
DESCOBRINDO CAMINHOS
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Edição 4.955 - Ano 97 - Caxias do Sul-RS, 21 de setembro de 2005.
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Equilíbrio do clima inclui a preservação ambiental
Níveis dos mananciais de água voltaram ao normal. Mas a preocupação com estiagem ainda existe
Praticamente todos os mananciais de água que abastecem o Rio Grande do Sul retomaram seus níveis normais, depois de seriamente afetados pela maior estiagem dos últimos 60 anos que atingiu o Estado. Como haviam previsto meteorologistas, as chuvas de agosto e setembro devolveram a rios, represas, açudes e lagoas a água que meses de seca fizeram desaparecer.
Essa aparente normalidade, no entanto, não transmite a tranqüilidade que os consumidores e, em particular, os agricultores gostariam de ter. A preocupação decorre da falta de providências que deveriam ser adotadas como precaução para novas anomalias climáticas - que estão projetadas por institutos de meteorologia.
Nenhum governo estadual reúne condições financeiras e de mobilização para, em poucos meses, solucionar deficiências de décadas. Disso a população gaúcha e a de outros Estados prejudicados pela seca têm consciência. Mas se não for ampliada a estrutura para combater estiagens com a intensidade da última, ficam sob ameaça o abastecimento de muitas cidades e grande parte da produção agrícola.
Este jornal tem dito há mais de uma década que o futuro da agropecuária está intimamente ligado ao domínio do clima. Isso, obviamente, exige investimentos em técnicas avançadas de produção e de proteção contra o excesso ou a escassez de chuvas, granizo, geadas fora de época e outras anomalias.
De certa forma, algumas culturas ganharam segurança. Esse avanço foi obtido com o incentivo e a orientação de organismos oficiais e pela iniciativa de agricultores. O atual estágio, no entanto, além de ser restritivo, é insuficiente.
No caso específico de medidas contra estiagens, fica cada vez mais evidente que o produtor rural não pode ficar aguardando pelo Estado ou pela União. Ele precisa buscar alternativas. E nunca é demais lembrar que há um passo importantíssimo que pode ser dado sem a necessidade de grandes somas de dinheiro e nem de tecnologias: a preservação da natureza. De nada adianta construir milhares de poços artesianos e milhares de açudes se não houver o respeito ao meio ambiente. Pelo contrário, quanto mais agressão houver, maior será a desertificação.
Feira vende mais de 31 mil livros
Público também é recorde: 120 mil pessoas em 17 dias de evento
Apesar do tempo ruim, a 21ª edição da Feira do Livro de Caxias do Sul, encerrada no domingo 18, atingiu suas metas de público e vendas. Segundo a coordenadora do evento, Luiza Motta, foram comercializados 31.351 livros e cerca de 120 mil pessoas passaram pela Praça Dante Alighieri durante os 17 dias de feira.
"A chuva atrapalhou, algumas apresentações foram canceladas, mas isso não tirou o brilho do evento", afirma Luiza. "As vendas foram cerca de 25% superiores às do ano passado", diz. "Os livreiros (35 participaram, com seus produtos expostos em 39 barracas) são unânimes em afirmar que, se o tempo tivesse sido melhor, chegaríamos facilmente a 40 mil livros vendidos", completa a coordenadora. Ao todo, a Feira promoveu cerca de 60 lançamentos e sessões de autógrafos.
Luiza destaca o início da regionalização da feira como uma experiência positiva. De acordo com ela, a intenção é promover ações conjuntas de estímulo à leitura. "Vamos nos reunir com municípios da região para colocar essa idéia em prática. Talvez possamos promover um seminário literário itinerante, um ano em cada cidade", exemplifica.
Uma das mudanças que serão estudadas para o ano que vem é a data da realização da Feira. Há a possibilidade de que o evento inicie nos últimos dias de setembro ou nos primeiros de outubro, fugindo um pouco das históricas chuvas de setembro.
No encerramento da Feira do Livro, foi lançado o programa Caixas de Leitura. A idéia é fazer circular 20 caixas, com cerca de 50 obras cada uma, por lugares de concentração popular. "As caixas devem passar por locais onde as pessoas permanecem por algum tempo, como as unidades básicas de saúde, os centros comunitários. Enquanto esperam para ser atendidas, podem ler", explica Luiza Motta. As obras para o programa estão sendo doadas pela comunidade. A Livraria Paulus já doou 2.700 exemplares. Interessados em contribuir podem entrar em contato pelo telefone (54) 228-1013, ramal 220.
Festuva abre inscrições para o corso
Estão abertas as inscrições pa quem deseja desfilar nos corsos alegóricos da Festa da Uva 2006. O prazo vai até final de outubro, segundo informou a diretoria do desfile. São 2.500 vagas para figurantes. As inscrições podem ser feitas na secretaria da Festa da Uva, no Parque de Exposições, ou pelo telefone (54) 207.1166, com Elisângela, ou ainda através do site www.festuva.com.br.
Durante a próxima Festa da Uva, que ocorre de 17 de fevereiro a 5 de março, serão realizados sete desfiles (um a mais do que nos últimos eventos), todos na rua Sinimbu. O corso alegórico é uma das maiores atrações da Festa. Começou a ser realizado na segunda edição, em 1932. As "carretas alegóricas", ainda puxadas por bois, retratavam a vida e os costumes das pessoas da região, herança deixada pelos que aqui chegaram durante a imigração italiana.
Clima obriga agricultor do Sul a economizar água
Severidade da estiagem está ensinando produtor a colher outra safra além da de grãos - a da água
A primavera inicia às 19h23 desta quinta, 22. A chegada da nova estação deverá ser marcada por dias cinzentos e úmidos, repetindo o comportamento do inverno que se despede. As previsões do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) são que o regime de chuvas não deve mudar significativamente em toda a região Sul.
A temperatura aumentará gradativamente, mas crescerá também a incidência de raios e de sistemas que provocam grande quantidade de chuva em períodos relativamente curtos. Setembro não terminou e o Instituto Nacional de Meteorologia contabilizou nos primeiros 15 dias 105 mm de precipitação ante os 156 da média histórica para o mês. "As chuvas foram benéficas para a recuperação da deficiência hídrica, que se acumulava desde o início do ano", diz o analista do clima e engenheiro agrônomo da Emater/RS, Gian Frano Bratta.
De acordo com a Emater, que recebe informações das 10 regionais gaúchas, as chuvas influenciaram positivamente nos níveis das barragens, bem como na vazão da maioria dos cursos d’água. "Exceto nos entornos de Bagé e Dom Pedrito, onde as precipitações não foram tão volumosas, barragens e açudes se encontram com os níveis normais para esta época do ano", explica Bratta.
As notícias são boas para os agricultores, ressabiados após a forte estiagem - a maior dos últimos 60 anos. "A água acumulada garante a manutenção da umidade do solo em níveis considerados adequados ao bom desenvolvimento de culturas como o milho e pastagens.
Costumes - Se o período é bom para a lavoura, também é hora de fazer (economizar) água. Para os climatologistas, o povo sulino precisa aprender a armazenar água, mudando seu comportamento e revolucionando costumes. "As pessoas devem coletar água em períodos de abundância para não faltar na escassez", orienta o agrônomo. O especialista aconselha a recolher a chuva das calhas, aproveitar as águas e represá-las em açudes e até em pequenas barragens. "Água guardada nunca é demais", afirma ao CR.
Se medidas simples e baratas como essas tivessem sido adotadas, o RS, por exemplo, não precisaria ter aberto no afogadilho, em plena seca deste ano, 126 poços artesianos, sendo que apenas 77 lograram êxito, beneficiando 76 localidades (6.101 famílias), segundo dados da Secretaria Estadual de Obras.
Outras medidas, não menos importantes, são a adoção do plantio direto, que retém a água e evita a evaporação; plantar dentro do período preferencial e de forma escalonada, com variedades precoces, normais e tardias, e adotar as variedades adequadas. Além disso, acompanhar as previsões climatológicas. "Essas são alternativas que ajudam a blindar as culturas", ensina Gian Bratta.
Na verdade, enquanto o seguro rural pleno não chega, o agricultor deve estar preparado ante as adversidades climáticas, "olhando mais para o alto do que para o chão".
Semi-árido construirá um milhão de cisternas até 2008
As cisternas para recolher chuva já garantem água potável a 100 mil famílias brasileiras. A meta é construir um milhão até 2008, beneficiando toda a população pobre da zona rural do semi-árido do Nordeste. A estimativa é da organização Articulação no Semi-Árido (Asa), rede de mais de 700 entidades não-governamentais, sindicatos, cooperativas e associações.
Cada cisterna custa, em média, R$ 1.500. Seu custo reduz pela mão-de-obra dos próprios interessados e ajuda da comunidade. A cisterna é construída ao lado da casa da população mais carente. A construção é feita com placas pré-fabricadas de cimento. Os tanques cilíndricos, com capacidade para 16 mil litros, são localizados de maneira a recolher toda a água que cai do telhado e tem uma parte colocada em um buraco cavado no solo.
"Este é um programa da sociedade", enfatiza o assessor técnico da Asa, Cristiano Cardoso. As famílias beneficiadas participam de todas as fases da construção e de cursos sobre o significado do projeto, tendo o cuidado para recolher e manter a água limpa.
No semi-árido nordestino chove, pelo menos, 200 mililitros por ano, o suficiente para abastecer cinco pessoas anualmente, se a água que cai do telhado for armazenada. Em torno de 20 milhões de pessoas carentes vivem na região, totalizando três milhões de moradias.
O semi-árido brasileiro é um dos maiores do planeta, em extensão geográfica e população. Tem perto de 868.000 quilômetros quadrados; abrange o norte de Minas Gerais, Espírito Santo, os sertões da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí e uma parte do sudeste do Maranhão.
Frei dá exemplo e instala reservatórios
Medidas simples, como o armazenamento da água da chuva que cai sobre os telhados, estão sendo adotadas por particulares em regiões onde habitualmente chove o ano inteiro. Um bom exemplo de aproveitamento de água ocorre na Casa de Formação dos Capuchinhos do bairro Santa Fé, em Caxias do Sul.
Por iniciativa de frei Raul Susin, foram instaladas duas caixas d’água com capacidade para reter 15 mil litros - um reservatório com 10 mil/l e outro com 5.000/l. "A água coletada serve para atender alguns serviços de casa, como lavagem de carros e calçadas, e irrigar os canteiros de hortigranjeiros", revela o frei.
Frei Raul Susin tem larga experiência com represamento e aproveitamento de águas no Nordeste brasileiro. Trabalhou no sertão baiano por mais de oito anos. Foi de lá que trouxe o desejo e a importância da coleta de água em dias chuvosos e sua preservação em períodos de carência.
Técnica revoluciona produção de frutas
Agricultor pode controlar temperaturas, produzir em menor tempo e fora do ambiente natural
Produzir frutas em ambiente totalmente protegido não é mais utopia. Um novo método desenvolvido pela Embrapa Clima Temperado, de Pelotas, reduz em pelo menos cinco anos o tempo em espécies como pessegueiro ou pereira. "Com a metodologia de ramos enxertados, o agricultor poderá produzir flores e frutos na época que desejar", observa o pesquisador Flavio Herter. O sistema entusiasma ainda por outras vantagens: o aperfeiçoamento do zoneamento agroclimático e o estudo da compatibilidade do porta-enxerto.
Segundo o pesquisador, no sistema convencional é preciso esperar, dependendo da espécie, até seis anos para verificar qual a necessidade de frio das variedades ou seleções (material genético em fase de pesquisa). "Com o novo método, é possível avaliar esse fator em apenas um ano", reforça Herter, que é especialista em adaptação de frutíferas de clima temperado.
A técnica propõe a substituição de plantas adultas por ramos em produção. Um ramo de pessegueiro, por exemplo, enxertado no mês de abril e colocado em ambiente controlado, dará à pesquisa, num prazo de até três meses, os primeiros dados sobre a reação do material às diferentes temperaturas provocadas no local. "Isso porque no período em que permanece em observação a planta receberá doses de diferentes horas de frio", explica o ecofisiologista.
Comportamento - A Embrapa está usando a metodologia num estudo com as cultivares de pessegueiro ágata, turmalina e granada, indicadas para indústria. O comportamento das plantas é avaliado nas temperaturas de 6°, 10° e 15°, com variação de frio de 50 a 300 horas. Outra vantagem é a diminuição de espaço para desenvolver a nova planta e a aplicação de testes para comprovar a eficiência de produtos que induzem à brotação. "No primeiro caso, o crescimento do material enxertado não precisa ser feito a campo, podendo ocupar uma pequena área (em condições controladas), longe dos pomares", detalha. "Este item deve beneficiar pequenos agricultores, considerando que é dispensável uma área grande para a finalidade", diz Herter ao CR.
Embora simples, a técnica permite ajudar os fitotecnistas a avaliar a compatibilidade de enxerto e porta-enxerto - material básico usado na produção de mudas. Em vez de fazer um viveiro todo com porta-enxerto, aguardar por mais quatro anos para a planta entrar em produção e dar a resposta sobre a compatibilidade, a técnica proporciona a avaliação em um único ciclo (primeiro ano de vida da planta). "Esta redução se deve ao fato de o ramo utilizado ser originado de uma planta que já produz", destaca Herter.
Novo fungo ameaça destruir todo o trigo
Um novo fungo de mutação muito rápida, que se desenvolve no leste da África, poderia destruir as plantações inteiras de trigo do mundo. Segundo alerta dos cientistas do Centro Internacional para o Melhoramento dos Plantios de Milho e Trigo, o organismo pode se tornar uma ameaça maior para a segurança alimentar mundial se não forem tomadas medidas rapidamente.
Este fungo, que ataca o talo do trigo, é chamado de Ug99, pois foi descoberto em Uganda em 1999. Migrou para o Quênia e a Etiópia, onde afetou quase todas as lavouras de trigo e poderá se espalhar ainda mais. Também ataca o sorgo.
De acordo com um relatório do Centro para o Melhoramento dos Plantios, em Nairóbi, a produção mundial de trigo poderá diminuir em 60 milhões de toneladas, um décimo do total mundial, se o Ug99 se espalhar para a Ásia e a América.
"É só uma questão de tempo antes que o Ug99 atinja a península da Arábia Saudita, o Oriente Médio, o sul da Ásia e a América", diz Ronnie Coffman, geneticista da Universidade de Cornell, de Nova York.
Brasil ganha na OMC taxa de frango salgado
A Organização Mundial de Comércio considerou, em sentença definitiva, que foi ilegal a medida adotada pela União Européia, em 2002, elevando de 15,4% para 75% a taxação sobre os cortes de frango salgado, atingindo diretamente as exportações do Brasil e da Tailândia.
Em fevereiro deste ano a OMC já tinha dado ganho de causa ao Brasil. A decisão foi publicada em março. Mas em junho a UE recorreu da decisão, o que levou a uma contra-apelação por parte do governo brasileiro.
Desde a elevação da taxação as exportações brasileiras de carne de frango para os países-membros da UE tiveram uma queda de 80%, o que corresponde a US$ 300 milhões anuais de exportações não realizadas desde 2002.
Futuro dos alimentos vai a debate
Sistema estimula boas práticas agrícolas e adoção de segurança alimentar
Principal preocupação do consumidor, a segurança alimentar é hoje palavra de ordem para todos os que produzem alimentos. Atualmente, existe um grande número de protocolos de certificação elaborados para ajustar os sistemas produtivos aos padrões internacionais, para aferir e assegurar qualidade e sanidade aos alimentos.
Passa a vigorar em 2006 o programa EurepGap, certificação exigida pelos países importadores da Europa. Considerado o passaporte para o mercado europeu, o Eurep, ao contrário da maioria das outras certificações, está focado na propriedade rural.
Em sintonia com as necessidades do mercado, será realizado no próximo dia 26 de setembro um treinamento específico para os técnicos já habilitados na Norma Técnica Específica da Produção Integrada de Maçã (PIM) no sistema Eurep. Já para os técnicos que ainda não são habilitados, o curso incluirá os conceitos e treinamento da PIM e da forma operacional do sistema Eurep, de 26 a 30 de setembro.
A adoção de partes das normas da EurepGap pelo sistema PIM visa unificar o sistema de auditorias para a certificação, que hoje encarecem os produtos para exportação, reunindo o sistema de certificação oficial brasileiro (PIM), com o sistema particular das grandes redes de supermercados européias. "Basta a apresentação do selo PIM para reconhecimento em ambos os sistemas", diz a coordenadora do evento e pesquisadora da Embrapa, Rosa Maria Sanhueza (foto).
Os cursos ocorrem em Vacaria. A promoção é da Embrapa Uva e Vinho, Epagri, Ministério da Agricultura, UFRGS, CNPq e ABPM. Inscrições: http://www.cnpuv.embrapa.br/eventos/pim2005/ Informações (54) 455-8086.
Vinícola familiar aposta nos vinhos finos
As pequenas vinícolas de Garibaldi estão apostando na produção de vinhos finos. A 3ª Seleção dos Melhores Vinhos e Espumantes confirma essa tendência. Nos primeiros dois concursos, os vinhos de mesa é que levaram o maior número de medalhas, ao contrário da edição deste ano, quando das 34 medalhas apenas 11 foram para os vinhos de mesa - seis de ouro, três de prata e duas de bronze.
No total foram distribuídas 34 medalhas para 13 indústrias vinícolas, sendo 25 de ouro, sete de prata e duas de bronze. O concurso recebeu 112 inscrições, de 24 vinícolas garibaldenses. Foram 40 amostras de vinhos de mesa e 72 de vinhos de uvas viníferas.
A mudança de foco é resultado do trabalho desenvolvido pela Associação dos Vinicultores de Garibaldi (Aviga). Aproveitando o potencial do município, a entidade incentivou a criação das microchampanharias. Hoje, são dez, além das tradicionais produtoras de espumantes de Garibaldi. "A associação estará com um espaço generoso expondo seus produtos na Festa Nacional do Champanha (Fenachamp), que ocorre de 30 de setembro a 16 de outubro", adianta ao CR o presidente da Aviga, Gilberto Pedrucchi.
A Fenachamp também será palco, no próximo dia 8 de outubro, da premiação do concurso do Espumante Fino Brasileiro. Na ocasião, serão entregues 25 medalhas de ouro e 11 de prata. Foram 120 amostras de 45 vinícolas de todo o país.
Para confirmar ainda mais a qualidade dos vinhos e espumantes de Garibaldi, a Aviga firmou convênios com o Sebrae e com a Embrapa Uva e Vinho. Os acordos prevêem diagnósticos das empresas, aprimoramento das técnicas de elaboração de vinhos e melhorias nas vendas dos produtos.
Convênio qualifica empreendedor rural
Contribuir para o desenvolvimento da produção, transformação e comercialização agropecuárias nas regiões da Serra, Nordeste, Vale do Caí, Região das Hortênsias e dos Campos de Cima da Serra é o objetivo do Programa de Pesquisa e Qualificação em Agricultura voltada ao Empreendedorismo.
Convênio nesse sentido foi assinado entre o secretário da Ciência e Tecnologia, Kalil Sehbe, o diretor- presidente da Fundação de Pesquisa Agropecuária (Fepagro), Carlos Cardinal, e o reitor da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Luiz Antonio Rizzon.
O projeto prevê a realização das práticas nas áreas de fitotecnia, solo, agricultura protegida, agroindústria, entre outras, no Centro de Agroindústria da Fepagro, em Caxias do Sul. Já as pesquisas envolvendo pomares, pastagens, hortas, plantas medicinais e aromáticas, serão desenvolvidas junto ao Centro da Agricultura Familiar, em Veranópolis.
Será também utilizada a área da Fepagro Nordeste, em Vacaria. O espaço servirá para plantio de lavouras mecanizadas, uso, manejo e conservação de solos, além da avicultura e suinocultura. "O protocolo fornece estrutura para que a UCS atue na área da agronomia", disse Rizzon.
Engº. Agrº. José Zugno
Borboletas e mariposas
Sou agricultor dedicado à produção de melão no oeste de Santa Catarina. Desejo saber sobre a broca do melão e sobre a broca noturna e também a que horas a mariposa sai para fazer o estrago.
LORIVAL LUÍS KÄFFER
Tangará - SC
As lagartas que "broqueiam" os melões do seu cultivo são produzidas, provavelmente, por uma pequena borboleta noturna denominada Margaronia nitidalis, que pertence ao grande grupo dos insetos denominados Lepidópteros.
Inicialmente, parece-me conveniente dar informações gerais a respeito deste imenso grupo dos insetos que envolve borboletas, mariposas e bruxas, sobretudo levando em conta a importância que eles exercem e sua influência na agricultura. Existem mais de 100.000 espécies de borboletas identificadas no mundo. Este número é somente superado pelos coleópteros (besouros, cascudos, joaninhas, gorgulhos, vagalumes, etc.), cujas espécies conhecidas ultrapassam a cifra de 800.000. Os lepidópteros, sendo insetos, têm o corpo dividido em cabeça, tórax e abdômen; possuem três pares de patas articuladas e dois pares de asas. A principal característica do grupo são as quatro asas recobertas por finíssimas escamas, geralmente coloridas, que facilmente se desprendem. Outra característica é o aparelho bucal, sugador ou chupador, dos indivíduos adultos, formados por peças, dentre as quais uma longa tromba, que se enrola em espiral (parece uma comprida língua espiralada), adaptada à sucção do néctar das flores e outros líquidos nutritivos de que se alimentam. Por este motivo não danificam as plantas, a não ser algumas espécies em cujo aparelho bucal existem fortes espinhos destinados apenas a romper a casca resistente dos frutos.
Característica importante dos lepidópteros é a metamorfose que compreende as diversas fases de desenvolvimento porque passam os indivíduos para chegar ao estado adulto. Os adultos têm sexo separado, macho e fêmea, que se acasalam oportunamente. A fêmea produz ovos dos quais nascem as pequenas larvas, que após sofrerem diversas mudas, originam as lagartas, que passam para o estado de crisálida ou casulo, no interior dos quais ocorrem modificações produzindo indivíduos adultos, completando o ciclo da metamorfose.
As fase de lagarta é a mais conhecida do desenvolvimento por seu aspecto e efeito nos vegetais. As lagartas, em geral têm corpo cilíndrico, são muito ativas e móveis, têm na cabeça o aparelho bucal mordedor-mastigador. São muito vorazes, responsáveis por grandes prejuízos às plantas, particularmente as cultivadas.
O corpo de algumas lagartas pode apresentar-se ornamentado de diversas cores, destituídos de pêlos, próprio das borboletas diurnas. Estas são inofensivas. Outras lagartas apresentam sobre o corpo numerosos pêlos urticantes, que causam forte irritação e queimaduras quando em contato com a pele humana. Estas lagartas peludas são conhecidas com o nome de taturanas ou "lagartas fogo". O líquido cáustico que os pêlos injetam são produzidos em glândulas epidérmicas da lagarta.
Praticamente os lepidópteros são distribuídos em dois grandes grupos: borboletas diurnas e borboletas noturnas, estas chamadas mariposas e bruxas. As diurnas são de corpo fino e delicado, e as asas ornamentais, muitas vezes coloridas e de grande beleza. As mariposas e bruxas, crepusculares ou noturnas, são de corpo grosseiro, cabeludo, de abdômen grosso.
Lagartas dos melões - A mais conhecida é uma pequena mariposa denominada Margaronia nitidalis, que tem como sinônimo científico Diaphania nitidalis. A mariposa adulta tem cerca de 3 cm de envergadura e 1,5 cm de comprimento. As asas têm as margens de cor violácea ou parda e uma área branco-amarela e transparente no interior, de forma irregular. O abdômen apresenta um tufo de pêlos na extremidade. A fêmea, ao anoitecer, deposita os ovos nas partes novas das plantas. Deles nascem as lagartinhas que perfuram as hastes, brotos e frutos. A lagarta, que chega a atingir 2 cm de comprimento, apresenta coloração variada conforme o estágio do desenvolvimento. Ela percorre o interior do fruto prejudicando-o. Após cerca de duas semanas, a lagarta passa ao estado de crisálida permanecendo no interior do fruto ou formando um casulo nas bordas das folhas onde se abriga e de onde sai a nova mariposa, dando continuidade ao ciclo (mais informações sobre o assunto na próxima edição).
Coração dos brasileiros vive sob ameaça
Pesquisa aponta que 83% da população não fazem atividade física e 25% são fumantes
A saúde do brasileiro não anda nada bem, pelo menos no que diz respeito aos fatores de risco para doenças cardiovasculares. Foi o que constatou a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) com a pesquisa Corações do Brasil, divulgada esta semana durante o 60º Congresso Nacional de Cardiologia, realizado em Porto Alegre. O estudo constatou que 13% da população do país ingerem diariamente bebidas alcoólicas, 25% fumam e 14% apresentam níveis de triglicérides (um tipo nocivo de gordura) acima do considerado normal. Ainda de acordo com o levantamento, 83% dos brasileiros são sedentários, sendo que no Nordeste este índice chega a 93%. "São dados alarmantes que comprovam por que o Brasil tem tantas mortes por doenças cardiovasculares, cerca de 300 mil por ano", afirma Raimundo Marques do Nascimento Neto, diretor executivo da SBC e coordenador da pesquisa.
Nos três Estados do Sul, o índice de colesterol elevado é o maior do país. Cerca de 24% dos gaúchos, catarinenses e paranaenses apresentam taxa de colesterol acima da considerada normal, chegando a alarmantes 36,4% na população com mais de 54 anos. A hipertensão foi encontrada em 30,4% das pessoas estudadas. No que se refere ao tabagismo, o trabalho mostra que 25,2% dos brasileiros da região Sul são fumantes, mas 22,7% informaram aos pesquisadores que já fumaram no passado, mas venceram o vício.
O estudo constatou também que 15% dos homens do Sul do Brasil têm mais de 102 centímetros de cintura. A chamada obesidade abdominal é um dos indicativos de que a pessoa corre risco de infarto. Entre as mulheres, que não devem ter circunferência abdominal acima de 88 centímetros, o índice encontrado também serve de alerta, 21% delas ultrapassam esse limite. Outro dado importante diz respeito ao sedentarismo. Embora a região Sul tenha o melhor índice do Brasil, 77,4% dos gaúchos, catarinenses e paranaenses reconhecem que não praticam atividades físicas.
Para os médicos, mudar o estilo de vida que ameaça o coração não é difícil. De acordo com os especialistas, trocar alguns itens da dieta, abandonar o cigarro e praticar meia hora de exercícios por dia já são atitudes positivas que podem reduzir drasticamente as mortes por doenças cardiovasculares, que em 2002 mataram 16,7 milhões pessoas no mundo inteiro, sendo 7,2 milhões apenas devido ao infarto, segundo a Organização Mundial da Saúde.
Nascimento Neto acredita que os dados da pesquisa serão importantes para a definição de políticas públicas para a saúde. Segundo ele, o Ministério da Saúde deve dar mais enfoque às ações de prevenção. "A política de saúde no Brasil é voltada à urgência. Ela preocupa-se em tratar o infartado, por exemplo, mas não é voltada para a prevenção no indivíduo que tem, ou terá, hipertensão", explica.
A pesquisa Corações do Brasil levou dois anos para ser concluída e envolveu cerca de 800 profissionais. Foram avaliadas 1.239 pessoas em 77 cidades. A metodologia foi coordenada pelo Instituto Vox Populi. Todos os números do estudo estão reunidos no Atlas do Coração, lançado esta semana pela Sociedade Brasileira de Cardiologia.
Colesterol alto afeta 21,6% da população
No que diz respeito ao colesterol, a pesquisa revelou que um em cada cinco brasileiros, ou 21,6% da população, apresenta taxas elevadas de colesterol no sangue (acima de 200 mg/dl). O índice nacional aproxima-se do registrado nos Estados Unidos, onde 25% dos habitantes estão na faixa de risco. Os norte-americanos são os primeiros do mundo em colesterol elevado.
Quem mais sofre com o problema é a população de baixa renda. Entre os que têm renda familiar mensal de até um salário mínimo, 27,5% estão acima dos índices recomendados. Esse número cai para 17,2% na população de classe média, com renda mensal entre R$ 2.601 e R$ 5.200.
A diferença é mais evidente quando a referência é a escolaridade. No grupo de pessoas com o Ensino Fundamental incompleto, 39,8% têm colesterol alto. Já entre aqueles que concluíram o Ensino Médio o índice é de 17,6%, menos da metade.
"A desinformação explica o maior percentual de indivíduos com colesterol alto nas classes com menor renda e grau de escolaridade", reforça Raimundo Marques Nascimento Neto, da SBC. "Os alimentos com menos colesterol são também mais caros. A maioria da população não tem acesso a frutas, verduras, carnes magras, peixes, fibras e desnatados", completa. "Grande parcela da população, mesmo alimentada, está desnutrida, tem dieta inadequada ou ambos, isso aumentará a incidência de doenças cardiovasculares no futuro", alerta o cardiologista.
Hipertensão é maior no Nordeste
As pessoas com pressão arterial acima de 140 X 90 mmHg, já considerado um índice de risco, representam 31,8% da população no Nordeste; 30,4% no Sul; 29,1% no Sudeste e 19,4% no Norte e Centro-Oeste. Os hipertensos não diabéticos deveriam manter sua pressão arterial em no máximo 140 x 90 mmHg. Para o paciente diabético o índice ideal é de 130 x 80 mmHg.
A pesquisa Corações do Brasil também revelou que a falta de cuidado com a saúde é mais presente entre os homens. Dos 6,5% que se tratam e atingiram o nível de pressão arterial ideal, 65% são mulheres e 35% são homens. 48,1% da população que têm pressão alta sabe do problema e não faz qualquer tipo de tratamento, sendo que 60% dos homens e 40% das mulheres não se cuidam.
A hipertensão é um dos fatores por trás das principais causas de morte no país; o derrame cerebral e o infarto. O tratamento da doença não depende do rendimento familiar. No grupo que recebe mais de dez salários mínimos por mês o índice de adesão ao tratamento é de 49%; entre os que recebem até cinco salários a porcentagem é bem semelhante, 50%.
Obstrução arterial é outro fator de risco
O estudo sobre os fatores de risco para o coração também mostra que 5,3% da população com mais de 45 anos têm alta probabilidade de desenvolver Doença Arterial Obstrutiva Periférica (Daop), um tipo de obstrução nas artérias. Pacientes com Daop têm risco elevado de sofrer infarto do miocárdio, derrame cerebral ou morte de origem cardiovascular. Segundo os especialistas, cerca de 60% dos pacientes que têm a doença apresentam outras complicações cardiovasculares.
Quando não diagnosticada e tratada precocemente, a Daop pode levar à amputação do membro afetado. Porém, esse não é o principal risco de uma pessoa com esse mal. Por ser um indicador de processo aterosclerótico mais generalizado, é provável que o paciente apresente acúmulo de gordura também nas artérias que levam sangue para o coração (coronárias), para o cérebro (carótidas) e para os rins (com risco de perda do órgão).
Mortalidade é maior entre diabéticos
Segundo o cardiologista Raimundo Nascimento Neto, o diabetes é um dos fatores de risco mais preocupantes, pois está diretamente relacionado ao aumento da mortalidade ocasionada por eventos cardiovasculares. "Entre os homens diabéticos os índices de mortalidade são de duas a três vezes maiores se comparados à população não-diabética", destaca ele. "O tratamento medicamentoso aliado à melhoria da qualidade de vida dos pacientes, por meio da prática de atividades físicas e de uma alimentação balanceada, é a única forma de controlar a doença", afirma.
A Sociedade Brasileira de Diabetes, em seu último consenso, estabeleceu como paciente diabético aquele cujo nível de glicemia no sangue é superior à 110 mg/dl. De acordo com esse critério, a pesquisa Corações do Brasil revela que 9% da população do país é diabética.
Gordura abdominal prejudica coração
A chamda obesidade abdominal também foi avaliada pela ampla pesquisa da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Simples de ser verificada, basta usar uma fita métrica para medir a circunferência da cintura. O excesso de gordura na região do abdômen leva a uma série de alterações no organismo que podem contribuir para aumentar as chances de o indivíduo desenvolver doenças cardiovasculares.
A Sociedade Brasileira de Cardiologia recomenda que a circunferência abdominal das mulheres seja de no máximo 88 centímetros e a dos homens não deve ser superior a 102 centímetros. Medidas maiores do que essas podem comprometer a saúde do coração.
Entre os brasileiros, apenas 30% das mulheres e 55% dos homens estavam dentro dos parâmetros recomendados pela SBC. Diversos estudos já demonstraram que a obesidade abdominal pode aumentar os níveis de colesterol ruim e a resistência à insulina, além de elevar as taxas de triglicérides e reduzir o bom colesterol.
Quando os santos vão marchando...
Maria Clara Lucchetti Bingemer
Em Nova Orleans soa a triste súplica: "Quando Gabriel tocar sua trombeta... quando a lua se converter em sangue... quando o sol se recusar a brilhar... quando os santos forem marchando... Senhor, eu quero ser contado entre eles..."
Parecia que nada pior que a tsunami asiática poderia existir... ou que o furacão Denys na América Central e na Flórida... E, no entanto, os últimos dias têm povoado os jornais e a televisão, assim como toda a mídia, das imagens mais impressionantes que nos lembramos de haver visto.
Nova Orleans, linda, alegre, musical e colorida, tornou-se uma cidade fantasma, evacuada, com centenas de mortos no fundo de suas águas fétidas. O furacão Katrina desviou-se da rota e atingiu em cheio a cidade do jazz e do Bairro Francês, da comida "cajun", da música e da dança cadenciada, que marca o ritmo que têm os santos quando marcham e o arcanjo Gabriel quando este toca sua trombeta.
O país mais poderoso e rico do mundo parece impotente para socorrer as vítimas da gigantesca tragédia. Sabedoras com antecedência de vários dias da chegada do furacão e dos estragos possíveis que sua passagem provocaria, as autoridades demoraram a providenciar a retirada da população da cidade. E Katrina abateu-se com todo o seu furor sobre Nova Orleans desarmada e surpreendida. Muitos milhares de pessoas encontram-se agora sem abrigo, sem comida, sem água e sem possibilidade de sair da cidade condenada.
O desespero crescente de pessoas ilhadas, sem recursos, com fome e sede, em meio a cadáveres putrefatos e banheiros fétidos, ratos e escombros, vai se transformando em violência, em agressão, e torna quase impossível o socorro de sobreviventes. O prefeito da cidade enviou a órgãos de imprensa americanos um pedido aflito de ajuda, principalmente para as milhares de pessoas que aguardam socorro em um dos locais que serviram de abrigo. Na semana passada, o Centro de Convenções da cidade estava infectado, enquanto os suprimentos iam chegando ao fim e as pessoas se agrediam umas às outras disputando comida.
Havia milhares de pessoas dispersas pela cidade, em telhados e sótãos, sob pontes e viadutos, ou simplesmente na rua. Algumas deambulam desesperadas sem saber que rumo tomar, tendo perdido tudo e todos que tinham na vida. Outras permanecem na calçada, esperando que alguém passe para resgatá-las. E aqueles que conseguiram chegar ao Texas, trasladados enquanto ainda funcionava o serviço de resgate, interrompido pelo caos da violência e do pânico, andam perdidos pelas ruas, em busca de proteção e comida.
O que resta da cidade se degrada rapidamente. Transformada em cidade fantasma, sem nada do encanto e da sedução de antes, Nova Orleans apresenta um cenário de destruição total.
A população, desesperada e sem perspectivas de saída, com o socorro interrompido, fazia saques a supermercados e lojas em plena luz do dia. E os veículos de resgate não entravam na cidade, por terra ou por ar, com medo de serem atacados pelos habitantes enfurecidos, revoltados, entregues à própria sorte.
Estrangeiros que tentaram sair da cidade antes do furacão chegar foram impedidos porque as linhas aéreas americanas já não operavam para Nova Orleans. Não era interessante ou lucrativo voar com aeronaves vazias em direção à cidade ameaçada. Ninguém desejava ir para lá, apenas sair. Assim, pela lei do mercado que prioriza o lucro antes de tudo, inclusive da vida humana, morreram muitas pessoas que poderiam ter sido salvas.
O Papa Bento XVI disse estar "profundamente triste" com a tragédia, enviou telegrama de condolências às vítimas e suas famílias, incentivando as equipes de resgate a prosseguirem com seu trabalho e prometendo suas orações por todos os atingidos pelas funestas conseqüências do furacão Katrina.
De todos os cantos se escutam protestos e mensagens de solidariedade. Mas esta solidariedade falada e proclamada, lamentavelmente não se transforma em socorro concreto e eficaz às vítimas. Isoladas, estas se desesperam e escolhem a inútil violência como catarse de sua ansiedade e seu sentimento de abandono. Enquanto isso, a morte passeia soturnamente sobre os escombros da que foi a alegria de tantos olhos, ouvidos e corações; inspiração de tantos artistas; berço de tantos talentos vocais, musicais, literários. A bela Nova Orleans levará anos para ser reconstruída. A marca mortal do feroz Katrina ficará como uma cicatriz definitiva sobre seu belo corpo urbano.
Ao fundo da triste imagem da cidade destruída soa apenas a voz triste e pungente da negra súplica jazzística que identifica Nova Orleans em qualquer lugar do mundo: "Quando Gabriel tocar sua trombeta... quando a lua se converter em sangue... quando o sol se recusar a brilhar... quando os santos forem marchando... Senhor, eu quero ser contado entre eles..."
Frei Betto
Mudanças não resultam de ímpetos voluntaristas nem de boas intenções. Exigem projeto e mediações. Pode-se cruzar a ponte, com serenidade e confiança, quando se sabe aonde chegar
Vestida de preto, a mulher está sobre a ponte. Traz o rosto entre as mãos e de sua boca ovalada brota o desespero. Clássico do expressionismo, "O grito" (1893), do pintor norueguês Edvard Munch, traduz o horror, a solidão, o impasse (a ponte une pólos opostos, mas nem todos conseguem ir de um lado a outro).
O grito brasileiro, o do Ipiranga, foi o de independência controversa, como quase todo fato histórico. Livrou a nação do império, mas não do imperador. Nem da dependência externa, ônus que ainda hoje pesa em nossas contas públicas.
O Grito dos Excluídos, promovido em 7 de setembro pela Igreja Católica e movimentos sociais, é um esforço bem-sucedido de resgatar a data, outrora reduzida a um feriado de atrações castrenses. Num mundo que clama por paz, qual o sentido de exibir armamentos em praça pública? Serve para encantar crianças, como o exército de soldadinhos de chumbo que me entretinha na infância. A 23 de outubro nós, eleitores, iremos às urnas dar adeus às armas.
O lema do 11º Grito dos Excluídos evoca uma decepção: "Brasil: em nossas mãos a mudança". A esperança foi depositada em mãos do governo Lula. A política econômica não mudou. Conquista estabilidade, aumenta o emprego formal, mas restringe investimentos públicos e privados. E ainda que exitosas em seu caráter compensatório, as políticas sociais não alteraram as estruturas arcaicas, como a fundiária, que impedem a redução da desigualdade social.
Mudou sim, infelizmente, o modo de fazer política de um núcleo dirigente do PT, que aprendeu com seus adversários históricos a trafegar pelo labirinto sórdido da corrupção.
Mãos são ferramentas da mente. Não basta valorizar o protagonismo dos movimentos sociais como se eles, por si só, pudessem operar as mudanças que o país requer. Mudanças exigem o concurso de partidos políticos, como atesta o fracasso da Comuna de Paris. Marx chegou a entusiasmar-se com a mobilização popular, e Lênin anos depois proclamaria "todo poder aos sovietes". Os dois, entretanto, nunca se livraram do modelo neomonárquico de um partido altamente centralizado, em cujas mãos se concentra todo o poder. A União Soviética era, de fato, uma união bolchevique.
Mudanças não resultam de ímpetos voluntaristas nem de boas intenções. Exigem projeto e mediações. Um novo projeto Brasil, não o das utopias e quimeras, mas consistente, viável, deve levar em conta o possível e não apenas o desejável. Projeto que os economistas do PT ficaram devendo, abrindo brecha à continuidade tucana no comando da política financeira, equivocadamente citada como econômica.
As eleições de 2006, com ou sem reforma política, sinalizarão um novo ordenamento partidário no país. Ainda que as siglas permaneçam as mesmas, o eleitor não perderá a oportunidade de manifestar sua indignação frente à atual crise. Mas será inútil a atitude de mera repulsa traduzida no voto nulo. Qual mudança queremos? Com que roupa?
Um novo projeto Brasil implica rediscutir a relação entre partido, governo e Estado. Sem essa clareza, a promiscuidade entre as três instâncias envelhece precocemente qualquer projeto de mudança, como ocorreu no socialismo real.
Na tela de Munch, duas pessoas caminham ao fundo, em contraste com o desespero da mulher em primeiro plano. Pode-se cruzar a ponte, com serenidade e confiança, quando se sabe aonde chegar.
Denúncias já causaram três baixas na Câmara
Jefferson perdeu o mandato. Dois deputados renunciaram e outros 16 podem ser cassados
Roberto Jefferson (PTB-RJ) foi o primeiro deputado a ser cassado depois que o Brasil começou a assistir um festival de denúncias de corrupção. Foi na quarta-feira 14, por falta de decoro parlamentar - comandar um esquema de arrecadação de recursos para o PTB, receber do caixa dois do PT R$ 4 milhões, entre outras acusações. Dos 489 parlamentares presentes à sessão, 313 votaram a favor do relator do processo de cassação, deputado Jairo Carneiro (PFL-BA) e 156 contra. Houve ainda 13 abstenções, cinco votos em branco e dois nulos. Eram necessários 257 votos para que Jefferson, o grande pivô do esquema de corrupção com participação do governo federal, perdesse o mandato e ainda os direitos políticos até 2015. Os advogados de defesa do ex-deputado entraram no dia seguinte com mandado de mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a suspensão da cassação, alegando que Jefferson teve seus direitos de defesa "cerceados e constrangidos". A expectativa era de que o STF votaria o pedido nesta semana.
O ex-deputado e presidente licenciado do PTB foi quem sofreu a primeira grande punição desde que, há mais de quatro meses, iniciou o processo de denúncias e acusações em seqüência. Tudo começou com a divulgação de um vídeo em que o ex-diretor dos Correios Maurício Marinho recebia propina de R$ 3 mil e revelava um esquema de corrupção que seria comandado por Jefferson. Foi a partir daí que o deputado cassado denunciou o suposto "mensalão" (pagamento a deputados para votarem a favor do governo).
Lula - Em seu discurso de defesa, Jefferson, pela primeira vez, atacou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Tirei a roupa do rei e mostrei ao Brasil quem são esses fariseus, o que é o governo Lula e o Campo Majoritário do PT", afirmou, referindo-se à tendência que comanda o Partido dos Trabalhadores. Ele também classificou Lula de omisso. "O negócio dele é passear de avião. De governar ele não gosta", afirmou. Lula, no mesmo dia, estava em Nova York, participando de reunião da ONU. "Este governo é o mais corrupto que conheci em 23 anos de mandato", disparou Jefferson.
O pronunciamento emocionado não foi suficiente para sensibilizar a maioria dos deputados. E nem a opinião pública, que cobra punição aos envolvidos nas denúncias de corrupção. O comportamento dos 313 deputados que votaram, secretamente, pela cassação, reflete esse espírito de cobrança. Por suas aparentes ousadia e coragem, o ex-deputado, que ganhou fama como integrante da tropa de choque que defendia o ex-presidente Collor de Mello do impeachment, ainda conseguiu um número de votos que surpreendeu a muitos analistas políticos. Os 156 devem corresponder à parcela da população que viu nele mais um herói do que um vilão. Se esse for realmente o parâmetro para medir o pensamento dos parlamentares, seguramente os próximos a enfrentar a votação em plenário deverão ganhar menos votos favoráveis ainda.
Decisão do STF retarda investigações
Os deputados acusados pelas CPIs Correios e da Compra de Votos ganharam mais cinco sessões para se defender na Corregedoria da Casa. Com isso os processos de cassação dos 16 parlamentares ficam suspensos e as representações só serão encaminhadas ao Conselho de Ética após os parlamentares serem ouvidos pela Corregedoria da Casa.
A decisão foi tomada por todos os membros da Mesa Diretora da Câmara após analisarem os termos da liminar proferida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Nelson Jobim, concedida na quarta 14 a seis deputados do PT (João Paulo Cunha (SP), João Magno (MG), José Mentor (SP), Josias Gomes (BA), Paulo Rocha (PA) e Professor Luizinho (SP)) e liminar concedida no dia seguinte ao deputado José Dirceu (PT-SP) pelo ministro Carlos Veloso.
Com a decisão da Mesa, caberá ao segundo vice-presidente e corregedor da Câmara, deputado Ciro Nogueira (PP-PE), tomar o depoimento dos 16 parlamentares para então elaborar o parecer a ser enviado à Mesa Diretora da Câmara, antes do envio das representações ao Conselho de Ética. A Câmara começou a notificar ainda na semana passada os deputados que eles terão prazo de cinco sessões para deporem na Corregedoria ou, se o corregedor entender, em uma comissão de sindicância. A decisão beneficia também outros seis deputados que haviam impetrado no STF pedido de liminar (José Borba (PMDB-PR), José Janene (PP-PR), Pedro Corrêa (PP-PE), Pedro Henry (PP-MT), Vadão Gomes (PP-SP) e Wanderval Santos (PL-SP)).
Renúncia para garantir direitos políticos
Entre as baixas, as de maior impacto no Executivo foram as quedas dos ex-ministros José Dirceu (Casa Civil) e Luiz Gushiken (Secretaria de Comunicação). No Legislativo, além de Jefferson, o presidente do PL, Waldemar Costa Neto, renunciou para fugir da cassação. Mesmo caminho tomou o ex-deputado (e ex-bispo) Carlos Rodrigues, eleito com o apoio da Igreja Universal do Reino de Deus, da qual saiu.
O presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, acusado de cobrar propina para autorizar exploração de restaurante no Congresso, está encurralado. Cinco partidos de oposição pediram a cassação de Severino - a quem elegeram presidente da Câmara para derrotar o PT, na mais marcante derrota do governo Lula. No final de semana, segundo assessores, Severino decidiu renunciar ao cargo e ao mandato. O discurso da renúncia foi marcado para esta quarta 21. Na segunda à tarde ele seria recebido pelo presidente Lula. Um dos motivos: negociar a permanência de aliados em cargos federais.
A crise mudou a vida de seus protagonistas
Os escândalos mudaram a vida de outros personagens da crise. O empresário Marcos Valério de Souza, apontado por Jefferson como o operador do "mensalão", foi indiciado por sonegação fiscal, crime contra o sistema financeiro e lavagem de dinheiro. O ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, acusado de ser o comandante do "mensalão", também foi indiciado, entre outros crimes, por lavagem de dinheiro e sonegação fiscal.
José Genoíno, que assinou com Delúbio empréstimo no Banco Rural, deixou a presidência do PT nacional e foi indiciado por crime contra o sistema financeiro e lavagem de dinheiro. Sílvio Pereira, acusado de montar esquema em estatais para beneficar o PT, teve de deixar a secretaria-geral. O publicitário Duda Mendonça, que recebeu R$ 11,5 milhões do caixa 2 (sem registro) do PT em bancos no exterior, perdeu as contas publicitárias no governo federal (R$ 150 milhões) e pode ser condenado por crime contra o sistema financeiro e lavagem de dinheiro.
Envolvidos mantêm privilégios vitalícios
Ser cassado por corrupção não significa desamparo financeiro. No caso de Roberto Jefferson, que estava em seu sexto mandato, a cassação não lhe tira o direito a uma aposentadoria muito acima da média. Cálculo preliminar indica que ele receberia um salário vitalício de R$ 8,8 mil - quase 30 salários mínimos mensais. Jefferson não é o único a se beneficiar de privilégios. O deputado Severino Cavalcanti, instruiu advogados para tratar de sua aposentadoria antes de decidir se renunciaria ou não. O presidente do PL, ex-deputado Valdemar Costa Neto, após admitir que recebeu R$ 6 milhões do caixa 2 do PT - a acusação é de que recebeu mais de R$ 10 milhões -, renunciou ao mandato e encaminhou aposentadoria. Vai receber R$ 5,542 mil mensais. O ex-presidente do PT, ex-deputado José Genoíno, também tem direito a uma aposentadoria. Valor: cerca de R$ 8 mil.
CAMINHOS DA GASTRONOMIA ÍTALO-GAÚCHA
Ao chegarem no Rio Grande do Sul, em 1875, os imigrantes italianos, com poucos recursos, fizeram uso do que a natureza oferecia. A "gastronomia da miséria" foi sendo alterada por necessidade - com a escassez da caça, por exemplo, o menarrosto passou a ser feito com o galeto al primo canto - ou pelo aperfeiçoamento que a melhoria das condições econômicas permitiu. Alguns dos pratos com origem até no século V freqüentam hoje com assiduidade a mesa dos ítalo-gaúchos
Antônio Alberti
Pesquisador e empresário, italiano residente em Porto Alegre
A gastronomia italiana passa por numerosos acontecimentos, econômicos e políticos. As invasões estrangeiras, as viradas políticas por mão militar terminaram apenas com a I Guerra Mundial. As trocas comerciais e culturais entre territórios da península, os produtos e usos trazidos por invasores e pelos navegadores mercantes vênetos e genoveses, criaram uma culinária italiana diversificada e atraente.
A cozinha mediterrânea alcançou sua culminância nos quatro primeiros séculos da Era Cristã, até o início das invasões estrangeiras. Convergiam para Roma todos os produtos das regiões peninsulares e também dos países por ela dominados. Assim nasceu um grande circuito de trocas comerciais e experiências culinárias, que gravitavam no universal mercado de Roma, grande centro de consumo e irradiação cultural.
Nos tempos do Império Romano, havia na Europa duas civilizações com diferentes hábitos alimentares: a romana e a germânica. A romana tinha como produtos essenciais o pão, o azeite e o vinho. A germânica, que Roma considerava bárbara, eminentemente florestal e pastoril, ancorava sua alimentação na caça, no leite e nas frutas silvestres, sendo sua base alimentar a carne, a manteiga e a cerveja.
O modelo alimentar romano se reforçou com o advento do cristianismo, que tinha o pão e o vinho como matéria essencial do sacramento da Eucaristia e o azeite, como matéria essencial dos sacramentos do batismo, crisma, ordenação e unção dos enfermos. A partir da Baixa Idade Média, a Igreja adotou normas alimentares que influenciaram fortemente a gastronomia. Durante a Quaresma e às vésperas de festas solenes, preceituava abstenção de carnes e gorduras animais (manteiga, banha, toucinho), produtos que eram substituídos pelo peixe e pelo azeite, verduras e cereais.
Enfim, os bárbaros invadiram o Império Romano do Ocidente, impondo também sua cultura alimentar. Entre os pratos que nos legaram, há dois ainda amplamente consumidos, e um terceiro que nos chegou mediante o navegador veneziano Pietro Querini, no XV século. Conheça-os à esquerda da página.
Culinária milenar sofre adaptações pela necessidade dos imigrantes
Já nos tempos do Império Romano se encontram na Itália textos de gastronomia. Famosa é a coleção em dez volumes De Re Coquinaria, de Apício Marco Gávio, que viveu no século I da nossa era. Entre os muitos pratos, esta obra cita a Puls, uma polenta preparada com cereais colocados de molho em água e cozidos como uma espécie de pizza (focaccia) mole. Mais tarde, passou-se a usar farinha de vários cereais, moídos num moinho construído por Numa Pompílio. Apício enumera receitas interessantes de Puls com queijos e carnes refinadas.
Importantes são os tratados da Alta Idade Média e do Renascimento, chegando ao famoso manual de gastronomia Artusi. Um dos primeiros foi o Liber Coquinaria, de autor desconhecido, publicado em Nápoles no século XII, que, entre suas receitas, cita a Mostarda de Cremona, que deveria ser retomada entre nós. No século XV, aparece o Libro della Cucina, de autor toscano anônimo, talvez de Siena, obra importante porque não era destinada, como as demais, a cozinheiros da corte, mas aos cozinheiros domésticos e de hosterias. Chegamos, finalmente, a Bartolomeo Sacchi, o Platino, cremonense, que registra peculiaridades culinárias de toda a Itália, dando particular ênfase ao queijo marzolino, da Toscana, e ao parmesão cispadano, da Lombardia, que considerava excelsos. Em 1570, Bartolomeo Scappi publicou em Veneza o quarto volume de sua monumental obra, onde valoriza muito os famosos mercados de peixe do Vêneto e a utilização deste ingrediente em receitas regionais.
Imigrantes - A gastronomia regional italiana estava definida e codificada em 1875, quando emigrantes italianos partiram para o Rio Grande do Sul. Chegando em maio de 1875, viveram algum tempo com o pouco que ganhavam trabalhando na abertura de estradas. Com esses parcos proventos compravam gêneros de primeiríssima necessidade, e faziam uso daquilo que a natureza lhes oferecia. Iniciou-se, assim, uma nova gastronomia da miséria, reformulada e aperfeiçoada com o tempo e a melhora da situação produtiva e econômica. Nas áreas em que os emigrados eram locados em seus lotes, além de uma babel de falas peninsulares, existia uma gastronomia heterogênea, ligada aos territórios de origem dos imigrantes. Abaixo estão algumas das primeiras e principais receitas obtidas com o que os imigrantes retiravam da generosa natureza. Acima, à direita, outras receitas, de tradicionais massas a embutidos.
O LEGADO DOS BÁRBAROS
POLENTA COM BISSATO (Vêneto)
No século V, os hunos de Átila entraram na Itália. Como era hábito entre estes povos, fixaram-se próximo a uma grande extensão de água. Acamparam no delta do rio Pó, às margens da Lagoa de Comacchio, rica em peixes, sobretudo enguias. Com fibras vegetais, trançavam redes bem apertadas, e construíam câmaras fechadas dentro das quais as enguias ficavam presas, alimentando-se e engordando. Retiravam-nas de acordo com a necessidade. Criaram o prato Polenta de trigo sarraceno com bissato. O milho só chegou à Itália 1.100 anos depois.
As enguias, peladas e cortadas em pedaços, eram cozidas em gordura animal, aromatizadas com vinho branco, ervas aromáticas e temperos (alecrim, louro, cebola, alho e vinagre de vinho). Enguias com bissato é prato servido hoje ainda na maioria dos restaurantes do Vêneto. Como há carência de enguias nos rios brasileiros, para a preparação deste prato, no Rio Grande do Sul, pode-se substituir as enguias por muçuns (enguias de água doce), filés ou postas de tilápia, carpa ou peixe-gato.
MINESTRONE À MILANESA (Lombardia)
Os burgundos eram um povo germânico, estabelecido às margens do Mar Báltico. Tentaram várias invasões: da Gália, sem sucesso; da Bélgica, foram derrotados, no ano 278. Instalaram-se, então, às margens do rio Reno e fizeram aliança com Roma, sendo massacrados pelos hunos em 436. Dirigiram-se, anos depois, para Sabóia e, em 444, ocuparam a Burgúndia (donde o nome burgundos). Depois desceram em direção à Lombardia, rica em rios e lagos, cujas florestas eram habitadas por porcos-do-mato e javalis. Nas planícies, encostas, colinas, montanhas e margens de rios havia muita verdura silvestre, legumes e raízes, e verduras e cereais cultivados. Convivendo em harmonia com os nativos, permaneceram muito tempo nessa região, deixando como legado culinário, entre outras iguarias, o Minestrone à milanesa, feito de ervilhas frescas, feijões, repolho, abobrinhas, batatas, cenouras, salsão, cebola, alho, salsinha, sálvia e manjericão, manteiga, banha de porco com pele, arroz e sal. Àquela época, o arroz ainda não havia chegado à Europa. Então, os burgundos faziam pequenas bolinhas de farinha de trigo parecidas com o arroz.
BACALHAU À VICENTINA (Vêneto)
Pietro Querini, navegador veneziano nascido em Sandrigo, Vicenza, em 1431 dirigia-se à Bélgica (Flandres), no comando de uma galera vêneta. No golfo de Biscaia foi surpreendido por forte tempestade, que destruiu o timão de seu navio. Navegou à deriva por longo tempo e foi levado pela tempestade em direção ao Atlântico Norte. Naufragando na ilha de Lofoten, próxima do paralelo 75 norte, por vários dias foi obrigado a se alimentar da carne de uma merluza de quase 150 kg que encontrou na praia e que se conservou por causa do frio.
Depois de vários dias, apareceram barquinhos com homens grandes e louros que viram a fumaça de seu acampamento. Esses homens levaram Querini a uma ilha maior, a 10 milhas de distância. Querini e os sobreviventes viveram com os nativos em tal harmonia que, ao retornar anos depois, descobriram que haviam deixado na aldeia vários herdeiros. Os nativos viviam de pesca, e os venezianos se interessaram pelo produto típico deles: uma merluza eviscerada, decapitada e posta para secar ao sol sobre treliças de madeira. Como o frio impedisse que o peixe estragasse, não era necessário sal para a conservação.
Retornando a Veneza em 1432, Querini e seus companheiros trouxeram consigo grande quantidade de bacalhau que, desde então, entrou na culinária vêneta, especialmente na de Vicenza, cidade que dá nome à receita. Dessa época, data o início das relações comerciais e afetivas entre os noruegueses e a cidade de Sandrigo, relações tão amigáveis que uma ilha daquele arquipélago leva o nome desta cidadezinha, na qual se fundou a Confraternità dello Stoccafisso alla Vicentina (Fraternidade do Bacalhau à moda de Vicenza), para celebrar este prato fundador da culinária vêneta, em fraterno encontro de noruegueses e vênetos. Desde então, perdura a exportação de bacalhau dessas ilhas para o Vêneto, e para o resto da Itália, responsável pela importação de 90% da produção deste apreciadíssimo peixe seco.
DA GENEROSA NATUREZA AO PRATO
FUNGHI (cogumelos) - Pa-ra felicidade dos imigrantes, os funghi eram abundantes na mata e no campo. Logo começaram a colhê-los e prepará-los de diferentes maneiras: grelhados sobre brasa; em molho, para acompanhar a polenta; fritos no toucinho e de muitas outras maneiras. Infelizmente, algumas variedades não eram comestíveis, e sua ingestão levou a inesperados óbitos. A notícia se espalhou rapidamente, e o preparo de funghi caiu em desuso.
PINHÃO - Fruto da araucária, mais graúdo e com a consistência de uma castanha, era assado na brasa ou cozido, como se assam e cozinham as castanhas. Por falta de panelas, cozinhava-se o pinhão em latas de querosene. Mas dava também para fazer macarrão de pinhões. Os pinhões eram cozidos, tirados da casca e amassados. À massa do pinhão, com ovos se os havia, dava-se a forma de espaguete, e temperava-se com diferentes molhos.
FLORES DE ABÓBORA (fiori di zucca) - Depois de retirado o pistilo, as flores de abóbora eram passadas numa massinha de farinha e água e depois fritas no toucinho. Ou passadas em ovos batidos, pão seco ralado e fritas no toucinho ou na manteiga. Talvez o primeiro prato típico do imigrante, que festejava o florescer da aboboreira. Era acompanhamento da polenta. Na Itália, se utilizam as flores de abóbora empanadas, em risotos, recheadas...
ALMEIRÃO (radite), dente-de-leão (pissacan) e ervas aromáticas silvestres eram abundantes. Depois de cozidos na água e bem torcidos, eram cortados finos, passados na frigideira com banha, ou toucinho, ou azeite, com alho e pimenta. Com polenta mole ou brustolada era excelente refeição. Crus, eram temperados com cubinhos de toucinho, fritos até dourar, quando se acrescentava o sal e vinagre, e se espalhava este preparado bem quente sobre o radite, mexendo bem. Comia-se com polenta mole, brustolada, ou com carnes e outros pratos.
CREN (raiz forte de origem européia) - Os imigrantes ralavam a raiz forte silvestre, deixavam curtir três ou quatro colheradas num copo com vinagre de vinho tinto. Hoje, o bom cren é triturado no liquidificador. Num copo de raiz forte, vão duas ou três colheres de vinagre de vinho branco e uma colher de açúcar. A mistura deve ter a consistência de uma pasta, quase como uma mostarda.
HABILIDADE E CRIATIVIDADE
POLENTA - A primeira farinha obtinha-se pilando o milho até ficar bem fina, depois se peneirava. Colocava-se farinha peneirada num saquinho branco, que era imergido na água fervente, obtendo-se a inicial polenta dos imigrantes. Nem sempre a farinha cozinhava direito. Essa polenta, com algum acompanhamento, fazia a refeição da família. Com o ingresso dos moinhos de pedra, que faziam farinha mais fina, e com a chegada da caldrola de ferro-gusa ou de cobre, começou-se a fazer a polenta como no norte da Itália. As formas de consumo eram variadas: polenta e passarinho frito ou em molho, ou a menarrosto; polenta mole e leite; polenta e queijo in natura ou frito, com salame in natura ou frito; com codeguino lesso, com radici-coti; polenta e galinha em molho; polenta brustolada e fritada, com vinho ou café...
CODEGHINO (coteghino) - Era preparado com língua, coração, carnes da cabeça do porco, restos e pele cozida. Moia-se, punha-se sal e pimenta, e se ensacava a massa em forma de salame. Deixava-se macerar uns dias, depois se cozinhava na água, servia-se com polenta mole e verduras.
MORCELA (sanguinaccio) - Ao sangue de porco apenas colhido, juntava-se sal, salsa, cebolinha, sálvia, alecrim, alho, louro, bem picados, acrescentando-se noz-moscada, pimenta e canela moídos. Colocava-se nessa mistura a membrana que cobre o estômago do porco, ensacava-se a massa em tripa de bovino ou na pele do pescoço de galinha, e se cozinhava na água.
CAPPELLETTI - A massa dos cappelletti era preparada com farinha de trigo, água morna, ovos e sal, e aberta bem fina. O recheio era o mesmo do pien. A massa aberta era cortada em quadradinhos, colocava-se um pouco do recheio ao centro e se fechava fazendo primeiro um triângulo para depois unir as pontas. Os capelletti eram cozidos num bom caldo de galinha. Na Itália, hoje, o recheio é feito com carne de frango, de porco, de vitelo, mortadela..., com queijo, ovos e noz-moscada.
GALETO - Escasseando a caça, em especial de pombos-do-mato, perdizes, rolas, sabiás, e as famosas passarinhas, para substituir o tradicional menarrosto di uccelletti (assado de passarinhos na grelha, ou passarinhada), os imigrantes inventaram o galeto al primo canto. Tomava-se um franguinho novíssimo, tenro, de cerca de meio quilo, se temperava com os mesmos ingredientes das carnes de caça - sálvia, alecrim, alho - e sobre ele derramava-se um bom vinho. Este prato é um sucesso ainda hoje em todo o Brasil, acompanhado de massas, polenta mole, frita ou brustolada, e radite temperado com bacon frito, sal e vinagre.
TORTEI DE ABÓBORA (raviolis grandes de abóbora) - Este prato foi trazido pelos imigrantes mantovanos. Na receita original, o recheio era composto de polpa de abóbora assada no forno, biscoitos de tipo amaretti em pedaços, mostarda de Cremona finamente triturada, queijo ralado, noz-moscada. A massa devia ser bem fina. No Brasil, os tortei eram feitos com os ingredientes disponíveis: massa não muito fina, polpa de abóbora, noz-moscada, queijo ralado. O molho que acompanha é feito com extrato de tomate e queijo ralado. Podemos chamá-los de primos pobres do grande prato mantovano.
Bento XVI canoniza sacerdote chileno
Igreja Católica vai ter mais cinco santos e 26 bem-aventurados
O calendário das celebrações litúrgicas de outubro e novembro prevê a canonização de cinco bem-aventurados e a beatificação de 26 servos de Deus. A primeira cerimônia ocorre no dia 9 de outubro, quando será beatificado na basílica de São Pedro, em Roma, Clemente Augusto Von Galen, cardeal de Münster, Alemanha, morto em 1946.
No dia 23 de outubro, no encerramento do Sínodo sobre a Eucaristia, o Papa Bento XVI presidirá, em Roma, a canonização de cinco bem-aventurados. Um é o italiano frei Felice da Nicosia (Giacomo Amoroso, 1715-1787), religioso capuchinho que durante mais de 40 anos ofereceu seu serviço de mendicante realizando um apostolado itinerante na região da Sicília. "Analfabeto, teve a ciência da caridade e da humildade", recordou o cardeal José Saraiva Martins, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos.
Bento XVI canoniza também o jesuíta chileno Alberto Hurtado Cruchaga (1901-1952), uma das figuras mais destacadas da história da Igreja Católica do Chile. Como sacerdote, dedicou-se ao apostolado entre os jovens e à educação. Foi assistente da Ação Católica e fundou o "Lar de Cristo", instituto de auxílio aos pobres sem teto.
Dos futuros santos dois são poloneses: Józef Bilczewski (1860-1923), arcebispo de Lviv dos Latinos (Ucrânia), e Zygmunt Gorazdowski (1845-1920), sacerdote diocesano, fundador da Congregação das Irmãs de São José, autor de um célebre catecismo para o povo e promotor de numerosas obras para jovens, enfermos e pobres. O quinto santo é o italiano Gaetano Cantanoso (1879-1963), sacerdote fundador da congregação das Verônicas do Rosto Santo, capelão de hospitais e confessor de vários institutos religiosos.
Mártires - No dia 29 de outubro, na basílica vaticana, serão beatificados os sacerdotes José Tapies Sirvant e seis companheiros mártires da Guerra Civil Espanhola, mortos em 1936; e Maria de los Angeles Ginard Martí, religiosa das Observadoras do Culto Eucarístico, também martirizada durante a guerra espanhola, em 1936.
Em novembro, serão três as cerimônias de beatificação. No dia 6, em Vicenza, Itália, será beatificada Eurosia Fabris, mãe de família, membro da Ordem Franciscana Secular, morta em 1932. No dia 13, em Roma, serão elevados à glória dos altares Charles de Foucauld (matéria abaixo); Maria Pia Mastena (✝1951), fundadora dos Instituto das Irmãs do Santo Rosto; e Maria Crocifissa Curcio (✝1957), fundadora das Carmelitas Missionárias de Santa Teresa do Menino Jesus.
No dia 20, em Guadalajara, no México, serão beatificados os mexicanos José Trinidad Rangel e Andrés Solá Molist, sacerdotes, e Leonardo Pérez, leigo, martirizados em 1927. Na mesma cerimônia, serão beatificados Darío Acosta Zurita, padre diocesano, morto em 1931, e Anacleto González Flores e sete companheiros, além de José Sánchez do Rio, todos leigos, que perderam a vida entre 1927 e 1928.
Somente a cerimônia de canonização do dia 23 de outubro será presidida pelo Papa Bento XVI. As outras serão por cardeais designados pelo Santo Padre.
Charles de Foucauld, o homem do deserto
Uma das próximas beatificações mais significativas é a de Charles de Foucauld, sacerdote francês que nasceu em Estrasburgo em 1858 e morreu assassinado no dia 1º de dezembro de 1916, aos 58 anos, numa emboscada em Hoggar, no Saara.
Em 1883 empreendeu uma expedição ao deserto de Marrocos, no norte da África, que lhe valeu a medalha de ouro da Sociedade de Geografia. Três anos depois converteu-se ao catolicismo. Após uma experiência como trapista na Síria e como eremita em Nazaré, foi ordenado sacerdote em 1901. Foi viver no coração do deserto do Saara, em Tamanrasset (Hoggar), entre os tuaregues. Em torno dele surgiu a comunidade dos Irmãozinhos de Jesus. Dez congregações religiosas e oito associações de vida espiritual surgiram do testemunho e carisma de Charles de Foucauld.
Padre Zezinho
Se você ainda se considera católico, experimente ouvir também a sua Igreja
É mais do que ouvir o Papa e os bispos. Ouvir a Igreja é muito mais do que isso. Quando quer um filho e está difícil concebê-lo, o casal vai ao médico. Quando aparece no corpo algo que não conseguem explicar e que as incomodam ou assustam, as pessoas vão ao especialista.
Quando o filho apresenta distúrbios de comportamento, ou elas mesmas apresentam sintomas estranhos de conduta, ouvem o psicólogo ou o psiquiatra.
E quando não deu certo com aquele médico os pais ouvem outro. Há médicos que acertam e médicos que erram, mas os médicos em geral sabem mais. Por isso são ouvidos. E tranqüilizam a família e o paciente. Às vezes precisam intervir. A família e o paciente então aceitam a cirurgia.
O que você faz quando precisa de opinião sobre sua vida? E quando quer saber sobre algum assunto de espiritualidade? E quando a fé entra em crise? Você admite que pode haver especialistas em alma e sentimentos? E admite que alguém possa entender de comportamento humano à luz da fé? E pode haver quem saiba mais do que você sobre Bíblia e Igreja? Ouvir a Igreja é admitir que padres, teólogos, pessoas que estudaram a fé podem lhe dar respostas mais claras sobre sua Igreja e sobre você.
Se acha que só psicólogos e psiquiatras podem ajudá-lo vá somente a eles. Você em geral nunca pergunta se pecam ou não pecam, se vivem bem ou mal, se estão felizes ou não em seus lares.
Vai e fala e ouve e paga. Porque os acha competentes para ouvi-lo e conversar com você. E em geral, são mesmo. Gente séria e sincera.
Mas bispos e padres merecem uma chance. Não são todos incompetentes. Se não acha nenhum sacerdote digno de você não procure nenhum. Mas é muita dureza sua achar que ninguém na sua Igreja é sério e sincero. Está certo que padres e bispos e até o Papa assumem posições que você não aceita. Mas negar-lhes competência é outra história.
Se você ainda se considera católico, experimente ouvir também a sua Igreja. Ela tem livros, jornais, revistas e pessoas de cabeça bem serena cujo intuito é ajudar você. Sua Igreja não está assim tão mal que só os reverendos e os médicos lhe sirvam. Dê um jeito nesta revolta, meu amigo. Experimente ouvir a sua Igreja. Mesmo que ela não diga o que você gostaria de ouvir. Ela tem coisas interessantíssimas a lhe dizer. É só saber a que ‘médico’ ir. Procure os bons padres. A Igreja os tem!
Capuchinhos acolhem novos frades
Durante profissão, dia 4 de outubro, 14 jovens ingressam no noviciado
No dia 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis, será realizada às 10h30 no santuário Nossa Senhora de Lourdes, em Marau (RS), a primeira profissão religiosa de oito noviços capuchinhos. A cerimônia será presidida pelo provincial, frei Álvaro Mores, com a presença de frei Evaldo Freitas, definidor da formação inicial; de frei Lori Vergani, mestre de noviços; de confrades, familiares e amigos.
Professam os freis Abel Noël e Cadelin Prosper, do Haiti; Juan José Acosta e Samuel de Jesús Placencia, de Santo Domingo; Edgar Jardim Bairros (Bagé), Gefferson Silva da Silveira (São José do Norte), Marciano Omar Moterle (São João da Urtiga) e Nilo Cardoso Trindade (Bagé). Os noviços escolheram para lema de sua profissão "Como barro nas mãos do oleiro, assim estão vocês em minhas mãos" (Jr 18,6).
No mesmo dia da profissão dos oito novos frades ingressam no noviciado 14 jovens, cinco dos quais da vice-província da República Dominicana e do Haiti. Os futuros noviços são Samuel Halin David Ramirez (dominicano), Jean Baptiste Bazelais, Emmanuel Bristol, Julien Sylvain e Jean Renaud Vilmar (haitianos), Alisson Brunetto (Xanxerê-SC), Carlos Júnior dos Santos (Marau-RS), Francisco Ruas Neto (Nova Alvorada-RS), Gabriel Francisco Cavalli (Rondinha-RS), José Claudemir Borges (Lagoão-RS), Laércio Dumunelli da Luz (Nova Veneza-SC), Maicon Boccalon (Nova Bassano-RS), Márcio Bacchi (Sananduva-RS) e Roberson Chiarentin (Ibiraiaras-RS).
Ferramentas - Frei Lori explica que o ano de noviciado tem como objetivo "dar elementos (ferramentas) ao candidato à vida capuchinha para que ele trabalhe sua vida interior e, em conseqüência, suas atitudes exteriores, em nível de maturidade humana, psicológica, relacional, espiritual e mesmo intelectual". Ao longo do noviciado são oferecidas aos jovens sessões como afetividade & sexualidade, leitura da história da própria vida, estudos franciscanos, psicologia na vida religiosa, história da vida consagrada, liturgia, Bíblia etc.
Os noviços também fazem experiências de solidão, realizadas nos dias de retiro mensal, experiências de eremitério (a pessoa retira-se, por alguns dias, para melhor conhecer-se e confrontar-se com seus sentimentos, desejos e aspirações e, sobretudo, para verificar seu projeto de vida). "Isso não significa que no final do noviciado a pessoa esteja completamente ajustada, em todos os níveis, mas teve elementos que permitiram o amadurecimento quanto à direção que deseja dar a sua vida", diz frei Lori.
Também não significa que depois de um ano de noviciado todos serão necessariamente freis capuchinhos, mas terão feito um discernimento vocacional adequado e maduro. Lori salienta que o importante não é ser religioso, mas sim viver e assumir a vocação pela qual cada um existe e viver com intensidade. "Quando a gente ama a vocação, que é uma beleza, a gente protege, cuida, cultiva para melhor realizar seu projeto", conclui o mestre.
Aldo Colombo
Basta um pouco de silêncio e de humildade para ouvir, de novo, a melodia dos sinos. Eles ecoam nas entrelinhas da história
Ninguém sabia exatamente quando. Em tempos perdidos nas brumas do passado, alguém havia construído uma pequena igreja. Numa colina rochosa, bem junto do mar, a pequena igreja dominava a vila dos pescadores. Uma janela colorida refletia o sol e sua torre era acariciada pelas brisas salgadas. Um sino de prata era a consciência da comunidade. Ele tocava em todas as ocasiões importantes: nas festas, quando se aproximava uma tempestade, quando nascia ou morria alguém...
Numa noite carregada de tempestades, as ondas foram além das praias e - na manhã seguinte - os pescadores deram-se conta de que a igreja desaparecera, estava no fundo do mar. A comunidade perdera sua referência. Todos tinham saudade e necessidade da igreja e de seu sino abençoado.
Passou algum tempo e começou-se a comentar baixinho que alguém escutara o toque dos sinos. E aos poucos, mais gente começou a ouvir a melodia. Nem sempre era igual. Por vezes, os sinos soavam quando os últimos raios de sol enfeitiçavam o mar. Outras vezes, os misteriosos sinos anunciavam uma tempestade. Um dia, um velho pescador morreu e muitos escutaram a voz dos sinos. Houve mesmo quem - desgostoso da vida - decidira afogar-se. E apenas seus pés pisaram as águas mornas, os sinos soaram, de maneira perceptível, fazendo que ele mudasse sua decisão.
Os anos passaram e, antes de qualquer decisão, alguém se aproximava respeitosamente do mar para escutar a voz dos sinos. Era o velho sino, da velha igreja, que continuava a se manifestar, de algum ponto longínquo. Os habitantes de outras localidades diziam que tudo era lenda, mas para os pescadores locais, era um fato real: os sinos ainda tocavam.
Lenda ou não, o fato ilustra uma situação muito comum nos dias de hoje. Diante do progresso e das luzes da ciência, diante da crescente subjetividade, muitos jogaram sua igreja interna no fundo do mar. Deus foi dispensado, por ser considerado inútil. Os anos passaram-se e muitos começaram a escutar, de novo, uma voz misteriosa, mas impossível de sufocar. Especialmente nas situações limites da vida, os sinos voltavam a tocar.
Velhas igrejas submersas no fundo dos corações, sedentos de eternidade, ainda tocam em intervalos regulares. Isso fez o escritor Ernest Hemingway admitir: "Creio em Deus, de vez em quando, sobretudo à noite".
A humanidade, empolgada com suas conquistas, com os milagres da técnica, proclamou-se auto-suficiente, para, em seguida, dar-se conta de sua pobreza. O homem é demasiadamente grande para bastar-se a si mesmo. E, depois de ver destruídas suas igrejas interiores, sentiu um vazio imenso. E, aos poucos, começou a ouvir, no interior de sua consciência, a voz de Deus.
Basta um pouco de silêncio e de humildade para escutar, de novo, a melodia dos sinos. Eles ecoam nas entrelinhas da história, eles ecoam nas tempestades e - sobretudo - ecoam em nossa consciência. Impossível ignorá-los.
Larrañaga ministra retiro espiritual
Encontro reúne guias do movimento Oficinas de Oração e Vida
De 2 a 10 de outubro, no Hotel Recanto Medianeira, em Veranópolis (RS), será realizado o retiro espiritual Encontro de Experiência com Deus, ministrado para as guias do movimento Oficinas de Oração e Vida do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. O retiro será assessorado pelo fundador das Oficinas de Oração e Vida, o sacerdote capuchinho Ignacio Larrañaga. Participam do encontro cerca de 170 guias.
"No retiro, frei Ignácio estará fortalecendo a espiritualidade das guias que orientam os grupos de Oficinas de Oração e Vida do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina", salienta Carmensita Rech Cavion, coordenadora das Oficinas de Oração e Vida de Caxias do Sul. Carmensita relata que, na diocese de Caxias, as Oficinas são realizadas duas vezes por ano, em Caxias do Sul e em Garibaldi. "Elas são destinadas a leigos que atuam na catequese e nas diversas outras pastorais. Cada Oficina é constituída de 15 encontros, durante 15 semanas".
Considerado um dos autores de maior difusão na literatura religiosa e de auto-ajuda, destacando-se entre suas numerosas obras o livro "Mostra-me teu rosto", que está na 58ª edição, frei Ignacio Larrañaga, que hoje vive no Chile, desenvolveu atividades apostólicas em diversos países da América Latina, América do Norte e Europa. Em 1984 fundou, com leigos espanhóis, o movimento Oficinas de Oração e Vida. Destinado a leigos que pretendem desenvolver sua espiritualidade através da oração e na vivência da palavra de Deus, o movimento foi aprovado pelo Papa João Paulo II no dia 4 de outubro de 2002. Hoje está presente em mais de 40 países.
Dinâmicas - Larrañaga nasceu em 1928 na cidade de Azpeitia, na Espanha. Além de escritor e pregador de retiros espirituais, é autor de músicas e gravou várias fitas e CDs para orientação dos TOV (Talleres de Oración y Vida), as Oficinas de Oração e Vida, movimento espiritual que leva os leigos a percorrer o caminho do "encanto de Deus ao encanto da vida", como sintetiza frei Ignacio.
Carmensita Cavion explica que, nos 15 encontros das Oficinas, "o participante aprende a rezar através de dinâmicas próprias, com modalidades semanais de oração, buscando para si aquelas com as quais mais se identifica, sempre ligadas com a palavra de Deus". Mais informações sobre o movimento pelos telefones (54) 227.2368, 1916 ou 2598, em Caxias do Sul; e (54) 462.1965, em Garibaldi.
Brasil distribui nove milhões de Bíblias
Segundo as mais recentes estatísticas, entre 1979 e 2004 foram distribuídos no Brasil cerca de 9,3 milhões de exemplares da Bíblia da Criança, publicada pela associação católica internacional Ajuda à Igreja que Sofre (AIS). Conforme o diretor do escritório brasileiro da AIS, José Correa, "o Brasil é o maior consumidor do mundo desta obra, que resulta muito útil para a evangelização". O livro é muito utilizado entre as comunidades pobres.
Regional Sul 3 estimula ação missionária
O Regional Sul 3 da CNBB promove, dias 1 e 2 de outubro, o Encontro de Formação e Animação Missionária. Realizado pelo Setor de Animação Missionária das 17 dioceses do Rio Grande do Sul, pretende estimular a dimensão missionária nas paróquias e comunidades católicas do Estado. Ao mesmo tempo, estimular a consciência para a importância do compromisso com a ação evangelizadora em outras regiões do país e do mundo.
O bispo responsável por esse setor, dom Pedro Sbalchiero, da diocese de Vacaria, destaca que a Igreja no RS precisa ampliar a sensibilidade para o trabalho missionário. Os representantes das dioceses vão partilhar as iniciativas existentes no Estado e definir ações conjuntas para a Igreja nesse campo de sua missão. Também participam do encontro representantes da região norte do Brasil, que trabalham no projeto de evangelização da Amazônia.
Wilson João
A utopia de uma sociedade sem lobos só ocorre na família, na vizinhança, nas pequenas comunidades
Todos conhecem o lobo e o cordeiro. Ao menos em figuras ou em programas de televisão. O lobo é símbolo da maldade, do poder e da destruição. O cordeiro é o símbolo da mansidão e da paz. Muitas histórias foram montadas com esses dois símbolos. Muitas outras serão construídas, porque esses animais simbolizam nossa humanidade lobo e cordeiro. Humanidade formada de lobos e cordeiros. A sociedade atual está construindo novas histórias de lobos e cordeiros. Sempre há lobos procurando cordeiros para desculpar-se ou para esconder sua fome de poder e destruição. Como nos tempos passados, as fogueiras estão acesas. Esperando vítimas. É preciso encontrar bruxas para justificar as queimas e a fome de poder. É preciso encontrar cordeiros que se calem ou agüentem as mentiras, as denúncias falsas e as trapaças dos lobos.
LOBOS SE ENTENDEM COM LOBOS. Uma organização de sociedade democrática entre lobos e cordeiros não é possível, e nem pode existir. Mesmo sendo os cordeiros em número muito maior, não agüentarão a pressão e o poder destruidor dos lobos. Os cordeiros serão sempre culpados por tudo o que acontece na sociedade. No final dos fatos há sempre um lobo comendo um cordeiro, justificando que ele é o culpado. Vivemos num Brasil, numa sociedade, numa comunidade bem pertinho de nós. Sabemos distinguir os lobos e os cordeiros? Ou pior, não fazemos parte da matilha de lobos que se apresentam com aparência de cordeiros? Não fazemos parte, inocentemente ou maldosamente, dos lobos que sempre tentam mandar em nosso Brasil e em nossa comunidade? Uma democracia entre lobos é possível. Eles se defendem entre si e se apóiam.
CORDEIROS SE ENTENDEM COM CORDEIROS. Uma sociedade entre cordeiros é possível. Há um equilíbrio de poder entre eles. Todos se aceitam como iguais e se defendem uns aos outros. Não terão que se defender contra os lobos. Vivemos num Brasil, numa comunidade, onde estão presentes os cordeiros. Defendemos os cordeiros? Defendemos os sem teto e sem terra, os sem saúde e sem remédio, os sem trabalho e sem alimentos, os sem voz e sem vez, ou também fazemos parte dos lobos que, através dos meios de comunicação e da política, diariamente estão condenando e culpando os cordeiros pela desordem social? Se estamos no lado dos acusadores, é sinal evidente que fazemos parte da matilha dos lobos.
CRER NUMA SOCIEDADE SEM LOBOS. É possível. Não em nível mundial e nem nacional. Onde está a corrupção ali estão os lobos. Nem em nível de sociedade grande. Podemos sonhar a utopia de uma sociedade sem lobos somente ali pertinho de nós. Ali na comunidade pequena, na vizinhança, na família, no ambiente de trabalho, podemos criar um clima de paraíso e de um novo céu e nova terra. Que bonito o patrão sentar-se junto com o operário, o pai junto com o filho, o vizinho com o vizinho! É possível! Há experiências lindas, em tamanho pequeno, de eliminação de diferenças entre lobos e cordeiros, onde se pode criar uma sociedade de irmãos e irmãs, que se respeitam e se amam. Esse é o sonho de Deus. O sonho que toda pessoa humana normal sonha junto com Deus.
O italiano e o frade que estão em mim
Frei Gregório Bonatto
Capuchinho, músico e escritor, Campo Grande-MS
Aos 90 anos, frei Gregório, recordando sua vocação e suas origens, afirma:
"Bernardo e Luísa Bonatto possuíam uma bem fornida e popular loja na bela Veneza. Costumavam visitar amigos e parentes. Resolveram, um dia, dar alce ao seu coração e jogar tri-sete, divertido jogo de cartas, acompanhado de guloseimas, alçando copos de bom vinho e cantando: "El bon vin fa sangue bon," e: "Vino, vinarelo, come sei belo! Per la tua condana, va giù per questa cana." A primeira jogada todos queriam perder, porque, diziam:
- "Chi fa el prin, paga el vin." - Era jogar para brincar e bom vinho tomar!
Um dia, uma batida forte na porta, o que será?
- A casa do Bernardo Bonatto está em chamas. Socorro! Socorro! - Grita apressado alguém espantado. Desastre fatal! Três crianças queimadas! Casa em ruínas. Nada sobrou.
E agora, José?... O casal, imerso na tristeza, pediu ao governo uma passagem no navio América para o Brasil. Luísa estava grávida do meu pai João, ao qual deu a luz após 15 dias de viagem, exclamando, entre as dores do parto:
- "Fin che la dura, mai paura. Se Dio el vol così, pian pian se va lontan." E recordava:
- "Joanin el ze vegnesto forte e bel, parché l’aqua del mar e el late de so mama ghe ga fato ben."
Em 1893 estavam em Protásio Alves-RS, entre matos e pinheirais, plantando milho e parreirais. Em tempo de casar, João bandeou sua vista a Matilde, filha do também veneziano Pio Bresolin. Um ano depois de casados, colocaram no mundo um bambinon bel e forte, que no batismo deram o nome de Davi, primeiro de 11 filhos.
Cresci gostando de caça, pesca, sempre cobiçando a gaitinha do papai. Aos 10 anos, fiz a primeira comunhão. O tio Antônio Bonatto acompanhava todos os meus passos.
Em 1925, chegaram a Protásio Alves os capuchinhos, freis José Cherubini, Gentil Giacomel e Paulino Bernardi. Eu, com dez anos, admirava sua fala, barba, sandálias, hábito..., sobretudo ouvi-los cantar:
- Louvando Maria..., com o estribilho - Ave, Ave, Ave Maria!
Fui dizer ao tio Antônio:
- Vui esser frate anca mi! E a nona Luísa rezava o terço para eu ficar padre de fato. Mas meu pai, ao contrário da mãe, não concordava. Me queria na roça, nas pescadas e nos bailes, tocando gaitinha. Aos 12 anos, um dia em que o pai fora ao moinho, chegou o tio Antônio, a cavalo, e lá me fui, na garupa, para o Seminário de Veranópolis, sem dinheiro, sem nada, levando só a vontade de ser padre, como os pais só trouxeram da Itália a vontade de trabalhar. Era 1927, no Seminário havia 150 meninos. Frei João Crisóstomo Pilatti me apresentou à turma:
- Aqui está mais um guri, pena que não sabe ler, nem escrever, e já tem 12 anos. Ambrósio, o aluno mais adiantado, me recebeu como aluno seu, ensinou-me a ler e escrever. Rezando a Maria e devoto da Eucaristia, em 1940 eu era padre.
Sem medo de tempos e contratempos, cultivando a música, ao ingressar na Ordem dos Capuchinhos escolhi o nome Frei Gregório, em homenagem ao papa Gregório Magno, que reformou a música sacra, e lá me fui pregar o Evangelho em Votuporanga-SP, e, a partir de 1957, missionário no Mato Grosso.
Faço o que posso, hoje ainda, na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, de Campo Grande, construída e formada por mim em 1962, sob as orientações de dom Antônio Barbosa. Nesta bendita terra, vivo minhas 90 primaveras assobiando vaneiras, porque em meu coração gregoriano, circula, forte e puro, o sangue veneziano".
Frei Gregório vive sonhando, e sonha cantando. E nós, com sua bênção, seguimos caminhando! (Rovílio Costa)
EL RITORNO DE NANETTO PIPETTA (327)
Riva la ora de esser paron de quel che se vol comprar
Silvino Santin
Santa Maria (RS)
Pena messo el pié fora del porteleto, el intaca la pipa, el ràngia el capel meso de banda che’l pendea verso na récia, nò ben in medo la testa, un segnal, par lu, de pròsia. Dopo el mete la man in scarsela dela giacheta par veder se i soldi i gera ncora là. Lora, tuto a posto, el scomìssia pensarghe sora le robe che’l volea comprarse. E el ze giusto lì che’l se nicorde che’l gera sensa la so maleta. Ostregon che son, la go desmentegà là de Zacheo. Me toca ndar torla, sinò ndove meter rento le me compre!
El se ferma de colpo par veder che diression el dovea ciapar par rivar a la casa de Zacheo. E adesso, el varda de na banda e de quelatra fin che’l vede un cason alto che, par lu, nantro poco el rivaria al paradiso, e el se ricorda che Zacheo el ghe gavea dito, che lu el stea darente, un poco pi in zo.
Adesso me toca far presto, caminar sguelto senò no finisso de far i me laori. E cossita el sverde el passo, ma sempre atento ai auti co na paura maledeta che i lo struchesse soto le rode. I core massa. Veri sassini de strade. Ghe volaria che i sbusesse i quatri penei, nò sol un, par veder se no i impararia corer manco e rispetar quei che camina.
El riva casa de Zacheo, el cata solche a serva, i altri i gera ndai drio i so afari, ma Zacheo el gavea lassà dito che l’era par darghe la maleta. Nanetto el pensa, come che no’l se gavea mai ricordà che l’era sensa maleta, ma, far che, la pol capitàrghela a tuti. In soma, la ciapa, squasi la basa, ma lì no l’era el posto, el ghe dise un gràssie de cuore, un adio e racomandassion a Zacheo, e el parte squasi de corsa.
Da qua in vanti, le robe le diventea ncora più difìcile par Nanetto. Lu no l’era mai ndà far compre, solche qualche potàcio, un par de sinele o de tamanchi, el fumo par la pipa, qualche dolseto, dele volte na gasosa in te le feste de San Giusepe. Le scarpe le ga sempre mandà far soto misura. Le so robe la Catina, la mama dela Gelina, le cosia e anca la comprea la roba. La gera pròpio brava par cosir co la màchina portada del Itàlia. Incó l’era difarente, coi soldi in scarsela, el volea comprarse scarpe nove, na fatiota, na camisa, na sintura, mudande, un capel, e, el pedo, el volea far compre par la Gelina, no’l ghe gavea comprà mai gnente. Un giorno, el se dise: Riva la ora de scomissiar esser paron de quel che se vol comprar, questo giorno ze incó. E finio.
Primo punto, catar la casa de negòssio che la gàpia tuto quel che mi vui. No me piase ndar rento par una e fora par quelaltra, compra na coseta qua, nantra là. Anca no vui quele bodeghete co le tosate tute profumade, le parla de na maniera che no se le capisse.
Secondo punto, gnente de porte mis-teriose, che le se verde e le se sara ele sole. Mi vui de quele case de negòssio come se catea vanti che me neghesse, meio, squasi negà.
E Nanetto camina e camina in serca de sta casa de negòssio. Tuto moderno. El dimanda a un, dimanda al altro. Metà no i capia quel che Nanetto el volea. Quei che i capia, i ghe disea che quel tipo de vende, no ghin gera pi. Romai l’era squasi disperà e stufo de tanto caminar e dimandar, quando el trova na veceta che lo capisse e la ghe dise che ghe ze giusto na casa de negòssio come lu el vol, fursi la ùltima de Cassia, quatrossento metri avanti, a la sanca.
Nanetto la ringràssia diese volte, e el se la tol pi che sguelto, intanto che’l pensea: che bona veceta, e saverlo che mi, tempo indrio, ghinò squasi copà una col me rivòlgite impiantà soto el naso sensa fare pun, ma par sorte la ga ressussità. Ma adesso go fato giudìssio.
Rovílio Costa e Arlindo Battistel
El bagno de farina de mìlio
Geraldo Sostizzo
Agente Consular Italiano, Cascavel - PR
Me fradel Casimiro, quel che noantri ghe ciameimo de Nene, se ga messo inteso con so compagni par ndar al cìnema in Veranópolis, tea sità. El paese restea distante da dove steimo sete chilòmetri.
Quando i go sentii parlar de cìnema, son restà tuto contento e ghe go domandà a Nene par ndar insieme con luri. Lu suito me ga dito de nò, parché no’l gavea soldi par pagarme el bilieto. Son restà inrabià e son ndato sentarme soto na pianta drio la casa.
Lu, tuto contento, el ze ndato zo tea fontana tor aqua par scaldarla, par dopo far el bagno. E mi là che roseghea grama de ràbia e con la testa piena de bruti pensieri. Volea farghe un dispeto, ma no savea cosa far.
El aqua gera belche calda, el ga impienio el laton, dove soto ghe gera un suvero de quei primi e quando se volea aqua, bisognea tirar na sogheta e vegnea zo el aqua, quando se la molea la se sarea. Lu el se lavea e sifolava de contento.
Son levà su e son ndato tea diression del laton de aqua, go vardà rento, ghe gera ancora meso palmo de aqua, go vardà inquà, innà, go batesto i oci tea casseta de farina de mìlio, quela de far la polenta. Go scoltà pimpianeto e go sentio che’l gera drio passarse la saoneta tel corpo e col aqua che ghe gera, lu el fenia de lavarse.
Vanti che el verdesse el aqua, go ciapà na sbrancada de farina, la go butada rento tel laton del aqua e go spetà na s-cianta. Quando el ga tirà la sogheta par darse la ùltima rasentada, ga scominsià cascarghe la farina belche moia tea testa.
Tela prima osada, mi gera belche su tea pianta sconto. El ga dato tre osade e me sorela ze corsa là par veder cosa gavea sucedesto e lo ga visto tuto pien de farina coi cavei tuti impastai e la schena giala de farina.
Ridendo la ze ndata méterghe nantro meso laton de aqua par fenir de lavarse. Quando el ze vegnesto fora del bagno, el ga vardà intorno la casa e mi gera sconto su tea pianta. Son vegnesto zo, sol dopo che l’è ndato via in sità. No’l me ga mai pi invità par ndar al cìnema, ma anca dopo de questa!
El telegrama
La sòcera la riva tel porton e la cata el gènero ndando via co la mala, furioso.
- Cossa galo sucedesto? la domanda.
- Sucede che mi son ndà viaiar e go invià un telegrama a la vostra fiola avisando che ritornaria oncó. Rivo a casa e cossa cato? Ela co nantro. Gnanca inviando un telegrama la me rispeta. El ze el fin. Son drio ndar via.
- Speta! la dise la sòcera. - Ga da esser qualche cossa sbaliada in questa stòria. La me fiola no la faria mai na stupidità de queste. Calma, che vao verificar.
Dopo arquanti minuti, ritorna la sòcera tuta contenta:
- No te gavea dito che ghe gera qualche cossa sbaliada? La me fiola la ga dito che no la ga ricevesto el to telegrama.
(Contribuission de Rafael Baldissera, Curitiba - PR)
FPM mobiliza os prefeitos
Encontro nacional será em Brasília
Os prefeitos de todo o país farão uma mobilização nacional em Brasília, nos dias 27 e 28 de setembro. O objetivo é pressionar os deputados para aprovarem os projetos que estão na pauta de votação, entre eles a Reforma Tributária, que inclui adição do 1% ao Fundo de Participação dos Municípios (FPM).
Outros pontos de debate são a substituição do Fundo Nacional de Desenvolvimento do Ensino Fundamental pelo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica, a aprovação da Reforma Tributária, a regulamentação da Emenda Constitucional 29 e a aprovação do Projeto de Lei 5296/05, que define o serviço de saneamento básico nos municípios.