LEITORES 

 DESCOBRINDO CAMINHOS

 

Desde 1909, onde o conteúdo faz a diferença.

Edição 4.977 - Ano 98 - Caxias do Sul-RS, 1 de março de 2006.

EDITORIAL

CR promove e preserva há 97 anos a cultura da imigração

 

Promover a cultura não é apenas prioridade de um veículo de comunicação. É uma obrigação. Ao longo de 97 anos, o Correio Riograndense teve a preocupação de divulgar, incentivar e apoiar manifestações culturais relacionadas à imigração italiana principalmente no Sul do país. Foi graças a esse jornal, que os valores desta singular história foram conservados.

O Talian, que pleiteia reconhecimento e registro no Livro das Línguas, na Câmara Federal, como patrimônio imaterial do Brasil, é um exemplo da importância do CR. Identificado como última língua neo-latina, formada principalmente dos falares vêneto, lombardo, trentino e friulano, ganhou espaço no jornal desde a 1ª edição, exceto durante a II Guerra Mundial, quando foi proibido o uso de idiomas estrangeiros.

A coluna Vita, Stòria e Fròtole, dos freis Rovílio Costa e Arlindo Itacir Battistel, há 25 anos interage em Talian com os leitores-escritores. Mas a manutenção e divulgação do Talian e das tradições e costumes italianos se deve principalmente ao personagem Nanetto Pipetta, criado em 1924 por Frei Aquiles Bernardi. Depois de longa ausência, retornou ao jornal em 1999, pelo talento de Pedro Parenti, e continua com seriados de outros autores.

Nanetto Pipetta, frei Aquiles Bernardi e Pedro Parenti estão imortalizados na estátua, de autoria de Roberto Mugnol, no Parque de Exposições da Festa da Uva de Caxias do Sul-RS. Iniciativa do Correio Riograndense, da Prefeitura Municipal e da Festa da Uva que homenageia figuras relevantes na preservação da cultura ítalo sul-rio-grandense. O interesse demonstrado pelos visitantes atesta a importância do monumento na busca de elos histórico-culturais com o início da imigração italiana há 130 anos, sobre os quais se fundamenta o presente em construção. A continuidade deste processo se impõe como desafio na busca do espaço e tempo culturais futuros, que, através do Correio Riograndense, ao natural, estão assegurados.

 

CAXIAS DO SUL

Inaugurada estátua de Nanetto Pipetta

Obra homenageia o personagem e seu principal intérprete, Pedro Parenti

 

"Este é o 2º monumento ao imigrante de Caxias do Sul; o primeiro, na BR-116, lembra todas as etnias, este é especial dos italianos", afirmou o prefeito José Ivo Sartori durante a inauguração da estátua de Nanetto Pipetta, ocorrida na segunda 27, no parque da Festa da Uva.

A obra, do artista plástico Roberto Mugnol, é uma homenagem a Nanetto, ícone da imigração italiana, e a Pedro Parenti, que interpretou o personagem. Durante a solenidade, para saudar Nanetto e Parenti, Sartori convocou o grupo Persona Felice para cantar, de improviso. "Nada melhor do que a música, espontânea, para homenagear essas figuras que tanto nos alegraram", disse.

Também presente na inauguração, frei Aldo Colombo, diretor de redação do Correio Riograndense, por meio do qual Nanetto ganhou o mundo, descreveu quem é o personagem. "Desajeitado, mas trabalhador, homem de fé, com senso de humor, e um eterno sonhador", disse.

"É uma honra servir a comunidade com uma obra que representa a todos nós, como herdeiros da cultura de Nanetto", disse Mugnol. A viúva de Parenti, Rosane Lima Casara Parenti, disse que sentia-se feliz com o reconhecimento ao trabalho do marido. "Pedro tratava Nanetto como um filho, o sucesso é resultado dessa dedicação", afirmou. "Nanetto e Pedro tornaram-se uma só figura; hoje, não existe Nanetto sem Pedro e vice-versa. Quando pensamos num deles, o outro logo nos vem à memória", completou.

No encerramento, frei Clemente Dotti, diretor geral da Editora São Miguel e do CR, deu uma bênção. Em seguida, houve o descerramento das placas e a estátua, coberta por um tecido, foi apresentada ao público. Fogos de artifício finalizaram a cerimônia.

Também participaram da inauguração o vice-prefeito Alceu Barbosa, o secretário da cultura José Clemente Pozenato, o presidente da Festuva Gelson Palavro, o provincial dos capuchinhos frei Álvaro Morés, os historiadores Mário Gardelin e frei Rovílio Costa, entre outras autoridades (leia mais nas páginas 11 a 14).

 

Festuva já atraiu 150 mil visitantes

 

Desde a abertura da 26ª Festa Nacional da Uva, em 17 de fevereiro, até o domingo, 26, mais de 150 mil visitantes já passaram pelo parque de exposições do evento. O maior público foi registrado no último domingo, quando 41.316 pessoas estiveram nos pavilhões.

Os quatro primeiros desfiles de carros alegóricos reuniram 185 mil pessoas. Foi também no dia 26 que o corso teve o maior número de espectadores, cerca de 65 mil. Entre os pavilhões e os desfiles, já foram distribuídas ao público 110 toneladas de uva.

A Festuva terá mais dois shows nacionais; Papas da Língua, dia 3, e Falamansa, dia 4. O último desfile alegórico será no sábado, 4, às 18 horas. O evento encerra em 5 de março com uma apresentação da Orquestra Municipal de Sopros e do Coro Municipal, às 20h30.

 

Pórtico da imigração

 

Inaugurado no domingo, 26, o Pórtico da Imigração, na Estrada do Imigrante, 3ª Légua. A rota teve grande importância para a economia da região nos primeiros 50 anos a partir da colonização. Serviu para o transporte de mercadorias e era usada pelos tropeiros. Isso durou até 1938, quando surgiu a BR-116. Em 1998, a rota ganhou fins turísticos. O pórtico é uma parceria da prefeitura, Assotur, comunidade da 3ª Légua e província de Vicenza.

 

Vencedores do concurso de uvas recebem prêmios

 

Os vencedores do concurso que escolheu as melhores uvas da safra receberam a premiação no sábado, 25, durante o Baile do Viticultor, realizado no salão da comunidade de Loreto, na 2ª Légua. Cerca de mil pessoas, entre produtores, equipe da Secretaria da Agricultura, comissão da Festa da Uva e autoridades, participaram da comemoração. Além do troféu em formato de cacho de uva, os vencedores farão uma viagem técnica às regiões vitícolas da Argentina e Uruguai. O baile contou com a animação do grupo Sul Paion.

O julgamento foi realizado no dia 16 de fevereiro por sete jurados especialistas no cultivo de uvas. 388 produtores participaram do concurso. As frutas premiadas fazem parte da Mostra da Festa da Uva 2006 e estão expostas no pavilhão dois do parque de exposições do evento. O concurso premiou 30 produtores em 12 categorias: bordô, isabel, niágara branca, niágara rosa, lorena, moscato Embrapa, moscato branco, cabernet sauvignon, merlot, itália, rubi e conjunto/granjas.

 

REPORTAGEM

Festuva tem atrações para todos os gostos

A Casa do Colono e o Shopping Rural são as principais novidades desta edição do evento

 

Nem só da fruta que dá nome à comemoração é feita a 26ª Festa Nacional da Uva, que segue até 5 de março em Caxias do Sul. O parque de exposições do evento é o verdadeiro palco da diversidade. O diferencial desta Festa já começa pelo tema, "A alegria de estarmos juntos", que homenageia, além dos imigrantes italianos que implantaram a cultura da videira na região, as diferentes etnias que contribuíram com o desenvolvimento da cidade. Inspiradas na pluralidade, as atrações da Festa visam agradar a todos os gostos.

Logo no pórtico de acesso aos pavilhões, além das embaixatrizes que tradicionalmente recepcionam os visitantes, casais italianos, portugueses, alemães, negros, poloneses, gaúchos e espanhóis, tipicamente vestidos, dão boas-vindas aos que chegam e, atendendo aos pedidos, fazem pose para fotografar junto aos turistas. Na entrada do pavilhão 2, no lugar da exposição que mostrava os hábitos do colono italiano em edições anteriores, painéis fotográficos retratam o cotidiano, a culinária e a cultura de diferentes raças. O mesmo local também abriga a mostra das melhores uvas da safra.

Os distritos de Caxias ganharam um novo espaço no parque. Até 2004, ocupavam uma área livre sob os pavilhões. Nesta edição, estão reunidos na Casa do Colono - uma casa de madeira de 400 metros quadrados que reproduz o ambiente dos moradores do meio rural. Lá o visitante encontra produtos coloniais e artesanato típico da região. Diariamente, às 18h e às 21 horas, grupos de música e dança apresentam-se no local.

Os pães caseiros são o principal atrativo da Casa do Colono. Três famílias de Bento Gonçalves dividem a produção dos pães, assados no local em forno de barro. "Durante a semana, vendemos cerca de 120 pães por dia. Nos sábados e domingos, os pedidos dobram", afirma a expositora Anair Dall’Oglio. Esses mesmos pães, além de cucas e biscoitos, são oferecidos aos visitantes para degustação.

O Shopping Rural é outra novidade desta Festa e amplia o espaço de expositores. Sob uma lona de 1,5 mil metros quadrados de área, 10 expositores de Caxias do Sul oferecem ao público máquinas e utensílios agrícolas, churrasqueiras, perfuração de poços artesianos, móveis para casa e jardim, mel e derivados, flores e até veneno para formigas. Nos estandes das duas floriculturas, o colorido das orquídeas atrai muita gente - os que não compram as flores disputam espaço para fotografar junto a elas. Um belo casal de avestruzes também leva muitos curiosos ao local. No estande, além de informações sobre a criação das aves, comercializa-se carne, bolsas e sapatos de couro de avestruz, penas e ovos pintados para decoração e cosméticos à base de gordura da ave.

Novidades no entorno do monumento Jesus Terceiro Milênio também aumentam o espaço dedicado à religiosidade nos pavilhões. Além da escultura do rosto de Cristo, o local ganhou uma via-sacra e uma gruta com a imagem de Nossa Senhora de Caravaggio.

 

Expositores ocupam maior área do parque de eventos

 

O comércio é parte importante da Festa da Uva. Os cerca de 400 estandes ocupam a maior área do parque de exposições. Os visitantes passam boa parte do tempo olhando, experimentando e comprando. Quem circula pelos pavilhões é seguidamente abordado pelos vendedores, que distribuem folhetos e brindes, apresentam seus produtos e tentam atrair o cliente. Lá, encontra-se de tudo: roupas, artigos de couro, aparelhos de ginástica e massagem, utensílios domésticos, doces, móveis, peças de inox, bijuterias, quadros, telefones celulares, farmácias, bancos, sabonetes, velas, maquiagem, mapa astral etc. Se não fosse pelos estandes das agroindústrias; que vendem queijos, salames, geléias, compotas, biscoitos, bebidas etc; e pelas apresentações artísticas realizadas em meio aos expositores, seria até difícil identificar o tema e o motivo da Festa neste ambiente.

Há também os chamados estandes institucionais, como os de algumas prefeituras da região que aproveitam o grande público para divulgar seus municípios. Outras festas, de temática semelhante à de Caxias, também marcam presença com o objetivo de atrair visitantes - é o caso dos estandes da Fenavinho, de Bento Gonçalves, e da Fenchamp, de Garibaldi.

Grandes empresas, como Marcopolo e Randon, levam sua marca aos pavilhões como forma de se integrar à comunidade onde nasceram e progrediram. Além disso, a festa é uma grande vitrine comercial. Dificilmente alguém sai do parque com um veículo comprado, mas lá o cliente fica conhecendo o produto e surgem possibilidades de futuros negócios.

 

Shows artísticos animam o público

 

As atrações artísticas da Festa da Uva também contemplam diferentes estilos. Os três palcos montados no parque de exposições recebem de corais italianos a duplas sertanejas. O palco três é novo, onde concentram-se as apresentações de rock e heavy metal, que costumam levar um público bem jovem aos pavilhões. No palco um revezam-se os shows nacionais, grande aposta da Festa por atraíram um público expressivo - como Chitãozinho e Xororó, que levaram mais de 30 mi pessoas aos pavilhões, no sábado 25. Diariamente, a Festa ainda tem espaço para apresentações locais e regionais, tanto de danças típicas quanto de música. No palco interno do pavilhão dois, esquetes teatrais e teatro e bonecos.

 

Se Brinquedos infantis e radicais no parque

 

Um parque de diversões completa as atrações da Festuva. Há opções para todas as idades, do carrossel à montanha russa. Quem deseja tentar a sorte ainda pode apostar na roleta, no tiro ao alvo ou no jogo das argolas.

De segunda a quarta, o ingresso para entrar nos pavilhões é R$ 5,00. De quinta a domingo custa R$ 8,00 até às 18 horas e após, R$ 10,00. Idosos pagam meia entrada. O parque de exposições abre das 13h às 23 horas de segunda à sexta. No sábado, das 10h às 23 horas, e no domingo, das 9h às 22 horas.

 

Réplica oferece história e artesanato

 

A Réplica de Caxias do Sul 1885 é ponto obrigatório de visitação no parque de exposições. Dentro das casas de madeira encontram-se o museu do lixo; com móveis e objetos antigos encontrados pelos coletores; e o museu do comércio, que retrata um típico armazém daquela época, quando além de mantimentos vendia-se tecidos, remédios, baldes, ferramentas etc.

Produtos típicos e artesanato também são vendidos na réplica. O que mais os turistas compram no local? "Objetos com a marca da Festa, principalmente uma uva feita de biscuit que é ímã de geladeira", responde Olga Pesini, expositora da localidade de 3ª Légua. "Eles procuram pequenos objetos, para presentear família e amigos", completa.

Quem deseja fazer um lanche longe do movimento da praça de alimentação, também pode refugiar-se na réplica. Na casa ocupada pelo Clube de Mães do bairro Desvio Rizzo, há suco de uva natural, vinho doce e pastéis de carne e queijo fresquinhos, feitos na hora. O local já virou tradição da Festa. "Na edição de 2004, chegamos a vender 1.500 pastéis num dia", conta Soenir Fiorini.

 

AGRONEGÓCIO

Falta de recursos emperra cadastro vitícola

Há mais de 10 anos base de dados não sofre atualização ampla

 

Qual a área ocupada por vinhedos no Rio Grande do Sul? A essa pergunta, lideranças e até entidades ligadas ao setor têm respondido "por volta de 36 mil hectares". Aprofundando um pouco a questão, no entanto, percebe-se que não é possível dar o número exato. E por uma simples razão: o recadastramento vitícola de 2005 não foi concluído, a responsável pelo levantamento não sabe quantos produtores entregaram as informações e muito menos quando estará pronto.

"Dependemos de informações dos produtores sobre área, cultivares etc...", afirma a pesquisadora da Embrapa Loiva Ribeiro de Mello, coordenadora do cadastro vitícola. O desânimo contido na sua afirmação logo é substituído por uma reação enérgica ao ser indagada se o cadastro, então, é uma farsa. "Não é, não", rebate durante entrevista ao Correio Riograndense. Ela admite, porém, o atraso no recadastramento, que não possui nenhuma informação sobre 2005 avaliada e, mais do que isso, que a base de dados não sofre uma atualização abrangente desde 1995.

O comitê técnico do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) aprovou ainda em 2004 a realização de novo e amplo levantamento. Desde lá, porém, jamais foram disponibilizados os hoje estimados R$ 300 mil necessários para a execução desse trabalho.

Salto - "Precisamos de 10 pessoas e dez aparelhos GPS para termos uma nova base de dados georeferenciados", afirma Loiva. Os aparelhos custam um pouco menos de R$ 30 mil cada. O valor poderia ser menor, mas quanto mais encolher, mais aumenta o tempo necessário para a pesquisa. "Cada aparelho mede, em média, três propriedades por dia. Como há 15 mil propriedades no Estado..." compara Loiva. "Este é um salto que a vitivinicultura precisa dar. Não podemos adiar sistematicamente, mas também não podemos correr o risco de oferecer informações incorretas, ou parciais, para o planejamento do setor", argumenta.

 

Ibravin espera por verbas federais

 

"Vamos realizar tanto o cadastro vitícola como o vinícola". A afirmação é de Danilo Cavagni, presidente do Conselho Deliberativo do Ibravin. Mas, ao ser questionado quando, condiciona a demora à destinação de verbas pelo Ministério da Agricultura. "O cadastro é muito importante para todo o setor. E a lei de vinhos estabelece que o Ministério da Agricultura é que deve promovê-lo", explica.

No cargo há apenas dois meses, Cavagni sabe das dificuldades para obter o volume de recursos necessários. Tem consciência, igualmente, de que se depender de verba do Fundovitis, vinculado à Secretaria da Agricultura-RS e de onde vem o dinheiro para o Ibravin executar os projetos, o trabalho vai demorar para ser executado. Otimista, resume: "Vamos arrumar esse dinheiro junto ao Ministério", sem dar detalhes como.

 

É preciso retornar a campo depressa

 

Os dados sobre vinhedos disponíveis foram montados a partir de uma base de 1995 e atualizados com informações fornecidas por produtores de uva. "Eu não sei sequer qual é a margem de erro. Temos de voltar a campo logo e conhecer nossa realidade com precisão", propõe Loiva de Mello, coordenadora do Cadastro Vitícola.

O cadastro atual depende só das informações dos produtores. Nem todos, porém, fornecem os números dentro dos prazos fixados - para a safra de 2005 era inicialmente novembro do ano passado, mas até agora pelo menos cerca de 10% não entregaram os dados sobre seus vinhedos. "Ninguém está conferindo. Não sei sequer a margem de erro", diagnostica Loiva.

Como não tem idéia de quando receberá todas as informações sobre 2005, Loiva já está propondo que seja abandonado o recadastro de 2005 e se parta para a medição nos locais de todos os vinhedos. Na sua avaliação, vale a pena esperar mais um pouco para reunir condições. A questão, porém, é que esse "pouco" pode ser muito, e o setor acabar na dependência de levantamentos parciais e mais desatualizados ainda.

 

Assinados primeiros contratos de EGF

Os recursos para oito vinícolas gaúchas somam R$ 6 milhões

 

Uma semana após o anúncio, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dos recursos para a comercialização da safra de uva e derivados, feita em Flores da Cunha no dia 17 de fevereiro, o Banco do Brasil assinou os primeiros financiamentos com vinícolas da Serra gaúcha. A cerimônia foi realizada no estande do Ministério do Desenvolvimento Agrário, nos pavilhões da Festa da Uva, em Caxias do Sul, na sexta-feira 24.

Participaram da solenidade o próprio ministro do MDA, Miguel Rossetto; o prefeito de Caxias do Sul, José Ivo Sartori; o superintendente estadual do Banco do Brasil, Valmir Rossi; representantes das diversas entidades ligadas ao setor vinícola, autoridades e vitivinicultores da região.

Oito vinícolas firmaram os primeiros contratos de Empréstimos do Governo Federal (EGF): Adega Cavaleri, Vinícola Monte Lemos (Dal Pizzol Vinhos Finos) e vinícola Miolo, todas de Bento Gonçalves; Vinícola Saul Celeste Agostini e Indústria Vinícola Bolsoni, ambas de Garibaldi; Trentin Indústria Vinícola, de Caxias do Sul; União de Vinhos do Rio Grande, de Flores da Cunha; e Alfonço Tomazini, de Farroupilha. O valor total das operações soma R$ 6 milhões e vai beneficiar 843 produtores.

O governo federal está disponibilizando R$ 200 milhões para operações de EGF para a comercialização da atual safra da uva do Rio Grande do Sul, R$ 150 milhões através do Banco do Brasil e outros R$ 50 milhões disponíveis em bancos privados. Os juros são equalizados pelo Tesouro Nacional, com taxa fixa anual de 8,75%. O pagamento será em parcelas mensais no período de maio a dezembro de 2007.

Na safra passada o governo tinha colocado à disposição das indústrias vinícolas uma linha de credito EGF de R$ 90 milhões. "Esses recursos permitirão a aquisição da produção dos agricultores pelas indústrias, cooperativas e cantinas pelo preço mínimo acordado entre os produtores e os beneficiadores", destaca o superintendente estadual do BB, Valmir Rossi. Segundo estimativas do setor, o financiamento da vindima 2006 é de R$ 300 milhões.

Para o ministro Miguel Rossetto, o montante disponibilizado deverá garantir o cumprimento do acordo entre as indústrias vinícolas e os produtores, fechado em dezembro passado, que estabelece o preço mínimo de R$ 0,42 o quilo da variedade isabel de 15 graus babo. As ações do governo, anunciadas em Flores da Cunha no dia 17 de fevereiro, beneficiam cerca de 20 mil famílias de produtores rurais que trabalham com videiras e mais de 650 vinícolas que produzem vinhos e derivados.

 

Serra gaúcha ganha central de recebimento de embalagens

 

A Associação dos Revendedores de Agrotóxicos dos Campos de Cima da Serra e o Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias inauguraram a unidade central de recebimento de embalagens vazias de produtos agrotóxicos de Vacaria. O evento ocorreu no dia 16 de fevereiro. A central ocupa uma área construída de 400 metros quadrados e espera processar 120 toneladas de embalagens por ano.

A unidade vai atender cerca de 40 municípios da região serrana do Estado onde agricultores cultivam grãos (soja, milho e trigo) e fruticultura (maçã, uva, pêra, amora, mirtilo, framboesa etc). Com a inauguração dessa unidade, a oitava no Rio Grande do Sul, a infra-estrutura de centrais de recebimento do Estado está completa. Os agricultores gaúchos contam com 27 endereços para devolução de recipientes agrotóxicos (19 postos de coleta e oito centrais).

Em 2005, foram responsáveis pela devolução de 1.464 toneladas de embalagens, expansão de 47% em relação a 2004, quando foram coletadas 996 toneladas. Somente em janeiro deste ano já foram devolvidos 95 mil quilos de embalagens vazias de agrotóxicos. Na Serra gaúcha somente Caxias e Vacaria possuem unidades de recebimento.

 

VIDA AGRÍCOLA

Engº. Agrº. José Zugno

Uma praga chamada tiririca

Estou com uma peste muito comum em nossa região, a tiririca. Minha grama está cheia dessa erva. Dizem que quanto mais se retira mais nasce. Me informaram que existe uma maneira de combatê-la: praga contra praga, ou seja, tiririca contra tiririca, batendo a erva no liquidificador com água. Gostaria de saber quanta água e peste devo usar na fórmula. Agradeço sua atenção.

Maria Augusta Maccarini

Casca - RS

 

O coordenador do Centro Ecológico de Ipê, na Serra gaúcha, engº Agrº Luís Carlos D. Rupp, especialista em agroecologia, desconhece o preparado de tiririca contra tiririca. Diz ele: "Também não conheço este preparado de tiririca e água, mas um controle ecológico de tiririca pode ser feito semeando feijão-de-porco (Canavalia ensiformes) na horta.

É uma planta de verão que tem efeito alelopático sobre a tiririca, ou seja inibe o crescimento da mesma. A quantidade de sementes empregadas por hectare é 80 quilos, em semeadura a lanço. A semeadura deve iniciar em novembro, no máximo até janeiro.

A prezada leitora pode conseguir estas sementes com agricultores ecologistas que existem em Casca e nos municípios vizinhos, como São Domingos do Sul e Santo Antônio do Palma. O feijão-de-porco, além de controlar a tirica, fixa nitrogênio do ar através de simbiose com bactérias, enriquecendo o solo com este nutriente. Se quiser cultivar algo pode produzir milho, ou pipoca e, entre as filas destas culturas, semear o feijão-de-porco, aí a quantidade de sementes necessárias por hectare vai diminuir.

Uma outra alternativa é o uso de cobertura morta com palha de cana-de-açúcar, em uma camada generosa (cerca de 30 cm). Com a cobertura morta de cana-de-açúcar, o produtor não fica impedido de cultivar hortaliças na área durante o verão, como ocorre quando usa-se o feijão-de-porco, pois pode-se cultivar as hortaliças, principalmente aquelas de porte alto e que sejam transplantadas, como tomate, beringelas, pimentão e couves (flor, brócolis, folha) etc.

Uma recomendação geral para evitar a tiririca é ter um bom manejo de solo evitando a sua compactação e também evitar a irrigação excessiva.

 

SAÚDE

Diabético ganha insulina inalável

O novo medicamento deve aumentar a adesão ao tratamento

 

A primeira insulina inalável deve chegar ao Brasil até o fim deste ano. A maior agência de controle de medicamentos do mundo, a americana Food and Drug Administration, acaba de autorizar a comercialização do medicamento. Ele é uma das mais notáveis evoluções na história do combate ao diabetes.

Até agora, um paciente que precisasse de doses extras de insulina para controlar o diabetes tinha que recorrer às injeções. A Exubera deve reduzir a necessidade das picadas. O remédio tem ação rápida, sendo indicado para evitar os picos de açúcar no sangue que ocorrem logo após as refeições. Os médicos vêem a insulina inalável como uma ferramenta para que os pacientes percam o medo de usar o hormônio. Segundo os especialistas, a novidade deve aumentar a adesão ao tratamento, pois muitos pacientes consideram as injeções dolorosas e constrangedoras.

O diabetes é uma doença crônica grave que afeta 170 milhões de pessoas no mundo. Aproximadamente 8% das vítimas tomam doses extras de insulina para viver. Porém, calcula-se que 20% dos diabéticos deveriam tomá-las. Uma pesquisa patrocinada pelo laboratório Sanofi-Aventis, realizada recentemente com 12 mil pessoas, entre doentes e médicos, aponta a aplicação de insulina por meio de injeções como principal razão de resistência ao tratamento.

Os efeitos do novo remédio a longo prazo ainda são alvo de questionamentos, pois os estudos em humanos não têm mais de dez anos. A insulina inalável será indicada com algumas restrições. Inicialmente, crianças, fumantes e pessoas com problemas pulmonares não devem usar o produto, pois ainda não há estudos a respeito de seus efeitos nesses grupos.

 

Tratamento é cada vez mais completo

 

Além da insulina inalável, outros remédios lançados recentemente ou em fase avançada de estudos contribuem para o controle do diabetes. Dentre eles destacam-se as drogas que melhoram a produção de insulina pelo pâncreas e as insulinas de ação prolongada, cada vez mais parecidas com o hormônio produzido pelo organismo saudável. O próximo passo é desenvolver formas de administração de insulina ainda mais simples que a inalável, como adesivos transdérmicos e pílulas, o que deve demorar de 10 a 15 anos, segundo especialistas.

 

Saiba mais

 

O que é diabetes: é uma doença em que há aumento da glicemia (açúcar no sangue). Ocorre porque o pâncreas não produz insulina suficiente ou porque a insulina não age bem no organismo.

Tipo 1: o pâncreas não produz insulina. Ocorre principalmente em crianças e adolescentes, mas adultos também podem ter esse tipo de diabetes. O tratamento é necessariamente feito com insulina.

Tipo 2: a insulina produzida pelo pâncreas não é suficiente ou não age de forma adequada para diminuir a glicemia. É mais comum em adultos e em pessoas que têm familiares com esse tipo de diabetes. Está muito relacionado à obesidade e, por isso, vem atingindo pessoas cada vez mais jovens. Inicialmente, o tratamento pode ser apenas com dieta e exercício físico, mas, com o tempo, serão necessários comprimidos, insulina ou a associação dos dois.

Sinais: sede excessiva, urina em excesso, muita fome, cansaço, perda de peso, visão embaçada, infecções urinárias freqüentes, dificuldade de cicatrização de feridas, formigamentos e dormências e dores nas mãos, nas pernas e nos pés.

Complicações: quando o diabetes não é bem controlado, após alguns anos, podem surgir complicações nos olhos, rins, nervos e vasos sangüíneos, que podem levar ao prejuízo da visão, à perda da função renal, à amputação de membros, ao infarto e ao derrame. O diabético tem risco quatro vezes maior de infarto.

 

GERAL

Terra chega a 6,5 bilhões de habitantes

Ritmo do crescimento diminui e distribuição continua desigual

 

O relógio da população mundial, mecanismo criado pelo censo dos Estados Unidos para contar quantos somos e em que ritmo crescemos, indicou que no sábado 25 à noite a população mundial atingiu a marca de 6,5 bilhões de pessoas. O relógio não determinou o momento exato do nascimento de número 6,5 bilhões. Para fazer os cálculos, usa dados de mortalidade e fertilidade do planeta. O equipamento estima que a cada minuto nascem 249 seres humanos - 4,1 a cada segundo - e morrem 108 na Terra.

Nas regiões mais pobres do planeta, como África, Índia e Oriente Médio, a população cresce mais rápido. E nos países industrializados da Europa a população está diminuindo. Na soma, a Terra está ficando cada vez mais lotada.

Os demógrafos franceses discordam dos americanos e afirmam que o mundo atingiu os 6,5 bilhões de pessoas em dezembro de 2005. Independente da polêmica, o certo é que a população continua crescendo, embora em ritmo menos acelerado.

Especialistas afirmam que o maior ritmo de crescimento demográfico ocorreu durante a década de 1960 porque a maioria dos países fez nesta época sua "transição demográfica", passando de taxas de natalidade e mortalidade muito elevadas para outras bem mais baixas, especialmente no que se refere às primeiras. Os países europeus experimentaram esta transição a partir da segunda metade do século XIX, enquanto os países em desenvolvimento a enfrentaram somente ao longo da segunda metade do século XX. No entanto, alguns países da África Subsaariana e da Ásia ainda não atingiram esta etapa, continuando com taxas de natalidade persistentemente altas e mortalidade em queda mais ou menos expressiva. Em outras palavras, vivem ainda a situação de "explosão demográfica".

Desigualdade - Mas, apesar da redução do ritmo de crescimento demográfico nas últimas décadas, o fenômeno vem ocorrendo tendo como pano de fundo uma distribuição desigual da riqueza e crescentes problemas no que se refere ao meio ambiente. A população está distribuída de forma muito desigual pela superfície terrestre. Assim, os cinco países com maior população absoluta (China, Índia, Estados Unidos, Indonésia e Brasil) totalizam mais de 3,2 bilhões de habitantes, a metade dos habitantes do planeta.

As distorções na distribuição do contingente demográfico também se manifestam em termos continentais. Pouco mais de 60% dos habitantes da Terra estão na Ásia, 15% no continente americano (quase 2/3 na América Latina), 14% na África, 11% na Europa e menos de 1% na Oceania. Em números absolutos é a Ásia que mais cresce. Em termos de ritmo, é a África que apresenta o crescimento mais rápido.

 

Mais de 5 bilhões em dois séculos

 

A população mundial atingiu 1 bilhão de habitantes apenas em 1804. Em 1930, ou seja, 126 anos após, a população do planeta dobrou. Trinta anos depois 3 bilhões de pessoas espalhavam-se pelo planeta e em 1974 era superada a marca de 4 bilhões. Foi este o período de maior crescimento demográfico. Em 1987 a população atingia 5 bilhões de pessoas, em 1999 6 bilhões e no sábado passado, 6,5 bilhões. A previsão da ONU é de que em 2012 seremos 7 bilhões.

No momento em que o mundo chegava aos 6,5 bilhões de habitantes, a população brasileira atingia 185,7 milhões de pessoas. Em 34 anos, o número de brasileiros praticamente dobrou em relação aos 90 milhões de habitantes da década de 1970. Somente entre 2000 e 2004, aumentou em 10 milhões de pessoas. Em 2050, a tendência é de que o país terá 259,8 milhões de habitantes.

 

São Francisco Sat e Maisnova investem no rádio digital

Equipamentos ampliam e melhoram o sinal e dão condições técnicas para implantar nova tecnologia

 

A Rádio São Francisco SAT 560 AM e a Rede Maisnova FM 98,5 de Caxias do Sul, integrantes do grupo de emissoras de rádio da Província dos Capuchinhos no Rio Grande do Sul, começam 2006 preparadas para a nova tecnologia do rádio digital. Embora o governo brasileiro ainda não tenha definido o padrão a ser adotado no país, o que deve ocorrer ainda este ano, um investimento de 300 mil dólares em equipamentos, uma nova torre de transmissão e novos instrumentos de geração digital deixam as emissoras prontas para o rádio do futuro.

O rádio digital vai propiciar que o ouvinte receba as emissoras atuais de AM com som de FM e as emissoras de FM com som de CD, gerando um grande salto de qualidade. Também será possível a utilização do sinal para o envio de textos e imagens, agregando ao rádio funções não desempenhadas atualmente. Após a definição do sistema brasileiro a ser adotado - a tendência é pelo norte-americano IBOC - haverá um período de transição para que os ouvintes mudem seus equipamentos em casa, no escritório ou no carro, podendo captar simultaneamente o rádio analógico atual e o novo modelo de padrão digital. A mudança para o novo sistema deve ser gradual e pode levar alguns anos, pois vai depender de fatores como preço dos novos receptores e velocidade de adaptação dos ouvintes à nova tecnologia.

"No caso da São Francisco e da Maisnova, todo o fluxo do áudio, desde a saída do som dos estúdios até a torre, está digitalizado, restando apenas a definição do padrão brasileiro para iniciarmos as transmissões digitais", informa o engenheiro Cláudio Lorini, responsável técnico das emissoras.

 

Crescem abrangência e qualidade de som

 

Para que este salto de qualidade fosse possível foram necessárias aquisições de transmissores Harrys (EUA) preparados para a tecnologia, bastando agregar alguns equipamentos para operar com o novo modelo, tão logo o Ministério das Comunicações defina o padrão a ser adotado no Brasil. Além disso, uma nova casa de transmissores foi construída, abrigando o sistema principal e reserva de transmissão, além de processadores de som e um gerador com grande autonomia para manter o sistema em funcionamento em eventuais quedas no fornecimento de energia elétrica. "Com estes investimentos, a Maisnova FM amplia o sinal, passando a atingir áreas que não eram abrangidas, como a grande Porto Alegre e parte do litoral", explica o diretor técnico do grupo Romoaldo Breda. A emissora passou de uma torre de 70 metros de altura para a nova de 140 metros.

Na Rádio São Francisco SAT, o ganho imediato é na recepção e no alcance. "Já passamos a ter um som de maior qualidade e captado em lugares onde havia dificuldade de obtenção de sinal", complementa Breda. Medições de campo a serem realizadas em breve vão quantificar o ganho obtido a partir das obras e investimentos realizados até aqui. A nova torre também vai propiciar mais mobilidade para as equipes de reportagem com a adoção de links nas transmissões externas. Para o superintendente frei Edílio Soliman, as emissoras dos capuchinhos estão dando um importante passo rumo ao rádio digital, adotando uma postura de vanguarda tecnológica e visão de futuro. "Precisamos estar bem atualizados para atender com dinamismo e eficiência as necessidades dos nossos ouvintes e clientes, sendo um grupo de referência no setor das comunicações", conclui.

A Rádio São Francisco SAT é a geradora via satélite da Rede Sul de Rádio, integrada por nove emissoras, com foco no radiojornalismo e na prestação de serviço ao ouvinte. A Rede Maisnova FM é composta por cinco emissoras com transmissão por satélite a partir de Caxias do Sul. A programação prioriza os sucessos musicais do momento sem esquecer das informações mais úteis para o dia-a-dia do ouvinte.

 

OPINIÃO

Bruna e várias outras

Maria Clara

 

Triste cultura a nossa em que o ser humano foi reduzido a um mero sujeito consumidor de bens inúteis e supérfluos. E que para adquiri-los faz qualquer coisa: transportar drogas, vender o próprio jovem corpo...

 

Recente reportagem de uma das revistas mais lidas do país explorou em maiores detalhes o que a televisão já tinha anunciado há não muito tempo. Nas grandes cidades, muitas meninas de classe média, que tiveram uma vida abastada e boa instrução, procuram a prostituição como meio de vida.

A matéria traz o depoimento de Bruna Surfistinha, codinome da menina que botou o próprio caso na rua e no espaço público. Ao lado dela depõem várias outras, nenhuma acima dos 25 anos. A maioria mora com os pais, que ora não sabem ora toleram sua escolha profissional. Motivo da decisão e da escolha? Dinheiro e não mais.

O trabalho honesto, diuturno e cotidiano jamais foi fonte de renda fácil e rápida. Há que labutar toda uma vida, de sol a sol, para aposentar-se já em idade avançada com algum dinheiro guardado para uma velhice decente. As meninas da reportagem não se conformam com esse ritmo nem com esse estado de coisas. Descobriram no "atendimento" a executivos de alto bordo e no "trabalho" em prostíbulos de luxo uma fonte muito mais rápida e fácil de chegar aos objetos de consumo sonhados e desejados.

É assim que muitas delas hoje têm carro, computador, celular da moda, além de roupas de griffe, perfumes caros e mesmo casa própria. Ganham em um só programa de uma hora o que levavam às vezes mais de um mês para obter, em um suado e obscuro trabalho. Agora o dinheiro lhes corre nas mãos abundantemente. Enquanto houver juventude e beleza, haverá programas. E homens entediados, que pagam caro pelo prazer de aluguel porque não conseguem criá-lo gratuita e amorosamente em seus lares e alcovas.

Longe de mim querer aqui julgar Bruna e suas colegas. Quem sou eu para penetrar no íntimo de seus jovens corações e saber que dramas e que dores por ali passaram para que optassem por esse caminho? Quem sou eu para avaliar as lacunas e carências de afeto, de sentido para a vida que atormentam suas noites insones e seus dias tranqüilizados por drogas e academias incessantes? Quem sou eu para imaginar o tremendo vazio de horizonte e de transcendência que faz com que seu cotidiano só se explique pelo imediato: o prazer imediato, o lucro imediato, o poder aquisitivo imediato?

Pesa-me, no entanto, no coração ler os depoimentos dessas jovens ao falar sobre suas vidas. Pesa-me verificar o que a sociedade neoliberal fez com elas e sua vocação de seres humanos. Pesa-me constatar que o único valor que as move é o dinheiro e por ele vendem o que têm de mais precioso na vida: seu corpo, sua pessoa, sua dignidade. Pesa-me ver que algumas declaram ter ficado com nojo de homem e, portanto, admitem terem se colocado para sempre fora do alcance do amor, seus êxtases e seus encantos. Pesa-me ver que o pão de cada dia destas meninas é contemplar a morbidez das infidelidades masculinas, que diante delas, no motel, telefonam para as esposas com sórdidas mentiras antes de usá-las em mais uma rodada de cama sem enlevo e sem compromisso outro que o pagamento que virá depois.

Algumas ainda têm sonhos: casar com um jogador de futebol, mirando o dinheiro que desfrutarão com o parceiro. Ou escrever um livro e fazer o mesmo sucesso editorial que Bruna Surfistinha, virando bestseller de uma cultura que consome de tudo, sobretudo o que não faz pensar nem exige altura de espírito. Outras desejam sair daquela vida. Têm vergonha de andar na rua e se sentem apontadas com o dedo pelos que passam, embora nada em sua aparência denuncie a clássica prostituta, de meia arrastão, roupa barata e curta, seios de fora e poucos dentes na boca. O selo que levam na testa, no entanto, lhes pesa da mesma maneira. Sentem-se marginalizadas, malditas, envergonhadas.

Triste cultura a nossa em que o ser humano foi reduzido a um mero sujeito consumidor de bens inúteis e supérfluos. E que para adquiri-los faz qualquer coisa: transportar droga, aviãozinho ou mula, marcado para morrer preso nas malhas do tráfico, ou vender o próprio jovem corpo, feito para o amor e a maternidade, no anonimato de relações estéreis e destrutivas.

Resta esperar que Bruna e suas amigas um dia encontrem em seu caminho alguém que as trate como pessoas e lhes mostre o quanto valem, como são preciosas suas vidas e seus corpos, e como vale a pena investir seu tempo e seu potencial no amor cultivado e dedicado e no trabalho honesto e na criatividade de cada dia, que pode demorar, mas fará toda a diferença.

 

Amor e êxtase

Frei Betto

 

"Nem o espírito ama sozinho, nem o corpo: é o homem, a pessoa, que ama como criatura unitária, de que fazem parte o corpo e a alma", diz Bento XVI

 

A encíclica "Deus é amor", a primeira do novo Papa, surpreende positivamente em muitos aspectos, malgrado a linguagem requintada, de difícil comunicação com o público jovem. Bento XVI rompe a retórica majestática, tão ao gosto de papas e cardeais, para falar na primeira pessoa: "Na minha primeira encíclica desejo falar do amor". E o faz recorrendo não só a autores cristãos, mas também a clássicos pagãos e outros que tiveram suas obras proibidas pela Igreja: Platão, Aristóteles, Virgílio, Gassendi, Descartes e Nietzsche.

O papado pronuncia-se com novo sotaque. Nada de condenações, escrúpulos, moralismos. O amor é encarado em sua dimensão totalizante, de inter-relação com Deus, o próximo, a coletividade. Não se retrai o autor frente a arroubos poéticos, superando dualismos entranhados na tradição eclesiástica: "O amor entre o homem e a mulher, no qual concorrem indivisivelmente corpo e alma, e se abre ao ser humano uma promessa de felicidade que parece irresistível, sobressai como arquétipo de amor por excelência, de tal modo que, comparados com ele, à primeira vista todos os demais tipos de amor se ofuscam." E exalta as "arrojadas imagens eróticas" dos profetas Oséias e Ezequiel, bem como do Cântico dos Cânticos.

Ao criticar a visão platônica, tão freqüente na tradição da Igreja, o papa faz mea-culpa: "Hoje não é raro ouvir censurar o cristianismo do passado por ter sido adversário da corporeidade; a realidade é que sempre houve tendências neste sentido" E sublinha: "Nem o espírito ama sozinho, nem o corpo: é o homem, a pessoa, que ama como criatura unitária, de que fazem parte o corpo e a alma. Somente quando ambos se fundem verdadeiramente numa unidade, é que o homem se torna plenamente ele próprio. Só deste modo é que o amor -o eros- pode amadurecer até à sua verdadeira grandeza."

Bento XVI evoca a didática grega para traduzir as dimensões do amor: o eros, a atração arrebatadora que subjuga a razão; a philia, o amor entre amigos; e o ágape, o cuidado do outro, o sacrifício de si, a abertura ao transcendente. Este último plenifica o amor e instaura não "a imersão no inebriamento da felicidade", mas o bem do amado. "Sim, o amor é ‘êxtase’; êxtase, não no sentido de um instante de inebriamento, mas como caminho, como êxodo permanente do eu fechado em si mesmo para a sua libertação no dom de si e, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo, mais ainda para a descoberta de Deus". Bento XVI poderia incluir uma quarta dimensão, a mais aviltante: pornô, o prazer de um resultando da degradação do outro.

O pontífice recusa a antinomia entre eros e ágape: "Se se quisesse levar ao extremo esta antítese, a essência do cristianismo terminaria desarticulada das relações básicas e vitais da existência humana e constituiria um mundo independente, considerado talvez admirável, mas decididamente separado do conjunto da existência humana." E enfatiza: "No fundo, o ‘amor’ é uma única realidade, embora com distintas dimensões; caso a caso, pode uma ou outra dimensão sobressair mais. Mas, quando as duas dimensões se separam completamente uma da outra, surge uma caricatura ou, de qualquer modo, uma forma redutiva do amor".

A encíclica sublinha esta dimensão tão acentuada pela teologia da libertação: "Jesus identifica-se com os necessitados: famintos, sedentos, forasteiros, nus, enfermos, encarcerados. ‘Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes’ (Mt 25, 40). Amor a Deus e amor ao próximo fundem-se num todo: no mais pequenino, encontramos o próprio Jesus e, em Jesus, encontramos Deus."

Numa definição primorosa, o Papa afirma que "a natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice dever: anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebração dos Sacramentos (leiturgia), serviço da caridade (diakonia)". Pois "a Igreja é a família de Deus no mundo. Nesta família, não deve haver ninguém que sofra por falta do necessário".

Nessa linha, o documento papal reconhece a pertinência da crítica marxista, que contém "algo de verdade": "Forçoso é admitir que os representantes da Igreja só lentamente se foram dando conta de que se colocava em moldes novos o problema da justa estrutura da sociedade". Assim, numa defesa intransigente da autonomia da política e da laicidade do Estado, Bento XVI sinaliza que, na busca da justiça, "política e fé tocam-se" e deixa claro que "não pretende conferir à Igreja poder sobre o Estado; nem quer impor, àqueles que não compartilham a fé, perspectivas e formas de comportamento que pertencem a esta".

A Igreja não pode pretender confessionalizar o mundo da política, nem este querer reduzir a religião ao âmbito da sacristia: "A Igreja não pode nem deve tomar nas suas próprias mãos a batalha política para realizar a sociedade mais justa possível. Não pode nem deve colocar-se no lugar do Estado. Mas também não pode nem deve ficar à margem da luta pela justiça". Não se faça do exercício da caridade uma tática de proselitimo: "Quem realiza a caridade em nome da Igreja, nunca procurará impor aos outros a fé da Igreja. Sabe que o amor, na sua pureza e gratuidade, é o melhor testemunho do Deus em quem acreditamos e pelo qual somos impelidos a amar".

A encíclica do amor estaria mais completa se contextualizada na atual conjuntura mundial, retomando a crítica contundente que João Paulo II fez do neoliberalismo, da invasão do Iraque, do neocolonialismo consubstanciado no escorchante endividamento dos países pobres, empecilhos à "civilização do amor" sonhada por Paulo VI.

 

ESPECIAL

NANETTO PRESERVA O RETRATO DE UMA ÉPOCA

Obra de frei Aquiles Bernardi é considerada espelho da mentalidade e do estado de espírito dos primeiros imigrantes italianos

 

Frei Aquiles Bernardi criou Nanetto Pipetta para mostrar a verdadeira América e não o ideal de riqueza e felicidade descrito em romances vênetos que lera. Escreveu em Vêneto, "servindo-me de expressões cremonesas e brasileiras", conforme depoimento dado em 1972, o seriado publicado de 23 de janeiro de 1924 a 18 de fevereiro de 1925 no Correio Riograndense – que circulava com o nome de Staffetta Riograndense.

O autor, além de "traçar a verdadeira imagem da América", com seu personagem, manteve o retrato de uma época, disseminou expressões por todo o Sul do Brasil e despertou o interesse de literatos, filósofos, sociólogos, antropólogos e pesquisadores da cultura da imigração italiana.

Nanetto Pipetta é um jovem que deixa a Itália para vir à América, onde se depara com natureza e o meio de subsistência absolutamente estranhos – pinhão, bananas, farinha de mandioca, papagaios eram totalmente desconhecidos dele (leia artigo na pág. 14). Para uns Nanetto Pipetta é o anti-herói "que nasceu na lua virada", para quem dá tudo errado. Para outros, entre eles o escritor e pesquisador Mário Gardelin, só o fato de impedir o rompimento do elo da história o torna um herói. Na avaliação do pesquisador e editor frei Rovílio Costa, trata-se de "um fenômeno étnico-cultural que interpretou o modo de ser, pensar e fazer do italiano de forma ingênua e inteligente".

Vitta e Stòria de Nanetto Pipetta, o nome do seriado e do livro, é considerado pelo filósofo e professor Luiz Alberto De Boni "uma obra-prima da literatura da imigração italiana na América". Ao escrever a apresentação da 4ª edição do livro, chamou atenção para um aspecto normalmente obscurecido pela idéia predominante de que Nanetto é apenas uma leitura amena para os descendentes de imigrantes italianos. "Sob uma aparência despretenciosa, podem-se perceber as influências de outras leituras, mesmo de Homero (lembrando os Ciclopes da Odisséia) e de Virgílio (Eneida)".

Fidelidade - "A obra de Aquiles Bernardi traça um panorama magistral e fiel do mundo do imigrante italiano nas terras do extremo sul do país", escreveu José Hildebrando Dacanal. "A rudeza do pioneiro, a rudeza do ambiente, as relações econômicas, o mundo cultural e religioso, as relações familiares, tudo aí está, em uma narração que consegue ser de uma fidelidade impressionante", detalhou o escritor.

O governador gaúcho em exercício, Antônio Hohlfeldt, ao escrever Presença italiana no Brasil, em 1987, abordou a importância de Nanetto Pipetta na cultura da imigração. Na semana passada, ao atualizar seu depoimento, destacou outro traço do complexo perfil do personagem: "Nanetto serviu de modelo moral aos catequizadores, mas não se pode deixar de nutrir extrema simpatia pela sua figura atrapalhada, desejando-se, mesmo que, ao final, ao menos uma única vez ele alcance realizar seus objetivos".

"A obra de Nanetto Pipetta é emblemática na literatura popular vêneto-brasileira por ter acompanhado os sonhos e as esperanças, entre vigílias e filós, de tantas gerações", ressaltou Giovanni Meo Zílio, da Universidade de Veneza, autor de vários textos sobre Nanetto. "Nanetto Pipetta possui valor literário, histórico e sociológico, mas recomenda-se, sobretudo, por seu aspecto documental e por sua estrutura lingüística", escreveu Gaetano Massa, de Roma. Nanetto, portanto, é motivo de estudos e pesquisas também na Itália, onde várias bibliotecas colocam o livro à disposição – na província de Treviso cada escola tem exemplares de Vita e stòria de Nanetto Pipetta e Stòria de Nino, fradelo de Nanetto Pipetta, do El ritorno de Nanetto Pipetta e do Dicionàrio Vêneto sul-rio-grandense.

Consciência popular - "Nanetto Pipetta teve, e continua tendo, o mérito de ser o depositário histórico do vocabulário Talian usado no Rio Grande do Sul e, unindo-se ao Stòria de Nino, fradello de Nanetto, o depositário do Talian como última língua neo-italiana em franca evolução". A descrição é de frei Rovílio Costa. "Eles impediram a numerosos descendentes de imigrantes de se tornarem órfãos da palavra paterna e materna", acrescenta.

Mas há ainda uma outra contribuição importante, segundo frei Rovílio: "Nanetto deixou na consciência popular a capacidade de observação e identificação de fatos que vão se repetindo no curso do tempo e que o povo costuma dizer: "Questa la ze una de Nanetto", expressando um afeto histórico à história social e familiar ligada ao humor, ao imprevisto, ao azar, ou ao sucesso que se alcançou pelo caminho do azar".

 

Este é um dos capítulos (o XXVII no original, o XXIX na 9ª edição) que mais marcaram o seriado de Nanetto Pipetta (ilustração de frei Osvaldo)

 

Orpo, na pianta de salami...

 

Par no ndare in te le sate dei soldadi, el Pipetta el ga caminà tuta quanta la note, deium, co na lùssia che fa spavento. Però el pensiero de la resuression de la morta el ghe dava on fià de core.

– A podeva èssare on sassin, a podeva... E lora la mama se lo avesse savesto, eh!Apena el sentiva on qualche bordelo, apena on can sbagiava:

– I ze i soldadi! E là el toleva na voltada e via, e via.

Sul far del di, co la bela stela se ga levà, romai no el ghin podeva pi. El garà fato cinquanta chilòmetri de strada. No se càtelo sensa incòrderse darente on gran rio largo come el canalasso de Venèssia. E tol su on sasso e lo buta drento. Parlunf! el ga fato.

– Che fondo che el ga da èssare!

Cossa fare? Ris-ciarlo? Hum! e se me nego?!

Varda dequà, varda delà, no càtelo on caìco. El salta drento e via par sto rio, e rema, e rema, e via, e su... finché se ga fato ciaro. Alora el ga visto dala parte de là on boscheto de piante co le foie larghe, ma larghe.

– Chi sa che no le me daga da magnare calcossa ste piante. El ze ndato live, el vede come dei salami picadi tuto intorno a on ramo, che no el ghin podeva pi dal peso.

– Orpo, na pianta de salami! Che boni che no i ga da èssare?!

Ghenera de verdi e de dai, de grandi e de pìccoli. El fa on sforso desumano, e el riva a picarse a on graspo de sti salami.

El peso ze stà massa, e el graspo se ga roto, e zo tuto insieme!

No galo petà malamente e scavéssese na gamba.

– Santo Segnore, che disgràssia! a me son fato male. El proa levarse suso, e no el ze pi bon; zamina la gamba e tò! El pié el varda indrio. Alora el se ga messo a piàndare e criare co tuta la so forsa par farse sentire.

El gavarà sigà par do ore sensa che gnensuni senta. Case non ghin gera!

Dopo el se ga chietà on tocheto. Proa saiare sti salami, i gera bonìssimi.

El ga impinio el stómego ben polito. Dopo el se ga metesto la pipa in boca par distrarse del mal dela gamba rota.

– Ma e desso caminare?!

Aiutooo! E se i soldadi me ciapa?! Aiutooo, che tegno rompesto na gamba!

Ciama, osa e piandi, in fine ze capità na barcona piena de zente che, sentendo piàndare e de le osade, i ze andati védare e i lo ga catà tuto desumanà co la fièvara, la gamba rota, sgionfa, tuto desperà insoma.

I ghe dimanda come la ze stada e andove el ga i soi e se el ga parenti in Mèrica etessètara! Nanetto ga contà tuto, e el ga dato la pistoleta al capo de quei là par farse curare la gamba. Alora i lo ga tolto suso te la so barca e i lo ga menà tel ospedale de Porto Alegre.

Co i ga tratà de méterghe al posto la pora gamba, i ghe ga dà na s-cianta de bombaso parché el se stropasse le rece par non sentir i dolori e i strèpidi del justamento. Ma lu, tuto preocupà e con quela maladeta fiévara che el gavea in torno, lo mete in boca e là el sevitava ruminare sensa saver cossa. Mastiga che te mastiga, dopo de on bel toco se nincorde de sto mestiero in boca: – Cossa zelo sto sporchisse qua?!

– El ze el bombaso par stropar le rece e nò

par magnarlo, furbo ca te sì, ghe dise

l’ infermero.

– A me parea anca mi che no el me

ga on gusto da gnente sto mustrìcio.

 

Questa la ze una de Nanetto

 

O ano é 1924. O cenário, uma área em frente à capela de uma comunidade do interior caxiense – ou de outro município da Serra gaúcha. Domingo pela manhã, logo após a missa, a pilha de jornais começa a ser desfeita e cada assinante apanha seu exemplar. Entre todos há uma forte expectativa sobre o que acontecerá com Nanetto Pipetta nesta edição do Correio Riograndense – na época com o título de Staffetta Riograndense.

Como nem todos são assinantes, um deles vai direto à página do seriado e começa a ler o capítulo, sempre em Talian. Logo forma-se um grupo ao seu redor. Aos que levam o exemplar para casa é possível novas leituras, agora em família. Os demais deixam o local com os trechos que conseguiram gravar na memória. E tratam de passar adiante as aventuras de Nanetto, cada qual relatando o que gravara, e com sua interpretação – nem sempre muito fiel.

É por isso que o universo de pessoas que acompanhavam o seriado era muito superior aos cerca de cinco mil assinantes que o jornal tinha na época, ou mesmo as 40 mil pessoas que se obtêm num cálculo de leitores a partir de critérios próprios do meio – cada família na época tinha em média oito integrantes. É por isso também que cunhou-se uma expressão que se tornou comum: "Questa la ze una de Nanetto". Numa tradução simplificada, "esta é uma de Nanetto", classificação dada a histórias, casos ou fatos que tinham identificação com o personagem – ou muitas vezes associados deliberadamente a ele.

As façanhas de Nanetto chegavam a Santa Catarina e Paraná através do Correio Riograndense, que acompanhou os descendentes de imigrantes italianos na busca por novas terras, cumprindo o papel – até hoje - de ser um elo de ligação entre os que partiram e os que ficaram. Mas a fama do personagem se alastrou também oralmente, porque também por lá as histórias eram lidas para grupos de pessoas que as repassavam.

 

Livros ampliam influência de NANETTO

Obra publicada em 1937 só foi reimpressa em 1956. Livros do personagem venderam mais de 150 mil exemplares

 

O seriado Nanetto Pipetta no jornal foi interrompido em fevereiro de 1925 por uma "morte provisória", forçada por pressões, quando o personagem "se afoga" no rio das Antas. Nanetto volta aos leitores em 1937, com o livro "Vita e Stòria de Nanetto Pipetta – Nassuo in Itália e vegnudo in Mèrica par catare la cucagna". Na capa e internamente, ilustrações de frei Gentil de Caravaggio. Os traços, feitos à ponta de canivete no chumbo, têm escasso refinamento artístico, mas são fiéis ao texto. Além disso, os leitores ganharam uma figura para ocupar o espaço antes vago ou indefinido no seu imaginário.

Apesar do sucesso, Nanetto foi condenado à clandestinidade durante a II Guerra Mundial (1939-1945). A segunda edição viria somente em 1956, fruto da sensibilidade e da persistência de Virgínio José Bortolotto, na época frei Nilo. "Em 1956, com 10 anos de gráfica no Correio Riograndense, reli a história de Nanetto que conhecia desde criança e senti vontade de fazer a 2ª edição do livro", recorda Bortolotto. O parque gráfico do jornal e da Editora São Miguel oferecia todas as condições para a reimpressão e ele tratou de reunir os capítulos escritos por frei Aquiles Bernardi.

Sensível às mudanças ocorridas em duas décadas no vocabulário dos dialetos que se falava, em especial vêneto e lombardo, Bortolotto incluiu palavras da gíria ou aportuguesadas. Também escreveu capítulos, entre eles o das "urtigas". Depois de reelaborar os textos, encarregou-se da composição e paginação, o que fazia nas horas livres. "Foram muitas noites e fins de semana, jutando letra por letra, porque o sistema era linotipo", detalha. Às ilustrações de frei Gentil foram acrescentadas as de frei Osvaldo de Passo Fundo. O título foi o mesmo de 1937.

Além desse trabalho, Bortolotto teve de superar resistências ao Nanetto. "Havia quem achasse, entre outras coisas, que era um desprezo à língua portuguesa", lembra Bortolotto, hoje com 77 anos, morando em Antônio Prado. O impasse só foi superado seis meses após, quando frei Aquiles autorizou a reimpressão, condição imposta por opositores da obra.

O resultado impressionou. A primeira tiragem, com 12.000 exemplares, esgotou em poucos dias. Para se ter uma idéia do que isso representa, a tiragem média dos livros lançados no Brasil hoje é de 3.000 exemplares. E esse número vale para todo o país, enquanto que Nanetto era vendido apenas na região de colonização italiana.

Diante do sucesso veio a segunda edição. Novos capítulos aumentaram de 144 para 192 o total de páginas. A tiragem foi de mais 12.000, vendidos, outra vez, em pouco tempo. E a terceira, agora com 208 páginas e mais 10.000 exemplares. "Valeu toda a luta e o sacrifício. Nanetto não podia morrer na prateleira do esquecimento", avalia Bortolotto.

A 4ª edição foi lançada em 1975, pela EST Edições, numa iniciativa de frei Rovílio Costa. Em 1990, saiu a 9ª edição. Frei Rovílio estima que já foram vendidos mais de 150 mil exemplares do Nanetto, número que raríssimos grandes autores de hoje conseguem alcançar.

 

PERSONAGEM E ATOR JUNTOS PARA SEMPRE

 

O monumento a Nanetto Pipetta e Pedro Parenti, inaugurado na segunda 27 no Parque de Exposições da Festa da Uva, funde períodos e ambientes distintos da história de um personagem que nasceu para mostrar a realidade que encontraram os imigrantes italianos, muito distante do sonho da fortuna e felicidade que os guiou na travessia do Atlântico. Um deles remete a 1924, ano em que Nanetto foi criado pelo frei capuchinho Aquiles Bernardi, o frei Paulino de Caxias, e ganhou o mundo através de seriado publicado pelo Staffetta Riograndense, atual Correio Riograndense; em outro, associa o retorno de Nanetto às páginas do jornal, em 1999, pelas mãos de Pedro Parenti, o ator que interpretou Nanetto no teatro e eventos ligados à imigração italiana com a perfeição de quem incorpora o personagem. Por isso a estátua é de Nanetto na figura de Parenti.

Frei Aquiles Bernardi (1891-1973), com aguçada perspicácia e simplicidade, captou os principais sentimentos dos primeiros imigrantes italianos e concentrou-os em Nanetto para, a partir dele, difundi-los ao mundo – com o mesmo linguajar, gestos e artimanhas. Pedro Parenti (1951-2000) detectou como ninguém essa intenção do criador e, com raro talento, transformou-se no próprio Nanetto – adaptando histórias, improvisando diálogos, criando situações, sempre aliando humor e ingenuidade. É por isso que o grupo Miseri Coloni, do qual fazia parte, jamais voltou a encenar a peça após a morte de Parenti.

A estátua que imortaliza Nanetto e Parenti foi concebida e confeccionada pelo artista Roberto Mugnol, através de uma parceria entre o Correio Riograndense, Prefeitura de Caxias do Sul e Festa da Uva.

 

Um Ritorno marcante e sem epílogo previsto

 

O Correio Riograndense publicou, de fevereiro de 1965 a junho de 1967, um novo seriado em Stòria de Nino, fradelo de Nanetto Pipetta, também de frei Aquiles Bernardi. Nino era o irmão de Nanetto bem-sucedido na vida, mas não obteve o mesmo sucesso entre o público.

A atual fase do Nanetto Pipetta no Correio Riograndense inicia em 1999, quando o jornal completava 90 anos. O então diretor de redação Moacir Molon já conversara sobre essa possibilidade com Pedro Parenti, o grande intérprete de Nanetto no teatro. Marcada reunião para aprofundar o debate sobre o assunto, Molon deixou claro que o jornal só voltaria a publicar se houvesse continuidade. Parenti abriu uma pasta e dela retirou 50 capítulos. O Ritorno de Nanetto Pipetta tinha os textos de Parenti, sempre em Talian, e as ilustrações de Carlos Henrique Iotti. Foram reunidos em livro, publicado pela Est Edições, em 2000 – tiragem esgotada.

Com a morte prematura de Parenti, em 2000, frei Rovílio Costa propôs que o seriado prosseguisse com novos autores. Ao desafio lançado responderam Silvino Santin, Sergio Ângelo Grando, Antônio Baggio, Rafael Baldissera, Luiz Bavaresco, Eduardo Grígolo, Mário Gardelin e Ivo Ângelo Dal Moro. Essa nova etapa começou em fevereiro de 2001 e é com esses autores, com cinco capítulos intercalados, que o seriado prossegue, agora com ilustrações de Derli Dutra.

 

Ça alors, un arbre à saucisson !

 

Pour ne pas tomber entre les mains des soldats, Pipetta a marché toute la nuit à jeun, et avec une faim à faire peur à un ogre. Cependant, l’idée que la vieille fût ressuscitée d’entre les morts lui mettait un peu de baume au cœur.

-J’aurais pu devenir un assassin. Et si, pour le coup, ma mère l’avait su, hein ?

Et chaque fois qu’il entendait un bruit ou un chien qui aboyait :

-Ça y est, les soldats arrivent !

Et tout de suite, il changeait de direction et s’enfuyait ;

Au lever du jour, alors qu’apparaît l’étoile du matin, il n’en pouvait plus. Il devait bien avoir parcouru cinquante kilomètres. Il se retrouve, inopinément, devant une rivière large comme un canal de Venise. Il saisit un pierre et la lance dans l’eau. Plouf ! Et voilà !

-Elle doit être vraiment profonde ! Que faire ? La traverser ? Et si je me noie ?

 

Il regarde de part et d’autre et aperçoit une barque. Il saute dedans et se lance sur la …

¡Epa! ¿Un árbol salaminero?

 

Para no caer en las garras de los policías, Nanetto tuvo que caminar toda la noche, en ayuno y con un hambre de no aguantar más. Sin embargo el recuerdo de que la viejita había recuperado la vida, le daba un poco de ánimo.

- ¡Para estas horas, yo podría haber sido un asesino...! Y entonces, si mamá hubiera sabido ¡Bahh! ¿Qué sería de mí?

Mal oía un ruidito, mal oía un ladrido de cachorro:

-¡Deben ser los policías! - murmuraba para sí. Entonces daba media vuelta y se disparaba en otra dirección.

Al rayar del día, cuando en el horizonte apareció la estrella del alba, Nanetto, no aguantaba más. Habrá andado ceca de cincuenta kilómetros. De repente, sin darse cuenta, se encuentra al margen de un gran río, tan ancho como el enorme canal de Venecia. Agarra una piedra y la tira para dentro del río. ¡Cataplúm...!fue el ruido de la piedra...

 

- ¡Que hondo debe ser...! ¿Qué haré? ¿Arriesgarme a cruzarlo? ¡Huuummm! …

Obra está sendo traduzida para mais cinco idiomas

 

Além do Ritorno de Nanetto Pipetta, de Pedro Parenti, mais cinco seriados publicados no Correio Riograndense foram reunidos em livro, todos editados pela Est. Nanetto in Val Véneta, de Rafael Baldissera, foi publicado em 2003. Naquele mesmo ano saiu o livro Nanetto in Strada, de Eduardo Grígolo, e Nanetto in meso i bùlgari, de Antônio Baggio. Neste mês será lançado Nanetto nel mondo, de Mário Gardelin. Também foram publicados textos de Nanetto Pipetta de frei Rovílio Costa, Lúcia Milani e Valter Baggio.

O interesse por Nanetto Pipetta fora do Brasil deu origem a um projeto cujo objetivo é traduzir a obra em mais cinco idiomas – já tem em Talian e Português – esta traduzida por frei Alberto Victor Stawinski e Maria Adami Tcacenco. Já estão quase concluídas as traduções em italiano gramatical, em espanhol e em francês. Em breve ele poderá ser lido também em inglês e em hunsrück, o dialeto falado pela maioria dos imigrantes alemães. "Publicando o Nanetto nesses idiomas, vamos atender os leitores de várias regiões do mundo onde a obra de Aquiles Bernardi é conhecida", explica Rovílio Costa, autor da idéia e responsável pelo projeto.

 

A DIMENSÃO DE NANETTO PIPETTA

Poucos estudaram tão profundamente o universo de Nanetto Pipetta quanto a pesquisadora e professora Cleodes Maria Piazza Julio Ribeiro, da Universidade de Caxias do Sul. Ela causou surpresa no mundo acadêmico da Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre, em fins de 1970, propondo sua dissertação de mestrado sobre a obra de frei Aquiles Bernardi. Estudando o personagem e pesquisando os efeitos de sua obra sobre leitores e ouvintes pôde definir sua importância na preservação da cultura italiana. Cleodes comprova que Nanetto é o primeiro texto ficcional de autoria de um descendente de italianos, publicado na Serra gaúcha. E compara o seriado do jornal aos primeiros aparelhos de televisão, porque ambos reuniam, em sua volta, atento auditório. Adolescentes e idosos, homens e mulheres estavam em volta do leitor das histórias de Nanetto, a partir de 1924, assim como para assistir as imagens, 26 anos depois. A seguir, trechos do depoimento de Cleodes:

 

A obra Nanetto Pipetta, "vegnesto in Mèrica par catar la cucagna", se inscreve como singular, dentro da história da imigração italiana. E por várias razões. A primeira delas é porque o frei Aquiles Bernardi registra, no início dos anos 20, a fala comum que já havia tomado corpo nesta região. Todos nós sabemos que, sob essa aparente capa de homogeneidade com que os imigrantes são vistos, há uma grande diversidade cultural que torna rica esta experiência multitudinária. Por quê? Porque eles falam dialetos diferentes, embora na sua maioria sejam originários do norte da Itália. Eles têm falares que se distinguem uns dos outros. E os falares dialetais são a forma de nomear o mundo e de celebrar.

Quando frei Aquiles decide escrever a história desse anti-herói, o Nanetto Pipetta, ele o faz no jornal Staffetta Riograndense, nosso Correio Riograndense, no momento histórico, registrando a formação dessa fala comum, denominada koiné. O dialeto no qual frei Aquiles escreve não é o vicentino, o feltrino ou o milanês. A codificação que ele faz, verbalizada, é constituída numa fala predominante no dialeto vêneto, mas com variações, de município para município, diríamos hoje."

 

UNIÃO DOS DIALETOS

"Frei Aquiles registra esta experiência singular, que é a nossa koiné, surgida da união dos diferentes dialetos vênetos e com aportes de termos lombardos e da língua portuguesa. Este é um documento precioso para estudiosos que queiram saber como foi a integração de imigrantes a partir do domínio do código lingüístico."

 

CHOQUE CULTURAL

"O segundo grande mérito desta publicação foi de ter registrado, ainda que de forma bem-humorada, a perplexidade do imigrante diante da nova ecologia. Nós devemos nos reportar à segunda metade do século XIX, pensar nesses camponeses que, por menos alfabetizados e menos ilustrados que fossem, muitos deles tinham uma experiência de imigração temporária – para a Áustria, para a França, para a Alemanha. Eles viviam em burgos, em pequenas aldeias e saíam para trabalhar nos campos que não eram os seus, mas tinham uma vida assentada numa sociabilidade de convivência. Quando eles chegam na América, aqui na Serra gaúcha, se defrontam com um meio ambiente que desconhecem. Eles não sabem cortar árvores, mas precisam fazê-lo. Há um choque cultural, porque eles não tinham o aporte para absorver tamanha mudança. Este choque é tão grande, assim como o desconhecimento do outro – que é também hoje uma perplexidade para nós, que nos surpreendemos ao saber que há pessoas que apreciam comer gafanhotos, formigas –, que eles se surpreendem com a farinha de mandioca. E até o humor grosseiro a respeito disso circulou pelas colônias. Inventado por imigrantes ou não, o fato é que eles tomaram a farinha de mandioca por queijo ralado."

 

AMPLIFICAR A PERPLEXIDADE

"É apoiado em episódios como este que frei Aquiles, diante daquele mito de que a América era o país da abundância, da fartura e do não trabalho, o chamado país de Bengodi (um país hipotético, utópico, imaginário, assim como o da "cucagna"), cria episódios como o da bananeira, que Nanetto "confunde" com uma planta de salames. A história da farinha de mandioca com o queijo ralado é muito verossímil e ela pode ter acontecido. O que frei Aquiles faz é amplificar a perplexidade diante do outro, e ele amplifica de tal modo que isto fica cômico. O resultado são vários episódios que fizeram a delícia de todos os que os ouviram."

 

ESPAÇO PARA O IMAGINÁRIO

"A outra particularidade da obra Nanetto Pipetta foi que o Staffetta, como eu gosto de chamar o nosso Correio Riograndense, cumpriu uma espécie de papel da Rede Globo, de entreter os seus poucos leitores e os seus muitos ouvintes com episódios de folhetim, como a novela faz hoje. Enquanto a nova mídia usa atores, o jornal deu espaço para o imaginário. Mais tarde, esse anti-herói encontrou na figura de Pedro Parenti uma criatura extraordinária que absorveu o seu lado picaresco."

 

EXPERIÊNCIAS DO COTIDIANO

"O que mais eu poderia sublinhar é aquilo que tenho dito: Nanetto Pipetta é o primeiro texto ficcional escrito por filho de imigrantes e publicado nesta região. Não há nada anterior a ele, apenas um romance publicado em 1911 em São Paulo, de um autor italiano, que circulou pela região. É o primeiro texto ficcional escrito na nossa fala comum e cujo cenário é o do imigrante diante de um mundo desconhecido, com pequenas sutilezas – o encontro com o diferente, que é o negro; as cozinhas itinerantes dos que constroem o barracão para o imigrante ou os trilhos do trem... O autor vai tomando experiências do cotidiano dos colonos, do medo do ronco dos bugios, um pouco da utopia endêmica de paraíso, de Nanetto dormir sobre a copa das árvores. Tudo isso é uma fantasia extraordinária."

 

SAÚDE SOCIAL

"O que me fascina no Nanetto é exatamente esta dimensão: a obra do frei Aquiles é conhecida por sucessivas gerações, mas não por tê-la lido. Houve, sim, a constituição de um "auditore": como os primeiros aparelhos de televisão reuniam na casa das famílias a vizinhança, a chegada do jornal com o Nanetto ensejava a participação de um auditório numeroso e compósito – homens, mulheres, adolescentes, os vizinhos se reuniam ao redor daquele que era o leitor.

Era uma narrativa que garantia a possibilidade de confirmar amplamente, ou de valorizar pelo menos, as memórias divididas, as memórias de todos, o que ensejava que eles próprios rissem dessas trampas que o destino aplicou a eles, de confundirem, por exemplo, farinha de mandioca com queijo ralado. Vejam a importância que teve para a saúde social de toda uma população um texto ficcional. Quando um indivíduo, ou um povo, consegue rir de si próprio, das suas fragilidades, do seu lado "gauche", como diriam os franceses, é porque está com saúde social muito bem obrigado."

 

VIÉS DOUTRINÁRIO

"Nanetto está pautado por um claro princípio de moralidade religiosa – frei Aquiles não esquece de recomendar pela voz de um de seus personagens que não se deve blasfemar, beber... Enfim, há um viés doutrinário na perspectiva dos bons costumes, da moralidade, do cuidado com a ingestão de bebidas alcoólicas... Ele não esquece que é um religioso escrevendo uma história para os seus fiéis."

 

HUMOR NA LINGUAGEM

"Por último, o humor do Nanetto não está só no episódio, está na linguagem. A inauguração do Monumento acaba de responder, unitariamente, ao imaginário coletivo. Nosso Nanetto terá uma cara, a cara de Pedro Parenti, que no palco, usando a oralidade, e não o texto escrito, conseguiu incorporar o Nanetto."

 

IGREJA

Bento XVI nomeia 15 novos cardeais

Doze são cardeais eleitores e três contam com mais de 80 anos

 

O Papa Bento XVI anunciou, no dia 22 de fevereiro, a convocação do primeiro consistório de seu pontificado para a criação de 15 novos cardeais, no próximo dia 24 de março. No dia seguinte, 25 de março, solenidade da Anunciação do Senhor, ocorre uma celebração eucarística com os novos cardeais. Bento XVI indicou 12 cardeais eleitores e três com mais de 80 anos.

Os cardeais eleitores são os seguintes: William Levada, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé; Franc Rodé, prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica; Agostinho Vallini, prefeito do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica; Jorge Urosa Savino, arcebispo de Caracas, Venezuela; Gaudêncio Rosales, arcebispo de Manila, Filipinas; Jean-Pierre Ricard, arcebispo de Bordeux, França; Antonio Cañizales, arcebispo de Toledo, Espanha; Nicholas Jin-Suk, arcebispo de Seul, Coréia; Sean Patrick O’Malley, arcebispo de Boston, EUA; Stanislaw Dziwisz, arcebispo de Cracóvia, Polônia; Carlo Caffarra, arcebispo de Bologna, Itália; e Joseph Zen Ze-kiun, arcebispo de Honk Kong.

Os outros três eclesiásticos, com mais de 80 anos, feitos cardeais em consideração pelos serviços prestados à Igreja, são dom Andrea Montezemolo, arcipreste da Basílica de São Paulo fora dos Muros; dom Peter Poreku Dery, arcebispo emérito de Tamale, Gana; e padre Albert Vanhoye, antigo secretário da Pontifícia Comissão Bíblica.

Dos 15 novos cardeais, três são religiosos – dom Sean O’Malley, capuchinho; dom Joseph Ze-kiun, salesiano; e padre Albert Vanhoye, jesuíta. Ao nomear apenas 12 cardeais eleitores, Bento XVI quis respeitar o número máximo permitido pelo Colégio Cardinalício – 120. Além dos cardeais eleitores, a Igreja conta com 71 purpurados com mais de 80 anos.

Bento XVI sublinhou a oportunidade de anunciar os novos cardeais na festa da Cátedra de São Pedro (22 de fevereiro), data dedicada à reflexão sobre a missão do Papa, "porque os cardeais têm a missão de apoiar e ajudar o sucessor de Pedro no cumprimento da missão apostólica que lhe foi confiada ao serviço da Igreja".

O Papa aproveitou a convocação para reunir em Roma todos os cardeais do mundo. "Tenho a intenção de realizar uma reunião de reflexão e oração no dia 23 de março", disse o Pontífice, depois de fazer públicos os nomes dos futuros cardeais. Ainda não foram definidos os temas do encontro, mas fontes de imprensa revelaram que um dos assuntos é a relação da Santa Sé com a Fraternidade de São Pio X, fundada pelo arcebispo Marcel Lefebvre.

 

O'Malley atuou com imigrantes do Brasil

 

Entre os cardeais nomeados por Bento XVI encontra-se o arcebispo de Boston, Estados Unidos, dom frei Sean O'Malley, capuchinho de 61 anos. João Paulo II nomeou-o arcebispo em julho de 2003, em substituição do cardeal Bernard Francis Law, que havia apresentado sua renúncia ao governo da arquidiocese para superar a situação provocada pelos escândalos de abusos por parte de sacerdotes.

Natural de Lakewood (Ohio), frei Sean foi ordenado padre em 1970. Atuava com imigrantes espanhóis e brasileiros quando, em 1984, foi nomeado bispo da diocese de Santo Tomás, nas Ilhas Virgens e, em 2002, transferido para a diocese de Palm Beach. Além do inglês, fala espanhol, português, francês, italiano e alemão.

 

Metade dos cardeais eleitores é da Europa

 

Além do capuchinho dom Sean O'Malley, apenas um dos novos cardeais é das Américas – dom Jorge Liberato Urosa Savino, 63 anos, arcebispo de Caracas, que há cinco meses tinha sido designado arcebispo da capital venezuelana por Bento XVI. Dom Urosa foi ordenado sacerdote em 1967 e foi nomeado bispo em 1982, por João Paulo II.

Com a criação dos 15 novos cardeais, a Europa passa a contar com 60 cardeais eleitores, a América Latina com 20, América do Norte 16, Ásia 13, África nove, e Oceania dois. O país com mais cardeais eleitores continua sendo a Itália (21), seguido dos Estados Unidos (13), Espanha e França (seis cada). O número máximo de cardeais eleitores (120) foi fixado por Paulo VI e confirmado por João Paulo II. Neste mês, dois cardeais eleitores chegam aos 80 anos.

 

Separadores

Padre Zezinho

Matar ou calar o outro voltou a ser lógico e normal

 

Quando eu nasci, em 1941, de pais caboclos, em Machado (MG), numa família onde corria sangue de branco, negro e mulato, na África estavam separando negros de brancos; nos EUA matavam negros que ousassem se misturar com brancos ou olhar para uma loira e arranjavam um motivo para linchá-los. Na Alemanha matavam judeus (morreram 6 milhões), moças bonitas e brancos eram tratados como vacas reprodutoras para gerar brancos arianos; gente de cor ou sangue misto era eliminada, a filosofia da eugenia e da raça pura levou o mundo à guerra e ao ódio sem fim. O Japão, em guerra, levara cerca de 100 mil mulheres coreanas para "consolo" dos soldados japoneses em guerra. Prostituição militar forçada.

Hoje vejo políticos e religiões outra vez falando de cultura superior, religião superior, gente especial; corporações de resultado, religiões de resultado, chamado especial e outra vez vejo políticos segregando, religiosos se fechando em redomas, cidades e vilas redomas não se misturando com quem não recebeu o Espírito Santo como eles. Vejo gente agredindo e denegrindo quem é ecumênico e quer diálogo, grupos lutando pelo aborto, pela clonagem, e usando os mesmos argumentos "pseudo-científicos" dos defensores da eugenia, ou dos autores dos decretos de Nüremberg (1935). Vejo cidadãos de outros países presos em cadeias de arame farpado, terroristas matando em nome de Deus e capitalistas criando "democracias" que os mantenham no controle do petróleo e das rotas da riqueza.

Quando eu nasci, o mundo achava natural que os anciãos fossem esterilizados ou exterminados. Pouca coisa mudou. Grupos religiosos estão virando seitas e segregando, ao ponto de sugerir que seus adeptos só amem e se casem com gente deles e que nenhum pregador de fora lhes fale.

Igrejas, grupos políticos, precisariam reler a sombria história do século XX. Não leram, não entenderam e começam a reprisá-la. A maioria dos massacres do século XX aconteceu porque algum teórico, filósofo, político ou pregador disse que era normal que alguém diminuísse alguém e que Deus chamava alguns para serem vencedores.

Não gosto do que ando vendo na TV, ouvindo no rádio e nas Igrejas e encontros de oração e lendo em certas revistas. Quando alguém se acha mais é porque acha que o outro é menos!

O século XXI, a continuar com este fundamentalismo, se anuncia pior do que o século XX. Começou com o terrorismo de 2001 derrubando o símbolo do poder econômico e tentando destruir o símbolo do poder político e militar ocidental e cristão. Prosseguiu com duas guerras de retaliação de capitalistas e cristãos e com o recrudescimento do ódio religioso, político e racial. Agora já se mistura o messianismo religioso com o político, duas vertentes excludentes e perigosas.

A morte se anuncia mais ampla e ainda mais cruel. E o que é triste: há religiosos no meio do processo! É a volta da guerra justa. Matar ou calar o outro voltou a ser lógico e normal. Deus? Esperam que Ele se adapte!

 

Religiosas celebram 100 anos de Brasil

Congregação foi fundada na Rússia há quase 150 anos

 

A Congregação das Irmãs Franciscanas da Sagrada Família de Maria está completando nesta quarta-feira, 1º de março, um século de presença e atuação no Brasil. As primeiras religiosas vieram da Polônia em 1906, atendendo solicitação de sacerdotes poloneses que acompanhavam os grupos de imigrantes que já estavam em solo brasileiro, mas que enfrentavam dificuldades de comunicação por causa da língua e sentiam a necessidade de uma catequese e educação para os filhos.

No dia 1º de março de 1906, depois de três meses de viagem de navio, chegaram as três primeiras religiosas da congregação, que desembarcaram no porto de Paranaguá (PR). As pioneiras – irmã Sofia Ulatwska, irmã Maria Grzegorzewicz e irmã Edvíges Dudek – fixaram a primeira comunidade em Orleans, Curitiba. No dia 7 de agosto do mesmo ano chegaram mais quatro religiosas, depois de uma longa viagem de sacrifícios e desencontros. Desembarcaram em Florianópolis, onde foram acolhidas pelas Irmãs da Divina Providência e, após, encaminhadas a Curitiba.

A partir dessa primeira comunidade, com muita dedicação e trabalho as irmãs da Sagrada Família de Maria viram a congregação crescer no Brasil e hoje estão presentes, além do Paraná, nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Goiás, Minas Gerais, Pernambuco, Paraíba, Brasília e Tocantins. Hoje, no Brasil, a congregação soma 352 religiosas, divididas em duas províncias – uma com sede em Curitiba (PR) e outra, em Erechim (RS).

História – A congregação foi fundada pelo padre Zygmunt Szczesny Felinski aos 27 de dezembro de 1857, em Petersburgo, na Rússia. Felinski, beatificado em agosto de 2002 por João Paulo II, fundou a congregação movido pela necessidade de acolher as crianças e idosos abandonados. Cheio de amor a Deus e pelo zelo apostólico, estendeu os cuidados também aos doentes e à educação.

Hoje, a congregação está presente junto aos pobres em hospitais, creches, orfanatos, lar de idosos, escolas, pastorais da saúde preventiva, assistência social e missões. A congregação atua em seis países (Polônia, Brasil, Itália, Ucrânia, Rússia e Bielorússia). No total, 1.150 religiosas integram a congregação.

 

Susin prepara fórum mundial de teologia

 

O capuchinho gaúcho frei Luiz Carlos Susin, secretário executivo do Fórum Mundial de Teologia e Libertação (FMTL), iniciou no dia 21 de fevereiro uma viagem que inclui Holanda, Bélgica, França, Itália e, sobretudo, Quênia, na África Oriental. A missão do secretário visa manter contatos com instituições de apoio; reuniões com teólogos e teólogas, lideranças de movimentos sociais e eclesiais; além de palestras públicas em preparação ao segundo FMTL, que será realizado em Nairobi, capital do Quênia, em janeiro de 2007.

Frei Susin foi o coordenador do primeiro FMTL realizado em Porto Alegre, no ano passado, às vésperas do Fórum Social Mundial. As reuniões se concentrarão nas capitais dos quatro países europeus. Em Nairobi, as atividades do capuchinho serão voltadas à organização do comitê executivo local e da organização da infra-estrutura. Atualmente, o Quênia está sendo assolado pela seca e pela fome. Susin retorna no dia 12 de março.

 

Resgate do lixo

Aldo Colombo

A reciclagem representa o reaproveitamento inteligente do lixo, transformando-o em algo útil, limpo e novo

 

O lixo se constitui numa das grandes contradições de nosso tempo. Na teoria, o lixo é tudo o que não presta, o que sobra, o que se joga fora. Nas proximidades das grandes cidades surgem imensos lixões, espelhos de uma sociedade consumista e esbanjadora. Em média, cada brasileiro produz cerca de 500 gramas de lixo todos os dias. Isso significa, só na cidade de São Paulo, cerca de 15 mil toneladas de lixo por dia. A tendência é crescer cada vez mais, dentro da ótica do use e jogue fora.

O que parecia o ponto final de um processo, na realidade é um novo ponto de partida. As caixas coletoras de lixo, diante das residências, transformam-se em supermercados para os excluídos da sociedade. A mesma e deprimente imagem é vista nos lixões, mas com uma diferença: a disputa envolve também animais de todo o tipo. Outra imagem, essa mais promissora, surge do lixo. Trata-se da reciclagem. Cerca de 35% do lixo coletado poderiam ser reutilizados e outros 35% poderiam virar adubo. Isso significaria a redução em 70% da poluição do meio ambiente. A reciclagem também significa o reaproveitamento inteligente do lixo, transformando-o em algo útil, limpo e novo. No Brasil, a coleta seletiva ainda dá seus primeiros passos. Em apenas 273 cidades o lixo, parcialmente, é reciclado.

Nos lixões acontecem muitos fatos interessantes. Em Caxias do Sul, há alguns anos, um bilhete premiado da loteria esportiva foi para o lixo, mas acabou sendo recuperado depois de dias de intensa pesquisa. Em São Paulo, um mendigo encontrou um pacote de 10 notas de R$ 50,00. Como o dinheiro não era seu, encaminhou o achado para a Secretaria da Limpeza Pública. Mais de 10 pretensos donos do dinheiro se apresentaram, mas nenhum conseguiu provar seus direitos. Em alguns bairros londrinos, o lixo é perfumado. Mesmo assim não deixa de ser lixo.

No episódio evangélico da multiplicação dos pães, Jesus pediu: recolhei as sobras. E dos cinco pães iniciais, depois de alimentada a multidão, sobraram doze cestos. Surgem, desse fato, duas alternativas para a fome do mundo: a partilha e o aproveitamento das sobras. Numa caixa coletora de lixo de Nova York há alimentos que poderiam saciar a fome de cinco africanos. No mundo não faltam alimentos, falta partilha. E existem possibilidades de colheitas muito maiores se, pelo menos, parte do dinheiro gasto em armas, fosse aplicada à agricultura.

De resto, em nossa sociedade existem outros tipos de lixo. É o lixo perfumado da televisão e do cinema, é o lixo tentador das drogas e bebidas alcoólicas, é o lixo do egoísmo, da violência e da alienação. Tudo isso prejudica a qualidade de vida e polui toda a sociedade e o ambiente se torna irrespirável. E pouca coisa se faz para reciclar esse tipo de lixo.

 

CMI abre perspectivas para a unidade

Igrejas cristãs, presentes em Porto Alegre, reuniram participantes de 110 países

 

Durante 10 dias, Porto Alegre acolheu o maior encontro ecumênico internacional, evento que abriu novas perspectivas sobre a unidade da Igreja e as possibilidades de aproximação entre as várias confissões cristãs. Cerca de quatro mil representantes de 110 países, dos quais 691 eram delegados de 348 Igrejas e comunidades eclesiais de todo o mundo, participaram, de 14 a 23 de fevereiro, da 9ª Assembléia Geral do Conselho Mundial de Igrejas (CMI).

Num documento de 24 páginas, denominado "Chamados a ser uma só Igreja", foram recolhidas as contribuições de vários teólogos dessas Igrejas, que expressam sua esperança em fazer do CMI um instrumento privilegiado para o movimento ecumênico, rumo a uma unidade visível. Os delegados foram convidados a renovar seu compromisso na busca dessa unidade, aprofundando o diálogo.

O batismo comum continua a ser a grande base para estabelecer relações, precisando, por isso, de um reconhecimento mútuo entre todas as Igrejas. As conclusões finais dedicam maior espaço à América Latina, à questão dos povos indígenas, à dívida externa, à violência, à exclusão social, entre outras. Quanto à dívida, o documento convoca a comunidade internacional a reconhecer a ilegitimidade das dívidas externas dos países latino-americanos. Guerras, água, desarmamento nuclear foram outros temas de destaque.

Na mensagem que enviou à 9ª Assembléia, o Papa Bento XVI destacou a importância da colaboração com o Conselho Mundial de Igrejas, referindo que "após 40 anos de colaboração frutuosa, esperamos continuar esta jornada de esperança e promessa, à medida que intensificamos os nossos esforços, rumo ao dia em que os cristãos estarão unidos na proclamação da mensagem evangélica de salvação para todos".

A Igreja Católica não é membro do CMI, mas colabora de vários modos com esse organismo ecumênico e com a sua comissão Fé e Constituição, que tem a missão de procurar a unidade dos seguidores de Jesus Cristo, fracionados em múltiplas Igrejas ao longo dos séculos. A Igreja Católica foi representada por 19 membros, liderados por dom Brian Farrell, secretário do Conselho Pontifício para a promoção da Unidade dos Cristãos.

Durante a Assembléia, ficou claro que a unidade dos cristãos é cada vez mais necessária, perante o avanço do processo de globalização. "Se não nos conseguirmos reconhecer uns aos outros como Igrejas, no sentido pleno da palavra, teremos dificuldades em chamar à unidade os povos do mundo", reconheceu Margot Kässman, da Igreja Evangélica Luterana na Alemanha.

 

Povos precisam aceitar as diferenças

 

Durante a 9ª Assembléia Geral, realizada pela primeira vez na América Latina, foram eleitos os novos presidentes da entidade (em número de nove) e os 150 integrantes do Comitê Central. O CMI tem sede em Genebra e existe desde 1948, reunindo 348 Igrejas de mais de 110 países, que representam 560 milhões de cristãos, não católicos. Os presidentes são eleitos a cada sete anos. O secretário geral do Conselho, reverendo Samuel Kobia, permanece por mais um período.

Nem só de cristãos viveu a Assembléia. A programação abriu espaço para o diálogo interreligioso. Kobia destacou a presença de autoridades do mundo muçulmano, judeu e budista. "Não somos mais estranhos. A globalização tornou todos os povos vizinhos. Precisamos viver como uma comunidade, aceitando nossas diferenças sem impor nossos valores", disse Aram I, líder espiritual da Igreja Apostólica Armênia e moderador do CMI.

A assembléia foi uma espécie de colméia multiétnica, onde indianos e africanos, em suas vestes coloridas, cruzaram com chineses, indígenas, ortodoxos de barbas longas e batinas negras. Juntos rezaram, dialogaram, realizaram estudos e plenários com vistas à união.

 

Poder e autoridade

Wilson João

A autoridade não vem da palavra e do mando, mas do fazer. O ato de fazer com amor e eficiência é que concede autoridade

 

Todo poder esmaga, oprime e sufoca. A autoridade ergue, ajuda e se coloca a serviço para promover o crescimento. Dói no ouvido quando se ouve dizer de pessoas: "Ela é poderosa". Poderosa como sinônimo de influência, de dinheiro, de função social e comando dos fatos como quer, não só em nível nacional, mas local, ali na família, na vizinhança e na comunidade. Nesse sentido, até o traficante de drogas é pessoa poderosa. É bom distinguir os conceitos para não falar besteiras.

TODO PODER ESMAGA. Não se adquire poder, nem em nome de Deus e nem em nome da humanidade. Nem devem existir, como existem por aí nos porões, igrejas o "Poder de Deus". O poder é exercido sempre de cima para baixo. O poder põe medo. Os pais e os adultos, infelizmente, usam demais o poder sobre as crianças. Quando se quer assustar e mandar calar uma criança, ainda se usa muito as expressões: "Olha a polícia..."; "Olha o bicho que te pega..."; "Olha o padre..."; "Olha o pai...". Quer dizer "te cuida porque ele te pega e te bate, ele tem autoridade". Quem é observador percebe muito claro que o poder dos ricos esmaga os pobres, que o poder empresarial esmaga os operários, que o poder numa chefia considera os outros inferiores, que o estar na mídia e ter a palavra facilita o domínio sobre os outros. O poder é anti-humano e anti-fraterno. Cria a desigualdade e, em geral, a revolta e a insatisfação.

TODA A AUTORIDADE ELEVA. Ergue e ajuda. Não rebaixa, mas quer todos a sua altura. A autoridade é serviçal. É dedicação. Não usa a palavra e a função para dominar, e sim, para estar a serviço. É bonito ver pessoas que recebem do grupo, da organização ou da comunidade a autoridade, e que, revestidas de autoridade, estão sempre dispostas a fazer a comunidade crescer, e gastam tempo, energia e vida, para fazer todos crescerem. A autoridade não vem da palavra e do mando, e sim, do fazer. O ato de fazer com eficiência e com amor é que concede autoridade.

DEUS É AUTORIDADE. Não é poder. Não esmaga. Deus é autoridade, por isso cria o mundo e o entrega, com confiança, nas mãos de suas criaturas. Deus, na pessoa de Jesus, se mostra autoridade, porque não veio do céu para policiar e condenar, mas para erguer e ajudar. Torna-se um de nós. Os espectadores diziam: "Ele ensina com autoridade". Falava e fazia. Deus não está num trono para mandar. Está sentado no coração de cada pessoa. A autoridade é amor.

 

Fonte Colombo tem curso para agentes de Pastoral da Aids

Voluntários vão atuar no cuidado e prevenção

 

A Casa Fonte Colombo e a Pastoral da Aids promovem encontro de capacitação para novos agentes e voluntários de Pastoral da Aids. O evento ocorre de 24 a 26 de março, no convento dos capuchinhos (Rua Paulino Chaves, 291, ao lado da Igreja Santo Antônio do Partenon), em Porto Alegre.

O encontro visa preparar novos agentes e voluntários para atuar na prevenção e acompanhar pessoas que vivem com o vírus HIV, a partir do compromisso das diretrizes da CNBB 2003-2006, nº 123, que salienta que a Igreja assume o serviço de prevenção e assistência aos soropositivos "sem preconceitos, acolhe, acompanha e defende os direitos daqueles que foram infectados pela aids". Inscrições até 14 de março, pelo telefone (51) 33466.6405 ou e-mail secretaria@pastoralaids.org.br.

 

União da Vitória vive em clima de missões

 

Os missionários capuchinhos do Rio Grande do Sul iniciaram, no dia 24 de fevereiro, as missões populares de 2006. As primeiras paróquias são de União da Vitória (PR) - Sagrada Família de Nazaré e Nossa Senhora de Fátima. Até 19 de março serão visitadas 20 comunidades. No sábado (25) e domingo (26) ocorreu grande procissão luminosa em diversas comunidades com a imagem de Fátima, que acompanha os missionários há mais de 50 anos, e bênção da saúde com imposição das mãos. Mais informações no site www.capuchinhosrs.org.br/missoes.

 

CULTURA DA IMIGRAÇÃO

A italianidade que está em mim

Ivalina Maria Grando Padilha

Caçador - SC

 

Ivalina Maria Grando Padilha nasceu em Boa Esperança, interior de Carazinho-RS, em1937, filha de João A.Grando e Valentina de Cezaro Grando, neta paterna de Angelo Grando e Antonia Peccin Grando, e materna de Giacomo De Cezaro e Augusta Piuco De Cezaro, residente em Caçador-SC. Casada há 40 anos com Nilton Gonçalves Padilha com quem tem três filhos, Luiz Henrique Grando Padilha, dentista, Luiz Augusto Grando Padilha, engenheiro florestal, e Luciana Grando Padilha, advogada, que lhe deram sete maravilhosos netos. Foi bancária por 12 anos e trabalhou em indústria madeireira de sua família. Atualmente é esposa, mãe e avó. Assim declara sua italianidade:

 

"Tenho orgulho de ser bisneta e neta de imigrantes, e filha de migrantes que, com coragem, fé e amor, deixaram a segurança da casa paterna e um pouco mais de terra para os irmãos, e partiram para o desconhecido. Ela grávida, e ele corajoso e trabalhador. Foram para as bandas de Selbach, Espumoso, Encantado, pelos lados de Carazinho e, em 1942, migraram para Caçador, cidade que ajudaram a construir, e que se tornou nossa terra, de nossos filhos e netos.

Recordo com saudade o amor que minha mãe tinha pelas antigas colônias, que, para visitá-las era uma aventura.Tínhamos que pegar o trem noturno, de madrugada, e irmos até Marcelino Ramos; lá era outra aventura para chegarmos à estação rodoviária e conseguirmos passagem até Bento Gonçalves, pois não havia reserva de passagens, era na base da sorte. Mais sorte ainda era que não chovesse, porque, senão, os passageiros eram obrigados a tirar o ônibus dos atoleiros, para não passarmos a noite na estrada e, em tempo de seca, chegávamos ao destino marrons de poeira.

Estou contando isto, lembrando com saudades as vozes em italiano, que eu achava tão lindas, e me emociono quando as ouço hoje em dia. Saudades da serra da Zanta (rio das Antas) que minha mãe, ao passar por lá, sentia muito medo, e passava este medo para mim, que na época não via as belezas que vejo agora.

Quando chegávamos em São Marcos de Farroupilha, deixávamos o ônibus e íamos a pé até a Linha Amadeo, onde moravam os parentes de meus pais. Meu pai faleceu aos 94 anos. Ele cortava lenha sentado em um banquinho e nos dizia que "ficar sem trabalhar é uma vergonha". Por isso, eu me orgulho em ser descendente de imigrantes. Agradeço a Deus a minha italianidade, recebida de minha família, através dos exemplos de fé, trabalho, dignidade, honestidade de meus pais, avós e bisavós.

Quanta saudade da manteiga (nunca mais comi uma manteiga tão gostosa como aquela); da uvada; dos caquis, guardados no sótão, dentro de grandes abóboras, para amadurarem bem; das bergamotas, apanhadas da janela; do cheiro do amanhecer; das manhãs de domingo, quando íamos à missa por entre a relva úmida, todos de chinelos e, antes de chegarmos ao povoado, escondíamos os chinelos no mato, à beira de estrada, e calçávamos os sapatos, para irmos à Igreja.

Para as festas de Nossa Senhora do Caravaggio, íamos todos a pé e, quanto mais perto estávamos do Santuário, mais gente se juntava, naqueles caminhos cheios de pedras, parte planos e parte íngremes" (ziquepadilha@conection.com.br).

 

Ivalina Maria vive sua italianidade com a mente e o coração voltados à Itália, donde vieram seus antepassados, e ao Rio Grande do Sul, onde se estabeleceram inicialmente, vive sua italianidade em Caçador-SC, dando continuidade à sua história original e única. (Rovílio Costa)

 

EL RITONOR DE NANETTO PIPETTA (349)

Na bissa rabiosa, longa un quìndese metri

Mario Gardelin

Professor, historiador e pesquisador, Caxias do Sul - RS

 

Nanetto se ga messo davanti al Lastron.

- Vui veder se el funsiona pròpio, e se no ze ciàcole de quel vècio... Lastron, pòrteme indrio. Vui veder Adamo e Eva, quando i volea magnar el pomo proibio.

Lora ga scominsià un brontòlio. Zera un rumor de chi no acetava corer indrio al tempo. Ma, el Lastron, come el zera obediente, el ga ciapà Nanetto e te un lampo el se ga fermà in paradiso. Nanetto el ze rivà medo inseminio par na bona rason: el viaio, de Passo Velho, passando sora Bento Gonçalves, el ze stà pi svelto che un fùlmine.

Nanetto el ga sgorlà la testa, e suito el se ga messo in forma. Quel che ga visto zera un omenasso e na bela dona, soto na grande pianta, piena de pomi, un meio del altro. La dona la ga slongà la man in diression a la pianta. Nanetto el ga capio tuto. Se la magnasse sto pomo, adio meneghina! Rovinava el mondo. Lora el ga osà:

- Eva, cagna! Ferma che te rovini tuto.

Adamo, che’l parea inseminio, el se ga sveià.

- Chi ga el coraio de ciamar me dona de cagna?

- Mi, Nanetto Pipetta, venessian, talian, brasilian e gaùsso de Bento Gonçalves!

Cari, no ve conto gnanca. Nanetto, lora, el ga visto, in torno la pianta, na pi bruta bissa, longa un quìndese metri, e grossa un e medo. La pesava un sinque mila chili. Sta bissa, e voaltri savè chi che la gera, ga molà na subiada, che quasi ga sbusà le rece de Nanetto.

La bissa ga tirà fora un par de alone, e la ga fato un salto. E de boca verta, supiando fora fumo e bava, la se ga sgiaventà contra Nanetto. Questo, cari, el se ga smentegà che’l gera venessian, talian, brasilian e gaùsso de Bento Gonçalves.

- Lastron, sta putana la vol becarme. Pòrteme a casa!

In t’un fùlmine, Nanetto se ga visto zolar sora Bento Gonçalves e el ga molà un gran sospiro. Che tera meraviliosa. Bon vin. Bon pan. E lì la bissa no la podaria far gnente. Gnanca becar...

Nanetto se ga visto in tel so palasso. El se ga butà su na carega de oro e el ga chietà el cor. Dopo el se ga messo in pié. El ga fato fin ginàstica.

- Ben, cari, a go imparà. Posso ndar avanti e indrio in tel tempo. Ma no posso smentegarme che ghe ze gran perìcoli.

- Lastron, vedemo un poco de robe bele. Móstreme la pi bela mora del mondo...

Na subiada potentìssima la ga sonà soto el Rio das Antas... E suito na tremenda osada:

- Nanetto!

Savio chi zera? La bissona, che la gavea lassà el paradiso e corso drio Nanetto. No lo ga ciapà, parché un santo potente lo rincurava.

- Va drio le more! E te vedarà dove te finissi!

Desso zera Merlin, che, avertio, se ga fato presente, e el se ga messo davanti al serpenton.

- Fora, bèstia! Via!

In quel esato momento, se ga visto na bela figura. Zera un frate, gordeto, co na bela stropa in man... Zera un novo spaventa-diàoli, a stropade... Savio el so nome? San Frate Paolino de la Nona Légua, soto Caxias!

E la bissa la ze sbampia. La ze tornada al paradiso. Adamo e Eva, de boca verta, no i gavea ancora morsegà el pomo.

- Moveve, fioi de can. Moveve. E Adamo e Eva i ga piantà i denti in tel pomo e i so oci i se ga verto.

I zera nudi, come un puldin pena nato. E el resto voaltri lo savé. Nanetto ze stà messo al corente de tuto. E el ga capio che no se pol cambiar quel che ze stà. Lora el ga fato el propòsito de obedir ai consìlii de Merlin...

 

VITA STÒRIA E FRÒTOLE

Rovílio Costa e Arlindo Battistel

Su che l’è di

Jacira Onsi

Caxias do Sul - RS

 

Ricordi. Já acordada, em minha cama, ouço rumores, murmúrios...

- Su che l’è di!...

Fico mais um pouco. Ouço barulho. Os homens vão pegar no mato as mulas, pobres mulas, para transportar a uva. Ouço murmúrios...

Minha mãe e minha tia já estão ordenhando.

- Su che l’è di"!, a nona de novo...

Levanto, respiro fundo, o dia nem está bem claro ainda. Sinto o maravilhoso odor das uvas misturado ao cheiro do café que vem da cozinha. A nona já estava no trabalho também.

Separo xícaras, apanho os pães, o salame, o queijo, a marmelada - tudo vai para a mala feita dos sacos de açúcar, para depois ir para roça, para o parreiral! É a colassion! La nona, nantra volta:

- Move-te, ndemo!

Preciso bater os ovos para a fortáia.

- I òmini i fa forsa, bisogna dargue sustansa!

Dia claro, os rumores, os murmúrios e o cheiro no ar... Tudo funciona, todos trabalham e o perfume das uvas maduras invadindo todos os recantos do espaço, da alma, da lembrança!

Passa o dia, que canseira! Mais um pouco e todos estão de volta ao lar. A nona diz:

- Nde butarve zo, che doman el di l’è long...

Passa o tempo. Hoje o trabalho continua, mas não se usam mais as mulas, as slitas e as caroças para o transporte da uva. A malas foram substituídas por cestos, o leite vem das caixinhas, e as nonas... Ah! As nonas estão escondidas dentro do coração de quem as teve. Mas o perfume das uvas ainda faz sonhar e recordar um passado maravilhoso! Tenho o sonho de poder perpetuar esta saudade, na pele, na alma... De levar este pedaço de mundo com perfume para dentro da memória e eternizar essa sensação.

 

Spression del Talian catarinense

 

- Bruto come na strassa (Feio como um trapo)

- Corer come na saeta (Correr como um raio - Ter pressa)

- Esser un magna-magna (Ser um come-come - Ser guloso)

- Gratarse la pansa (Coçar a barriga - Não fazer nada)

- Lambicar de tut (Destilar de tudo - Precisar de tudo)

- Meterghe su le sgrinfe (Colocar-lhe as garras - Apoderar-se de algo)

- Ndar al bec (Ir por água abaixo - Perder a plantação)

- Na bela merda! (Lindo excremento - Fazer algo errado)

- No son miga to fagot (Não sou tua trouxa de roupa - Não sou teu empregado)

 

(Contribuission de José Curi)

 

NACIONAL

Só 1/3 das cidades brasileiras implantou conselho de educação

Maioria dos municípios não atende Constituição

 

Apenas 30% dos 5.560 municípios brasileiros implantaram os conselhos de educação definidos pela Constituição de 1988 para determinar modelos de gestão democrática do ensino, a partir de discussões que envolvem os três níveis de governo e a sociedade civil organizada. Portanto, "ainda há muito para se fazer nessa área", como afirma o presidente da União Nacional dos Conselhos Municipais de Educação, Paulo Eduardo dos Santos.

A criação do Conselho Municipal de Educação, para orientar e fiscalizar a ação do poder Executivo na execução de políticas públicas, foi recomendada em 1997 pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Até o fim do ano passado, 1.653 conselhos municipais de educação estavam em pleno funcionamento, com maiores concentrações nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, que começaram a se organizar mais cedo. No Nordeste e Norte do país são raros os municípios que atendem a essa recomendação.

Representantes dos conselhos municipais de educação promovem, todos os anos, um encontro nacional para troca de experiências. A reunião deste ano está agendada para os dias 17, 18 e 19 de agosto, em Angra dos Reis (RJ). A União Nacional dos Conselhos Municipais de Educação afirma que vai enfatizar a necessidade de os municípios organizarem seus sistemas de ensino e, com isso, ganharem mais autonomia e agilidade nas políticas educacionais. Sem contar que, com esse instrumento, fica mais fácil fiscalizar os investimentos na área.

 

ESPORTE

F-1 promete temporada de equilíbrio

Campeonato inicia no Bahrein e tem sua última prova em Interlagos

 

No dia 12 de março, a Fórmula 1 volta a atrair as atenções dos aficcionados por automobilismo. Às 8h30, horário de Brasília, no circuito de Sakhir, será dada a largada do GP de Bahrein. Ao longo do ano serão 19 corridas e o encerramento do campeonato está previsto para 22 de outubro, com o GP do Brasil - no ano passado, Interlagos acolheu a antepenúltima etapa da categoria. A própria abertura do campeonato sofreu mudanças. Depois de muitos anos, a Austrália, que tradicionalmente abria a temporada da categoria, terá a terceira etapa.

Entre os pilotos, a novidade é a presença do brasileiro Felipe Massa na Ferrari, ao lado do heptacampeão Michael Schumacher. O paranaense Massa substitui Rubens Barrichello, que depois de seis temporadas na Ferrari, assinou contrato com a Honda para os campeonatos de 2006 e 2007. Barrichello e Massa são os únicos pilotos brasileiros na categoria.

A temporada de 2006 da Fórmula 1 começa mais uma vez com algumas mudanças nas regras. A Federação Internacional de Automobilismo (FIA) tenta, com novas medidas, reduzir os custos (matéria ao lado) e aumentar a competitividade entre as dez equipes da categoria. Uma das principais novidades é a redução da velocidade dos carros com a substituição dos motores V10 pelos V8.

Proibida no ano passado, a troca de pneus volta a ser permitida nesta temporada. E para 2007, acaba a "guerra dos pneus" na F-1. Insatisfeita com algumas medidas da FIA, a Michelin deixa a categoria no final de 2006 e a Bridgestone passará a ser a única fornecedora de pneus. Os critérios de pontuação seguem os mesmos de 2005. O vencedor ganha 10, o segundo 8, o terceiro 6, o quarto 5, o quinto 4, o sexto 3, o sétimo 2 e o oitavo 1.

 

Elevado custo compromete a categoria

 

A Fórmula 1 estaria no limite de seus custos por ter um orçamento estimado em cerca de R$ 5,5 bilhões por temporada. O levantamento e o alerta foram feitos pela revista britânica F1 Racing. A revista informou que o maior volume dos gastos estaria nos motores, custos de operação, pesquisa, desenvolvimento e salários, além de custos com viagens, hotéis e convidados VIPs para as corridas.

A Toyota é a equipe que tem o maior orçamento (R$ 1 bilhão), seguida da Ferrari (R$ 927 milhões). Nos últimos anos, por causa dos gastos excessivos, equipes tradicionais deixaram a categoria ou foram vendidas. É o caso da Jordan, Prost, Arrows e Minardi.

Para ter uma idéia de custos, o piloto finlandês Kimi Raikkonen recusou uma oferta de R$ 154 milhões para renovar com a McLaren até a temporada de 2009. O atual vice-campeão mundial já teria contrato fechado com a Ferrari.