
DESCOBRINDO CAMINHOS
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Edição 4.980 - Ano 98 - Caxias do Sul-RS, 22 de março de 2006.
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A biodiversidade e a desigualdade social
É preciso garantir a todos os benefícios dos recursos genéticos
A produção e a comercialização de grãos se transformaram em um negócio tão complexo e de interesses tão distintos, que decisões aparentemente simples são postergadas por prazos estranhamente longos. Exemplo dessa complexidade foi exposto ao final da 3ª Reunião dos Países Membros do Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança, ocorrida na semana passada em Curitiba.
Após cinco dias de debates, ficou decidido que até 2012 não será obrigatória a identificação de grãos geneticamente modificados nas exportações e importações entre os 96 países signatários do protocolo. Para organizações não-governamentais, es e resultado reflete um cenário em que os espaços são dominados pelo poder que as empresas transnacionais exercem sobre os países.
Pode haver algum exagero nessa avaliação, mas não há como negar que grandes grupos determinam regras para a comercialização de alimentos no mundo. Este tem sido apontado como um dos motivos para a má distribuição de comida, origem da fome entre milhões de habitantes do planeta.
A decisão de Curitiba envolve um elemento que transcende ao lucro: é a saúde. Apesar das controvérsias ainda existentes sobre o impacto dos transgênicos na saúde humana, o consumidor deveria saber o que está comprando para levar à mesa. Negar-lhe esse direito lança no mínimo um manto de suspeição.
Os olhos do mundo voltam-se novamente para a capital paranaense, que abriga de segunda-feira 20 até o próximo dia 31 a 8ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP 8), promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU). Em discussão, por cerca de seis mil representantes de 188 países, a proteção aos conhecimentos associados à biodiversidade, o acesso aos benefícios decorrentes do uso de recursos genéticos e o compartilhamento dos ganhos com as comunidades locais.
O tema é de suma importância para o Brasil. O país possui uma gigantesca biodiversidade, mas não tem obtido justos dividendos por esta riqueza. Precisa pesquisá-la e partilhar com o mundo os avanços medicinais e industriais, assegurando sua autonomia e ao mesmo tempo dividindo entre sua população, sem privilégios, os resultados dessa exploração. Este passo pode contribuir muito para reduzir a desigualdade social patrocinada pela má distribuição de renda.
Prefeitura anuncia obras do OC que executará em 2006
Investimento supera R$ 3 milhões. Predomina pavimentação de ruas
A Prefeitura vai investir R$ 3,250 milhões para executar 50 obras previstas no Orçamento Comunitário (OC) para este ano. O anúncio foi feito na segunda 20 pelo prefeito José Ivo Sartori. "Queremos que tudo seja realizado de acordo com as escolhas das comunidades", afirmou Sartori, acrescentando em seguida: "Desde que não haja comprometimento de recursos municipais além do que foi acordado".
O conjunto de obras, elencado com a participação da Coordenadoria de Relações Comunitárias, contempla as nove regiões administrativas: Esplanada, Desvio Rizzo, Centro, Fátima, Santa Lúcia, Ana Rech, Cruzeiro, Forqueta e Rural.
Mais de a metade das obras anunciadas atende pedidos de pavimentação de ruas. São 28, espalhadas por praticamente todas as regiões administrativas. Jaison dos Santos, coordenador do Orçamento Comunitário, não soube informar a área total. Além da pavimentação estão previstos alargamentos de estradas, como a que liga São João a Menino Deus, a São Marcos da Linha Feijó, das Linhas 40 e 60 e de Conceição da Linha Feijó, sentido Loreto, da ponte do Arroio Belo até a encruzilhada de Forqueta. Estão todas na área rural. A zona rural foi contemplada ainda com um reservatório para 20 mil litros de água em São Giácomo e obras de abastecimento de água em Monte Bérico.
Estão programadas ainda reformas, ampliação e construção de centros comunitários, um parque no Jardim América e melhorias na praça do Floresta. Muitas das obras contêm a observação salientada pelo prefeito Sartori: a execução será até o valor definido.
Concurso literário abre inscrições
Já estão abertas as inscrições para o Concurso Anual Literário 2006, promovido pela Biblioteca Pública Municipal Dr. Demetrio Niederauer. Os interessados podem se inscrever até o dia 15 de abril, no 4º andar da Casa da Cultura (rua Dr. Montaury 1333), de segunda a sexta, das 8h às 21h, e aos sábados, das 8h às 12h.
Na categoria de obra literária podem participar maiores de 16 anos residentes em qualquer município da encosta superior do nordeste do Estado. A obra inédita, de tema livre, deve ter no mínimo 50 páginas. A categoria de contos, crônicas e poesias é aberta apenas aos moradores de Caxias do Sul, também maiores de 16 anos.
Cada concorrente deverá apresentar três trabalhos inéditos do gênero escolhido. Os vencedores recebem troféu e publicação do trabalho. Na categoria contos, crônicas e poesias também há premiação em dinheiro no valor de três salários mínimos. Informações detalhadas sobre a inscrição podem ser obtidas pelo telefone (54) 3221-1118 ou pelo e-mail bibliotecapublica@caxias.rs.gov.br
Banco de olhos visa ampliar transplantes
Foi inaugurado nesta terça 21 o Banco de Olhos do Hospital Pompéia. A verba necessária para a compra de equipamentos, R$ 100 mil, foi doada integralmente pelo Lions Club Caxias do Sul São Pelegrino. A lista para transplante de córneas de Caxias do Sul e região tem 70 pessoas; a do Estado contabiliza mais de 900 pacientes. O tempo médio de espera na lista única estadual é de cerca de dois meses.
Desde 2004, o Pompéia já realizou 107 transplantes de córneas "Em 2005, 17% dos óbitos no hospital resultaram em doações de córneas, enquanto a meta do Ministério da Saúde é de que 10% dos óbitos no país se transformem em doações efetivas", enfatiza a coordenadora da Comissão Intra-hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes do Pompéia, Dra. Luciana Leonardelli.
Segundo ela, os números poderiam ser ainda melhores, pois cerca de 26% dos óbitos totais do Pompéia em 2005 não tiveram o aval da família para a doação. "Quando analisamos separadamente os casos passíveis de doação, ou seja, quando o doador cumpre todos os requisitos para que a doação seja efetivada, esse número, lamentavelmente, sobe para mais de 49%", complementa.
Hospitais voltam a oferecer hemodiálise
O serviço de hemodiálise oferecido pelos hospitais Geral e Pompéia, de Caxias do Sul, deve voltar a funcionar nesta semana. A garantia é do secretário municipal da Saúde José Luiz Bertoluci. O município, em parceria com a Vigilância Sanitária Estadual e o Ministério da Saúde, realizou na semana passada medidas de desinfecção e reparos nos sistemas das duas instituições. Há cerca de dois meses, os 120 pacientes da cidade que dependem de hemodiálise estavam sendo encaminhados para outros hospitais da região.
Pesquisa aponta crescimento do consumo de vinho
Em média, cada brasileiro bebeu 2,01 litros em 2005, 14,2% a mais que em 2004
O brasileiro está consumindo mais vinho, mais suco de uva e mais uva de mesa. Ao mesmo tempo, reduziu a produção de uva e de vinho. Esse cenário aparentemente contraditório foi montado pela pesquisadora da Embrapa Uva e Vinho, de Bento Gonçalves, Loiva Maria Ribeiro de Mello, a partir de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E embora os números possam induzir a uma distorção, a avaliação aprofundada revela uma certa lógica - mesmo que obtida com uma seqüência de estimativas, recurso obrigatoriamente usado para suprir a carência de informações amplas e exatas.
Em artigo especial, Loiva concluiu que o consumo per capita de vinho no Brasil saltou de 1,76 litro em 2004 para 2,01 litros em 2005. O crescimento de 14,2% em apenas um ano impressiona. Foge dos padrões dos últimos anos - de 2001 a 2003 houve até redução (observe tabela). Questionada sobre a origem deste incremento, a pesquisadora despeja uma jamanta de números, agrupados em tabelas e gráficos que, lidos isoladamente, suscitam dúvidas. Informações complementares, no entanto, conduzem a um ponto muito próximo do esclarecimento. "Cheguei a 2,01 litros somando o consumo do vinho de mesa com o de vinhos finos, nacionais e importados, mais os espumantes, os frisantes, os licorosos e outros, e dividindo o resultado pela população do país", explica.
Vendas - Os dados sobre comercialização de vinhos em 2005 fortalecem os argumentos de Loiva. Houve um crescimento somente no Rio Grande do Sul de 20,3% na venda de vinhos de mesa (de 225,3 milhões de litros em 2004 para 271,2 milhões de litros) e de 12,3% dos vinhos finos (de 19,8 milhões de litros para 22,3 milhões de litros). O consumo de vinhos finos importados também aumentou, embora em proporções reduzidas - de 36,1 milhões de litros para 37,4 milhões de litros.
Mas como pode crescer o consumo num ano em que a produção de vinhos sofreu queda de 23,6% (de 355,6 milhões de litros para 271,5 milhões de litros) no Rio Grande do Sul, o maior produtor nacional? Loiva recorre a uma palestra do seu colega pesquisador da Embrapa, José Fernando Protas, em que ele afirmou que os estoques de vinhos finos no início de 2005 seriam suficientes para abastecer o mercado por quatro anos. A oferta permitiria, portanto, crescimento até maior de consumo mesmo que não fosse produzido sequer um litro de vinho em 2005.
Dificuldades - Calcular o consumo per capita de vinho é relativamente simples, encontrar os números reais da produção, comercialização e consumo de vinhos no Brasil é que é tarefa difícil - quase impossível. O Rio Grande do Sul é o único Estado com certa organização porque realiza o Cadastro Vitícola, do qual Loiva é coordenadora. Mas não estão ainda disponíveis os dados sobre a produção de uva de 2005.
Problema maior é apurar a produção no restante do país. O último dado sobre produção de vinho em São Paulo disponível é de 1999 - cerca de um milhão de litros. E foi apurado pelo IBGE, que aplica metodologia completamente diferente da usada para o Cadastro. São Paulo é o segundo maior produtor de uvas do Brasil, embora a quase totalidade da safra seja de uva de mesa. Há que se considerar ainda o fato de muitos viticultores, especialmente gaúchos e catarinenses, produzirem vinho para consumo próprio, quantidades nunca declaradas em levantamentos sobre a realidade do setor. "O consumo per capita real é sempre maior que o encontrado, mas isso não é particularidade apenas brasileira", afirma Loiva.
A se confirmar o salto, será a primeira vez em pelo menos cinco anos que o brasileiro consome em média mais de dois litros de vinho. Mesmo admitindo-se a plena procedência do avanço, ele não oferece motivo para comemoração: a Argentina, apesar de histórico encolhimento, consome 32 litros per capita; o Chile, mais de 14 litros, a França, 57 (veja tabela).
Mas o número é importante. O Programa de Desenvolvimento Estratégico da Vitivinicultura-RS, o Visão 2025, lançado em setembro do ano passado pelo Ibravin e outras entidades, partiu do consumo per capita de 1,81 litro em 2005 e traçou como meta atingir 9 litros em duas décadas. Pela projeção, chegaria a 2,7 litros em 2010. Pode superar esse desafio antes.
Metodologias e resultados
O IBGE adota critérios muito diferentes dos usados pelo cadastro Vitícola no RS. E está muito defasado. Em relação a pesquisas sobre vinhedos, a última base é de 1996. Pelo IBGE, havia 93.733 empreendimentos (informantes) com uva no Brasil, 46.246 para vinho. Desse total, 58.606 estavam no RS. O Instituto considera qualquer produtor, mesmo aquele que tem duas ou três parreiras para consumo próprio. Já o Cadastro é restrito aos vinhedos para processamento - comercial. São 15.169 propriedades. Isso explica também a diferença de área.
Vinícola absorve menos de 50% da uva
A produção total de uva no Brasil em 2005 foi apenas 2,89% inferior a 2004. Mas quando se compara a uva usada na elaboração de vinho, o percentual cresce. O Rio Grande do Sul, maior produtor, colheu 84,6 milhões de quilos a menos em 2005 e praticamente todo esse volume seria utilizado para a elaboração de vinhos e derivados. O reflexo dessa queda está exposto de forma clara no destino da safra.
Conforme a pesquisadora da Embrapa Loiva de Mello, em 2004, 48,7% da uva produzida no Brasil foram industrializados pelas cantinas. Em 2005, o índice para esta finalidade caiu para 44,19%. Da safra nacional de 2005, que atingiu 1,246 milhão de toneladas, 695 mil toneladas foram para consumo in natura e 550,7 mil para vinhos e derivados. Em 2004, foram processadas 624,4 mil toneladas.
Dívidas levam agricultor a protestar em todo o Estado
Cem mil famílias gaúchas não poderão pagar seus débitos junto aos bancos
Pelo menos 100 mil famílias produtoras de arroz, milho, soja, trigo e sorgo não poderão quitar suas dívidas com o Pronaf. As estiagens de 2005, quando 451 municípios gaúchos decretaram situação de emergência ou calamidade pública, e de 2006, com 37 municípios afetados pela seca, comprometeram a produção e, conseqüentemente, a renda agrícola.
A resolução 3.314/8/09/05, do Banco Central, fixou o pagamento das parcelas do Pronaf, cujos vencimentos ocorreram em junho, julho e agosto de 2005, prorrogando a quitação para março e abril de 2006. "Devido ao grau de endividamento e descapitalização, os agricultores familiares querem adiar de novo os financiamentos", explica o diretor-secretário da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do RS (Fetag/RS), Elton Weber.
O endividamento está levando a Fetag a promover sete mobilizações em todo o Estado (ver quadro). Os produtores familiares pedem a consolidação e repactuação dos financiamentos até o valor de R$ 72 mil, com prazo de seis anos, com dois de carência e juros de 1% ao ano; rebate de 50% no valor das parcelas, para quem pagar em dia, se a dívida for do Pronaf (grupos A, B, C, A/C e D). "Se for do grupo E e do Proger, o rebate será de 30% no valor das parcelas das dívidas", esclarece o presidente da Fetag, Ezídio Pinheiro.
Em relação às dívidas junto às cooperativas de produção e às cooperativas agropecuárias, os produtores rurais pedem a liberação de crédito até o valor mínimo da dívida, chegando ao máximo a R$ 15 mil, com prazo de seis anos, dois de carência e juros de 1% ao ano.
As notícias continuam não sendo favoráveis aos agricultores. Os preços dos produtos agrícolas no início deste ano estão mais baixos do que os do mesmo período de 2005, o que agrava ainda mais a renda.
A CNA, por exemplo, não espera grandes mudanças no cenário agrícola para 2006. "A expectativa é de estagnação ou de um crescimento modesto, de 1% a 2%, de forma que não dará para recuperar as perdas do ano passado", enfatiza o chefe do departamento de economia da CNA, Getúlio Pernambuco.
Fenasul enfoca o agronegócio sulino
A Feira Nacional de Agronegócios do Sul (Fenasul), que ocorrerá de 26 de abril a 1º de maio, no Parque Assis Brasil, em Esteio, tem o desafio de tornar-se o principal evento agropecuário no primeiro semestre do ano. Promoção do Estado e da Associação de Criadores de Gado Holandês do RS, a feira foi lançada na terça 14.
As feiras e exposições que integrarão a Fenasul deste ano são a 2ª Expholcri - exposição brasileira de gado holandês, a 6ª Expoutono - exposição de aves ornamentais, coelhos, avestruz, chinchilas e cães; 6ª Expocoop, de cooperativas agropecuárias; a 4ª Feira de Terneiros, 4ª Feira da Agricultura Familiar, Feira de Gado de Corte, Feira de Eqüinos, Feira de Ovinos, Feira de Suínos, a 3ª Feira do Município de Esteio e a Feira Múltipla de Utilidades. Mais de 400 expositores estarão no Parque Assis Brasil.
UE suspende compra de mel brasileiro
Para os próximos seis meses, o Brasil não poderá mais exportar mel para a União Européia (UE). A UE exige que o Ministério da Agricultura reestruture o Programa Nacional de Controle de Resíduos, a fim de se adequar às normas da UE. "Há necessidade de mais análises de controle de qualidade, semelhantes às realizadas na Europa", diz o diretor do Departamento de Assuntos Sanitários, Odilson Ribeiro.
Uma das queixas da União Européia diz respeito ao mel que é obtido, principalmente no Nordeste, por processos de extrativismo. Ceará e Piauí teriam os produtores mais afetados por causa da decisão da UE. Agora, o ministério pretende incentivar a certificação do produto como orgânico; dar apoio às associações de produtores de mel; verificar programas de educação sanitária e formação.
Em 2005, o Brasil exportou 14,4 mil toneladas de mel para a UE, gerando receita de US$ 18,9 milhões. Segundo a Confederação Brasileira de Apicultura (CBA), o país possui cerca de quatro milhões de colméias produzindo 33 mil toneladas de mel por ano.
Transgênicos ficam sem identificação
Decisão vale até 2012 para importações e exportações de grãos
Até 2012, não será obrigatória a identificação de grãos geneticamente modificados nas exportações e importações entre países signatários do Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança (MOP3), como o Brasil. Essa identificação será feita conforme a capacidade técnica de cada nação. O acordo foi definido na sexta 17 na Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), realizada em Curitiba (PR).
No entanto, nos países-membros onde a cadeia produtiva já está separada entre transgênicos e não-modificados geneticamente (OGMs), a partir de agora será usada a palavra "contém" na rotulagem dos carregamentos internacionais. Nas negociações entre um país que assinou o documento e outro não-signatário deverá ser usada a expressão "pode conter".
O Brasil, favorável à identificação, defendia o uso da expressão "contém" para cargas de organismos vivos modificados (OVM) com informações de todo o processo de produção, transporte e armazenagem, por um período de quatro anos. A posição brasileira foi comemorada pela ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Porém, a decisão final pelo uso da identificação ficou para a reunião que será realizada em 2012.
Para a assessora jurídica da organização não-governamental Terra de Direitos, Maria Rita Reis, o acordo reflete um cenário em que esses espaços de decisão internacional são cada vez mais dominados pelo poder que as empresas transnacionais têm sobre os países.
O agronegócio brasileiro defende abertamente o "pode conter" para produtos com OVMs. Conforme o professor José Maria da Silveira, do Núcleo de Economia Agrícola da Unicamp, haverá um crescimento médio de 3% nos custos da produção de soja no país, no caso da proposta defendida pelo Brasil na MOP3. Segundo Silveira, os custos de exportação da soja poderiam crescer em até US$ 14 milhões (cerca de R$ 30 milhões).
Origem - A reunião da CDB ocorre a cada dois anos. A última foi realizada em Kuala Lumpur, na Malásia, em 2004. Foi aprovada em 1992 durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92 ou Eco-92), no Rio de Janeiro.
Ambiente internacional vai a debate
Curitiba é sede, desde segunda 20, da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP-8). As discussões sobre meio ambiente vão ocorrer na capital do Paraná ao longo de 12 dias por cerca de 6.000 representantes de mais de 190 países, entre delegações, cientistas e observadores.
Os debates foram divididos em quatro temas principais: a criação e implementação de áreas protegidas, o acesso a recursos genéticos, a proteção de conhecimentos tradicionais da sociobiopirataria e o compartilhamento com comunidades locais dos benefícios advindos desse uso.
Os temas dos quatro grupos permanentes de trabalho foram criados na conferência da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP-7), ocorrida há dois anos, na Malásia. Eles deverão nortear as duas semanas de debate internacional sobre meio ambiente.
"Os grupos de trabalho discutiram nesses dois anos e trouxeram algumas sugestões de como tratar no âmbito internacional desses quatro temas. É durante a conferência que os países signatários avaliam e decidem pela adoção ou não dessas propostas e também daquelas apresentadas pelo secretariado da convenção", disse a diplomata brasileira Adriana Tescari. A proposta só passa se houver consenso entre todos os países.
Engº. Agrº. José Zugno
Feijão para identificar
Estou enviando em anexo um exemplar de leguminosa conhecida aqui com o nome de ervilha-de-verão para a identificação e gostaria de saber maiores informações a respeito, o que desde já agradeço.
Clélia S. R. Zanolla
Colorado - RS
Recebi a vagem remetida para exame e identificação botânica. A vagem seca, cilíndrica, de cor bege, comprimento 16 cm e 0,8 cm de diâmetro, não totalmente reta, mas recurvada, contendo 16 sementes de forma de feijão curto, de cor branco-amarelada, de 4 a 8 milímetros na maior dimensão, com hilo escuro de centro branco.
Gostaria que a prezada leitora, junto com a vagem remetida, tivesse fornecido dados sobre a planta: porte, cor das flores, outros dados como a finalidade por que é cultivada ali, pois isto facilitaria muito a identificação, uma vez que a vagem enviada é muito semelhante às vagens de diversas espécies e variedades de leguminosas.
Penso que se trata de uma das inúmeras variedades do feijão denominado cientificamente "Vigna sinensis", das leguminosas papilionáceas e conhecido popularmente por muitos nomes: feijão miúdo, feijão-da-China, feijão-de-olho preto, feijão ervilha, fava-de-vaca e outros nomes como ervilha-de-verão, cultivado em sua região. No Sul dos Estados Unidos a espécie é muito cultivada. É chamada de "Cow-pea".
Caracteres gerais - Compreende plantas de ciclo anual, em geral de porte ereto, semi-arbustivas de até 60 cm de altura, ou apresenta-se como trepadeira de rastejante, originária da África Central. Foi introduzida no Brasil desde os tempos coloniais. As folhas, pecioladas, compostas de 3 folíolos ovados triangulares com extremidades agudas ou obtusas, estípulas na base do pecíolo.
As flores iguais de todas as papilionáceas, quase sésseis e reunidas em grupos de 6 a 10 em cachos (racimo), de cores diversas, conforme as variedades. Os frutos são as vagens cilíndricas, retas ou recurvadas, de comprimento variável e contêm sementes também variáveis no formato, tamanho e nas cores, geralmente branquicentas, com hilo de centro branco.
As plantas desta espécie são rústicas: vegetam bem em regiões de clima tropical, subtropical e temperado como o do Rio Grande do Sul, nos meses livres de geada. As variedades de ciclo curto são as preferidas.
A rusticidade da planta aplica-se igualmente ao solo que pode ser predominantemente arenoso, argiloso ou seco, só não pode ser muito úmido ou mal drenado. Apesar da rusticidade responde bem à adubação.
Variedades - Existem dezenas e dezenas de variedades da espécie, que se distinguem por características próprias, de porte, comprimento das vagens, duração do ciclo, cor das flores, cor, formato e tamanho das sementes e outros tantos detalhes.
As variedades foram obtidas fortuitamente por cruzamentos naturais ou artificialmente pelo engenho humano.
Utilização - Enquanto jovem, a vagem pode ser utilizada na alimentação humana. Também pode ser usada como adubo verde, pois sendo leguminosa, por sua propriedade nitrificante (fixadora do nitrogênio do ar), beneficia qualquer tipo de solo. Porém, por suas características de rápido crescimento, abundante massa verde, de alto valor nutritivo, sua principal utilização é como forrageira para bovinos, ovinos e suínos.
"Verde ou fenado o feijão miúdo é muito apreciado pelo gado", afirma o engenheiro agrônomo Nelson J. Pupo, do Instituto Agronômico de Campinas (SP), em seu livro "Manual de Pastagens Forrageiras".
O plantio desta forrageira, nas regiões de clima quente, pode ser efetuado durante o ano todo; no Rio Grande do Sul e nas regiões sujeitas a geadas de inverno, a partir da primavera. A semeadura é feita a lanço, usando 60 a 80 kg/ha ou em linhas espaçadas de 40 cm, usando 25 a 40 kg/ha.
A plantação normal pode proporcionar dois cortes ao ano, o primeiro antes da floração a 15 cm do solo para favorecer nova brotação. O segundo corte presta-se para a fenação, quando as vagens estão maduras.
A forrageira pode ser consorciada com gramíneas baixas ou igualmente nas entrelinhas das gramíneas altas como sorgo e milho.
Em qualquer caso que se deseja utilizar, convém solicitar e seguir a orientação dos técnicos que atuam na região.
Tuberculose ainda faz 2 milhões de vítimas anuais em todo mundo
Brasil está entre os 22 países que abrigam a maioria dos casos
Segundo a Organização Mundial da Saúde, dois bilhões de pessoas no mundo estão infectados pelo bacilo de Koch, causador da tuberculose. Desses, 8 milhões por ano desenvolvem a doença e 2 milhões morrem. Descoberta a mais de 120 anos, a tuberculose ainda é a maior causa de morte por doença infecciosa em adultos.
No Brasil, existem cerca de 92.500 tuberculosos, numa taxa de incidência de 48,4 por cada grupo de 100 mil habitantes. Os números preocupam principalmente porque o país está entre os 22 onde ocorrem 80% dos casos de tuberculose em todo o mundo. Com o objetivo de alertar a população para os riscos e prevenção da doença, em 24 de março é Dia Mundial de Luta Contra a Tuberculose.
Segundo o Ministério da Saúde, no Brasil, a idade média do portador de tuberculose é 36 anos. A maioria dos doentes, 64,5%, é do sexo masculino. Dados da Secretaria de Vigilância em Saúde apontam que cerca de 6 mil pessoas morrem todos os anos no país em decorrência da tuberculose. Anualmente, são diagnosticados, em média, 85 mil novos casos da doença.
A tuberculose é uma doença grave, transmitida pelo paciente ao falar, espirrar ou tossir, por meio das gotas de secreção respiratória que se propagam pelo ar. Causada por um microorganismo, o bacilo de Koch, cientificamente chamado Mycobacterium tuberculosis, a enfermidade pode atingir todos os órgãos do corpo, em especial os pulmões. A identificação precoce da doença é fundamental para o sucesso do tratamento (abaixo).
24 de março foi escolhido como Dia Mundial de Luta Contra a Tuberculose porque nesta data, em 1882, Robert Koch descobriu o bacilo causador da doença. Na época, esse mal matava 1 de cada 7 cidadãos.
Aids eleva chance de contrair bacilo
Uma questão que agrava o quadro da tuberculose em todo o mundo é a associação com a Aids. No Brasil, 8% dos pacientes com a doença também têm Aids. Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 25% dos portadores do HIV/Aids podem desenvolver tuberculose.
A doença se manifesta com maior freqüência em áreas com baixo Índice de Desenvolvimento Humano. O crescimento populacional nas periferias das grandes cidades contribuiu para o aumento do número de casos no Brasil.
Tratamento não pode ser abandonado
O diagnóstico precoce é a medida mais recomendada para que o tratamento da tuberculose seja eficaz. Atualmente, o índice de cura dos casos tratados no Brasil é de 71%.
Todas as pessoas que apresentarem tosse com catarro por mais de três semanas seguidas devem procurar uma unidade do Sistema Único de Saúde (SUS), mesmo que não se manifestem os outros sintomas associados à doença (quadro acima). Os postos de saúde pública oferecem os medicamentos gratuitamente. Os pacientes devem tomar todos os remédios recomendados durante seis meses. Apesar da melhora dos sintomas já nos primeiros dias após a ingestão da medicação, o tratamento não pode ser abandonado.
Uma das preocupações no combate à tuberculose é proteger as crianças. A doença atinge principalmente jovens e adultos. Porém, se existe um doente em casa, a maior parte das crianças com as quais ele convive acaba infectada.
Ao nascer, as crianças devem tomar a vacina BCG, que protege contra formas graves de tuberculose. A prevenção exige um reforço da vacina entre os 6 e os 10 anos. A dose é oferecida na rede pública de saúde.
Ação alerta contra câncer de intestino
Março também é o mês mundial de conscientização do câncer colorretal. Este é o quarto tipo de câncer mais comum no Brasil, que afeta três pessoas por hora. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), mais de 26 mil novos casos serão diagnosticados este ano no país, sendo mais de 3 mil só no Rio Grande do Sul.
Pensando nisso, a Associação Brasileira do Câncer realiza dia 23 uma ação, com distribuição de folhetos explicativos, em Porto Alegre, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. O objetivo é conscientizar a população sobre esse tipo de tumor.
"É preciso chamar a atenção da população para esse câncer. Se tivermos consciência da doença, teremos um diagnóstico precoce, o que aumenta muito as chances de cura", alerta a presidente da Associação Brasileira do Câncer, Vitória Herzberg.
O câncer colorretal, também chamado de câncer de intestino, desenvolve-se geralmente a partir de lesões que crescem na parede do intestino e evoluem para câncer com o passar do tempo. Os principais fatores de risco para a doença são alimentação rica em gorduras, com muitas calorias e pobre em fibras, ter parente de primeiro grau com câncer colorretal, mulheres que tiveram câncer de ovário, do endométrio ou de mama, ser fumantes, entre outros.
Lançada a 1ª prótese de quadril brasileira
Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul anunciam o lançamento da primeira prótese de quadril brasileira validada por testes internacionais, o que representa uma esperança para milhares de pessoas que aguardam um implante similar. O produto, já disponível, é 40% mais barato do que o importado, que custa, em média, R$ 15 mil.
Segundo o Instituto Nacional de Traumato-Ortopedia 7 mil pessoas aguardam um implante ortopédico. "Estes pacientes têm condições de andar no dia seguinte à cirurgia, mas eles ficam, em média, de dois a três anos na fila para fazer a cirurgia", afirma o diretor-geral do instituto, Sérgio Côrtes. A prótese de quadril se torna necessária devido a vários fatores, entre eles, má formação óssea, acidentes e problemas de sobrepeso e desgaste físico.
Uva ajuda a combater a gripe
A vitamina C já não figura mais sozinha na lista de substâncias eficazes contra a gripe. Pesquisadores do Instituto de Microbiologia de Roma, na Itália, acreditam no potencial do resveratrol, uma substância encontrada na uva escura e, conseqüentemente, no vinho tinto.
Por meio de testes em tubos de ensaio e cobaias, os italianos constataram que essa substância é capaz de inibir a replicação do vírus influenza. A nutricionista Vanderli Marchiori, do Conselho Regional de Nutricionistas de São Paulo, atribui o benefício à ação antioxidante do resveratrol. Além de auxiliar no combate a gripe, a substância já é bem conhecida por oferecer proteção contra as doenças cardiovasculares.
Leonardo Boff
Oficializou-se a expressão desenvolvimento sustentável. Passados mais de dez anos, constatou-se que o desenvolvimento havido se mostrou absolutamente insustentável porque praticamente todos os itens ambientais pioraram
A convenção organizada pela ONU que ocorreu na semana passada em Curitiba sobre a biodiversidade biológica, sob certo ponto de vista é tão ou até mais importante do que aquela que ocorreu em 1992 no Rio de Janeiro. Então se tratava de ver a relação entre desenvolvimento e meio ambiente. Oficializou-se a expressão desenvolvimento sustentável. Passados mais de dez anos, constatou-se que o desenvolvimento havido se mostrou absolutamente insustentável porque praticamente todos os itens ambientais pioraram. Viu-se que pertence à lógica deste tipo de desenvolvimento devastar ecologicamente e criar desigualdades sociais. Agora a humanidade lentamente está se dando conta de que ele pode ameaçar a vida de Gaia e o futuro da humanidade. Por isso o tema mais urgente e fundamental é: como garantir e salvar a vida?
Neste contexto convém refletirmos rapidamente sobre o que é a vida. As respostas consagradas são que ela provém de Deus ou que ela é habitada por algo misterioso ou mágico. Mas nossa visão mudou radicalmente quando, em 1953, Crick e Watson decifraram a estrutura de uma molécula do ácido desoxirribonucléico (DNA) que contém o manual de instruções da criação humana. A molécula DNA consiste em múltiplas cópias de uma única unidade básica, o nucleotídeo, que ocorre em quatro formas: adenina (A), timina (T), guanina (G) e citosina (C). Esse alfabeto de quatro letras se desdobrava num outro alfabeto de vinte letras que são as proteínas. Formam o código genético que se apresenta numa estrutura de dupla-hélice ou de duas cadeias moleculares. Ele é o mesmo em todos os seres vivos. Watson e Crick concluíram: "A vida nada mais é que uma vasta gama de reações químicas coordenadas; o ‘segredo’ desta coordenação é um complexo e arrebatador conjunto de instruções inscritas quimicamente em nosso DNA" ( Cf. DNA, Companhia das Letras 2005, p. 424).
Com isso, a vida foi inserida no processo global da evolução. Após a grande explosão do big-bang, há quinze bilhões de anos, a energia e a matéria liberadas foram se expandindo, se densificando, se complexificando e criando novas ordens à medida em que avançava. Alcançado um nível alto de complexidade da matéria, irrompeu a vida como um imperativo cósmico. A vida representa, pois, uma possibilidade presente nas energias originárias e na matéria primordial. A matéria não é "material" mas um campo altamente interativo de energias. Este evento maravilhoso ocorreu num minúsculo planeta do sistema solar, a Terra, há 3,8 bilhões de anos. Mas ela não detém, segundo o prêmio Nobel de medicina Christian de Duve (1974) a exclusividade da vida. Em seu livro Poeira vital escreve: "O universo não é o cosmo inerte dos físicos com uma pitada a mais de vida por precaução. O universo é vida com a necessária estrutura à sua volta; consiste em trilhões de biosferas geradas e sustentadas pelo restante do universo" (Objetiva 1997, p.383).
Não precisamos recorrer a um princípio transcendente e externo para explicar o surgimento da vida. Basta que o princípio da complexidade e de auto-organização de tudo, o princípio cosmogênico, esteja presente naquele pontozinho primordial que primeiro se inflacionou e depois explodiu, este sim criado por uma Inteligência suprema, um infinito Amor e eterna Paixão. A vida, esta floração maior do processo da evolução hoje está ameaçada, por isso a urgência de cuidá-la.
Frei Betto
Dê à pessoa uma fatia de poder e saberá quem de fato ela é. O poder, ao contrário do que se diz, não muda as pessoas. Faz com quem se revelem
O poder intriga. Exerci-o poucas vezes: dirigente estudantil, chefe de reportagem... Mais recente, em 2003 e 2004, assessor especial do presidente da República, com direito a gabinete no Palácio do Planalto e uma infra nada desprezível: secretárias, celular, viagens aéreas, moradia, carro com motorista, tudo pago pelo contribuinte...
Muito aprendi. Algumas lições trago de berço. Meu avô e meu pai também serviram em palácios do governo.
A pessoa revestida de poder - qualquer um, de síndico ou gerente, policial ou político - deveria dar ouvidos ao que dela dizem seus subalternos. Vox populi... Mas não é o que acontece em geral. Prestamos mais atenção ao juízo dos pares e superiores, em busca de reconhecimento de quem tem poder de ampliar o nosso poder.
Assim, sobre os subalternos desaba aquele nosso outro lado perverso que tanto esmeramos em esconder aos olhos de nossos pares e superiores. Todavia, cavalo indomado, se não somos contidos pelas rédeas da boa educação, ai dos subalternos! Quem está por cima tem o poder de adverti-los, censurá-los, puni-los ou demiti-los. Como não nos ameaçam, deixamos extravasar o demônio que nos habita. Desarrazoados, elevamos a voz, humilhamos, xingamos, repreendemos, e por pouco não avançamos para cobrir a vítima de sopapos.
Dê à pessoa uma fatia de poder e saberá quem de fato ela é. O poder, ao contrário do que se diz, não muda as pessoas. Faz com que se revelem. É como o artista a quem faltavam pincel, tintas e tela, ou o assassino que, afinal, dispõe de arma. O poder sobe à cabeça quando já se encontrava destilado, em repouso, no coração. Como o álcool, embriaga e, por vezes, faz delirar, excita a agressividade, derrub a escrúpulos. Uma vez investida da função ou cargo, título ou prebenda, a pessoa se crê superior e não admite que subalternos contrariem sua vontade, suas opiniões, suas idéias e seus caprichos.
Na falta de uma psicologia do poder mais sistemática, à qual não faltam as valiosas contribuições de Adler e Reich, recorro aos clássicos da literatura. Desde a Bíblia, destacando-se os livros do Pentateuco, às obras de Shakespeare, Kafka e o nosso Machado de Assis.
O dramaturgo inglês bem retrata as ambições e as intrigas do poder. O autor de A metamorfose revela a sua face opressiva, a arrogância, o modo como tende a anular a dignidade do cidadão comum. E Machado de Assis não faz por menos, embora com mais sutileza, porém incisivo.
Leia-se o conto O espelho. Ali, um tratado completo de patologia do poder. O jovem Jacobina, de origem pobre, é nomeado alferes. Descobre, pois, que "cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora; outra que olha de fora para dentro..." (...) "Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor etc."
Recolhido à fazenda da tia, Jacobina se espanta por todos o tratarem de "senhor alferes" (o que me faz recordar que, no Planalto, todos são chamados de "doutor" ou "doutora", ainda que o funcionário nunca tenha pisado uma faculdade). Sua "alma exterior" anula a "interior". Jacobina só se dá conta da aberração quando se vê a sós na propriedade. Não é a solidão que o assusta. É a própria insignificância. Havia se acostumado a se olhar apenas de fora para dentro. Até que, uniformizado, contempla-se no espelho.
Recupera então a auto-estima, o orgulho, a "alma exterior" que lhe despersonalizara, castrando-lhe a verdadeira identidade.
Nem todos que ocupam poder deixam que a "alma exterior" prevaleça sobre a "interior". Esses fazem do poder serviço e não temem o juízo de seus subalternos, nem mesmo críticas. Pois sabem que somos todos feitos de barro e sopro, e o que importa na vida é a bagagem subjetiva, não os adereços objetivos.
Sem o talento de Machado de Assis, porém inspirado em seu poema A mosca azul, ousei levar ao papel minha reflexão sobre o poder. Resultou no livro A mosca azul, que a editora Rocco faz chegar este mês às livrarias. Meus dois anos no governo Lula me estimularam a partilhar com os leitores meu ponto de vista a partir de um ponto - o Palácio do Planalto, coração do poder.
Quadro da sucessão começa a ganhar forma
PSDB anuncia Alckmin para concorrer com Lula; PMDB ainda luta contra fortes divisões internas
Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, é o candidato do PSDB à Presidência da República. O anúncio foi feito na semana passada, depois de três meses de indefinição entre o escolhido e José Serra, prefeito de São Paulo. Serra, que enfrentou Lula na eleição passada, era apontado por pesquisas como mais forte candidato, tinha o apoio da cúpula tucana, mas ficou fora por vários motivos: estava preso ao compromisso de terminar o mandato de prefeito, fez mistério sobre sua intenção e, quando decidiu concorrer, fez exigências não aceitas.
Formado em medicina, com pós-graduação em anestesiologia, Alckmin ingressou na política concorrendo a vereador em sua cidade natal, Pindamonhangaba, aos 19 anos, pelo então MDB. Conquistou a vaga com 10% dos votos. Na seqüência, foi prefeito do município, deputado estadual, deputado federal e vice-governador de Mário Covas. Assumiu o governo paulista com a morte de Covas, em 2001, e depois, como governador eleito, em 2003.
Aos 53 anos de idade, Alckmin leva para a campanha números que atestam o seu bom desempenho na administração do Estado mais rico da União. E elegeu três bandeiras para desfraldar nos palanques: a ética, a eficiência e reformas.
Alckmin, cujo comportamento discreto levou-o a ser classificado como um político sem cheiro e sem cor, o Picolé de Chuchu, tem como traço forte de seu perfil a persistência. Foi com ela que suplantou desafios internos no PSDB até alcançar seu objetivo.
É com esta obstinação que Alckmin pretende recuperar índices nas pesquisas de opinião. Antes de ser anunciado como candidato, estava mais de 20 pontos percentuais atrás de Lula. Na pesquisa divulgada sábado 18 pelo Datafolha, havia crescido 6 pontos percentuais - passou de 17% para 23% enquanto Lula caiu de 43% para 42%. Tem ainda outro trunfo: é um candidato com baixíssimo índice de rejeição.
Disputas internas e consulta tumultuada envolvem PMDB
O PMDB trava uma luta interna sem saber sequer se terá candidato próprio à presidência da República. A semana passada foi de permanente tensão. De um lado, a ala governista, liderada pelos senadores José Sarney e Renan Calheiros, quer o partido aliado do PT e fez de tudo para impedir as prévias disputadas domingo 19 entre o governador gaúcho Germano Rigotto e o ex-governador do Rio Anthony Garotinho.
O PMDB travou uma guerra de liminares com o presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Edson Vidigal, só encerrada pouco antes das 23 horas de sábado. Vidigal manteve sua decisão de suspender as prévias marcadas para o dia seguinte. O comando do partido resolveu então dar às prévias o caráter de consulta informal a militantes.
Em clima de impasse, o presidente do PMDB, deputado Michel Temer, anunciou na madrugada de segunda 20 que o ex-governador Garotinho venceu a consulta. Rigotto perdeu mesmo após receber o maior número de votos absolutos - 7.574 contra 4.910 de Garotinho.
Segundo as regras acertadas antecipadamente, os votos tiveram pesos diferentes, dependendo da representatividade de cada diretório regional. Pelos critérios de proporcionalidade, Garotinho venceu a consulta com 56,62% dos votos contra 43,8% de Rigotto. O total de votos válidos foi de 12.773, enquanto 23.288 militantes estavam aptos a votar. Mas esses critérios contêm disparates. O Rio Grande do Sul, que tem o maior colégio eleitoral (direito a 3.303 votos), representou apenas 4,2% do total. No Rio, onde votaram 963 filiados, o peso dos votos correspondeu a 14%.
A vitória não garante a candidatura de Garotinho. O PMDB depende ainda de decisão do STF sobre verticalização, anunciada para esta semana. Dia 8 de abril o partido fará convenção extraordinária. O prazo legal para as convenções que homologarão as candidaturas é de 10 a 30 de junho.
Outros candidatos
O PSOL deve disputar a Presidência da República tendo como candidata a senadora Heloísa Helena. Roberto Freire é o mais cotado pelo PPS, Cristóvão Buarque pelo PDT e José Maria Eymael pelo PSDC. Mas o quadro de candidatos será oficialmente definido somente em junho.
A GRIPE DO MEDO
A gripe das aves está tirando o sono do mundo. Teme-se que o vírus possa sofrer alterações que o tornem capaz de ser transmitido de um ser humano para outro. Sobre o medo projeta-se a sombra de outras epidemias, como a sars e a gripe espanhola. Os pesquisadores alertam para o fato de que, no início do século XX, um vírus demorava cerca de quatro meses para chegar aos cinco continentes. Hoje, a velocidade dos meios de transporte e a quantidade de pessoas e cargas que circulam pelas fronteiras baixaram esse tempo para apenas quatro dias. Contudo, desde que surgiu, em 1997, vitimou 101 das 194 pessoas contaminadas
O medo tem nome: chama-se H5N1, popularizado como vírus da gripe aviária, oito mil vezes menor que o diâmetro de um fio de cabelo humano. Ele teve seu primeiro foco em Hong Kong, em 1997, com a morte de um menino. Depois, espalhou-se pela Ásia, chegou à África e à Europa, somando 36 países. Até sexta-feira 17, o vírus sepultara 101 pessoas de um total de 194 infectadas.
Transmitido às pessoas através de aves contaminadas, o H5N1 é um dos vírus de gripe que compõem o amplo e diversificado leque do vírus Influenza - assim chamado porque se acreditava, na época de Hipócrates (nasceu na Grécia em 460 a.C.), que a gripe era "influência dos espíritos". As letras H (hemaglutinina) e N (neuraminidase) correspondem às duas proteínas que o vírus traz em sua superfície e pelas quais ele invade as células de seus hospedeiros e atua dentro delas, liberando o material genético.
Por que um vírus de tamanho tão insignificante assusta o mundo? Porque ocorrendo uma mutação genética (diversos vírus Influenza mudam geneticamente), o H5N1 será transmitido pelo ar, da mesma forma que se transmite o vírus da gripe comum. A diferença é que este é infinitamente mais lesivo ao organismo humano, atingindo rapidamente diversos órgãos, como pulmões, rins, estômago e intestino. Pode levar à morte por falência múltipla de órgãos.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima em cerca de 150 milhões o número de mortos em caso de pandemia, o equivalente a três vezes as vítimas fatais da Segunda Guerra Mundial. A gripe das aves já custou US$ 10 bilhões (R$ 21,3 bilhões) às economias dos continentes afetados, além de gerar impacto na renda de 300 milhões de pessoas que vivem no meio rural.
Limite - O principal objetivo da OMS é o de impedir que o vírus H5N1 sofra mutação e passe a ser contagioso de pessoa para pessoa. Atualmente, a transmissão só ocorre de ave para ave ou de ave para ser humano ou outro mamífero. Para Margaret Chan, principal responsável pela gripe aviária na agência de saúde da ONU, o H5N1 representa o maior desafio já enfrentado pelo planeta em termos de doenças infecciosas. "Há uma aceleração na propagação da gripe das aves", afirma Chan.
Soma-se à sua voz a do secretário geral da ONU, Kofi Annan: "Quanto ocorrer a primeira transmissão homem para homem, teremos apenas algumas semanas para evitar a disseminação. Milhares de pessoas morrerão. Os sistemas de saúde ficarão sobrecarregados; famílias serão dizimadas; transportes e comércio serão interrompidos. O progresso econômico e social regredirá. É a isso que se chama pandemia", classificou Annan.
No quadro-limite, faltarão leitos nos hospitais, enfermeiras, medicamentos; faltarão respiradores mecânicos nas UTIs, urnas funerárias... Caos semelhante ao que aconteceu com a gripe espanhola quando morreram milhões de pessoas. O que assusta, hoje, é que o mundo não tem estrutura para enfrentar uma onda pandêmica. Contudo, bastaria ouvir o argumento de Susanne Glasmacher, do Instituto Robert Koch, da Alemanha: "A gripe do frango continua sendo uma moléstia aviária."
Ciência isola vírus em 1961, na África
A ciência identificou o vírus da gripe aviária (H5N1) em 1925, mas foi isolado pela primeira vez em gaivotas na África do Sul, em 1961. A gripe irrompeu na Itália na década de 1870, tendo se espalhado de lá pela Europa, América e Ásia. Na década de 30 do século passado, foi erradicada. Voltou a aparecer nos anos 80, na Irlanda e EUA.
O vírus só se tornou fonte de preocupação dez anos atrás, depois que um ganso morreu na província chinesa de Guangdong. Um ano depois, em Hong Kong, um garoto de três anos morria da mesma doença, o que configurou o primeiro registro oficial da gripe em humanos.
Esse primeiro surto durou poucos meses e atingiu 18 pessoas, matando seis delas. A nova gripe parecia não ser grande ameaça, até que voltou a atacar, em 2003, manifestando-se na Holanda. Desde então, o H5N1 espalhou-se pela Ásia, África e Europa. E o número de pessoas e animais doentes mantém-se em curva ascendente.
Em média, segundo a OMS, surgem grandes epidemias de gripe três a quatro vezes em cada século. A pior pandemia do século 20 foi a gripe espanhola, que matou, de 1918 a 1920, cerca de 40 milhões de pessoas.
Ações de países para combater o H5N1
A avicultura mundial desenvolve ações para combater o vírus H5N1. A Alemanha proibiu a comercialização de qualquer espécie de ave. Promoveu a vacinação em aviários. A França vacinou 12 mil patos. Proibiu a exibição de pássaros selvagens e exigiu que as aves domésticas sejam confinadas.
Já na Itália, os frangos foram vacinados. O governo liberou 100 milhões de euros (R$ 260 milhões) para a compra de remédios. Na Áustria, o governo ordenou a compra de remédios, sacrifício de aves e rigorosa fiscalização nas estradas, estações e fronteiras.
Os EUA, por sua vez, estocaram dez milhões de doses do antiviral e estão trabalhando para aumentar essa carga. Suas fronteiras estão fechadas e o controle sanitário é rigoroso. "Os norte-americanos são muito eficientes. Eles têm programas rígidos de controle sanitário", diz ao CR a pesquisadora Liana Brentano. "A eficiência deles favorece o Brasil, pois as aves migratórias passam primeiramente pelo território americano", explica ela.
RS adota medidas para blindar setor
Para evitar a ocorrência de casos de influenza aviária, a avicultura gaúcha adota medidas para garantir a blindagem do setor mesmo diante da chegada de aves aquáticas e migratórias que poderiam trazer o vírus. O Estado já tem mapeada toda a produção integrada e prepara a implantação do segundo laboratório do país para análises clínicas.
As aves migratórias são monitoradas pelos Ministério da Agricultura, Secretaria da Agricultura e Ibama, por meio de captura nos principais pontos. As aves chegam ao RS pela Lagoa dos Quadros, distante quase 200 km do frigorífico mais próximo. Já Santa Catarina, que concentra a maior produção de frangos do país, não é rota de migração de nenhuma espécie de ave.
Potencial - Conforme a Associação Gaúcha de Avicultura, a avicultura do RS ocupa o terceiro lugar no ranking nacional, respondendo por 26% das exportações e 16% da produção brasileira. Tem cerca de 11 mil famílias de produtores integrados. É responsável pela geração de 45 mil empregos diretos e 800 mil empregos indiretos. A produção anual totaliza 673 milhões de frangos de corte - 1,2 milhão de toneladas de carne - e 4,7 milhões de caixas de ovos com 30 dúzias. O alojamento anual chega a 5,2 milhões de matrizes de corte e 4,7 milhões de matrizes de postura.
Com esse perfil, o setor contabiliza uma receita bruta anual de R$ 4,5 bilhões. No RS, atuam 16 frigoríficos com inspeção federal e cinco sob inspeção estadual, além de 21 fábricas de rações, 16 incubatórios e quatro empresas especializadas em desenvolvimento genético. Anualmente são consumidos 2,3 milhões de toneladas de milho, 800 mil toneladas de farelo de soja e 300 mil toneladas de sorgo.
Mapa prepara técnicos e equipa laboratórios
O governo federal está investindo R$ 39 milhões na modernização dos Lanagros (Laboratório Nacional Agropecuário) do RS, SP, MG, PE e PA. Estas instituições formam a rede nacional de diagnóstico do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa). A informação foi divulgada pelo secretário de Defesa Agropecuária do Mapa, Gabriel Alves Maciel. O secretario anunciou ainda o treinamento de 1.700 técnicos.
Mais informações:
- Ministério da Saúde - www.saude.gov.br / gripe@saude.gov.br
- Secretaria de Vigilância em Saúde - www.saude.gov.br/svs
- Ministério da Agricultura - www.agricultura.gov.br
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária - www.anvisa.gov.br
- Organização Mundial de Saúde: - www.who.int
- Organização Mundial de Saúde Animal - www.oie.int
- Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação - www.fao.org
A pesquisadora da Embrapa Suínos e Aves (Concórdia/SC), doutora em virologia animal e especialista em doenças de aves Liana Brentano responde as principais perguntas dos leitores sobre a gripe das aves
1 - O que é a gripe do frango?
Liana - A gripe do frango, que mais corretamente deveria ser chamada de influenza aviária, é uma doença causada pelo vírus Influenza, semelhante ao vírus que afeta os humanos e provoca a gripe. Só que os vírus aviários possuem características muito diferentes dos vírus que atingem os humanos. Os vírus aviários apresentam 16 subtipos, dos quais alguns são altamente patogênicos. O H5 e o H7 são os dois que caracterizam a gripe do frango. Nas aves, geralmente, a doença é devastadora, provocando lesões sérias nos sistemas respiratório, digestivo, nervoso e reprodutivo. Nos humanos, nos casos relatados até agora, a doença se manifesta como uma infecção pulmonar aguda. Mas em pelo menos dois casos, o vírus foi encontrado também no cérebro das vítimas.
2 - Como é que o vírus passa das aves para as pessoas?
Liana - De várias formas. Pode ser por meio de secreções dos sistemas respiratório e digestivo das aves infectadas ou por um contato direto com a ave. A contaminação pode ocorrer também, indiretamente, através da condução do vírus por meio de veículos de transporte, bebedouros, água, comedouros, ração, gaiolas, penas, roupa, calçados e botas.
3 - É possível se contaminar comendo a carne do frango ou de uma outra ave infectada?
Liana - Sim. Isso aconteceu na Ásia. Mas é importante que as pessoas entendam que no Brasil não há qualquer risco quando se compra a carne de frango. Primeiro porque o país não possui focos da doença. E segundo porque as carnes são analisadas pelos técnicos do Sistema de Inspeção Federal (SIF). Não há como uma carne infectada pelo vírus Influenza chegar até o consumidor por meio da avicultura industrial.
4 - Existe algum tipo de vacina preventiva contra a doença?
Liana - Não existe vacina contra a Influenza para as aves. A maneira de controlar a doença é somente através do descarte dos animais infectados e próximos ao foco, num raio de 10 quilômetros. Esse descarte engloba até criações domésticas. No caso dos humanos, estão iniciando pesquisas para o desenvolvimento de remédios eficazes.
5 - Por que a gripe do frango surgiu na Ásia e ameaça tanto aquela região?
Liana - Olhando para o cenário asiático, a ameaça à população é maior devido à forma como esses países se relacionam com as aves. É comum a criação de patos e galinhas em fundo de quintal. No Vietnã, país mais rural que urbano, o sangue de pato é considerado uma iguaria e bebido pela população. O vírus circula por lá há dois anos e não é eliminado pela maneira como a população maneja as aves. No Brasil, quase toda a avicultura é industrial, situação que limita bastante o contato de grande parte das pessoas com os frangos e galinhas de postura. É claro que, se o vírus adquirir a capacidade de ser transmitido de humano para humano, a possibilidade de alastramento da doença aumenta sobremaneira.
6 - Em relação ao alastramento ou não da doença, existem projeções, algumas alarmistas. O que ocorrerá?
Liana - Existem realmente correntes diferentes. Alguns são alarmistas, outros acham que a situação não é tão séria. A realidade é que existe muita coisa ainda a ser descoberta sobre esse vírus Influenza que está ocorrendo na Ásia, Europa e que representa riscos à saúde humana. A hipótese mais alarmista é de que o vírus de Influenza está se adaptando rapidamente e logo será transmitido de humano para humano. Se este cenário se confirmar, o vírus causará uma pandemia mundial e poderá provocar altos índices de mortalidade entre as pessoas infectadas. Já existe outra corrente que prega que o vírus tende a se tornar menos agressivo, já que para ele sobreviver é preciso se adaptar ao hospedeiro. Não é vantajoso para o vírus que o hospedeiro morra. O ebola é um exemplo. Ele causa alta mortalidade e isso limita a sua disseminação. Nesta hipótese, o vírus H5N1 se adaptará aos humanos e ficará semelhante aos vírus atuais da gripe, não causando altíssima mortalidade. Não se pode pensar só no cenário otimista e não levar em consideração o pessimista. O ideal é trabalhar na prevenção e não precisar adotar as medidas para o cenário pessimista.
7 - A doença chegará ao Brasil?
Liana - Não se pode afirmar nada sobre isso com absoluta certeza neste momento. O importante é que a avicultura brasileira mostre-se preparada para enfrentar a Influenza. O Brasil está se mobilizando. O Ministério da Agricultura tem os seus programas permanentes de prevenção. Tem ainda um programa de monitoria ativa do vírus, onde são feitas coletas periódicas em diferentes regiões que concentram a produção avícola. Também o Ministério criou um plano de contingência, juntamente com outras áreas do governo, que inclui ações, registros de focos e recomendações para todos os tipos de produção avícola.
8 - As aves migratórias são, então, o meio mais provável de alastramento da doença?
Liana - Existe uma forte evidência, pelo que já aconteceu. Dessa forma, há um receio de que o vírus se espalhe pelo mundo. Mas não é certo que chegue ao Brasil. E se chegar, não se sabe quando isso pode acontecer. As aves aquáticas são um reservatório natural do vírus.
9 - O que devem fazer os que possuem, especialmente no interior, aves como patos, gansos e marrecos?
Liana - Do ponto de vista da avicultura comercial, não se deve misturar vários tipos de aves. Se tiver outras aves perto de um aviário comercial, a chance de espalhamento da doença é grande, caso o vírus chegue neste local. Tem que pensar de duas maneiras. Uma é o direito das pessoas, especialmente no interior, de terem essas aves soltas dentro da propriedade. Por outro lado, pensando num cenário mundial, entendo que os proprietários dessas aves devem refletir sobre o risco que elas representam para o país, tanto do ponto de vista da saúde pública quanto da economia. São decisões complicadas, mas que têm que ser analisadas. Esse tipo de criação oferece riscos. Quem possui essas aves deve observar, principalmente, os índices de mortalidade. Não significa que a morte dessas aves, necessariamente, será provocada pela Influenza, mas caso ocorram mortes em demasia, devem ser chamados médicos veterinários ligados aos órgãos públicos disponíveis no município. Essa preocupação é imprescindível em caso da doença.
Emissora do Papa completa 75 anos
Rádio Vaticano transmite programação em mais de 40 idiomas
A Rádio Vaticano, emissora da Santa Sé, conhecida como a "Rádio do Papa", está completando 75 anos. Fundada em 1931 pelo Papa Pio XI, a emissora foi construída no interior do então novo Estado Vaticano por Guglielmo Marconi, o inventor do rádio. Ao visitar a emissora, no dia 3 de março, para recordar seus 75 anos de fundação, o Papa Bento XVI definiu a Rádio Vaticano como "uma voz a serviço da verdade e da reconciliação".
Pouco depois de sua chegada à emissora, o Papa subiu ao estúdio "Karol Wojtyla", que transmitia programa em italiano, sentou-se entre os três jornalistas que falavam ao vivo e saudou os ouvintes através dos microfones da rádio. Bento XVI recordou que Pio XI fundou a emissora para dar "uma nova voz à Santa Sé, à Igreja e ao Senhor". O Papa destacou que a rádio surgiu como "uma voz com a qual se pudesse realmente aplicar o mandamento do Senhor: "Anunciai o evangelho a todas as criaturas até os confins da terra". A rádio apresenta-se como um "instrumento de comunicação e evangelização", a serviço do Papa e da Igreja.
Após a intervenção ao vivo, Bento XVI visitou os escritórios das diferentes redações da emissora que transmite seus programas em mais de 40 idiomas. Saudou pessoalmente e tirou fotos com seus funcionários. A emissora conta com 384 pessoas de 59 nacionalidades, das quais 43 são religiosos e 341 leigos. Para comemorar os 75 anos da rádio, os correios do Vaticano passaram a utilizar, a partir de março, um carimbo especial.
História - A primeira rádio-mensagem, em latim, foi divulgada a todo o mundo por Pio XI no dia 12 de fevereiro de 1931, inaugurando a emissora da Santa Sé. O primeiro diretor foi o padre jesuíta Giuseppe Gianfranceschi, físico e matemático, e até hoje a emissora pontifícia é dirigida pela Companhia de Jesus. Padre Federico Lombardi é o atual diretor geral. Somadas, são transmitidas 67 horas de programação diária através de cinco redes. A emissora do Papa forma cadeia direta com 1.040 rádios de 70 países.
O Programa Brasileiro da Rádio Vaticano foi fundado no dia 12 de março de 1958. Junto com outros 39 programas, constitui o universo de países e comunidades da emissora do Papa. Padre Mauro Zequin Custódio é seu diretor. No Brasil, há 353 emissoras que transmitem a programação em português. Na América Latina, são 363 rádios que reproduzem os programas da Rádio Vaticano em espanhol.
Programas brasileiros são transmitidos de segunda a sábado, às 7, 8, 14 e 21h30 (horários de Brasília), via satélite Intelsat, Canal A2. Na internet, ao vivo, no Canal 5 (www.oecumene.radiovaticana.org/bra/diretta.asp). Para acessar a Rádio Vaticano o site é www.vaticanradio.org.
Bento XVI visitará a Turquia em novembro
Apesar dos recentes ataques contra religiosos e cristãos na Turquia (matéria ao lado), o Papa Bento XVI confirmou que vai visitar o país de 28 a 30 de novembro deste ano. O Pontífice tinha sido convidado a realizar uma visita oficial à Turquia pelo presidente Ahmed Necdet Sezer em setembro do ano passado. A aceitação do convite e a confirmação da data foram expressas tanto pela Santa Sé quanto pelo gabinete do presidente turco.
O desejo da viagem surgiu da iniciativa do patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I, que havia convidado o Papa a visitar sua sede para avançar no diálogo ecumênico que busca a superação do cisma surgido em 1054. A grande maioria dos 69 milhões de habitantes da Turquia é formada por muçulmanos. Os católicos somam cerca de 35 mil.
Padre Zezinho
Excesso de amor pelos animais esconde uma rejeição às pessoas
Sinais de desequilíbrio no relacionamento com as pessoas, como o caso do playboy Chiquinho Scarpa e da também milionária Sharon Tendler de 41 anos, felizmente são raros, mas não tão raros quanto se imagina. Scarpa declarou em dezembro de 2005 que, de papel assinado em cartório, deixaria a sua fortuna para a sua cadelinha. A milionária Tendler casou-se no balneário de Eilat, Israel, com o seu golfinho Cindy depois de um longo romance. Ela considera-se casada com um peixe.
Não foram nem são poucos os casos em que o amor de gente pobre, rica ou poderosa por seus cavalos, cabritos, pássaros ou cães os levaram a tratá-los acima dos humanos. Calígula teria investido com a toga de senador romano seu cavalo Incitatus. Atrizes famosas e temperamentais teriam o hábito de dormir com seu cão, enquanto seus homens depois de cumprida a sua utilidade, teriam que dormir num outro leito. E não faltaram batizados e celebrações de núpcias e juras de fidelidade entre humanos e animais com enterros solenes. Se alguns religiosos se negam a isso, sempre haverá quem se preste.
A história registra tais desvios como curiosidades, mas trata-se de tragédia. Divórcios causados pelo excessivo amor de um dos cônjuges por um cão, a ponto de o deixarem no leito ou na mesa como se filho fosse; cenas de ciúme entre cônjuges e animais; filhos que foram embora de casa porque a mãe dava sinais evidentes de mais amor pelos cães e gatos do que por eles, mostram que pode haver e há excessos. Para tudo há um limite. O excesso de amor pelos animais esconde ou revela uma rejeição à pessoa humana.
Cansados de gente que fala, reage, discorda, cobra, exige direitos, voltam-se para seus dóceis animais que se limitam a latir, mugir, zurrar ou miar, mas mendigam sua atenção e os enchem de lambidas e de carinho em troca de comida na hora certa. Optam por si mesmos ao optar pelos seus animais de quem se sentem de fato proprietários. Animal raramente traz problemas, exceto quando, sem nenhum aviso, arranca um pedaço do seu dono ou lhe traz um processo oneroso por ter mordido uma criança no portão. Como os humanos, de vez em quando eles se lembram que são animais e, também, fazem o que não deveriam!
Ordem intensifica economia fraterna
Prática capuchinha é uma alternativa para a sociedade atual
Encerrou no sábado 18, em Porto Alegre, o 3º Encontro Internacional do Serviço de Justiça, Paz e Ecologia (Sejupe) da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos. Durante seis dias, 52 frades, representando as fraternidades capuchinhas presentes em mais de 100 países (além de oito assessores), refletiram e debateram sobre o tema "Fraternidade evangélica, justiça econômica e combate à pobreza".
O encontro, na capital gaúcha, encerra uma trilogia de eventos promovidos pelo Sejupe, que iniciaram em 2004, na cidade de Adis-Abeba (Etiópia); prosseguiram com o 2º encontro, em Nagahuta (Indonésia), em 2005 e encerraram em Porto Alegre. Todos os três encontros tiveram como objetivo estudar a ação e os esforços dos capuchinhos em favor da justiça, da paz e da ecologia.
No final do encontro foi aprovado o esboço de uma Carta que, até a Páscoa, será publicada para toda a Ordem. "No esboço desse documento os frades propõem algumas atividades concretas para ajudar cada comunidade capuchinha a aprofundar a compreensão da fraternidade evangélica, da justiça e da economia e de como podemos continuar a trabalhar para combater a pobreza", salienta frei Pilato Pereira, um dos representantes da província gaúcha no encontro.
Frei Wilson Dallagnol, que ajudou a organizar e coordenar o 3º Encontro do Sejupe, destaca alguns elementos importantes da carta conclusiva. Uma das constatações do documento é que o atual problema da injustiça econômica, que gera miséria, pobreza e supressão dos direitos fundamentais, não é a falta de recursos e de alimentos, mas a sua concentração.
Segundo frei Wilson, os participantes do encontro destacaram que a fraternidade capuchinha possui uma prática que representa uma alternativa para a sociedade atual - a economia fraterna. Não se trata de paternalismo, mas de uma espiritualidade da solidariedade, que conduz ao respeito à pessoa e à união da família humana, criando laços de comunhão.
Inserção - Essa economia fraterna está baseada em cinco princípios - participação eqüidade, transparência, solidariedade e austeridade. A inserção entre os pobres dá credibilidade à forma de vida capuchinha e faz parte do seu carisma. A partir dessa realidade, a carta apresenta algumas proposições para todos os frades da Ordem. Entre elas destacam-se: possibilitar amplo acesso aos Meios de Comunicação Social para criar consciência em favor de uma economia fraterna; estudar a Doutrina Social da Igreja e os documentos da Ordem que dizem respeito à promoção da justiça econômica; apoiar projetos de economia solidária.
Outras ações reforçadas pelo documento são apoiar e fortalecer a inserção junto aos pobres; fortalecer as comissões de Justiça, Paz e Ecologia nas províncias; intensificar a atenção ao "grito dos pobres", especialmente no que diz respeito à divida externa, aos conflitos e à aids.
Frei John Corriveau, ministro geral da Ordem, participou de todo o encontro e presidiu a missa de encerramento do evento. A Conferência dos Capuchinhos do Brasil contou com o maior número de delegados - oito - quatro dos quais da província do Rio Grande do Sul e suas duas vice-províncias.
Costa Real preserva patrimônio histórico
A secretaria de Turismo de Garibaldi e uma comissão da comunidade de Costa Real reuniram-se no início de março para tratar da preservação de seu maior patrimônio arquitetônico - a igreja de São Pantaleão. Construída em 1899, é uma das mais antigas capelas da Serra gaúcha.
A secretária de Turismo, Ivone Fávero, repassou à comissão informações sobre a lei municipal de tombamento, recém criada, e sobre os procedimentos que devem ser adotados para solicitar o tombamento. A produtora cultural Salete Duarte explicou como funcionam as leis de incentivo à cultura, estadual e federal. A partir de agora, a comissão está providenciando a documentação, como descritivo do imóvel e objetos, ofício de acordo da mitra diocesana, entre outros.
Aldo Colombo
Em sua milenar sabedoria, a Bíblia recomenda: amar pai e mãe. É garantia para uma vida feliz
Depois de anos de estudo, chegou o dia de receber o desejado diploma. O que ele mais desejava era um carro novo e já manifestara a idéia ao pai, que reagira positivamente. No dia da formatura, pela manhã, o pai o chamou ao seu gabinete e disse-lhe como estava orgulhoso de seu diploma e deu-lhe o esperado presente: uma caixa, ricamente adornada, e nela uma Bíblia. Com todo o dinheiro que o pai possui, apenas uma Bíblia, comentou para si mesmo, desapontado.
Houve a formatura e o filho saiu de casa. Nem sequer levou o presente. Os anos passaram e a mágoa persistia. No fundo, ele gostaria de se reconciliar com o pai, mas o orgulho era maior e algumas tentativas de reaproximação, por parte do pai, ficaram sem resposta. Um dia recebeu um telefonema informando que o pai fora internado em estado grave. E durante a viagem, a notícia foi modificada: o pai morrera. Nos funerais, um vazio imenso – feito de saudade e de culpa – instalou-se nele. O mais lamentável, seus filhos não haviam conhecido o avô.
De noite, na casa onde o pai morara toda a vida, ele recuperou o passado, olhando velhas fotografias, recortes de jornais e objetos já esquecidos. E entre outros livros, estava a famosa Bíblia de sua formatura. Tomou-a na mão, abriu a primeira página e lá estava uma dedicatória, que ele nunca lera: "Ora, se vós, que não sois perfeitos, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai, que está nos céus, dará coisas boas aos que lhe pedem" (Mt 7,11). Recuperando os arquivos de sua memória, na área de catequese, localizou o texto. E nesta página, a chave de um automóvel, zero quilômetro, adquirido à vista no dia de sua formatura.
Em sua milenar sabedoria, a Bíblia recomenda: amar pai e mãe. E não põe qualquer cláusula restritiva. Amar pai e mãe assim como eles são. E a mesma Bíblia afirma: é garantia para uma vida feliz. Entre pai e filho existe um abismo, quase sempre, superior a 20 anos. E nesses 20 anos, a história continuou a caminhar. Em função disso surgiu a frase: "no meu tempo...". E o filho contra-ataca: "o meu tempo é agora".
Mas o tempo se encarrega, muitas vezes, de colocar as realidades em sua verdadeira luz. Para a criança pequena, o pai é um gênio. Depois, o adolescente começa a descobrir defeitos no pai. Um dia o pai morre e o filho se dá conta da sabedoria do pai. Tarde demais.
Deus é pai. E como filhos independentes gostaríamos que Ele fizesse nossa vontade. A vontade dele é que sejamos felizes. Por vezes, discordamos dos presentes que Ele nos dá. Não é exatamente aquilo que havíamos pedido. Ou não gostamos da embalagem. Mas Ele tem paciências infinitas. E como o pai dessa história, sempre tem como objetivo nos ensinar a escala de valores. O amor é mais importante que o dinheiro, a Bíblia é mais valiosa que o automóvel. Sabedoria é dar-se conta disso enquanto é tempo.
Celebrações marcam ano jubilar jesuíta
Comemorações recordam três figuras ilustres da Companhia
A Companhia de Jesus, cujos membros são conhecidos pelo nome de jesuítas, está celebrando, de dezembro de 2005 até 3 de dezembro de 2006, um ano jubilar. Esse tempo de celebração recorda os 450 anos da morte do fundador, Santo Inácio de Loyola (31 de julho de 1556), e os 500 anos de nascimento de São Francisco Xavier (7 de abril de 1506) e do bem-aventurado Pedro Fabro (13 de abril de 1506).
Ao longo do ano estão previstas diversas celebrações, entre as quais uma comemoração especial no dia 7 de abril no Castelo de Xavier (Navarra), Espanha; uma grande celebração de toda a Ordem jesuíta, no dia 22 de abril, festa de Nossa Senhora Mãe da Companhia de Jesus; um congresso sobre os Exercícios Espirituais (Loyola/Espanha, de 21 a 26 de agosto) e outro sobre as Constituições dos Jesuítas (Roma/Itália, de 9 a 14 de outubro). Na Unisinos, em São Leopoldo, de 25 a 28 de setembro será realizado um seminário internacional enfocando os jesuítas na globalização.
Na Basílica do Castelo de Xavier uma relíquia (fragmento do braço) de São Francisco Xavier ficará exposta à veneração até 20 de abril. Durante todo ano o local será palco de atividades culturais, sociais e religiosas, abertas a pessoas de todo mundo, que refletirão o espírito universal do padroeiro das missões e inspirador da ordem religiosa missionária (xaverianos). Xavier (1506-1552) foi o grande apóstolo do Oriente.
Inácio de Loyola (1491-1556), militar espanhol que se converteu radicalmente ao cristianismo depois de uma longa convalescença, fundou a Companhia de Jesus, com seis companheiros, entre os quais estavam Francisco Xavier e Pedro Fabro (1506-1546), francês natural da Sabóia, grande pregador dos exercícios espirituais e que, em plena reforma protestante, lutou por uma reforma radical dos fiéis e do clero católico.
Atualmente, a Companhia de Jesus conta com cerca de 20 mil jesuítas em 133 países. Até hoje, já foram canonizados 50 jesuítas, o último em outubro de 2005 - o chileno Padre Alberto Hurtado.
Paróquia de Tenente Portela celebra 60 anos de fundação
A paróquia Nossa Senhora Aparecida de Tenente Portela (RS) completa, no dia 24 de março, 60 anos de instalação. Para comemorar o jubileu, será realizada uma grande celebração no domingo 26, com a presença de representantes de todas as comunidades que levarão em procissão as imagens de seus próprios padroeiros. A missa solene, às 10 horas, será presidida pelo bispo de Frederico Westphalen (diocese da paróquia de Tenente Portela), dom Zeno Hastenteufel.
A área da paróquia abrange, além de Tenente Portela, os municípios de Barra do Guarita e Vista Gaúcha, totalizando 52 comunidades. Seu primeiro pároco foi padre Albino Busatto, que atuou até 1968. Em 1975 assumiu o atual pároco, padre Guido Taffarel, auxiliado pelo padre João Ademir Ferrari. A matriz foi inaugurada em 1964.
Com a renovação da Igreja, a partir do Concílio Vaticano II, foi incrementada a vida religiosa das comunidades e a formação de lideranças. Hoje, as capelas contam com conselhos comunitários de pastoral, estão bem estruturadas e com serviços pastorais organizados. Para motivar a celebração do jubileu e incentivar a caminhada comunitária, freis capuchinhos de Caxias do Sul visitaram todas as comunidades realizando celebrações e palestras.
Wilson João
Há um sol que ilumina, aquece e dá energia, mas não agradecemos seu permanente gesto de amor
A palavra amar é a mais usada nas poesias, canções, filmes, novelas e, penso, na linguagem de todos os povos. Ao mesmo tempo, pessoas passam por esta terra, sem terem dito uma vez "eu te amo!". Passam seus anos sem viverem a experiência do amar e ser amado. Mesmo tendo vivido em família e criado filhos, tudo foi instintivo, e nada marcado pelo amor. Se o amor estivesse presente em todos os relacionamentos humanos, não teríamos tanta solidão, tantas brigas, tantos ciúmes e tanta exploração de uma pessoa pela outra.
DEIXAR-SE AMAR PELA VIDA. Enamorar-se da vida. Há uma flor sorrindo e não a olhamos e sentimos. Há um pássaro cantando e não paramos para escutá-lo e aplaudi-lo. Há uma chuva alimentando a terra e não damos atenção para sua carícia e sua música. Há um sol que ilumina, aquece e dá energia, e não agradecemos seu gesto de amor. A vida está em todos os seres, em todas as células e não nos deixamos tocar pela vida. Passamos pela vida sem saboreá-la.
DEIXAR-SE AMAR PELAS PESSOAS. Não sentir-se pessoa amada é não existir. Desde criança até a velhice. Muitas pessoas não se deixam amar. São frias. São auto-suficientes. Se bastam a si mesmas. Não aceitam serem ajudadas. Nem aceitam opiniões. Não aceitam as fragilidades e as fraquezas. Deixar-se amar é muito mais do que um relacionamento homem-mulher, pais-filhos. Para deixar-se amar é preciso humildade, senso de pequenez. Há pessoas que não se deixam abraçar e nem tocar. Uma relação sexual nem sempre é deixar-se amar. Há demais sexo e muito pouco amor. Sexo sem amor é um desastre. É um estado de permanente prostituição. Deixar-se amar é permitir ser ajudado, acariciado e tocado. É acolher um "eu te amo!".
DEIXAR-SE AMAR POR DEUS. Como é ingrato e triste perceber que há um Deus que diz: "Eu te amo, te quero, faço tudo por ti, estou aqui para te ajudar, quero tua paz e felicidade, tenho o céu para ti, morro por ti, dou a vida por ti, me faço criança por ti..." e que há pessoas indiferentes a essa declaração de amor, a esse gesto permanente de amor. Pessoas que não aceitam serem amadas por um Deus que é amor cometem o maior pecado. Pecado sem perdão. Que bom deixar-se amar! Poder dizer: tenho alguém que me ama, alguém que pensa em mim!
O italiano que está em você
Luiz Bavaresco
Nova Prata-RS, bancário e escritor
"Nasci em 1941 em Boa Vista (Guabiju-RS), sou neto de Ferdinando Antonio e Ângela Bavaresco, emigrados de Asolo (Treviso) em 1892, e quinto dos nove filhos de Primo Antonio Bavaresco e Elvira Catharina Bortoli.
Meu mundo era esse maravilhoso, pitoresco e sagrado torrão natal - colorido, ensolarado, com vertentes de água cristalina, que formavam córregos, onde os animais saciavam a sede. Depois de muitos anos, voltei lá e chorei de saudades. Imaginei meus pais jovens, idealistas e tementes a Deus, em suas lidas. Fui à fonte, tomei daquela água pura nas mãos, levei-a à boca num ato de comunhão com minha infância. Pedi aos anjos que guardassem tudo aquilo.
Essa vida, para mim, era a melhor do mundo! Não conhecia outra. Meus pés, que cresceram livres, dando espaço também aos bichos-de-pé que se aninhavam debaixo das unhas, ganharam os primeiros sapatos aos 11 anos. Eram grandes. Antes pertenceram ao meu irmão mais velho. Para usá-los, colocava folhas de jornal nas pontas, talvez do Correio Riograndense.
Um belo dia, eu e dois irmãos, acompanhados de papai, nos despedimos de mamãe e dos irmãozinhos, e iniciamos a maior viajem até então empreendida, de Boa Vista a Vila Flores, para sermos capuchinhos. Naquele tempo, além de padre, podia-se aprender o oficio de sapateiro ou alfaiate. Aos 16 anos (1958), fui solenemente expulso do seminário pelo reitor Pe. Benjamim Vian, no dia da morte do papa Pio XII.
Voltei para casa, agora em Sapopema (Veranópolis-RS), e encontrei meus pais trabalhando terras da família Tedesco. Haviam perdido tudo, e vivíamos privações e humilhações. Mas alguém sugeriu a meu pai de irmos para Campo Alto (PR), entre Mariópolis e Clevelândia. No dia 17 de maio de 1959, colocamos nossos poucos pertences - galinhas, patos e leitões - num velho Ford F600 e partimos. Papai junto com o motorista; mamãe e nós, na carroceria, com a bicharada. Noite a dentro, chegamos a Sananduva. Pousamos com os parentes. Cansados e empoeirados, deitamos em camas com alvos lençóis. Pobres parentes!
Ao raiar o dia, seguimos viagem. Ao meio-dia cruzávamos o Rio Uruguai em Goio-em. Meu previdente pai comprou dois sacos de rapaduras, envoltas em palhas de milho, para subsistirmos à miséria que se aproximava.
Chegamos de madrugada. A mudança foi descarregada num casebre que havia lá. A noite estava escura como breu e ouvia-se o murmurejar de animais da selva ao redor. O velho Ford foi embora, e mamãe improvisou uma cama com colchões de palha e dormimos até o raiar do dia que foi espetacular. Mergulhados em floresta de gigantescas araucárias, os papagaios nos deram as boas vindas com seus estridentes gorjeios. Como não havia trabalho para todos, papai e o irmão mais velho foram trabalhar numa serraria em Clevelândia. Experimentamos o gosto amargo da fome. Quando mamãe fazia a polenta para comermos com minúsculos nacos de rapadura, disputávamos as crostas do fundo da panela. De manhã, eu ia pelo mato à procura de caça por necessidade. Minha volta era esperada com ansiedade.
Mais uma vez fracassamos, e retornamos ao Rio Grande, na Linha Sétima de Nova Prata, onde papai comprou um terreninho perto da cidade, que me facilitou a concluir o 2º Grau, à noite.
Em 1968, ingressei no Banrisul como servente, e fui galgando todos os postos. Trabalhei em Antônio Prado, Nova Prata, Guaporé, Casca, Sertão, Muçum e Arroio do Meio, onde me aposentei em 1995.
Casei com a professora Rosa Maria Schneider, e temos os filhos Marília e Luís Fernando, analistas de sistemas, e a linda neta Rafaela. Gosto de leitura e poesia. Estou escrevendo para o seriado El Ritorno de Nanetto Pipetta, vindo da Itália para Fazer Fortuna na América" (luizbavaresco@adylnet.com).
Luiz, aposentado, continua o desafio de Fazer a América, como os avós, temperada de sonhos e realizações, com a doce cobertura do humor e da fé, a La Nanetto Pipetta. (Rovílio Costa)
EL RITORNO DE NANETTO PIPETTA (352)
La sagra de San Giusepe, la pi bela de quel ano
SILVINO SANTIN
Santa Maria (RS)
El giorno che Nanetto l’era premoso che’l rivesse zera la sagra de San Giusepe. Par lu l’era pi importante che’l sfilo dela festa del ua a Cassia, ndove l’era stà, sensa la Gelina, come lu el volea. Ela, poareta, ghe ga tocà star casa, parché so mama la se gavea fato mal la gamba e no la podea caminar, bisognea qualchedun star casa par ténderghe, e la ghe ga tocà a la Gelina. Par questo afar no la ga podesto ndar insieme con Nanetto come quando l’è ndà parlar sora el so viaio ai scolari.
Che belessa veder sti due colombini, doménega de matina, pronti bonora. La Gelina, col so vestì de seda fiorio, le scarpete co la tiracheta de imbotonar e, el più importante, secondo Nanetto, coi recini. Lu, co la fatiota de casimira, le scarpe nove, el capel, l’è vera che romai le gera tute imprimae in tela festa del ua, ma no volea dir, parché pochi i lo gavea vedesto così, sol el gilè no l’era mai stà doparà, par via che l’era massa caldo, adesso, nel mese de marso, l’era un poco pi frescheto se podea méterlo su. Ghe mancaria, el se dise Nanetto, un bel oroloio rento el scarselin del gilè, picà par na cadeneta. Un giorno lo gavarò anca questo, bisogna no ver prèssia, piampianin, laorando, rivaró là.
Un’ora prima dela messa, Nanetto e la Gelina, a brasseto, i ciapa la strada insieme con tuta la fameia de Àndolo. Rivai in cesa, i ze ndai un par banda, a San Giusepe ncora no i se gavea costumà col novo sistema de ndar insieme òmeni e done. No se pol maginàrsela Nanetto postà in te la ponta del banco rente el coridoio, par restar pi rente a la Gelina, e darghe qualche ociada. Come sempre, dopo che’l gavea i so soldi, el ga fato limòsina, ma sta olta, un poco pi basseta, parché i guasti i gera stai tanti.
La procission l’è stà nantro spetàcolo veder Nanetto, come no se lo gavea mai vedesto, el parea pròpio un capitalista, ma de quei che canta e prega a pieni polmoni.
Par incurtala, passemo suito dopo el disnar fato tel salon dela cesa. No ghe ze stà santi de dir de nò, Nanetto ghe ga tocà saltar sora na tola e contarghe a tuti el so viaio. Prima, come el gavea fato in scola, el ghe ga parlà dela Quarta Colònia. El punto novo dele so stòrie l’è stà parlar sora la situassion dela Quarta Colònia. Par dirve la verità, mi no capisso mia ste stòrie de progresso o nò, ma secondo go scoltà un maestro che l’è drio studiar questa costion, quando el ghe parlea a Giulieto, la Quarta Colònia la ga bio, in tel scomìssio un progresso come le Colònie dela banda dequà, ma dopo de un tempo, no se pol dirlo che i saria ndà indrio, ma che i se ga fermà medo de colpo, i se ga fermà, da vero.
Nantra cosa che go sentio dir de sto maestro l’è che no i ga mia bele feste come tra noantri. Qua gavemo, a Cassia la festa del ua, a Bento la festa del vin, a Garibaldi la festa del vin de spiuma, o sia, la sciampagne, la festa dela vendémia a Flores da Cunha, e così via. Là ghe ze altre feste, squasi tute in torno a la sagra dei santi dela cesa. E saverlo, sempre secondo go sentio dir del maestro, là i gavea tanta ua, tanto che i fea vin tanto quanto Cassia, ma adesso se pol dirlo, sensa busia, se ghin trova poca. Se me ricordo quel che go sentio dir, a Val Feltrina, un pìcolo pos-tesel, i gavea scomissià far la festa del ua, ma i la ga fata sol due volte.
Adesso bisogna che ve disa che mi go cognossesto sol due posti importanti dela Quarta Colònia, lora no saria giusto che ve parlesse massa, ma, par quel che’l ga dito Giulieto, el vol che vae insieme in te un secondo viaio, lora ve la contarò meio.
Finia questa prima parte, quando tuti i lo ga scoltà atenti, el ga scomissià contarghe le so braure par i tosatei. L’è stà na festa. Nanetto el saria stà là fin note, ma a le tre ore, ghe gera el rosàrio e la benedission.
Finie tute le serimònie, Nanetto el se ga messo in strada, a brasseto con la Gelina come tuti i morosi, ndando vanti e indrio fin rente sera.
Tuti i ze d’acordo che fin ai giorni d’incó no ghe ze pi stà na sagra de San Giusepe bela come de quel ano.
Rovílio Costa e Arlindo Battistel
El ciareto
Geraldo Sostizzo
Agente Consular Italiano, Cascavel - PR
Come dise el deto popolare: in paese de orbi chi ga un òcio ze Re. Noantri diseimo: nte na casa de un poareto, chi ga un ciareto vede tuto.
Tea nostra casa, noantri cognosseimo tuti i cantoni, le porte, le finestre, parché, metà tempo de note camineimo sol tel scuro. Ogni casa gavea tre o quatro ciariti. Quando un ndea in leto dormir, chi restea impie, ndea tor el ciareto e così fin ai ùltimi, che lo portea insieme e dopo butai zo, lo smorsea con un supion.
I primi ciariti i gera fati con na garafeta, na s-cianta pi granda de quele de oio de rìssino. Tel beco gavea na tampa sbusa in meso, ndove passea na strissa de roba con un sentìmetro fora e tuta quelaltra piantada rento tela garafeta.
Parché el tessuto brusesse meio, ghe meteimo rento tea garafa, pi de mesa de petròlio, che lora el tegnea el strasso sempre moio e così restea intacà.
Ogni stimana o meno, tochea ciapar na gùcia granda dela mama, de quele de far capei e tirar fora la ponta del strasso. Dopo ze vegnesto ciariti pi moderni, con garafe fate a posta par ciariti, con na rodeta darente el beco par regularghe la longhessa del pano, par banda de fora, ndove se intachea la fiama.
Ver petròlio a casa zera sempre importante e indispensàbile. Lo compreimo rento tei galuni de disdoto litri. Lora no ocorea córere tuti i giorni tea bodega comprarlo. Noantri dopereimo i ciariti par far el magnar, studiar, far i laori rento casa, ndar in cantina, monzer le vache in stala, scartossar mìlio tel paiol, tor salami e vin, catar i bocai soto el leto, piantarghe el fil tea gùcia... quando el gera intacà, el fea na strissa de fun e se ghe gera robe darente, le restea tute negre. Che ghe piasea tanto i ciariti gera le paveie e i bai, che i vegnea tuti rento casa, se fusse dassarli.
El petròlio
Gaveimo passà el giorno intiero in colònia sapando in meso el mìlio. Rivai casa, me fradel Amèrico (beco), el me dise:
-Va su de Faganel tor na garafa de caciassa e fa presto. Lu el gera un brontolon e pien de autorità coi pi pìcoli. Ciapo na garafa voda e quando rivo tea venda, la meto sora el balcon e vanti che parlasse qualcosa, Gioanin el ciapa la garafa e l’è ndato là in fondo e l’è tornà indrio co la garafa piena. La mete sora el balcon, el ciapa la caderneta e el fa la anotassion e dopo el urta la garafa banda mi.
Ciapo la garafa in man e come gera belche scuro, son tornà suito. Quando son riva darente la casa de Fereto, ghe gera un saraio de porchi fato de tole. Me ga dato idea e voia de bever na s-cianta de caciassa vanti de rivar casa. La garafa gera sarada con na tampigna. Son rivà darente na tola, la go inganciada e te un colpo la go verta.
Presto par nessuni véderme, go piantà zo na sboconada e la go mandada zo drita. Cari da Dio! Sol dopo go sentio che’l gera petròlio. Meso sensa fià, son rivà casa e no go parlà gnente. Go metesto la garafa sora la tola e son ndato ciapar ària fresca. Go sentio na osada de me fradel che’l ga dito:
- Cosa te go mandà tor mi? Petròlio o caciassa? Mi ghe go dito che gavea domandà caciassa. El me ga fato tornar indrio corendo tor na garafa de caciassa. Ze stata la me salvassion.
Rivo là, quel maledeto el me domanda:
- Sio drio far che con tanto petròlio? Ghe go dito:
- Mi no vui petròlio, vui caciassa adesso.
Se fusse stato casa, gavaria bevesto aqua e chi sa saria anca morto. Un dotor me ga dito che go bio fortuna de no bever gnente.
Par noventa giorni, quando mi rutea, vegnea fora el gusto de petròlio. No podea gnanca star darente i ciariti, senò ciaparia anca fogo.
Par na cosa el ga servio. Vermi e altri bissi tela mia pansa no ghinò mai pi sentio, fin incoi!
Festa da Colônia mostra o agroturismo de Gramado
Espetáculo Origens é a novidade do evento que inicia dia 23 de março
O espetáculo "Origens", que conta a saga dos imigrantes que povoaram Gramado, é a novidade da Festa da Colônia de Gramado, que ocorre de 23 de março a 2 de abril. Outra atração é o desfile de carretas, que exibe as lidas das etnias italiana e alemã. Com 32 mil habitantes, sendo 3.800 na área rural, o município aguarda 50 mil visitantes.
A rainha da festa, Magda Ruschel, de Várzea Grande; e as princesas Eduarda Cavalli, de Linha Furna, e Sabrina Negri, de Linha São Roque, estiveram na redação do CR divulgando o evento. "A festa é uma oportunidade de mostrar o potencial do interior, do turismo às agroindústrias", destaca o assessor da Secretaria de Turismo, Giovani Colorio.