LEITORES 

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Edição 4.981 - Ano 98 - Caxias do Sul-RS, 29 de março de 2006.

EDITORIAL

Criar um mundo diferente: uma utopia que nasce da fé

Presentes em mais de 100 países, capuchinhos apostam numa economia mais fraterna e solidária

 

A história gira com uma velocidade cada vez maior. Isto pressiona as instituições no sentido de rever a própria caminhada. Tudo o que não se renova morre. Isto vale para todas as instituições, inclusive religiosas. Com 11 mil membros, presentes em mais de 100 países e quatro séculos de história, a Ordem Capuchinha, sem perder de vista o ponto de partida, interroga o futuro. Porto Alegre, que de alguma maneira tornou-se símbolo da possibilidade de um mundo diferente com os Fóruns Sociais, acolheu frades de todo o mundo num encontro voltado para a justiça, a paz e a ecologia. É o terceiro encontro em nível mundial nos últimos anos. Reuniões semelhantes ocorreram em Adis Abeba, na Etiópia, e em Nagahuta, na Indonésia.

Sonhada como vida enclausurada, a Ordem Capuchinha saiu do silêncio para atender os atingidos por mortífera peste, em 1530, em Camerino, na Itália. Foi a voz do povo que ajudou a criar a verdadeira identidade capuchinha e por isso os frades sempre precisam voltar ao povo para ler e entender os sinais dos tempos. O cuidado e a reverência pela Criação e o grito dos pobres são apelos de Deus neste começo do terceiro milênio.

O documento final, após lembrar os perigos do individualismo, da concentração da riqueza com crescente número de famintos, esmagados pelos mecanismos de injustiça, fome e guerras, ressalta sinais de esperança, onde os pobres criam meios e caminhos de solidariedade. E os frades buscam em seu passado a solução para estes males: "A fraternidade capuchinha", diz o documento, "possui uma prática que representa uma alternativa para a sociedade atual. Trata-se da economia fraterna. Não se trata de paternalismo, mas da espiritualidade da solidariedade que conduz ao respeito à pessoa, criando laços de comunhão".

E nesta busca são apontados alguns princípios: apoiar uma economia solidária, o uso dos meios de comunicação social para formar um juízo crítico, estudar a Doutrina Social da Igreja, apostar na Teologia da Comunhão, fazer parceria com os organismos que lutam pela ecologia e pela justiça, e escutar o grito dos pobres. Diante da indiferença de muitos, os Frades Menores Capuchinhos acreditam que um mundo diferente é possível. E apostam nele.

 

CAXIAS DO SUL

Secretaria da Cultura assume projeto com verba da Comunidade Européia

URB-AL tem mais de R$ 1,579 milhão parado há um ano e cinco meses

 

Transferir a administração do Projeto URB-AL da Secretaria Municipal de Turismo para a pasta da Cultura. Esta foi a solução encontrada pelo prefeito José Ivo Sartori para superar impasse que completou um ano, envolvendo especialmente o secretário de Turismo Daniel Guerra e integrantes da Associação de Turismo Estrada do Imigrante (Assotur), e assegurar a aplicação de recursos na ordem de 1,3 milhão de euros (cerca de R$ 3,5 milhões) destinados pela Comunidade Européia. A oficialização da mudança deve ocorrer ainda nesta semana.

A Prefeitura de Caxias do Sul, como gestora do projeto do qual também participam Bento Gonçalves, Flores da Cunha e Assotur, tem até março de 2007 para aplicar os recursos - que exigem contrapartida. Caso contrário, vai perdê-los. No ano passado, a administração caxiense solicitou aos europeus adiamento de seis meses, que foi concedido e encerrou dia 19 de março. "Agora é preciso reunir os parceiros, redefinir orçamentos e prazos", afirma Antônio Feldmann, coordenador de Comunicação Social da Prefeitura e ex-responsável pelo gerenciamento do projeto - função agora exercida por João Tonus. Feldmann ressalta que ainda existem muitas dúvidas a serem dirimidas, mas, assegura, "elas serão suplantadas porque há decisão política do prefeito Sartori de levar adiante o projeto".

Há a necessidade de agilização do processo em primeiro lugar para garantir os recursos europeus. Parte do dinheiro está depositada numa conta do Banco do Brasil desde outubro de 2004. Na segunda 27, segundo atualização feita pelo secretário da Fazenda Carlos Burigo, a quantia era de R$ 1,579 milhão.

O primeiro projeto a sair do papel é a Escola Técnica de Agriturismo. Ela será instalada na 3ª Légua, interior caxiense, no prédio que já abrigou um seminário e que foi comprado por 13 pessoas - todos membros da Assotur. Eles também tiveram de ceder. Vão assumir todas as despesas das reformas do prédio. O dinheiro europeu será aplicado apenas no custeio da implantação da escola. Quando começa a funcionar? Será paga ou gratuita? Como se manterá? Essas são algumas questões ainda sem respostas definitivas.

Assotur - Ivete Zinani Marchi, eleita para presidir a Assotur na quinta 23, disse ao CR que ainda não está totalmente integrada ao projeto da Escola de Agriturismo. Luiz Ernesto Brambatti, vice-presidente da Assotur, afirma que está aguardando contato da Prefeitura para que sejam definidos os próximos passos.

Brambatti adianta que a Assotur foi transformada em Organização da Sociedade Civil de Interesse Público para viabilizar parcerias com órgãos públicos. Além disso, afirma que a instituição está aguardando a formalização de um convênio com o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) para a oferta de cursos. A Escola de Agriturismo vai receber Top Agronegócio 2006, dia 28 de abril, em Campinas (SP). O projeto foi indicado para o prêmio pelo MDA.

 

Frei Loivo Brandt dá nome a passarela

 

Descerrada na semana passada a placa que denomina "Frei Loivo Jaime Brandt" a passarela que liga o Parque Cinqüentenário ao Largo Correio Riograndense, em Caxias do Sul. A homenagem ao frei capuchinho foi proposta pelo vereador Guiovane Maria (PT). Na ocasião, o prefeito José Ivo Sartori lembrou que frei Loivo foi um exemplo na promoção da solidariedade. "Precisamos nos inspirar sempre no que ele realizou, assim como nos inúmeros voluntários que dão continuidade ao seu trabalho", afirmou. Estiveram presentes à cerimônia a irmã do frei, Lourdes Petter, o provincial dos Capuchinhos no RS, frei Álvaro Morés, a provincial das Irmãs Murialdinas, irmã Regina Mânica, e o diretor geral da Editora São Miguel e do Correio Riograndense, frei Clemente Dotti, secretários municipais, entre outras autoridades.

 

Reportagem

Fiscais detectam vinho adulterado

De 17 cargas de vinho a granel analisadas, 11 continham água

 

Apesar dos interesses particulares de uma categoria profissional, a ação dos fiscais agropecuários paralisados há mais de 50 dias deveria servir de alerta ao governo gaúcho, ao Ministério da Agricultura e a um setor importante da economia do Estado. Para provar a necessidade de fiscalização 24 horas por dia sobre o transporte de vinho, uma equipe de fiscais interrompeu a paralisação que se estende por mais de 50 dias, foi ao posto de Vacaria e lá coletou amostras do vinho a granel transportado para outros Estados. A "operação" ocorreu nas noites de 9 e 10 de fevereiro e na manhã do dia 11, sábado. O resultado da análise é no mínimo preocupante: de amostras recolhidas de 17 cargas, em 11 foi constatada a presença de água.

"Queremos provar que há problemas. Todos veículos tinham guia de livre trânsito assinada por pessoas da Emater, só que o vinho tinha água". A declaração é de Luiz Augusto Petry, vice-presidente da Associação dos Fiscais Agropecuários do RS (Afagro), que reúne 27 agrônomos (estão sendo admitidos mais 20), cinco engenheiros florestais e 34 técnicos agrícolas - responsáveis pela fiscalização sanitária, controle do comércio de agrotóxicos, de sementes e mudas e pela emissão de guias de livre trânsito para vinho, frutas e madeira.

Os fiscais querem gratificação de 100% sobre o básico da categoria (R$ 1,506 mil para nível superior e R$ 450 para o médio). "Em contrapartida, abrimos mão de horas extras, adicional noturno e adicional por trabalho em finais de semana", explica Petry. Adoraldo Schio, diretor de Produção Vegetal da Secretaria da Agricultura-RS, acredita que o impasse pode terminar nesta semana. Admitiu que os funcionários da Emater não estão treinados para coletar amostras de vinho, prometeu abertura de processos contra empresas fraudadoras, mas vê solução somente com a implantação de um corredor de passagem obrigatório para o vinho a granel - seria pela BR-116 -, pois hoje há 26 passagens do RS para SC.

 

Irregularidade de uma minoria prejudica todo setor

 

A proporção de cargas de vinho com água (65%) surpreendeu fiscais agropecuários tanto quanto o resultado de algumas análises. A presença de mais de 10% de água exógena (não provém da uva) já classifica o vinho como fora de padrão. Pois uma análise constatou mais de 80% de água, revela funcionário que não quer seu nome publicado.

Sem divulgar os nomes das vinícolas, Luiz Augusto Petry cita dois casos. No primeiro, um veículo carregava 30 mil litros de vinho e preparava-se para cruzar a fronteira gaúcha em Vacaria com a Guia de Livre Trânsito nº 1183/06, assinada por agrônomo da Emater. Os fiscais coletaram amostra - termo de colheita nº 3578 - do "vinho tinto comum seco". O Certificado de Análise nº 00297/06, referente a esta carga, emitido pelo Laboratório de Referência Enológica e assinado pela Dra. Regina Vanderlinde, traz como conclusão o seguinte: "Produto falso. Não corresponde a vinho".

Outro caminhão, liberado pela Guia de Livre Trânsito nº 1182/06, com 28 mil litros de "vinho tinto comum seco", termo de colheita de amostra nº 3577, transportava produto que "não atende ao padrão de identidade e qualidade para o item analisado". As empresas podem pedir contraprova. Segundo Plínio Manosso, chefe da Divisão de Enologia da Secretaria da Agricultura-RS, os laudos serão enviados para o Ministério da Agricultura, que deverá abrir processo contra os infratores.

No ano passado, dos 294 milhões de litros de vinho comercializados por empresas gaúchas, 181 milhões saíram do Estado a granel. Se fosse aplicado o percentual de irregularidades das 17 cargas, mais de 110 milhões de litros seriam adulterados. A comparação é incabível. Mas mesmo que sejam menos de 10%, toda adulteração respinga sobre o setor. Os que agem corretamente acabam também pagando pelos que desrespeitam as leis.

 

"Os fraudadores têm de ser punidos"

 

A manifestação é do presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), Danilo Cavagni. Preocupado, diz que, "se as amostras foram colhidas legalmente e confirmadas as adulterações", é preciso "responsabilizar os fraudadores e aplicar as sanções cabíveis nas esferas administrativa e judicial criminal, porque eles estão pondo em risco a saúde pública".

Defensor da fiscalização em nível nacional, Cavagni vai mais adiante: "As entidades do setor que propugnam a lisura das operações devem procurar se ressarcir por perdas e danos em função dos prejuízos que irregularidades como essas causam à imagem do vinho brasileiro".

O presidente do Conselho do Ibravin lamenta que ações como a deflagrada no início de março não sejam constantes - "porque ocorrem só quando há paralisação?" - e chama a atenção para outro aspecto importante. Em sua avaliação, se as fraudes continuam apesar da grande divulgação que foi dada à utilização de novos mecanismos de fiscalização - como a análise de carbono e da presença de água -, é sinal de que quem pratica essas irregularidades não confia na eficiência da estrutura implantada. "Ou esse pessoal ainda tem a sensação de impunidade", reforça. Para Cavagni, chegou o momento de fazer funcionar plenamente o sistema de fiscalização sobre o vinho. Ou, acrescenta ele, "algo está errado".

 

AGRONEGÓCIO

Pacote deve repor competitividade agrícola

Conjunto de medidas inclui redução nos juros e na carga tributária

 

O agronegócio brasileiro perdeu R$ 26,26 bilhões em 2005, o pior resultado dos últimos seis anos. Os números apurados pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo comprovam que foram os produtores rurais os que mais perderam no ano passado. "Sem renda, deixaram de comprar insumos, em investir na produção, e com isso geraram ciclo de perda para todo o agronegócio", analisa o chefe do Departamento Econômico da CNA, Getúlio Pernambuco.

O alivio ao sufoco vivido pelo setor agropecuário nacional poderá vir com um conjunto de medidas (ver tabela acima) que o governo federal deve anunciar nos próximos dias. A equipe econômica calcula o valor do pacote em R$ 6 bilhões, o suficiente para devolver aos agricultores o poder de competitividade perdido nos últimos meses. "O objetivo das medidas é reduzir os custos da agropecuária e do agronegócio", diz o secretário de Política Agrícola, Ivan Wedekin.

O pacote está saindo do papel depois da ameaça do ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, de deixar o cargo. O conjunto de medidas está em negociação desde 15 de fevereiro. O ministro reuniu-se com o presidente Lula na quarta 22 para pressionar o Ministério da Fazenda e apressar o lançamento do pacote.

Entre as medidas, a primeira é na área de crédito. O governo estuda meios para baixar os juros pagos pelos agricultores. Hoje, as taxas médias são de 15% ao ano. Outra medida é promover alterações na tributação de Pis/Cofins e ICMS. O governo quer evitar distorções nesses tributos que possam onerar a agropecuária.

Para Ivan Wedekin é preciso adotar medidas para aliviar os custos dos insumos básicos da produção. Esse foi um dos itens que mais pesaram no bolso dos produtores, devido à forte aceleração nos preços dos agroquímicos. "O governo deve mexer nas alíquotas de importação", adianta o secretário. Outro setor que o governo deve desenvolver é o seguro. O objetivo é reduzir riscos e baixar os custos ao produtor. Os agricultores reclamam que os R$ 45 milhões do prêmio cobrem apenas 5% da área agrícola do país.

O governo quer, ainda, medidas que teriam efeitos sobre a renda dos produtores, como a melhora na infra-estrutura. Um dos itens é o transporte. Um sistema eficiente e competitivo reduziria os custos. No final, o benefício seria, em parte, transformado em melhores preços para os agricultores. "A combinação entre queda de produção e redução dos preços afetou diretamente a renda do produtor", destaca Pernambuco.

 

Entidades querem moratória das dívidas

 

Uma moratória geral temporária das dívidas rurais de todo o país por 120 dias para que, nesse prazo, seja formatado um projeto para regularizar a situação de mais de um milhão de produtores rurais. Essa é a reivindicação que as entidades nacionais da agricultura levarão ao presidente Lula.

Capitaneada pela Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), a idéia da moratória resulta na constatação de que mais de 80% dos agricultores estão endividados em face das sucessivas crises que se abateram sobre o setor. Movimentos de agricutores ocorrem em todo o país. No RS, a Fetag e Farsul realizam protestos em várias regiões, como o "Tratoraço de Vacaria", no sábado 25, para pedir parcelamento das dívidas rurais.

A moratória pretendida inclui as dívidas vencidas dos produtores com os setores público, especialmente bancos e financeiras, e privado, como fornecedores de insumos e revendedores de máquinas, mais os custeios e investimentos do ano agrícola em curso. "As dívidas totais somam mais de R$ 13 bilhões somente com a área oficial", revela o vice-presidente da Federação da Agricultura de SC, Enori Barbieri.

Segundo a CNA, esse estoque envolve a inadimplência consolidada com a securitização (R$ 9 bilhões), do Pesa (R$ 1,4 bilhão), dos fundos constitucionais (R$ 2,8 bilhões) e renegociações do Pronaf (R$ 291 milhões). Pelos cálculos da Farsul, somente o agricultor do RS deve R$ 12 bilhões. Desde a década de 90, os débitos dos produtores gaúchos não eram tão altos.

 

Seca deve marcar o outono do Sul

Estação será caracterizada pela entrada de La Niña em território brasileiro

 

As previsões climáticas para o outono no Brasil são de seca no Sul e chuva no Nordeste. O coordenador-geral de Meteorologia do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Alaor Júnior, disse que o país está entrando no período do La Niña. Trata-se do período frio do fenômeno El Niño, marcado por águas quentes na faixa equatorial do Oceano Pacífico da costa do Peru para o centro do oceano. La Niña é o contrário: é um período de águas frias que vai da costa do Peru e do Equador até o centro do oceano.

"Tradicionalmente, nos anos de La Niña, não tem seca no Nordeste. Deve afetar um pouco o Sul do Brasil, mas isso não ocorre no Nordeste", afirma Alaor Júnior. Em relação aos desastres naturais, o diretor do Inmet observou que, para acabar com enchentes e secas, comuns no Brasil, é necessário haver mais políticas públicas de prevenção.

Nos pampas - O outono dos gaúchos será marcado por grande variação de temperaturas e chuvas abaixo da média em maio e junho, segundo os prognósticos do Instituto Nacional de Meteorologia (8º Disme/Inmet). Já para abril, a previsão é de chuvas levemente acima da média da normal climatológica no leste do Estado e dentro do padrão para as demais regiões.

A temperatura mínima para o mês de abril deverá ficar dentro do padrão climatológico no leste e oeste do Estado e um pouco abaixo do padrão nas demais regiões gaúchas. A distribuição irregular de chuvas e as temperaturas mínimas e máximas um pouco mais elevadas do padrão em todo o Estado encerram o mês de março.

A partir de maio, estudos têm mostrado que o fenômeno La Niña vai apresentar influências significativas no clima, principalmente na temperatura. "Espera-se predomínio de massas de ar mais frias e secas, causando redução na chuva e na temperatura", explica o meteorologista Gil Russo.

Em maio, a tendência é a precipitação ficar abaixo do padrão climatológico em praticamente todo o RS. Para junho, a maior probabilidade é da precipitação continuar um pouco abaixo do padrão climatológico na metade norte do Estado e de normal a um pouco acima do padrão na Metade Sul. "O outono não recuperará o nível dos reservatórios", afirma ao CR o meteorologista do 8º Disme/Inmet, Cléo Kuhn.

A análise da temperatura máxima para os meses de abril e maio indica que ela ficará acima do padrão climatológico em todo o Estado. Em junho, a temperatura máxima ficará dentro do padrão no sul do Estado e pouco abaixo do padrão nas demais regiões.

De acordo com informações do 8º Distrito de Meteorologia, o outono tem como principal característica uma marcada amplitude térmica devido à entrada de sistemas de ar frio, os quais reduzem bruscamente a temperatura do ar.

 

Quebra na produtividade do milho é de 30%

 

As chuvas da última semana vieram em boa hora para os 19% das lavouras de milho que se encontram em enchimento de grãos, e para os 6% que se encontram em floração, uma vez que a deficiência hídrica começava a se agravar no RS, conforme a Emater.

Em algumas regiões, entretanto, há bolsões onde a quebra de rendimento das lavouras ultrapassa os 30%, fazendo com que os produtores recorram ao Proagro. Apesar das pequenas interrupções causadas pelas chuvas, o milho segue sem problemas com a colheita e dentro do ritmo esperado. As demais fases se encontram com 24% maduro e por colher e 6% em floração.

 

Embrapa lança milho exclusivo para o Sul

 

A Embrapa Trigo, de Passo Fundo (RS), desenvolveu a cultivar de milho simples BRS 1015, primeiro híbrido lançado pela Embrapa para a região Sul. O híbrido é de ciclo precoce, com elevado potencial de rendimento de grãos associado à excelente sanidade foliar e arquitetura de plantas - em média 1,75 metro de altura.

Foram 10 anos de pesquisa para chegar a um híbrido de ciclo precoce. O BRS 1015 está recomendado para o período normal de semeadura nos três Estados do Sul.

 

Vida Agrícola

Engº. Agrº. José Zugno

Uvada, geléia de uva e compota de figo

Desejando aproveitar o final da safra de uvas e figos eu pediria que publicasse no Correio Riograndense receitas de fabricação de uvada, geléia de uva e da calda de figos verdes que seria certamente do interesse de muitos.

MADERLÔ BRITO DA SILVA

Criúva - Caxias do Sul

 

Em toda a região de colonização italiana é muito freqüente, principalmente pelas mulheres da zona rural, o aproveitamento das frutas. Sejam morangos, marmelos, pêras, maçãs, pêssegos, ameixas, goiabas, uvas, figos e outras frutas, abundantes na safra, a maior parte delas é consumida ao natural, e a outra parte confeccionada sob a forma de boas "marmeladas" e compotas para consumo posterior, nos meses em que não mais existem as frutas naturais. As receitas são muitas e podem ser obtidas diretamente com essas habilidosas produtoras ou com as extensionistas da Emater de Caxias do Sul, ou do município de São Marcos, mais próximo da sua residência. Contudo, atendendo ao seu pedido transcrevemos abaixo receitas de autoras(es) categorizadas(dos).

Uvada - Em termos gerais consiste em escolher os cachos, debulhar os grãos, cozinhá-los em igual quantidade de água, deixar amornar, passar na peneira para separar as cascas e sementes. Obtém-se a uvada com o suco resultante acrescentado de duas partes de açúcar e cozinhado até o ponto do gosto, mais mole ou mais denso. A respeito do assunto faço questão de transmitir a uvada que a Neiva Calgaro, de Otávio Rocha, faz com a casca das uvas que é bem simples e saborosa: a cada kg de casca, juntar 1 kg de açúcar, e cozinhar, em fervura, por cerca de 45 minutos. Está pronta para consumo. Telefone da Neiva para contatos: (54) 32791328.

Geléia de uva - Inicialmente lembro que geléia é alimento produzido pelo caldo de fruta com açúcar e que, ao esfriar, adquire a consistência gelatinosa, transparente, flexível e brilhante. A responsável pela geleificação é a pectina, substância que existe, em maior ou menor quantidade nas frutas. A uva tem pouca pectina, e assim, para obtenção de geléia de uva é necessário acrescentar pectina. No comércio existe pectina em pó ou gelatina.

Receita de geléia de uva - Ingredientes: ½ litro de suco de uva, 250 g de açúcar cristal, 250 centímetros cúbicos (1/4 de litro) de pectina. Mistura-se o suco de uva, o açúcar e a pectina numa panela larga de alumínio. Ferve-se em fogo forte, tirando sempre a espuma até atingir o ponto de geléia. Para conservar, deverá ser colocada em vidro de conserva, resistente ao calor, tipo pirex, ainda quente (Indústrias Rurais - Instituto Campineiro de Ensino Agrícola - Campinas -SP).

Outra receita de geléia - Ingredientes: uma garrafa de caldo de uva, um pacote de pectina em pó, três xícaras de açúcar cristalizado, ½ xícara de água. Misture o caldo de uva e a água numa panela, leve ao fogo para ferver, acrescentando a pectina e mexendo até dissolver. Juntar o açúcar, deixar ferver até formar bolhas, durante ½ minuto. Tirar do fogo. Deixar descansar um minuto, coar a espuma e derramar nos vidros já escaldados, cobrindo com papel parafinado quente. Enche 5 ½ vidros (Lúcia C. Santos, autora do livro "Frutas de Doce, Doces de Frutas").

Compotas de figo verde - Ingredientes: 1 kg de figos verdes, 2 kg de açúcar, 1 saquinho de cinza (de madeira), ½ litro de água.

Modo de fazer: descasque os figos com cuidado tirando a casca bem fina. Unte as mãos com uma gordura qualquer, porque o leite que sai dos figos queima muito. À medida que for descascando os figos, ponha-os em uma vasilha com água fria. Leve ao fogo com pouca água, juntando o saquinho de cinza. Quando ferver, retire do fogo e troque a água da vasilha; durante 3 dias mude a água. No fim do 4º dia, faça uma calda rala, com 2 kg de açúcar e meio litro de água; junte os figos e deixe ferver por ½ hora (a calda deve cobrir inteiramente os figos). Retire a caçarola do fogo e, no dia seguinte, deixe ferver novamente; faça isto durante 3 dias para que os figos absorvam a calda completamente. Se a calda engrossar antes dos figos ficarem bem passados, junte um pouco de água. (Cartilha do Agricultor, vol.1 - Secretaria da Agricultura do RS, 1982).

 

SAÚDE

Obeso pode desenvolver cirrose

Mesmo sem abuso de álcool, excesso de gordura destrói as células do fígado

 

A doença gordurosa do fígado não-alcoólica, também chamada de esteato-hepatite, é hoje uma das principais preocupações de endocrinologistas e hepatologistas. Sem perceber, pessoas obesas que não têm histórico de abuso de álcool estão desenvolvendo essa enfermidade. Sem tratamento, a doença pode evoluir para cirrose.

A esteato-hepatite é um processo inflamatório crônico do fígado, provocado pelo excesso de gordura acumulada no órgão. O paciente não apresenta nenhum sintoma. Geralmente, o problema só é descoberto durante a realização de exames de rotina que apontam alterações nas funções hepáticas. Quando a gordura começa a se acumular, as proteínas e enzimas do fígado têm suas dosagens aumentadas. Essa é a primeira fase da doença, ainda reversível. Nas etapas mais avançadas, pode ocorrer fibrose, uma espécie de cicatriz, e até cirrose, quando o fígado perde suas funções e, então, a única solução é um transplante. O fígado é um órgão de estoque de gordura, principalmente triglicerídeos. Quando há gordura em excesso, ocorre um transtorno molecular e, conseqüentemente, a destruição das células hepáticas.

O diagnóstico só é dado após a exclusão de outros problemas que também interferem nas funções do fígado. Por isso, é necessário fazer uma série de exames laboratoriais. A confirmação ocorre depois de uma biópsia do órgão, que informa, inclusive, o estágio da doença. Até hoje, não existe tratamento específico para o problema. A única alternativa é controlar a obesidade.

 

Prevenção exige mudança de hábitos

 

Uma doença do mundo moderno. Assim os especialistas definem a esteato-hepatite. O problema ganhou uma proporção tão grande que a Sociedade Brasileira de Hepatologia designou um grupo para estudar os aspectos clínicos e epidemiológicos da doença em todo o Brasil.

O estudo será coordenado pela hepatologista Helma Cotrim, professora da Universidade Federal da Bahia. "Esse é um problema de caráter benigno, desde que se evite sua evolução, caso contrário, pode provocar cirrose", avalia. "É atualmente uma das doenças do fígado mais freqüentes do mundo ocidental por causa do aumento da obesidade e do diabetes", afirma.

A preocupação dos especialistas é em torno da prevenção, já que não há tratamento específico para a doença. Até hoje, não existem remédios capazes de curar o fígado. A melhora do quadro, para reduzir o tamanho do órgão e regularizar as taxas das enzimas, é feita por meio do controle da obesidade, mediante redução do peso e dieta equilibrada associada à prática de exercícios físicos. Além disso, é preciso fazer um controle rígido dos níveis de colesterol, triglicerídeos e insulina no sangue. Ou seja, a prevenção exige mudança no estilo de vida da população.

 

Tensão eleva risco de ataque cardíaco

 

Um único momento de forte tensão produz, em poucas horas, um efeito muito mais devastador para o coração do que preocupações acumuladas durante um ano inteiro. Essa foi a conclusão de um estudo com mais de três mil voluntários feito por cientistas suecos do Instituto Karolinska. Segundo eles, exercer uma única atividade sob pressão ou enfrentar um grande conflito, por exemplo, pode elevar em até seis vezes os riscos de um ataque cardíaco.

 

OPINIÃO

Novos ícones da masculinidade

Maria Clara Lucchetti Bingemer

A obsessão com o físico está tornando homens em dóceis fantoches da mídia e da cultura: não conseguem alcançar sua meta enquanto são ao mesmo tempo alcançados pela idade e pelo declínio natural do físico

 

Novo e recente estudo realizado por empresa de seguro médico britânica verificou que os homens estão ficando cada vez mais críticos com relação a seu físico e sua aparência, ao mesmo tempo que se mostram infelizes com certas partes de seu corpo. Ou seja, aumentou a preocupação - ou mesmo a obsessão - masculina com o próprio corpo e a forma física. Aquilo que até agora era - teoricamente ao menos - apanágio das mulheres, se explicita como sendo também importante para os homens.

Bombardeados por físicos atléticos, modelos e celebridades com corpos perfeitos, e pressionados por suas parceiras no sentido de adquirir uma aparência melhor, os homens vivem hoje uma crise de confiança na própria imagem. Inseguros, desejam romper limites e ultrapassar barreiras de beleza. E carregam dentro de si aspirações e imagens icônicas que seriam para eles representação da perfeição.

É assim que a pesquisa verificou por onde anda o imaginário masculino em relação à sua corporeidade. Demonstrou que os homens almejam ter corpos perfeitos e praticamente inatingíveis: bem definidos, musculosos, ágeis e atléticos. E seus paradigmas para isto são o nebuloso e dificilmente definível jogador de futebol do Real Madrid e capitão da seleção inglesa, David Beckham, e o mito hollywoodiano de rostinho perfeito de olhos azuis Brad Pitt.

Contemplando estes inatingíveis modelos, a pesquisa mostra os homens infelizes com suas pernas, abdomens e tóraxes. Acabam-se nas academias para chegar mais perto de seus ideais ou mentem às mulheres sobre sua freqüência aos exercícios de musculação e definição do corpo, a fim de que estas acreditem que são grandes atletas.

Para acompanhar o ritmo desses novos ícones da masculinidade, tão diferentes daqueles do passado, tudo leva a crer que começaremos a ver os homens mudando a cada dia o corte de cabelo, o penteado e o esmalte das unhas, inventando um novo detalhe excêntrico na maneira de vestir-se e depilando as sobrancelhas em listras. Pois não é assim que fazem aqueles que encarnam a perfeição física que representa sua aspiração mais profunda?

A obsessão com o físico, porém e infelizmente, parece que anda em inversa proporção com aquilo que esses mesmos homens têm dentro das próprias cabeças. Fixados na aparência e nas dimensões de suas medidas corporais, sobra pouco tempo para investir na cultura, na leitura, na espiritualidade, na contemplação e em tudo que dilata os espaços interiores e agiganta o ser humano a partir de dentro. Tampouco resta muito espaço para questões mais humanizantes e inocentes, como o lazer entre amigos, um bom papo numa roda de chope. Ou para ajudar os que sofrem e precisam de companhia.

Por isso, e porque é preciso chegar cada vez mais perto de Beckham, Pitt e outros, há que empregar todo o tempo e a energia disponíveis nos cruéis e implacáveis rituais das academias, perseguindo um corpo irrealizável porque irreal. A frustração acompanha o esforço feito, uma vez que as mulheres parecem nunca estar satisfeitas com o resultado. E nem os próprios homens o estão.

Uma tal postura diante do próprio corpo está longe de ser sadia e equilibrada. Não abre para a relação com o outro e, portanto, não realiza ninguém. Volta o homem cada vez mais para si mesmo, em narcísico desvario que tem apenas o espelho como interlocutor. Investindo o melhor de si em atingir ideais impossíveis de beleza, o homem se envilece, se esteriliza e se incapacita para aquilo para o qual foi criado: o amor, a ternura, a coragem, o heroísmo.

Tornado um dócil fantoche da mídia e da cultura, não consegue alcançar sua meta enquanto é ao mesmo tempo alcançado pela idade e pelo declínio natural do físico. Não conseguirá, igualmente, encantar as mulheres. Por mais que elas digam querer e admirar os artistas de rostos perfeitos e corpos atléticos, cairão de encanto diante de um homem que saiba falar-lhes ao coração, à imaginação e à sensibilidade. Que as trate com respeito e ternura. Mesmo que não seja tão bonito, nem tão musculoso, nem tão atlético, nem tão perfeito.

Solitários e insatisfeitos, os homens que perseguem o físico dos ícones da mídia, prosseguirão seu caminho. Até que, qual Narciso, encontrem seu fim na contemplação embevecida e deleitada da própria imagem que acabará por tragá-los e matá-los.

 

Humores do mercado

Frei Betto

O Mercado está pouco se lixando se há crianças morrendo de fome ou se aumentou o número de desempregados. O que lhe interessa é defender os poucos que lucram muito, sobretudo os estrangeiros

 

Mais do que todas as pesquisas, o Mercado pesa muito na eleição presidencial. Há quem imagine que seja um ente virtual. Ou apenas o resultado de uma economia centrada no lucro, e não no bem-estar da maioria. E não falta quem afirme que é uma categoria econômica que define a área onde se dão as relações de compra e venda.

Ora, o Mercado é como Deus, existe, todo mundo fala dele, mas permanece invisível e age sem que possamos perceber. A diferença é que, ao contrário de Deus, promove o bem apenas de uma minoria. E não tem a menor sensibilidade, prejudica a maioria apoiado no dogma de que ele é imutável e inelutável. Como os grandes criminosos, não gosta de se mostrar. Sua principal característica é a freqüente mudança de humor. Com facilidade se irrita, fica instável, nervoso; e, de uma hora para outra, aparece calmo, tranqüilo, sorridente. Nada o alegra mais do que engordar o lucro dos bancos.

Quando o Mercado não gosta do que está ocorrendo à sua volta - ou, como dizem os comentaristas especializados em economia, "reage mal" - o dólar sobe, o Risco Brasil aumenta, a Bolsa de Valores entra em queda. Mas se o Mercado sente seu ego massageado, então acontece tudo ao contrário.

Todos sabemos que o Mercado é o termômetro que, hoje, nos indica se fará bom ou mau tempo, mas ninguém sabe onde mora nem cruza com ele na esquina. Só os comentaristas e os ministros da área econômica têm contato com ele. Ou melhor, o Mercado conhece o número dos celulares dessa gente. E toda manhã, após ler os jornais e ouvir no rádio as últimas entrevistas dos caciques da política, ele liga para os seus porta-vozes e não esconde seu estado de humor.

Se o presidente manda o ministro da Fazenda abrir o cofre em época de eleições, o Mercado espinafra, xinga, grita ao telefone e toma uma caixa de Lexotan. Se promete não reduzir o lucro dos bancos nem decepcionar os investidores estrangeiros, se acalma, sorri e manda seus porta-vozes anunciarem que, hoje, acordou de bom humor.

O Mercado está pouco se lixando se há crianças morrendo de fome no Vale do Jequitinhonha ou se aumentou o número de desempregados em São Paulo. O que lhe interessa é defender, com unhas e dentes, os poucos que lucram muito. Sobretudo os investidores estrangeiros, pois não gosta do Brasil e dos brasileiros. Aliás, só fala inglês e, de preferência, este estranho dialeto chamado economês.

O Mercado gosta mesmo é de ver um país pobre honrando as suas dívidas, ainda que milhões morram à míngua. Sim, não se espante. A lógica dele é outra. Não tem religião, nem ética, nem coração. Só interesses. E não gosta de ser provocado. Mas, felizmente, quando se altera, seus porta-vozes aparecem nos meios de comunicação para nos transmitir seu estado de ânimo. Assim, toda vez que fica nervoso, eu me escondo debaixo da cama. Sei que no hemisfério Norte os investidores riscam o Brasil do mapa da especulação financeira. Porém, quando o Mercado se acalma, saio aliviado do meu esconderijo e acompanho a queda do dólar e a alta da Bolsa.

Os acólitos do Mercado veneram Wall Street e odeiam a rede de proteção previdenciária que assegura a milhões de pensionistas, idosos e enfermos um futuro de menos penúria. E sonham, todas as noites, com o único porvir que lhes interessa: ocupar um cargo de direção no Banco Mundial ou no FMI, figurar no conselho dos maiores bancos do país. Por isso, tratam os donos do dinheiro como seminaristas diante do papa.

Não esqueça que o Mercado adora brincar de gangorra. Só não gosta de ser empurrado. E tome cuidado, pois ele não vota, mas pode não gostar do seu voto nas próximas eleições presidenciais. Aliás, pode não apoiar seu candidato, que não lhe inspira confiança. Então ele desata sua propaganda terrorista, de modo a fazer crer que, se tal candidato vencer, haverá fuga de investidores, êxodo de capital, retorno da inflação e desvalorização da moeda. Fique atento: o Mercado não costuma ter simpatias para quem favorece o povo.

 

NACIONAL

Mais dois deputados absolvidos

Dessa vez, baixo quórum na Câmara beneficiou acusados

 

A maioria dos parlamentares presentes ao plenário votou pela cassação de um dos suspeitos de envolvimento com o "mensalão", a outra votação teve equilíbrio, mas ambos acabaram absolvidos pelo baixo quórum na Câmara. No caso de Wanderval Santos (PL-SP), acusado de receber R$ 150 mil das contas de Marcos Valério, 242 deputados votaram pela cassação (179 pela absolvição). Faltaram apenas 15 para atingir os 257 necessários. Estavam ausentes do plenário 69 dos 513 deputados da Casa.

João Magno (PT-MG), acusado de ter recebido R$ 426 mil por meio do valerioduto, recebeu 207 votos pela absolvição e 201 pela cassação. Estavam ausentes do plenário 87 deputados, número suficiente para inverter o resultado.

Quase um ano após estourar o escândalo do "mensalão" - pagamento em troca de apoio ao governo -, 19 deputados foram denunciados. Até agora, houve apenas três condenações (Roberto Jefferson, PTB-RJ; Jocé Dirceu, PT-SP; e Pedro Corrêa, PP-PE). Além de Wanderval e João Magno, mais quatro deputados foram absolvidos (Pedro Henry, PP-MT; Professor Luizinho, PT-SP; Roberto Brant, PFL-MG; Sandro Mabel, PL-GO). Renunciaram para fugir do julgamento Carlos Rodrigues (o ex-bispo da Igreja Universal, sem partido-RJ), José Borba (PMDB-PR), Paulo Rocha (PT-PA) e Valdemar Costa Neto (PL-SP). Seis aguardam julgamento.

 

ESPECIAL

CURSO DE TEOLOGIA A DISTÂNCIA

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO

A edição 2006 do Curso de Teologia a Distância inicia dia 5 de abril. O primeiro módulo é Bíblia - Novo Testamento. A responsável pelas lições, irmã Lúcia Weiler, elaborou um texto que estabelece ligação entre o Antigo e o Novo Testamento, para melhor situar o aluno

 

A Bíblia pode ser comparada com uma casa que foi sendo construída progressivamente, em tempos históricos diferentes, de acordo com as necessidades das pessoas, das comunidades e dos povos, que entraram na longa caminhada da vida e da libertação. No compasso dos pequenos passos, na partilha das experiências de vida e de fé, o povo torna-se, aos poucos, "povo de Deus". Povo de Deus, em primeiro lugar, porque acredita no Deus da Vida. Mas também porque escolhe este Deus da Vida como companheiro de sua caminhada em busca da Libertação. Esta escolha mútua tinha conseqüências muito concretas para os relacionamentos humanos e a organização justa e fraterna da sociedade. Não foi sempre fácil perseverar numa caminhada assim. O povo atravessou desertos, teve muitas dúvidas e a maior delas: "Onde está nosso Deus?" Assim vivemos até hoje.

O povo de Deus no deserto andava, mas à sua frente alguém caminhava.

O povo de Deus era rico de nada, só tinha esperança e o pó da estrada.

Também sou teu povo, Senhor, e estou nesta estrada.

Somente a tua graça me basta e mais nada.

O povo de Deus também vacilava. Às vezes custava a crer no amor. O povo de Deus chorava e rezava, pedia perdão e recomeçava. Estamos na mesma estrada e também somos povo de Deus. Não mais como no tempo em que os escritos da Bíblia foram concluídos. Muitas coisas mudaram. Mas continua a pergunta e a procura de Deus e do sentido da vida e da história. Continuamos, também, buscando vida e libertação, em meio a situações e mecanismos de morte, de opressão e exploração.

Como as primeiras comunidades cristãs, acreditamos na promessa de Deus, encarnado na história: "Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos" (Mt 28, 20).

 

Antigo e Novo têm profunda ligação

 

A palavra "Bíblia" significa "biblioteca" ou coleção de livros. Ao todo são 73 livros, organizados em dois testamentos: o Primeiro, ou Antigo Testamento, com 46 livros, e o Segundo, ou Novo, com 27 livros.

Nosso estudo, neste módulo do Curso de Teologia a Distância, é a "Teologia do Novo Testamento". Porém, os dois testamentos estão profundamente interligados - o "segundo" sem o "primeiro" seria como uma planta sem raiz. O último livro escrito no Antigo Testamento foi o livro da Sabedoria - redação em torno do ano 60 antes de Cristo (a. C.). Procure em sua Bíblia a última frase deste livro (Sabedoria 19,22): é um verdadeiro ato de fé e de agradecimento à Providência de Deus que acompanhou o povo em "todo tempo e lugar".

O primeiro escrito do Novo Testamento é uma carta do Apóstolo Paulo para a comunidade cristã de Tessalônica. É a primeira carta aos Tessalonicenses escrita e enviada no ano 51 depois de Cristo (d. C.).

Jesus - O evento Jesus de Nazaré inaugura um tempo novo para a humanidade. Este acontecimento marca, decisivamente, a teologia do Novo Testamento. Para além dos escritos temos a memória viva que animou a vida das primeiras comunidades. Isto mostra que o Deus da Vida e sua Palavra reveladora de amizade e libertação é muito maior do que aquilo que está documentado na Bíblia. Por isso, quando o redator do Evangelho segundo São João tinha que finalizar seu escrito, encontrou dificuldade para fazer a escolha dos fatos, palavras e Sinais que ajudariam a ter fé e vida (cf. Jo 20, 30-31). Na redação final em Jo 21, 25 diz: "Ora, Jesus fez muitas outras coisas. Se todas elas fossem escritas uma por uma, creio que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que seria preciso escrever".

O Segundo Testamento é chamado de Novo porque, com Jesus de Nazaré, Deus se encarna na história humana e inaugura um novo tempo. Não um tempo cronológico, mas um tempo de graça (Kayrós). E isto se tornou a Boa Notícia, o Evangelho para aquelas pessoas que esperavam a libertação no tempo de Jesus - eram principalmente os pobres. O Evangelho segundo São Marcos é o primeiro a anunciar esta mensagem quando escreve: "Começo da Boa Notícia de Jesus, o Messias, o Filho de Deus" (Mc 1, 1).

Lendo um pouco adiante, no mesmo Evangelho de Marcos, depois de ser batizado por João Batista, é confirmado pelo Espírito Santo e pela voz do Pai que o chama de Filho Amado. Em seguida, Jesus é levado, ou impelido, para o deserto, pelo Espírito. Lá Ele enfrenta as tentações de Satanás e reafirma seu projeto de lutar em favor da vida e da libertação: o Reino de Deus.

Na seqüência, temos a notícia que João Batista foi preso (Mc 1,12). Isto mostra que era um tempo de muitas tensões e conflitos. Jesus então volta para a Galiléia e anuncia a Boa Notícia de Deus: "O tempo já se cumpriu e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem na Boa Notícia" (Mc 1, 14).

Hoje, continuamos a caminhada como povo de Deus, do Novo Testamento, junto com algumas protagonistas de um momento histórico novo para a humanidade. São eles: Jesus de Nazaré e o movimento de discípulas e discípulos que viveram com Ele e ajudaram a organizar as primeiras comunidades cristãs. Neste processo não conta apenas o protagonismo. A maioria das pessoas que ajudaram a construir os caminhos concretos do seguimento de Jesus através da vida cotidiana em comunidades foi, e continua sendo, anônima. Dentre elas destacamos os empobrecidos e as mulheres.

 

Experiência de fé é anterior aos escritos

 

Entre os anos 30 e 40 temos o período do assim chamado "movimento de Jesus". É um tempo marcado pelo anúncio do Evangelho entre os judeus. Não é nenhuma teoria ou escrito que marca este tempo. Na origem de tudo está Jesus e a experiência de sua Ressurreição.

Após a Páscoa, quando se encontravam, lembravam a vida de Jesus e isso dava coragem para continuar a viver seu projeto de vida. Faziam visitas nas casas, partilhando não apenas o pão, mas também suas alegrias e esperanças, dores e sofrimentos do "Caminho" (Veja Lc 1,39-55; At 2, 42-47). Originalmente, o cristianismo era chamado simplesmente de "Caminho"1. Na "Antioquia, os discípulos foram, pela primeira vez, chamados com o nome de "cristãos." (At 11,26).

O anúncio da Boa Notícia era feito oralmente de várias maneiras nas celebrações litúrgicas, na catequese. Aos poucos a tradição oral vai sendo colocada por escrito, para não cair no esquecimento. Assim surgem, sem preocupação de dar uma forma histórica lógica, vários escritos avulsos sobre a vida de Jesus. Jesus mesmo não escreveu nada. Entre os escritos avulsos destacam-se: uma coleção de palavras de Jesus, relatos de milagres e sinais, discursos, hinos litúrgicos, catequeses batismais. Bem mais tarde este material foi organizado em dois grandes relatos: o da vida de Jesus na Galiléia e seu caminho para Jerusalém (cf. Lc 9, 51); e outro relato da Paixão - Morte - Ressurreição em Jerusalém.

 

Espaços diversificados para a evangelização

 

NO CAMINHO: por exemplo, o encontro de Filipe com o eunuco etíope aconteceu no caminho de Jerusalém para Gaza, ou seja, na Faixa de Gaza. O eunuco estava lendo uma passagem da Escritura do profeta Isaías. E Filipe o encontrou e foi convidado a subir na sua carruagem. Pelo caminho explicou essa passagem da Escritura e fez-lhe o anúncio de Jesus. Continuaram o caminho até chegar a um lugar onde tinha muita água e aí o eunuco foi batizado. (cf. At 8, 26-40).

NAS CASAS: muitos encontros de orações, celebrações, catequeses, formação de lideranças aconteciam nas casas. Por exemplo, o anúncio do anjo a Maria, conforme a notícia de Lucas, foi feito numa casa, na pequena cidade de Nazaré ( Lc 1, 26-38); na casa de Maria, a mãe de João Marcos, em Jerusalém havia muitos reunidos em oração (At 12, 12) e acolheram Pedro que havia saído da prisão.

NAS SINAGOGAS: o livro dos Atos dos Apóstolos fala que um certo "Apolo, natural de Alexandria, era homem versado nas Escrituras. Tinha recebido instrução no caminho do Senhor e, com muito entusiasmo, falava e ensinava com exatidão a respeito de Jesus, embora só conhecesse o batismo de João. Então ele começou a falar com muita convicção na sinagoga" (At 18, 24-26 ).

Aos poucos a tradição oral vai se organizando em escritos. Qualquer escrito precisa escolher um gênero literário que melhor ajude a comunicar a mensagem que deseja anunciar. Os escritos do Novo Testamento podem ser, basicamente, agrupados em quatro formas ou gêneros literários: Cartas, conhecidas também como Epístolas; Evangelhos; Atos dos Apóstolos; Apocalipse.

 

Cada geração representa época e preocupação específicas

 

Abrindo o Novo Testamento e lendo as experiências aí descritas, estamos nos encontrando com pessoas "a caminho" durante o primeiro século da nossa era. Só nos primeiros anos havia ainda as chamadas "testemunhas oculares" de discípulas e discípulos de Jesus. Os escritos neo-testamentários retratam a vida das três primeiras gerações cristãs, com suas tentativas de viver o seguimento de Jesus de Nazaré em comunidades de fé. Aí surgiram muitas dúvidas, dificuldades e era preciso voltar sempre de novo para a lembrança a memória do próprio jeito como Jesus viveu, o que ele disse e fez. Esta lembrança ou este "memorial" só era possível porque a comunidade acreditava que o Espírito Santo estava presente na comunidade, como tinha sido prometido por Jesus: "O Espírito não falará em seu próprio nome, mas dirá o que escutou e anunciará para vocês as coisas que vão acontecer... Tudo o que pertence ao Pai, é também meu. Por isso é que eu disse: o Espírito vai receber daquilo que é meu, e o interpretará para vocês". (Conferir Jo 16, 13.15).

Assim, os 27 livros do Novo Testamento são produto de várias experiências das comunidades que buscavam fazer uma leitura de fé, de esperança e de amor da vida na sua realidade. Realidade e vida, como hoje, cheias de contradições e de perguntas. Mas a certeza da presença viva do Espírito Santo que animava e atualizava a memória de Jesus de Nazaré e de sua intima relação com Deus Pai e Mãe, dava luzes e forças às comunidades para continuarem caminhando e anunciando o Reino de Deus.

Cada geração representa uma época histórica e uma preocupação específica (ver quadro). A primeira é marcada pela tradição oral e pelos escritos de Paulo com sua teologia própria. A preocupação era a de testemunhar. Época da expansão missionária no mundo grego. A segunda geração é marcada pela dramática situação da destruição do templo e tomada de Jerusalém pelo Império Romano e pela diáspora. Nesta época situam-se os Evangelhos sinóticos e os Atos dos Apóstolos, entre outros escritos. A preocupação era preservar, guardar por escrito, a memória de Jesus de Nazaré.

A terceira geração é marcada pelo trauma da expulsão dos cristãos da Sinagoga judaica, porque também o judaísmo estava em fase de reorganização e os seguidores do caminho de Jesus incomodavam tanto quanto o próprio Jesus. Situam-se aí escritos muito conscientes da necessidade de recuperar a memória de Jesus de Nazaré e testemunhar o amor como fonte da comunidade eclesial, como vemos os escritos joaninos. Ao mesmo tempo temos, nesta época, escritos com tendências a uma organização eclesiástica e institucional, como as cartas a Timóteo e Tito, por exemplo.

O quadro acima é uma tentativa de visualizar os 27 livros na época em que foram escritos, aproximadamente. Para entender melhor o quadro é bom lembrar sempre que os temas teológicos que aí são refletidos, referem-se à época anterior, isto é, à experiência da Vida , Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus de Nazaré, sobretudo entre os anos 30 e 40. Todos os livros, principalmente os Evangelhos e o Apocalipse, passaram por um longo processo de elaboração, por causa das releituras feitas diante da mudança da realidade e das novas perguntas de fé que provocavam. Assim o livro do Apocalipse, por exemplo, foi escrito em duas etapas e para duas gerações diferentes: Ap 1- 11 (segunda geração) e Ap 12-22 (terceira geração).

 

Objetivo é celebrar a palavra vida de Deus

 

Após esta breve introdução ao estudo da teologia do Novo Testamento, concluímos com um aviso prévio de que não encontramos uma única teologia, mas várias teologias no Novo Testamento. Isto se explica pelo contexto e a realidade das comunidades que vivenciaram e interpretaram a vida de Jesus de Nazaré, anunciaram e produziram o escrito que está agora como texto sagrado diante de nossos olhos e em nossas mãos.

Assim como os livros foram escritos com este olhar de fé sobre a realidade do seu tempo, também nossa leitura e o estudo da teologia, presente nestes escritos, pede de nós esta mesma atitude de abertura na fé. Assim podemos tirar muito mais proveito para nossa vida e comprometer-nos mais com a caminhada em comunidades.

Queremos refletir os temas desse módulo do Curso de Teologia a Distância a partir da realidade, à luz do texto escrito e da comunidade com a qual partilhamos e celebramos nossa vida de fé. Para isso invocamos sempre a presença do Espírito Santo, pois não queremos aumentar os conhecimentos para interpretar a Bíblia, mas a vida. Nosso objetivo não é conhecer em primeiro lugar o conteúdo do Livro Sagrado, mas, com a ajuda da Palavra escrita, descobrir, assumir e celebrar a Palavra viva que Deus fala hoje em sua vida, em nossa vida, na vida do povo, na realidade do mundo em que vivemos: "Oxalá vocês escutem hoje o que ele diz!" (Sl 95,7)

 

IGREJA

Cristãos recordam Papa Peregrino

Cerimônias em Roma e no mundo recordam 1º aniversário de morte

 

Nos dias 2 e 3 de abril deverão ocorrer, em Roma e em diversas partes do mundo, inúmeras celebrações litúrgicas e momentos de oração para recordar o primeiro aniversário de falecimento do Papa João Paulo II, uma das personalidades mais marcantes do século XX. Em uma carta dirigida a todos os párocos, superiores religiosos e fiéis da capital italiana, o cardeal Camillo Ruini, bispo vigário para a diocese de Roma, anunciou os atos de oração que serão presididos pelo Papa Bento XVI.

A carta anuncia que pelo menos dois grandes encontros serão presididos pelo Papa para fazer memória de João Paulo II e como ação de graças pelo extraordinário dom que o Papa polonês significou para a Igreja e para a humanidade. O primeiro ocorre no dia 2, na Praça de São Pedro, para rezar o terço e "reviver o clima de intensa oração que acompanhou a agonia de João Paulo II". Ao final, Bento XVI fará uma saudação aos presentes. O segundo prevê uma solene missa no dia 3 de abril na Basílica de São Pedro, presidida pelo Papa nas intenções de seu predecessor.

João Paulo II morreu no dia 2 de abril de 2005, aos 84 anos. Eleito no dia 16 de outubro de 1978 como o 264º papa da Igreja, teve o terceiro pontificado mais longo da história - 26 anos, cinco meses e 15 dias. Mais longos que o dele só o de São Pedro (possivelmente, 34 anos) e de Pio IX (32 anos, de 1846 a 1878).

Recordes - O pontificado de Karol Wojtyla, o cardeal polonês que surpreendeu o mundo ao ser eleito supremo chefe da Igreja de Roma, pondo fim a um reinado de 425 anos de pontífices italianos, tornou-se um dos maiores papas da história da Igreja. O homem que desafiou o nazismo, ajudou a derrubar o comunismo no Leste Europeu e arrancou o papado de seu histórico confinamento no Vaticano, tornando-se "pastor do mundo".

Em seus 26 anos de papado, bateu recordes que dificilmente outro papa conseguirá igualar. Realizou 104 viagens apostólicas, visitou 129 países e 617 cidades e povoados, percorrendo mais de 1,3 milhão de quilômetros. Também realizou 146 viagens na Itália, sem incluir Roma, publicou 14 encíclicas, 15 exortações apostólicas, 11 constituições apostólicas e 45 cartas apostólicas. Escreveu cinco livros, proclamou 1.338 bem-aventurados e 482 santos. Nenhum outro papa se encontrou com tantas pessoas quanto João Paulo II. As cifras ultrapassam 17,5 milhões.

A prova de seu carisma e a admiração que conquistou não apenas entre os cristãos ficaram evidentes nos seus últimos dias, quando sua agonia pública serviu de testemunho pessoal de sua teologia em favor da vida e do valor do sofrimento. E nos seus funerais, que reuniram mais de três milhões de pessoas na Praça de São Pedro e centenas de milhões que acompanharam as cerimônias pela televisão, a multidão reunida em Roma resumiu em duas palavras seu imenso amor pelo Papa que ajudou a mudar os rumos da Igreja e redesenhar o mapa do mundo - "santo já".

 

Fiéis testemunham os possíveis milagres

 

O papa que mais promoveu beatificações e canonizações na história da Igreja também está na relação dos que podem ser beatificados. Sem esperar o prazo de cinco anos após a morte de um candidato à santidade, Bento XVI anunciou a abertura do processo de beatificação de João Paulo II no dia 28 de junho de 2005. A Igreja já está analisando diversos casos de possíveis milagres ocorridos por sua intercessão. O mais recente, ainda não comprovado, foi anunciado no domingo 26. Teria ocorrido nos Estados Unidos, com um homem que sofria de infecção hepática incurável.

 

Timidez não tira popularidade de Bento XVI

 

Apenas 11 dias após os funerais de João Paulo II o mundo já conhecia seu sucessor - o cardeal Joseph Ratzinger, que escolheu o nome de Bento XVI. Para os que acenavam com a possibilidade de um longo conclave, a rapidez da escolha do novo papa surpreendeu. Em apenas dois dias os cardeais indicaram o pastor de 1,092 bilhão de fiéis. No século XX, a rapidez na escolha de um papa só foi superada por Pio XII, eleito em 1939 em dois dias, mas com três votações, uma a menos que a de Bento XVI.

Braço direito de João Paulo II, Bento XVI nasceu em Marktl am Inn, na Alemanha no dia 16 de abril de 1927, filho de um policial e de uma dona de casa. É o primeiro alemão, desde a Idade Média, a governar a Igreja, que teve entre seus 265 papas, 211 italianos, 15 franceses, seis alemães e seis sírios, mas também um negro, um português, um holandês, entre outros.

Há quase um ano no trono de Pedro, Bento XVI surpreende positivamente. Mesmo sendo sóbrio, tímido e de gestos comedidos, ao contrário da expansividade de João Paulo II, o atual Papa agrada os católicos por seu ar paternal, sua piedade, pela firmeza de suas convicções religiosas e teológicas e por sua disposição na busca do diálogo e da unidade dos cristãos.

 

Veio ensinar a viver

Padre Zezinho

Cristo veio e se curvou na nossa direção, tão pequenos éramos e somos

 

Penso muito nele como o Filho eterno que veio nos ensinar a sermos filhos, por conseguinte, irmãos e, dessa forma levar-nos ao seu Pai, em quem viveremos para sempre. Veio dizer que a vida não acaba aqui. Há um lugar no céu à nossa espera e o céu não é um lugar, mas um colo infinito.

Gostaria de ver uma vez um quadro que retratasse Jesus curvado diante da pecadora ou diante do esquife do jovem de Naim. Se há, eu nunca vi. Num mundo empertigado, onde até religiosos levantam o nariz diante do outro, por se acharem mais eleitos e mais salvos, precisamos ter diante dos olhos a imagem do Cristo que veio e se curvou na nossa direção, tão pequenos éramos e somos.

O Cristo que se curva é uma experiência freqüente nos evangelhos. Antecipa-se ao pedido do paralítico de Betesda (Jo 5,1) e o cura; cura o cego e o manda lavar-se na piscina de Siloé; antecipa-se ao pedido de pão e dá pão e peixe para a multidão com fome ( Mt 15,32); antecipa-se e ressuscita o filho da viúva de Naim (Lc 7,11). Ele vai ao encontro, lá aonde alguém precisa dele. Antecipa-se! Fez isso muitas vezes. Vai fazê-lo! Amou primeiro (1Jo 4,19). Escolheu-nos antes de o termos escolhido (Jo 15,16).

 

Missões fortalecem União da Vitória

Durante três semanas, missionários capuchinhos mobilizaram cidade

 

Os missionários capuchinhos do Rio Grande do Sul concluíram as primeiras missões populares de 2006, realizadas nas paróquias Nossa Senhora de Fátima e Sagrada Família de Nazaré, em União da Vitória (PR). Mais de 2.500 pessoas participaram da missa de encerramento, no dia 19 de março, celebrada diante da matriz da paróquia Sagrada Família de Nazaré. "As 20 comunidades missionadas se fizeram presentes", informa o missionário frei Eduardo Canali.

O capuchinho destaca que as missões foram um momento forte de comunhão e participação, que envolveu as lideranças, as famílias, os sacerdotes, as comunidades e as demais paróquias de União da Vitória, que no total são sete. As missões ajudam a reavivar a fé, reassumir os compromissos do batismo e fortalecer a vida de comunidade Igreja. Frei Eduardo revela que também houve grande participação dos católicos de rito ucraino, que se fizeram presentes em todas as comunidades missionadas. A cidade conta com a paróquia São Basílio Magno, da Igreja Católica de Rito Ucraniano. A pós-missão em União da Vitória será realizada entre 19 e 21 de abril. No domingo, 26 de março, os missionários capuchinhos iniciaram missões na paróquia São Paulo Apóstolo, de Celso Ramos (SC).

 

Ordenação de frei que vai atuar no CR mobiliza Maracajá

 

A presença do bispo da diocese de Criciúma, dom Paulo De Conto; do provincial dos capuchinhos, frei Álvaro Morés; de sacerdotes, religiosos e centenas de fiéis marcou as cerimônias de ordenação de frei Alcides Cantídio Soares, capuchinho que passa a atuar na divulgação do Correio Riograndense.

A celebração, presidida pelo bispo ordenante, foi realizada na igreja matriz de Maracajá (SC), terra natal de frei Alcides, no dia 18 de março. No final da solenidade, todos os presentes foram convidados a participar de um coquetel no salão paroquial. No domingo 26, o novo sacerdote celebrou sua primeira missa solene na capela São Valentim, de Espigão da Pedra, Araranguá.

Frei Alcides, 34 anos, é filho de Cantídio Estevam Soares (falecido) e de Maria Loufriza de Oliveira Soares. Ingressou na província dos capuchinhos gaúchos em 1994. Vai residir em Caxias do Sul e, além da divulgação do CR, vai dar apoio ao Serviço de Animação Vocacional da província.

 

Paróquia catarinense completa meio século

 

A ordenação de frei Alcides integrou as comemorações dos 50 anos da paróquia da Conceição de Maracajá, comunidade que contou com a atuação dos capuchinhos durante 48 anos. Criada no dia 25 de janeiro de 1956, por dom Anselmo Pietrulla, bispo de Tubarão, teve como seu primeiro pároco frei Eusébio Ferretto, responsável pela construção da matriz, do salão paroquial, da casa paroquial e de diversas capelas. Frei Eusébio também fundou a cooperativa e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e empenhou-se pela emancipação de Maracajá, ocorrida em 1967. Os capuchinhos entregaram os cuidados da paróquia aos diocesanos em 2004.

 

Quatro estações

Aldo Colombo

Não há inverno que sempre dure, nem primavera que jamais desabroche. O equilíbrio está no conjunto das estações

 

Um homem tinha quatro filhos. Querendo que eles formassem um juízo crítico e que aprendessem a não julgar os fatos de modo apressado, deu-lhes uma tarefa. Eles não precisavam ter pressa, pois tinham exatamente um ano para cumprir a tarefa. Num povoado próximo, do outro lado da montanha, existia um parreiral e eles deveriam visitá-lo e fazer um pequeno relatório. Findo o tempo marcado, cada um deles descreveu o que vira.

O primeiro filho visitou o parreiral no inverno e voltou decepcionado. Encontrara apenas velhas árvores, feias e nuas, de galhos retorcidos, aparentemente mortas. O outro irmão fez sua visita durante a primavera e descreveu o parreiral coberto de folhas pequenas e verdes, inúteis e sem maiores possibilidades. O terceiro filho visitou o local no começo do verão e sua constatação foi diferente. Viu árvores graciosas, carregadas de frutas, algumas maduras, outras a caminho do estágio final da maturidade O último visitou o parreiral no outono e sua percepção foi maravilhosa. As árvores vestiam folhas amarelas e nelas os últimos frutos, maduros e doces.

O pai, ao final do ano, reuniu os filhos e - após escutá-los - explicou-lhes que todos estavam, ao mesmo tempo, certos e errados. Embora dispusessem de um ano, cada um havia visto apenas uma estação. A visão fora parcial. E explicou a eles que não se pode julgar uma pessoa, ou uma árvore, apenas por uma estação. A essência, o prazer, a alegria, o amor, a beleza de uma vida, de um poema ou de um parreiral, podem apenas ser julgados quando todas as estações estão completas. Todas as estações têm sua beleza e sua utilidade. Sem inverno não haveria a primavera, sem a primavera não haveria a colheita do verão, nem o outono.

Ao lado das estações da natureza, existem as estações que cada um carrega dentro de si. Há pessoas que vivem em permanente inverno. Envolvidas pelo pessimismo e pelas críticas. Existem também pessoas inconseqüentes. Cheias de boas intenções primaveris, mas não passam daí. Outras pessoas se assemelham ao verão, com muitas conquistas pessoais e comunitárias. Por fim existem também aqueles que - à semelhança do outono tranqüilo - levam até o fim seus projetos, amadurecidos ao longo do tempo. As estações da natureza são cíclicas e imutáveis, mas as estações interiores dependem de cada um de nós. Podemos colocar um ponto final no inverno e declarar que já é primavera.

As quatro estações convivem e se revezam ao longo de cada vida. Não permita que a dor de uma estação destrua a alegria de todas as outras. Não julgue uma vida apenas por uma estação difícil, que pode ser momentânea. Ela ainda pode florescer e dar frutos. O erro maior seria acolher o inverno como se fosse definitivo. Não há inverno que sempre dure, nem primavera que jamais desabroche. O equilíbrio está no conjunto das estações. E o resultado acontece depois que todas as estações estão terminadas. O valor de uma parreira - ou de uma vida - está no final. Mas o final não acontece por acaso, ele é preparado.

 

Porto Alegre tem dois novos bispos

Dom Dadeus Grings passa a contar com três bispos auxiliares

 

Duas dezenas de bispos, muitos sacerdotes, religiosos e milhares de pessoas participaram, na catedral metropolitana de Porto Alegre, da ordenação dos dois novos bispos auxiliares da arquidiocese gaúcha, os padres Alessandro Carmelo Ruffinoni e monsenhor Remídio José Bohn. Eles foram nomeados por Bento XVI em janeiro deste ano, atendendo solicitação do arcebispo de Porto Alegre, dom Dadeus Grings, que presidiu a cerimônia de ordenação dos dois auxiliares, realizada no dia 17 de março.

Dom Dadeus passa a contar com três bispos auxiliares. Além de dom Remídio, que vai trabalhar no vicariato de Porto Alegre, e de dom Alessandro, designado para conduzir o vicariato de Gravataí, a arquidiocese conta com dom Jacinto Flach, que está atuando no vicariato de Guaíba.

Dom Alessandro é scalabriniano (carlista) e nasceu há 62 anos em Piazza Brembana, Bérgamo, Itália. Ordenado sacerdote em 1970, logo em seguida veio como missionário para o Brasil, onde atuou durante 24 anos. Também trabalhou 12 anos no Paraguai. De 1999 a 2004 foi provincial dos carlistas no RS. Até o início do ano coordenava a Pastoral dos Migrantes em Assunção, Paraguai. Dom Remídio, diocesano, 55 anos, nasceu em São Roque, Feliz. Durante seus 33 anos de sacerdócio dedicou 15 anos à formação seminarística. Ao ser nomeado bispo era pároco da paróquia Nossa Senhora do Rosário e vigário episcopal do vicariato de Porto Alegre.

 

Religiosa celebra 75 anos de consagração

 

Irmã Ângela Cava (foto), religiosa da congregação das Irmãs da Divina Providência, comemorou jubileu de brilhante (75 anos) de vida religiosa. Uma solene celebração de ação de graças, presidida pelo padre Moises Furmann, pároco da paróquia Santo Antônio, foi realizada em janeiro na cidade de Pinhalzinho (SC), onde a religiosa reside. A coordenação provincial e diversas religiosas participaram da festa.

Natural de Jaraguá do Sul (SC), irmã Ângela completou 94 anos no dia 20 de fevereiro. Destacou-se por seu espírito missionário e como educadora e diretora de vários colégios no Estado de Santa Catarina. Em Pinhalzinho, foi a primeira diretora do colégio Marcolino Ecker. Organista de profissão, também foi professora de música em diversos municípios e até hoje toca órgão na matriz e faz parte do coral. Aprecia um jogo de canastra e o futebol pela TV.

 

Não sou comercial

Wilson João

A vida é um exercício de morrer, de desprender-se de tudo para buscar o essencial e o essencial é uma única realidade - Deus

 

Tudo está se tornando coisa. É o processo da coisificação das pessoas. Em vez de se auto-identificar como criatura humana, filho de Deus, sujeito livre e consciente, a pessoa humana está aceitando se tornar "instrumento de propaganda, palanque político, comunicador de ideologias, incentivador de nacionalismos e estrangeirismos, tela de máscaras que metem medo, altar de rostos de Cristo e de santos". É incrível! Tudo está se tornando comércio e consumo. As pessoas coisificadas, além das roupas, fazem de sua própria pele um instrumento comercial através de tatuagens.

MEDE-SE O VALOR DA PESSOA PELA SUA NUDEZ. O que sou eu? Quem sou eu? Que valor tenho despido de todas as roupas, livre das coisas que me dão segurança, sem o barulho da música e da televisão, sem o álcool e o cigarro, sem a festa alienante e o sexo como fuga, sem o carro e o computador, sem a internet e o celular, sem...? Quem sou eu?

SOU AQUILO QUE SOU NU. As pessoas tem medo de si. Fogem de si. Não se suportam. Por isso, buscam a fuga em tantas coisas, até se tornarem coisa. Mas ninguém é feito para ser coisa, e a natureza humana se vinga em forma de agressividade, estresse, depressão, tristeza, angústia e desgosto de viver. Na verdade, quando consigo me livrar de tudo o que é máscara, é que me torno eu mesmo. Estar nu diante de Deus e das pessoas é ser eu mesmo. Ali está meu valor como pessoa humana.

A MORTE É A REVELAÇÃO DE QUEM SOU. São Francisco, em sua humildade e sabedoria falou: "Eu sou aquilo que sou diante de Deus" e podemos acrescentar: "Sou aquilo que sou diante das pessoas, diante da vida, sou aquilo que sou diante da morte". A morte faz cair todas as máscaras, os orgulhos, as arrogâncias, as falsas seguranças, as aparências e tudo o que se tem de material. Por isso, a vida é um exercício de morrer, quer dizer, de desprender-se de tudo para buscar o essencial. O essencial é uma única realidade, acreditemos ou não. E é Deus. Aceitemos ou não, acreditemos ou não, jamais seremos vencedores pela recusa de Deus. Seremos eternos derrotados se não aceitarmos o Absoluto em nossa vida. Se escolhermos apenas o pó material da vida, das comidas e bebidas, das festas e prazeres sem sentido, das coisas e negócios, a morte nos dará de presente o mesmo pó material com o qual gastamos a vida.

CONCLUINDO: não sou vitrine comercial e nem palanque político. Não sou coisa e nem objeto de consumo.

 

CULTURA DA IMIGRAÇÃO

Brasilidade + Italianidade

Pancrácio Tarcizo Scopel

Defensor público aposentado, Porto Alegre-RS

 

Não sou italiano. Nasci no Brasil - brasileiro sou. Aprendi na escola primária. Meu pai, sim, era italiano nato. Era, porque já hoje é cidadão da grande Pátria do Pai de todos. Assim, conquanto brasileiro, posso proclamar que sou de cepa italiana. Cepa da grande península - menor em extensão física do que por sua perene projeção histórica no âmbito da civilização e cultura ocidental. De sorte que posso, afinal, discorrer - tomando-me por sujeito e objeto de minha manifestação - sobre O italiano que há em você.

Meu pai - Scopel Giovanni Battista, italiano nato - casou, em Caxias, com Santa Sebben, filha, por sua vez, de casal italiano. Eu - criado com um vizindário constituído, em sua maioria de procedência peninsular -, evidentemente, tive introjetado, medularmente, em minha personalidade isto que chamo de italianidade. Isto, já a partir do dialeto "feltrin" falado em casa, já pela vivência em meio aos usos, costumes e religiosidade dos progenitores. Desde a escola de primeiras letras, porém, o conceito de brasilidade passou como que a ser reescrito sobre o de italianidade. "O que você é?" - perguntava o professor. "Eu sou brasileiro, porque nasci no Brasil" era a pronta resposta.

(A propósito dessa pergunta, de transcendente valor pedagógico e formativo, é hoje considerada ociosa e relegada ao baú das antigualhas. Depois da modernidade, pós-modernidade e globalização - parece reduzido ao quase nada o senso da nacional-brasilidade, do patriotismo e, então, também da solidariedade).

Retomando o tema - meu progenitor, aqui aportou com pais e irmãos em 1890, com uns oito anos de idade. Alfabetizado no idioma de Dante, cedo passou a ler também no de Camões, à proporção que foi adquirindo termos e falas dos nativos; e, logo mais, por necessidade de haver-se com o mundo oficial, desde o escrivão distrital, o inspetor de quarteirão ou o intendente municipal. Mais tarde, e já no meu tempo (sou o 11°.- e não o último - de 15 irmãos!), através de contatos com tropeiros que passavam e/ou até pousavam lá em casa, vendendo animais, charque e queijo para a indefectível polenta do meio-dia, o italiano nato foi se abrasileirando. Prova disto é que, embora assinante (ele dizia "abbonato"), desde jovem, da Staffetta Riograndense - continuou como assinante e leitor assíduo de sua metamorfose, que é o atual Correio Riograndense. Prova mais concreta de seu abrasileiramento seria a quantidade de provérbios e ditos correntes entre os nativos. Foi dentre eles que recolheu dísticos como "Picapau do Mato Grosso / Tem catinga no pescoço"; ou quadras como "Pois o filho do Paulino! Que é um homem delicado! Bebe sangue de morcego / E come rato sapecado."

Homem otimista, dado ao chiste ou à crítica bem humorada, pespegava alcunhas condizentes com a personalidade de qualquer um, inclusive de seus compadres. Entre estes, vale citar o "Nani Bale", tido como contador de lorotas, o "compare Gueregueto", por ser gago, o "Miserere", metido a santarrão, "Mênico Côa", "Rapadura", etc, etc. Chistoso, podia encerrar uma conversa, dizendo simplesmente com um escrachado "così via descoredando" (e assim por diante).

Para incentivar-nos ao estudo, dizia: "Estudem, rapazes! Eu sou capaz de vender o casaco e até o chapéu, se for preciso, para custear a escola, mas vocês estudem." E foi assim que alguns de meus irmãos - inclusive eu, que venci o curso de Jornalismo e de Direito, aposentando-me como Defensor Público - puderam cursar faculdades. Pois, o meu velho pai - que sempre foi agricultor e vitivinicultor cooperativado - vendo-nos, afinal, formados, mas trabalhando no serviço público ou em empresas privadas, saiu-se com essa estocada: "É! Vocês estudaram, está certo, mas eu nunca tive patrão".

Scopel Giovanni Battista, passou a documentar-se aqui como João Baptista Scopel. É que, com o advento da primeira constituição republicana, instituiu-se a chamada "grande naturalização". Por ela, os imigrantes que não protestassem por manter sua nacionalidade de origem, dentro de seis meses, adquiriam automaticamente a nacionalidade brasileira. Por isso é que, embora italiano nato, sempre foi eleitor aqui.

Ah, mas como, afinal, remanesce impregnada em mim a que chamo de italianidade?

Claro que, de forma óbvia, por ter nascido e crescido num lar ao estilo da clássica e distante mãe Itália de seculares antepassados. Mas, depois, também através das sagras nas capelas da redondeza, das canções em vários dialetos, segundo a procedência de cada grupo de imigrantes, a missa, aos domingos de manhã, e o terço, à tarde, as brincadeiras, as adivinhas, a revivescência de jogos, lendas de "strighe", de "massarol" ; folclores, como a Bìgola-bògola", "Vae su par na via storta, cate na càora morta", "Tira tela, ben tirata", "Crepa Vècio", "Sécio secelo I Oro più belo I Oro più fino, I Secondo marino, / Tre naranse, / Tre limoni I Per mandar in pescaria I Pìnfete-pùnfete I Màndelo via!"; canções, como "La bela bionda", "Rosina su pa i monti", "Compare comparotto", "Vorrei sposar Marieta e la me dice nò", "Sul castel de Mirabel", "La Colombina"... e tantas e tantas outras que ainda se cantam por aí, todas elas radicadas em prístinas gerações peninsulares e incrustadas - dir-se-ia indelevelmente - na memória dos ítalo-brasileiros; depois, a mora, as bochas, o carteio em casa, ou nas bodegas, onde a pena comum do perdedor era pagar "el vin, o sinò, magari, anca la graspa"... Termino com reticências, desde que vetado espaço para biografias completas (Pancracio Tarcizo Scopel, fone (51) 3336 5812).

 

EL RITORNO DE NANETTO PIPETTA (353)

Pronto pal secondo viaio a la Quarta Colònia

SILVINO SANTIN

Santa Maria (RS)

 

Quando le note le gera bele e ciare de luna, come i la fea squasi sempre e se el giorno drio no ghe fusse tanti laori da far in colònia, tuti e se reunia intorno de Nanetto par farlo contar le stòrie del so viaio a la Quarta Colònia, par veder se le contea sempre compagne o se le cambiea, se no l’era busia, ma Nanetto, come el contea sempre la verità, anca se no’l contesse pròpio tuto, no l’è mai stà busiaro. Come saria de maginàrsela, la stòria dela patatina de oro, la gera quela più racontada. Ma Nanetto, no’l se stufea de contarla. Lu el savea che pai tosatei se pol contarghe sempre le medèsime stòrie che a luri ghe piase. Dele olte, aposta, el lassea fora qualche punto par veder cossa che i disea. Se i grandi no i credea o i ridea, manco la Gelina, par lu no cambiava gnente. Le note de inverno o dele stòrie le gera in torno al fogon.

Una note calda, ciaro de luna, Nanetto l’era là soto el sinamon, sentà in tel scagno che’l contea le so stòrie, e par poco no’l se inràbia par la prima volta. Me digo che la gera la cinquentèsima volta che’l contea la stòria dela patatina de oro, e là de drio ghe gera rivà due tre tosatoni, i gera vissini, e i ga scomissià rìderghe drio. E i disea che la gera fata de laton, de rame de na pignata vècia ou de un brondo sbuso. Nanetto el ga alsà la ose e el ghe dise: Se no volì créderme che la ze de oro, fè de manco, no vol dir, parché sia de oro, sia de rame, sia de fero, el importante el ze che mi la go guadagnà cavando su patatine, o par dirlo meio, catando su patatine, parché chi le cavea la gera la màchina, e chi le insachea el gera el Juquinha, nome che ghe go messo al moreto, me compagno, in omaio a Juca e a la Maneca de la suca del simaron, che la me ga broà el palasso dea boca. O volio che ve la conte nantra volta.

E tuti, sol pròprio par torlo in giro, o anca par inrabiarlo: si, si, cóntela nantra volta, fursi credaremo.

Giusto in te sto punto, gera rivà Giulieto, che par via del bacan dei tosatoni che i intichea Nanetto, nessun se gavea nicorto. L’è stà la salvassion de Nanetto, na roba che no la spetea. Co’l vede Giulieto, lo saluda con un bona sera ben forte, tuti i se olta indrio e, quando i lo vede, i tase. Lora Giulieto el ghe dise: Si, si, l’è la pura verità, sta volta Nanetto el ga rason. El ga guadagnà la patatina coerta de oro e, bisogna dirlo, con tuta la giustìssia.

Tuti i ga tasesto. E Giulieto el ghe donta: savì, tosati, se gavessi rispeto, bisognaria dimandarghe scusa a Nanetto. Mi go imparà che Nanetto el sa e vede tante cose meio che gente studià, che no i sa gnanca se le patatare le fa le patate sora o soto tera. Sarà che i savaria catarle su e insacarle? Nanetto el se ricorda che anca lu l’è stà medo fiacoto in tel insacar patatine, ma intanto par catar su l’era el pi brao.

Tuto calmo. Prima una pìcola osservassion, no se gavea mai vedesto la Gelina così orgoliosa del so Nanetto. Che omo de futuro! la gavea da pensar. Giulieto el va rente Nanetto, el ghe dà la man, e el ghe dise suito: son vegnesto qua medo in prèssia, come te lo gavea dito due mesi indrio che vegnaria dirte el giorno del nostro ritorno a la Quarta Colònia, sicuro, se te sì ncora d’acordo.

- Se te vol, vao suito adesso.

- Nò, nò, no ocor tanta prèssia. Se gnente de sbalià càpita, partiremo luni che vien, a la matina bonora.

- Si, lora te speto, come quelaltra volta là in tel monumento dei taliani.

- Nò, no ocor ndar fin là, te pol spetarme davanti la ceseta de San Giusepe, no vegno fin qua zo parché la strada la ze massa bruta.

Tuto combinà, Giulieto l’è ritornà a Cassia, Nanetto e i altri i ze ndai dormir. I tosatoni i ze ndai casa, sicuri che sta volta si i gavea ciapà na bela bota ben pròpio in medo la ghigna, e che Nanetto el se meritea pi rispeto.

 

VITA STÒRIA E FRÒTOLE

Rovílio Costa e Arlindo Battistel

Parlar in lingua o dialeto

Gianna Marcato

Verona, Itália

 

Un puteleto andava a spasso con so mama. A’n serto ponto el ghe dise:

- Mama, son straco.

Ela, che la volea che’l parlasse sempre in lìngua, la ghe dise:

- Non si dice straco, si dice stanco.

Da là ‘n poco el puteleto el torna a dir:

- Mama, son stanco.

- Va là, porta pasiensa, che, quando sarai a casa, ponserai.

Brava quela mama! A propòsito di parlar in lìngua polito! La sàtira è ancora più evidente in questa poesia, in cui non a caso, il padre è manovale, ma si crede chissà chi solo perché... conosce l’ingegnere!

 

I parla tuti in cìcara, adesso ‘sti putei

ma, spesso, co le mame... i casca nei piatei...

Quando da scola, torna el fioleto beato

la mama là lo apostrofa: - Dimi cos’hai ciapato?

- Mama, lo sai... difìcile... è stato quel problema!...

Ho preso pure quatro sul detato e sul tema!...

- Aseno! Cossa serve parlati l’italiano?

Ti s-gnaco in un coleio se non mi passi l’ano!...

Intanto... torna a casa il pare, manovale...

za da un pesso aventìssio nell’azienda stradale.

In fameia, el fa sfoio de tuto el so saere

perché, là sul lavoro, el conosse l’ingegnere.

Sentindo ste notìssie... el lassa la sena.

El volea de so fiolo, fare un omo de pena...

El pensa sforsi inùtili. Ghe fa spissa le man...

e el svéntola sul toso... sberloti in padovan...

 

Parlare véneto

(Autore Ignoto - fursi padoan)

No stà mai vergognarte

de parlare el to dialeto,

l’è el modo pi parfeto

pa’ dir da indòe te vien.

L’è odor de la to tera,

sugo de’e to raise,

el to parlar me dise

che véneto te sì.

 

El dire tuo l’è mùsica,

l’è un canto che consola,

fruto de chela scola

che i veci te ga dà.

 

Pàrlalo in casa e fora

pàrlalo ciaro e s-ceto,

l’è belo el to dialeto

par chi lo sa scoltar.

Nò assàr che se desperda

le stòrie e le cansòn,

proverbi e tradissiòn

avù in eredità.

Fin da pena nato

co’a prima nina-nana

sul core de to mama

ti te lo ghè inparà.

 

Sto gergo te ricorda

el caldo fogolare,

parole dolse e care

tel core rancurà.

 

Te poi saver le léngue

de tuto el mondo intiero

ma el to parlar pi vero

sempre el véneto restarà.

(Poema enviado da Cláudio Ganassin, Venezia, Itália).

 

GERAL

Erva-mate é motivo de festa

Venâncio Aires exibe a cultura do chimarrão

 

Erva-mate é a principal atração da Festa Nacional do Chimarrão (Fenachim). Será realizada de 5 a 14 de maio, no Parque do Chimarrão, em Venâncio Aires. A rainha Daniela Azeredo e as princesas Amanda Kothe e Fernanda Goebel estão divulgando o evento no Estado. "Cerca de 180 mil pessoas devem passar pelo parque", diz o presidente da festa, Itor da Rosa.

Estão definidos os shows da Fenachim: Osvaldir e Carlos Magrão (dia 5), Elton Saldanha (6), Porca Veia (7), Musical San Marino (9) e 3 Xirús (13, no Encontro da Melhor Idade). A comissão organizadora confirmou três nomes nacionais: no dia 10 de maio, ocorre a apresentação da dupla sertaneja Teodoro & Sampaio; no dia 12, será a vez do cantor romântico Daniel; e no dia 13, a atração é a Banda Mel.