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Edição 4.975 - Ano 98 - Caxias do Sul-RS, 15 de fevereiro de 2006.

EDITORIAL

Vitrine com o poder de mudar o clima da cidade

A Festa da Uva perdeu boa parte do romantismo original, mas ganhou a ambição pela permanente superação

 

Durante muitas décadas, a Festa da Uva foi o maior agente propagador da imagem de Caxias do Sul - e, pelas peculiaridades do município, também de boa parte da região de colonização italiana. Hoje, o evento encontra rivais à altura na pujança da indústria e no esporte.

Assim como a Festa da Uva se destacou no cenário turístico nacional, rompendo inclusive as fronteiras do país, o empreendedorismo dos empresários avançou sobre o mapa econômico nas mesmas dimensões, caminho recentemente seguido por agremiações esportivas que conquistaram projeção. Não há, nessa comparação, sequer indícios de diminuição da relevância da Festa. Pelo contrário, foi ela que, em muitos casos, foi a vitrine e abriu portas para produtos locais.

Às vésperas da inauguração da 26ª edição da Festa da Uva, no próximo dia 17, com a presença confirmada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é importante destacar a influência do evento e, ao mesmo tempo, os seus idealizadores e as pessoas que se empenharam para a sua continuidade. Nesses 75 anos de Festa da Uva surgiram dezenas de outras promoções turísticas inspiradas no evento caxiense, muitas delas de vida efêmera.

Assim como a Festa da Uva disseminou o nome e as potencialidades da cidade e da região aos quatro cantos, internamente manteve aceso o interesse, que se renova a cada dois anos. Com críticas ou elogios, o evento não passa despercebido de quase nenhum caxiense. São facilmente perceptíveis as mudanças na cidade. Melhora o visual e o clima, levando-a a um estágio mais próximo do ideal almejado pelos moradores.

A Festa da Uva atingiu proporções inimagináveis. Perdeu grande parte do romantismo de suas origens, é bem verdade, mas adquiriu a ambição pela permanente superação - um dos pré-requisitos imprescindíveis para a perenidade. Independente de eventuais contestações ou controvérsias, é necessário que prossiga focada no futuro sem ignorar o passado. Com uma realidade marcada pela violência, por escândalos políticos, pela crise de relacionamento entre as pessoas, um ambiente festivo é sempre bem-vindo.

 

CAXIAS DO SUL

Lula anuncia atendimento a pedidos dos vitivinicultores

Presidente quer cumprir promessa feita a lideranças há dois anos

 

"Pela primeira vez nas últimas décadas não vamos entregar nenhum documento reivindicatório ao presidente da República. Nossas reivindicações são as mesmas de anos. Esperamos o atendimento". A declaração de Olir Schiavenin, coordenador da Comissão Interestadual da Uva, dá a dimensão da expectativa existente no setor com a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Flores da Cunha e Caxias do Sul na sexta 17. Lideranças da vitivinicultura esperam que Lula atenda os pedidos feitos há dois anos, durante a inauguração da Festa da Uva. E, conforme adiantou ao Correio Riograndense o ministro Miguel Rossetto, do Desenvolvimento Agrário, elas deverão ficar satisfeitas.

O presidente da República chega a Flores da Cunha ao meio-dia. Durante almoço para 800 produtores de uva e de vinho, vai anunciar investimentos e convênio para ampliar a fiscalização sobre o vinho para no mínimo mais 10 Estados. Também será assinado acordo entre os ministérios do Desenvolvimento Agrário e de Ciências e Tecnologia para aquisição de equipamentos para o Laboratório de Enologia de Caxias do Sul. O presidente anuncia ainda um programa dos ministérios de Desenvolvimento Agrário e da Indústria e Comércio que tem o objetivo de qualificar a gestão para o mercado interno e a exportação de vinhos, e a liberação de R$ 200 milhões para a comercialização da safra, condicionando o pagamento ao agricultor até 30 de junho deste ano.

"Esses recursos virão do Pronaf, transferidos de financiamento de custeio para a comercialização, com juros de 8,75% ao ano", afirmou Rossetto. "É nossa responsabilidade apoiar esse setor, que tem importância estratégica e que é formado, em sua base, por quase 20 mil agricultores familiares", acrescentou o ministro.

 

Livro de receitas valoriza a mulher do meio rural

 

O objetivo de valorizar a mulher do meio rural está sendo alcançado com o destaque a uma de suas melhores habilidades: a culinária. O livro Caderno de Receitas, que será lançado no próximo dia 20, às 15 horas, na Casa do Colono, no Parque de Exposições da Festa da Uva, oferece 200 opções de pratos doces e salgados, a maioria deles típicos da colonização italiana.

Resultado de uma parceria entre a Prefeitura Municipal de Caxias do Sul, Editora São Miguel-Correio Riograndense e Tondo S.A., a obra reúne receitas selecionadas por 148 mulheres, a maioria delas do interior caxiense. "São os pratos que elas mais gostam de fazer e/ou de comer", explica Linéia Grazziotin, titular da Coordenadoria da Mulher, responsável pela execução do projeto.

O livro oferece orientações para o preparo de pratos que se tornaram tradição na região de colonização italiana. De pudins ao ravióli, do sagu à sopa de agnolini, da bolacha caseira ao fregolá, as receitas revelam o cuidado com a preservação da cultura da mulher imigrante que foi obrigada a usar da criatividade para ludibriar a escassez e colocar comida na mesa. Também há adequações, resultado da miscigenação étnica, e aprimoramentos que a moderna culinária permite.

Foram impressos 1.000 livros. Cada uma das 148 "autoras" receberá dois exemplares e, segundo Linéia, cerca de 400 serão doados à Associação Clube de Mães de Caxias do Sul.

 

REPORTAGEM

Romaria fortalece a luta pela terra

Evento do dia 28 de fevereiro, em Lagoa Bonita do Sul, aborda função social da propriedade

 

O Rio Grande do Sul realiza, em 28 de fevereiro, dia de Carnaval, a 29ª Romaria da Terra. O evento deste ano ocorre em Lagoa Bonita do Sul, município do centro do Estado que tem sua economia baseada nas pequenas propriedades rurais e na criação de bovinos, suínos e caprinos (matéria, abaixo). A comunidade pertence à diocese de Cachoeira do Sul, que junto com a Comissão Pastoral da Terra e a paróquia de Sobradrinho, é a responsável pela promoção e realização da romaria e conta com o apoio das outras 16 dioceses gaúchas.

A Romaria da Terra é um momento forte, privilegiado, de mobilização, celebração e conscientização. É uma manifestação de fé e de compromisso dos trabalhadores do campo e da cidade, que manifestam através dessa caminhada o desejo de uma vida digna. A 29ª Romaria da Terra abordará o tema sobre a função social da propriedade. A expressão "função social" foi incluída na Constituição Brasileira para garantir que a terra cumpra o seu papel de ser espaço de vida e acesso para todas as pessoas.

Mas apesar de assegurado esse direito, o que se constata é uma outra realidade: continuidade da exploração, destruição do ambiente e concentração da terra e das riquezas nas mãos de alguns poucos privilegiados. O Brasil continua sendo o país com um dos maiores índices de concentração da terra; aqui estão os maiores latifúndios do mundo. Somadas, as 27 propriedades de maior extensão equivalem a toda a área do Estado de São Paulo. As 300 maiores ocupam uma área maior que a formada por São Paulo e Paraná.

Apenas 70 mil latifúndios, que representam 1,6% das propriedades rurais, ocupam uma área de 183 milhões de hectares, isto é, 43,6% de todas as terras agricultáveis. E 9% dos proprietários de terra no Brasil são donos de 82% das terras cultivadas ou de pastagens.

 

Encontro convida a buscar alternativas que mudem a estrutura agrária no país

 

Diante dos alarmantes números da concentração da terra no Brasil, a Romaria da Terra pretende ser um convite para que as comunidades reflitam sobre a necessidade de construir alternativas que mudem a estrutura agrária brasileira, aplicando o princípio da função social da propriedade. Para o ensino social da Igreja, o latifúndio contrasta com o princípio bíblico da destinação universal dos bens, onde a terra é concebida como um dom de Deus para todos.

Neste ano, em Lagoa Bonita do Sul, onde são aguardados em torno de 30 mil romeiros de todo o Estado, os participantes vão recordar, de maneira especial, os 250 anos da morte de Sepé Tiaraju (matéria abaixo) herói rio-grandense que está na origem das romarias da terra. A primeira ocorreu no dia 7 de fevereiro de 1978, em Caiboaté, São Gabriel, lugar da morte de Tiaraju e seus companheiros, que foram massacrados porque defendiam seu solo sagrado.

Por isso, além de recordar a mística e a "utopia da terra sem males" e a luta pela justa distribuição de terras e pelo direito de todos à propriedade, a romaria pretende compartilhar o esforço dos que batalham pela valorização dos produtos, pela preservação da natureza, pela produção ecológica, pela criação de cooperativas e associações, pela permanência dos trabalhadores no meio rural, pelo fim da violência e do trabalho escravo no campo. Pretende celebrar a vida da terra, da água e do ar, dos quais depende a vida de todos.

 

Pequena propriedade sustenta economia

 

Lagoa Bonita do Sul, município onde será realizada a 29ª Romaria da Terra do Rio Grande do Sul, foi emancipado em 1996. A economia do município é baseada em pequenas propriedades rurais, que produzem principalmente fumo, milho, soja, feijão, batatinha e outros produtos de subsistência. A população atual é de cerca de 2.700 habitantes, divididos em 495 propriedades rurais, sendo 615 domicílios. O tamanho médio das propriedades é de 16,7 hectares.

Localizada perto de Sobradinho, Lagoa Bonita do Sul tem seu nome originado de uma lagoa que existia à margem da estrada principal que corta o município. As capelas pertencem à paróquia de Sobradinho e à diocese de Cachoeira do Sul. A população participa ativamente na comunidade, nas organizações sociais e mobilizações populares. A romaria do dia 28 ocorre na comunidade de Lagoa Bonita Baixada, a pouco mais de dois quilômetros da cidade.

 

Guaranis de cinco países homenageiam herói Sepé Tiaraju

 

Milhares de índios participaram do encerramento, no dia 7 de fevereiro, da 1ª Assembléia Continental Guarani, que reuniu em São Gabriel (RS) descendentes dessa raça do Brasil, Paraguai, Argentina, Uruguai e Bolívia, além de representantes de outras tribos indígenas de todo o país. A assembléia integrou as comemorações dos 250 anos da morte de Sepé Tiaraju, declarado herói guarani missioneiro rio-grandense.

De 4 a 7 de fevereiro, em São Gabriel, uma extensa programação marcou as homenagens ao herói rio-grandense, massacrado no dia 7 de fevereiro de 1756 em Sanga da Bica, na batalha de Caiboaté, junto com cerca de 1,5 mil índios por soldados portugueses e espanhóis. Acampamentos, seminários, atos políticos, celebrações, orações, apresentações culturais, com música, danças e espetáculos teatrais, uma caminhada até Sanga da Bica e outros eventos marcaram os quatro dias de homenagens a Sepé.

No encerramento da assembléia foi lido um documento final do encontro, que denuncia o desrespeito das autoridades contra os direitos dos povos nativos, especialmente a demarcação e homologação dos territórios indígenas tanto no Brasil quanto na Argentina e Paraguai, e convida todos os povos a se unirem em torno dos objetivos comuns e a se espelharem em Sepé Tiaraju na luta por mais respeito e justiça.

Até o final de fevereiro, o Museu Municipal Doutor José Olavo Machado, de Santo Ângelo, promove uma exposição sobre Sepé Tiaraju, que inclui esculturas, documentos históricos, obras, músicas compostas para o herói rio-grandense e sua história e atuação na região missioneira.

 

AGRONEGÓCIO

País perde até 50% da fruta colhida

Técnicas ensinam a conservar e retardar o envelhecimento do fruto

 

As perdas pós-colheita de frutas tropicais variam de 20% a 50% do que é produzido no Brasil - o país produz 35 milhões de toneladas. Os motivos vão desde a colheita ao transporte, passando pelo armazenamento. A conservação de frutas, visando à exportação e à mesa do brasileiro, está ganhando um aliado de peso: a pesquisa oficial.

Inicialmente, é bom lembrar que as frutas "funcionam" de forma diferente umas das outras. "O produtor precisa saber como a fruta respira, em quanto tempo amadurece, se pode ser colhida de vez ou em etapas e quando deve ser coletada", observa o pesquisador da Embrapa Agroindústria Tropical, Ricardo Elesbão Alves.

De acordo com estudos apresentados no I Simpósio Brasileiro Pós-Colheita de Frutos Tropicais, realizado em João Pessoa (PB), frutas como a laranja e o caju, se forem colhidas verdes, não amadurecem. Já produtos como a banana e a manga podem amadurecer fora da planta.

A principal tecnologia aplicada na conservação é a refrigeração. "Uma fruta, que tem metabolismo que faz com que amadureça em cinco dias, dependendo da temperatura, pode amadurecer em 15 dias", exemplifica Ricardo Alves. Nesse caso, a medida estende em três vezes a vida útil do fruto. "No frio, o metabolismo fica mais lento, tornando os processos de envelhecimento e de degradação mais demorados", explica.

Filmes - Outra técnica é a atmosfera modificada, como os filmes plásticos que recobrem produtos no supermercado. Eles atuam de duas formas. Primeiro, evitando a perda de água. Um dos principais problemas de envelhecimento de produtos hortícolas é o murchamento, que faz com que percam a qualidade.

Os filmes fazem com que o processo de transpiração diminua, por criar barreira física à perda de água. Além disso, como a fruta está respirando, produzindo gás carbônico (CO2) e consumindo oxigênio, esses filmes formam barreira física aos gases e, da mesma forma que numa temperatura baixa, a fruta respira mais devagar e envelhece mais lentamente. "Com menor disponibilidade de oxigênio e maior quantidade de CO2, ela tem o processo de deterioramento retardado", observa Ricardo Alves.

Segundo o pesquisador Edenezér de Oliveira Silva, existem outras técnicas para aumentar a vida útil dos frutos. "A Embrapa está desenvolvendo a aplicação de gás metilcilopropeno (MCP) em produtos como melão e manga", diz ao CR. Esse gás evita a ação do etileno, que é um hormônio interno presente nas frutas, responsável pelo amadurecimento dos frutos. Já o MCP paralisa temporariamente o amadurecimento.

Conforme Edenezér, se aplicadas as técnicas desenvolvidas pelas instituições de pesquisa, as perdas cairiam drasticamente no país. "Inicialmente, a redução iria variar de 5% a 10%", garante.

 

RS sucateia estrutura de armazenagem

 

Os pequenos produtores de frutas deveriam se associar para evitar perdas. A afirmativa é do pesquisador Edenezér Silva. Só que nem sempre é assim. O Rio Grande do Sul investiu R$ 4,5 milhões em 10 câmaras frias para armazenagem de frutas. Destas, sete estão se deteriorando por falta de uso.

Enquanto isso, produtores de outras regiões do Estado perdem ou precisam pagar para conservar a colheita em refrigeradores particulares. Somadas, as câmaras frias têm capacidade para estocar em torno de 3.000 toneladas de frutas.

 

Esalq aplica choques de calor

 

A utilização de resfriamento com propósitos de conservação é antiga, e sua eficiência já é comprovada. Porém, o calor pode ser uma alternativa para auxiliar na conservação de frutas e hortaliças, ao invés do simples armazenamento desses produtos em câmaras frias após a colheita.

Uma estratégia que vem sendo testada na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) é a aplicação de choque de calor para ativar o sistema de defesa de frutas e hortaliças, antes delas entrarem no ambiente frio. Este tipo de tratamento pode gerar uma resistência cruzada, fazendo com que a resposta à alta temperatura acione mecanismos de resistência ao frio.

Frutas tropicais, semitropicais e as de climas temperados sofrem injúrias pelo frio. Assim, um dos objetivos da pesquisa é entender as agressões provocadas pelo frio e conhecer os mecanismos que a fruta dispõe para se proteger.

Como quem garante a integridade da fruta é a membrana celular existente nas células da casca e de seus tecidos internos, este é o foco dos estudos. "A refrigeração é o sistema de armazenamento mais utilizado para a preservação de frutas e hortaliças, porém o frio pode causar danos nos frutos, quando o armazenamento é muito longo. A aplicação de calor antes do armazenamento a frio pode aumentar a eficiência da própria refrigeração", afirma Ricardo Alfredo Kluge, professor da Esalq e coordenador do trabalho.

O estudo visa conhecer os danos que o frio provoca na membrana celular das frutas e hortaliças e como os mecanismos de defesa podem ser ativados. "O grande desafio da pós-colheita é manter a qualidade e aumentar o período de conservação", lembra Kluge.

 

Pesquisa com citros e pêssegos dá certo

 

Experiências com citros e com o pêssego vêm sendo testadas com muito sucesso. No caso dos citros, um tratamento de dois minutos a 53 ºC está melhorando o tempo de conservação da fruta. Dois tipos de tratamento térmico estão sendo testados, um de condicionamento térmico e outro de aquecimento intermitente.

O primeiro através de um choque de calor seguido de frio e o segundo através da interrupção do período frio por um ou mais períodos de temperaturas amenas, seguido por nova refrigeração. "Os ensaios são realizados com banho de água quente, câmara quente e vapor, o que garante outra grande vantagem, o produto passa por um tratamento físico e não químico", diz Ricardo Kluge. Informações: (19) 3429 4485 / 3429 4477 ou www.esalq.usp.br

 

Mapa oficializa análise de vinhos

O método identifica a adição de água nos vinhos de todo o país

 

A metodologia analítica para determinação da razão isotópica do oxigênio em vinhos acaba de ser oficializada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e do Abastecimento (Mapa). Publicada no Diário Oficial da União, a metodologia é reconhecida pela Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV).

O método é desenvolvido pelo Laboratório de Referência Enológica (Laren), em Caxias do Sul, com o Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo. "Com ele pode-se identificar a adição de água exógena (estranha) aos vinhos", explica a coordenadora do Laren, Regina Vanderlinde.

Para o presidente-executivo do Instituto Brasileiro do Vinho, Carlos Raimundo Paviani, a oficialização atende a um dos mais importantes pleitos do setor vitivinícola. "A qualificação gradativa do sistema de controle da produção é mais um atestado da evolução da vitivinicultura brasileira", opina.

A nova ferramenta de controle veio em boa hora. De 80 amostras de vinho a granel colhidas e analisadas entre 16 de novembro e o final de dezembro do ano passado, 12 tinham água. "A fraude atinge o consumidor e prejudica a imagem do setor e o produtor de uvas", avalia Plínio Manosso, engenheiro agrônomo e chefe da divisão de fiscalização do Laren.

Fiscais – O setor vegetal do RS está sendo afetado com a paralisação dos fiscais agropecuários. Eles suspenderam a fiscalização de vinho, uvas e seus derivados. "60% do vinho gaúcho é vendido a granel", lembra Manosso ao CR. "Os profissionais aguardam a concessão de credenciais pelo Mapa e a gratificação, por parte do governo do Estado, por trabalhar 24 horas em zonas de fronteira", diz Juliano Smiderle, do Laboratório de Enologia de Flores da Cunha.

 

Soja lidera safra nacional de grãos

 

A safra deve ser 12,2% maior em 2006. O país deverá colher 126,635 milhões de toneladas. O prognóstico do IBGE é para produção de cereais, leguminosas e oleaginosas (caroço de algodão, amendoim, arroz, feijão, mamona, milho, soja, aveia, centeio, cevada, girassol, sorgo, trigo e triticale). A estimativa da área plantada, quando considerados os 11 produtos investigados, é de 46,867 milhões de hectares. A soja deverá crescer 15% em razão de aumento na produtividade - volume de 58,741 milhões de toneladas. Já para a Conab, a produção nacional de grãos deve ficar entre 121,5 e 124,9 milhões de toneladas, crescimento de oito a 11,3 milhões de toneladas.

 

VIDA AGRÍCOLA

Engº. Agrº. José Zugno

Colheita de melancia

Tenho uma pequena plantação de melancia. Quando o fruto está do tamanho de um ovo de galinha quantos dias ainda leva para ser colhido? Isto contando com melancia sadia e ramagem perfeita.

Nilo Bruschi

Gaurama – RS

 

A melancia (Citrullus lanatus) é um fruto que pertence à família das cucurbitáceas, assim como a abóbora, o melão e o pepino. A sua origem é africana e encontrou espaço para seu cultivo e disseminação em países com clima tropical, como a Índia e o Brasil.

É uma planta anual, de crescimento rasteiro e bastante ramificada. Possui flores masculinas e femininas na mesma planta, sendo por isso chamada monóica, e sua polinização é feita por insetos (abelhas e vespas, principalmente). A presença desses polinizadores determinará o maior ou menor número de frutos e a porcentagem de frutos deformados.

O ciclo da cultura dura de 90 a 120 dias e a colheita inicia a partir dos 90 dias após o plantio. Desde a fecundação da flor até o ponto de colheita decorrem entre 40 e 45 dias, aproximadamente, dependendo se a variedade é mais precoce (japonesa) ou mais tardia (americana).

Existem diversas formas de identificar o momento de colheita, tais como: o secamento da gavinha que fica localizada junto à inserção do pedúnculo do fruto com a rama; a batida com o nó do dedo no fruto ( o fruto maduro produz som oco); a mudança de cor da parte da fruta que fica em contato com o solo, etc.

Na colheita é importante cortar o pedúnculo (cabinho do fruto) deixando-o com cerca de 5 cm, para evitar a penetração de agentes causadores de doença no fruto. O ideal é realizá-la na parte da manhã e proteger os frutos do sol, conservando-os em local fresco e arejado.

Ideal para ser consumida no verão, a melancia, fruta que contém 90% de água, desponta como uma das principais gamas da fruticultura do país. Os números comprovam, pois a produção é crescente: evoluiu mais de 110% nos últimos anos, passando de 295 mil toneladas produzidas na década de 80 para 620 mil toneladas em 2004.

Sem semente - A melancia sem sementes também vem sendo cultivada no país. A ausência de sementes ocorre como resultado de um cruzamento, entre plantas de diferentes constituições genéticas, levando a uma semente especial que, quando plantada, proporciona a fruta sem sementes.

Os pesquisadores alertam que, em alguns casos, pouquíssimas sementes são originadas, mas isso não é comum. No entanto, é normal a presença de rudimentos brancos de sementes, que podem ser ingeridas com a polpa, sem problemas.

Para mais informações: Francisco Manteze, engenheiro agrônomo da Emater de Montenegro.

Dados bibliográficos: Normas Técnicas para o Cultivo da Melancia - sistemas de Produção nº 24; Epagri, SC; 1996.

 

Laranja resistente ao cancro conquista citricultor

Variedade folha murcha atrai produtor também pela sua precocidade

 

A laranjeira valência folha murcha (Citrus sinensis L. Osbeck) surge como alternativa na citricultura. A maturação da variedade pode ocorrer até março nas condições da Serra gaúcha, período de entressafra quando existe uma forte demanda por laranjas. "A folha murcha é uma opção interessante para sucos", afirma Paulo Lipp, especialista em fruticultura da Emater/RS. É também uma das variedades preferidas dos mais de 7.000 agricultores catarinenses, que cultivam 2,3 milhões de pés, em quase 9.000 hectares.

O melhor atrativo da variedade pode estar na sua resistência ao cancro cítrico. Causado pela bactéria Xanthomonas axonopodis pv. citri, o cancro cítrico ataca todas as variedades e espécies de citros e constitui-se numa das mais graves doenças da citricultura brasileira. Não há medidas de controle capazes de eliminar completamente a doença. Os técnicos indicam a erradicação das plantas doentes e das suspeitas de contaminação.

Por sua boa performance, quando em competição com outras variedades, pode ser utilizada na diversificação do pomar. "A folha murcha exibe frutos menores e sua produtividade é inferior à valência, a preferida dos gaúchos", explica Lipp ao CR. Apesar das aparentes desvantagens, o técnico sugere que o produtor diversifique a plantação com 80% de valência e 20% de folha murcha.

Características - A laranjeira valência folha murcha tem sua origem exata de difícil estabelecimento. Acredita-se que seja um mutante natural descoberto no município de Araruama, no Rio da Janeiro. A nova variedade chamou a atenção por duas de suas características: o permanente enrolamento das folhas e maturação tardia.

Para o professsor Ary Salibe, a folha murcha é uma seleção de valência de maturação tardia, caracterizada por apresentar folhas enroladas. "O que se sabe, é que se trata de uma variedade tipicamente brasileira, pois não há na literatura mundial citação de tipos semelhantes", diz o professor Luiz Carlos Donadio, da Universidade Estadual de São Paulo.

Frutos - Os frutos da folha murcha têm boa conservação na planta. Medem em média 6,35 cm de altura e 6,46 cm de diâmetro. Apresentam forma arredondada e levemente achatada. A casca é fina, levemente rugosa, de cor laranja, típica das laranjas doces. A polpa é fina. O número médio de sementes varia de dois a seis por fruto.

 

EUA tarifa o suco nacional em 60,3%

 

A Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos emitiu autorização para tarifas de até 60,29% sobre o suco de laranja importado do Brasil, o que representa uma vitória para produtores da Flórida. Eles reclamam de concorrência desleal e afirmam que o Brasil vende suco com preço abaixo do custo de produção.

Apesar dos EUA serem o segundo maior produtor mundial de suco de laranja, os norte-americanos ainda importam 157 milhões de galões (606,5 milhões de litros) de suco do Brasil por ano. O volume exportado para os EUA é avaliado em US$ 98,6 milhões.

 

REGIÃO

Exposição retrata 40 anos da Fecouva

Festa típica de Otávio Rocha é segunda mais antiga da Serra

 

A Festa Colonial da Uva de Otávio Rocha, distrito de Flores da Cunha (RS), completa, no dia 20 de fevereiro, 40 anos de sua primeira realização, em 1966. Para assinalar a passagem dessa data histórica será realizada no Museu e Arquivo Histórico Pedro Rossi de Flores da Cunha, a exposição temporária "Fecouva - 40 Anos", que inicia no dia 20 e se estende até 25 de março.

A mostra reúne, entre outros, cartazes; fotos das soberanas, das exposições e dos desfiles; trajes típicos e recortes de jornais. A iniciativa visa recordar a primeira festa típica de Flores da Cunha e a segunda mais antiga festa da Serra gaúcha, tendo como tema a uva e o vinho.

Como parte das comemorações dos 40 anos da Fecouva, no dia 19 a paróquia de Otávio Rocha fará uma cerimônia especial durante a missa das 8h30 em homenagem a Nossa Senhora da Uva e com a presença do Coral Típico de Otávio Rocha. A divulgação de mais esta invocação a Maria iniciou por Otávio Rocha, que recebeu um quadro do pintor francês Pierre Mignoud (1612-1695), que retrata Nossa Senhora da Uva. Na matriz de Otávio Rocha, inaugurada durante a abertura da 1ª Festa Colonial da Uva, está a primeira estátua dessa Nossa Senhora, reproduzida pelo artista Jovino Nolasco.

No dia 20, um coquetel marcará a passagem da data, ocasião em que será entregue certificado de honra ao primeiro casal presidente da festa, Francisco e Adélia Caldart, e ao Coral Típico. Para valorizar a data e colocar a Fecouva em destaque, Otávio Rocha vai participar dos desfiles da Festa da Uva de Caxias do Sul com um carro alegórico que tem como tema central a devoção a Nossa Senhora da Uva. Otávio Rocha é um importante pólo turístico da Serra e integra o projeto Caminhos da Colônia.

 

Festa de Veranópolis oferece o vinho doce

 

Tradicional no calendário turístico de Veranópolis, a Festa do Vinho Doce é realizada pela comunidade de Nossa Senhora da Paz, com o apoio da Prefeitura. Programado para os dias 18 e 19 de fevereiro, o evento traz a gastronomia italiana, jogos, vinhos, shows, passeios, exposição, feira de uvas e artesanato.

A cozinha oferecerá pratos típicos. No subsolo do salão, os visitantes vão encontrar exposição, feira e degustação de uva, vinhos e venda de produtos artesanais. A diversão fica por conta dos corais, cantos italianos e danças típicas.

A novidade dessa edição é o almoço festivo, no domingo. Com cardápio diferenciado ao prato pronto: sopa de capelleti, costela de porco, galeto, massa, carne lessa, saladas e pão. "O destaque é a missa em dialeto vêneto, no domingo, às 10 horas, com frei Arlindo Battistel", relata o presidente da festa, Vilmar Menegon.

A festa vai funcionar das 15 às 24 horas, no sábado, e das 9 às 18 horas, no domingo. A entrada custa R$ 4 para adultos e R$ 2 para crianças. Os shows e o vinho doce são gratuitos. O passeio de tuc-tuc, que passa por parreirais, será pago.

 

SAÚDE

Distância e trajeto ameaçam saúde do aluno

Pais devem preocupar-se ainda com tipo e peso da mochila das crianças

 

As férias escolares estão chegando ao fim. A gurizada já mobilizou os pais na compra do material e de mochilas. Atraídas pelo colorido, as crianças nem se lembram de prestar a atenção na qualidade do material da mochila. Parece besteira, mas a forma e o tipo de produto escolhido podem acarretar problemas de postura.

Ao comprar, os pais devem notar se a mochila não ultrapassa a linha da cintura. Isso é importantíssimo para que a coluna não seja sobrecarregada e, futuramente, problemas de postura possam afetar a vida do adolescente.

Os médicos garantem que a mochila ideal é simétrica, ou seja, tem alças para serem usadas nos dois braços e deve ter encosto maleável. "O melhor é adquirir a mochila de rodinhas", afirma o reumatologista caxiense João José Nascimento Cavalheiro. Outra sugestão é usar a mochila na frente bem presa ao corpo. "Desta forma, ela exerce menor carga e a criança pode ajudar com os braços na distribuição do peso e na acomodação da mochila junto ao corpo, exercendo, assim, menor sobrecarga sobre o esqueleto ósseo ainda em fase de crescimento", observa. Além disso, diz Cavalheiro ao CR, o professor deve exigir que o aluno leve para o colégio somente o material do dia.

Os médicos sempre afirmam que o aluno deve carregar o equivalente a 10% a 15% de seu peso corporal. "O peso faz tração sobre a coluna e as articulações", afirma o reumatologista. A orientação depende do tempo e da distância que a criança vai carregar seus materiais. "A distância e o trajeto são fatores muito importantes", destaca.

Se a escola fica perto de casa e se ainda o jovem for de carro, não há problema em levar 10%, o que é bem diferente de quem pega ônibus ou anda muitos quarteirões para assistir às aulas. No caso de Caxias do Sul, no geral, o caminho é bastante acidentado. "Subir lombas, por exemplo, muda o ponto de equilíbrio e, com a distância, vai aumentar a carga", explica.

Com a volta às aulas, livros, cadernos e apostilas preenchem o dia-a-dia do estudante. Para ir bem durante o ano letivo, vale estudar em casa, na cama, no ônibus.... Mas, na hora do estudo, é preciso ficar atento também aos erros posturais.

Os números comprovam que a postura é um fator importantíssimo contra os problemas de coluna. Cerca de 25% dos riscos de dor estão diretamente relacionados a erros cometidos ao sentar, levantar, realizar trabalhos por longos períodos, além de carregar mochilas e outras atividades rotineiras.

Quem passa horas na frente do computador, por exemplo, deve tomar alguns cuidados básicos para não ter dores nas costas. Para permanecer em uma posição correta, a coluna deve ficar firme e ereta, em um ângulo de 90º em relação aos quadris. Já os pés precisam ficar apoiados firmemente no solo, e o pescoço, reto.

 

ABNT adverte para a segurança do material

 

Na rotina que marca todo início de ano, os pais se empenham na compra do material escolar e o comércio investe na criatividade para atrair os clientes. No corre-corre pode passar despercebido o perigo de certos produtos às crianças. A falta de garantia ou de qualidade de produtos como lápis e cadernos é uma das preocupações da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).

Um exemplo de preocupação com o consumidor é a norma "Segurança de artigos escolares" (NBR 15236 entrou em vigor em julho de 2005). Esta norma especifica os requisitos de segurança dos artigos escolares destinados a crianças menores de 14 anos e refere-se a possíveis riscos que resultam de seu uso normal.

Os requisitos principais se referem a aspectos químicos e físicos. "Os químicos englobam tintas, colas, lápis e outros materiais tóxicos ou irritantes à pele, e a aspectos físicos, às bordas metálicas e cortantes, pontas de compasso longas ou tampas de caneta que podem asfixiar, se atravessadas na garganta", explica Mariano Bacellar Netto, diretor técnico do Instituto Brasileiro de Qualificação e Certificação (IQB).

 

OPINIÃO

A pena de morte volta à discussão

Maria Clara Lucchetti Bingemer

No caso brasileiro, é preciso quebrar a cadeia de violência em que estamos presos há pelo menos 20 anos. Mais sangue derramado de nada serve. A criminalidade continua robusta e intocada, apesar dos cadáveres que se amontoam

 

Era inevitável que a vitória do NÃO no referendo sobre o Desarmamento, em outubro de 2005, trouxesse de volta velhas questões relativas à violência, à justiça e à morte como solução para a diminuição da criminalidade. Ressurge, assim, a discussão sobre a pena de morte.

Recentemente, vieram a público, por parte do governo britânico, as anotações feitas por Norman Brook, vice-ministro do Gabinete de Guerra britânico, íntimo colaborador do grande e admirado estadista Winston Churchill. A narrativa de Brook põe mais lenha na fogueira do debate sobre o tema. Segundo ele, Churchill tinha a firme intenção de eletrocutar Hitler assim como todos os líderes nazistas, caso estes fossem capturados pelas forças aliadas.

A respeito da greve de fome do líder indiano pacifista Mahatma Gandhi, Brook faz novas revelações espantosas. Gandhi iniciou uma greve de fome enquanto estava detido, em 1942, por opor-se ao envolvimento da colônia na Segunda Guerra Mundial e conclamou a sociedade à desobediência civil. Segundo Brook, Churchill queria deixar Gandhi morrer de fome se persistisse em sua ação de protesto. Felizmente, os ministros britânicos foram mais sensatos. Em 1944, Gandhi foi libertado diante do temor de que sua saúde frágil pudesse provocar sua morte ainda sob custódia britânica.

Vemos, portanto, que a solução da pena de morte tem sido considerada até mesmo pelos líderes e estadistas que são figuras paradigmáticas no mundo Ocidental. Mas a discussão sobre o assunto é mais antiga. Os argumentos éticos e religiosos e as motivações pragmáticas são discutidos há décadas. E o caminho para continuar a reflexão de maneira serena e profunda permanece o de percorrer com persistência os argumentos, verificando sua pertinência e desmascarando sua fragilidade.

A conclusão generalizada das pesquisas em âmbito internacional é não haver indícios claros de que a abolição da pena de morte tenha provocado um aumento da taxa de homicídio ou uma queda naqueles países onde foi reintroduzida. Não há igualmente indicação clara nas pesquisas de que a ameaça da execução - a eficaz "intimidação" a que se referem os defensores da pena de morte - seja mais eficaz que a ameaça de punição, da prisão imediata. Os fatos apontam na direção contrária: onde a pena de morte é praticada, os índices de criminalidade são os mais elevados.

A experiência histórica dos países que ainda têm ou aboliram a pena de morte deve ser revista mais intensamente do que foi até agora. E será uma peça importante no debate público para a avaliação da eficácia da pena de morte para os que não se convencem do argumento ético nem se deixam inspirar pela fé, que declara ser apenas Deus o Senhor da vida.

No caso brasileiro, é preciso mais que nunca quebrar a cadeia da violência em que nos encontramos presos pelo menos há vinte anos. Nessas duas décadas especialmente - no dizer de especialistas como Paulo Sérgio Pinheiro, membro da Comissão Teotônio Vilela para as prisões e conselheiro da Comissão Justiça e Paz de São Paulo - a principal resposta dada ao crime foi a violência. É hora de romper essa cadeia mortífera e infernal. De nada têm adiantado as milhares de mortes decorrentes da ação policial. Os números superam recordes internacionais. Não existe país no mundo, levadas em conta a população e a taxa de criminalidade, em que tantos criminosos e suspeitos são mortos diariamente, sem processo, como no Brasil. Ou em que a morte de delinqüentes tenha sido tão banalizada como nas prisões brasileiras.

Mais sangue derramado de nada serve. A criminalidade continua robusta e intocada, apesar dos cadáveres que se amontoam. Legalizar essas execuções não teria conseqüência melhor. Hoje, graças à incompetência do Estado para lidar com a violência que assola as cidades brasileiras, os criminosos preferem matar a ser presos. A expectativa de uma pena de morte depois não iria dissuadi-los do crime.

Quando a arrogância humana entenderá que não comanda os mecanismos da existência e que esta pertence apenas a Deus, Criador e Senhor da vida? Quantas mortes ainda serão necessárias para que se saiba que já se matou demais? Quando o Brasil, maior país católico do mundo, fará jus a seu Batismo, repudiando as estruturas que agridem frontalmente a mensagem do Evangelho de Jesus Cristo?

 

A paz dos meus sonhos (final)

Frei Betto

Talvez a meditação dos textos de Isaías nos ajude a trilhar um caminho assinalado, na geografia bíblica, há 2.800 anos! Resta-nos gravá-lo nas entranhas do coração

O profeta Isaías viveu em Jerusalém no século 8 antes de Cristo. A Assíria era, então, a grande superpotência do Oriente. Em busca de expansão de seu império, os exércitos assírios invadiam territórios de países vizinhos. A Síria e o reino do Norte - Efraim (Israel), cuja capital ficava na Samaria -, selaram uma aliança para deter os assírios. Porém, Acaz, rei de Judá (reino do Sul), recusou-se a participar. Um golpe de Estado foi preparado para derrubá-lo e empossar outro rei mais cooperativo. Vendo-se ameaçado, Acaz recorreu à Assíria, que desbaratou a conspiração e subjugou Efraim. Como vassalo dos assírios, Acaz permaneceu no poder em Jerusalém.

Uma década mais tarde, o reino do Norte rebelou-se contra a Assíria. Em 722 a.C., a Samaria foi destruída e sua população, deportada. Efraim-Israel deixou de existir.

Em 701 a.C., Ezequias, rei de Judá, rebelou-se contra Senaquerib, rei da Assíria. O reino do Sul foi saqueado pelas tropas da potência imperialista e Ezequias ficou confinado em Jerusalém.

Toda a pregação de Isaías, contida em seu livro bíblico, é eminentemente política. Homem cosmopolita, era conselheiro do rei de Judá, tanto à época da guerra sírio-efraimita, quanto no período em que Ezequias foi mantido sem poderes no poder.

Por que há tantas guerras?, indagava Isaías. Sua argúcia política não se detinha nos efeitos. O profeta denunciou as causas das desigualdades sociais, sobretudo a opulência das elites: "Ai daqueles que juntam casa com casa e emendam campo a campo, até que não sobre mais espaço e sejam os únicos a habitarem no meio do país. Javé dos exércitos jurou no meu ouvido: ‘Suas muitas casas serão arrasadas, seus palácios luxuosos ficarão desabitados’. (...) Ai daqueles que madrugam procurando bebidas fortes e se esquentam com o vinho até o anoitecer. Em seus banquetes eles têm harpas e liras, tambores e flautas, e vinho para suas bebedeiras; e ninguém presta atenção na atividade de Deus, e ninguém vê o que a mão dele faz. (...) Ai dos que dizem que o mal é bem, e o bem é mal, dos que transformam as trevas em luz e a luz em trevas, dos que mudam o amargo em doce e o doce em amargo! Ai dos que são sábios a seus próprios olhos e inteligentes diante de si mesmos! Ai dos que absolvem o injusto a troco de suborno e negam fazer justiça ao justo!" (5, 8-23).

Isaías criticava também a ociosidade perdulária das elites, em especial as mulheres: "Por causa do orgulho das mulheres de Jerusalém, que andam de cabeça erguida e olhos cobiçosos; que vão pisando miúdo, tilintando os anéis dos tornozelos, o Senhor cobrirá de sarna a cabeça delas. Arrancará delas os enfeites: anéis de tornozelo, testeiras e lunetas; brincos, braceletes e véus; grinaldas, correntinhas de pé e cintos; caixinhas de perfume e broches; anéis e pingentes para o nariz; vestidos de gala e mantas; xales, bolsas, espelhos, túnicas, chapéus e mantilhas." (3, 16-24).

Como Tolstoi, Isaías aspirava a uma vida de despojamento e simplicidade. Toda a sua literatura está impregnada de forte conotação utópica: "O lobo será hóspede do cordeiro, a pantera se deitará ao lado do cabrito; o bezerro e o leãozinho pastarão juntos, e um menino os guiará; pastarão juntos o urso e a vaca, e suas crias ficarão deitadas lado a lado, e o leão comerá capim com o boi. O bebê brincará no buraco da cobra venenosa, a criancinha enfiará a mão no esconderijo da serpente." (11, 6-9).

Toda a mensagem de Isaías está centrada nesta afirmação: "O fruto da justiça será a paz" (32, 17). Inútil querer a paz sem, antes, erradicar as causas que produzem conflitos, violência e guerra. Por isso, ele zombava dos idólatras, que adoravam objetos feitos por mãos humanas, e também dos que se julgavam profundamente religiosos sem, no entanto, libertarem os oprimidos: "O jejum que eu quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer opressão; repartir a comida com quem passa fome." (58, 6-7).

Isaías foi um caso raro de quem conviveu com e no poder e jamais abandonou seu compromisso com os oprimidos. Sua visão de Deus nada tinha de maniqueísta, nem de fundamentalista. Ao equilíbrio de forças, acrescia a justiça; à justiça, adicionava o amor. Só o amor é capaz de superar o direito e evitar fazer das diferenças divergências, pois nos ensina a conviver com aquele que não é como nós nem pensa como pensamos e, no entanto, possui a mesma dignidade humana.

Das lições do profeta podemos concluir que, sem uma ética globalizada, o atual modelo neoliberal de globocolonização não cessará de colocar os interesses privados acima do direito público; as fontes de riqueza acima do bem-estar da população; as ambições imperialistas acima da soberania dos povos.

Talvez a meditação dos textos de Isaías nos ajude a trilhar um caminho assinalado, na geografia bíblica, há 2.800 anos! Resta-nos gravá-lo nas entranhas do coração.

 

MEIO AMBIENTE

Aquecimento do planeta é o mais intenso em 1.200 anos

Cientistas reforçam evidências de que a temperatura sobe

 

Há 15 dias, a Nasa (agência espacial dos EUA) divulgou estudo revelando que a temperatura média da Terra em 2005 foi a mais alta dos últimos 100 anos. Na sexta 10, a revista "Science" publicou trabalho que amplia a dimensão do calor atual na história: o aquecimento global que atinge o planeta desde o final do século XX é o mais longo e mais intenso registrado dos últimos 1.200 anos.

Os meteorologistas Timothy Osborn e Keith Briffa, da Universidade de East Anglia, na Grã-Bretanha, estudaram 14 diferentes pontos do hemisfério norte, medindo o crescimento anual dos anéis dos troncos das árvores, as camadas glaciais e os sedimentos contidos em fósseis de animais marinhos. As medidas permitiram determinar com precisão a temperatura de vários períodos do planeta.

Esses estudos reforçam as evidências de que a temperatura média do planeta vem subindo rapidamente. De acordo com pesquisas da Nasa, a temperatura média atingiu 14,58 graus centígrados em 2005, considerado o ano mais quente da história. A elevação sobre 2000 foi de quase 0,4º C. Se comparado com 1880, quando iniciaram os estudos climáticos, a Terra está 1º C mais quente. Pode parecer pouco, mas se a temperatura média da terra subir 3 graus, o gelo do Oceano Ártico vai derreter definitivamente, aumentando o nível dos oceanos, que já cresceu 20 centímetros no século XIX, e inundando praticamente todas cidades a beira-mar. E a previsão dos cientistas é de que até 2100 a temperatura média estará de 2 a 8 graus acima da atual.

Os efeitos do aquecimento da temperatura já são sentidos - e de forma trágica. Só em 2005 foram 168 inundações, 69 tornados ou furacões e 22 secas.

 

IGREJA

Missões valorizam inclusão fraterna

Equipe capuchinha vai atuar em paróquias dos três Estados do Sul

 

Os missionários capuchinhos do Rio Grande do Sul retomam, no dia 25 de fevereiro, mais um período de pregação das missões populares. As atividades iniciam pela paróquia Sagrada Família de Nazaré, de União da Vitória, e encerram no dia 17 de dezembro, na paróquia Nossa Senhora de Fátima, de Nova Araçá (programação ao lado).

A equipe missionária permanece praticamente a mesma de 2005, à exceção de frei Hélio Dalla Costa, que deixou o grupo e assumiu como pároco em Praia Grande (SC). Assume seu lugar, como missionário, frei Valdivino Salvador. Frei Jadir Segala continua como coordenador da equipe. Neste ano, as pregações serão motivadas pelo lema "Missões capuchinhas – uma proposta de inclusão fraterna", em consonância com a Campanha da Fraternidade de 2006, que reflete sobre as pessoas portadoras de deficiência.

O missionário frei Eudes Capellari salienta que as missões deste ano vão intensificar uma iniciativa que, em 2005, teve boa repercussão – a divulgação através de bandeiras, faixas e cartazes que, além de convidarem para as missões, destacam o lema das pregações, os serviços na comunidade etc. E, neste ano, os missionários também estarão realizando uma experiência um pouco diferente: as missões em paróquias de duas grandes cidades – Caxias do Sul e Pelotas.

"Vamos conviver com a realidade do mundo urbano, onde nossas pregações se concentram mais à noite, por causa do trabalho e do compromisso das pessoas. Durante o dia faremos visitas às famílias e daremos mais atenção às escolas, às crianças, às pessoas da terceira idade", salienta frei Eudes. As missões populares são uma tradição e uma marca capuchinha desde a chegada dos pioneiros, os frades franceses, em 1896.

 

Pregações reanimam a vida comunitária

 

As missões populares pregadas pelos capuchinhos buscam colaborar com as comunidades católicas em sua caminhada no processo de reanimação, incentivando tudo o que já existe de bom, abrindo novas perspectivas para a vida comunitária, sempre levando em consideração o plano pastoral de cada diocese e paróquia.

As missões compreendem quatro etapas. A primeira é o encontro com os agentes de pastoral e a organização das equipes que vão atuar na missão. A etapa seguinte – a pré-missão - ocorre 45 a 60 dias antes de começar a missão, com a visita de um missionário a todas as comunidades. A terceira etapa é a missão propriamente dita, que inclui encontros, celebrações, encenações, palestras, visitas, procissão, bênçãos etc. A última etapa é a pós-missão, que compreende cursos e treinamento para as lideranças.

 

Povo teimoso

Padre Zezinho

Quero aprender com os erros e acertos dos teus profetas

 

Gente teimosa aquele povo teu povo, hein Pai? Sujeito teimoso, tinhoso aquele Moisés. Grande povo, grande profeta! Mas eles tinham lá os seus deslizes. E como tinham!

O Senhor veio daquele povo lindo, maravilhoso, apaixonado pela idéia do Deus único. Governado por uma fé forte, mas confusa, fez muita coisa errada em teu nome, como hoje muitos pregadores o fazem, mentindo para fazer adeptos e prometendo o que não podem prometer. Sofreu a tentação de procurar outros deuses. Moisés tentava liderar, e o fazia com força, a ponto de mandar matar num só dia três mil deles. Isso, depois que o Senhor os havia perdoado. Fé forte, mas confusa, a de Moisés!

Assim mesmo, eu tento entendê-lo. Eram tempos violentos e a cabeça deles era a de guerreiros. E ele era um general. Até o nome dizia isso: Is-ra-el: o homem que brigou com Deus. Moisés errou feio, mas aceitava aprender e mudar! E mudou!

Quando eu for para o céu, e espero que por tua misericórdia eu me converta antes de ir, o primeiro abraço espiritual que vou dar, claro que é no Senhor, mas depois um dos meus primeiros abraços espirituais vai ser para Moisés, outro no Paulo, outro em Pedro, outro em Francisco!

Que profetas! Que homens santos e que pecadores arrependidos. É verdade que Moisés mandou matar, mas foi punido por isso e se arrependeu. Seu povo era violento como alguns povos de hoje, Senhor!

Quero paz para mim! Quero aprender com os erros e acertos dos teus profetas! Mas, no fim, espero que eu seja mais um dos santos que preferiram dar a própria vida, do que tirar a dos outros. Evangeliza-me Senhor! Educa-me para a paz!

 

Ibiaçá realiza romaria a Consoladora

Peregrinação ao santuário atrai romeiros de diversos Estados

 

O santuário de Nossa Senhora Consoladora acolhe, nos dias 25 e 26 de fevereiro, uma das maiores demonstrações de fé da região sul do país. Nesses dois dias ocorre a 54ª Romaria em honra a Nossa Senhora Consoladora, que será precedida por uma novena preparatória, com início nesta sexta-feira 17 e se estende até o dia 25, quando haverá missa campal com a procissão luminosa e o carro andor com a imagem de Nossa Senhora.

No dia 26, serão oficiadas missas de hora em hora e às 10 horas será celebrada a missa solene, com benção da saúde e dos romeiros; na missa das 15h30 haverá benção dos objetos religiosos e dos romeiros. Mais de 50 sacerdotes vão estar à disposição dos peregrinos para atendimento das confissões e bênçãos. Neste ano, a romaria será motivada pelo tema "Mãe Consoladora, teu Filho é Vida e Esperança". A partir das 15h30 está programado um show pela vida, com cantores da região.

"A comissão organizadora prevê a participação de mais de 100 mil pessoas de todo o Rio Grande do Sul e também de Santa Catarina e do Paraná", salienta o pároco e reitor do santuário, padre Edson Priamo.

A devoção a Nossa Senhora Consoladora dos Aflitos foi difundida na diocese de Vacaria e mais tarde em toda a região pelo padre Narciso Zanatta. Ao ser nomeado pároco da paróquia Santa Filomena, de Ibiaçá, tratou logo de promover a devoção através da organização da primeira romaria, no dia 25 de maio de 1952. Na oportunidade, foi apresentada e abençoada a imagem de Nossa Senhora Consoladora. A devoção difundiu-se rapidamente em todo o sul do Brasil e inclusive no Paraguai e na Argentina. Mais informações sobre a romaria pelo telefone (54) 3374.1280, e-mail paroquia@xmax.com.br ou pelo site romariaconsoladora.com.br.

 

Vitória acolhe encontro de Fé e Política

 

"Profetismo no Exercício do Poder" é o tema do 5º Encontro Nacional de Fé e Política, que será realizado dias 11 e 12 de março de 2006, em Vitória (ES). O evento é promovido pelo Movimento Nacional de Fé e Política. Entre os temas das plenárias estão água e ecologia, educação popular, promoção da igualdade racial, economia solidária, mídia e comunicação popular, ética e direitos humanos. Também serão abordadas questões como alternativas ao neoliberalismo, políticas públicas para a juventude, pessoas com deficiência, reforma agrária, partidos políticos e construção da democracia etc. Deverão participar milhares de pessoas, de todo o país.

 

Padre Edson assume paróquia de Canela

 

Durante celebração religiosa presidida pelo bispo diocesano de Novo Hamburgo, dom Osvino Both, foi empossado como novo pároco da paróquia Nossa Senhora de Lourdes de Canela padre Edson Batista de Mello, padre Edinho. Ele terá como auxiliares os padres Ari da Silva e Nilton Guedes.

 

Segredo do sucesso

Aldo Colombo

Quem nada semeia, nada colherá. E quem espera para lançar a semente amanhã, pode ficar sem colheita

 

Ao iniciar uma palestra sobre o caminho do sucesso, um palestrante distribuiu papel e caneta para cada um dos seus ouvintes. Durante dois minutos, pediu ele, escreva neste papel os objetivos de sua vida. A maioria não teve dificuldade para concluir a tarefa. Em seguida, ele pediu: agora cada um de vocês dispõe de mais dois minutos para - se for o caso - revisar os objetivos que escreveu. Depois de um curto silêncio, continuou: agora que você já revisou, pense nos próximos três anos de vida. O que pretende fazer de importante? E olhando para o relógio, concedeu mais dois minutos para concluir a tarefa. Passado o tempo concedido, encaminhou ao grupo a última pergunta: agora, cada um vai imaginar que só tem três meses de vida. O que você faria de importante nesse tempo?

Um provérbio oriental aconselha: não reclame dos ventos, mas ajuste suas velas. Nossa vida pode ser comparada a uma viagem. O importante é saber para onde queremos ir. Muitos, inutilmente, apostam na pressa. Outros, de tempos em tempos, trocam seus objetivos. Existe também o grupo que tem metas muito pequenas e, ao alcançá-las, sente-se insatisfeito e frustrado.

No planejamento da vida, nem sempre sabemos avaliar o fator tempo. Acreditamos que temos muito tempo pela frente ou, até mesmo, que o tempo é infinito, não acaba nunca. E nessa perspectiva deixamos coisas importantes para mais tarde. E até deixamos para mais tarde definir nossas prioridades. A grande questão é saber o que realmente queremos e quanto tempo teremos para isso. Ninguém poderá, terminado o tempo, alegar, como desculpa, "ainda não terminei".

As pessoas vivem melhor quando têm objetivos claros. Nosso tempo é marcado pela dispersão e pelas ofertas. Quem escolhe um caminho, forçosamente, abre mão de todos os outros caminhos. Priorizar é escolher um só caminho e ser fiel a ele. Mas não valem as boas intenções. As boas intenções, quando não levadas a sério, acabam como más intenções. Se nós achamos que algo é importante, não podemos deixar para amanhã. E se tivermos apenas seis meses de vida, ou menos?

O tempo é um dom de Deus. Mais ainda: ele é o espaço do amor de Deus. Nosso compromisso é amadurecer, realizar aquilo que achamos importante na vida. Como gostaríamos de ser dentro de alguns anos? Isso não acontecerá por acaso. O futuro não é um lugar para onde vamos, mas um lugar que estamos construindo. E ele costuma ser uma conseqüência do presente.

A vida de cada um é marcada por causas e conseqüências. Somos livres na escolha da semente que queremos semear, porém somos obrigados a colher os frutos daquilo que semeamos. Quem semeia espinhos, colherá espinhos, quem semeia flores, colherá flores, mas quem nada semeia, nada colherá. E quem espera para semear amanhã pode ficar sem colheita. O segredo do sucesso é ter um objetivo claro na vida e começar imediatamente.

 

Caxias incrementa turismo religioso

Pavilhões da Festuva ganham via-sacra e gruta dedicada a Caravaggio

 

Caxias do Sul conta, desde 11 de fevereiro, com mais uma atração turístico-religiosa. No sábado, centenas de pessoas participaram da inauguração das obras realizadas junto ao monumento Jesus Terceiro Milênio, nos pavilhões da Festa da Uva, em Caxias do Sul. O local ganhou uma escadaria de 200 degraus, que liga ao parque, uma via-sacra e uma gruta com a imagem de Nossa Senhora de Caravaggio, padroeira da diocese de Caxias do Sul e maior devoção da Serra gaúcha.

De acordo com padre Leomar Brustolin, pároco da catedral, as obras resultaram de uma preocupação da prefeitura e da comissão da Festa da Uva em melhorar o acesso ao Cristo Terceiro Milênio. Padre Leomar, convidado a assessorar as obras religiosas, destaca que a via-sacra foi concebida num formado diferente. "Não há imagens nas 15 estações da via-sacra (a 15ª -, a ressurreição - é representada pelo monumento), mas apenas inscrições e pequenas cruzes".

Ecumenismo - A intenção, segundo padre Leomar, é expressar o espírito ecumênico, respeitando as pessoas de diferentes credos e culturas que vão percorrer as escadarias, e também o espírito ecológico, já que as estações são representadas por grandes blocos de pedras naturais, colocados em meio à grama e plantas nativas.

Quanto à gruta, totalmente natural e com água jorrando entre as pedras, ela foi construída visando preservar a identidade cultural e religiosa da cidade, a fé dos imigrantes italianos e seus descendentes. Mesmo que a gruta seja um símbolo mais presente em torno da devoção a Nossa Senhora de Lourdes, padre Leomar explica que Caravaggio é uma das mais antigas aparições de Maria e, segundo a tradição, na Itália ela é conhecida como "La Madonna della sacra fontana", porque onde ela apareceu surgiu uma fonte.

Padre Leomar acrescenta que essas obras vão incrementar o turismo religioso na região. "Pretendemos desenvolver a pastoral do turismo, que está sendo organizada na catedral para atender os visitantes. Queremos evangelizar onde as pessoas vão". Na catedral, aos domingos, às 19 horas, é celebrada a missa do turista. Durante a Festa da Uva, voluntários vão distribuir um cartão de Nossa Senhora de Caravaggio nos hotéis da cidade com os horários das missas na catedral e na igreja São Pelegrino. Também vão estar de plantão junto ao Cristo Terceiro Milênio para atender os turistas.

 

Padre Eustáquio será beatificado em junho

 

O missionário holandês padre Eustáquio van Lieshout, que morreu em Belo Horizonte (MG) em 1943, depois de atuar por quase 20 anos no Brasil, vai ser beatificado no dia 15 de junho de 2006. A cerimônia será realizada no estádio do Mineirão, em Belo Horizonte, durante a festa de Corpus Christi, presidida pelo cardeal Saraiva Martins, prefeito da Sagrada Congregação para a Causa dos Santos. Dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo de Belo Horizonte, salienta que deverão participar milhares de fiéis. O milagre, mantido em sigilo até o momento da beatificação, ocorreu na capital mineira há 40 anos com um devoto do padre.

 

O perigo de conhecer

Wilson João

Conhecer é uma necessidade, mas há certas situações que permanecer desinformado e na ignorância é mais compensador

 

Conhecer é uma necessidade. Saber as coisas. Estar por dentro. Ver de perto. Constatar. Mas, em muitos casos é melhor desconhecer para não se decepcionar. Em certas situações, permanecer na desinformação e ignorância é compensador. Faz refletir frases e pensamentos de sábios que escreveram:

NA MEDIDA EM QUE ME APROXIMO DOS POLÍTICOS, vou me afastando da política. A política, que é tão necessária e faz parte de toda pessoa humana, se torna uma decepção quando se conhece como funciona. Quando se vai percebendo as tramas e o jogo sujo na qual está envolvida. Quando se conhecem os políticos.

NA MEDIDA EM QUE CONHEÇO O PADEIRO, faço o pão em casa. O pão bonito que a gente compra no balcão da padaria fica com outra cara quando se conhece do que é feito e como é feito. E o pão da mamãe se torna o melhor.

NA MEDIDA EM QUE VISITO UM HORTICULTOR, decido cultivar minha horta. Tudo bonito e aparentemente sadio. Ao mesmo tempo tudo perpassado de venenos, de uréia e de produtos químicos. E meu corpo se torna o depósito de minha decepção.

NA MEDIDA EM QUE CONHEÇO OS PASTORES e as religiões, mais me torno descrente. Jesus já falou: "Façam o que eles dizem, mas não façam o que eles fazem". Com certeza há gente santa. Há gente lindíssima em sua espiritualidade. Mas, quantos lobos com aparência de cordeiros! E Deus se torna o "produto" de compra e venda e de promoção pessoal.

MAS EXISTE A ALEGRIA DE CONHECER. Conhecer a flor que não mente e que se oferece a nós em sua beleza e verdade. Conhecer a água da fonte que no silêncio da atividade se torna a vida para a terra. Conhecer o pássaro que canta sem pedir aplausos e que não escolhe platéias, porque sempre canta gratuitamente. Conhecer a criança, em sua pureza original, sem o toque da mão dos adultos, pois nela se revela o rosto puro de Deus e da vida. Conhecer... Conhecer... pois tudo o que é da natureza pura é bonito de conhecer, porque tudo é revestido da verdade. É uma pena que, onde o homem põe a mão e o olhar, muitas coisas ficam estragadas e mentirosas.

 

CULTURA DA IMIGRAÇÃO

Monumento homenageia Nanetto Pipetta e Pedro Parenti

Obra, com 3,06 metros, ocupa espaço nobre no Parque de Exposições da Festa da Uva

 

O Parque de Exposições da Festa da Uva ganha mais um monumento. A homenagem a Nanetto Pipetta, personagem criado em 1924 pelo frei capuchinho Aquiles Bernardi, o frei Paulino, e ao ator Pedro Parenti, que deu vida a Nanetto, tem 3,06 metros de altura, pesa cerca de 150 quilos e foi confeccionada em fibra de vidro revestida com resina sintética.

A obra, que será inaugurada durante a Festa da Uva 2006, ficará na entrada do Parque, de costas para a Réplica, reconstituindo um cenário comum aos homenageados. O projeto nasceu de uma parceria entre o Correio Riograndense, através da Associação Literária São Boaventura, Prefeitura Municipal de Caxias do Sul e Festa da Uva. Teve o apoio técnico de Nil Concatto e foi confeccionado pelo artista Roberto Mugnol.

Nanetto Pipetta personifica a saga da colonização italiana no Rio Grande do Sul. Criado por frei Aquiles Bernardi (1891-1973), chegou ao público através de seriado publicado no Correio Riograndense, inicialmente de 23 de janeiro de 1924 a 18 de fevereiro de 1925, sempre em Talian (leia artigo abaixo).

Parenti (1951-2000) se destacou como o grande intérprete de Nanetto no teatro, em apresentações que o grupo Miseri Coloni chegou a levar até a Itália. Foi por suas mãos também que, em 19 de fevereiro de 1999, Nanetto voltou às páginas do Correio Riograndense, no seriado El Ritorno de Natetto Pipetta, cuja seqüência no jornal tem vários autores.

"Nanetto, com seu inseparável cachimbo e sua ingenuidade e esperteza, presente desde a primeira edição da Festa da Uva (1935), agora faz parte do cenário do evento", afirma frei Aldo Colombo, diretor de redação do Correio Riograndense. "Nanetto é imortal porque personifica a alma de um povo, e como só fala e entende Talian, transformou-se numa marca do italiano que está em nós", acrescenta.

"O monumento é uma forma de resgatar e de imortalizar uma figura do folclore de nossa região e da colonização italiana. E também de homenagear a grande figura humana chamada Pedro Parenti, que dedicou sua vida à arte, ao teatro e, principalmente, à nobre tarefa de alegrar as pessoas". declara o prefeito caxiense José Ivo Sartori. "Esse gesto simboliza nossa gratidão", ressalta Sartori.

"Nanetto Pipetta é um fenômeno cultural que acabou se incorporando à tradição. Várias expressões do personagem, como "morrer provisoriamente", fazem parte da fala popular, e não só da região, mas até de outros Estados". A avaliação é de José Clemente Pozenato, secretário municipal da Cultura. "Pedro Parenti tem o mérito de tornar Nanetto visível nos palcos e na língua dos imigrantes, com o grupo de teatro Miseri Coloni, assumindo a tradição da comédia espontânea", reforça.

Para o artista Roberto Mugnol, "Nanetto Pipetta encarna as alegrias e tristezas de todos nós, que ainda somos atraídos por essa terra de oportunidades e adotamos suas virtudes e seus defeitos, fazendo parte do seu enredo". Na concepção do artista que há 25 anos desenvolve produção nas artes visuais, "criar uma nova referência cultural, edificando o Monumento a Nanetto Pipetta, é dar corpo e dimensões públicas para o imaginário popular".

 

O ícone de 17 milhões de imigrantes

Frei Rovílio Costa

Capuchinho, pesquisador, editor e escritor

 

Nascido fora de meu município, que também abandonei para "fazer a América" como frade, igual a frei Aquiles Bernardi (frei Paulino), ficaria feliz se, no final de minha vida, alguém, mais sonhador que eu, herdasse meus loucos sonhos.

Nanetto Pipetta continua vivo, 80 anos depois de sua morte aparente. Frei Aquiles Bernardi diz como o concebeu: "Li romances vênetos, que falavam da América, e apresentavam um ideal para quem quisesse uma vida de fortuna e felicidade. Resolvi escrever Nanetto para mostrar a verdadeira América. Publiquei-o de 23-1-1924 a 18-2-1925, em capítulos, no Staffetta Riograndense, atual Correio Riograndense. Frei Bernardo de Puigros, diretor do jornal, que não conhecia o dialeto vêneto, quis publicar Robinson Crusoé em italiano, em lugar do Nanetto, e me disse: ‘Frei Paulino, está na hora de dar a extrema-unção ao Nanetto! E o Nanetto se afoga no rio das Antas, sem os sacramentos, para simbolizar os que fizeram a América material e esqueceram de fazer a América espiritual."

Se Nanetto se afogou, como é que continua nas páginas do jornal? E durante a 26ª Edição da Festa Nacional da Uva, de Caxias do Sul, evento que chega aos 75 anos, será inaugurado um monumento a Nanetto Pipetta, na pessoa de Pedro Parenti, que em 19 de fevereiro de 1999 iniciava a publicação do seriado Retorno de Nanetto Pipetta, morto provisoriamente, em 1925, sem sacramentos, com o diabo disputando sua alma? Na sua inteligente ingenuidade, Nanetto driblou o diabo, com afogamento aparente no rio das Antas, descendo até Santa Teresa, onde recomeça sua vida, desconhecido de todos. Depois da morte de Pedro Parenti (2000), a saga de Nanetto continua com os escritores Silvino Santin, Sergio Ângelo Grando, Rafael Baldissera, Luiz Bavaresco, Eduardo Grigolo, Antônio Baggio e Mário Gardelin.

Nanetto é uma idéia universal, um personagem imortal e um "herói ao avesso". Não se encaixa em lugares comuns, porque nasceu em lua minguante. Pedro Parenti não localizou seu túmulo, por isto os 80 anos da morte provisória, são 80 anos da vida de Nanetto, guindado à imortalidade literária. Nele, frei Aquiles Bernardi traduziu o encontro dos imigrantes com a América, sonhada como fortuna plena, material e espiritual.

Nanetto, excluído do jornal (1925), reaparece em 1937 em livro, mas é novamente condenado à clandestinidade durante a guerra de 1939-1945, quando se esconde, não entre bagagens de navio, mas no fundo de armários, entre tablados de polenta, queijo, pão e salame, para reaparecer, 40 anos depois, em Stòria de Nino, fradello de Nanetto Pipetta (3-2-1965 a 28-6-1967). Em 1975, no Centenário da Imigração Italiana, volta, em livro, mas é de 1999 seu "retorno" definitivo à imprensa, sob a pena de Pedro Parenti.

Nanetto é o ícone de 17 milhões de imigrantes italianos, que de 1860 a 1914, se fizeram cidadãos do mundo. A realidade foi adversa para a maioria, afortunada para poucos. Nanetto simboliza imigrantes e descendentes, que, entre realidades e ilusões, riem de si próprios, satisfeitos em ter ao menos uma batata-doce ou uma banana para comer, convencidos de que "a sonhada cocanha não existe, mas cada um precisa fazê-la trabalhando". Imigrantes e descendentes que, de enxada na mão, ou ultrapassando a própria enxada, continuam o sonho de, um dia, realizar os próprios sonhos.

Nanetto é o Evangelho, vivido na simplicidade do dia-a-dia. Como o Evangelho de Cristo é necessário para a eterna salvação, as estórias de Nanetto são necessárias para a eterna diversão.

Se parece tudo nos faltar, como Nanetto, sonhemos por simples sonhar, e tudo na vida vai mudar.

 

O italiano que está em mim

Almiro Zago

Juiz de direito aposentado, advogado, Porto Alegre-RS

 

Nascido em Caxias do Sul, Almiro como radialista, advogado, juiz de direito... foi construindo sua italianidade à sua moda, com a solidez de nítidas convicções. Atesta ele:

 

"Sou brasileiro e amo o Brasil. Entretanto, me fascina minha origem italiana de extração vêneta.

A brasilidade começou para mim em 1878, com a chegada à 7ª Légua da Colônia Caxias, dos meus bisavós paternos Domenico Zago e Giovanna Ziliotto, originários de Borso del Grappa, Província de Treviso, com seus primeiros filhos, entre o quais o avô Antonio. Do casamento do meu avô com Maria Carolina Ghinzelli resultaram nove filhos, dentre eles Caitano (Rizieri), meu pai. Sou o décimo dos doze filhos, nascidos do seu matrimônio com Antenisca Comberlato, filha de Giovanni Comberlato e Virgínia Sartori. Casei com Irene Maria Lisbôa (Guelfi e Baldani pelo seu lado materno), e com ela tenho os filhos Fernando e Gabriela, casada com o André Luís da Costa Vieira.

Embora nascido em 1942, até os seis anos de idade falei o Talian, língua da minha família e da localidade de meu nascimento. Comecei a sentir-me brasileiro mesmo em março de 1948 ao iniciar o processo de alfabetização em português. A partir de então, o italiano que estava em mim começou a ficar em segundo plano. Consolidada a cultura nacional, facilitada pela vida urbana a contar de 1950, ainda na juventude comecei a revalorizar a cultura italiana. Para isso, muito ajudaram a música e o cinema. Quanto ao Talian, minha fala de berço, o fui reconquistando com leituras, como a de Os Pesos e as Medidas, de Ítalo Balen. O acesso a diferentes fontes, contatos com italianos e viagens à Itália permitiram o pleno resgate de minha italianidade, não sem alguns momentos de particular valor simbólico. Um deles deu-se em Veneza, ouvindo um grupo de senhoras, cujo modo de falar levou-me às vozes da primeira infância: de minha mãe, das tias, das minhas irmãs. Embora soubesse a resposta, perguntei de onde provinham. Disseram-me que eram do Vêneto. E depois de uma agradável conversa me perguntaram de qual região da Itália eu era. O outro, e o mais significativo, foi a recente visita, com a Irene, a Borso del Grappa, paese emoldurado pelo histórico Monte Grappa, berço de meus antepassados, quando localizei a velha casa do bisavô, onde nasceu meu nono Antonio. Parecia-me estar voltando à minha casa, junto aos nonos, com a fraterna acolhida da parente moradora Fabrizia Zago. Conheci, ainda, a Via dei Zaghi e, riva insù (morro acima), a Capela dos Zago, dedicada à Madonna dell’Aiuto (Nossa Senhora Auxiliadora).

Voltei para casa, convicto de ter encontrado a estrada de minha origem, história e cultura.

Daqui em diante, quando ouvir o Va Pensiero, de Verdi, saberei que o meu pensamento nas asas douradas da imaginação pousará nas planuras e colinas deslumbrantes da paisagem do Monte Grappa que, junto ao encontro do berço histórico, tocou fundo a minha mente e o meu coração.

Aposentado da magistratura do Estado de Santa Catarina, mantendo algumas atividades de advocacia, vou costurando a trama de minha italianidade" (e-mail: almiro.zago@mail.com).

Depois de conhecer Almiro, posso dizer que ele vive uma italianidade objetiva, envolta de sentimentos, de palavras-chaves, de considerações ecológicas e geográficas, com aquele halo espiritual, próprio de nossa característica tradição cristã italiana. Almiro se define pelo entusiasmo e vibração. Esbanja calor, amizade, encantamento em palavras e ações. (Rovílio Costa)

 

EL RITORNO DE NANETTO PIPETTA (347)

Nanetto impara el brasilian. Par ndar in cao del mondo

 

Mario Gardelin

Professor, historiador e pesquisador, Caxias do Sul - RS

 

A dir el vero, Frate Paolino el ga insegnà a Nanetto un poco de brasilian. Bisogna che se capimo te la lìngoa portoghese. Ma, l’era un parlar bassoto, sensa rafinatesse. Co sto brasilian, no se podea gnanca ndar a Vila Seca. I camperi i ridaria drio. Lora, ndar a Pelotas, gnanca pensarghe. Sti pelotensi i ze gran signori. E i lo ze da tanti ani, fin dal tempo del imperatore Don Pedro II. Imaginè che al palasso del goerno comunale i ga le careghe co la corona imperiale. Par soto via, i ze tuti baroni, conti, marchesi e duci... Tornemo al nostro argomento.

- Nanetto, bisogna studiar portoghese. Voaltri dirè che no ze bisogno. Par piantar boni sentimenti in testa de qualchedun, basta na testa bona. Sbalià! Bisogna ver bele parole, bele ciàcole, bele poesie.

Merlin ze rivà con un carghero de libri. Gramàtiche, stòria del Brasile; stòria de Portogalo, vocabolari..., insoma, un mùcio de sapiensa.

- Nanetto, parécete. Te insegno na maniera svelta par imparar.

- Son pronto a scoltarve, signor Merlin!

- Séntete te na carega. Ciapa un libro, vèrdilo e mételo su i denoci. Dopo, passa la prima pàgina. Vàrdela ben. Pian pianin, vien nantra, e te vedarà anca questa. E cussì via, fin rivar in cao al libro. Tuto te savaré. E co te ghè finio de leder sti libri, te dao na biblioteca bela che mai.

- Signor Merlin, no sì drio coionarme? Se no sì drio contarme na balota, divento uno dei òmeni pi sapienti.

- Si, te diventarè. Se te vol, te pol imparar tute le lìngoe e le ciàcole del mondo; tuti i poemi e filosofie!...

- Anca la Seleta?

- Ghetu tanta voia de lèderla?

- Si. Ze na question de onor. Vedì che ghe ze na persona che vol scriver un libro su le me aventure, a scominsiar dal Passo Velho. E sto scritore, che’l se spròsia de esser del campo, no’l ze mai rivà a la Seleta!

- Te ghè reson. La Seleta sarà el to primo libro. Seleta em prosa e verso, de Alfredo Clemente Pinto, stampada in Porto Alegre.

E Merlin el ga continuà, soto voce:

- Se almeno fusse a Roma, a Parigi o Londra..., ma, suito a Porto Alegre!

- E la Divina Comèdia?

- Nanetto, votu èssere un siensiato?

- Nò! Vui ndar a Caxias, su la piassa, onde ghe ze la stàtoa del altìssimo poeta. Vui onorarla e parlarghe ai bambini e bambine.

- Va ben, te farò sto regalo. Sarà na essession. Tuti i podarà véderte. Ma, atento: gnente stramberie, gnanca spròsie! Ma ùmile come un eremita dela Tebaida.

- Tebaida? Cossa zelo?

- Na spèssie de frati che i vivea tel deserto, al tempo dei romani.

- Va ben. Ma, mi me piasaria depì ver la umiltà dei capucini de Caxias!

- Basta de ciàcole. Ùmile, ùmile, o un par de scuriade...

- Scuriade a mi? A mi che son un omo de fidùcia del Imperatore. Vardé che ciamo i diriti umani...

- Nanetto, sito dea Sinistra? Basta de ciàcole.

Merlin el se ga alsà. El se ga congedà. E el ze spario par na porta.

Nanetto se ga messo a saltar e balar. Adesso vao in cao del mondo. Vedar gente, regni, tante robe..., el diàolo a quatro...

 

VITA STÒRIA E FRÒTOLE

Rovílio Costa e Arlindo Battistel

La mònega

 

Co gera bòcia pìcolo,

pena finia la guera,

d’inverno giasso o brosema

querzea tre dei la tera.

 

Ma pur co l’ària rìgida

che ne gelava i ossi

naltri ogni dì curivimo

a slissegar sui fossi

 

co un vècio par de sgàlmare

co le so broche in riga:

nissun badava ai diàvoli,

boanse o la fadiga.

 

E dopo un dì de brìvidi

se ritornava al gnaro

scaldarse le man gèlide

intorno al fogolaro.

 

E là na soca de àrase

se consumava lenta

a cusinar lugàneghe

e brustular polenta.

 

Dopo dea sena pròdiga

e de un filò dormion

sempre vegnea la rècita

de rèquie e orassion;

 

e po’ de corsa in càmara

che gera note fonda:

su par le scale rìpide

se rapegava de onda.

 

Ma fra le querte rùvide

de un leto taconà

stava na vècia mònega

che la tegnea scaldà

co na fogara rùsene

colma de bronse vive

che mescolarle un àtimo

mandava le falive.

 

Soto i nissoli tièpidi

anca le me boanse

catava refrigèrio

te le me frede stanse.

 

Gratava un poco el cànevo

sgrensando sui scartossi,

ma el caldo de la mónega

meteva in sesto i ossi;

 

e se partia coi àngeli

sognando un mondo de oro

fin che le forse lànguide

catava el so ristoro.

 

Ormai me par dei sècoli

ca gera mi putelo, ma pur

chel tempo rìgido

desso me pare belo;

 

e ancò coi reumi

e còliche me sola compagnia,

dei tempi dela mónega go

tanta nostalgia

 

Giasso e slissegoni

 

Na sbrufada de neve e dopo un’ora

se ga za fato el giasso su a stradela,

le scarpe sbrìssia a caminarghe sora

e a ogni passo go la tremarela.

 

E intanto fra de mi ghe penso sora

ai tenpi quando iera na putela

che sensa sentir fredo corea fora,

na sierpa al colo e un fià de baretela.

 

Zugo pi belo alora no ghe iera,

sgàlmare ai pìe co tante broche soto,

sul giasso a slissigar, matina e sera

 

e se cadea levava in pié de boto.

Adesso, se par caso sbrìssio in tera,

vo in tanti tochi fa un pignato roto

(Poemi inviati da Claudio Ganassin, Veneza, Itália).

 

GERAL

Lixões passam por cima da lei

Mais de 60% das cidades jogam o lixo a céu aberto

 

Mais de 60% dos 5.561 municípios brasileiros jogam o lixo a céu aberto, o que torna a situação do país muito complicada em termos de degradação ambiental. Eles despejam anualmente 50 milhões de toneladas de resíduos em lixões, cerca de 136 mil toneladas por dia, segundo o IBGE. Esse volume equivale a dez vezes ao que é coletado na cidade de São Paulo.

Sabendo disso, o Ministério das Cidades deu prazo para acabar com os lixões. O tempo expirou no final de dezembro passado. No Paraná, por exemplo, 37% das 399 cidades não cumpriram a exigência. Por causa disso, 8.000 toneladas de lixo geradas a cada dia vão parar em locais impróprios.

No RS, único Estado da Federação a ter uma lei de Resíduos Sólidos, de 1993 e regulamentada em 1998, a situação é bem mais confortável. "Setenta por cento dos locais que dispõem resíduos são licenciados", informa o presidente do Conselho Estadual do Meio Ambiente, Valtemir Bruno Goldmeier.

O Estado se diferencia também por diversificar a destinação do lixo. Além do consórcio entre prefeituras – é o caso dos municípios no entorno de Passo Fundo -, funcionam os aterros sanitários públicos e privados. Exemplo de investimento privado é o de Palmeira das Missões, que recebe resíduos de 40 cidades. "Outro bom exemplo é o empreendimento em Minas do Leão, que trata resíduos de 100 municípios gaúchos", diz ao CR.

Contaminação - Para a Associação Brasileira de Empresas de Tratamento de Resíduos (Abetre), o maior problema dos resíduos urbanos está na disposição final e não na coleta, que já atende mais de 90% da população urbana. Apenas 13,8% dos municípios depositam os resíduos em aterros sanitários.

Os demais descarregam em lixões, que não contam com instalações adequadas para armazenar, tratar e monitorar os rejeitos, como, por exemplo, a impermeabilização do terreno. Esses lixões provocam contaminações do solo e da água e a proliferação de vetores de doenças, como ratos e insetos.

 

Serra gaúcha ganha policiamento aéreo

 

A região da Serra gaúcha já conta com reforço aéreo no policiamento ostensivo e repressivo. A Brigada Militar inaugurou as instalações da Base Aeropolicial da Serra (BAS), no Aeroporto Regional Hugo Cantergiani, em Caxias do Sul. Duas aeronaves (Ximango e Corisco Turbo) estão à disposição da corporação. As aeronaves foram adquiridas em parceria com a Prefeitura caxiense.

A base está subordinada ao Grupo de Polícia Militar Aérea, de Porto Alegre. Porém, a equipe estará conectada ao Centro Integrado de Operações em Segurança Pública (Ciosp). Segundo o comandante da nova unidade da BM, major Leandro José Jacchetti, serão realizados dois tipos de ações: atendimento de ocorrências e vôos de patrulhamento preventivo.

As equipes, conforme o oficial, irão ainda realizar serviços de inteligência, como observação e levantamento fotográfico de áreas em investigação. Os aviões estão equipados com GPS (localização via satélite) e rádios comunicadores idênticos aos das viaturas policiais.