupo de mosquinhas alimentadas com uma papa especial de maçã com outras que receberam a papa sem a fruta, os pesquisadores constataram que as que comeram maçã viveram 30% mais que as outras, e com saúde melhor. De acordo com a pesquisadora, na maçã existe um conjunto de substâncias que previnem a formação de radicais livres e com isso aumentam o tempo de vida.

Estudos feitos na Finlândia acompanharam mais de 10 mil pessoas durante 28 anos. O resultado mostrou que indivíduos que comem maçã têm menos doenças cardiovasculares, câncer de pulmão, mama, próstata e até mesmo asma.

Porém, ninguém deve comer quilos de maçã, de uma só vez. A pesquisadora Ivana da Cruz, da PUC-RS, orienta que o ideal é comer de quatro a cinco unidades da fruta por semana.

 

OPINIÃO

A degola do bode expiatório

Leonardo Boff

O problema dos dirigentes do PT foi seu amadorismo. O impeachment provocará uma profunda divisão na sociedade. Uma nação só amadurece quando passa por provas cruciais. É preciso fazer as mudanças. Chega de desperdício de oportunidades

 

A atual crise é mais política que moral. É crise de representatividade. O povo não se sente representado por aqueles que ele elegeu. A prova é que, além da corrupção, em dois anos, 210 deputados sobre 513 mudaram de partido.

Previamente a tudo, importa reconhecer o caráter precário de nossa democracia. Ela ganha contornos de farsa pois não pode haver democracia digna deste nome na qual um terço da população é excluída e oito mil famílias controlam cerca de 700 bilhões de reais, aqueles conhecidos rentistas que financiam mensalmente o governo em troca de altíssimos juros. Se elencássemos os valores da democracia como são apregoados pela retórica política - liberdade, igualdade, justiça social, participação, desenvolvimento social com distribuição de renda e seguridades do cidadão - a nossa seria a sua própria caricatura para não dizer a sua direta negação. Nem falemos dos políticos. Fale por mim, Pedro Demo, sociólogo de Brasília que eu retenho por uma das cabeças mais bem arrumadas deste país: "A maioria é gente que se caracteriza por ganhar bem, trabalhar pouco, fazer negociatas, empregar parentes e apaniguados, enriquecer-se às custas dos cofres públicos e entrar no mercado por cima. Há exceções, mas que confirmam a regra. Não tem outra vocação senão permanecer no poder. Imoral é perder a eleição. Vale tudo" (Introdução à sociologia, 330). Descrição realista, não uma caricatura.

Esse ethos político é sistêmico e histórico. Muito antes do PT, foi praticado pelos partidos conservadores e liberais, pelo PSDB elitista, pelo oligárquico PFL, pelo negocista PTB e outros. A investigação deixou claro que já em 1998, por ocasião da reeleição do candidato do PSDB a governador de Minas Gerais, o esquema de Marcos Valério já funcionava. Por ser sistêmico de nossa democracia de baixa intensidade e de misturança de interesses públicos com privados, o "caixa dois" contaminou praticamente todos os processos eleitorais.

Qual foi o erro da cúpula dirigente do PT? De não ter sido alternativa, de ter-se adaptado a estes hábitos anti-republicanos. Com indignação vemos os "bandidos" de ontem, com o dedo em riste, acusando o PT como se esta corrupção sistêmica tivesse começado com ele. Se houvesse uma investigação séria na perspectiva de uma profunda reforma política, dificilmente, partidos hoje "puristas" e figurões "impolutos" escapariam da execração. O problema dos dirigentes do PT foi seu amadorismo. Deixaram marcas e assim viraram bode expiatório sobre o qual todos, hipocritamente, jogam seus próprios pecados para se sentirem redimidos. Como o mostrou René Girard, o mais famoso estudioso mundial do assunto (Le bouc émissaire), isso somente ocorre se houver a degola da vítima. Na degola deve entrar o presidente, senão a expiação coletiva não seria purgadora. Destarte, os "donos do poder" podem regressar livremente ao poder de Estado e continuar lá a farra dos privilégios estatuídos em direitos. Se isso ocorrer haverá uma profunda divisão na sociedade, pois milhões irão defender o mandato do presidente, tido como mandato popular, enquanto outros, em menor número, buscarão o seu impeachment.

Uma nação somente amadurece, ensinava Celso Furtado, quando passa por provas cruciais. Estamos passando por uma delas. Ou faremos as mudanças necessárias ou condenaremos nossa democracia a ser de baixíssima intensidade e antipopular. Chega de desperdício de oportunidades.

 

Ajardinar a esperança

Frei Betto

A esperança é um pássaro em vôo permanente. Agora as denúncias de corrupção fazem o pássaro cessar vôo em pleno ar. É preciso sustentar a esperança na certeza de que só haverá colheita se desde agora se cuidar da semeadura

 

Você pensa que eu também não tenho vontade de mandar tudo às favas? Pensa que não me invade esse sentimento de frustração, essa amargura oca, essa acidez na boca da alma? Sim, tem hora que me canso de bancar o Sísifo, de ficar carregando ladeira acima essa pesada pedra de uma esperança esburacada. Tem hora que me sinto Prometeu acorrentado, mas sem revolta, agradecido por ter as mãos atadas. E a única coisa que me passa pela cabeça é embriagar-me de alienação e ficar na varanda do apartamento, contemplando silenciosamente a cidade lá embaixo, miríades cristais reluzindo impessoais, anônimos, indiferentes ao meu estupor.

É muito frustrante semear esperanças. São grãos miúdos, delicados, quase invisíveis, ora plantados no caminho acidentado, ora num coração angustiado, sempre no terreno árido da pobreza insolente. E depois vem o árduo trabalho de regar todos os dias, ver emergir o primeiro broto, um fiasco de verde aflorando sobre a terra negra, e a gente é tomado por esse sentimento feminino do querer cuidar e começa então a acreditar que a primavera existe.

A esperança é um pássaro em vôo permanente. Segue adiante e acima de nossos olhos, flutua sob o céu azul, não se lhe opõe nenhuma barreira. É assim em tudo aquilo que se nutre de esperança: o amor, a educação de um filho, o sonho de um mundo melhor.

A política sempre foi alvo predileto da esperança, desde os tempos bíblicos. No Antigo Testamento, aparece no passado (Jardim do Éden), no futuro (a Terra Prometida) e no presente (a confiança nas promessas de Javé). Os profetas sabiam ajardinar a esperança.

A esperança política é uma fênix. Sempre a renascer das cinzas. Foi assim no milenarismo monárquico medieval, na Revolução Francesa, na União Soviética. Foi assim também com Tancredo Neves, visto como um novo Moisés que também não pisou a Terra Prometida. Agora as denúncias de corrupção fazem o pássaro cessar o vôo em pleno ar. Ele não pousa. Fica lá em cima empalhado por nossas miragens utópicas, enquanto uma dor dilacera-nos por dentro.

Então minha memória resgata o horror. Primeiro, os gritos. A pele toda se arrepia. Se eu fosse surdo, veria apenas o rosto esgarçado numa máscara de terror. Mas meus ouvidos se entopem dos berros estridentes. O corpo eriça-se. Não sou eu, nem a minha razão que o comanda. É o instinto animal, primevo, que vem lá de baixo da escala zoológica e agora se manifesta nessa reação de bicho acuado por uma ameaça próxima. Não há saída. Da sala de tortura, saio morto ou quebrado. A outra alternativa é mais assombrosa. A de sair irremediavelmente sonegado em minha identidade, mercadejando a informação em troca de uma sobrevivência indigna.

Ele abaixa o tom de voz e tenta vencer-me pelo aliciamento. Diz pausadamente que não tenho escapatória. E devo contar com a sua compreensão. Mas a sua paciência tem limites... tem limites... até que meu silêncio detona a explosão. Nele a fera racional irrompe em gestos calculados e começa a tortura.

Mas essa não é a única modalidade de tortura. Há outras, tão ou mais terríveis, porque escarafuncham a alma, ferem fundo o espírito, arrancam o que o coração guarda, deixando-o miseravelmente vazio. É a dor de ver um projeto adulterado pela ambição desmedida, a sede de poder, o pragmatismo inescrupuloso, essa esperteza tão pusilânime que acaba por engolir o esperto, como a cobra morde o próprio rabo.

Um sonho se tece de mil fios delicados, até que um dia a imagem se transporta da mente à realidade. Talvez não se saiba aonde exatamente se pretende chegar. É como no amor, os sentimentos criam vínculos sem que se saiba ou se possa adivinhar o porvir. Sabe-se contudo por onde não ir. Como no poema de José Régio, "não sei por onde vou, / não sei para onde vou, / sei que não vou por aí!" Não vou pelas vias que conduzem os passos do inimigo. Não trilharei os caminhos sombrios, tortuosos, da corrupção, da sonegação, da falcatrua e da negociata.

Um corrupto é o resultado de pequenas infidelidades. Ele não se faz senão através de detalhes que se lhe acumulam na alma: levar vantagem num negócio, apropriar-se de um bem aparentemente insignificante, trair a confiança alheia. Não é o dinheiro que destrói a sua moral. É a ganância, a arrogância, a convicção de que é mais esperto que os demais.

Não há ética sem humildade, saber ser do tamanho que se é, nem maior nem menor do que ninguém. E sustentar a esperança na certeza de que só haverá colheita se desde agora se cuidar, delicada e anonimamente, da semeadura.

 

ESTADO

Atrações devem levar 720 mil à Expointer

Ministro da Agricultura abre feira, que registra cerca de 6.000 animais e atrações diversificadas

 

O primeiro dos dois finais de semana da Exposição Internacional de Animais (Expointer) registrou 115,5 mil pessoas. Mas são esperados 720 mil visitantes. O evento começou no sábado 27 e vai até 6 de setembro. "Esta deve ser a Expointer da superação", disseram o governador Germano Rigotto e o secretário da Agricultura e do Abastecimento, Odacir Klein, ao abrir o evento no Parque Assis Brasil, em Esteio.

A Expointer 2005 abre oficialmente na sexta, 2 de setembro, com a presença do ministro da Agricultura, Pecuária e do Abastecimento, Roberto Rodrigues. Na ocasião, divulga o CD-Rom do Cadastro Vitícola do Rio Grande do Sul 2001/2004 (leia pág. 4).

As principais atrações da 28ª edição da Expointer não são apenas os 5.956 animais inscritos e os mais de 2.500 expositores. Há ainda a Casa da Emater, exposição que conta a história dos 50 anos da extensão rural no RS. "Os técnicos da Emater são como anjos que vão lá no interior, junto aos pequenos produtores, apoiá-los e mostrar alternativas de como produzir mais e melhor", destacou o governador ao inaugurar o local. Outra novidade é o novo Pavilhão da Agricultura Familiar (leia abaixo).

Cultura - A feira oferece diversas opções culturais. Cerca de 160 grupos de danças, bandinhas, corais, cantores e intérpretes, de 90 municípios gaúchos, estarão se apresentando em três palcos montados em locais estratégicos do parque: na Praça Farsul, no Boulevard, junto ao Pavilhão do Artesanato, e no Espaço Multicultura. As excursões de agricultores estão programadas para os dias 31 de agosto e 1º e 2 de setembro.

Assis Brasil - O Parque Assis Brasil completou 35 anos nesta segunda, 29. Em 1970, nesta data, instalava-se oficialmente o complexo com a denominação de Parque de Esteio. O governador era Walter Peracchi Barcelos e o secretário da Agricultura, Luciano Machado. Assis Brasil foi pecuarista, político, escritor, embaixador, constituinte e membro do governo.

 

Inaugurado espaço à agricultura familiar

 

As milhares de pessoas esperadas para visitar a Expointer 2005 encontrarão mais opções para comprar produtos com origem na agricultura familiar. O Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o governo do Estado inauguraram o Pavilhão da Agroindústria Familiar. "Um tratamento melhor e um espaço que valoriza e estimula o trabalho dos agricultores familiares", resumiu o produtor Cláudio Falkoski, 47 anos, um dos 203 expositores que conseguiram garantir uma banca na área de 4.300 m2, no novo pavilhão.

"Este é um dos momentos mais importantes da Expointer", acentuou o governador Rigotto ao inaugurar o pavilhão. Quem também fez elogios foi o ministro do MDA, Miguel Rossetto. "O pavilhão consolida a agricultura familiar na Expointer", disse. O presidente da Fetag, Ezídio Pinheiro, considerou a entrega da área permanente como uma vitória para as agroindústrias.

 

Sistema é alternativa contra a seca

 

Em tempos de estiagem, a Emater exibe um sistema de produção sustentável para a agricultura familiar, na Expointer. A idéia visa garantir a armazenagem de água e a irrigação das culturas em períodos de seca. Consiste em um açude, em que são criados peixes e patos, cercado por canteiros, onde estão diversas culturas.

"O esterco dos animais serve para adubar a água, que é utilizada na irrigação das culturas através de um sistema simples e barato, composto por uma bomba submersa, registros, mangueira e aspersores feitos com cotonetes", explica a extensionista Fernanda Fagundes. O plantio é realizado em nove círculos, para facilitar a irrigação e o aproveitamento da área, mas pode ser adaptado às condições da propriedade.

A técnica explica que os dois primeiros canteiros, próximos ao açude, são os da qualidade de vida, sendo destinados ao plantio de chás e alimentos para a família. Os cinco canteiros seguintes são os da produtividade econômica, onde são plantadas as culturas para venda. Os dois últimos são os da integração ambiental, nos quais podem ser cultivadas plantas repelentes -evitam a entrada de insetos; árvores frutíferas, que vão servir como quebra-vento; milho, para o trato dos animais, ou outra cultura, conforme a região.

 

INTERNACIONAL

Retirada de Gaza sinaliza paz, mas clima é de incertezas

Judeus deixam um dos territórios que os palestinos querem usar para criar Estado

 

O governo israelense concluiu na terça 23 a retirada de 21 assentamentos judaicos da Faixa de Gaza e de outros quatro - dois haviam saído espontaneamente - no norte da Cisjordânia. O processo demorou apenas nove dias e, contrariando a maioria das previsões, não teve feridos graves e nem forte e violenta resistência. O temor de que os colonos pegassem em armas contra os soldados foi desfeito logo nos primeiros dias. Na maior parte dos casos, houve acordos de não-agressão com as forças de desocupação israelenses, que puderam seguir à risca os princípios traçados pelo comando do Exército - "sensibilidade e determinação".

O passo, considerado importante num caminho trilhado para a busca da paz, devolve aos palestinos áreas ocupadas havia 38 anos - desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967. O êxito, no entanto, não elimina incertezas nem quanto às razões que deram origem a essa medida e muito menos quanto aos efeitos que produzirá num futuro próximo.

A decisão do primeiro-ministro Ariel Sharon, que no passado foi um dos radicais defensores da construção de assentamentos nos territórios ocupados, encontra explicações em pelo menos quatro pontos: demográfico (a proporção de judeus em Israel e nas áreas ocupadas caiu, pela primeira vez, abaixo de 50% e esses territórios representam apenas 2% da Palestina histórica); econômico (custo cada vez mais elevado para dar proteção, em Gaza, a 21 colônias em meio a 1,3 milhão de palestinos, problema intensificado por cinco anos de revolta - a intifada); opinião pública (60% dos israelenses apoiaram a retirada) e política (no final de carreira, Sharon pretenderia passar para a história como um homem de paz, como escreveu o professor de ciência política da Universidade de Jerusalém, Peter Medding).

Estado - A desocupação dos assentamentos não significa abandono total da área. A transferência do controle deverá ocorrer somente em outubro, após a destruição das construções que havia nos assentamentos. Além disso, Israel continuará controlando as fronteiras, o litoral e o espaço aéreo. A rigor, os palestinos não podem sair de Gaza sem permissão israelense. Mas, independentemente disso, esta foi a primeira retirada dos judeus de um território reivindicado pelos palestinos para a criação de seu Estado.

A abertura da perspectiva de criação de um Estado palestino sobrevive no plano teórico, mas encontra pela frente uma realidade desafiadora. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, sabe que precisa enfrentar logo grandes desafios. Um deles é melhorar o padrão de vida de dois terços de 1,3 milhão de palestinos da Faixa de Gaza que vivem abaixo da linha de pobreza. E o quadro se agravou com a desocupação: segundo o Ministério do Interior palestino, cerca de 5.000 palestinos que trabalhavam nos assentamentos judaicos perderam o emprego.

O outro desafio é maior ainda: eliminar o terrorismo na região. A presença do Hamas, organização terrorista que quer destruir Israel e implantar um regime islâmico na Palestina, cresceu muito na Faixa de Gaza. Nas últimas eleições, os candidatos do grupo terrorista tiveram expressivas vitórias sobre os do governo de Abbas.

O comentário crítico do ex-ministro das finanças de Sharon, Binyamin Netanyahu - que deixou o cargo dias antes do início da retirada -, dá bem uma dimensão do que pensam os contrários à evacuação dos assentamentos: "O terrorismo palestino acaba de ganhar uma base livre, da qual florescerá nos próximos meses, matando qualquer projeto de convivência pacífica".

Fronteiras - Se Netanyahu tiver razão, não demorará muito para Gaza virar palco de novos conflitos. E isso atingiria Sharon, que perderia força dentro do partido Likud, do qual Netanyahu também é membro. Por enquanto, porém, Sharon comemora o resultado da operação. Mas, como afirmou o articulista do jornal "Haaretz", Yoel Marcus - que deu a notícia da retirada unilateral de Gaza em primeira mão no ano passado, os frutos da iniciativa só poderão ser colhidos se o governo israelense agir com rapidez. "Israel cometerá um erro grave se repousar sobre os louros da vitória", escreveu. Na sua avaliação, o governo precisa aproveitar esse momento para começar a demarcação definitiva das fronteiras do país. E cabe aos palestinos "não desperdiçar novamente a oportunidade que lhes foi dada de bandeja".

O que acontecerá nos próximos meses será decisivo também para um novo plano de evacuação, dessa vez na Cisjordânia. Nessa área vivem 250 mil colonos judeus, população 27 vezes maior que os 9.000 que estavam na Faixa de Gaza.

 

Origem da ocupação

 

Israel decidiu promover assentamentos na região em 1967, após conquistar do Egito a Faixa de Gaza, na Guerra dos Seis Dias. Essa decisão só foi aprovada três anos depois. As duas primeiras colônias surgiram em 1972, quando foram instalados dois postos militares. Cinco anos mais tarde, um número maior de civis foi autorizado a se fixar em Gaza. Em 1987, devido ao início da primeira intifada (revolta dos palestinos), Israel promoveu novos assentamentos.

 

O custo da operação

 

A retirada dos assentamentos de Gaza custou cerca de US$ 2 bilhões. Cada família evacuada recebeu entre US$ 200 mil e US$ 300 mil (entre R$ 500 mil e R$ 720 mil). Gastos com a remoção de bases e equipamentos militares antes usados para proteger os colonos ficam por conta de Israel - que pediu US$ 2 bilhões de ajuda aos Estados Unidos.

 

Grupo terrorista vai lutar pela Cisjordânia e Jerusalém

 

O maior temor entre os israelenses, em especial os direitistas para quem a saída de Gaza significa a renúncia a terras prometidas por Deus ao povo judeu, é o comportamento do grupo terrorista Hamas, cuja influência aumenta cada vez mais entre os palestinos. A região será utilizada para o tráfico de armas e ataques a Israel? A resposta a essa pergunta pode definir o futuro da região.

Há um acordo de cessar-fogo até 2005, firmado a pedido do presidente da Autoridade Palestina. Mas um porta-voz do Hamas, falando a jornalistas mascarado e rodeado por milicianos armados com lançadores de foguetes, depois de classificar o momento de "histórico e feliz", disse que a luta vai continuar. "Vamos liberar Cisjordânia e Jerusalém", afirmou, referindo-se a assentamentos judaicos na Cisjordânia e na parte árabe de Jerusalém.

Ele não especificou de que forma os palestinos continuarão resistindo, embora tenha rejeitado a idéia de desarmar-se - "não vamos entregá-las a ninguém", ressaltou. Para os terroristas, o fim dos assentamentos israelenses é uma vitória da revolta armada iniciada em 2000, após o fracasso das negociações bilaterais. Se não houver controle sobre as ações desse grupo, a desocupação não terá nenhum efeito sobre a pretendida paz na região.

 

ESPECIAL/LEFAN

LEFAN PROMOVE VIDA HÁ 40 ANOS

Através de parceria entre os freis capuchinhos e a comunidade, obra assistencial surgiu em 7 de setembro de 1965 para ajudar os carentes do bairro Rio Branco, em Caxias do Sul. Hoje atende a mais de 500 crianças e adolescentes e cerca de 600 famílias

 

A partir de 1875 começaram a chegar os imigrantes italianos à região nordeste do Estado. Inicialmente estabeleceram-se em Conde D´Eu e Dona Isabel, respectivamente Garibaldi e Bento Gonçalves. Em 1876 surgiu o Núcleo Colonial Nova Palmira e, no ano seguinte, a Colônia Caxias, no local conhecido por Campo dos Bugres.

Fruto do trabalho, o progresso foi acontecendo lentamente. Em 1909 é fundado o jornal La Libertá - atual Correio Riograndense - e no ano seguinte é inaugurada a estação da Via Férrea. A paróquia de Santa Teresa surgiu a 20 de maio de 1884. Finalmente, a 20 de junho de 1890, Caxias é elevada à categoria de cidade. Anos depois seria proclamada por Mansueto Bernardi como a Pérola das Colônias Italianas.

As distâncias e a falta de meios dificultaram um progresso maior. Este acabou chegando nas décadas de 50 e 60. Atraídos pelo começo da industrialização, chegaram os migrantes de toda a parte. E com eles foram surgindo bairros. Em 1939, a pedido de Dom José Barea, o primeiro bispo da cidade, chegaram também os freis capuchinhos com a missão de dirigir o novo Seminário Diocesano. Como apoio logístico aos professores, os freis abriram uma pequena casa no bairro Rio Branco. Bem afastado do centro, o bairro era tipicamente rural. Mesmo assim os novos moradores foram chegando. E com eles, algo desconhecido nas colônias italianas, o pobre.

No dia 8 de dezembro de 1949, o bairro Rio Branco realiza um velho sonho: torna-se paróquia. O Livro Tombo da igreja informa a existência de 1.962 famílias, totalizando 9.814 habitantes. Entre eles algumas famílias pobres. Fiéis ao espírito de São Francisco, os freis, que haviam trazido para Caxias sua casa provincial, começaram a pensar e organizar uma instituição de ajuda aos mais necessitados. Um grupo de senhoras confeccionava e distribuía roupas e cobertores, especialmente nas festas de Natal e fim de ano.

No começo de 1965 foi feito o levantamento dos pobres existentes. O número preocupava: eram mais de 60 famílias. Inicialmente começou-se a distribuição de roupas e alimentos, sem maiores critérios. Aos poucos nasceu a idéia de constituir uma obra assistencial, em parceria com a população.

No dia 07 de setembro de 1965, o Ministro Provincial dos Capuchinhos, frei Celestino Dotti, convocou e presidiu uma reunião com moradores. Esta é a data de nascimento da Legião Franciscana de Assistência aos Pobres (Lefap), nome alterado em 20 de setembro de 1977 para Legião Franciscana de Assistência aos Necessitados (LEFAN). À semelhança da mostarda evangélica, a pequena semente tornou-se, 40 anos depois, uma grande árvore carregada de frutos. São quatro décadas cuidando da vida. Nesta data ela renova seus sonhos e seus objetivos.

 

ATUAÇÃO ACOMPANHA AS NECESSIDADES

 

A ata de fundação da Legião Franciscana de Assistência aos Necessitados (LEFAN) foi redigida por frei Dionísio Veronese e conta com a assinatura de frei Celestino Dotti, aclamado presidente da nova instituição. A ata n° 01 declara: "Um grupo de homens de boa vontade, do bairro Rio Branco, da cidade de Caxias do Sul, vinha desde algum tempo idealizando alguma instituição que viesse socorrer os pobres de nossa sociedade. Assim, após diversas reuniões preparatórias, realizou-se esta sessão para efetivar a fundação da Legião Franciscana de Assistência aos Pobres e hoje - Dia da Pátria -, num ato altamente patriótico, concretizamos nossos desejos de ser úteis aos nossos irmãos pobres".

Assinam a ata de Fundação os freis Celestino Dotti, Aloísio Persici, Silvino Miorando, Dionísio Veronese, Virgínio Bortolotto. Egídio Celuppi, Victorio De Carli e Nilo Augusto Francheschet. Entre os leigos, são sócios fundadores: Bruno Rossi, Orlindo Caselani, Alfredo Bonetto, Armindo Trevisan, Alcides Milani, Luiz Tonietto, Sério Trevisan, Airton Tonietto, Nestor Dossin, Pedro Rossi, Maria das Neves Ramos, Henrique Sirtoli, Adelino Cavion, Terezinha das Neves Ramos, Helena Farenzena Lusa e Severino Carpeggiani.

Imediatamente foi encaminhada a aprovação dos Estatutos diante das autoridades civis. Já no dia 8 de setembro do ano seguinte frei Celestino comunicava à assembléia que a entidade tinha reconhecimento jurídico. Frei Aloísio Persici foi nomeado "Assistente da Questão Social" e a Livraria São Miguel, por ordem do Provincial, destinava à LEFAN todos os seus lucros.

A entidade não tinha projeto definido. Sua única preocupação era de ajudar os necessitados. E isto era feito de muitas maneiras, especialmente com a distribuição de roupas, acolchoados e alimentos. A demanda começou a crescer e foi necessário apelar para parcerias. As empresas do bairro, quase todas pequenas, responderam prontamente ao apelo. A Paróquia Imaculada Conceição também ajudava, de várias formas, a LEFAN.

Na paróquia situava-se a pequena comunidade das Irmãs Servas da Santíssima Trindade, congregação fundada no Rio de Janeiro por Dom Jaime de Barros Câmara. Em Caxias estavam desde abril de 1954. Uma das irmãs, Ida Emer, trabalhava na assistência social da paróquia. Frei Aloísio viu nela as condições para coordenar a entidade e obteve a autorização da Provincial.

Não bastava dar o peixe, era necessário ensinar a pescar. A LEFAN pensou então em abrir uma escola de malharia, atividade em franco desenvolvimento. A escola começou a funcionar em 1969, com a coordenação de Lourdes Vanzin. Mas as voluntárias apareceram, entre elas Letícia Canal e Helena Luza. O curso fez tanto sucesso que teve de funcionar em dois turnos. Cerca de 1.400 pessoas passaram pela escola, que teve o apoio de entidades públicas, entre elas a Fundação Gaúcha do Trabalho e a Fundação Caxias. As peças confeccionadas eram vendidas e o resultado reinvestido na obra.

Depois começaram a surgir outros cursos: arte culinária, costura básica, bordado, crochê, confecção de acolchoados, corte e costura, floristas, doceiras, cabeleireiras... As dependências - no térreo do convento, junto à Matriz - estavam cada vez mais acanhadas. Outro problema precisava ser resolvido. As mães, que freqüentavam os cursos, não tinham com quem deixar os filhos. Surgiu, então, o centro de recreação infantil Branca de Neve. Mais uma vez foi necessário recorrer a parcerias. A paróquia Imaculada Conceição - frei Germano era o pároco - cedeu o terreno. A Prefeitura Municipal e outras instituições se prontificaram a colaborar. A creche Branca de Neve começou a funcionar a partir de 1975, com capacidade inicial de 60 crianças, de dois a seis anos. Para o atendimento das crianças foi necessário contratar assistentes sociais. A Editora São Miguel, com o apoio de seu diretor, frei Clemente Dotti, assumiu as despesas, especialmente a folha de pagamento das funcionárias. E isto continua até hoje.

 

Destaques na orientação e condução da entidade

 

Na história dos 40 anos da LEFAN, muitos nomes merecem destaque. O primeiro deles: frei Celestino Dotti, na época Provincial dos Capuchinhos. Com a transferência da Cúria para o bairro de Lourdes, em 1968, frei Aloísio Persici tornou-se responsável pela instituição. Ele cumpriu esta missão com muita competência e entusiasmo até o ano de 1986, quando foi transferido para Flores da Cunha. Irmã Ida Emer, da Congregação das Servas da Santíssima Trindade, é outro destaque. Desde o início da LEFAN até 1992, quando foi transferida para São Paulo, foi a alma da instituição. Foi substituída pela irmã Severina de Lima. Atualmente, a LEFAN, departamento da Associação Literária São Boaventura, é coordenada pelo frei Alceu Ferronatto e pela irmã Odete Rodrigues de Carvalho. Nos recursos humanos atua frei Jaime Bettega.

 

AS OBRAS E OS BENEFÍCIOS QUE OFERECEM

 

A LEFAN surgiu com um objetivo claro: ajudar aos necessitados. O andar dos tempos mostrou as melhores opções. Inicialmente adotou práticas assistencialistas. Depois assumiu o compromisso de "ensinar a pescar". A creche Branca de Neve surgiu como apoio logístico: as mães, que faziam cursos, não tinham onde deixar os filhos. A partir daí, a entidade começou dar crescente atenção à infância. Também foi surgindo a idéia de descentralizar a atuação, fixando-a nos bairros mais carentes. A seguir, as obras construídas pela LEFAN e os benefícios que oferecem.

Branca de Neve - Surgiu em 1975, com capacidade para atender até 60 crianças. Como a demanda cresceu, em março de 2000 recebeu novas e amplas instalações, no prédio onde funcionava a Editora São Miguel. No mesmo prédio funciona a coordenação geral da LEFAN. A Escola de Educação Infantil atende hoje 80 crianças.

Nosso Amiguinho - A LEFAN assumiu a creche, já em funcionamento, em 1994. Situa-se no bairro Consolação. É um espaço alternativo e promove a vida das crianças e das mães. Acolhe 74 crianças, de dois a seis anos, atendidas por 12 funcionárias.

Escola Consolação - Localizada no bairro do mesmo nome, próximo ao aeroporto. Iniciou atividades em 12 de outubro de 2002. Atende 60 crianças, de zero a seis anos, dos bairros Consolação, Jardim Teresópolis, Pantanal e Monte Carmelo. É mantida pela Associação Literária São Boaventura e convênio com a Prefeitura Municipal.

Casa do Adolescente - Surgiu em 1997 por iniciativa da LEFAN em parceria com a Paróquia Imaculada Conceição e Pastoral do Pão. É um espaço alternativo para 120 adolescentes, em rodízio. Eles participam de oficinas de computação, corte e costura, danças, capoeira, marcenaria, reciclagem de papel e lazer. Hoje são três casas, que atendem 80 adolescentes de nove a 17 anos.

Sala Digital - O projeto surgiu de parceria entre a LEFAN e a ONG Moradia e Cidadania da Caixa Econômica Federal, no ano de 2002. A sala se localiza no prédio da igreja da Santíssima Trindade, comunidade da Imaculada Conceição. Conta com 11 computadores em rede. Os instrutores são todos voluntários. Já formou mais de 320 alunos.

A Cabana - (Grupo Esperança). Surgiu num bairro extremamente carente: Pantanal. É um chalé, no meio da favela, que propicia atividades educativas a 40 crianças e 23 pré-adolescentes.

Escola Frei Ambrósio - É a creche aberta mais recentemente pela LEFAN, também em parceria com a Prefeitura Municipal. Um prédio, pertencente às Irmãs do Bom Pastor, foi adaptado e hoje acolhe 170 crianças, provenientes de famílias carentes. Funciona desde outubro de 2004.

Pastoral do Pão - Mesmo com mais recursos, a LEFAN sentia-se incapaz de atender a população, cada vez maior e mais carente. Diante disso pensou-se em organizar uma frente para atender estas necessidades. Em junho de 1994, sobretudo pela ação do frei Luiz Turra, pároco da Imaculada, e da Irmã Severina, foi implantada a Pastoral do Pão. Seu funcionamento, aparentemente, é simples: uma equipe encarrega-se de recolher gêneros alimentícios não perecíveis, para distribuí-los às famílias realmente necessitadas. A organização foi descentralizada, abrangendo as 26 comunidades da Paróquia Imaculada. Atualmente, mais de 300 voluntários atuam na Pastoral do Pão, coordenada pelo casal Nestor e Gema Gregol. A Pastoral do Pão distribui, mensalmente, 600 cestas básicas.

Pastoral da Criança - A ação da Pastoral do Pão mostrou a carência que atingia muitas crianças. Pensou-se, então, na instituição nacional Pastoral da Criança. Ela atua há 15 anos e atinge 10 bairros, acompanhando 466 crianças em mais de 400 famílias necessitadas. São distribuídas cestas básicas, remédios, comida enriquecida. Também são incentivados os cuidados básicos de higiene e tratamento médico para as gestantes. Cerca de 70% dos recursos provêm da Coordenação Diocesana da Pastoral da Criança. As atividades são exercidas por voluntárias, especialmente treinadas.

 

NOVOS CAMINHOS, DE OLHO NA REALIDADE

 

Ao completar 40 anos de atuação, a LEFAN pode ser definida como uma intuição que deu certo. Na base de seu início existia apenas o objetivo de auxiliar os mais necessitados, dentro de um novo contexto de migração urbana. E esta ajuda seria feita através da distribuição de roupas - sobretudo acolchoados - e alimentos. Também se pensava na abertura de consultório médico e odontológico.

Foi a realidade que aconselhou a tomada de novos caminhos, estimulados pela velha filosofia: não basta dar o peixe, é preciso ensinar a pescar. A partir daí surgiram os cursos. O primeiro deles foi o de malharia, em 1969, com duas máquinas rudimentares, mas perfeitamente adaptadas para o aprendizado. Pela Escola de Malharia da LEFAN passaram cerca de 1.400 alunos e deles surgiram muitas empresas hoje consolidadas no mercado regional.

Com a chegada de frei Clemente Dotti - formado em administração de empresas - para assumir a Direção da Editora São Miguel, em 1975, a LEFAN começou a assumir uma dimensão mais organizada e empresarial. A entidade crescia e cresciam as necessidades. Tratou-se de dar-lhe funcionalidade e aportes financeiros. E planejar, estrategicamente, seu futuro.

Em 1975 foi instalado um moderno - para a época - gabinete dentário, marca Daby, adquirido pela Associação Literária São Boaventura, através das rádios São Francisco e Fátima de Vacaria. Nestes 31 anos, calcula o odontólogo Luiz Cláudio Lima, cedido pela Prefeitura, foram realizadas cerca de 30 mil extrações de dentes e outras 30 mil restaurações.

As novas etapas foram se sucedendo: multiplicação de cursos, interiorização do atendimento e abertura de novas frentes. Com a abertura de novos cursos - culinária, costura, floristas, cabeleireiras... - sentiu-se a necessidade de um local onde as mães pudessem deixar seus filhos pequenos. Foi a razão do surgimento do Centro de Recreação Infantil Branca de Neve.

O deslocamento de mães e crianças dos bairros mais distantes motivou a descentralização. Os novos locais privilegiaram os bairros mais carentes da Paróquia Imaculada Conceição. Mesmo assim, sempre acolheram necessitados de outras áreas da cidade. Assim, ao longo do tempo, surgiram a Escola Infantil Nosso Amiguinho, Escola Infantil Consolação, Casa do Adolescente, Sala Digital, a Cabana e a Escola Infantil Frei Ambrósio. Mais tarde surgiram a Pastoral do Pão, a Pastoral da Criança e a reciclagem de lixo.

Ao lado delas, muitos eventos localizados: Jornada da Caridade, Ação Comunitária, feiras de roupas usadas... Também foram promovidos novos cursos: alfabetização de adultos, empregadas domésticas, babás, pintores de paredes, auxiliar de limpeza geral, papel reciclado, culinária, comida alternativa... E novos cursos estão sendo planejados. Neste ano entrou em funcionamento a máquina de fazer fraldas descartáveis. São mais de três mil fraldas por mês, gratuitamente distribuídas a famílias carentes.

Legião - Fazendo jus ao seu nome, a LEFAN coordena, dirige e atende milhares de pessoas. Os números não dizem tudo, mas iluminam o cenário. Atualmente a LEFAN conta com 80 funcionários assalariados e este numerário é integralmente repassado pela Associação Literária São Boaventura, através da Editora São Miguel. Em seus estabelecimentos vivem e recebem todo o cuidado cerca de 490 crianças. Este grupo recebe também o apoio de mais de 50 voluntários. Além do trabalho da Pastoral do Pão, a LEFAN distribui, mensalmente, mais de 250 cestas básicas e socorre as mais variadas necessidades.

Todo este trabalho é possível porque a LEFAN conta com generosas parcerias com empresas locais, com instituições públicas, especialmente a Prefeitura Municipal, e com doações de particulares e de grupos de serviço.

 

Reciclagem de lixo... e de grandes desafios

 

A partir de 2001, a LEFAN começou a preocupar-se com a reciclagem do lixo. Num terreno doado pela Associação Literária São Boaventura, no bairro Consolação, foi erguido um pavilhão, em parceira com a Codeca e Cáritas, para reciclagem do lixo. Hoje, cerca de 300 pessoas vivem desta atividade, com renda mensal familiar em torno de R$ 400,00. A entidade recicla o lixo - papelão, plástico, papel, metal - e o encaminha às empresas privadas. Parte do material é aproveitado dentro da LEFAN, com a Oficina de Papel Reciclado (Translilux), com variadas atividades. Em 2002 surgiu a Associação dos Recicladores e Carroceiros do Aeroporto (ARCA). São mais de 200 pessoas beneficiadas. Teve papel fundamental nestas iniciativas a Irmã Silvânia Pereira Coelho, das Servas da Santíssima Trindade. O último rebento nesta área se chama Pantanal Esperança, grupo que reaproveita roupas e fios. Dali surgem roupas, tapetes, acolchoados. Simbolicamente, é um grupo formado por 12 pessoas, no bairro Pantanal.

E novas iniciativas, certamente, virão. Atenta às necessidades, a LEFAN, no vigor de seus 40 anos e contando com sólidas parcerias, fará surgir e amparará novas iniciativas. Franciscana, filha de São Francisco, ela conta com legião de colaboradores. De resto, as novas formas de pobreza são cada vez mais desafiantes.

 

IGREJA

Pesquisa revela mobilidade religiosa

Estudo do CERIS mostra que 24% dos brasileiros já mudaram de religião

 

Uma pesquisa pioneira, realizada pelo Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (CERIS), revelada durante a 43ª Assembléia Geral da CNBB, realizada em Itaici de 9 a 17 de agosto, mostra alguns resultados significativos a respeito do chamado "trânsito" religioso no país. O estudo foi realizado com o objetivo principal de mapear os motivos e as características da mudança de religião na população brasileira.

Uma das constatações é a queda no percentual do número de católicos no Brasil, o maior país católico do mundo. Segundo o levantamento do CERIS, o número de católicos é de 67,2%, percentual que está um pouco abaixo do encontrado pelo censo da população brasileira de 2000, que era de 73,9%. Em 1991, 83,9% dos brasileiros se declaravam católicos. O trabalho também mostra que 24% da população já mudaram de religião em algum momento da vida, 68,3% nunca mudaram e que há um sensível crescimento das Igrejas pentecostais e dos que se dizem sem religião.

Segundo o CERIS, "a presença crescente de instituições evangélicas no campo religioso brasileiro, bem como de novos movimentos religiosos que conjugam práticas esotéricas com outras de tradição cristã, produz um efeito de contaminação ou simbiose nas Igrejas históricas". Também foi identificado que a prática do trânsito religioso ocorre em maior proporção entre pessoas divorciadas (52,2%) ou separadas judicialmente (35,5%).

A pesquisa revela que os evangélicos pentecostais constituem o grupo religioso que mais recebe adeptos das diversas instituições religiosas presentes no Brasil. Apesar dessas igrejas de característica pentecostal receberem mais adeptos, há um movimento de ingresso também no catolicismo. Dessa forma, 26,9% das pessoas que antes se declaravam membros do protestantismo histórico, hoje se declaram católicas. E 18,7% dos que pertenceram a alguma igreja pentecostal migraram para o catolicismo.

No grupo dos evangélicos de cunho histórico há uma alta proporção de pessoas que já mudaram de religião, totalizando 77,2% do grupo. Dos evangélicos pentecostais, o grupo religioso que mais recebe adeptos, 58,9% declararam ter pertencido à Igreja católica e 50,7% a alguma Igreja protestante histórica.

Missa - O principal motivo para a troca de identidade religiosa foi a discordância da doutrina determinada pela instituição. Outro motivo relevante foi o convite de amigos e familiares. Também foram mencionadas a falta de apoio da religião anterior em momentos de dificuldades pessoais e a falta de acolhimento.

No grupo dos que já mudaram de religião e atualmente se declaram católicos, 95,2% afirmaram freqüentar a missa, mas o percentual de católicos que declara ir à missa uma vez por semana é de 24,7% entre os que nunca mudaram de religião e de 33,3% entre os que mudaram e hoje são católicos. É curioso observar que 20% dos que pertencem ao protestantismo histórico declararam que costumam ir à missa, mais em função de ocasiões especiais como batismo, casamento etc.

 

Cresce número de brasileiros sem religião

 

A responsável pela pesquisa, Sílvia Fernandes, socióloga e pesquisadora do CERIS, um dos motivos dessa mobilidade é a pluralidade religiosa encontrada no Brasil. Essa variedade de opções faz com que muitos brasileiros saltem com facilidade de uma religião para outra. Pessoas entrevistadas declararam já ter mudado de religião até seis vezes, sendo que a concentração é de até três vezes.

Por outro lado, verifica-se um processo de desinstitucionalização, hoje comum em muitos países europeus e desenvolvidos, ao constatar o crescimento dos que se dizem sem nenhuma crença. Os que se dizem sem religião saltaram de 4,7% em 1991 para 7,4% conforme o Censo 2000, e para 7,8% segundo os dados coletados pelo CERIS em 2004.

A pesquisa identificou que 80% das pessoas que hoje se declaram sem religião no Brasil possuíram alguma religião anteriormente e 60,5% desses responderam que um dia pertenceram à Igreja Católica. Entretanto, o percentual dos que migraram diretamente do catolicismo para a situação de sem religião é de 42,1%. Isso significa que essas pessoas, antes de assumirem essa condição, transitaram por outras denominações religiosas. Dos que se identificam sem religião, 41,4% não se consideram ateus, mas com uma religiosidade própria, sem vinculação com Igrejas.

Os entrevistados também avaliam positivamente a própria religião. A nota média dada pelos católicos à sua Igreja é 8,8. Nos demais grupos, a média é ainda mais alta, chegando a 9,5.

 

Estudo vai ajudar a Igreja a se avaliar

 

A pesquisa do CERIS considerou 2.870 questionários respondidos por brasileiros com mais de 17 anos de 23 capitais e 27 outros municípios do país. Os questionários não foram aplicados em quatro capitais - Aracaju (SE), Porto Velho (RO), São Luis (MA) e Vitória (ES). Os resultados completos sobre a mobilidade religiosa, bem mais amplos do que os apresentados aos bispos em Itaici, estão sendo analisados detalhadamente por pesquisadores do CERIS e deverão ser publicados até o final do ano.

Para o presidente da Comissão Episcopal para a Ação Missionária e Cooperação Intereclesial, dom Sérgio Castriani, bispo de Tefé (AM), a pesquisa será de grande importância para a Igreja do Brasil se auto-avaliar.

 

O que me faz católico

Padre Zezinho

Um católico pode afirmar sua afinidade com outros cristãos, mas cada um tem sua identidade

 

Idens é uma palavra latina que significa "o próprio". Identidade é aquilo que faz com que um ente seja ele mesmo. O que identifica, torna exclusivo, define, carimba alguém ou um produto é, de certa maneira, a sua unicidade. Pode haver outros parecidos, mas iguais, não.

Um católico pode afirmar sua afinidade com outros cristãos, por causa de algumas práticas ou doutrinas que todas as Igrejas cristãs carregam em comum. Por exemplo: cremos num só Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo; cremos na ressurreição; cremos no batismo; cremos no perdão dos pecados; cremos na vida eterna. Se listarmos tudo aquilo que temos de comum com outras Igrejas cristãs, encheremos folhas de papel. O que nos diferencia é, certamente, menos do que o que nos assemelha. Somos mais parecidos que diferentes.

Mas há as identidades. Aquilo que nos faz cristãos católicos e a eles, cristãos evangélicos ou ortodoxos. Eles se orgulham de seus nomes e nós do nosso. A identidade parte de alguns aspectos de nossa teologia e de nosso culto. Há coisas que fazemos e que um evangélico ou ortodoxo não faz e não faria. Às vezes, nem mesmo ele sabe por quê. E há coisas que os evangélicos fazem e afirmam que nós não faríamos. Também não sabemos por quê. Mas há a atitude consciente: creio nisso e me expresso assim, porque realmente é assim que eu leio os evangelhos.

Concluí que é assim e por isso escolho o catolicismo para nele viver meu cristianismo. Já o evangélico dirá que escolheu o evangelismo como forma de afirmar seu cristianismo. No fundo, um católico e um evangélico bem versados na fé e na teologia sabem que por trás da palavra evangélico e por trás da palavra católico está a idéia do evangelho. No caso do evangélico, vivido na mística do evangelho na sua pureza e, no caso do católico, o evangelho pregado a toda criatura, portanto, universalizado, para todos, não apenas para os descendentes de judeus.

As palavras cat holos, do grego, expressam a idéia da abertura para o mundo. Baseia-se no mandato de Jesus a toda a criatura.

 

RS guarda mais antiga Bíblia do país

Datado de 1558, o raro exemplar sempre esteve em mãos da família Ensslin

 

No mês de setembro, a Igreja no Brasil incentiva os católicos a um compromisso mais íntimo com a Bíblia, Palavra de Deus presente na vida cristã e na ação missionária e evangelizadora da Igreja. O desafio de levar a Bíblia para o povo vem de longe. Mais especificamente desde o final do século V, com São Jerônimo (331-420), conhecido como o "doutor máximo das Escrituras", graças ao seu empenho no estudo da Bíblia e à tradução do grego para o latim clássico da obra que ficou conhecida como "Vulgata" (popular).

Jerônimo morreu na Itália aos 30 de setembro de 420 e sua festa litúrgica nesse dia inspirou a Igreja a consagrar todo o mês a um maior estudo e leitura da Bíblia. Hoje, as Escrituras Sagradas são o livro mais lido e mais editado do planeta. Foi o primeiro livro a ser impresso no mundo – pelo alemão Johannes Gutenberg, em 1455 -, e a partir de então bilhões de Bíblias já foram impressas em praticamente todas as línguas da Terra.

Em 1462, seguidores de Gutenberg imprimiram a famosa Bíblia de Mogúncia. Algumas dessas obras ainda existem e são preservadas como verdadeiras relíquias.

No Rio Grande do Sul está um raro exemplar de uma Bíblia, considerada a mais antiga do Brasil. Matéria feita pelo jornalista Camilo Simon, publicada na Revista Rainha de setembro de 2004, revela que essa Bíblia foi impressa em 1558. Para se ter uma idéia da sua longevidade, bastar imaginar o Brasil com apenas 58 anos de descoberta, a cidade de São Paulo com dois anos de fundação e que o Rio de Janeiro ainda não existia. A mais antiga Bíblia do país pertence à família Ensslin, de Arroio do Tigre (RS).

Segundo Francisco Ensslin, um dos descendentes de Gustav Ludwig Ensslin, o imigrante alemão que desembarcou em Porto Alegre no dia 2 de agosto de 1886 com o raro exemplar, a Bíblia sempre foi propriedade da família desde 1558, ano da sua impressão. Hoje ela está em poder de um filho de Francisco, Paulo Ernesto Ensslin, e só deixa o cofre forte onde é guardada para algum evento realmente importante. Procedente de Hamburgo, Gustav Ludwig trouxe, além do livro histórico, outras duas Bíblias - uma de 1743 e outra de 1876, que é uma lembrança de casamento de Gustav com Luize Christine. Uma delas está em Ijuí e a outra em Tramandaí.

Preciosidade - A mais antiga Bíblia do país pesa 6,5 quilos, tem 1.426 páginas e as duas capas são de madeira, revestidas com couro cru. Escrita em alemão, foi impressa na Tipografia de Hans Kraft, conforme está datado em números romanos. Pelas gravuras existentes, informa Simon, estima-se que o tempo de impressão foi de oito anos. "Uma xilogravura ilustrando a criação do homem mostra, em um dos cantos, o autor do trabalho através das iniciais H.B., e o ano de 1550".

Essas iniciais significam Hans Brosamer, um dos três alunos mais célebres de Lucas Cranach, contemporâneo de Albrecht Dürer, o célebre pintor alemão. Brosamer hoje está presente com suas pinturas e xilogravuras nos maiores museus do mundo.

 

Diocese de Erechim cria nova paróquia

 

Será instalada oficialmente no dia 4 de setembro, em Erechim (RS), a nova paróquia São Francisco de Assis, que integra as comunidades do bairro Progresso e imediações. O bispo diocesano, dom Girônimo Zanandréa, preside a missa de instalação, concelebrada por padres das outras paróquias de Erechim. Padre Rudinei Lolatto, até o momento vigário paroquial de Getúlio Vargas, será o administrador da nova paróquia.

No dia 31 de julho, durante a 31ª Hora Eucarística, realizada com o objetivo de celebrar o aniversário de instalação da diocese de Erechim (1971), dom Girônimo leu o decreto de criação da nova paróquia e anunciou que ela não terá uma igreja matriz, "para poder ser compreendida mais como uma rede de comunidades que procura viver a comunhão entre as comunidades irmãs". A diocese passa a ter 28 paróquias e 400 comunidades católicas.

 

Água Boa celebra as colheitas e a vida

 

Conhecida como "Coração do Brasil", a cidade de Água Boa (MT), celebrou, recentemente, missa de ação de graças pelas colheitas e também pelos 20 anos de Pastoral da Criança no Estado. Na ocasião, participaram seis bispos da região, que foram recepcionados pelos padres Adenir Fumagalli e Gaetano Chinaglia, da paróquia Nossa Senhora Aparecida.

O município de Água Boa foi criado em 1981 e sua população é, em grande parte, de origem sulista. A cidade ocupa uma posição geográfica privilegiada na região do Médio Araguaia e vem se firmando como pólo regional. A Pastoral da Criança tem uma atuação muito forte em Água Boa.

 

Para ser feliz

Aldo Colombo

Muitas vezes, o dinheiro pode tornar-se o valor supremo de uma vida. É o caminho oposto das bem-aventuranças

 

Para muitos, ele pode ser o sucessor de Pelé. Trata-se do Robinho, o craque das pedaladas. Como Pelé, surgiu no Santos. Agora está na Espanha, onde o Real Madrid lhe pagará cerca de 4,5 milhões de euros por temporada, algo parecido com 13 milhões de reais. No Santos ganhava duzentos mil reais por mês, 2,5 milhões por ano. Para avaliar o que significa o novo salário do craque, é bom lembrar que o salário mínimo mensal, no Brasil, é de 300 reais. Num ano, Robinho embolsará 43.333 salários mínimos. Para ganhar essa soma, um trabalhador brasileiro teria que trabalhar nada menos que 3.611 anos.

Ganhar dinheiro não é tarefa fácil. Para a maioria dos mortais é extenuante conseguir um emprego, manter-se nele e, depois de muitos anos de árdua dedicação, conseguir uma aposentadoria que lhe garanta um mínimo de conforto. No Brasil, para cada mil trabalhadores, apenas um consegue aposentar-se com renda que lhe permita morar, fazer refeições básicas, pagar convênio médico e, de vez em quando, tomar uma cerveja.

As estatísticas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revelam que a população brasileira é de 170 milhões de pessoas. A classe trabalhadora chega a 79,3 milhões. Do total de ocupados, 31 milhões contribuem para o INSS, tendo, portanto, a capacidade de aposentar-se. Outros 4,5 milhões estão na informalidade, além de 8,5 milhões de desempregados.

No outro lado da pirâmide estão os supersalários, por vezes nem mesmo conhecidos pela Receita Federal. Muitas vezes esse dinheiro viaja em malas suspeitas ou em peças de roupas, mais suspeitas ainda. Mas os resultados aparecem. Nos grandes centros do país, as vendas dos apartamentos acima de um milhão de reais cresceram em 20% no último ano. E nas principais concessionárias Ferrari há fila de espera de seis meses para um carro importado. Isso sem falar nos "paraísos fiscais" que não combinam bem com o Evangelho de Jesus.

É o mesmo Evangelho que fala do perigo das riquezas. O dinheiro é uma mediação para o bem ou para o mal. Na prática, ele pode tornar-se o valor supremo de uma vida. É o caminho opostos das bem-aventuranças. E Mateus, que foi cobrador de impostos, declara: "Não podeis servir a dois senhores... não podeis servir a Deus e ao dinheiro" (Mt 6,24).

O saudoso Papa João Paulo II lembrava dois perigos: a falta absoluta e o excesso de dinheiro. O primeiro costuma afetar a própria dignidade humana, a miséria não é querida por Deus; no segundo caso, o dinheiro torna-se um ídolo. De resto, dinheiro não é garantia de felicidade. Algumas pessoas que viveram sem ele - penso especialmente em Roger Schutz, Teresa de Calcutá e Francisco de Assis - semearam alegria e paz. Aparentemente, andaram na contramão, mas que se revelou o caminho mais seguro.

 

Capitéis preservam antigas devoções

Construídas junto às estradas, igrejinhas são marco de religiosidade

 

A profunda fé cristã dos imigrantes, especialmente italianos, alemães e poloneses, fez com que, ao ocuparem regiões ainda selvagens, constituíssem logo pequenas comunidades, no centro das quais surgiam as capelas para manifestarem sua fé, suas crenças e suas devoções. Porém, em muitos locais, antes de surgir a capela, famílias ou grupos construíam pequenos capitéis e oratórios, onde colocavam imagens ou quadros de santos trazidos da Europa.

Alguns surgiram de promessas pessoais ou de famílias. Geralmente eram construídos às margens das estradas coloniais, em torno dos quais as famílias passavam a se reunir para a rezar o terço, cantar, acender velas aos padroeiros e, nos tempos de seca ou outras calamidades, para pedir a chuva e outras graças. Com a construção das capelas e a organização das comunidades, muitos desses capitéis foram abandonados, derrubados ou esquecidos. Mas nos últimos anos, os pequenos templos que sobraram ao longo dos caminhos passaram a atrair a atenção, muitos foram restaurados e outros vão sendo construídos por pessoas devotas.

Um exemplo dessa valorização ocorreu na paróquia Santíssima Trindade de Nova Palma (RS). Em 1964, como parte das comemorações do cinqüentenário da paróquia, todos os capitéis da região foram restaurados, entre os quais um dedicado a Santo Antônio, na Linha Um, fruto de uma promessa feita em 1930 por Firmino Belle, um moinheiro.

Ivo Canisio Mallmann, de Nova Palma, conta que ficou surpreso ao encontrar, no interior desse oratório, uma página plastificada do Correio Riograndense de 17 de junho de 1981, com uma matéria dedicada aos capitéis. A matéria, feita por Rovílio Costa e Arlindo Battistel, destaca que os capitéis "nasceram de iniciativas leigas, de comunidades sem sacerdote ou de promessas pessoais, familiares e grupais" e que são o único marco que sobrevive da experiência religiosa leiga entre os descendentes de imigrantes.

 

Paróquia de Forqueta valoriza as igrejinhas

 

A paróquia Santo Antônio de Forqueta, Caxias do Sul, talvez seja uma das poucas no Estado que promove, entre as festas litúrgicas do ano, duas ligadas a capitéis. Em abril, é realizada festa a Santo Expedito e, no mês de setembro, a festa de São Cristóvão, que tem um capitel a ele dedicado às margens da RS 122, na entrada para o bairro.

O capitel de Santo Expedito foi construído em 2001 depois de uma promessa feita por José Lume (falecido em 2003) e família, com apoio do pároco, padre Darci Bortolini. Construído numa encruzilhada, entre a estrada velha que liga Forqueta a Caxias do Sul e a que conduz às comunidades da 2ª Légua e a Forqueta Baixa, o local é hoje um centro de devoção. "Todos os dias, dezenas de pessoas visitam, rezam junto ao capitel e são muitas as promessas e relatos de graças obtidas", revela Laudite Lume Tonietto, que junto com os irmãos e famílias cuida do capitel e organiza a festa de abril.

 

Nossos relacionamentos

Wilson João

A imunidade contra um mundo de corrupção e de futilidades nasce de ambientes sadios de convivência, de imagens bonitas, de vida positiva

 

Nossa vida são nossos relacionamentos. É muito antigo o dito da sabedoria popular que diz: "Dize-me com quem andas e dir-te-ei quem és". A Bíblia é a grande professora, e no livro do Eclesiástico vai ensinando: "Não abandones o velho amigo... Não sinta prazer em estar com os violentos... Afasta-te do homem que tem o poder de matar... Evita a companhia do falador... Viva com os sábios e prudentes... Quanto possível, desconfia de quem se aproxima de ti..."

FRUTA SADIA NO MEIO DE PODRES SE ESTRAGA. Geralmente é assim que acontece. Podem existir exceções. A convivência com ladrões torna a pessoa ladra. Nossa sociedade está se tornando uma escola de ladrões. Engana-se com a maior facilidade. A convivência com corruptos vai corrompendo o coração. A política está sendo para o povo brasileiro uma dessas escolas. A convivência com doentes facilmente torna a pessoa doente. A peste pesteia. O vírus da morte vai penetrando o corpo.

TEMOS O DIREITO DE ESCOLHER UM AMBIENTE SADIO. Que todos, ao despertar para um novo dia, possam rezar: "Senhor, livra-me da companhia dos maus e dos mentirosos. Livra-me das pessoas amargas". Quem não conhece casos de rapazes e meninas que em casa eram de vida ideal, gente fina, nada a reclamar, e que, ligando-se a uma turminha da pesada, se tornaram insuportáveis no ambiente familiar? É a família que não presta? Não! É o novo ambiente escolhido. E quantas pessoas, especialmente jovens, se lançam como num rio em correnteza sem saber nadar, em ondas de mar violento sem saber se defender. Não se pode culpar essa gente indefesa, porque os leões que engolem os indefesos são de garras muito fortes e dentes que tudo devoram. São os adultos e os grupos dos meios de comunicação somados aos grupos do poder econômico, que fazem das pessoas máquinas de produção e de consumo. Especialmente a criança e o jovem se tornaram o seu alvo.

É PRECISO CRIAR IMUNIDADE. Isso desde o ventre da mãe. Isso desde o colo, criando ao redor um clima que favoreça a vida, e que não permita uma invasão na mente e no coração de tantas futilidades que não ajudam a viver sadiamente. A imunidade surge de ambientes sadios de convivência. Imagens bonitas. Mensagens positivas. Clima de vida ameno, sem brigas e sem frieza. Que chovam mentiras, corrupção, enganos, indiferença, amargura, fofoca... tudo isso não importa se a gente consegue criar imunidade contra todo esse ambiente poluído e com cheiro de morte.

SOMOS NOSSOS RELACIONAMENTOS. Pessoas alegres e positivas. Pessoas bondosas e generosas. Pessoas de fé e de esperança. Pessoas de trabalho e de lazer. Pessoas de convivência fácil e confiável. Pessoas que se tornam um estímulo de vida. É nesse ambiente que a árvore, que se chama pessoa humana, cresce, se desenvolve e se fortifica.

 

CULTURA DA IMIGRAÇÃO

O italiano que está em mim

Jandir Afonso Sachett

Comerciante, Três Passos-RS

 

"A cada edição do Correio Riograndense, fica mais forte o desejo de fazer o que estou fazendo agor - descrever o italiano que está em mim." Sou descendente italiano "de tute le gambe", diria a nona Colombo. Sei por documentos e informação de meus pais Augustino João Sachett e Tereza Colombo, que sou Sachett, que o bisavô veio de Feltre-BL, com meu avô de quatro anos. Era viúvo de Justina Zanella, falecida ela e dez filhos na Itália, de tifo. Sobreviveram Pedro e o menino Eugenio, meu avô. A avó paterna era Trucatti. De minha mãe sou Colombo e Lazzaretti. Daqui para trás, nada sei. Lamento não ter escrito o que a nona Colombo contava.

Não conheci os nonos paternos. Sei que o bisavô Pedro chegou ao Brasil clandestino com o filho Eugenio. Viajaram no porão de um navio que transportava gado. Descobertos em alto-mar, seriam jogados aos peixes, não fosse o inocente menino. Imaginem a alimentação e as condições de viagem. "Come le bèstie", dirá a canção. Sem documentos, sem dinheiro e sem companheiros, em terra estranha, Pedro milagrou para viver no Rio de Janeiro, onde desembarcou como e com o gado. Teve que sair do navio como entrou, para não comprometer o comandante que lhe poupara a vida em alto-mar. Pegara carona em navio que ia para a Argentina, e saltou em Porto Alegre, donde seguiu para as bandas de Cacique Doble-RS, e casou não sei com quem. Só tiveram filhas e não sei quem são. Daí a dificuldade em reconhecer parentes, pois Eugenio Sachett veio da Itália, filho único. Só tenho dez tios e seus filhos. Conheço todos. Mas e os outros Sachett que andam por aí? Meu avô faleceu em Farinhas, Alpestre-RS. Dele herdei o amor ao trabalho e à família, a religiosidade e a honestidade. Era analfabeto, mas especialista na fabricação de pipas. Papai foi seu ajudante. Nas horas amargas, tomava um cichet e, na tonturinha, arrematava - "Ze el paradiso dei poareti!"

O nono Augusto Colombo, sou feliz por tê-lo conhecido. Era inteligente, alegre e religioso; professor, formador de opinião e líder comunitário. A nona Colomba foi parteira dos netos, de muitos bisnetos e demais crianças da localidade. Era uma Lazzaretti alegre, feliz e poderosa... Dela herdei o gosto pela música e pelo canto. Todos os Lazzaretti cantam e tocam instrumentos. Um dia vi a foto de um encontro da família Lazzaretti. Só se viam cabeças e gaitas no peito.

Nasci em Picada Serra, Lajeado-RS, onde vivi minha infância e recebi a marca da garra e da fibra italianas. Nossa história é de um perene buscar. O bisnono veio fazer a vida na América; o nono morou em Cacique Doble, Montenegro, Lajeado e Iraí. Meu pai nasceu em Montenegro, morou em Lajeado e Três Passos. Eu nasci em Lajeado, morei em Três Passos, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Paraguai e, hoje, novamente Três Passos. Tenho irmãos em Mato Grosso do Sul, Porto Alegre e Tucuruí-PA. Já temos alemães e brasileiros na família. Mas a marca maior não mudou.

Junto à ânsia da busca, meu desejo é voltar para agradecer. Ao morar fora do Rio Grande, sonhava em voltar para agradecer a esta terra, como também desejo ir à Itália agradecer a marca recebida e dizer que seus filhos acertaram em vir para a América. O Correio Riograndense é meu elo continuado com a colônia italiana. Leio-o, e o tenho como uma das mais queridas heranças, que papai e mamãe liam antes, e o assinaram depois do casamento também. É algo do coração, que me faz exclamar:

- Viva a Itália! Viva sua gente! Viva os italianos brasileiros! Ninguém segura este timaço de sonhadores (Fone: 55-3522 2537 e 3522 1164).

 

EL RITORNO DE NANETTO PIPETTA (324)

Santo Enrico, en gran imperatore germànico

Mario Gardelin

Professor, historiador e pesquisador, Caxias do Sul - RS

 

Qua me toca contarve chi el ze Santo Enrico. Da quel che go scrito, se capisse che el ze stà Imperatore del Sacro Impero Romano Germànico. Che’l ze stà un bon Re e el ghe tende dei so sùditi anca dusento ani dopo che’l regno el ze ndà a ramengo. Sol la so bontà la pol spiegar el fato de interessarse par Nanetto Pipetta e par i imigranti del Rio Grande do Sul.

Santo Enrico el ga dito che gran sapienti i vegnaria a ténderghe a Nanetto. Questo se ga messo a leder el libro che’l gavea guadagnà. Ma, no zera fàssile capirlo. Infati, Nanetto no’l zera manso in scritura. E squase el se descoraiava, quando ze comparso un véscovo, grande e forte. El vegnea in gran tenuta. Nanetto el ze saltà su dea carega e el se ga fato avanti, el se ga messo in denòcio:

- Sia lodato Gesù Cristo.

- Nunc et semper! Adesso e sempre!

- Sì drio parlar latin... Vardè che ve capisso poco. Sò solo dir su na rèchie meterna...

- Lora parlemo talian, come me fradel.

- Fradel? Ma chi seu vu?

- Mi son Bruno, fradel de Santo Enrico.

- Bisogna dir che el Re me ga mandà un siensato. E el ga fato ben. Vedì che son drio leder sto libron, e no son pròprio bon de cavàrmela fora.

- Mi no son veramente un siensiato. Mi son um vesco. Vesco de Augsburgo, in Germània. Me fradel me ga domandà la carità de insegnarte a leder sto libro.

- Gràssie tanto, signor Vesco. Ma vardè che son testa dura. A go imparà tanto poco, che el frate Paolino el me n’à fato far pi de Bartoldo. El ga scrito tuto su la Staffetta Riograndense...

- Pian, Nanetto. Giudìssio. No stà parlar mal del Frate Paolino.

- Parché? Cossa galo de bon, dopo averme coionà par tuto el mondo?

- Àlsate in pié! Fa el segno dea crose. Nanetto ga obedio.

- Desso, ga continuà el vesco, varda insù.

Nanetto squasi el ridea par rento. El ga alsà i oci, e cossa galo visto? - San Francesco d’Assisi sentà te un trono de oro, con sento mila frati in torno, in gran parte capucini. E davanti, sentà te un scagno, el Frate Paolino che’l contava barzelete, e San Francesco el ridea. E ste anedote le zera pròprio sora Nanetto Pipetta. I capucini i ridea a rota de colo. Nanetto se ga butà in denòcio. E el ga scomisià a dir el ato de contrission.

- Fermo! Ga comandà el vesco. Fermo! Varda che’l Frate Paolino el ze un santo.

- No stè dirme che el ze un santo da meter sul altaro? Solo se’l ze tea cesa de San Camboim de Soto!

- Nò, Nanetto, ghe ze santi che li cognossaremo solo in paradiso.

- I saria santi ignoti, come el soldà del Vitoriano de Roma?

- Nò, Nanetto, a te sì anca dispetoso! Mi son vegnesto qua in nome del Santo Imperatore, e ti te vien con fandònie?!

- Scuseme, carìssimo Vesco! Ze qua quel frate che’l ga fato el siel e tera a ridérsela de mi. E savì, el me onor, el me onor!...

El Vesco ga taià corto e grosso.

- Nanetto, verdi el libro. Sara i oci. Mételo su la testa.

Nanetto ga fato tuto giusto.

- Desso, prega par imparar a mente tuto quel che ze scrito.

Nanetto ze restà in silénsio. E el ga pregà.

- Nanetto, desso te savarè tuto quel che importa saver. Varda insù!

Nanetto ze restà de boca verta. Frate Paolino el zera in medo na roda de àngeli, che i formava na grande orchestra. E i cantava e i sonava:

- San Paolino dela Nona Légua soto Caxias, rancurè Nanetto! Lora Nanetto ga osá:

- Santo Frate Paolino, gràssie, gràssie, gràssie! No parlo pi mal de vu. Preghè par mi. E feme vegner la Staffetta Riograndense, che vui saver le novità del mondo...

Don Bruno, vésco de Augsburgo, el se ga congedà:

- Nanetto, mi vao. Ma me fradel te mandarà le me sorele Gisela e Brìgida. Le continuarà a istruirte.

I àngeli i ga riportà Don Bruno in paradiso. El par che’l se gàbia sugà la fronte. Nanetto ze restà medo intavanà. E el ga dito:

- Sarà che son un mul de campo, inpacador, che no imparo mai?

El ga verto el libro e el ga sentio come na paca in testa. El libro se ga spalancà e le pàgine le corea una drio l’altra. E Nanetto el le lesea in te’n lampo. El imparava tuto su la vita de Santo Enrico, el gran imperatore.

 

VITA STÒRIA E FRÒTOLE

Rovílio Costa e Arlindo Battistel

El vin

Geraldo Sostizzo

Agente Consular Italiano, Cascavel - PR

 

I pi antighi i conta che el vècio Bepi, na s-cianta vanti morir, el ga ciamà i fioi torno al leto e el ga dito: fioi, no stè desmentegarve, che anca de ua se fa vin. Maginàrsela quanto vin lu fea co na s-cianta de ua.

Ma, se par far vin ghe vol ua, disemo che par ver ua ghe vol un vignal. Tuti i taliani i ga un vignal, chi pìcolo, chi grando. Intanto la ua scominsiea restar maura, bisognea scominsiar rangiar le cavagne de strope, par portar la ua del vignal fin te a careta. Snetar el mastel dove se metea sora nantro mastel co na grade de steche, par pestar i graspi intieri e li ndea soto rento el mastel. Bisognea anca far na revision tele bote dove se metea el vin e se ocorea rangiarle.

Quando la ua gera maura, ndeimo tuti soto el vignal e scominsieimo catarla su. Quando se gavea el sesto pien, lo porteimo tea careta, e questa, co la gera piena, la porteimo in cantina ndove scominsieimo tuto el laoro. Prima pes-teimo el ua, fin che impienìimo un o due mastei. Tel secondo giorno, vegnea fora el vin dolse che tuti ghe piasea, ma quando se bevea massa, me tochea corer raquante volte in meso le scapoere.

Tel terso giorno, caveimo fora el vin dei mastei e lo meteimo rento tele bote. Delà un paro de giorni, tochea far la prima travasada te nantra bote e se ocoresse feimo la seconta travasada. Dopo gera sol spetar che el vin restasse tel ponto de bever.

Quando verdeimo na bote, gera sempre na sorpresa, parché no se savea mia come el gera, ma gera difìcile de no esser bon. Squasi sempre feimo vin sol par el guasto, parché invesse de aqua beveimo vin e feimo tante feste coi parenti e visigni, lora el vin ndea come aqua.

Quei che bevea tanto vin i doperea na scusa e i disea: podé bever questo vin fato a casa, che no’l fa mal e el ze un remèdio e, con questa scusa, se bevea tanto vin.

Ma i pol dir quel che i vol, chi fa el so vin, questi sa cosa i beve e quei che toca comprarlo i beve cosa i compra. Ghe ze na mùsica che dise:

Porta qua un litro de vino (tre volte)

Che sta sera mi voi divertir ( du volte).

E, lora, viva el vin...

 

GERAL

Governo gaúcho quer aumentos diferenciados para os pedágios

Proposta dá até 5% além da inflação

 

As concessionárias dos pólos rodoviários alegam um forte desequilíbrio financeiro e cobram do Estado o cumprimento de contrato para tapar o buraco financeiro; os usuários de rodovias pedagiadas reclamam do alto valor das tarifas e não admitem aumentos acima da inflação. No meio dos dois está o governo gaúcho - por um lado, precisa impedir a continuidade do déficit das concessionárias; por outro, não quer atrair a revolta da opinião pública.

A saída encontrada pelo Piratini foi enviar um projeto à Assembléia Legislativa atendendo, em parte, a empresas e usuários. Ao mesmo tempo, contraria ambos. A proposta veta pelos próximos quatro anos a instalação de novos postos de pedágio, não prorroga os atuais contratos - as empresas querem a prorrogação - e mantém as rotas de fuga consolidadas. Ao mesmo tempo, concede aumentos acima dos índices previstos em contrato - que seguem indicador econômico.

A princípio o governo daria aumento linear - 20% divididos em quatro anos. Na sexta 26 mudou de idéia e dará elevações diferenciadas. "Há pólos que possuem maiores desequilíbrios", explicou o chefe da Casa Civil, Alberto Oliveira. Segundo a assessoria do Palácio Piratini, os pólos Metropolitano, de Caxias do Sul, de Gramado, de Carazinho e de Vacaria terão recomposição de 5% ao ano, até 2009 - além dos índices normais de aumento. Isso dará, ao final de quatro anos, 21,6%. O de Santa Cruz do Sul terá aumento de 2,5% ao ano e o de Lajeado, de 1,25%. Pela proposta, em 2009 haverá nova avaliação do equilíbrio econômico e financeiro dos pólos rodoviários. A decisão, agora, fica por conta dos deputados gaúchos. O governo Germano Rigotto tem ampla maioria na Assembléia Legislativa, mas ninguém desconsidera a influência das concessionárias dos pólos rodoviários.

 

Festa do Champanha brinda a história

Evento ocorre de 30 de setembro a 16 de outubro, em Garibaldi

 

Espumante e história. Essa combinação perfeita vai movimentar Garibaldi durante a Festa Nacional do Champanha (Fenachamp), evento que ocorre de 30 de setembro a 16 de outubro, no Parque da Fenachamp. A dupla terá a companhia da gastronomia, da música e das atrações turísticas típicas do município, como o projeto arquitetônico "Passadas" e a Rota das Cantinas.

Um passaporte será colocado à disposição para acesso ao parque todos os dias de festa. "O preço ainda não foi definido", esclarece a secretária de Turismo, Indústria e Comércio, Ivane Fávero. Já o ingresso à festa será de R$ 8,00, dando direito a uma taça de vidro com champanha na primeira visita. Nos demais dias, o visitante terá acesso livre, podendo levar sua taça e adquirir o espumante da vinícola que desejar. O estacionamento vai custar R$ 3,00.

No mês de seu aniversário - Garibaldi emancipou-se em 31 de outubro de 1900 -, o município aposta numa festa mais popular. O presidente da Fenachamp, Antenor Fellini, inova colocando um palco para shows e danças no meio dos pavilhões. Além disso, o visitante poderá saborear espumantes e produtos típicos da região sentado. "Garçons vão atender para bebidas e comidas", explica a secretária de Turismo.

As soberanas da Fenachamp, a rainha Mariana Milani, e as princesas Marizete Locatelli e Vanessa Dalla Valle Sabei, visitaram a redação do CR divulgando o maior evento turístico de Garibaldi. A corte está visitando municípios da região e distribuindo cartazes e folders da festa.