LEITORES 

 DESCOBRINDO CAMINHOS

 

Desde 1909, onde o conteúdo faz a diferença.

Edição 4.978 - Ano 98 - Caxias do Sul-RS, 8 de março de 2006.

EDITORIAL

A força do vento indica a política a ser adotada

O Brasil desperta, ainda de forma tímida, para mais uma riqueza que a natureza oferece

 

Assim como para a agricultura dominar o clima é indicativo de sucesso na colheita, a exploração da natureza de forma racional pode ser a solução para suprir muitas das deficiências de abastecimentos atualmente existentes. É possível, sim, retirar riquezas das reservas naturais sem extingui-las, como provam muitos exemplos disponíveis no cenário mundial.

O aproveitamento do vento para a produção de energia elétrica se encaixa com perfeição entre as ações que o homem pode realizar sem provocar fortes e/ou irreversíveis danos ao meio ambiente. Um sistema limpo, renovável e abundante em quase todo o planeta pode levar luz a bilhões de pessoas.

O Brasil começa a despertar, timidamente ainda, para essa alternativa. Estimativas dão conta de que o país utiliza apenas uma de 350 partes que formam seu potencial. O predomínio de hidrelétricas segue uma política no mínimo questionável, embora o manancial hídrico brasileiro seja grande.

Transformar o vento em energia exige tecnologia avançada e projetos complexos, ambos atrelados a grandes investimentos. Mas especialistas insistem em afirmar que esta é a opção mais viável para o futuro, fugindo da dependência, entre outros, do esgotável petróleo.

O parque eólico que está sendo construído em Osório, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, dá uma idéia da dimensão desse recurso. Projetado para ser o maior da América Latina, vai fornecer energia elétrica a 650 mil pessoas. Outros nove projetos no Estado esperam ser selecionados pela Eletrobrás. Ou seja: a força dos ventos gaúchos pode gerar energia elétrica suficiente para suprir grande parte das necessidades locais.

Esse mesmo cenário está identificado em outros Estados, ampliando as possibilidades brasileiras de encontrar solução para um problema que desafia todo o mundo. É preciso, no entanto, que a energia eólica, e outras potencialidades - biodiesel, ondas do mar... - não sejam preteridas por decisões equivocadas, que atendam a interesses específicos de grupos em detrimento da maioria da população, como a que tirou o país dos trilhos para colocá-lo na estrada - hoje a via de transporte de mais de 60% da produção nacional. A generosidade da natureza não pode mais uma vez ser ignorada. Em nome do bom senso, da coerência e da preocupação com o futuro do país.

 

CAXIAS DO SUL

Festuva leva 429 mil pessoas aos pavilhões

Próxima edição do evento será de 21 de fevereiro a 9 de março de 2008

 

A 26ª Festa Nacional da Uva, encerrada no domingo 5, atingiu seus objetivos. A afirmação é do presidente da Comissão Comunitária, Gelson Palavro. "Para bem receber a todos não poupamos esforços e investimentos em melhorias na infra-estrutura do parque, bons shows nacionais e regionais, atrações culturais para todos os gostos, gastronomia típica e uva farta", afirmou. "A todas as pessoas que se envolveram, só podemos agradecer", completou Palavro durante a cerimônia de encerramento da Festa.

A Festuva 2006 envolveu mais de 890 mil pessoas e distribuiu ao público 220 mil quilos de uva. Em 17 dias de evento, passaram pelo parque de exposições, pagando ingresso, 429 mil pessoas. Os seis desfiles de carros alegóricos foram prestigiados por 275 mil espectadores. Os eventos paralelos, que incluem concurso de escolha das soberanas, olimpíadas coloniais, esportes etc, tiveram 186 mil participantes.

Para Palavro, o tema da Festa foi muito positivo para esta edição. "A escolha, A Alegria de Estarmos Juntos, foi muito feliz." "Essa temática foi crescendo ao longo da Festa e instigou a participação das pessoas", disse o presidente ao CR. "A alegria envolveu a todos, mas ficou evidente principalmente nos desfiles, o corso passava pela Sinimbu entusiasmado", completou.

Ele também destacou o envolvimento dos distritos de Caxias do Sul. "Eles nos ajudaram muito em todas as atividades alusivas à Festa e também são responsáveis pelo sucesso", afirmou. "A Casa do Colono, onde estavam os distritos, foi uma das principais atrações da Festa."

Para a próxima edição, o presidente sugere uma organização melhor na distribuição de credenciais e passes para o estacionamento interno do parque de exposições, destinado aos que trabalham no evento. "Em alguns dias, simplesmente não havia mais vagas para estacionar neste local", explicou. "Isso gerou certa confusão, mas é um problema interno, que não tirou o brilho da festa", esclareceu.

Palavro não deve estar à frente da Comissão Comunitária para a Festa da Uva 2008. "Pretendo assumir uma nova atividade empresarial nos próximos meses e, por isso, deverei me afastar do evento, mas a decisão ainda depende de uma conversa com o prefeito José Ivo Sartori", finaliza.

 

ESPECIAL

SÓ O AMOR É DIGNO DE FÉ

Ao avaliar a primeira encíclica de Bento XVI, a teóloga Maria Clara Bingemer admite-se surpresa. Cita a intenção do Papa de derrubar preconceitos ao proclamar que "amar é sair de si e buscar a felicidade do outro". E destaca a conexão entre fé e política - a Igreja não deve ter poder sobre o Estado, mas também não pode ficar à margem da luta política por uma sociedade mais justa.

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio.

 

Para quem esperava uma encíclica disciplinar ou um texto que aprofundasse o conteúdo de algum dogma, a primeira encíclica do Papa Bento XVI surpreende. Devo dizer que a mim, como católica, surpreende agradavelmente. Trata-se de um texto bem escrito e profundo, que deixa patente o grande teólogo que continua sendo Joseph Ratzinger, mesmo como Papa. O Pastor Supremo que se dirige à Igreja Universal é suportado em sua reflexão e discurso de maneira consistente e feliz pelo sólido teólogo que sempre foi o atual Papa.

O tema da encíclica não poderia ser mais nuclear e fundamental. Trata-se do coração do cristianismo. Mais: trata-se da grande originalidade que o cristianismo trouxe para o mundo religioso e que encontrou, para explicitar quem é o Deus em que crê, a experiência humana mais importante e constitutiva dos seres humanos: o amor. Deus é amor, dirá a primeira carta de João, texto mais belo do Novo Testamento. E é essa definição que inspirará o pontífice na carta que entrega aos fiéis do mundo inteiro.

A motivação de Bento XVI para escrever sua primeira encíclica com este visceral tema é - parece-nos - extremamente oportuna. Como diz o próprio texto em sua introdução, "dado que Deus foi o primeiro a amar-nos" (cf. 1 Jo 4, 10), agora o amor já não é apenas um "mandamento", mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro. Num mundo em que ao nome de Deus se associa às vezes a vingança, ou mesmo o dever do ódio e da violência, esta é uma mensagem de grande atualidade e de significado muito concreto. Por isso, afirma: "Na minha primeira Encíclica, desejo falar do amor com que Deus nos cumula e que deve ser comunicado aos outros por nós."

Eros e ágape - Na primeira parte de sua encíclica, Bento XVI se propõe esclarecer o campo semântico da palavra "amor", assim como expor sua trajetória no mundo judaico e greco-romano, a fim de delimitar bem qual a compreensão cristã na Bíblia e na tradição da Igreja. Ao fundo, evidentemente, encontra-se a preocupação do Papa desde o tempo em que ainda era cardeal, à frente do Santo Ofício, sobre os rumos do mundo atual, tomado pela "ditadura do relativismo".

Ao longo de toda esta primeira parte, procura conceituar com precisão a diferença e a interface entre "eros" e "ágape". Trata-se de tema que tem sido objeto de alentados estudos de filosofia e teologia em todos os tempos. Entretanto, o tratamento dado por Bento XVI é reconhecidamente preciso e adequado, trazendo à tona toda a cultura filosófica, filológica e teológica daquele que escreve. A antropologia que aparece ao fundo da reflexão é integrada, não separando espírito de carne e, sobretudo, não desprezando este em benefício daquele.

De certa maneira, portanto, o Papa resgata toda a positividade do eros, reconhecendo a inelidibilidade de sua presença como componente constitutivo da dinâmica do amor humano. Porém, acrescenta que "embora o eros seja inicialmente sobretudo ambicioso, ascendente - fascinação pela grande promessa de felicidade - depois, à medida que se aproxima do outro, fará cada vez menos perguntas sobre si próprio, procurará sempre mais a felicidade do outro, preocupar-se-á cada vez mais dele, doar-se-á e desejará "existir para" o outro. Assim se insere nele o momento da ágape; caso contrário, o eros decai e perde mesmo a sua própria natureza.

Preconceitos - A primeira parte da encíclica destina-se, portanto, a derrubar alguns preconceitos que viam o cristianismo como destrutor do eros. Situar a correta perspectiva na concepção da ágape como amor que sai de si na entrega e na doação para fazer o outro feliz. Numa época em que as relações amorosas caminham sobretudo na direção da busca da própria felicidade antes de qualquer outra coisa, a fé cristã proclama que amar é justamente sair de si e buscar a felicidade do outro. Só assim existe amor verdadeiro e felicidade possível.

Entretanto, continua o Papa, o ser humano não poderia dar-se, sair de si, sacrificar-se abnegadamente no exercício de amar se não recebesse, também, amor. O amor só pode acontecer em sua forma agápica se existe uma fonte de onde bebe incessantemente. Essa fonte é Deus. Por que Deus nos amou primeiro, podemos então amar gratuita e oblativamente, pois sempre estará disponível para nós a fonte divina jorrando incansavelmente Seu infinito amor. "O ‘mandamento’ do amor - coração do cristianismo - só se torna possível porque não é mera exigência: o amor pode ser um imperativo porque antes nos é dado." Portanto, só ele é digno de fé, porque é o próprio conteúdo da fé.

Caridade - Tomamos agora a segunda parte, na qual Bento XVI reflete e disserta sobre a caridade cristã, manifestação do amor de Deus que é Ele mesmo amor e comunhão de amor: Pai, Filho e Espírito Santo. O Papa inicia esta segunda parte de sua encíclica recordando uma frase do grande Agostinho de Hipona, talvez o maior gênio do Cristianismo: "Se vês a caridade, vês a Trindade". Com isso já dá a perspectiva de sua encíclica, que vai ressaltar a dimensão do amor cristão enquanto ajuda e serviço ao outro, sobretudo ao mais necessitado. Isto será a única coisa que no mundo poderá ser reflexo e imagem do amor que é Deus.

Ao fazer um percurso sobre a prática da caridade na história da Igreja, o Papa destaca alguns textos dos Santos Padres de escolha bastante feliz, a nosso ver. Entre eles, destacamos sua citação de Tertuliano, escritor cristão do século III, na qual conta como a solicitude dos cristãos pelos necessitados de qualquer gênero suscitava a admiração dos pagãos (n. 22) e ao imperador Juliano, o Apóstata, do século IV, pagão escandalizado com a brutalidade e a violência usada pelos soldados do imperador cristão Constâncio no assassinato de várias pessoas, inclusive membros de sua família, e que terminará por escrever que o único aspecto do cristianismo que o maravilhava era a atividade caritativa da Igreja (n. 25).

Assim a encíclica continua desenvolvendo a idéia força de que o cristianismo não concebe uma fé que não opere pela caridade. Aquele que crê é necessariamente levado ao amor caritativo, pois sua experiência de fé o fará aproximar-se e beber da fonte do amor que é o próprio Deus. E só o testemunho de sua caridade fará digno de fé seu estatuto de cristão. Por isso, o fato de na comunidade cristã haver membros que passem necessidade é um grande escândalo que só depõe contra o cristianismo. Esse escândalo é denunciado pelo Papa em sua encíclica.

Justiça - A encíclica admite que a luta pela justiça é parte constitutiva da atividade caritativa da Igreja. E afirma que se "na difícil situação em que hoje nos encontramos por causa também da globalização da economia, a doutrina social da Igreja tornou-se uma indicação fundamental, que propõe válidas orientações muito para além das fronteiras eclesiais: tais orientações - face ao progresso em ato - devem ser analisadas em diálogo com todos aqueles que se preocupam seriamente com o homem e o seu mundo" (n. 27). Admite igualmente a necessária conexão entre fé e política. Se as exigências da caridade feita na luta pela justiça assim o exigirem, a intervenção na "polis", o exercício da administração da cidade e da sociedade é plenamente legítima para um cristão.

Admitindo, no entanto, a possibilidade de a Igreja exercer sua ação caritativa e sua luta pela justiça em parceria e colaboração com outras instâncias da sociedade, o Papa se preocupa em caracterizar bem o que é a caridade cristã e o que não. Para um cristão, sua atividade caritativa deve ser iluminada pela fé, que por sua vez funciona como purificadora da razão. A doutrina social católica, portanto, não pretende conferir à Igreja poder sobre o Estado, nem pretende impor aos que não compartilham da fé cristã atitudes e comportamentos que pertencem a esta. Portanto, o Papa vai concluir que, se a Igreja não deve tomar o lugar do Estado na batalha política pela sociedade mais justa, tampouco pode ficar à margem desta. A luta pela justiça é constitutivamente componente da vida e da caridade cristãs.

No entanto, continua, há outros serviços que não têm um impacto de eficácia imediato sobre a justiça social e que também não podem estar ausentes do horizonte cristão, já que são expressões privilegiadas do amor. A encíclica enumera toda a lista dos atos que o amor inventa para aliviar o sofrimento humano e que não têm retorno algum aparente e imediato: consolar os infelizes, cuidar dos doentes, enterrar os mortos e muitos outros.

A encíclica conclui definindo as características da caridade cristã: "Segundo o modelo oferecido pela parábola do bom samaritano, a caridade cristã é, em primeiro lugar, simplesmente a resposta àquilo que, numa determinada situação, constitui a necessidade imediata: os famintos devem ser saciados, os nus vestidos, os doentes tratados para se curarem, os presos visitados..." (n.31). Mas também e inseparavelmente deve dar testemunho d'Aquele que é sua fonte e condição: Deus, experimentado e definido pelo cristianismo desde sempre como Amor.

 

AGRONEGÓCIO

Fiscais acusam governo de beneficiar infrator

Paralisação dificulta o controle do que entra e do que sai do RS

 

Embora superdimensionada, como convém a um argumento de pressão num movimento reivindicatório que se arrasta há mais de mês, a acusação dos fiscais estaduais agropecuários não está muito dissociada da realidade. Ao dizer que não atendendo aos pedidos da classe o "governo estadual beneficia os infratores", o vice-presidente da Associação dos Fiscais Agropecuários do RS (Afagro), Luiz Augusto Petry, se baseia em informações procedentes: das 80 amostras de vinho a granel analisadas pelo Laboratório de Enologia de Caxias do Sul em novembro e dezembro do ano passado, 12 continham água e, segundo ele, todas as irregulares foram coletadas de transportadores que passavam pelas barreiras à noite. Como não tem havido fiscalização permanente desde que os fiscais paralisaram essa atividade...

A posição do governo do Estado em relação à paralisação não significa apoio, ou negligência, a irregularidades. Mas é preocupante. Os fiscais interromperam a sua principal atividade - que é fiscalizar, obviamente, e emitir guias de transporte -, no início de fevereiro. Há mais de 30 dias, cumprem apenas funções administrativas. Eles pleiteiam melhor remuneração, em especial com o pagamento de horas extras e gratificação pelo horário (24 horas) e o reconhecimento da atividade pelo Ministério da Agricultura. Conforme Petry, o salário de ingresso é de R$ 1,3 mil e o médio, em torno de R$ 2 mil, para 40 horas semanais.

"Esperamos uma sinalização", afirmou Petry ao CR, depois de dizer, na quinta 2, que havia 15 dias esperavam resposta da Casa Civil para um pedido de audiência. "Não se tem a noção do que está saindo ou entrando no Rio Grande do Sul", ressaltou o dirigente da Afagro.

O movimento envolve 27 agrônomos, cinco engenheiros florestais e 14 técnicos em nível médio. Eles são responsáveis no Estado pela fiscalização sanitária, pelo controle do comércio e uso de agrotóxicos e de sementes e mudas, pela fiscalização do vinho - por delegação do Ministério da Agricultura -, pela emissão de guias de livre trânsito para o vinho e permissão de trânsito para frutas com caroço (maçã e pêra) e para a madeira.

O Estado deslocou cinco agrônomos da Emater para liberar o transporte desses produtos. Mas a fiscalização é insuficiente para cobrir 24 horas as barreiras na divisa com Santa Catarina. "A Emater está quebrando o galho", classifica Petry.

 

Prejuízo irreversível à vitivinicultura

 

O comando da paralisação se reuniu no final da tarde de segunda 6 para avaliar o movimento. Como até o início da reunião não havia recebido nenhuma posição do Ministério da Agricultura sobre o credenciamento e nem do governo gaúcho sobre pagamento de horas extras e gratificação, "a tendência é de que a paralisação continue", informou Luiz Augusto Petry, um pouco antes de participar da reunião.

Independente do resultado do encontro, há prejuízos irreversíveis, em especial para a vitivinicultura. Os fiscais não verificaram o teor de açúcar e as condições de higiene para o transporte de uva e nem coletaram amostras de vinho nas vinícolas e no comércio para serem analisadas e, com isso, haver controle da qualidade após a safra. Plínio Manosso, chefe da Divisão da Enologia da Secretaria da Agricultura, admite que esses trabalhos não foram realizados e que não poderão mais ser executados. Acrescenta, porém, que foram colhidas amostras de uva nas cantinas para o banco de dados do Laboratório de Enologia de Caxias e para apurar a graduação média.

 

Secretaria arma estrutura para fiscalizar

 

Dois agrônomos e seis técnicos agrícolas para o posto de Irai; dois agrônomos e quatro técnicos agrícolas para Torres; e três agrônomos e sete técnicos agrícolas para o posto de Vacaria (Passo do Socorro). É com esta estrutura que a Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado pretende realizar a fiscalização e a emissão de guias de transporte para o vinho, frutas e madeira, serviços interrompidos com a paralisação dos fiscais. "Eles já foram nomeados", informa o coordenador regional da Secretaria em Caxias do Sul, Odir Ferronatto.

Ele acredita que com essas equipes não será mais necessário jornadas que implicam no pagamento de horas extras, uma das reivindicações feitas pelos profissionais que deflagraram o movimento. Mas essas equipes não serão suficientes para exercer fiscalização 24 horas por dia e ao mesmo tempo atender a demanda por outros serviços normalmente prestados.

 

Produtor será guardião ambiental

Para estudiosos, pequeno agricultor é o que irá manter rios e florestas

 

O produtor familiar será o guardião do ambiente. A II Conferência Mundial sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural, da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), e do Fórum Terra, Território e Dignidade, da sociedade civil internacional do campo, que ocorre em Porto Alegre até 10 de março, deu início ao debate sobre a manutenção dos sistemas ambientais básicos.

Para o socioeconomista polonês Ignacy Sachs, os agricultores familiares já guardam historicamente rios e florestas. "Comunidades tradicionais, como índios e seringueiros, podem executar o papel de guardiões da mata com mais eficiência do que o serviço de guarda florestal", defende Sachs. "A primeira coisa que a agricultura familiar tem de cuidar é do equilíbrio do meio em que produz", emenda.

Na opinião do assessor da divisão de Desenvolvimento Rural da FAO, o italiano Paulo Croppo, uma empresa pode esgotar os recursos naturais de um local e se mudar. Uma família, não. "Se um pai sabe que seu filho, seu neto terão de viver daquela terra, ele vai se empenhar em preservar o sistema", garante Croppo.

Paulo Croppo também acredita que as sociedades vão progressivamente perceber que, racionalmente, o sistema da agricultura familiar é superior ao do agronegócio. "As pessoas verão que o melhor sistema não é aquele que produz mais dólares para a exportação, mas que não gera empregos e degrada o ambiente. O ideal é ter equilíbrio entre dinheiro, sustentabilidade e geração de empregos", declara.

 

Produtor dispõe de verba para financiar maçã e pêssego

 

Os produtores gaúchos de maçã e pêssego têm à disposição R$ 50 milhões para financiar a venda das frutas, por meio da Linha Especial de Crédito à Comercialização (LEC). Interessados podem dirigir-se às agências do Banco do Brasil. A LEC é uma linha semelhante ao Empréstimo do Governo Federal (EGF), que visa amparar culturas que não fazem parte do Programa de Garantia de Preços Mínimos.

Os encargos financeiros para as duas culturas são de 8,75% ao ano. O prazo de pagamento é de 180 dias, efetuados em até cinco parcelas mensais. As contratações poderão ser feitas até 29 de setembro.

De acordo com Valmir Rossi, superintendente estadual do BB, os financiamentos podem ser tomados por produtores rurais e suas cooperativas, além de beneficiadores e agroindústrias que industrializam as frutas. Os recursos beneficiam diretamente os agricultores da Serra, onde se encontra o principal pólo de produção de maçãs e de pêssegos.

 

Centro de agroindústria recebe cantina-escola

 

O Centro de Pesquisa Fepagro de Agroindústria, localizado em Fazenda Souza, Caxias do Sul, foi equipado com a cantina-escola e uma estação agrometeorológica automática. O investimento é de R$ 110 mil e foi enregue na segunda 6 pelo secretário de Ciência e Tecnologia, Kalil Sehbe.

Denominada Celeste Gobatto, a cantina sedia cursos sobre a fabricação de vinhos. Já a estação meteorológica visa a pesquisa e a difusão de estudos relacionados ao clima, seus efeitos e conseqüências.

 

VIDA AGRÍCOLA

Engº. Agrº. José Zugno

O melhor período para silagem de milho

Leio o Correio Riograndense desde 1943. Leio e recorto as matérias de Vida Agrícola desde a década de 1950. Temos produção diversificada e criamos vacas leiteiras e suínos. Fazemos, em média, 150 toneladas de silagem de aveia e milho por ano. Qual é o melhor estágio do milho para fazer uma boa silagem para vacas de leite?

Antoninho Ferrari Netto

Nova Trípoli, Colorado - RS

 

Para o zootecnista Jaime Eduardo Ries, da Emater/RS-Ascar Regional Caxias do Sul, o milho deve ser colhido para a produção de silagem quando o teor de matéria seca da planta estiver de 30% a 35%. Para estimar esse percentual de umidade na planta são usados alguns indicativos. O mais comum é colher a lavoura quando os grãos estiverem entre farináceos e farináceos-duros.

Pode-se determinar também o ponto ideal de colheita quando a "linha de leite" (linha que divide a parte leitosa do grão com a parte farinácea/dura) estiver na metade ou até dois terços do grão, com a parte superior farináceo-duro e a parte inferior leitosa, pois o grão de milho começa a amadurecer da parte superior para a inferior do grão, parte que fica presa no sabugo. Na prática, cerca de 40 dias após o florescimento feminino ("espiga soltar cabelo"), devemos começar a analisar as espigas, em diversos pontos da lavoura, para se determinar o momento adequado para o corte.

É necessário ressaltar que existe variação entre cultivares quanto à linha do leite. Variedades de milho conhecidas por "Stay Green" permanecem mais verdes (com mais umidade), durante o período de maturação do grão, em relação a outras variedades que não possuem essa característica, e, portanto, devem ser colhidas mais tarde (grãos mais duros).

Em épocas de estiagem, a planta tende a secar mais rápido. Neste caso, é comum se antecipar o corte para evitar que a planta seque demais.

Portanto, apesar da maturação do grão ser um bom indicativo, é indispensável analisar o teor de matéria seca da planta como um todo para se garantir o percentual adequado de matéria seca para a fermentação.

Quando colhida no ponto ideal, a planta apresenta nível adequado de açúcares solúveis (glicose, frutose, sacarose etc) que são os principais fatores responsáveis pela multiplicação das bactérias produtoras de ácido láctico.

No entanto, alguns produtores ainda colhem milho para silagem com os grãos leitosos, no "ponto de pamonha", ou seja, antes do ponto ótimo para colheita. Ao ensilar neste estágio, vários problemas podem ocorrer:

• Menor produção de matéria seca por unidade de área, pois a planta ainda encontrava-se em fase de crescimento;

• Perda acentuada de efluentes que acabam carreando nutrientes altamente digestíveis da silagem, como açúcares solúveis, proteínas, minerais e ácidos orgânicos;

• Aumento no teor dos ácidos lático e acético, porque com baixo teor de matéria seca é necessário um pH menor para a estabilização da silagem;

• Maior risco de fermentação indesejável, como por exemplo, aquelas provocadas por bactérias do gênero Clostridium.

Por outro lado, quando a ensilagem do material for realizada com teor de matéria seca superior ao ponto ótimo, outros inconvenientes podem surgir:

• Dificuldade para picar o material, menor rendimento da ensiladeira e necessidade de afiar as lâminas da máquina com maior frequência;

• Dificuldades na compactação do material, o que resulta numa fermentação deficiente, com conseqüente redução do valor nutritivo;

• Menor digestibilidade da fração verde e dos grãos;

• Aumento na perda de grãos pelas fezes dos animais;

• Presença de pedaços grandes na massa ensilada (sabugos, caules e colmos) que predispõem a seleção por parte dos animais e aumento nas sobras no cocho.

 

SAÚDE

Casos de demência aumentam em todo mundo

Entre latinos, haverá quatro vezes mais vítimas do que hoje

 

A Federação Internacional de Alzheimer divulgou recentemente o mais completo estudo sobre o futuro da demência no mundo. Segundo os especialistas, em 30 anos cerca de 80 milhões de pessoas sofrerão desse mal, número três vezes maior que o atual.

O aumento do número de casos de demência deve ocorrer sobretudo nos países em desenvolvimento, como o Brasil. Nessas regiões ocorre uma combinação perigosa: aumento da expectativa de vida e falta de controle dos fatores de risco para a doença. De acordo com a pesquisa, na América Latina, haverá 9 milhões de pessoas com demência, quatro vezes mais do que hoje. Na Europa, o número de casos deve dobrar.

Não há cura para a demência. Os medicamentos disponíveis atualmente apenas estabilizam ou, no máximo, retardam o avanço da doença. Os médicos ainda não conseguem precisar as causas deste mal. Sabe-se que contribuem para o surgimento das demências todos os fatores que afetam de alguma maneira os vasos sangüíneos que irrigam o cérebro, como hipertensão e até tabagismo (matéria abaixo).

A demência, cuja forma mais conhecida é causada pelo mal de Alzheimer, caracteriza-se por falta de memória, perda da capacidade de planejamento e de sociabilidade. Nos estágios mais avançados, ela isola o indivíduo por completo.

De acordo com os médicos, não dá para garantir que alguém que mantenha a mente ativa esteja imune a demências como o mal de Alzheimer. Porém, estudos sugerem que existe pelo menos uma associação entre a menor estimulação das funções cognitivas e o aparecimento dessas doenças.

O que fazer para estimular a memória? Nada ativa tantas áreas importantes do cérebro quanto a leitura de um bom livro. Para ler uma frase, por exemplo, os neurônios precisam resgatar da memória regras de gramática. Para passar para o parágrafo seguinte, eles devem memorizar o anterior. Finalmente, para compreender a história, o cérebro faz um esforço a fim de disponibilizar um conhecimento básico, que já foi armazenado ao longo da vida. Além da leitura, os especialistas também indicam palavras cruzadas, jogos de estratégia e memorização, cálculos, aprender uma língua estrangeira ou tocar um instrumento musical.

 

Cigarro e sedentarismo prejudicam oxigenação do cérebro

 

Só o sistema nervoso central do organismo, o que inclui a região cerebral, consome 25% do ar que respiramos. O cigarro é capaz de impedir que toda essa quantidade de oxigênio chegue ao cérebro. Quanto ao consumo de álcool, estudos mostram que mesmo a ingestão de pequenas quantidades rotineiramente pode interferir na habilidade de lembrar.

O sedentarismo também pode prejudicar a saúde mental. Estudo do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo, com idosos sedentários, revelou que o bom condicionamento físico consegue conter os processos degenerativos do cérebro. Aqueles que se exercitaram aumentaram a oxigenação do cérebro, levando sangue às áreas menos irrigadas.

Alguns remédios comprometem as funções cognitivas só durante seu uso. Outros causam problemas mesmo depois de encerrado o tratamento. Entre eles estão relaxantes musculares, remédios para controlar a ansiedade, anti-hipertensivos. Porém, os mais associados à perda da memória são os tranqüilizantes. Eles agem no sistema de neurotransmissores, que está relacionado à fixação de informações.

Dormir bem é outro hábito fundamental para o cérebro fixar e relacionar as informações assimiladas durante o dia com outros dados já acumulados ao longo da vida. Pesquisa desenvolvida com cobaias na Universidade da Pensilvânia (EUA) sugere que o sono pode beneficiar o aprendizado, especialmente o que se refere ao processo de orientação espacial ou reconhecimento do ambiente.

 

Vacina reduz morte por diarréia grave

 

O Ministério da Saúde comprou oito milhões de vacinas contra o rotavírus e incluiu a injeção no calendário do Programa Nacional de Imunizações. Com isso, será possível vacinar este ano cerca de 3,5 milhões de crianças de até seis meses.

Neste mês, a vacina já estará à disposição da população nos postos de saúde da rede pública. O Instituto Butantã trabalha agora para produzir uma vacina nacional até 2007 e dispensar a compra do produto. Segundo o Ministério da Saúde, a doença é responsável por cerca de 30% das diarréias graves em crianças de até cinco anos.

"Com a inclusão da vacina no calendário, esperamos reduzir mais de 40% de todas as internações por diarréias e evitar perto de mil mortes por diarréias no Brasil nesta faixa etária", disse Jarbas Barbosa, secretário de Vigilância Sanitária. Jarbas lembrou que mãos sujas, alimentos e objetos contaminados são as principais formas de se contrair o rotavírus.

 

Laboratório pesquisa remédio contra asma

 

Duas novas moléculas poderão servir para a futura fabricação de um remédio inédito contra a asma. As duas ainda estão sendo pesquisadas, testadas em camundongos e aperfeiçoadas em estudo feito por uma equipe do Laboratório de Inflamação do Instituto Oswaldo Cruz. Até o momento, os resultados apresentados são promissores. A asma é uma doença de prevalência crescente em todo o mundo. A cada dia, em média seis pessoas morrem no Brasil vítimas de seus sintomas. Além disso, a asma também representa um alto custo para o país e para aqueles que com ela sofrem.

 

ALIMENTAÇÃO & SAÚDE

Boa dieta, boa cabeça

 

Pesquisa de psiquiatras ingleses identificou a falta de nutrientes importantes no organismo de portadores de algumas doenças mentais. Eles acreditam que o aumento recente de casos desses males pode estar relacionado a deficiências na dieta atual, que tem menor concentração de vegetais e alimentos frescos.

Esquizofrenia: baixo nível de ácidos graxos insaturados, encontrados no azeite de oliva e em outros óleos vegetais.

Alzheimer: dieta da maioria dos portadores é pobre em vitaminas C e D.

Transtorno de déficit de atenção: as crianças que sofrem desse distúrbio apresentam baixo nível de ferro e ácidos graxos insaturados.

Depressão: pode estar relacionada à falta do ácido graxo ômega-3, presente em peixes.

 

OPINIÃO

O trem da vida

Leonardo Boff

Autor de Graça e experiência humana (Vozes).

 

Da Comissão da Carta da Terra

A graça de Deus é como um trem. O mais razoável é escutar o chamado de sua natureza e deixar-se seduzir pela oportunidade de uma viagem feliz. Há um destino bom para todos, cada qual na sua medida

 

Deixemos os cenários sombrios sobre o futuro do planeta. Vamos a estórias que falam do destino final da vida.

Um trem corre veloz para o seu destino. Corta os campos como uma seta. Fura as montanhas. Passa os rios. Desliza como um fio em movimento.

Lá dentro se desenrola todo o drama humano. Gente de todas as gentes. Gente que conversa. Gente que cala. Gente que trabalha em seu computador. Gente de negócios, preocupada. Gente que contempla serenamente a paisagem. Gente que cometeu crimes. Gente que é boa gente. Gente que pensa mal de todo mundo. Gente solar que se alegra com o mínimo de luz que encontra em cada pessoa. Gente que adora viajar de trem. Gente que por razões ecológicas é contra o trem. Gente que errou de trem. Gente que não se questiona; sabe estar no rumo certo e a que horas chega em sua cidade. Gente ansiosa que corre para os primeiros vagões no afã de chegar antes que os outros. Gente estressada que quer retardar o mais possível a chegada e se coloca nos últimos vagões. E absurdamente gente que pretende fugir do trem andando na direção oposta a ele.

E o trem impassível segue o seu destino, traçado pelos trilhos. Despreocupadamente carrega a todos. A ninguém se furta. Serve a todos e a todos propicia uma viagem que pode ser esplendorosa e feliz. E garante deixá-los todos no destino inscrito em sua rota.

Neste trem, como na vida, todos viajam gratuitamente. Uma vez em movimento, não há como fugir, descer ou sair. Pode se enfurecer ou se alegrar. Nem por isso o trem deixa de correr para o seu destino predeterminado e carregar a todos cortesmente.

A graça de Deus - sua misericórdia, sua bondade e seu amor - é assim como um trem. O destino da viagem é Deus. O caminho é também Deus porque o caminho não é outra coisa que o destino se realizando passo a passo, metro a metro.

A graça carrega a todos, os que são a favor e os que são contra. Com a negação, o trem não se modifica. Também não a graça de Deus. Só o ser humano se modifica. Pode estragar sua viagem. Mas não deixa de estar dentro do trem.

Acolher o trem, enturmar-se com os companheiros de destino é já antecipar a festa da chegada. Viajar é já estar chegando em casa. A graça é "a glória no exílio, glória que é a graça na pátria", como diziam os antigos teólogos.

Rechaçar o trem, correr ilusoriamente contra sua direção, de nada adianta. O trem suporta e carrega também a estes rebeldes, com toda a paciência, porque Deus se dá indistintamente a bons e a maus, a justos e a injustos.

A vida como a graça é generosa para com todos. De tempos em tempos ela nos faz cair na realidade. Nesse momento - e sempre há o momento propício para cada pessoa humana -, o recalcitrante percebe então que é carregado gentil e gratuitamente. De nada adianta sua resistência e revolta. O mais razoável é escutar o chamado de sua natureza e deixar-se seduzir pela oportunidade de uma viagem feliz.

Nesse momento desfaz-se o inferno interior e irrompe gloriosamente o céu, a face humanitária de Deus. Descobre a gratuidade do trem, de todas as coisas e a presença de Deus. Há um destino bom para todos, cada qual na sua medida.

E tu, leitor e leitora, como viajas?

 

Radiografia do poder

Frei Betto

A ambições humanas são suficientemente ridículas para levar a sério o teatro do poder. Raros são os que se valem da função para obter vantagens pessoais. A maioria se apega ao cargo como à segunda pele

 

Na próxima semana chega às livrarias meu novo livro, "A Mosca Azul" (Rocco). Trata-se de uma reflexão sobre o poder. Tema que intriga políticos e pensadores desde a Grécia antiga. A ele dedicaram páginas inolvidáveis Platão e Aristóteles, Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, Maquiavel e Hob-bes, Marx e Weber, Hannah Arendt e Robert Michels.

Nas pegadas de Platão e Maquiavel, parti de uma experiência: os dois anos (2003-2004) em que trabalhei no Palácio do Planalto como assessor especial do presidente Lula e coordenador de mobilização social do Fome Zero.

Biografias de eminentes políticos, como Napoleão e Churchill, são leitura preferida de quem ocupa funções no poder público. Quando estive na prisão, líamos com sofreguidão "Os subterrâneos da liberdade", de Jorge Amado, e "Memórias do cárcere", de Graciliano Ramos. Temos necessidade de nos instrumentar de noções e experiências que permitam melhor entendimento da situação em que vivemos. Contudo, não encontrei, no universo da psicologia, contribuições substanciais sobre a patologia do poder. Algo, sim, em Adler e Reich. Preferi, pois, recorrer a Shakespeare e Kafka.

Quem me conhece sabe que sempre fui avesso ao poder. Em 41 anos de vida religiosa na Ordem Dominicana, jamais ocupei função de mando. Como dizem certos prelados incomodados com minhas idéias, "nem padre ele é". Sou irmão leigo, embora tenha cursado filosofia e teologia, indispensáveis ao sacerdócio. Porém, abri mão de me tornar padre. Não por mérito, e sim por falta de vocação. Não sou afeito à liturgia, à administração dos sacramentos, à atividade paroquial. Minha paróquia é o mundão de Deus e meu púlpito, a literatura. Nem padre sou... como Francisco de Assis, que a muito custo aceitou ser ordenado diácono.

Ocupei, sim, funções de poder. Fui chefe de reportagem de um jornal paulistano, assistente de direção de uma companhia de teatro, diretor de uma revista latino-americana e, por fim, assessor da Presidência da República. Nada disso me envaideceu. Deixei todas essas funções antes que elas me deixassem. Mas impressiona-me ver pessoas inebriadas ao ocupar funções de poder. Inflam o ego, estufam o peito, olham os subalternos de cima para baixo. Despersonalizam-se a ponto de trocar a identidade pela função ocupada. Machado de Assis descreve primorosamente o tipo no conto "O espelho".

Considero as ambições humanas suficientemente ridículas para levar a sério o teatro do poder. Raros os atores que fazem do poder serviço, deixam-se criticar por seus pares e subalternos, não se valem da função para obter vantagens pessoais. Por isso a maioria se apega ao cargo como à segunda pele, sem a qual se veriam desnudos, desprestigiados, tomados pela baixa auto-estima. O que explica a depressão que costuma se apossar dos que perdem poder.

Raduan Nassar, que tudo entende dos secretos escaninhos da alma humana, e com quem troco, com freqüência, dois dedos de prosa, compara o poder à caça ao macaco. Para capturar o animal sem um arranhão, fura-se um coco e coloca-se dentro um torrão de açúcar. O macaco sobe na arvore e, literalmente, mete a mão na cumbuca. Tenta tirá-la, porém a mão fechada sobre o torrão o impede de passá-la de volta pelo buraco. Como não larga a presa, e prefere a cobiça à liberdade, acaba na rede dos caçadores.

Em "A Mosca Azul" não me moveu outro propósito senão analisar o processo histórico que levou o PT ao poder, através do qual causou decepções e promoveu efetiva melhoria da qualidade de vida da população, em especial de parcela significativa dos que viviam na miséria. Recorrendo à análise comportamental, partilho com os leitores indagações e inquietações quanto à relação entre o individuo e as funções de mando. Aprendi no Teatro Oficina que o ator deve saber se distanciar do personagem. Só assim é capaz de ampliar suas potencialidades e, ao mesmo tempo, desempenhá-lo com o viés crítico recomendado por Brecht e Artaud.

 

PESQUISA

Mulher amplia presença no mercado de trabalho

Ela continua ganhando menos que o homem, mas a diferença diminuiu

 

Elas estudam mais e até conciliam diferentes tarefas, no trabalho e em casa, mas continuam recebendo os menores salários do mercado. A boa notícia é que a diferença entre a remuneração das mulheres e homens vem diminuindo.

Um estudo desenvolvido pelo Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) mostra que, no início dos anos 90, os homens ganhavam em média até 50% mais que as mulheres. Essa diferença encolheu e hoje se aproxima de 30% - o que ainda é muito na medida em que os dois estiverem executando o mesmo tipo de trabalho. Esses e outros dados estão no livro "O Progresso das Mulheres no Brasil", lançado na sexta 3, pelo Unifem, data bem apropriada porque nesta quarta 8 é comemorado o Dia Internacional da Mulher. Na obra, especialistas analisam pesquisas que retratam a trajetória feminina no Brasil de 1992 a 2002.

O estudo destaca o crescimento da atividade feminina na década. A população economicamente ativa feminina passou de 28 milhões para 36,5 milhões. A expansão da escolaridade é apontada como um dos fatores de maior impacto sobre o ingresso das mulheres no mercado de trabalho. As taxas de atividade das mais instruídas (a partir de 11 anos de estudo) são muito mais elevadas do que as taxas gerais, em todos os anos analisados. Em 2002, pouco mais da metade das brasileiras eram ativas, mas entre as mulheres com 15 anos ou mais de escolaridade, 83 em cada 100 trabalhavam.

Conforme os analistas, os cargos de diretoria ocupados por mulheres se apresentam em número elevado, ou predominam, em áreas tradicionalmente femininas. Nos demais setores, a presença delas nesses cargos oscila de 11,5% a 17%.

Políticas - As trabalhadoras que até o final dos anos 70 em sua maioria eram jovens, solteiras e sem filhos, passaram a ser mais velhas, casadas e mães, segundo o levantamento. Em 2002, a taxa mais alta de atividade feminina, superior a 70%, é encontrada entre mulheres de 30 a 39 anos, e 67% daquelas de 40 a 49 anos também são ativas.

Outro fenômeno que marcou a década foi o aumento da proporção de domicílios chefiados por mulheres. Em 1993 elas comandavam 22,3% do total de residências do país, em 2002 eram responsáveis por mais de um quarto.

As mulheres brasileiras estão cada vez mais qualificadas, começam a ingressar em profissões consideradas de prestígio e a ocupar postos de comando. No entanto, ganham salários inferiores aos dos homens e são maioria no mercado informal. Além disso, recai sobre elas grande parte das tarefas domésticas. Por isso, o estudo conclui que, do ponto de vista das políticas públicas, um dos maiores desafios dos novos tempos no Brasil é promover a conciliação entre família e trabalho.

 

Negras ainda são as mais discriminadas

 

As negras são as trabalhadoras mais discriminadas em todo o Brasil. Em 2002, entre as empregadas, 63% eram brancas e 37%, negras. Diversos estudos recentes têm revelado que a associação da cor da pele com o sexo feminino é motivo de dupla discriminação. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e estatística (IBGE) comprovam essa tendência. Em 2002, enquanto a média da renda domiciliar per capita encontrada em residências chefiadas por mulheres afrodescendentes era R$ 202,00, nas casas com chefes brancas atingia R$ 481,00.

O emprego doméstico remunerado é o nicho ocupacional feminino por excelência, no qual mais de 90% dos trabalhadores são mulheres. Ele se manteve como importante fonte de ocupação, praticamente estável na década, absorvendo 17% da força de trabalho. Essa ocupação, porém, é considerada precária em decorrência das longas jornadas de trabalho, do baixo índice de posse de carteira de trabalho (apenas 25% delas possuem) e dos baixos rendimentos auferidos - 94% ganham até dois salários mínimos.

 

Igualdade de gênero é meta da ONU

 

A realidade marcada pela desigualdade de direitos entre homens e mulheres e pela discriminação fez com que a Organização das Nações Unidas (ONU) incluísse a promoção de igualdade de gêneros e da autonomia das mulheres entre as suas metas do milênio. Pesquisas revelam que dois terços dos analfabetos no mundo são mulheres. A ONU mostra ainda que das 1,2 bilhão de pessoas que vivem abaixo da linha de extrema pobreza, 70% são mulheres. Não é preciso ir longe para se detectar a desigualdade: dos 497 municípios gaúchos, apenas sete são comandados por mulheres.

 

ESPECIAL

A ENERGIA DO VENTO

Mecanismo utilizado há dezenas de séculos para bombear água é empregado para gerar eletricidade de uma fonte renovável e limpa. A energia eólica, que o Rio Grande do Sul começa a explorar, é apontada como a melhor opção do futuro

 

Há 1.500 anos o homem começou a domar a força dos ventos. Os moinhos construídos na Pérsia no século V foram usados para bombear água para irrigação (há vestígios de uso dessa energia em embarcações à vela de 4.000 a. C.). A mesma energia também era usada, há séculos, para moer grãos. O princípio básico do moinho de vento não mudou: o vento atinge uma hélice que, movimentando-se, gira um eixo que impulsiona uma bomba - o gerador. A aplicação desse mecanismo, no entanto, vai muito além da irrigação. Sob a denominação de energia eólica, se transformou numa fonte abundante e renovável, limpa e disponível em quase todos os lugares. Por isso é apontada por especialistas como a energia do futuro.

Foi o fim da abundância de petróleo, e principalmente a crise dos anos 1970, que o velho moinho de vento começou a ser novamente lembrado. Agora, porém, para a geração de eletricidade. Há pouco mais de 30 anos, europeus e norte-americanos começaram a investir nessa opção com o objetivo de fugir da dependência de fornecedores do óleo negro. Em pouco tempo o conhecimento da indústria aeronáutica e os equipamentos para a energia eólica evoluíram para produtos de alta tecnologia. Hoje, mais de 30.000 turbinas eólicas de grande porte operam no mundo - uma capacidade instalada acima de 13.500 MW.

Minimizada a crise do petróleo, o interesse pela energia eólica diminuiu. Voltou com muita força na década passada por outras razões, todas relacionadas ao meio ambiente.

A energia eólica moderna também é produzida por moinhos, mas de outra geração. São chamados de aerogeradores e consistem de um eixo horizontal com uma grande hélice que colhe o vento necessário para mover uma produtora de energia, uma turbina.

Os pesquisadores da energia eólica produziram avanços destinados a vencer as objeções de seus críticos: aerogeradores mais silenciosos e capazes de aproveitar ao máximo os ventos, parques eólicos (conjuntos de aerogeradores) com usos paralelos como pastoreio ou cultivos, instalação de moinhos no mar. A tecnologia eólica "está em evolução", afirma em seu portal da Internet a Associação Dinamarquesa de Energia Eólica. Nesse país europeu os ventos já contribuem com 20% da demanda da população. No norte da Alemanha, a contribuição eólica passou de 16%.

Em países latino-americanos, como Brasil e Argentina, existe um renovado interesse para aproveitar o imenso potencial dos ventos. A União Européia também quer aprofundar a exploração dessa fonte de energia. A meta é gerar 10% de toda a energia consumida no continente a partir do vento até 2030. E nos Estados Unidos, país que mais consome petróleo no mundo, cresce a demanda popular em favor da energia eólica.

Potencial - Até agora, apenas uma pequena fração desse potencial foi explorada. No final de 2003 eram gerados em todo o mundo 39 mil megawatts de energia eólica, equivalentes à produção de uma dúzia de usinas nucleares. O vento é a fonte de energia de crescimento mais rápido. Segundo estimativas do Departamento de Energia dos Estados Unidos, o vento poderia fornecer mais de 15 vezes a energia total consumida anualmente no mundo. Além de reduzir a dependência do mundo industrializado do consumo exclusivo de combustíveis fósseis, o vento poderia levar energia elétrica a dois bilhões de pessoas do mundo subdesenvolvido que atualmente não têm a perspectiva de contar com esse serviço.

 

Geração tem menos de 15 anos no Brasil

 

Apesar de vários trabalhos e pesquisas científicas realizadas nas décadas de 70 e 80, a geração de energia a partir de turbinas eólicas no Brasil teve início apenas em julho de 1992, com a instalação de uma turbina de 75kW na ilha de Fernando de Noronha, através de iniciativa pioneira do Centro Brasileiro de Energia Eólica (CBEE), na época conhecido como Grupo de Energia Eólica da Universidade Federal de Pernambuco. O Nordeste concentra as maiores instalações eólicas de grande porte. Existem ainda vários projetos em execução, entre eles o de Osório, no Rio Grande do Sul, além de centenas aguardando serem selecionados.

 

Até 2020, 10% do consumo mundial

 

A energia eólica pode garantir 10% das necessidades mundiais de eletricidade até 2020. Pode ainda criar 1,7 milhão de novos empregos e, um dos principais motivos que têm incentivado investimentos nessa área, reduzir a emissão global de dióxido de carbono na atmosfera em mais de 10 bilhões de toneladas. Os campeões de uso dos ventos são a Alemanha, a Dinamarca e os Estados Unidos, seguidos pela Índia e a Espanha.

 

Embora fraco, existe impacto ambiental

 

Apesar de não queimarem combustíveis fósseis e não emitirem poluentes, fazendas eólicas causam impactos ambientais. Elas alteram paisagens com suas torres e hélices e podem ameaçar pássaros se forem instaladas em rotas de migração. Emitem um certo nível de ruído (de baixa freqüência), que costuma causar algum incômodo e podem interferir na transmissão de televisão.

 

Parque de Osório começa a produzir em 2007

 

O parque eólico de Osório, no litoral norte gaúcho, começa a produzir energia, em caráter experimental, no máximo a partir do início do mês que vem. Até lá, quatro aerogeradores com potência instalada de 8 MW estarão ativados.

A produção total de energia do projeto que está sendo implantado é de 150 MW de potência, o suficiente para abastecer a metade da população de Porto Alegre, em torno de 650 mil pessoas - ou todo o litoral fora da temporada de veraneio. No máximo para os primeiros dias de abril estará funcionando a subestação interna, assim como as linhas de transmissão até a subestação da CEEE, que fica do outro lado da rodovia free-way, no sentido Litoral-Porto Alegre, permitindo a conexão da energia gerada pelos ventos ao Sistema Integrado Nacional (SIN).

Na semana passada, três torres estavam erguidas. Ao todo, serão 75, distantes 175 metros uma da outra. A quarta torre será instalada até 15 de março. O investimento total no projeto da Ventos do Sul (consórcio entre a espanhola Enerfiun, do grupo Elecnor, a gaúcha CIP Brasil e a Alemã Wöbben) é de R$ 670 milhões. 69% desses recursos são financiados. Dos R$ 465 milhões já aprovados, R$ 105 milhões serão financiados diretamente pelo BNDES e R$ 360 milhões através de um consórcio formado pelo Banco do Brasil, Santander, ABN Amro Real, BRDE, CaixaRS e Banrisul.

Osório terá o maior parque eólico da América Latina e o sexto maior do mundo. O gigantismo da obra pode ser medido pelo tamanho das torres e dos cata-ventos, localizados a 4 km da rodovia que liga a free-way, de onde pode ser visto, a Tramandaí. O conjunto formado pela torre de concreto (98 metros de altura) e o cata-ventos, com pás de 37 metros de raio, atinge 135 metros de altura (equivalente a um prédio com mais de 40 andares) e pesa 810 toneladas. Outro dado para dimensionar: a instalação do primeiro aerogerador (concluída dia 17 de fevereiro) levou 8 horas, envolveu 25 pessoas e o coração do cata-vento demorou dois dias para ser içado pelo maior guindaste do mundo sobre rodas, de 750 toneladas.

Força - A partir de ventos com 4 m/s, equivalente a 14,4 km/h, já é possível gerar energia. A afirmação é do engenheiro João Junqueira, gerente do parque eólico de Osório, onde a velocidade média dos ventos é de 8 m/s (28,8 km/h). Em função disso, ele estima que Osório produza energia em 2.950 horas por ano, o que daria 123 dias ou um terço do ano. O índice de aproveitamento, de 33%, é considerado um dos melhores do mundo. "Na Alemanha, país com a tecnologia eólica mais avançada e amplamente utilizada, esse índice é de 25%", afirma Valdir Andrés, secretário de Minas, Energia e Comunicações do RS.

 

Potencial eólico brasileiro é imenso e inexplorado

 

Medidas precisas de vento no Brasil, realizadas recentemente em diversos pontos, indicam a existência de um imenso potencial eólico ainda não explorado. O Ceará foi um dos primeiros a realizar um programa de levantamento dos ventos. Entretanto, não foi apenas na costa do Nordeste que áreas de grande potencial eólico foram identificadas. Em Minas Gerais, por exemplo, uma central eólica está em funcionamento, desde 1994, em um local (mais de 1000 km da costa) com excelentes condições de vento. Além disso, existem dezenas de turbinas eólicas de pequeno porte funcionando em locais isolados da rede convencional para aplicações diversas - bombeamento, carregamento de baterias, telecomunicações e eletrificação rural.

No geral, especialistas estimam que o Brasil esteja aproveitando só 1/350 de seu potencial eólico. Até o início deste século, havia apenas nove usinas eólicas em funcionamento no Brasil, com capacidade instalada de 22 MW, menos de 1% da matriz energética (0,09%) - para um potencial superior a 143 GW.

Proinfa - A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) já autorizou a construção de 87 novos empreendimentos de parques eólicos no Brasil. Se todos fossem construídos, a geração chegaria a 5.951 MW. Até o final deste ano, a geração de energia eólica vai receber R$ 4,78 bilhões em investimentos, prevê a Eletrobrás. Os recursos devem ser aplicados em projetos que fazem parte do maior programa brasileiro de apoio à produção limpa de eletricidade, o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa).

Esse programa estimula investimentos da iniciativa privada em três áreas: biomassa, pequenas centrais hidrelétricas e energia eólica. Por meio dele, a Eletrobrás se compromete a comprar 1.100 megawatts (MW) de cada uma dessas fontes, por 20 anos. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) elaborou estudos que ajudaram o governo a definir o preço a ser pago pela energia alternativa. O BNDES vai financiar até 70% dos recursos necessários para a implantação dos empreendimentos. A maior parte dos projetos de geração eólica selecionados pela Eletrobrás fica no Nordeste - 65% desse tipo de energia deve ser produzida na região. Ceará e Rio Grande do Norte (com projetos que somam, em cada Estado, 220 MW) e Bahia (192 MW) são os Estados em que a estatal mais contratou eletricidade gerada por ventos.

 

IGREJA

CF promove atitudes de fraternidade

Campanha desde ano reflete sobre as pessoas portadoras de deficiência

 

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou, na quarta, 1º de março, a 42ª edição da Campanha da Fraternidade, cujo tema deste ano é "Fraternidade e pessoas com deficiência" e o lema "Levanta-te e vem para o meio" (Mc 3,3). O lançamento ocorreu em todas as dioceses do país e, em Brasília, na capela Nossa Senhora Aparecida, dom Odilo Scherer, secretário-geral da CNBB, presidiu a celebração oficial da conferência dos bispos.

O tema desta edição da CF propõe uma reflexão sobre a realidade social e a problemática enfrentada pelas pessoas portadoras de deficiências (PPD), bem como a história de suas lutas e conquistas. "A CF de 2006 traz ao centro de nossa atenção as pessoas com deficiência, que são freqüentemente vítimas de preconceito e discriminação, sobretudo num ambiente cultural que tende a marginalizar e excluir os que têm menos capacidade individual de competir com os outros", disse dom Odilo.

O secretário-geral salientou que no Brasil são mais de 25 milhões de pessoas com alguma deficiência. São cegos, surdos, mudos, os que têm algum tipo de lesão física ou cerebral ou alguma deficiência mental. Dom Odilo frisou que, por serem muitos, é preciso que todos os cristãos, mas também a sociedade, entidades governamentais e outras religiões adiram à campanha para assegurar inclusão e dignidade a esses cidadãos.

A CF-2006 propõe uma fundamentação bíblico-teológica sobre a dignidade e os direitos das pessoas com deficiência e aponta para diversas pistas em vista de maior inclusão social e religiosa dessas irmãos. De acordo com a CNBB, a campanha é um grande momento para a evangelização e seu objetivo é promover atitudes de verdadeira fraternidade e verdadeira cultura da solidariedade social, coerentes com os ensinamentos evangélicos.

Deficiência não é incapacidade. Para Evaristo Eduardo de Miranda, membro da equipe de elaboração do texto-base da CF-2006, o "deficiente não tem problema, tem uma circunstância". Miranda recordou que hoje o grande desafio é a inclusão social das pessoas com deficiência.

Durante o lançamento da campanha, dom Odilo também criticou o governo por não adotar políticas sociais mais eficazes de distribuição de renda e combate à desigualdade e à pobreza e por ter tornado o Brasil um "paraíso financeiro" por adotar uma economia concentradora de renda.

 

Campanha apóia trabalho pela igualdade

 

Na diocese de Caxias do Sul, a CF-2006 foi aberta por dom Paulo Moretto na catedral diocesana com a presença de representantes de entidades que trabalham com pessoas portadoras de deficiência em Caxias do Sul, entre elas Apae, Apadev, A/Rampa, Escola Helen Keller, Fraternidade Cristã de Deficientes Físicos e Escola João Prataviera.

Dom Paulo destacou a importância do trabalho dessas instituições como "fermento que chama atenção" para a realidade dos deficientes e, com suas atividades, procuram caminhos para questões como direitos, dignidade e inclusão. Salientou que a diocese pretende aprofundar mais as parcerias com essas entidades para que, cada vez mais, sejam superadas as limitações, as dificuldades e, especialmente, a discriminação em relação aos deficientes. Também convidou as pessoas com deficiência para que não se escondam, não se retirem, mas, atendendo o lema da CF, "venham para o meio".

Tibiriçá Maineri, surdo mudo, presidente do Conselho Municipal das Pessoas Portadoras de Deficiência, salientou que a CF-2006 vai ajudar para que no futuro pessoas com deficiência sejam vistas de forma igual e não como pessoas incapazes e todas tenham chance na comunidade.

 

Vaticano celebra os 500 anos dos museus

 

Diversas iniciativas vão assinalar os 500 anos de vida dos famosos Museus Vaticanos. Doze ao todo, os museus ocupam cerca de 40 mil metros quadrados dentro do Estado do Vaticano e recebem, anualmente, cerca de três milhões de visitantes. Eles nasceram de uma pequena coleção privada de esculturas pertencentes a Júlio II (papa de 1503 a 1513) e, na sua forma atual, compõem um conjunto de monumentos, galerias e palácios pontifícios que começaram a ser construídos no século XVIII, nos pontificados de Clemente XIV e Pio VI. Os museus vaticanos também podem ser visitados através da internet, na página da Santa Sé (www.vatican.va).

 

Canção que manda beijar

Padre Zezinho

O mundo tem sua doutrina do prazer sem nenhum limite

 

Está na hora de os cantores e compositores católicos e evangélicos que atingem milhões de cristãos darem um passo a mais na direção da doutrina social, da educação para o lar e para a moral cristã. Nove ou dez de cada dez canções que cantam, celebram apenas o louvor, que é maravilhoso, pois Deus é digno de todos os louvores, mas parece que não basta. Se Jesus manda ir fazer a paz com quem precisa dela antes de apresentar a oferta ao Senhor é porque há atitudes que ele considera inadiáveis, e que são até mais urgentes que o puro louvor.

Neste carnaval vimos a popular Ivete Sangalo, o mundialmente famoso Bono Vox, Gilberto Gil, ministro da Cultura do governo Lula, que uma vez já cantou com ela as mesmas palavras, convidarem o povo, indiscriminadamente, dos velhos às crianças, a se darem um beijo de deixar o outro louco. A proposta é a de um beijo erótico no céu da boca de qualquer um e com qualquer um. Virou costume de carnaval. É também a continuação do "vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje e carnaval". Carne vale! Ave, ó carne!

Cantores populares influenciam milhões com sua mensagem escancarada de troca de casais, de rolar na cama com a primeira da noite, de amor atrevido com quem passou na rua, de faça e não se reprima. E nós só fazemos cantar o louvor do Senhor, por que isso nos agrada? Por que não pedimos ao Senhor, depois de ter lido livros profundos sobre a sexualidade humana e sobre a vida conjugal, que nos inspire para alguma canção que, por exemplo, diga a milhões de cristãos que o beijo não é para o primeiro que passa e nos chama de meu bem? Nem para quem pulou conosco o carnaval, na mesma rua?...

O mundo tem a sua doutrina do prazer sem nenhum limite e tem cantores que a divulgam. Nós temos a nossa doutrina do prazer em vista de um bem maior. Só não temos tido cantores que a divulguem.

Nove entre dez deles estão cantando apenas o amor ao Senhor. O amor ao próximo não tem sido musicado! Se o ministro da Cultura pode cantar aquele tipo de canção, nós podemos e devemos cantar a nossa visão do amor e do beijo. Mas nossos compositores ainda não ousam a este ponto! Que pena! Os outros ousam!

 

Dom Thadeu Canellas celebra jubileu

Bispo de Osório recorda 50 anos de sacerdócio e os 22 anos de episcopado

 

"O sacerdote homenageado motiva o surgimento de vocações". Assim dom Thadeu Gomes Canellas, bispo da diocese de Osório (RS), encara e aceita a celebração de seu jubileu de ouro de ordenação sacerdotal e os 22 anos de ordenação episcopal dia 26 de março. Nesse dia será rezada missa solene na catedral Nossa Senhora da Conceição, às 10 horas, seguida de almoço de confraternização.

As celebrações serão precedidas por uma semana vocacional, de 20 a 26 de março, a pedido do próprio dom Thadeu, preocupado com a falta de sacerdotes na diocese. Dom Thadeu, filho de Salvador e Maria Antonina Canellas, nasceu em Gravataí (RS) aos 28 de julho de 1930. Com 75 anos completos, já colocou o cargo à disposição do Papa. Gosta de futebol, do clima de pescaria e de uma boa leitura. Sintetiza seus 50 anos de padre: "Começaria tudo de novo. Não me vejo a não ser como sacerdote".

Dom Thadeu é bispo de Osório desde 10 de novembro de 1999, quando foi criada a diocese, que abrange 21 municípios do litoral norte gaúcho e 22 paróquias, que atendem uma população fixa de 350 mil habitantes. Nas cidades litorâneas, porém, na temporada do verão, só no eixo Tramandaí-Capão da Canoa, a população pode chegar facilmente a 1,5 milhão. Tramandaí, Imbé e parte de Osório são área da paróquia N. Sra. dos Navegantes, com um total de 25 comunidades. Atendida pelos capuchinhos desde 1983, hoje respondem pela paróquia os freis Miguel Debiasi, Celeste Conte e Moacir Molon.

 

Capuchinho catarinense será ordenado padre em Maracajá

 

Será ordenado no dia 18 de março de 2006, às 16 horas, na igreja matriz de Maracajá (SC), frei Alcides Cantídio Soares, capuchinho da província do Rio Grande do Sul. Será bispo ordenante dom Paulo Antônio De Conto, da diocese de Criciúma. Frei Alcides escolheu como lema "Se alguém quer servir a mim, que me siga" (Jo 12,26). Celebra a primeira missa solene no dia 26, na capela São Valentim, de Espigão da Pedra, Araranguá.

Frei Alcides nasceu aos 25 de julho de 1961, em Maracajá. É um dos 17 filhos de Cantídio Estevam Soares (falecido) e de Maria Loufriza de Oliveira Soares. Ingressou na Ordem dos capuchinhos no ano de 1994, em Ijuí (RS), onde iniciou seu processo formativo. Cursou filosofia na UCS, em Caxias do Sul, fez o noviciado em Pelotas e a teologia na Estef, em Porto Alegre. Em 2003 realizou estágio pastoral em São João do Sul (SC).

Neste ano, frei Alcides está residindo em Caxias do Sul e vai atuar no Serviço de Animação Vocacional da província, no projeto SIN e na divulgação do Correio Riograndense.

 

Bispos tratam da evangelização dos jovens

 

"Evangelização da Juventude" será o tema central da 44ª Assembléia Geral da CNBB, realizada em Itaici (SP) de 9 a 17 de maio de 2006. "Não existem dúvidas sobre a importância de uma intensa e eficaz evangelização dos jovens, porque deles depende o futuro da vida e da missão da Igreja", afirma dom Odilo Scherer, secretário-geral da CNBB.

A escolha desse tema foi determinada pela consideração de que não apenas os animadores e líderes da Igreja de amanhã estão entre os jovens de hoje, mas porque serão também os líderes da sociedade. "Se a Igreja quer continuar a participar do destino da sociedade e de sua cultura, não pode deixar de semear o Evangelho, generosamente, nos corações dos jovens", destaca dom Odilo.

Uma comissão de bispos e especialistas, sob coordenação de dom Sinésio Bohn, bispo de Novo Hamburgo, está preparando um trabalho sobre o tema, que será analisado e estudado pelos bispos antes da Assembléia.

 

Religiosa recebe título de Cidadã Caxiense

 

Em sessão solene a realizar-se nesta quinta 9, às 19h30, a Câmara de Vereadores outorga o título de Cidadã Caxiense a irmã Apolônia Sulenta. Proposta do vereador Getúlio Demori é um reconhecimento aos 32 anos de atuação da religiosa na área da saúde em Caxias do Sul. Natural de Erechim e membro da congregação das Irmãs de São José de Chambery, Apolônia trabalha há 12 anos como gerente de equipes no Hospital Medianeira.

 

Estátuas que falam

Aldo Colombo

A pessoa com deficiência não precisa de compaixão ou protecionismo. Ela quer apenas condições para participar

 

A 89 quilômetros de Belo Horizonte situa-se a cidade de Congonhas, 50 mil habitantes, uma das maiores referências do barroco mineiro. Em frente ao santuário do Bom Jesus do Matozinhos, desafiando o tempo, erguem-se as gigantescas estátuas dos 12 profetas, esculpidas em pedra sabão. Os milhares de turistas que admiram as esculturas ficam sabendo que seu autor é João Francisco Lisboa, nascido em 1730, em Ouro Preto, filho de um mestre de obras português e de uma escrava, chamada Isabel. João Francisco Lisboa é mais conhecido como Aleijadinho. Nem todos conhecem seu drama.

Com 33 anos começaram as progressivas limitações que continuaram até sua morte. Mesmo assim ele jamais desistiu de esculpir e criar obras maravilhosas. Uma dessas obras, significativamente, é a Via-Sacra. No fim de sua vida, impossibilitado de usar os dedos, pedia a seus ajudantes que amarrassem o cinzel e o martelo em seus pulsos e - mesmo de joelhos -, pois não mais podia caminhar, continuou a esculpir. Milhares de obras, especialmente em Congonhas, Sabará, Ouro Preto e São João Del Rei atestam seu gênio.

A Campanha da Fraternidade, iniciada na quarta-feira de Cinzas, tem como tema a pessoa com deficiência. E como lema, a ordem de Jesus para um homem de mão atrofiada: "Levanta-te e vem para o meio" (Mc 3,3). A ordem de Jesus deve ser assumida por toda a comunidade cristã.

A pessoa com deficiência - devemos evitar falar de deficiente e muito menos aleijado - tem direito de participar da vida da comunidade e ocupar o seu lugar. Apenas precisa que a sociedade lhe dê meios para isso. Não se trata de favor, mas de direito.

A Campanha de Fraternidade 2006, como as anteriores, segue o método Ver, Julgar e Agir. O Ver é espantoso. No mundo existem cerca de 800 milhões de pessoas com deficiência e no Brasil, pelo menos, 25 milhões. Algumas maneiras negativas de posicionar-se diante dessas pessoas: ignorá-las, escondê-las, ridicularizá-las, ter pena delas... Além das deficiências naturais, enfrentam também descaso e exclusão. O Julgar da CF inspira-se, naturalmente, no exemplo de Jesus, Ele carregou em seus ombros todas as limitações do mundo. Ele aconselha: "Quando deres um banquete convida os cegos, os coxos, os aleijados" (Lc 14,12).

Resta à comunidade cristã o Agir. Há milhares de maneiras de amar o próximo, mas uma só maneira de amar a Deus: amando o próximo, Sobretudo o próximo que mais precisa. Mais ainda: o próximo que está à sua frente, o próximo mais próximo. Ele não precisa de compaixão ou protecionismo. Quer apenas condições para participar. Que o digam o Aleijadinho, seus profetas e sua profecia.

O saudoso João Paulo II falava das pessoas com deficiência: "São ícones vivos do Filho crucificado. Revelam a beleza misteriosa d’Aquele que se despojou por nós para se fazer obediente até à morte".

 

Sede Dourado vive celebração histórica

Dois bispos e 37 padres participaram de jubileu e bodas da família Streher

 

A igreja São Pedro, de Sede Dourado, Aratiba (RS), em seus 60 anos, nunca acolheu tantos padres como em fevereiro deste ano. Dois bispos (dom Girônimo Zanandréa, de Erechim, e dom José Mário Stroeher, de Rio Grande), 37 padres e um diácono participaram da missa de jubileu de prata sacerdotal de padre Olírio Streher, de bodas de diamante de seus pais, Libino e Atelma, de prata de seu irmão Valdir e cunhada Ana Odete Dudek, e os diversos aniversários de casamento de seus outros oito irmãos.

A celebração contou com a animação musical de padre José Carlos Sala e do coral do Santuário de Fátima, de Erechim. Durante a missa, padre Olírio renovou seus compromissos presbiterais diante dos dois bispos e dom José Mário renovou a bênção conjugal das alianças dos casais jubilares. Após a celebração, padres, familiares e convidados confraternizaram com um almoço no salão paroquial da comunidade.

Padre Olírio foi ordenado em agosto de 1986, mas o jubileu foi antecipado para coincidir com as bodas de 60 anos de matrimônio dos pais. Como padre, Olírio foi vigário da catedral de Erechim, professor no seminário de Fátima, pároco de Estação e, desde 1989, trabalha no centro diocesano, como coordenador de pastoral da diocese (até o final de 2005), como secretário-geral do bispado, coordenador diocesano do setor de liturgia, redator do Informativo Diocesano Semanal e do boletim mensal Comunicação Diocesana, entre outros.

Libino e Atelma sempre foram presença marcante na comunidade de Sede Dourado, dando a todos testemunho de união, fé e alegria.

 

Cinco jovens ingressam no postulado marista, em Vacaria

 

O Postulado Marista Nossa Senhora da Oliveira, de Vacaria (RS), acolheu, em fevereiro, cinco jovens que ficarão por um ano participando de ações de trabalho pastoral, oração, formação e convivência no estilo de vida marista. Os postulantes são Ricardo Demenech Fermo, de Novo Hamburgo (RS); Paulo César Coller (Montauri-RS); Joel Alberti (União da Serra-RS); Tiago Putti (Paraí-RS); e Elton Siqueira (Vanini-RS).

Ao concluir o postulado, os jovens poderão decidir se seguem ou não a vida religiosa. Os postulantes vêm de casas de formação marista de Santo Ângelo, Lajeado e Novo Hamburgo. As casas são um pré-postulado e para ingressar os jovens devem ter concluído o ensino médio e passar pela avaliação dos irmãos formadores. A próxima etapa será o noviciado, em Passo Fundo, onde passarão dois anos e receberão o título de irmão, mesmo antes de fazer os votos.

 

Não nos deixem à deriva

Frei Rovílio Costa

Porto Alegre - RS

 

Nona Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas. Primeira na América!

Mais uma assembléia, depois da oitava?

Imprensa? - Olhando de soslaio!

Discussões, teológicas, espirituais?

Patrimônio comum cristão - Bíblia, Cristo, um só batismo.

Diálogo? - A grande proposta!

Metanóia? Conversão? - Talvez!

Êxodo de fiéis? - Engodo! Se um só batismo, um só Cristo e uma só fé, um mesmo destinatário!

Ações concretas espirituais, para o homem concreto, cristão e não?

Igreja, Igrejas cristãs? - Diferenças apenas em buscas e interpretações, procurando respostas!

Ao mundo com seus problemas, quais as respostas espirituais e cristãs concretas?

Análises sócio-políticas, econômicas e anti-globais - lugares comuns de qualquer fórum! - Quais as respostas espirituais e cristãs?

Diferenças de ontem, fundamentadas! Diferenças de hoje, analisadas! - Unidade por Cristo preconizada! Portanto:

- Batismo e fiéis de uma Igreja, batismo e fiéis de todas as Igrejas!

- Ceia e eucaristia de uma Igreja, ceia e eucaristia de todas as Igrejas!

- Palavra de padre, bispo, pastor, patriarca, papa, leigos - palavras de cristãos para cristãos e para os irmãos!

Mais que apoio e diálogo, ações concretas à construção do reino de Deus!

Brasil - uma globalidade humana, social e religiosa, cristã ou não!

Um bilhão de católicos, 500 milhões de outros cristãos no mundo? - Não! Um bilhão e meio de cristãos.

Por favor, uma respostinha concreta para nós obreiros do reino de Deus com o povo e para o povo!

 

Ano eleitoral

Wilson João

As pessoas que o povo elege podem ser justas e bem intencionadas. Mas apenas boas intenções nada valem

 

Não vou votar em senador, nem em deputado e, em minha cidade, nem em vereador. Isso em nome da democracia. O que acontece no cenário político nacional e estadual nada tem de democracia. Democracia não é bagunça e nem corrupção. Não é um conjunto de deputados gastando o tempo de um ano discutindo entre si, se condenando e se protegendo.

É TEMPO DE ELEGER SÓ O PRESIDENTE da nação, que eleito, forme um conselhão, com um grupo de sábios, e fora do ninho político, que comece uma reforma total. Depois, poderão ser eleitas novas pessoas, em número bem menor.

É TEMPO DE ELEGER SOMENTE O GOVERNADOR, que eleito, forme um conselhão com pessoas de visão de futuro e de bem-comum, para começar tudo de novo, e de um jeito novo. Estamos cansados de ver um Estado que vai se arrastando, o povo que o vai sustentando com impostos que pesam cada vez mais, só para pagar funcionalismo e a pesada máquina governamental.

É TEMPO DE ELEGER SOMENTE O PREFEITO, que eleito, faça uma mudança nas estruturas de funcionamento. Só depois se pense num legislativo com mentalidade de serviço ao povo.

AS CADEIRAS ESTÃO POBRES. Mesmo sendo poltronas, todo senador, deputado e vereador que nelas senta, vai se corrompendo. As pessoas que o povo elege podem ser justas e muito bem intencionadas. Nada valem as boas intenções. Não há reformas que partam de pessoas isoladas. As cadeiras estão cheias de cupim e de podridão. É o sistema que está corrupto. Sentou na cadeira do senado já tem direito a privilégios: dezenas de secretárias, viagens gratuitas, carros à disposição, rancho em casa, telefones de graça, médicos etc. E o cidadão comum, que o elegeu, nem tem dinheiro para pagar a conta da água ou do remédio que muito precisa para sobreviver.

É PRECISO MUDAR O SISTEMA POLÍTICO, e depois eleger gente que tenha a alegria de sentar-se em cadeiras sem cupim e sem podridão. Creio em mudança, mas com uma revolução que parta do povo: não elegendo ninguém mais, a não ser o presidente e o governador para iniciar uma nova democracia.

 

CULTURA DA IMIGRAÇÃO

Da guerra ao amor, da Itália ao Brasil

Rocco e Maria Spina

Comerciantes, Porto Alegre-RS

 

O final de guerras apresenta cenas que parecem filmes neo-realistas italianos. Foi o que aconteceu, diz o entrevistador Olides Canton, em 1950, quando Rocco Spina e Maria Isabella Lamboglia se encontraram em Morano Calabro, sua terra natal. Maria Isabella voltava de uma cidade vizinha onde estivera reclusa por quatro anos, devido à Guerra. O reencontro iniciou uma história de amor que dura 55 anos.

- Eu estava na estação, diz Rocco, com outros rapazes. Ela era muito bonita. Esta não me escapa, pensei. Com muita vontade de vencer, em 18 de maio de 1950, casamos em Morano. Pouco depois de casados, vim, a pedido do meu irmão Chico, trabalhar em Porto Alegre, no Restaurante Copacabana. Viajei 14 dias no pequeno Marco Pólo para cruzar o oceano. Um ano depois, em 18 de maio de 1951, Maria Isabella chegou ao aeroporto Salgado Filho. Ela viajou no navio Conde Biancamano, depois que eu consegui, com um amigo, o dinheiro emprestado para comprar sua passagem. No porto de Santos, onde o navio aportou, Maria Isabella confundiu uma nota de valor alto, por uma nota de valor baixo, porque não entendia nada de português.

- Recordo, diz Maria Isabela, o medo que eu tinha, na Itália, dos bombardeios da II Guerra. Nós tínhamos esconderijos, onde os fugitivos cozinhavam, esperando que passasse a turbulência.

- Em Porto Alegre passamos dificuldades. No início morávamos nos fundos do Restaurante Copacabana. Eu trabalhava de garçom e a Maria Isabella trabalhava com as cozinheiras, com as quais aprendeu português. Depois adquirimos casa no Partenon. As vizinhas riam porque Maria Isabella se assustava ao ouvir o cantar dos sapos, à noite. De dia, eu vendia bilhetes na Rua da Praia e, de noite, consertava sapatos, ofício que aprendi na Itália.

- Nove meses depois que Maria Isabella chegou, nasceu o José, nosso primeiro filho. Depois vieram o Luiz Alberto, a Ana Maria e a Carmen; os nove netos - Sofia Isabella, Felipe Augusto, Carolina, Roberta, Natália, Rocco Neto, Lauro Junior, Pedro e Francesco; os dois bisnetos, Rômulo e Tiago Melo.

- Montamos o açougue São José, na Av. José do Patrocínio, 976, perto da Igreja Sagrada Família, conhecido pela lingüiça calabresa, com empréstimo do Banco Credereal, que levei anos para quitar. No inverno, de madrugada, ia buscar carne, às vezes até um frigorífico, em Gravataí. A lingüiça calabresa do nosso açougue chegou até o Palácio do Planalto, levada pelo coronel Lamaison, num isoporzinho. Eu trabalhava das 4 às 7 horas, depois tomava meu café com bife mal passado e vinho.

- Nos fins de semana, fazíamos piqueniques nas praias do Guaíba, depois compramos apartamento em Tramandaí, onde veraneávamos com a família.

- Maria Isabella, como toda a mamma italiana, sentia saudades quando os filhos e netos nos deixavam sós em nossa casa, na Av. Erico Veríssimo, 583. - Quando eles vão embora, dizia, eu fico triste. Mas, me conformo, pois voltam às suas casas.

Eu e Maria Isabella retornamos à Itália, a primeira de três vezes, em 1981, junto do Chico e um casal amigo. Sempre ligados à alimentação, em 1993 fundamos a A. M. Spina, fábrica de comida congelada; em 1º de maio de 1995 abrimos a Pizzaria Spina, na Lima e Silva, esquina Olavo Bilac, onde passamos as noites comendo, bebendo, cantando e festejando com os amigos (e-mail ana.spina@bol.com.br; fone 32214824).

Conheço a Família Spina desde 1960, quando auxiliava ao pe. Severino Brum na Paróquia Sagrada Família. O Olides estranha que o Rocco diga alora em vez de então e sabdia em vez de sabia, imagine, alora, em 1960, come ele falava! No preparo da lingüiça calabresa, porém, nunca se atrapalhou. Mas o melhor tempero sempre foi sua festiva família, com filhos, genros, noras, netos, bisnetos e empregados, que, de cada cliente, fazem um eterno amigo. (Rovílio Costa)

 

EL RITORNO DE NANETTO PIPETTA (350)

Al Juà el trova la pi bela moretina del mondo

Mario Gardelin

Professor, historiador e pesquisador, Caxias do Sul - RS

 

Ma la idea dela pi bela mora del mondo no la lo lassava. Nanetto se ga messo davanti al Lastron e el ga domandà:

- Lastron, Lastron, dìseme del bon. Onde vive la pi bela mora del mondo?

- Te lo digo suito. Ma, atento. Co le more no se schersa. E manco ancora co la so regina...

- E parché tute ste precaussion?

- Ghe ze more dai oci sintilanti come i diamanti del Transvaal. Te pol perder la testa!

- È nò, Lastron mio, mi son valente e forte. Sul me sarvel comando mi.

- Se te lo disi, grata el capo tuo. E te respondo, suito. La pi bela mora del mondo la ze al Juà, tera de San Gioani de Dio. Ze un posto de São Francisco de Paula, de sora la Serra. Suito, métete a posto. Via, al Juà!

El Lastron, sveltìssimo, el ga zolà e el se ga fermà su un monte. Là el ga molà Nanetto, tornando a darghe boni consìlii, finidi con la racomandassion: - Giudìssio!

Qua bisogna che ve conto, che Nanetto el zera vestio da gaùsso. Altro che lusso. Camisa, bombace, giacheta... tuto de seda. Stivai lusenti. Spore de argento e oro. La guaiaca zera na maraveia: de pel de anta, co disegni superbi. El capel, cascà par indrio, el zera degno de un colonelo del tempo de Garibaldi...

Ma Nanetto ga comesso nantro sbàlio. No’l ga mia calcolà el tempo. E el ze capità giusto in medo la Revolussion Federalista de 1893 al 1895. E lì, al campo, due regimenti de cavaleria i se ga sfrontà: Maragati e Becalegni, che in brasilian vol dir Maragatos e Picapaus.

Se podessi véderli. I maragati i gavea i pi bei cavai del Rio Grande. I becalegni, del goerno, no i restava indrio. I regimenti i zera un davanti al altro, a na distansa de seissento metri. Davanti, i comandanti. Vedi che i gaùssi veri, in te le stòrie de revolussion, i ga na question d’onore. I comandanti coi so ofissiai i se mete davanti a tuti e quando ze ora de combàtere, steme distante! Spade sguainade, lance lusenti. E via! Chi pol pi, piande manco!

Nanetto, co’l ga visto quel spetàcolo superbo, el ze saltà in gropa al so caval, slevà a Bagé, la meio tera al mondo gaùsso. El ze corso a méterse darente al comandante maragato. E quando ze veg-nesto l’órdine de - Carga! - el ga piantà le spore al so bel caval e el ze partio pi svelto che na s-ciopetada. Le sate del caval le parea na roda. Cussita el se ga fato avanti con spaventosa sveltessa. El zera un sinquanta metri pi avanti de tuti i altri. Rivando al nemico, el se ga sgiaventà contra, lància in pugno. El puntava su un peto, la lància la lo verzea, e Nanetto el rivava a piantar la man sul becalegno. Ma, suito, el se ga quasi avilio. El sponciava con la lància e co la man, ma el nemico no se fermava. No’l cascava in tera. Zera el stesso de puntarghe al vento.

El combatimento el ga finio sol quando ga sonà le trombe.Tanti i zera i morti. Maragati e becalegni i se ga ritirà, e la gente del posto, la pi parte nigri, i ga sepelio i morti, in vanede longhe. I ga pregà le so bele orassion e i ze tornadi a casa.

Nanetto, lora, dopo ver proà esser un gueriero come quei de Bento Gonçalves, el se ga ricordà dela pi bela mora del mondo. E lora, là in fondo, el ga visto na tosa, morenota, con vestito de regina. A galopo, el se ga visinà. A torno a sta tosa, che la gavaria un quìndese ani, ghe gera dei soldai, co le spade in man. Rivà darente, el ga domandà:

- Cari miei, chi zela sta dona così bela?

- No te la cognossi? Ze la pi santa e magnìfica dona!

- Se la ze santa, ze gente del paradiso?

- Si, te ghè reson. Noantri no semo soldai. Semo tanto pi!

Nanetto el ze ndà pi darente. Lora el ga visto un tosatin, bel come el sol. El ga spalancà i oci e el se ga indenocià.

- La ze la santa Madona. E el tatin el ze Gesù.

- Giusto. Noantri semo àngeli. Femo la guàrdia. Questa qua la ze la Madona Aparecida, patrona del Brasil.

- La ze mora?! Come così?

- Sémplice. La ze nassista e vissua in tea Palestina. Dopo, la so stàtoa ze stà catada in te un fiume. Par questo, ti te sì drio veder la pi bela mora del mondo.

Nanetto el se ga messo a pregar. A ringrassiar. El ga sbassà la testa... E la vision ze sparia pian pianin.

Nanetto el ga ciamà el Lastron, e ze tornà a la so tana al Rio das Antas. Né gueriero, né more.

 

VITA STÒRIA E FRÒTOLE

Rovílio Costa e Arlindo Battistel

El osel negro

Geraldo Sostizzo

Agente Consular Italiano, Cascavel-PR

 

Par noantri, tuto quel che zolea gera osei. Lora, tuti quei che noantri copeimo, anca li magneimo, meno le graie e i corbi. Ghe gera graie negre e graie bianche, mescolae con giale, queste ùltime noantri, se podeimo, le copeimo, ma le buteimo sempre via, parché gnanca i can no le magnea.

Ghe gera tanti osei che gavea un bel cantar, questi quando li ciapeimo vivi li meteimo tea gàbia, parché i cantesse. Ma come no i gera mia costumai restar sarai su, i moria squasi tuti, forsa de baterse. E anca se no i cantea mia de pontiliosi, li mangeimo con polenta e radici.

Un giorno son ndà su te na pianta, de quele ben alte par veder se podea meter na tràpola, par ciapar osei de quei del peto gialo. Go metesto sta tràpola, la go armada e son veg-nesto zo. Par ndar su e zo gera un sacrifìssio, se speleimo tuto el peto.

Te questa pianta, ghe gera un toco longo sensa rami e quando vegnea zo, rivea in tera coi brassi e el peto tuto spelà.

De là un paro de ore, go vardà, la tràpola la gera belche sbarada. Son ndato su par veder cosa gavea ciapà. Mi pensea che gera un tordeto de quei che vedea sempre lì su i rami, invesse gera un xupin, che noantri lo ciameimo de osel negro.

Go alsà na s-cianta la tràpola e go metesto a man soto par ciaparlo, ma prima lu el me ga ciapà col beco picà te un deo, lo tegnea tanto ciuso che no’l volea pi molar, lora che go visto cosa el gera.

Me ga dato na voia de strucarghe el col, ma me go tegnes-to e son ndato fin in tera, sol con na man torno la pianta. Quelaltra tegnea el osel e lu tegnea la man! Quando son rivà in tera e ancora no’l volea mia molar el deo, me ga dato nantra voia de coparlo, ma go soportà fin darente la gàbia, go verto la porteleta e lo go metesto rento e quando go verto la man, anca lu ga verto el beco. Lora go capio che lu el ga molà sol quando mi lo go molà.

Sto desgrassià el ga vivesto pi de cinque ani, fin che, un giorno, na tempesta forte, el vento ga rabaltà la gàbia e la porteleta se ga verto e lu l’è scapà fora. Dele volte el tornea indrio magnar mìlio con le galine, fin che l’è pi tornà e l’è ndato insieme coi so compagni, el ze spario, me ga despiasesto tanto, parché el cantea tute le matine. Anca la mama la ze restata mesa trista, parché la ciacolea tanto con lu.

 

Gavé fato un bel laoro

Rafael Baldissera

Professor, Curitiba - PR

 

Un vachero el ga comprà un sìtio in medo el matagal e, lu sol, el ga scominsià a laorar. El ga rossà, el ga sapà, el ga arà, fato su un punaro, un pomaro, un orto e na bela caseta de far invìdia ai so visini.

Un giorno, un prete l’è capità là par domandarghe un donativo e el ga comentà:

- Che bel laoro valtri gavé fato qua!

- Valtri? El ghe domanda el vachero.

- Sì, ti e Dio!

- Ah! Ma lei dovea veder come gera bruto qua, tea època che Dio el tendea lu sol!

 

GERAL

Projeto transforma moinho de Nova Petrópolis em museu

Visitantes poderão ver mós em funcionamento

 

O projeto Moinho Rasche, de Nova Petrópolis, quer transformar o antigo moinho em museu. O projeto está tramitando nas leis estadual e federal de incentivo à cultura. A prefeitura já está visitando empresas em busca de parceria para o projeto. O moinho foi construído em 1953, no centro da cidade, e representa um marco, pois reflete a evolução tecnológica e econômica dos meios de produção da época.

Reformado, o moinho vai abrigar uma cozinha pedagógica para oficinas e cursos de culinária com produtos a base de cereais. Além disso, haverá áreas para degustação e comercialização da produção e exposição temática. O local ainda será um "museu vivo", com o moinho funcionando para demonstrações à comunidade.

 

Gramado promove a 16ª Festa da Colônia

 

De 23 de março a 2 de abril de 2006 Gramado promove a 16ª Festa da Colônia. Jogos, desfiles, shows, música, apresentação de bandas e grupos folclóricos, produtos caseiros e a farta gastronomia típica das colônias alemã e italiana estarão à disposição dos visitantes. Nos dois finais de semana, o auge da festa serão os desfiles de carretas puxadas a boi, na avenida principal de Gramado. E para valorizar a mulher agricultora, os próprios colonos elegeram sua corte: Magda Ruschel, rainha, e as princesas Sabrina Wagner Negri e Eduarda Cavalli. Todas vivem no meio rural.

 

Bagé escolhe prendas

 

O concurso de prendas da 27ª Semana Crioula Internacional de Bagé será dia 25 de março. As candidatas responderão a prova escrita e artística. O concurso elege as 1ª, 2ª e 3ª prendas. A Semana Crioula ocorre de 29 de março a 3 de abril no Parque de Exposições da Associação/Sindicato Rural.