LEITORES 

 DESCOBRINDO CAMINHOS

 

Desde 1909, onde o conteúdo faz a diferença.

Edição 4.957 - Ano 97 - Caxias do Sul-RS, 5 de outubro de 2005.

EDITORIAL

Referendo não atinge o cerne da violência

No dia 23 de outubro os eleitores brasileiros terão de opinar sobre uma falsa questão

 

Em princípio, toda a pessoa de bom senso deve ser a favor da paz e do desarmamento. Se queres a paz prepara a guerra, diziam os antigos. Mas ao longo da história, milhares de guerras demonstraram que o caminho da paz nunca foi conseguido pelas armas. Os 122 milhões de eleitores brasileiros, no dia 23 de outubro, terão de responder a uma falsa questão. Ou, pelo menos, apenas parcial. Na realidade vamos decidir se concordamos ou não com a suspensão da venda de armas e munições. Tanto o "Sim" como o "Não" apresentam argumentos que podem ser contestados. E passado o referendo, tudo deverá continuar como está, em matéria de violência. Ou pior.

O cidadão brasileiro não poderá opinar - como gostaria - sobre o desarmamento dos bandidos, sobre a venda ilegal de armas, sobre o tráfico de drogas, sobre uma polícia mal aparelhada, sobre a falta de emprego, sobre nosso sistema educacional, sobre uma maior rapidez da nossa justiça e sobre a escandalosa corrupção que assola o país. Isto significa que serão inúteis os 500 milhões de reais gastos pelos cofres públicos.

Mesmo sendo inócua a questão apresentada, o referendo pode ser um momento de conscientização sobre a sociedade brasileira. Mais importante que desarmar a população será desarmar o coração e tentar interromper as causas que geram a miséria, a insegurança e a marginalidade brasileira. A arma, sozinha, não mata. O ódio é a arma e a munição mais perigosa. E a perigosa insegurança que todos experimentamos afunda suas raízes na injustiça social, na falta de oportunidades, no desemprego, na corrupção que afeta nossas lideranças, nas precárias condições da justiça e na desagregação familiar.

Não será com mais armas, mais presídios, nem com maiores dispositivos de segurança que conseguiremos a desejada tranqüilidade. E nem a segurança virá com medidas defensivas totalmente individuais. A sociedade brasileira precisa ser repensada como um todo. Há mais de duas décadas, a voz profética do papa Paulo VI lembrava: se queres a paz, prepara a justiça. E Paulo VI não falava da justiça estritamente legal e, muitas vezes, imoral. Falava da justiça evangélica, uma justiça que não se fundamenta no medo e na repressão, mas no amor.

 

REGIÃO

Garibaldi valoriza os espumantes

Fenachamp inaugura e recebe 8.000 visitantes no 1º final de semana

 

A entrega da premiação do 4º Concurso do Espumante Fino Brasileiro, dia 8, é a principal atração do próximo final de semana da Festa Nacional do Champanha (Fenachamp), que estende até o próximo dia 16 em Garibaldi. O concurso é promovido pela Associação Brasileira de Enologia.

A programação destaca as tradições da região, com ênfase a shows, cultura e gastronomia típica, além de produtos que se harmonizam com o champanha. No total, 20 estandes reúnem 32 empresas vinícolas, responsáveis pela elaboração de mais de 90% do champanha brasileiro.

O primeiro final de semana da Fenachamp 2005 reuniu oito mil visitantes. A abertura oficial aconteceu na sexta-feira, 30, com a presença do governador Germano Rigotto. De acordo com a Comissão Organizadora 3.500 litros de espumantes (5.000 garrafas) foram consumidos.

O evento acontece de quinta a domingo, das 17 às 22h nos dias úteis e das 10h às 22h, no final de semana. A expectativa é de receber 40 mil visitantes. No dia 6, está previsto show com Papas da Língua. O ingresso custa R$ 8, dando direito à taça personalizada (em vidro) e a um vale champanha. O visitante pode optar também pelo passaporte (R$ 20), dando acesso livre ao parque durante todos os dias de festa.

 

São Marcos homenageia os motoristas

 

Motoristas de todo o Brasil são aguardados em São Marcos para a 34ª Festa de Nossa Senhora Aparecida e dos Motoristas. Maior evento do gênero no país e o maior do município da Serra gaúcha, a festa acontecerá nos dias 15 e 16 de outubro. O governador Germano Rigotto afirmou que irá participar do evento. "Sei da importância da festa, não apenas para a população local, mas para os motoristas e suas famílias", disse.

Procissões, shows e exposição de veículos e produtos para transporte devem levar 50 mil pessoas à cidade, de acordo com o presidente da Associação dos Motoristas São-Marquenses, Henrique Luiz Dal Lago. A população está preparada para receber os visitantes. O ponto alto da festa será a apresentação do grupo Tradição, dia 16. Também haverá futebol de campo, torneios de boliche, bolão, bochas e canastra.

A programação religiosa prevê novena, dia 15, como o tema "Maria, rainha do Céu e da Terra". A procissão motorizada ocorre no domingo. Inicia em frente à igreja de São Cristóvão até a igreja matriz, com bênção aos motoristas. Após, missa festiva, almoço e missa aos peregrinos.

 

Fepagro amplia Centro de Agroindústria

 

O Centro de Treinamento em Agroindústria, de Fazenda Souza, em Caxias do Sul, ligado à Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro), será ampliado. Está sendo construído mais um alojamento e a cantina também passa por reformas. Com o novo alojamento, o local amplia a capacidade de atendimento de agricultores familiares que participam do curso de formação. Já a reforma da cantina está relacionada com um projeto que prevê a implantação de uma escola com cursos básicos de vinificação.

Segundo o diretor do Centro, Valmor Barni, a previsão é que as obras sejam concluídas até o final do ano. Os investimentos totalizam mais de R$ 400 mil, sendo R$ 96 mil do governo do Estado, R$ 290 mil do Corede Serra e o restante da própria Fepagro.

 

REPORTAGEM

"Quando a razão se extingue, a loucura é o caminho"

Dom Cappio está em greve de fome desde 26/9 contra projeto de transposição das águas do São Francisco

 

Em greve de fome desde o dia 26 de setembro, o bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio, OFM, começa a sentir tonturas por causa da absoluta privação de alimentos. A greve do bispo é radical - até a morte, se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não revogar e arquivar o atual projeto de transposição do rio São Francisco. Dom Luiz se encontra na capela de São Sebastião, no interior de Cabrobó, a 586 km de Recife (PE).

Nessa pequena cidade está prevista a construção de um dos dois captadores da água do São Francisco (matéria, abaixo). Numa carta enviada ao presidente Lula, no dia 26 de setembro, dom Luiz salienta que ele sempre foi um crítico acirrado desse projeto. Diz a Lula que aguardava dele um apoio maior em favor da vida do rio e de seu povo. "Esperávamos que, diante de tantos e consistentes questionamentos de ordem política, ambiental, econômica e jurídica, o governo revisse sua disposição de levar a cabo este projeto que carece de verdade e transparência". O bispo conclui a carta afirmando que "quando cessa o entendimento e a razão, a loucura fala mais alto". E justifica seu gesto não como uma atitude anti-Lula, mas talvez "uma maneira extrema de ajudá-lo a entender pelo coração aquilo que a razão não alcança".

Diante da gravidade da situação, Lula escreveu uma carta de quatro páginas a dom Luiz, no dia 29, reconhecendo "o trabalho missionário junto à população mais pobre da região e o respeito à sua missão de defesa das condições de vida do nosso querido rio São Francisco" e, ao mesmo tempo, propondo uma retomada do diálogo.

Numa resposta breve, de três parágrafos, escrita a mão, o bispo reafirmou sua disposição de permanecer em jejum e em oração enquanto não chegar a ele o documento assinado por Lula. Somente nessas condições estará "aberto para um amplo diálogo, discutindo alternativas de convivência com o semi-árido e a oportunidade ou não de realizar a transposição". Até segunda 3 à tarde, o governo não havia se posicionado sobre a resposta do bispo.

Como representante da CNBB, dom Itamar Vian, arcebispo de Feira de Santana, permaneceu três dias com dom Luiz em Cabrobó. Revelou que, na segunda-feira 3, o bispo estava bem, debilitado, mas tranqüilo. Só bebe água do rio São Francisco. Celebra missa, reza o terço e acolhe a todos os que vão prestar-lhe solidariedade - desde autoridades, como o governador da Bahia, a caravanas de lavradores, pescadores e índios que vão a Cabrobó. Um médico o acompanha permanentemente. "Dom Luiz aperta a mão de cada um e dá a sua bênção", informa dom Itamar.

O deputado Walmir Mota (PPS), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia baiana, que esteve no final de semana com dom Luiz, ficou surpreso com a serenidade do bispo e com o clima de fé reinante na capelinha. "Em Cabrobó, apesar da preocupação das pessoas, se fala de vida e não de morte", disse o deputado ao CR. "Dom Cappio quer a revitalização e não a transposição do São Francisco. Também queremos que o rio viva".

 

Gesto de dom Cappio é um grito pela vida

 

Há 26 anos vivendo na beira do São Francisco, dom Luiz Flávio Cappio foi assistindo à destruição lenta e gradual do rio. Preocupado com a degradação do Velho Chico, entre 4 de outubro de 1992 e 4 de outubro de 1993 o bispo realizou uma peregrinação de seis mil km, a pé e de barco, ao longo do rio conscientizando as comunidades ribeirinhas para os próprios problemas e a situação do rio.

A partir daí surgiram organizações visando a revitalização do São Francisco. Conforme dados, existem 2.500 comunidades à beira do rio, completamente abandonadas. "Além de preservar o São Francisco, dom Luiz quer que o governo regularize a situação dessas comunidades", afirma dom Itamar Vian.

Dom Luiz nasceu no dia 4 de outubro de 1946, em Guaratinguetá (SP). É bispo da Barra desde 1997, quando substituiu dom Itamar. Em Cabrobó, está recebendo manifestações de dezenas de entidades, como a CNBB, a CPT, ONGs, amigos, familiares e sertanejos. Diversas manifestações e vigílias estavam previstas para a terça-feira, 4, não apenas em Cabrobó, mas em todas as capitais do país. Uma comissão de senadores deverá visitar dom Cappio ainda nesta semana.

 

O Velho Chico leva água a cinco Estados

 

Rio da integração nacional, o São Francisco, descoberto em 1502, tem esse título por ser o caminho de ligação do Sudeste e do Centro-Oeste com o Nordeste. Desde as suas nascentes, na Serra da Canastra, em Minas Gerais, até sua foz, na divisa de Sergipe e Alagoas, ele percorre 2.700 km. Ao longo desse percurso, que banha cinco Estados, o rio se divide em quatro trechos: o Alto São Francisco, que vai de suas cabeceiras até Pirapora, em Minas Gerais; o Médio, de Pirapora, onde começa o trecho navegável, até Remanso, na Bahia; o Submédio, de Remanso até Paulo Afonso, também na Bahia; e o Baixo, de Paulo Afonso até a foz.

O rio São Francisco recebe água de 168 afluentes, dos quais 99 são perenes, 90 estão na sua margem direita e 78 na esquerda. A produção de água de sua Bacia concentra-se nos cerrados do Brasil Central e em Minas Gerais e a grande variação do porte dos seus afluentes é conseqüência das diferenças climáticas entre as regiões drenadas. O Velho Chico - como carinhosamente o rio também é chamado - banha os Estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas. Sua Bacia hidrográfica também envolve parte do Estado de Goiás e o Distrito Federal.

O Velho Chico vem sendo degradado pela ação humana. Em alguns trechos, a derrubada das matas, que cobriam suas margens e encostas, provocou o assoreamento do leito do rio, o que prejudica a navegação e o habitat dos peixes. Em outros, a falta de tratamento de esgoto das cidades ribeirinhas provocou a poluição das águas.

 

Projeto prevê retirada mínima de 26 m³ de água/segundo

 

A transposição das águas do rio São Francisco vem sendo discutida no governo federal pelo menos desde 1985. Agora, no entanto, conta com um projeto definido pelo Ministério da Integração Nacional e outros órgãos da União, e também com recursos previstos no orçamento.

O objetivo do governo é levar água para o consumo de 12 milhões de nordestinos que vivem no semi-árido. A escassez de água na região é histórica. O Nordeste, com 30% da população brasileira, dispõe de apenas 3% de toda a água doce do país - a Amazônia, com 10% da população, detém 70%. Pesa ainda como argumento a projeção que indica que dentro de 20 anos 17,5 milhões de nordestinos terão apenas 500 metros cúbicos de água por ano em média, a metade do mínimo recomendado pela ONU. Além disso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que a intenção é possibilitar "um mínimo de irrigação para atender sobretudo a agricultura familiar". E há a promessa da revitalização hidroambiental da bacia do São Francisco, um rio de 2.700 km. Os Estados mais beneficiados com a transposição serão Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Pernambuco.

O projeto estabelece a transferência constante de 26 metros cúbicos de água por segundo para abastecer as bacias dos rios Jaguaribe (CE), Apodi (RN), Piranhas-Açu (PB e RN), Paraíba (PB), Moxotó (PE) e Brígida (PE). Essa quantia representa apenas 1% do que o São Francisco despeja no mar. Mas está prevista ainda a transferência de um excedente médio de 63 metros cúbicos por segundo sempre que a barragem de Sobradinho estiver cheia ou vertendo. Mesmo a soma (89 m3/s) é inferior ao que fixava o primeiro projeto, de 1985, que eram 300 m3/s.

Uma liminar concedida pela 1ª Região do Tribunal Regional federal impede o início dos trabalhos, que dependem também da licença de intervenção pelo Ibama.

O governo federal trabalha com a possibilidade de iniciar a obra no ano que vem. Dois canais serão construídos - um na direção Norte, que demandará ao Ceará e o Rio Grande do Norte, outro na direção Leste, que levará água para Pernambuco e Paraíba. A primeira fase consumirá dois anos e R$ 4,5 bilhões.

 

AGRONEGÓCIO

Coopercentral e Cotrel firmam parceria

Acordo viabiliza segmentos de grãos, leite e insumos da cooperativa gaúcha

 

Parceria para a produção de suínos e aves entre a Cooperativa Central Oeste Catarinense (Coopercentral Aurora), com sede em Chapecó (SC), e a Cooperativa Tritícola Erechim (Cotrel), vai mudar a agroeconomia de 39 municípios do Alto Uruguai gaúcho. O acordo pode representar o início da recuperação do setor produtivo da região. A cooperativa vinha atuando de forma precária desde o início do ano, por conta de dívidas próximas a R$ 300 milhões.

O acordo foi assinado na quinta-feira 29, entre os presidentes da Aurora, José Zeferino Pedrozo, e da Cotrel, Luiz Gonzalves Paraboni Filho. O acordo terá prazo de oito anos e estabelece que a Cotrel abaterá e industrializará aves e suínos em nome da Aurora. A prestação de serviços inclui a fabricação de rações e a incubação de ovos. O negócio jurídico incluiu os frigoríficos de suínos e de aves, a fábrica de rações, o incubatório e as granjas de aves e suínos.

Com esse acordo, a Aurora ampliará em 25% seu movimento econômico e deve fechar 2005 com mais de R$ 1,8 bilhão de faturamento. A remuneração que a Aurora pagará à cooperativa sul-rio-grandense dependerá do volume de produção e da composição de custos.

A compra dos estoques da Cotrel representa repasse de quase R$ 25 milhões, valor que será usado para saldar dívidas. "Todo patrimônio dos associados será mantido. E os valores repassados irão viabilizar as áreas de grãos, leite e insumos", garantiu Paraboni Filho. "O pagamento aos produtores será feito a cada 14 dias", prometeu José Zeferino Pedrozo.

A Coopercentral Aurora fornecerá as embalagens e toda a matéria-prima (animais para abate, ovos para incubação, milho para rações) e definirá os produtos a serem fabricados. Caberá à Cotrel o processamento e industrialização. Além de repassar orientações técnicas, a Aurora fiscalizará o processo produtivo.

A Cotrel fica com a responsabilidade de manter e remunerar o quadro de empregados, recolher todos os tributos incidentes, cumprir a legislação ambiental, manter as instalações, máquinas e equipamentos.

A Coopercentral Aurora mantém seis unidades de processamento de suínos e duas unidades de processamento de aves, quatro centrais de inseminação, incubatório, indústria de processamento de frutas, quatro granjas-matrizes de suínos, duas granjas-matrizes de aves, três fábricas de rações e uma unidade armazenadora de grãos (ver tabela abaixo).

No primeiro semestre de 2005 exportou R$ 183,1 milhões, sendo R$ 109,6 milhões de carne suína. A carne de aves rendeu R$ 71,7 milhões. A tonelagem subiu 1,31%, de 22.700 toneladas para 22.998 toneladas. A exportação de suco concentrado contabilizou no período R$ 1,7 milhão, volume de 1.029 toneladas (+386,8%).

 

Cotrel congrega 13 mil associados

 

A Cotrel foi fundada em 25 de setembro de 1957 e nasceu da necessidade de produtores rurais armazenarem e comercializarem seus produtos, principalmente trigo, a principal cultura agroeconômica da época. Mantém um quadro funcional de 2.910 empregados e faturou R$ 583 milhões no ano passado.

A cooperativa de Erechim é proprietária de uma planta industrial de processamento de suínos e bovinos com capacidade diária de abate e industrialização de 1.600 suínos e 80 bovinos. Também possui um frigorífico de aves dimensionado para abate e processamento de 140 mil aves/dia.

Atualmente, a Cotrel atua em 39 municípios gaúchos. Além da matriz, em Erechim, conta com 19 filiais e mais de 13.000 associados, em sua maioria produtores familiares. Agregando valor à produção do campo, a Cotrel industrializa e distribui produtos de pequenas propriedades.

A linha de produtos é formada por mais de 200 itens, derivados da industrialização de suínos, bovinos, aves, leite, alcachofra e frutas que utilizam principalmente a marca Nobre.

A Cotrel também produz alimentos nas marcas Nobreza e Da fazenda, e, ainda, produtos que levam a marca Cotrel, direcionados aos produtores, como rações para o consumo de suínos, bovinos e aves.

 

Setor do vinho fortalece fiscalização

Mapa pode oficializar método que detecta água em vinho e suco

 

A decisão de homologar a metodologia de análise isotópica para vinhos e sucos é do Ministério da Agricultura, Pecuária e do Abastecimento (Mapa). Há dois anos o Laboratório de Referência Enológica (Laren), de Caxias do Sul, está desenvolvendo uma metodologia que permite identificar a procedência da água que compõe o vinho. A Europa adota o mesmo método desde 1990.

O trabalho é realizado em parceria com o Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), da USP. "Já analisamos 400 vinhos, 100% genuínos", diz ao CR a coordenadora do Laren e doutora em enologia, Regina Vanderlinde. A especialista pretende ampliar a base de pesquisa com a análise dos vinhos da próxima safra.

Os resultados do estudo foram entregues aos representantes do Mapa durante o "Seminário de Integração para o combate ao contrabando, evasão fiscal e outros delitos prejudiciais ao setor vitivinícola", realizado na sexta-feira, 30, em Bento Gonçalves.

No encontro também foi discutida a regulamentação de produtos que se apresentam como vinho, mas levam quantidades mínimas de uva em sua composição (denominados "denorex"), a necessidade de ampliação da fiscalização em áreas de fronteira e o trabalho desenvolvido pelos órgãos responsáveis pelo controle da produção.

Os representantes da vitivinicultura entregaram à Polícia e Receita federal documento sobre práticas fraudulentas que têm prejudicado o setor, principalmente o descaminho (contrabando) de vinho argentino pela fronteira Brasil/Paraguai. Conforme a Associação Gaúcha dos Vinicultores, no ano passado 33 milhões de litros de vinhos entraram no Brasil, grande parte sem documentação.

Na opinião de José Fernando da Silva Protas, coordenador do Programa de Desenvolvimento Estratégico do Setor Vitivinícola do RS - Visão 2025, se implantadas as medidas poderão dar um novo rumo à vitivinicultura. "A fiscalização e a articulação do governo e do setor para impedir a adulteração e fraude poderão recuperar a vitivinicultura nacional, em especial a gaúcha, em pouco tempo", projeta José Fernando Protas.

"A Câmara Setorial da Viticultura, Vinhos e Derivados vem trabalhando há dois anos pela sensibilização do governo com relação ao assunto", reforça o presidente do órgão, Hermes Zaneti, acompanhado do presidente do Ibravin, Carlos Paviani.

 

Mineiro assume a presidência da Anapa

 

O engenheiro agrônomo Jorge Nobhico Kiryu, de São Gotardo (MG), é o novo presidente da Associação Nacional dos Produtores de Alho (Anapa). Ele substitui o pesquisador Gilmar Dallamaria, à frente da entidade há sete anos. O vice-presidente da entidade é Valírio Passini, engº agrº da Emater de São Marcos. "O setor está muito bem. O alho é uma das culturas que melhor está remunerando o produtor", garante Dallamaria ao CR.

De origem japonesa, o novo presidente da Anapa é produtor e associado à Cooperativa Agropecuária do Alto Paranaíba (Coopadap), de São Gotardo. O município é grande produtor de alho. O agrônomo Jorge Kiryu vai responder pela entidade nos próximos dois anos.

 

Pesquisa contempla o plantio de girassol

 

A necessidade hídrica durante a safra de girassol varia de 400 a 500 mm de água. As fases mais sensíveis à seca ocorrem de 10 a 15 dias antes do florescimento e de 10 a 15 dias após o final da floração. Essas informações serão usadas na elaboração do zoneamento agroclimático.

Os levantamentos da Embrapa Soja serão apresentados na Reunião Nacional de Pesquisa de Girassol, que ocorre em Londrina (PR) até 6 de outubro. O tema deste ano é "Girassol: inclusão social e agronegócio". "Esta é uma antiga reivindicação tanto do governo que utiliza os dados para liberação de financiamento e pagamento de seguro agrícola quanto de produtores que podem explorar a cultura de forma mais viável e com menor risco", diz o pesquisador José Renato Bouças Farias.

O pesquisador vai apresentar informações de como o clima afeta a ocorrência de doenças. "A alternaria e a podridão de esclerotínia, por exemplo, são doenças fúngicas bastante sensíveis a extremos na temperatura e à umidade", explica.

 

VIDA AGRÍCOLA

Engº. Agrº. José Zugno

Uma fruta chamada nêspera européia

Desejo saber o nome correto e informações de uma fruta conhecida na colônia italiana com o nome de "néspola".

DAVID M. BAVARESCO

Nova Prata - RS

Néspola, néspolo, néspole, são os nomes comumente utilizados pelos descendentes de italianos de nossas colônias para designar a nêspera, fruta da nespereira européia, de nome científico Maspilus germanica L., família das rosáceas, a mesma do pêssego, ameixa, maçã, pêra, marmelo, amora, rosa, framboesa, morango, e tantas outras frutíferas e floríferas, geralmente das regiões de clima temperado.

"Le nèspole crude le liga i denti" (as nêsperas verdes embotam os dentes); "Col tempo e la paia se madura le nèspole", (para amadurecerem, as nêsperas precisam de tempo e palha); "Nespolaro de mato" (guabiroba): palavras do saudoso frei Alberto V. Stawinski em seu precioso Dicionário Vêneto-Sul-riograndense-Português, de 1987 com 352 páginas - Correio Riograndense - Universidade de Caxias do Sul.

Os imigrantes italianos trouxeram em sua bagagem sementes de "néspole" e as plantaram nos lotes rurais que receberam e, posteriormente, continuaram multiplicando-as por semente, de preferência próximo do parreiral. "I primi coloni piantava i nespolari atorno el vignal" (do mesmo frei Alberto Stawinski).

Descrição da planta - Trata-se de um arbusto vigoroso ou, geralmente, uma pequena árvore de 3 a 5 metros de altura, com tronco sinuoso e curto, do qual partem alguns galhos tortuosos, dos quais formam-se numerosos ramos com pêlos e alguns espinhos. As folhas são grandes, simples, alternas, lanceoladas, de pecíolo curto, lisas na página superior e levemente pubescentes na página inferior. As flores são grandes, de 3 a 4 cm. de diâmetro, solitárias, pentâmeras, hermafroditas; com cinco sépalas verdes persistentes, cinco pétalas brancas vistosas; numerosos estames, castanhos, múltiplos de 5; ovário infero, contendo 5 óvulos. O fruto é uma baga globosa cor de canela, com 3 a 5 cm. de diâmetro, achatado na extremidade (olho), coroado pelas 5 sépalas persistentes. A polpa é verdosa-esbranquiçada, adstringente a princípio, mas fica doce acidulada quando se abranda, tornando-se comestível e saborosa. Contém 5 caroços, cada qual com uma semente no interior.

As nespereiras européias estão rareando em nossa região, pois as antigas, com a idade, foram desaparecendo, e as novas, multiplicadas por sementes, são plantas que retardam o início da produção e os frutos que produzem são de qualidade inferior.

A respeito deste assunto escrevi em 8 de agosto de 1990: para cultivar nêsperas com o objetivo de consumo e venda dos frutos seria preciso contar com mudas selecionadas e enxertadas, o que infelizmente nossos viveiristas não oferecem. Os trabalhos de seleção e melhoramento genético cabem às estações experimentais e aos institutos agronômicos. Seria bom que fizessem tais trabalhos com a nespereira européia como o fizeram com a nespereira japonesa, Eriobotrya japonica, da mesma família rosácea, amplamente consumida e comercializada nesta época, com o nome "impróprio" de ameixa amarela.

A nêspera européia teria assim maior tamanho, maior quantidade de polpa comestível e menores caroços, e seria muito mais atraente e procurada.

 

ESTADO

Osório vai instalar parques eólicos

Projeto vai gerar 150 megawatts de energia e 500 empregos diretos

 

O Rio Grande do Sul está se transformando no maior pólo de energia eólica do Brasil. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou financiamento de R$ 465 milhões para a empresa Ventos do Sul Energia. As verbas são destinadas à instalação de três parques eólicos, em Osório - Parque Eólico dos Índios, de Osório e de Sangradouro.

O projeto terá capacidade de geração de energia de 150 megawatts (cada parque com 50 MW), o que o tornará o maior do Brasil e o segundo do mundo. Na construção serão gerados 500 empregos diretos. A iniciativa, realizada no âmbito do Programa de Apoio Financeiro a Investimentos em Fontes Alternativas (Proinfa), é a primeira aprovada pelo BNDES para esse tipo de geração de energia.

Um dos méritos dos investimentos em energia eólica é a sua contribuição para a diversificação da matriz energética brasileira como uma fonte de recursos renovável, sem risco hidrológico. Além disso, o parque eólico reduzirá a emissão de gases do efeito estufa por MW/hora de energia gerada no sistema interligado, criando um potencial de geração de créditos de carbono.

A Ventos do Sul é uma Sociedade de Propósito Específico (SPE), criada com a finalidade de construir três parques eólicos, que possuem contrato de compra e venda de energia com a Eletrobrás por um prazo de 20 anos, a partir do segundo semestre de 2006, quando as usinas entrarão em operação.

No Brasil, existem atualmente apenas 28,6 MW instalados de energia eólica, em 11 empreendimentos, equivalentes a 0,03% da capacidade de geração de energia do país. Com o Proinfa, haverá um salto significativo na capacidade instalada brasileira em energia eólica, pois foram selecionados 53 projetos, em nove estados, totalizando 1,4 mil MW de potência instalada.

No mundo, a capacidade instalada de energia eólica era, em 2003, de 40 mil MW, sendo os principais países produtores a Alemanha (14,6 mil MW), os Estados Unidos (6,4 mil MW), a Espanha (6,2 mil MW) e a Dinamarca(3,1 mil MW). Na Dinamarca, 12% da energia elétrica consumida é proveniente de fonte eólica. No norte da Alemanha, a participação desse tipo de energia na geração total já ultrapassou os 16%. Na União Européia, a meta é gerar10% da eletricidade a partir do vento até 2030.

 

CNM espera pela reforma tributária

 

Os prefeitos bem que tentaram. A presença deles até causou transtorno em Brasília. De concreto somente a promessa do ministro da Fazenda, Antônio Palocci, que trabalhará pela votação da Reforma Tributária. Esse foi o resultado principal da mobilização nacional de prefeitos, realizada nos dias 27 e 28, promovida pela Confederação Nacional de Municípios (CNM).

Na reforma tributária está incluído um ponto fundamental para as prefeituras: aumento em 1% no Fundo de Participação dos Municípios (FPM), passando de 22,5% para 23,5%. Esse acréscimo será repassado juntamente com a parcela do primeiro decêndio de dezembro, como forma de auxiliar no pagamento do 13º salário dos servidores. Estima-se que essa medida gere uma transferência adicional de R$ 1,5 bilhão por ano.

No encontro com Palocci também ficou definido que o Imposto Territorial Rural (ITR) deverá ser votado juntamente com a Reforma Tributária. Também será elaborado um decreto isentando o IPI das prefeituras para aquisição de máquinas e equipamentos, outra antiga reivindicação dos executivos municipais.

 

OPINIÃO

Vai-se a primeira pomba...

Maria Clara Lucchetti Bingemer

 

As sombras do governo Lula começaram a aparecer, dolorosamente, mas inegáveis. Foi-se a primeira pomba, que vá "outra mais... mais outra...enfim dezenas", para que possa raiar nova madrugada em nossa terra

 

Roberto Jefferson foi cassado por 313 votos contra 156. Assim, inaugurou a saída de cena e a limpeza de terreno - assim o esperamos - de todos os políticos envolvidos no esquema de corrupção popularmente chamado de "mensalão". Suspeito de comandar uma articulação com vistas a arrecadar dinheiro para o PTB, o deputado federal Roberto Jefferson, rápido no "pulo" e na estratégia, hábil na retórica, logo tentou virar o jogo trocando de papel e passando de réu a acusador. De sua boca sem censura e de seu discurso de advogado "rutilante" partiram as principais denúncias que abalam a República há vários meses.

Sentindo-se traído e abandonado pelo PT e pelo governo com quem fizera aliança, denunciou a existência do "mensalão", gorda propina que seria paga a parlamentares da base para que votassem de acordo com os interesses do governo. Assim fazendo, provocou a queda de ministros e dirigentes de estatais, inclusive do todo-poderoso Chefe da Casa Civil, José Dirceu.

A lógica de Jefferson é bem clara: com seu brilhante domínio da palavra, apesar do estilo um tanto "kitsch" e bombástico, acreditou conseguir acuar tudo e todos, sobretudo em um governo onde acreditava piamente que ninguém poderia declarar-se inocente e todos tinham culpa no cartório. Assim pretendia também desviar a atenção da CPI de sua pessoa e mais uma vez escapar ileso.

Teve sucesso no primeiro momento. Estimulado por sua língua viperina, o esquema de Delúbio Soares e Marcos Valério começou a vir a público. E as secretárias e ex-esposas de língua solta despejaram diante da mídia tudo o que sabiam e deixavam de saber sobre as falcatruas dos chefes, patrões e ex-maridos. O PT, partido do governo no qual o povo brasileiro havia depositado suas mais caras esperanças, entrou em crise profunda, ameaçando quebrar e arrastar de roldão sua história, sua proposta, sua militância e até o presidente. Aos poucos, mentes e corações ficaram mais serenos e o desejo de jogar pelos ares algumas décadas de trabalho diuturno e sofrido começou a diminuir e entrar nos eixos.

A estratégia de Roberto Jefferson de intimidar colegas nas CPIs e no Conselho de Ética, dando a entender, sempre que precisou, que tinha informações secretas sobre cada um deles não funcionou. O deputado com voz de locutor, o advogado doublé de "showman", acabou sendo atingido pelo Conselho de Ética, que recomendou por unanimidade sua cassação por quebra de decoro parlamentar e prática de crime eleitoral, tráfico de influência e sonegação fiscal.

A biografia de Jefferson dá testemunho de várias situações ambíguas e belicosas, desde a oposição ao "impeachment" de Collor até o protagonismo do rompimento do PSDB com o PFL, durante o governo Fernando Henrique Cardoso. A todas conseguiu sobreviver, com sua inegável esperteza e sua técnica de advogado que domina a palavra. Acostumado ao litígio verbal dos tribunais, sabe identificar o ponto fraco do adversário para derrubá-lo a partir dali.

Como Deus escreve direito por linhas tortas e de todo mal consegue tirar um bem, a horrível cena presenciada pelo Brasil quando Jefferson resolveu abrir a boca e sair atirando a torto e a direito contra gregos e troianos teve o mérito de trazer a verdade à tona.

As sombras do governo Lula começaram a aparecer, dolorosamente, impiedosamente, mas inegáveis e iniludíveis. E lançaram no sofrimento e no desencanto muitos milhões de brasileiros que a ele deram seu voto. Jefferson correu um risco calculado e perdeu. Jogou tudo para ganhar ou perder. Perdeu. A cassação veio. No entanto, com o horror que semeou à sua volta, sabe que não perde nem cai sozinho.

Se a ética ainda é ética e se a justiça merece o nome que tem, vários outros deverão seguir seus passos. Jefferson sai e a CPI continua. E o povo brasileiro espera a continuação da história para, finalmente, poder levantar a cabeça e respirar livremente.

Naquele tempo, Jesus de Nazaré disse a seus discípulos: "Conhecereis a verdade e ela vos libertará". Só a verdade liberta. Mesmo quando sai de bocas humanas não tão ilibadas nem tão puras. A investigação que procede parece demonstrar que as denúncias de Jefferson são verdadeiras. Assim como verdadeiras são as denúncias feitas contra ele e que culminaram em sua cassação.

Foi-se a primeira pomba. O Brasil espera uma revoada. Como nos versos de Raimundo Correia, que vá "outra mais... mais outra... enfim dezenas...", para que possa raiar "sanguínea e fresca" nova madrugada em nossa terra.

 

Raízes éticas da minha esperança

Frei Betto

 

Minha angústia não é com os atuais escândalos. É ver crianças sem direito a uma infância feliz; meninas condenadas à prostituição; a mãe vendo o filho ingressar no narcotráfico; o pai desempregado...

Amigos perguntam como me sinto. Aliviado, angustiado, esperançado. Deixei o governo federal antes dos escândalos do mensalão, cético quanto aos rumos da política econômica. E sem a menor desconfiança de que havia tanta safadeza nas operações financeiras do PT. O governador Jorge Viana, do Acre, tem toda razão ao cobrar da nova direção do partido apuração urgente e punição dos culpados.

O alívio não me exime da responsabilidade histórica que me vincula ao PT, embora sem filiação partidária. Minha angústia só não é mais profunda porque conheço a trajetória da esquerda. Foi um choque Kruschev denunciar os crimes de Stalin, em 1956, no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Houve suicídios de dirigentes, como relata Jorge Semprún em sua autobiografia. Não podiam supor que "a nova sociedade" tivesse sido erguida sobre a dor de tantos expurgos, massacres, prisões, torturas e fuzilamentos.

Nem por isso perdi a fé num outro mundo possível, no qual liberdade individual e justiça social se complementem, e a cidadania e a democracia sejam levadas à radicalidade - o que chamo de socialismo.

Experimentei muitas derrotas: a morte de Che na Bolívia, o fracasso dos grupos armados contra a ditadura militar brasileira, o terror da Revolução Cultural chinesa, a falência da Revolução Sandinista, acrescida de casos escabrosos de corrupção, a queda do Muro de Berlim, o fim do eurocomunismo...

"Sempre lutei do lado certo e perdi todas", declarou Antônio Callado em sua última entrevista. Não me dou o direito de tamanho ceticismo. Vejo conquistas na Revolução Cubana, na derrota dos EUA no Vietnã, no fim das ditaduras militares no Cone Sul, na criação do PT, no fortalecimento dos movimentos populares, como o MST, nos avanços de organizações indígenas, feministas, ecológicas, e de lutas contra discriminações sexuais e raciais.

Minha fé no socialismo nada tem a ver com os meus sentimentos religiosos. Funda-se na arraigada convicção de que o capitalismo é intrinsecamente inapto a construir um mundo de justiça e liberdade. Bastam os dados da ONU: somos 6,2 bilhões de habitantes no planeta, dos quais 2/3 vivem abaixo da linha da pobreza. O bem-estar dos países ricos resulta da cruel história de colonização e extorsão praticada sobre as nações da África, da Ásia e da América Latina e, hoje, prosseguida pela globocolonização neoliberal.

Meu socialismo nutre-se mais da comunidade primitiva dos cristãos, descrita nos Atos dos Apóstolos, que na teoria do valor. Sinto-me mais próximo de Proudhon que de Marx. Por isso, não chego a me abater com os escândalos e o rumo da política econômica.

Minha esperança não se ancora em teorias políticas, ideologias ou promessas eleitorais. Tem raiz ética: mais que qualquer escândalo de corrupção, envergonha-me, como ser humano, a miséria coletiva. Não escolhi a família nem a classe social em que nasci. Fui premiado pela loteria biológica. O que não é justo. Todos têm direito a uma vida digna. A desigualdade social me repugna. É uma ofensa à condição humana.

Recuso-me a aceitar que "sempre foi assim e não haverá de mudar". Não costumo ouvir isso da boca de quem foi injustamente privado de acesso aos bens mais elementares, como alimentação, saúde e educação. Ninguém escolhe a pobreza. Ela decorre de leis e estruturas injustas. Isso é o que precisa mudar.

Minha angústia não é com os atuais escândalos. É ver crianças barrigudas de vermes sem direito a uma infância feliz; a menina condenada à prostituição precoce; a mãe vendo o filho largar a escola para ingressar no narcotráfico; o pai desempregado sem poder sustentar a família.

Deus nos criou para viver num jardim, o Éden. A liberdade humana inventou a injustiça, que gerou a segregação e a exclusão. Não creio no deus que admite seus filhos divididos entre miseráveis e abastados. Comungo a fé de Jesus, que identifica Deus na face do oprimido (Mateus 25, 31-44).

Sei que não haverei de participar da colheita. Mas faço questão de ficar ao lado dos que lançam, ainda que em terra árida, as sementes de um futuro melhor.

 

ESPECIAL

"SIM" OU "NÃO" ÀS ARMAS

Brasileiro decide dia 23 pela proibição ou não da venda de armas de fogo e munição. Artigos especiais fornecem argumentos pró e contra

 

No próximo dia 23 de outubro, o eleitor brasileiro deverá responder "sim" ou "não" à pergunta: "O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?". O referendo funcionará como uma eleição. O cidadão deverá votar em sua zona eleitoral e a urna, eletrônica, também é a mesma usada em todas as eleições.

A participação do eleitor no referendo seguirá os mesmos procedimentos utilizados nas eleições gerais e municipais. O voto será obrigatório para os eleitores de 18 a 70 anos e facultativo para os analfabetos, os maiores de 70 anos e maiores de 16 e menores de 18 anos. Quem estiver fora da zona eleitoral no dia do referendo deverá se justificar nos postos de votação, das 8h às 17h. Os brasileiros que moram no exterior não poderão votar.

A realização do referendo está incluída no chamado Estatuto do Desarmamento, aprovado em 2003 pelo Congresso. O estatuto restringiu o porte de armas a militares e policiais. Além disso, permite a venda de armas a civis, mas proíbe o porte das mesmas nas ruas.

O Estatuto do Desarmamento também inclui um programa mediante o qual o governo oferece recompensas em dinheiro por cada arma entregue por um civil. Mais de 440 mil armas já deixaram as ruas desde junho do ano passado.

Além do governo federal e de partidos de oposição, a proibição da venda de armas no Brasil tem o apoio de entidades como o Viva Rio e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Em declaração oficial no dia 15 de agosto, a CNBB afirmou que "proibir o comércio e o uso de armas é um passo decisivo, mas não suficiente". Mas os bispos enfatizaram que além da proibição é necessário "a melhoria da segurança pública e é indispensável educar para a paz e a defesa da vida".

Propaganda - Iniciada sábado 1º, a propaganda gratuita no rádio e na televisão para o referendo de 23 de outubro sobre a proibição do comércio de armas de fogo e munição no Brasil vai até o dia 20. Serão nove minutos diários para cada uma das duas frentes parlamentares: "Por um Brasil Sem Armas" e "Pelo Direito da Legítima Defesa". No rádio, os boletins são veiculados às 7 horas e às 12 horas, e, na televisão, às 13 horas e às 20 horas. Além dos boletins em horários fixos, as emissoras de rádio e televisão vão reservar 20 minutos diários para inserções de 30 segundos distribuídas ao longo da programação, entre oito e uma da manhã. A mesma regra da distribuição dos blocos, de maneira igual entre as frentes, vale para as inserções.

 

A maior consulta popular do mundo

 

O referendo do dia 23 de outubro será a maior consulta popular informatizada do mundo: mais de 122 milhões de eleitores de 5.564 municípios irão às urnas para responder sim (tecla 2) ou não (tecla 1) à proibição da venda de armas de fogo e munição.

A urna não sofreu adaptação: tem teclado de 1 a 0 e as teclas Branco, Corrige e Confirma. A votação vai das 8 às 17 horas e o eleitor utilizará apenas duas teclas. A tecla número 1 corresponde à opção NÃO e a tecla número 2, à opção SIM. Para validar seu voto, deverá digitar a tecla 1 ou 2, conferir os dados na tela e apertar Confirma. As teclas de 3 a 0 serão inválidas.

Para votar em branco basta apertar a tecla Branco e a tecla Confirma. O voto será considerado nulo se o eleitor digitar um número diferente de 1 ou 2 - a urna eletrônica avisará que é inválido - e, a seguir, apertar a tecla Confirma. Se o eleitor digitar um número inválido (diferente de 1 ou 2) ou desejar mudar sua escolha - desde que não tenha apertado Confirma -, basta apertar a tecla Corrige e reiniciar a votação.

 

Desarmar os espíritos

Padre Júlio Munaro

Coordenador da Pastoral da Saúde da Mitra Arquidiocesana/SP, professor de Bioética e História do Cristianismo

 

Os eleitores brasileiros são intimados a comparecer às urnas no dia 23 de outubro, não para eleger candidatos a cargos públicos, mas para responder sim ou não à pergunta "O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?". O referendo está sendo precedido de período de propaganda na mídia, para esclarecer a população, sem influenciar os votantes.

A campanha e a votação fundamentam-se no elevado número de mortes provocadas por armas de fogo. As estatísticas impressionam. Todos os dias morrem, em média, no país, 104 pessoas vítimas de armas de fogo. Em 24 anos, de 1979 a 2003, morreram 550 mil. Na análise dos números, chama a atenção a quantidade de jovens entre 15 e 24 anos: 206 mil, segundo dados fornecidos pela Unesco.

Percebe-se grave desproporção entre o crescimento de crimes com armas de fogo e o crescimento demográfico. Nos últimos 24 anos, o país teve um crescimento demográfico de 51,8%, considerado excessivo por muitos. No mesmo período, porém, as mortes por armas de fogo cresceram 461,8%. Uma desproporção chocante. Em 1979, as mortes por armas de fogo representavam 1% do total de óbitos; em 2003, 3,9%, quase três vezes mais. As armas de fogo figuram como a terceira causa de morte no país. Perde apenas pelas doenças cardíacas e acidentes vasculares.

As armas de fogo não servem apenas para homicídios. São muito usadas também para suicídios, sem excluir as mortes que provocam por acidentes. Nos países em que o porte de armas é proibido, as mortes caem drasticamente. No Japão, não passam de 70 por ano. No Brasil são 32 mil. Embora haja diferença entre a massa populacional dos dois países - o Brasil tem 183 milhões de habitantes e o Japão, 127 milhões, ela não justifica tamanha desproporção.

A Campanha do Desarmamento superou as expectativas e seu término foi prorrogado para 23 de outubro. Foram entregues centenas de milhares de armas. Por mãos de quem? Certamente não de bandidos. As armas, porém, não são perigosas apenas quando usadas por bandidos. Quem porta armas o faz com intenção de usá-las, ainda que sem saber quando, como e contra quem.

O desarmamento pode não atrapalhar muito a ação dos bandidos, mas beneficia os portadores incautos, que se expõem ao risco de matar por casualidade, em circunstâncias impensadas. Nesse sentido, a proibição da venda e do porte de armas assume característica preventiva, embora os mal intencionados encontrem modo de adquiri-las à revelia da lei, graças a fabricantes, comerciantes e contrabandistas sem escrúpulos.

Segundo pesquisa do Datafolha de 21 de julho, 80% dos brasileiros declaram-se favoráveis à proibição do comércio de armas e munições. Espera-se que a propaganda não consiga reverter essa tendência, embora se saiba que os que são contrários à proibição detêm enormes recursos para promover a sua causa.

Mais importante do que a proibição do comércio de armas é desarmar os espíritos e conscientizar os cidadãos de que vale mais promover a paz do que combater as armas. Se a arma mata, há sempre alguém que aciona a arma para matar. Se não for mudada a predisposição de violência que o ser humano traz dentro de si e que a sociedade incentiva, mesmo sem armas de fogo, a violência vai continuar. Caim não as conhecia, mas matou Abel. Herodes também não, mas sacrificou João Batista para satisfazer o ódio de Herodíades, a verdadeira causa da morte do profeta.

 

Para salvar vidas

Dom Demétrio Valentini

Bispo de Jales (SP)

 

No próximo dia 23 de outubro somos convocados às urnas. Desta vez, vamos decidir uma questão: proibir, ou não, o comércio de armas e munições em nosso país. O referendo é um dos instrumentos de consulta popular previstos em nossa Constituição. Esta iniciativa é do governo. O Ministério de Justiça amadureceu a decisão de proibir o comércio de armas, como caminho eficaz para diminuir o prejuízo humano que o uso de armas propicia.

Em tempos de tanta crise de legitimidade dos políticos eleitos pelo povo, que coloca em questão a democracia representativa, é bom valorizar este instrumento de democracia direta. Ele pode estimular outras iniciativas, mostrando a validade de construirmos consensos populares sobre assuntos importantes, e expressá-los de forma oficial.

Daria para ter colocado outras questões, junto com esta do desarmamento, como auditoria da dívida pública, doações das grandes empresas para campanhas eleitorais, fidelidade partidária. Se estas questões fossem também colocadas para a nossa decisão, iríamos para o referendo com muito mais motivação, e mais responsabilidade também.

Mas o referendo será sobre a proibição do comércio de armas. Vale a pena? A resposta depende da consciência que temos da gravidade da questão. Daí a importância de nutrir a consciência com informações que ilustram o problema do comércio de armas e suas conseqüências práticas. Portanto, vamos aos dados.

Dizem as estatísticas que no Brasil morrem, atualmente, cerca de quarenta mil pessoas, vítimas de armas de fogo. O número é estarrecedor. De fato, nos últimos 25 anos, 600 mil pessoas foram mortas por armas de fogo. 40% dessas pessoas eram jovens de quinze a vinte e cinco anos. Conferindo melhor, eram negros, pardos, moradores das periferias das médias e grandes cidades. Os números impressionam. Mas como pessoa não é indivíduo desvinculado, cada uma dessas vítimas, em média, envolve outras cinco vítimas ocultas, na pessoa do pai, da mãe, filhos e amigos. Pois bem, com tantas vítimas das armas de fogo, convém deixar que as armas se disseminem, indiscriminadamente, ou convém proibir o seu comércio?

Com o referendo do dia 23 de outubro, o governo está pedindo nossa adesão para proibir o comércio de armas em nosso país. Nesses dias tive a oportunidade de caminhar pelas ruas de Buenos Aires. À certa altura, fiquei estarrecido diante de uma vitrine: exibia para venda armas de todo tipo, cano curto, longo, simples, duplo. E fiquei imaginando os possíveis alvos desse arsenal. Não seria a pobre fauna. Onças, tigres, leopardos, já não existem, coitados. Quem seriam, então, os potenciais alvos dessas armas?

Foi aí que o arrepio aumentou. No espelho da vitrine se desenhava vagamente o vulto das pessoas que passavam pela rua. As armas exibidas já estavam apontadas para seus alvos. Não homicídio. Com a desvantagem de atrair a desgraça sobre si mesmo. Pois a própria imperícia precipita a agilidade alheia. E acaba morrendo quem pensava se defender. O referendo poderá salvar milhares de vidas por ano. Depende do nosso SIM.

 

Os danos da proibição

Denise Frossard

Deputada Federal (PSDB), ex-juíza

 

O bom senso, sob o fogo cerrado da proposta de proibição do comércio legal de armas, pode ser mais uma das vítimas da ingenuidade ou violência branca da demagogia. O que se pretende com a proibição? Reduzir a criminalidade é a resposta, tão imediata quanto impensada, que nos vem à cabeça. Mas é uma resposta equivocada. A proibição do comércio legal de armas não fará recuar nem um milímetro a ousadia do crime (organizado), não baixará a taxa de delinqüência das ruas nem mesmo trará o conforto de diminuir a sensação de insegurança.

A proibição do comércio legal de armas, como o simples aumento de penas e tantas outras medidas têm sobre a criminalidade o mesmo efeito de um arco-íris no céu: uma ilusão bonita aos nossos olhos.

No caso da proibição do comércio de armas, a falsa sensação produzirá, no entanto, um efeito danoso: retirará do Estado a possibilidade de controle (ainda que frágil, como agora) e dificultará ainda mais a investigação de crimes praticados com esse recurso.

Proibida a comercialização, o Estado não terá mais instrumentos para o controle da circulação de armas. Como a sensação de insegurança persistirá, o mercado inteiro de armas de fogo irá para a clandestinidade.

É uma absurda ingenuidade de uns (e razões suspeitas de outros) imaginar que, diante da proibição do comércio legal, ninguém mais comprará ou deixará de portar armas. Historicamente não tem sido assim. Quem não se lembra da Lei Seca, nos EUA, ou da reserva de mercado de informática, no Brasil? Nos dois casos, e em muitos outros de experiências de proibições comerciais, cresceu o mercado clandestino e o contrabando. Esse é o terreno fértil para aumentar a corrupção.

A medida certa está no controle da fabricação e do porte de armas de fogo, e não na proibição da comercialização. O caminho do controle foi tomado em fevereiro de 1997, com a edição da lei 9.437, que estabeleceu condições para o registro e o porte de armas de fogo e, mais relevante, configurou como crime possuir, deter, portar, fabricar, adquirir, vender, alugar, expor à venda ou fornecer, receber, ter em depósito, transportar, ceder (mesmo que gratuitamente), emprestar, remeter, empregar, manter sob guarda e ocultar arma de fogo, de uso permitido, sem a autorização e em desacordo com determinação legal ou regulamentar.

Até 1997, o porte ilegal de armas era uma simples contravenção penal. A partir de então, com a lei 9.437, passou a ser crime, com pena de prisão. Um projeto, já aprovado no Senado, torna o porte ilegal de armas um crime inafiançável.

Apesar de não produzir resultados efetivos para o esforço de redução da criminalidade, que, comprovadamente, tem causas mais graves, a proposta para proibição do comércio legal de armas acabará sendo apresentada à população como um milagroso remédio. E nisto está o segundo, e talvez mais importante, equívoco. Sendo aprovada a proposta e em nada resultando no que concerne à necessidade de redução da criminalidade, veremos aumentar a incredulidade da população com as medidas que venham do Estado. Com isso, continuaremos perdendo um importante aliado na luta contra o crime: a confiança do cidadão no Estado.

 

Uma proibição ilegal

Adilson Abreu Dallari

Prof. Titular de Direito Administrativo da PUC/SP

 

No Brasil, atualmente, quem quiser possuir legalmente uma arma de fogo de pequeno calibre deverá comprovar seus bons antecedentes e sua aptidão técnica e psicológica para isso, além de enfrentar um inferno burocrático e se submeter à rapinagem fiscal que assola o país. Todavia, se desejar possuir ilegalmente uma arma de qualquer calibre, não terá qualquer dificuldade e gastará menos. Ou seja, a legislação existente não impede que bandidos tenham armas e é suficientemente restritiva para impedir a compra massiva de armas pelas pessoas de bem. Não há risco algum de um armamento geral e irrestrito.

O debate sobre a compra de armas legais no Brasil está totalmente desfocado e misturado com a mesma questão nos Estados Unidos, onde a Constituição, expressamente, consagra o direito de ter e portar armas. Diante disso, nos EUA a discussão é no sentido da viabilidade jurídica do estabelecimento de controles, por lei, limitando um direito expressamente afirmado pela Constituição. No Brasil, o foco da questão está na proibição total e absoluta da venda de armas. Uma coisa é limitar o exercício de um direito; outra coisa bem diferente é suprimir totalmente um direito.

Numa perspectiva puramente jurídica, pode-se afirmar que a venda de armas não pode ser totalmente proibida no Brasil, porque isso seria uma flagrante violação ao direito constitucionalmente assegurado a cada cidadão de proteger, com os meios para isso necessários, sua vida, sua dignidade, seu patrimônio e sua família. Quem quer os fins, dá os meios.

O dever do Estado de prover a segurança pública não significa proibição da segurança privada. Defender-se ou não, ter ou não ter uma arma, reagir ou não a uma agressão é uma opção pessoal. Argumenta-se, porém, que a venda legal de armas deve ser proibida por causa do número assustador de homicídios, comprovado pelas estatísticas. Números, entretanto, precisam ser interpretados. A grande maioria dos homicídios é praticada com o uso de armas ilegais. Bandido não compra arma em loja.

Os defensores do desarmamento das pessoas de bem alegam que isso diminuirá o homicídio fortuito, como é o caso de brigas de bar, de trânsito e decorrentes de violência doméstica. Para isso, entretanto existem remédios muito mais eficazes e respaldados pela ordem jurídica. Na violência doméstica a predominância é de agressão física, surras, sem armas e a maioria dos homicídios acontece com o uso da prosaica faca de cozinha. E aí? Seria o caso de defender o "espanca, mas não mata" ou de proibir a venda de facas de cozinha? O que fica perfeitamente claro é que não se pode fixar a regra com base na exceção.

Do ponto de vista jurídico, o Poder Público não pode criar restrições à liberdade individual senão na medida do estritamente necessário para proteger um interesse público, da coletividade. Atenta contra a lógica e a sanidade mental desarmar as vítimas, para estimular os facínoras.

A possibilidade de reação eficaz da vítima desestimula o criminoso, é, sim, um elemento de dissuasão, mas a certeza de que a vítima sempre estará inerme, totalmente indefesa, podendo ser assaltada ou estuprada sem risco, certamente aumentará a ocorrência de crimes. A criminalidade já tem estímulos suficientes na incompetência da polícia e na espantosa impunidade decorrente da extrema generosidade da legislação penal. Pior que isso: a autoridade pública não consegue impedir nem mesmo o ingresso de armas (e celulares) nas prisões. Em resumo: elimine-se o tráfico ilícito de armas, prendam-se os bandidos, aumente-se a eficiência da segurança pública e o cidadão pacífico e ordeiro não terá mais que preocupar-se com auto-defesa.

No fundo, a proibição da venda de armas revela uma concepção totalitária do Estado, no qual a autoridade, discricionariamente, determina o que é bom e o que não é bom para cada súdito. O mais grave, porém, é a complacência com a violação ou o esvaziamento das garantias constitucionais. Amanhã, o que mais poderá ser proibido?

 

IGREJA

Brasil celebra 75 anos da padroeira

Nossa Senhora Aparecida foi declarada padroeira do Brasil no ano de 1930

 

A festa de Nossa Senhora Aparecida, celebrada no santuário nacional no dia 12 de outubro, em Aparecida (SP), inclui em sua extensa programação dois fatos marcantes - os 75 anos da Proclamação de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil e os 50 anos do início da construção da atual basílica, uma das mais visitadas do mundo. As celebrações deste ano são motivadas pelo tema "Com Maria, no Ano da Eucaristia, construir uma cultura de paz".

O santuário nacional acolhe, anualmente, mais de sete milhões de peregrinos de todo o Brasil e de outros países. O ponto alto é a festa da padroeira, no dia 12, que tem como momentos de destaque da sua programação a missa solene às 10 horas, com transmissão pelas TVs Aparecida, Rede Vida, RA e RCR. Ao meio-dia, homenagem a Nossa Senhora Aparecida, com show de fogos; missa e Hora Mariana (13h), consagração solene (15h), procissão com a imagem da padroeira do Brasil (17h) e em seguida, show pirotécnico.

Outro momento marcante é o "Show pela Paz", no dia 11 de outubro, das 21 às 23 horas, num palco que será montado na Praça João Paulo II, entre a basílica e o Shopping dos Romeiros, com grandes nomes da Música Popular Brasileira, como Alcione, Joana, Guilherme Arantes, Fafá de Belém e Elba Ramalho. O evento tem como motivação o lema da Campanha da Fraternidade deste ano - "Felizes os que promovem a paz".

Padroeira - Nossa Senhora Aparecida foi declarada Padroeira do Brasil no dia 16 de julho de 1930, pelo Papa Pio XI, atendendo pedido dos bispos brasileiros. Para que houvesse reconhecimento oficial, a imagem de Aparecida foi levada ao Rio de Janeiro, na época capital do país, em 30 de maio de 1931. No dia seguinte, cerca de um milhão de pessoas foram à Esplanada do Castelo para prestar homenagens à Padroeira do Brasil.

Com o passar do tempo, a devoção a Nossa Senhora da Imaculada Conceição Aparecida foi crescendo e aumentando o número de romeiros, fazendo com que a primeira basílica, construída a partir de 1834, se torna-se pequena. Para acomodar tantos romeiros, foi projetada outra igreja, a atual Basílica Nova, cuja construção iniciou no dia 11 de novembro de 1955.

Em 1980, ainda em construção, o santuário foi consagrado pessoalmente pelo Papa João Paulo II e recebeu o título de Basílica Menor e, quatro anos depois, a CNBB a declarou oficialmente Santuário Nacional, "maior santuário mariano do mundo". A basílica pode abrigar 32 mil pessoas e a esplanada, diante do santuário, 300 mil peregrinos.

 

Cruz Alta promove romaria de Fátima

 

No próximo domingo, 9 de outubro, Cruz Alta (RS) realiza a 54ª Romaria ao Monumento de Nossa Senhora de Fátima. Às 8 horas, haverá missa de acolhida dos romeiros na catedral, celebrada pelo bispo emérito dom Jacó Hilgert. Em seguida, o bispo diocesano dom Frederico Heimler preside o início da caminhada-celebração rumo ao parque onde está o monumento de Fátima. Na chegada da imagem, prossegue a missa.

Ao meio-dia os romeiros poderão dispor de churrasco no parque do monumento. À tarde haverá celebração eucarística às 15 horas e bênção da saúde. A romaria encerra com o translado da imagem para a capela-santuário, junto ao monumento, onde permanece o resto do ano. A imagem de Fátima foi doada pelo governo de Portugal em 1952, quando foi inaugurado o monumento.

 

Lembranças do século XX

Padre Zezinho

Nunca a riqueza se concentrou tanto em tão poucas mãos

 

Mais de cem guerras. Mais de cem milhões de mortos. Lênin, Stalin, Hitler, Enver Oxxa, Che Guevara, Tito, Fidel Castro, Franco, Pinochet, Trumann, Papa Doc, Idi Amin, Pol Pot, Mao Zedong, Mussolini, Ho Chi Min, Mobutu... Torturas, massacres, violência, holocausto, bombas atômicas, medo, terrorismo.

Esquerda, direita, maniqueísmo, nacionalismo, nazismo, fascismo, liberalismo, consumismo, capitalismo, individualismo, egoísmo, terrorismo, imediatismo, fundamentalismo, petróleo, protecionismo.

Meu carro, minha casa, minha geladeira, meu telefone, meu computador, meu Jesus, meu país, minha Igreja, meu banco, meu dinheiro, meu lucro, minha cocaína, meus direitos, minha liberdade. Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu....

Meu sexo, meu corpo, minha libido, minha pornografia, meu direito de abortar, meu direito de mostrar o que quiser, minha liberdade, meu Cristo, meu Deus! Tudo meu!

Minha terra, minha água, meu rio, meu poço. Desperdício, desmatamento, poluição, aprendiz de feiticeiro, lixo, sujeira, morte a longo prazo, lucro, lucro, lucro, lucro, lucro...

Fome, miséria, indiferença, opressão, empobrecimento, invasões, ricos x pobres, vale tudo da mídia, do comércio e da indústria, preços supervalorizados, idolatria da liberdade e do lucro. Crasso materialismo.

Foi um século cruel esse século XX. Pôs riquezas imensas nas mãos de uns poucos e impediu que os pobres subissem ou melhorassem, a não ser que pagassem pedágio aos ricos. Outros séculos fizeram isso, mas esse o fez com uma impiedade sem limite. Nunca o mundo teve tanta riqueza em mãos. Nunca ela se concentrou tanto em tão poucas mãos, apesar de toda a conversa de progresso e democracia. De cada 6 habitantes do planeta só dois têm casa, conforto, água, esgoto, comida, roupa, escola e veículos para irem e voltarem. As riquezas que saíram da casa dos ricos ficaram no pátio deles. Não chegaram muito longe. É que precisavam, também na casinha do pátio, do conforto que tinham no palácio. Gastaram o que sobrava consigo mesmos!

 

Passo Fundo realiza romaria diocesana

Procissão com Nossa Senhora Aparecida ocorre na cidade há 25 anos

 

Passo Fundo promove, no dia 9 de outubro, a 25ª Romaria Diocesana de Aparecida, motivada pelo tema "25 anos anunciando Jesus com Maria". Além de padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida também é padroeira da diocese de Passo Fundo. São esperadas mais de 100 mil pessoas nessa romaria jubilar, que já é um dos maiores eventos religiosos do Rio Grande do Sul.

A programação jubilar em toda a diocese iniciou ainda em agosto, com a peregrinação da imagem de Nossa Senhora Aparecida na área pastoral de Casca, que compreende quatro paróquias; prosseguiu em setembro, com a visita da imagem às seis paróquias da área pastoral de Sarandi e com o início da novena preparatória no dia 30, na catedral.

No dia 9, a programação prevê celebração de missas às 7 horas na catedral e às 7 e 8 horas no santuário. Às 8 horas inicia a romaria em direção ao santuário onde haverá missa campal na esplanada às 10h30. Na parte da tarde, às 14h30, solene bênção da saúde e dos objetos religiosos. Durante todo o dia haverá serviço de atendimento aos romeiros. E no dia 12, às 14 horas, ocorre no santuário Nossa Senhora Aparecida a romaria das crianças.

História - A Romaria Diocesana de Nossa Senhora Aparecida iniciou em 1980, com uma festa no dia 12 de outubro, no interior do seminário diocesano. No ano seguinte foi realizada a primeira romaria, com a procissão saindo da firma Bertol até o seminário. Em 1983, a caminhada passou a ser feita a partir da catedral e foi introduzida a peregrinação da imagem de Nossa Senhora Aparecida às paróquias da diocese. Até 1987, a romaria era realizada sempre no dia 12, mas de 1988 em diante passou a ocorrer no segundo domingo de outubro.

 

Seminário Aparecida reúne as zeladoras

 

No dia 12 de outubro, será realizado, no Seminário Nossa Senhora Aparecida de Caxias do Sul, encontro das zeladoras das capelinhas da diocese. O evento, realizado há mais de 20 anos, deve reunir mais de 1.100 zeladoras. Na diocese de Caxias do Sul são cerca de sete mil capelinhas domiciliares. "Como estamos no ano da Eucaristia e no dia do encontro é festa de Nossa Senhora Aparecida, a temática será "Maria, modelo de vida eucarística", salienta padre Adelar Baruffi, reitor do seminário.

Nas paróquias estão sendo realizadas novenas preparatórias para esse encontro anual de oração e confraternização. No dia 12, a partir das 9 horas, serão realizadas celebrações, reflexões e orações. Às 10h30, missa presidida por dom Paulo Moretto. Ao meio-dia, almoço partilhado, junto com os seminaristas e sacerdotes; e tarde recreativa. Para as zeladoras, que quiserem, haverá visita ao novo seminário São José, que vai ser inaugurado no dia 31 de outubro e onde já residem 25 filósofos e dois padres formadores. O encontro encerra com terço e bênção do envio.

As zeladoras realizam um trabalho importante em favor da manutenção dos seminários e da formação do clero diocesano e religioso, através das doações coletadas pelas capelinhas domiciliares, além das orações pelas vocações.

 

Paróquia de Fátima festeja a padroeira

 

A paróquia Nossa Senhora de Fátima de Vacaria (RS) realiza, no dia 9 de outubro, solene festa da padroeira. No dia 30 de setembro iniciou a novena preparatória. No dia 1º de outubro, houve a caminhada com as capelinhas das comunidades em direção à matriz. No dia 8, às 17 horas, será realizada procissão motorizada, com a bênção dos carros.

No dia da festa haverá procissão com a imagem de Fátima e de todos os padroeiros e padroeiras das comunidades da paróquia, partindo às 9 horas da igreja São Sebastião (Petrópolis) rumo à matriz. Às 10h30, o pároco, frei Francisco Pasinatto, preside a solene missa concelebrada. Na parte da tarde, às 15 horas, reza do terço e bênção com o Santíssimo e imposição das mãos. Ao meio-dia haverá almoço no salão paroquial e venda de churrasco.

 

Voar é preciso

Aldo Colombo

 

A racionalidade deve vencer o medo e os filhos precisam encontrar seu próprio espaço, tomar em suas mãos o destino

 

No ponto mais alto de uma rocha, a águia construiu seu ninho. Lá embaixo ficava a planície, no alto as nuvens e as estrelas. Foram longos dias de paciência e um dia, três pequenas águias romperam a casca do ovo e ficaram fascinadas pela luz. Os dias iam passando e os pais traziam, com pontualidade, o alimento. E, à noite, as penas aveludadas da mãe garantiam o calor e a tranqüilidade, evitando o vento frio e a neve. Para os filhotes, esta vida poderia durar sempre. E, de alguma maneira, assim pensavam seus pais. Mas chegou o dia do empurrão.

A águia empurrou, com ternura e firmeza, seus filhotes para a beirada do ninho. Seu coração se acelerou, com emoções conflitantes, ao mesmo tempo que sentiu a resistência dos filhotes, com medo de cair. Lá embaixo estava o abismo. Se as asas não funcionarem, os filhotes morrerão, rolando de pedra em pedra até o sopé da gigantesca rocha.

Apesar do medo, a águia-mãe sabia que aquele era o momento. Sua missão estava prestes a terminar. Faltava a tarefa final: o empurrão. Ela se encheu de coragem. Enquanto os filhotes não descobrirem suas asas, não haverá futuro. Enquanto eles não aprenderem a voar, não descobrirão o privilégio de nascer águia. O empurrão era o melhor presente que ela poderia oferecer-lhes. Era seu supremo gesto de amar. Então, um a um, ela os precipitou para o abismo. E eles voaram.

A águia, em seu instinto cego, fez aquilo que os pais devem fazer em sua racionalidade. O lar é o ninho da ternura, do amor e da aprendizagem. Mas chega um dia que a excessiva proteção compromete o futuro dos filhos. Coitados, são tão inexperientes, pensam alguns pais. E os filhos ficam dormitando no comodismo, enquanto a vida passa. Eles nunca vão aprender a voar. A racionalidade deve vencer o medo e os filhos precisam encontrar seu próprio espaço, tomar em suas mãos o destino.

Amar não é querer bem, mas querer o bem dos filhos. Amar não é sempre dizer sim, mas ter, igualmente, a coragem do não, que também é prova de amor. Os pais devem indicar aos filhos o caminho, mas não podem caminhar por eles. Educar é fortalecer as asas, mas não podem voar por eles. Misturar, de maneira inteligente, o amor e a firmeza, sintetiza a arte de educar. Por vezes o coração, sobretudo materno, raciocina mal. Como a águia, os pais devem empurrar seus filhos. Águias adultas não podem ficar dormitando no ninho a vida inteira. Uma canção do padre Zezinho afirma: "Se já tem asas, seu destino é voar!".

Somente voando as aves descobrem suas possibilidades. Elas nasceram para serem águias e não galinhas. Somente tentando tomamos consciência do enorme poder que temos. Os limites humanos sempre podem ser superados. Até mesmo aquilo que parece impossível pode ser feito. Educar é também empurrar, a seu tempo, os filhos para fora do ninho. E eles voarão!

 

Desvio Rizzo celebra jubileu de prata

Criação da paróquia São José ocorreu no dia 1º de outubro de 1980

 

Com o lema "Paróquia São José, 25 anos de graça e trabalho", a paróquia São José do Desvio Rizzo, Caxias do Sul, completou, no dia 1º de outubro, 25 anos de criação. A data foi comemorada no domingo 2, com missa solene às 10 horas presidida pelo bispo diocesano dom Paulo Moretto e almoço de confraternização.

Criada por dom Benedito Zorzi no dia 1º de outubro de 1980, a paróquia atende 12 comunidades urbanas e uma rural e uma população de quase 30 mil pessoas. Seu primeiro pároco foi frei Alberto Bissoli, da Ordem dos Frades Menores Conventuais. Os conventuais atenderam a paróquia de 1980 a 2002. Em 2003 a paróquia passou aos diocesanos, com padre Juares Bavaresco assumindo como pároco e padre Sebastião de Vargas Furtuna, como vigário paroquial.

Padre Juares destaca que em todas as comunidades existem equipes de liturgia, catequese, zeladoras das capelinhas, Pastoral da Criança, Pastoral da Promoção Humana e outros serviços bem estruturados.

História - A primeira igreja do bairro foi construída em 1941, quando a região era atendida pelos capuchinhos. Em 1952 foram iniciados os alicerces da atual matriz, que ficou concluída em 1958. Nessa época, a capela São José do Desvio Rizzo pertencia à Paróquia Nossa Senhora da Conceição, da Linha Feijó, dirigida pelos josefinos. Mas tarde as posições se inverteram - Desvio Rizzo virou paróquia e Conceição passou a ser uma de suas comunidades. De 1974 a 1979, Desvio Rizzo teve seu primeiro sacerdote residindo no bairro - padre Adelino Formolo. No ano seguinte, a comunidade se tornaria paróquia.

 

Diocese de Caxias perde padre Sady Domingos Covolan

 

Morreu no dia 25 de setembro, aos 77 anos, padre Sady Domingos Covolan. Filho de Luiz e Nayr Leonzio Covolan, nasceu no dia 12 de agosto de 1928 em Caxias do Sul. Ordenado sacerdote em 1954, celebrou seu jubileu de ouro sacerdotal no ano passado, junto com outros cinco colegas, também sacerdotes diocesanos. Destacou-se pela atuação missionária e pelo envolvimento comunitário.

Desempenhou suas atividades sacerdotais em Torres, onde fundou a Juventude Estudantil Católica (JUC). Em seguida foi enviado em missão para a diocese de Ilhéus (BA), onde fundou o Fraterno Auxílio Cristão. Retornou à diocese de Caxias do Sul em 1961, assumindo a paróquia Sagrada Família, onde ajudou a fundar a primeira escola do bairro e a formar os grupos Juventude Operária Católica e Juventude Agrária Católica. Também promoveu a construção de uma igreja na Penitenciária Industrial.

Atuou ainda em outras paróquias de Caxias do Sul e de Bento Gonçalves. Em 1984 foi nomeado vigário da Paróquia Santa Teresa, a catedral diocesana, e, a partir de 1990, passou a auxiliar o santuário diocesano de Caravaggio, em Farroupilha. Estava em sua residência no bairro de Lourdes, em Caxias do Sul, quando a morte o acolheu descansando. Está sepultado no cemitério do bairro Santa Catarina.

 

Caxias do Sul reúne os ministros da Eucaristia

 

A diocese de Caxias do Sul realiza, no dia 9 de outubro, no santuário diocesano de Caravaggio, em Farroupilha, encontro com os ministros da Comunhão Eucarística de toda a diocese. "Será um momento de reflexão e celebração da Eucaristia", salienta padre Gilnei Fronza, coordenador diocesano de pastoral que, junto com padre Isidoro Bigolin, de Bento Gonçalves, está motivando o encontro. Dom Paulo Moretto preside a celebração eucarística, às 16 horas. O encontro se insere na afirmação de João Paulo II na carta encíclica da Eucaristia que diz que a "Igreja vive da Eucaristia".

 

Instituto Marista realiza conferência geral

 

Cerca de 60 irmãos, representantes de 44 países, participaram em setembro da 7ª Conferência Geral do Instituto Marista, realizada em Negombo, no Sri Lanka. O encontro alternou momentos de reflexão e debate sobre formas de evangelização, formação inicial e reestruturação marista, além de oportunizar a integração entre as diversas províncias que atuam no mundo. Cerca de 51.500 irmãos e colaboradores leigos atuam em 77 países a serviço de 497.300 crianças e jovens.

 

Engaiolamento

Wilson João

 

Em vez de sermos nós os criados à imagem e semelhança de Deus nos damos o direito de criar um Deus do nosso jeito

 

Sempre mais estou entendendo o mestre Jesus quando diz: "Olhai as aves do céu...". É um grito de liberdade! Vejo Jesus anunciando: "O destino de vocês é ser como os pássaros! Criei vocês para voar! O destino de vocês é se tornarem dia após dia criaturas do céu e do espaço! O ambiente de vocês é o ar e o vento! Fiz vocês para as alturas! Não se contentem em rastejar! Não percam as asas! Não cedam à tentação de usar somente os pés! Eu subi aos céus! A glória está nas alturas! Vocês são feitos para sonhar, para subir para as alturas! Para tocar as estrelas é preciso ter asas!".

SOMOS PÁSSAROS E NÃO GALINHAS. Muitas histórias foram criadas em torno de águias, pombas, marrecos, que na tentação da facilidade, quiseram viver do jeito das galinhas. Algumas histórias finalizam em sucesso, fazendo as aves, que não eram galinhas, tomarem consciência de sua origem, e voltarem aos espaços. Outras histórias terminam em fracasso. As aves esqueceram de voar e ficaram ciscando a vida toda. Engaiolaram suas asas e ficaram usando somente os pés.

HÁ PESSOAS ENGAIOLADAS E ENGAIOLADORAS. Pessoas que vivem sem sonhos. Não aprendem a voar. Ficam presas ao mundo material. Passam a vida ciscando comida, procurando fontes, fazendo ninhos para dormir e seguindo o instinto de se reproduzirem. Pessoas engaioladas. Outras têm o prazer de engaiolar seus semelhantes. É o homem que corta as asas da mulher e vice-versa. São os pais que prendem os filhos e não os ensinam a voar na vida. Sabendo que os "filhos não são vossos filhos, mas criaturas do universo". O ciúme é uma gaiola. O controle uns dos outros é outra das tantas gaiolas. Prender a pessoa para si, tornar a pessoa dependente, são todas gaiolas de portas fechadas. E todos são feitos para voar.

HÁ UMA TRAMA PARA ENGAIOLAR DEUS. As religiões e Igrejas, os movimentos religiosos e de espiritualidade engaiolam Deus para si. Tudo fazem para se apropriar de Deus. Cada religião anuncia que o Pássaro Sagrado - Deus -, lhes pertence. Fazem-se donos de Deus e de suas palavras. Engaiolam para si aquilo que é de toda a humanidade. Dessa bobeira nascem a intolerância e o fanatismo. Somam sempre mais as pessoas que desprezam os que pensam diferente e os que criam as próprias asas. Lutam, brigam, condenam, gesticulam em televisão, altares, Igrejas e praças, engaiolando Deus para si. Idealizam um Deus para si. Do seu jeito. Criam um Deus todo poderoso e controlador, policial e ameaçador, feito à sua imagem e semelhança. A verdade se inverteu. Em vez de sermos nós os criados à imagem e semelhança de Deus, nos damos o direito de criar um Deus do nosso jeito. Como conseqüência, quem não segue o "meu Deus", será marginalizado e condenado ao inferno do esquecimento. Chega-se ao cúmulo de um crente ou testemunha de Jeová condenar dois mil anos de Igreja e condenar todos os mestres da Igreja, porque não pensaram um Deus como o dele. E Deus engaiolado está reclamando suas asas, porque nenhuma criatura pode prender as asas do Criador.

 

CULTURA DA IMIGRAÇÃO

O italiano centenário que está em mim

João Sartor

Aposentado, Caxias do Sul-RS

 

A 5 de outubro, um dia após a festa de São Francisco, nasce um seu imitador, para dizer que amar a natureza é caminho para amar os irmãos. "Le bèstie le ze come le persone, se te le ghè, bisogna volerghe ben." E continua João Sartor, que está completando um século de vida:

"Aos cem anos, percebo que o futuro é curto. Do passado só tenho belas lembranças. Recordo a pequena Linha Jansen, onde nasci, então pertencente a Bento Gonçalves, e hoje a Farroupilha.

Continua me faltando a figura de minha mãe, Bárbara Anghinoni Sartor, vinda de Mântova com 14 anos, que faleceu quando eu tinha quatro anos. Meu pai, Pedro Sartor, veio de Treviso com 22 anos. Dos 15 irmãos, todos falecidos, recordo alguns, pois nove deles faleceram antes de um ano. A todos imagino e recordo na minha esposa Carolina Poloni Sartor, nos meus filhos Valmor, Sônia e Ibanor, nas noras Denize e Elaine, no genro José e nas netas Alessandra, Mônica, Rafaela e Bárbara.

‘Co se ze dóvani se fa le sue.’ Eu também fiz as minhas na juventude. Andei por Sananduva, fui a São Paulo, de trem, aos 19 anos, e lá morei quatro anos, conheci gente sofrida que deixou a Europa após a I Guerra - poloneses, húngaros, russos, alemães, franceses, ingleses, italianos...- todos alegres em colaborar para o progresso da maior cidade da América do Sul. Hoje Caxias me lembra São Paulo de antigamente.

Também passei pelo Rio de Janeiro, uns meses em Jaguaraíva (PR). Longe de casa, percebi o valor da família. O voltar ao Rio Grande do Sul foi sobretudo o voltar para minha família. Com 35 anos, quando todos me tinham como scapolon, casei. Só me tornei avô aos 68 anos, quando meus amigos já eram bisavôs. Espero que o atraso em casar me dê direito a viver também até ser bisavô!

Até os 70 anos, a agricultura, o comércio e a indústria ocuparam meu tempo. Trabalhei feliz porque sei que é duro sobreviver neste país que nada faz para impedir o aumento da miséria e da fome. Mas não posso criticar o país que acolheu meus pais, praticamente expulsos de sua pátria, obrigados a buscar outro lugar. Muitos imigrantes me contaram que os sofrimentos da viagem pareciam eternos, mas ainda piores eram os sofrimentos diante das incertezas do futuro.

De nada guardo revolta, amo minhas origens e continuo falando Talian, que sempre me ajudou, mesmo quando Getúlio Vargas exigiu que se falasse só o português, porque me fazia reconhecer os verdadeiros amigos. ‘La léngoa ze la nostra vita.’ Proibir de falar a língua materna é arrancar um pedaço da gente. Cultivar as origens ajuda a viver melhor. Não me refiro apenas à gastronomia, às danças, à música, à religião, mas àqueles valores de casa - o amor entre pais e filhos, a compreensão, o respeito aos mais velhos, a ajuda mútua entre vizinhos... Enfim, aquele modo de ser família italiana.

O que mais me entristeceu nestes cem anos é a perda de pessoas queridas. Não menor é a tristeza em ver a destruição das matas, a poluição dos rios onde nadei sem medo de beber daquela água, a incoerência de governantes, ricos em discursos, e miseráveis em realizações. Mesmo assim, sempre votei, e acho que quem não vota ajuda a eleger os piores.

Sou o primeiro morador do bairro a comemorar 100 anos. Embora tenha comprado uma bengala, pouco a uso. Jogo cartas, leio manchetes de jornais sem óculos e, ao meio-dia, meu copo de vinho é sagrado. ‘Medo sordo e coi brassi stufi’, mas não deixo de cortar lenha, mexericar na horta, plantar fruteiras... Que beleza se, no futuro, puderem dizer - ‘Questi ze i fruti del nono o del bisnono!’ Se Deus está sendo tão generoso comigo aqui, mais o será no além, com meus amigos também. A todos, saúde e paz!"

O testemunho de João atesta o valor de apostar na italiana tradição! (Rovílio Costa)

 

EL RITORNO DE NANETTO PIPETTA (329)

Adesso el ùltimo compromisso, prima de ritornar

Silvino Santin

Santa Maria (RS)

 

Nanetto, dir che l’era restà stufo, no saria ben la verità, parché l’era contento che mai. Sudà, quela si la ze la verità, come se’l gavesse sapà na giornada intiera. Robe de maraveiarse. No l’era gnanca lu bon da creder come che’l gera stà bon far tuti quei negòssii, e ben fati. El se disea, son pròpio drio deventar un omo de rispeto e, par sora, un novo capitalista. Se i schersa un poco, da qua un par de ani compro un cason de quei lì che i va su fin le nùvole.

Con questi pensieri, Nanetto el caminava medo sensa rumo. El gavea da ndar là dela libreria del Maneco, el so ùltimo compromíssio, prima de ritornar in definitivo a San Giusepe. De colpo el se ferma, el varda e el se nicorde che no’l savea pi la diression de la libreria. Ben, chi ga boca va a Roma, el trova na dona piena de quaderni e libri e altri afari de scola, con do fioleti picai par le man. Nanetto el pensa suito, questa la ga da saver, fursi la vien de là.

E tò, no l’è che’l gavea rason. Suito che’l ghe dimanda, la dona la ghe dise: si, vegno de là, varda, Nanetto - anca ela lo cognossea -, la resta un poco pi avanti. L’è sol ndar avanti drito, en diese minuti te rivi.

E Nanetto, sempre pi maraveià come che ghe gera tanta gente che lo cognossea, ma adesso no l’era ora de sprosiarse parché el gavea due preocupassion. Una de no lassarse strucar soto le rode dei auti che i ghe passea così rente, fàndoghe vento, robe de perder el capel. La seconda la gera la porta misteriosa dela libreria, quela che la se verde e la se sara ela sola. Par ndar rento ghe tocaria passar par ela.

In pochi minuti, Nanetto el riva col so passo ben largo, pròpio come quando se ga prèssia, e el vede la libreria tuta serada. Òstrega, el dise, son rivà tardi, romai i se ga fermà de laorar, e si el sol l’è ancora alteto. El se ricorda che in paese, no i ghe va drio al sol, come in colònia, luri i varda sol el oroloio. Bruti pelandroni!

Nanetto el se impalanca vanti la libreria, sensa saver cossa far, ma, de colpo, Maneco, el paron, lo ciapa pal cupin e el ghe dise:

- Nanetto, cossa sito drio far qua a ste ore, gera lì sentà che te spetea, Giulieto l’è pena ndà via, el me gavea dito che ti te vegnarii catarme, lora te go spetà. Ma, dìmelo cossa vuto?

- Sta volta, el risponde Nanetto, no vui gnente, ma te me ghè dato un pi bruto spauron, robe che le fao in braghe. La dimora la ze curta, son vegnesto portarte la quaderneta che te me ghè dato, la go scrita tuta, ben piena. Lì te pol leder tuta la stòria del me viaio, par quela no ocor star qua par contàrtela. Romai son stufo de ndar in volta, go caminà tuto el di, e vui veder se rivo a San Giusepe vanti note.

- Parché tanta prèssia, Nanetto?! Fèrmete un s-ciantin, vien qua rento, séntete zo che vao tor un bicereto de graspa. La graspa la fa ben par nantri òmeni, meio che la gasolina pai auti.

- No stà gnanca parlarme de sti maledeti auti de paese, me par che i ze sempre pronti a strucar gente soto le rode.

Maneco el riva con bel bicereto de graspa, due quadernete e na branca de làpis. Eco, Nanetto, para zo questo remèdio che’l te fa caminar el dòpio. Giulieto, el me ga dito, che l’ano che vien el vol ritornar a la Quarta Colònia e el vol che ti te vè insieme, lora te dao due quadernete e meda dùsia de lapis parché no ghin manche.

Nanetto el pianta tuto in scarsela, el ringràssia el amico, el mete la maleta in schena e el va tuto contento. El sverde el passo pi che’l pol, intanto che’l pensa come la saria rivar a casa de Àndolo e trovar la Gelina.

 

VITA STÒRIA E FRÒTOLE

Rovílio Costa e Arlindo Battistel

Elogio della polenta

(Arrigo Boito, Itália)

 

"La spàtola, ossia, l’arte de menar bene la polenta e de mettarghe el tòcio Alegoria de Arlechin Batòcio, moreto bergamasco e mezo mato. El qual la ofre, dedica e presenta ai omeni politizi de Stato".

 

Ghe ze na caldiera, tacada su un fogo,

Che par una bampa, de inséndio e de rogo

De là ghè una pólvere, che par d’oro fin

E qua ghè la spàtola, del gran Trufaldin.

 

Scomìnsia el miràcolo, se vede de dentro

Levarse na brómbola, d’arzento, d’arzento;

Po sùbito unaltra la vien a tronar

E l’aqua nel fondo, scomìnsia a cantar.

 

La canta, la ronfa, la sùbia, la fuma

Dequa la se sgionfa, delà se inguma

El fogo consuma, col vivo calor

Le brómbole in s-ciuma, la s-ciuma in vapor.

 

La bógie, de boto; atenti ghe semo

Più fiama, de soto; supiemo, supiemo

Che gusto, che roje; la bógie, la bógie

 

La va, la galopa, la zira, la s-ciopa.

La fa la manfrina, farina, farina

La salta per sora, la sbródola fora

Porteme in cusina farina, farina...

 

Ócio, òcio, ohè, Batòcio, ciapa in man tecia e caena

Míssia, volta, zira, mena. Deme el tòcio, òcio, òcio.

 

Mola, tira, mola e destira e stinca e fola

La ze frola, dai dequà, dai, dai, la broa, la scota.

Ai, ai, ai, me son scotà

La zè cota, la zè cota.

 

Sior Florindo la se senta, che ze fata la polenta

Dunque magnémola; ghe manca el sal

Sal de la fiaba, ze la moral.

 

Eco: la spàtola ze mio estro

La ze el mio génio, pronto e maestro;

E quel finíssimo fior de farina

Vol dir Rosaura e Colombina;

L’aqua broenta, ze nostro cuor

E la polenta la ze l’amor.

 

 (Il libro della polenta, di Luigi Carnacina e Vincenzo Buonassisi, 1974, by Aldo Martello - Giunti Editore S.P.A., stampato in Firenze)

 

Ino a la polenta

Cláudio Ganassin

Venezia, Itália

 

Ze tre sècoli giusti, ò polenton,

che quei che de la Mèrica tornava

ne ga portà in regalo el formenton

che in quei paesi gnanca i masenava.

 

E da quel giorno tuti ga tremà:

osei, renghe, bisati e bacalà.

"In farsora, o su la grela,

In pastìssio, o in la padela,

Coi sponzioi, coi fungheti,

Col porseo, coi oseleti,

Co le tenche, coi bisati,

Co le anguele par i gati,

 

E po, insoma, in tuti i modi la polenta ze el me godir."

 

(in Talian)

 

GERAL

Fepam licencia hidrelétricas

São João e São José vão gerar 128 MW

 

A Fepam concedeu licenças prévias para as usinas hidrelétricas Passo São João (rio Ijuí, entre os municípios de Dezesseis de Novembro, Rolador, Roque Gonzales, São Luís Gonzaga e São Pedro do Butiá) e São José (também no rio Ijuí, entre os municípios de Rolador, Salvador das Missões, Cerro Largo e Mato Queimado), com validade para dois anos.

A usina de Passo São João terá capacidade de 77 MW, e a de São José, capacidade de 51 MW. O ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, anunciou que duas novas hidrelétricas vão participar do leilão previsto para dezembro.

De acordo com o diretor-presidente da Fepam, Claudio Dilda, só há autorização definidora das respectivas áreas e, portanto, não podem ser iniciadas quaisquer atividades antes da concessão das Licenças de Instalação (Lis). A Fepam ainda determinou nas licenças emitidas que todas as questões referentes ao deslocamento da população a ser atingida pela implantação e operação dos empreendimentos, em especial as desapropriações e reassentamentos, sejam resolvidas antes da emissão das Lis.

 

Guabiju discute agricultura familiar

 

A produção agropecuária na pequena propriedade é o destaque do Seminário Cenários e Tecnologias Avançadas para a Agricultura Familiar, que ocorre quinta, 6, no salão paroquial de Guabiju.

O professor da UFRGS, Luiz Carlos Fedrizzi, vai abordar os cenários futuros da agricultura familiar e o professor Marino Tedesco, também da UFRGS, irá tratar do uso correto da calagem e da adubação na agricultura familiar. À tarde, ocorrem palestras sobre tecnologias avançadas para o cultivo do milho e de plantas bioenergéticas, com o professor da UFRGS, Paulo Régis Ferreira, e o agrônomo da Fepagro Nidio Barni, respectivamente.