
DESCOBRINDO CAMINHOS
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Edição 4.987 - Ano 98 - Caxias do Sul-RS, 10 de maio de 2006.
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América Latina em busca de nova configuração política
Um complicado jogo com ingredientes nacionalistas e ideológicos compromete a integração
Num mundo globalizado e sem fronteiras, agindo na contra-mão da história novos ventos sopram sobre o continente sul-americano. Está ressurgindo a velha figura do caudilho, de estatura política duvidosa, mas de bom tamanho para o uso interno. Primeiro foi Hugo Chávez, na Venezuela, depois Evo Morales na Bolívia, e existe a possibilidade de Ollanta Humala ser eleito no Peru. Muito parecidos entre si, misturam populismo, nacionalismo e um forte sentimento anti-americano.
A privatização dos combustíveis – decretada pelo presidente da Bolívia Evo Morales – atingiu a Petrobras, cuja subsidiária é a maior empresa boliviana, e deixou visíveis as fraturas expostas entre os dois países. O que seria a colisão entre o governo e uma empresa ameaça desabastecer o mercado de gás natural no Brasil ou, na melhor hipótese, aumentar significativamente seu preço.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolheu a via diplomática para a solução, dividido entre realidades conflitantes: a amizade ideológica com Morales e a opinião pública brasileira, o que poderá ter reflexos nas eleições presidências de outubro. A atitude do presidente brasileiro está sendo considerada frouxa pela oposição e pela mídia. Para elas, Lula dá mais importância à ideologia do que aos interesses brasileiros. O presidente se justifica dizendo que a Bolívia precisa de ajuda e não de arrogância.
O centro de influência da América Latina não está mais com o presidente brasileiro, mas passou para as mãos de Hugo Chávez. Esta nova situação, aliada à tradicional má vontade argentina em relação ao Brasil, tornam inviáveis – a curto prazo – acordos multinacionais, entre eles o Mercosul e a própria ALCA.
Ao escolher a via diplomática, o Brasil ganha tempo, mas demonstra inegável fraqueza, o que não ajudará nas longas negociações que se seguirão. Há dias, a auto-imagem nacional foi fortalecida com as mãos do presidente, sujas de petróleo, proclamando a auto-suficiência no setor. Agora, como um boxeador atingido, o Brasil projeta os próximos rounds nesta difícil luta.
Assume novo reitor da universidade
Isidoro Zorzi vai priorizar ensino, pesquisa e extensão
Isidoro Zorzi assumiu a reitoria da Universidade de Caxias do Sul. Ele tomou posse no último dia 2 de maio em solenidade prestigiada pela comunidade acadêmica e regional, no UCS Teatro. Professor do Departamento de Sociologia da UCS desde 1967, Zorzi fica no cargo até 2010. Na mesma ocasião, também foi empossado o professor José Carlos Avino, do Departamento de Administração, como vice-reitor.
"Me preparei para este cargo não apenas nos últimos meses ou nos últimos quatro anos, mas em quase quarenta anos pensei, imaginei e planejei soluções para alguns problemas", disse Zorzi.
O lema do reitor para a gestão 2006-2010 é "Ensino, pesquisa e extensão". "Sou professor da UCS desde o ano de sua criação e agora a instituição começa a entrar numa nova era, de mudanças. É preciso pensar juntos o que é uma universidade, por isso escolhi este lema, onde deve estar centrado o foco da UCS", explicou.
E a função social da universidade? "No ensino está a função social, na pesquisa e na extensão também. A universidade é uma agência de conhecimento e deve ser de interesse social", afirmou o reitor. Como compromisso de gestão, Zorzi ressaltou que a Fundação Universidade de Caxias do Sul e a UCS se complementam, não se impõem. Segundo ele, as instituições são distintas, mas não separadas.
Zorzi destacou a pluralidade como marca de sua equipe de trabalho (quadro ao lado). "O grupo tem diferentes visões ideológicas, mas em comum está o interesse maior da universidade", completou.
Luiz Rizzon, ao transferir a reitoria para Zorzi, enfatizou o crescimento da instituição e o desafio de se avançar mais. Ele ainda destacou algumas de suas ações, como a reitoria itinerante, a valorização do professor e a educação a distância.
Toma posse novo secretário da Cultura
O jornalista Antônio Feldmann, 37, assume a secretaria da Cultura no lugar de José Clemente Pozenato, que deixou o cargo para integrar a equipe de trabalho do novo reitor da UCS, Isidoro Zorzi. Feldmann passa a acumular a função de secretário da Cultura com a chefia da Coordenadoria de Comunicação da prefeitura.
"Entrego-me a esta nova função disposto a trabalhar para ampliar a base dos consumidores de cultura da cidade", declarou Feldmann. Segundo o prefeito José Ivo Sartori, o novo secretário terá pela frente a missão de administrar questões específicas. "Na cultura não pode haver ocupação de espaços por determinados grupos", avisou. "Quem não aceita a diversidade de idéias nesta área não sabe fazer cultura", afirmou Sartori.
Livro de receitas ganha segunda edição
Devido ao grande interesse manifestado por moradores da região, a Coordenadoria da Mulher, ligada à prefeitura de Caxias do Sul, e a Editora São Miguel lançam no próximo dia 12 a segunda edição do livro "Caderno de Receitas, valorização da mulher do meio rural." Segundo Linéia Grazziotin, da Coordenadoria da Mulher, serão editados mais dois mil exemplares da obra. "Vamos doar os livros para entidades beneficentes dos distritos de Caxias para que elas comercializem e fiquem com a verba", explica a coordenadora.
A obra valoriza a gastronomia colonial ao reunir receitas elaboradas por mulheres residentes no interior de Caxias do Sul. Interessados em adquirir o livro ou se informar sobre o projeto, entrar em contato com Linéia pelo telefone (54) 3218-6026.
Dificuldades barram o avanço de Pólo Oleoquímico
Proposta não atraiu agricultor e esbarrou em monopólio, mas evoluiu em pesquisa e estrutura
Um dos mais inovadores e ousados projetos voltados ao pequeno agricultor e à economia regional das últimas décadas esbarra em fortes – e provavelmente intransponíveis – barreiras para atingir plenamente seus objetivos. Implantado em novembro de 1995, através de um convênio entre Universidade de Caxias do Sul (UCS), através do Instituto de Biotecnologia, governo do Estado, Prefeitura de Campestre da Serra, Universidad de La Republica, do Uruguai, e mais duas empresas privadas, e com recursos iniciais de US$ 210 mil, o Centro de Treinamento Tecnológico Hortifrutiaromático foi anunciado como uma porta para o agricultor familiar da Serra gaúcha e até de outras regiões do Estado ingressar ou ampliar sua participação no mundo da diversificação, agregando receita e adquirindo conhecimento tecnológico. Onze anos depois e R$ 2 milhões investidos, a adesão de produtores rurais é irrisória. Isso não significa fracasso absoluto: houve avanços importantes na pesquisa e na formação de uma infra-estrutura, por parte da UCS, suficientes para atender as exigências do sofisticado segmento de óleos essenciais.
O projeto foi concebido para alcançar metas arrojadas que incluíam a recuperação de uma flagrante defasagem tecnológica brasileira na produção de frutas com caroço, hortículas e aromáticos em relação a países sul-americanos (Argentina e Uruguai) e europeus. Além de encurtar essa distância, transferindo tecnologia ao produtor, buscava estimular a criação de empresas agroindustriais de pequeno e médio portes na área de alimentos, farmácia, medicamentos, química fina e biotecnologia. Numa etapa posterior, substituir produtos importados (orégano, óleo de hortelã, lavanda e outros), que custavam ao Brasil US$ 30 milhões por ano no final do século passado.
Voltado inicialmente para Campestre da Serra, que na época tinha 5.000 habitantes – 75% ligados à produção agrícola -, o projeto distribuiria mudas selecionadas e livres de vírus. Mas outros municípios poderiam ter acesso. Tanto que em 1998 havia o interesse de mais 10 prefeituras e de centenas de agricultores. "Pelo que sei, há apenas dois produtores do município na atividade", afirmou Adão Luiz Brezolin, secretário da Agricultura de Campestre, ao Correio Riograndense na semana passada. Segundo ele, não existe mais nem convênio com a proprietária da terra de terra usada para produzir mudas. "Mas pretendemos renová-lo", ressalta Brezolin.
Aromáticas – Um dos braços mais destacados do projeto é o Pólo Oleoquímico de Plantas Aromáticas do RS. Ele representa um salto em pesquisa e em organização. Mas pouco andou no lado externo das portas da UCS. A proposta de atrair produtores rurais para o cultivo de plantas aromáticas e medicinais não vingou. Plantações de alecrim, calêndula, camomila, lavanda, orégano, melissa, tomilho e outras espécies excêntricas, que mudariam o calendário agrícola da região, igualmente não prosperaram. Contam-se nos dedos de uma mão os empreendimentos existentes – um deles é de Juarez Rech, pesquisador da UCS.
"Projeto é exitoso. Tem início, meio e vai continuar"
A Universidade de Caxias do Sul sempre deu integral atenção ao projeto – pesquisando, equipando-se, prospectando mercado... Um passo importante foi em 1998, quando instalou equipamento para fazer análise cromatográfica (qualidade dos óleos produzidos), recurso até então disponível em Montevidéu e Campinas. Na seqüência, implantou uma usina de destilação para atender a demanda.
"Para nós o projeto é exitoso", resume Luciana Atti Serafini, responsável direta pela iniciativa e atual coordenadora do laboratório de óleos essenciais. "Ao longo desses anos investimos em infra-estrutura física, em recursos humanos e em muita pesquisa. O Pólo acabou sendo a semente para o curso de agronomia implantado pela Instituição, que é voltado para o pequeno produtor", explica a professora e doutora.
Segundo Luciana, no decorrer do tempo o projeto teve de sofrer uma mudança de enfoque. Na origem, a proposta era de que os produtores se reunissem – em associações ou cooperativas – e a UCS daria todo o suporte. Logo ficou evidente que o projeto não era para o produtor, mas para o empreendedor. "Em 11 anos, até extrapolamos", classifica Luciana. "Produz-se ervas desidratadas, transferimos mudas, damos assistência técnica e prestamos serviço. O projeto tem início, meio e vai continuar. Estamos vendo resultados concretos, com reconhecimento nacional e até internacional".
E quando Luciana se refere a pesquisa, não se restringe, por exemplo, à adaptabilidade de espécies (alecrim, melissa, orégano...) ao clima e solo da região. Ela mostra, com orgulho, a bateria extrativa de óleos, equipamento criado na UCS após dois anos de pesquisa que faz em um dia o trabalho de um mês. "Aqui fazemos análise de sete plantas simultaneamente", descreve. "Toda essa estrutura está à disposição. Mas não queremos criar falsas expectativas", conclui.
Características da região e monopólio impedem criação de cadeia produtiva
Por estranho que possa parecer, o elevado PIB agropecuário da Serra gaúcha contribuiu para impedir que o agricultor da região aderisse à proposta de aumentar a sua receita. Esta é uma das explicações para a não adesão do produtor rural ao Pólo Oleoquímico de Plantas Aromáticas. O agricultor bem estabelecido encontra mais vantagens em outras culturas, como frutas e hortigranjeiros; o que precisaria agregar valor ou não teve recursos para investir ou desistiu na medida em que nunca houve garantia de compra da produção. Sem procura, toda oferta vira sinônimo de prejuízo – ou de fracasso.
Essa velha lei de mercado não desencorajou apenas pequenos produtores rurais. O empresário caxiense João Cláudio Pante também teve de recuar e abandonar um projeto no qual investiria cerca de US$ 1 milhão.
Em 2002, e na condição de ex-industrial do ramo metalúrgico, Pante anunciou a instalação da primeira usina de óleos essenciais do Sul do país. Seria erguida em Vacaria, às margens da rodovia que liga este município a Bom Jesus, onde o empresário possui 270 hectares de terra. Por capricho do destino, a usina ficaria bem próxima de Campestre da Serra. Ele cultivaria plantas aromáticas em boa parte da área, mas seus planos eram ambiciosos e previam a necessidade de vários fornecedores.
Esse empreendimento revolucionaria a agroindústria da região e representava a tão aguardada possibilidade de ser completada a cadeia produtiva desenhada no projeto originário da UCS, Prefeitura de Campestre e governo do Estado. A universidade forneceria as mudas e daria o acompanhamento técnico, os agricultores plantariam e entregariam a produção à empresa de Pante que, por sua vez, colocaria os óleos no mercado. Nessa última fase é que as coisas começaram a complicar.
"Existe um monopólio comandado por dois ou três grandes grupos no mundo. Eles impõem os preços, as condições, tudo. Como produziria grandes quantidades, eu teria de vender para eles. Fui obrigado a desistir do empreendimento", lembrou Pante ao CR na quinta 4. Da área total, ele destinou 57 hectares para o plantio de caqui, ameixa, amora e framboesa – esta última ele começa a exportar.
ABE promove o vinho há três décadas
Entidade prepara festa para lembrar os 30 anos de atuação e conquistas
O vinho brasileiro está na vitrine. Ganhou o mercado, principalmente pela qualidade. Grande parte do sucesso deve-se ao empenho da Associação Brasileira de Enologia (ABE), instituição que se prepara para festejar 30 anos de atividades. Criada em 22 de outubro de 1976, a ABE surgiu da necessidade da atualização dos técnicos no mercado de trabalho.
Há três décadas trabalha para promover o vinho brasileiro e qualificar os profissionais ligados ao setor vitivinícola. A entidade acumula conquistas e credibilidade, tanto no aperfeiçoamento dos enólogos quanto na realização de degustações, concursos e da tradicional Avaliação Nacional de Vinhos (leia no lado direito).
A entidade foi, praticamente, criada dentro da Escola Agrotécnica Federal Juscelino Kubitschek, atual Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet), em Bento Gonçalves. O primeiro presidente da ABE foi o enólogo Firmino Splendor. "O mercado exigia técnicos mais preparados e atualizados", lembra. Para isso, a primeira ação da nova entidade foi a realização do Congresso de Aperfeiçoamento Voltado à Viticultura e Enologia.
O evento contou com a participação de técnicos especializados da Europa (Itália, França e Portugal) e da América do Sul (Argentina, Chile, Uruguai e Brasil). Também eram desenvolvidas jornadas de aperfeiçoamento, junto à Cefet, com uma semana de duração, quando os técnicos aliavam a teoria à prática.
As dificuldades eram muitas, relata Splendor, mas era preciso defender e trabalhar para os verdadeiros objetivos da entidade. "O primeiro passo foi aprender a degustar, pois se um vinho apresentasse 99 virtudes e um defeito, era necessário voltar para casa e melhorar", afirma. "O grupo precisava compreender o verdadeiro espírito e a arte da degustação", emenda.
Largada – No ano de 1977, a Associação Brasileira de Enologia promoveu no dia 31 de maio, em Garibaldi, sua primeira degustação aberta ao público. Na ocasião, foram degustados vinhos franceses com a participação de mais de 100 pessoas. "Havia a necessidade de se conversar com o vinho", ressalta o primeiro presidente da entidade.
Já em 1993, em busca da maturidade vinícola brasileira, a ABE promove a I Avaliação Nacional de Vinhos, hoje na 14ª edição. Presidido pelo enólogo Gilmar Pedrucci, o evento abriu as portas para comentários do vinho brasileiro.
Cocamar implanta rastreabilidade em pomares de laranja
Numa iniciativa pioneira, a cooperativa paranaense Cocamar, com sede em Maringá, está implantando o processo de rastreabilidade dos laranjais. A partir de agora, a produção de laranja, seja para suco ou consumo in natura, obedecerá a parâmetros técnicos pré-estabelecidos pela Produção Integrada de Citros (PIC).
A medida atende às exigências do mercado europeu, foco da cooperativa agroindustrial que realiza os primeiros embarques de laranja in natura. Desde o ano passado, a União Européia só aceita frutas com selo de origem comprovada. A quantidade de laranjas ainda é pequena (300 toneladas), mas a expectativa é ampliar o mercado gradativamente, já que nos próximos quatro anos a produção dos pomares regionais atingirá sete milhões de caixas, o dobro da atual.
Uma das ações atinge diretamente o fruticultor. Trata-se da adoção da caderneta de campo, onde o produtor anotará todas as informações referentes ao cultivo de cada talhão (pedaço) de pomar. Na prática, a caderneta é uma espécie de "diário do pomar", com datas e todos os tipos de adubos e agroquímicos utilizados no manejo e tratos culturais.
Seguir o conjunto de normas da PIC, explica o engenheiro agrônomo Luiz Sérgio Amadeu Jr, permite que o produtor utilize um selo de qualidade para o seu produto. "Esse selo de qualidade garante a rastreabilidade do sistema de produção, facilitando a exportação, o comércio nacional, e uma maior aceitação desses frutos por parte do consumidor", garante o engenheiro agrônomo, responsável pelo setor de citros nas unidades da Cocamar nos municípios de Paraíso do Norte, Tapira, Cruzeiro do Oeste e Japurá.
Avaliação Nacional será em SP e no RS
Abrir mais espaço para participantes do Centro-Oeste e Norte do Brasil. Esse objetivo motivou mudanças na Avaliação Nacional de Vinhos 2006. Em sua 14ª edição, o evento passa a ser realizado em dois locais. Ocorrerá no dia 23 de setembro próximo, no Salão de Convenções do Parque de Eventos de Bento Gonçalves, na Serra gaúcha, e em São Paulo.
Pela primeira vez na sua história, a avaliação será transmitida através de vídeo-conferência, simultaneamente, para um público estimado em 200 pessoas no Hotel Transamérica, em São Paulo. Conforme a Associação Brasileira de Enologia (ABE), no total, serão cerca de 900 participantes degustando os vinhos mais representativos da safra 2006. Os vinhos serão divididos em duas categorias: brancos finos secos (aromáticos e não-aromáticos) e tintos finos secos.
Agosto – A previsão da ABE é de que sejam inscritas mais de 350 amostras de vinhos de vinícolas de todas as regiões produtoras do Brasil. Uma comissão de seleção composta por enólogos de todo o país avaliará as amostras indicando 30% dos vinhos mais representativos.
As degustações ocorrerão durante o mês de agosto, na Embrapa Uva e Vinho. No dia do evento, serão degustados 15 vinhos classificados entre os mais representativos do ano. Os 15 vinhos serão analisados e comentados por 15 convidados. As inscrições poderão ser feitas durante o mês de junho. Informações (54) 3452.6289.
Flores da Cunha terá concurso de vinhos
Avaliação dos espumantes e premiação dos vinhos que alcançarem as maiores notas, com o troféu Baco de Flores, são as novidades do quinto concurso "Os Melhores Vinhos de Flores da Cunha". A promoção é da Prefeitura, com apoio da Associação Brasileira de Enologia e da Associação Gaúcha dos Vinicultores (Agavi).
A coleta das amostras iniciam na segunda quinzena de maio. Em 4 de junho, Dia Estadual do Vinho, ocorre o lançamento oficial do concurso e do lacre do envelope com a codificação das amostras concorrentes. A avaliação será realizada na Escola de Gastronomia de 5 a 8 de junho. Já no dia 1º de julho, realiza-se o jantar e a premiação dos melhores vinhos da safra 2006, no Clube Independente.
As vinícolas que quiserem se inscrever para participar do concurso devem entrar em contato com a Secretaria Municipal da Agricultura pelo telefone (54) 3292 17 22, ramal 255.
Safra será segunda maior da história do país
Produtividade nos grãos mantêm o crescimento
A produção brasileira de grãos da safra 2005/06 está estimada em 121,1 milhões de toneladas. O resultado é 6,3% maior que a safra anterior, de 113,9 milhões/t. A produtividade é o principal fator do crescimento, segundo da Conab. Em relação à área plantada, são 47,1 milhões de ha (-4,1%).
Já o IBGE calcula redução de 2,77% na área plantada (46,2 milhões de ha) e indica que o país terá a segunda melhor safra agrícola da história, com 121,7 milhões de toneladas de grãos. O montante só perde para a safra recorde de 2002/2003, de 123,6 milhões/t.
Segundo o coordenador do levantamento do IBGE, Newton Rocha, essa estimativa não sofrerá alterações, "pois a maior parte da safra está colhida."
Engº. Agrº. José Zugno
Tomate capote
Ganhei de uma sobrinha da minha irmã sementes de uma planta desconhecida que chamam de capote e plantei. Dá uma frutinha que meu neto gosta de comer. Mando algumas de amostra. Dá para consumir à vontade? Gostaria de obter mais informações sobre a planta.
Helena Scherner
Feliz – RS
Pelo exame trata-se de uma fruta conhecida pelo nome de fisalis, cujo nome científico é Physalis angulata, e é mais uma das tantas plantas úteis que crescem em nosso país. Pertence à família das solanáceas, da qual fazem parte também o tomateiro, a batateira, a berinjela, o pimentão, as pimentas e outras. Já abordei o assunto nesta coluna, na edição de 21 de maio de 1997.
A planta é um arbusto que pode atingir até 2 m de altura, parecido com o juá. Inicia a produção 4 a 5 meses após o plantio e pode produzir por um período de até 6 meses, quando tutorada e bem cuidada.
O fruto é semelhante a um pequeno tomate, bonito, delicado e de sabor único, levemente ácido e adocicado, que não tem comparação com outra fruta. Sua cor vai do amarelado até um forte alaranjado. O fruto mede 1 a 2 cm de diâmetro, pesa 3 a 5 gramas e é protegido por delicadas folhas secas, que uns chamam de capote (cálice concrescido, que envolve o frutinho). Cada planta pode produzir 2 a 4 kg de frutos e num hectare cabem 6.000 plantas.
Parece fruta exótica, mas não é. É brasileira pura, nativa de uma enorme área que vai desde a região sudeste até a Amazônia, passando pelo Nordeste.
São conhecidas 5 variedades. Tem vários nomes populares, dependendo da região. Na Amazônia, os índios a denominam de camapu. Na Bahia recebe os nomes de juá-de-capote, bucho-de-rã e outros. Na Europa e Estados Unidos, é conhecida como physalis.
Solo e clima – Não é exigente em solos, mas como toda solanácea cresce melhor em solos bem drenados, férteis e bem preparados. Muitas pessoas cultivam-na na horta ou no quintal. Produz em todo o Brasil, mas não tolera geadas. A Colômbia é o maior produtor mundial e exporta para os Estados Unidos e Europa a até U$ 16,00 o quilo. Os mercados das grandes capitais começam a oferecer a fruta, que chega a custar até R$ 80,00 o quilo.
Valor medicinal – O fisalis é rico em vitaminas A e C, fósforo, ferro, além de flavonóides, alcalóides e fitoesteróides, alguns recém-descobertos pela ciência. Os índios utilizam a raiz, as folhas e os frutos para o controle da hepatite e da malária. Tem ação fortificante, purifica o sangue e ajuda no tratamento do câncer de próstata, colesterol elevado e diabetes.
Culinária – Na culinária é muito apreciada pelos grandes chefs e gourmets da cozinha internacional na forma de doces, sorvetes, geléias, compotas, no fondue de chocolate, licor e como tira-gosto na degustação de vinhos. Uma delícia é a fruta coberta de chocolate. Não se conhecem restrições ao seu consumo, mesmo por crianças, mas como qualquer outra fruta, não se deve exagerar.
Esta fruta começa a se tornar conhecida no meio urbano brasileiro. Pelas informações da Estação Experimental Santa Luzia, telefone (15) 3258.2024, Guareí (SP), é uma planta com amplo futuro, podendo se constituir numa boa alternativa para a agricultura familiar, tanto para consumo "in natura" como para indústria, contanto que seu incremento seja feito de forma organizada e com assistência técnica agronômica. No RS começa a despertar interesse e já há algumas plantações em produção. Além disso, é planta muito ornamental.
Agradeço a colaboração do engº. agrº. Lírio Londero, chefe da Emater de Feliz. Em Caxias do Sul sementes de fisalis podem ser encontradas na Ruzzarin Agropecuária, rua Bento Gonçalves nº 2221 – telefone (54) 3223 4144.
Cravos e espinhas atormentam cerca de 80% da população jovem do país
Acne não oferece riscos à saúde, mas abala a auto-estima
Um rosto sem manchas, desejo de milhares de adolescentes, é realidade na vida de apenas 20% dos jovens brasileiros. Estima-se que a acne esteja presente em mais de 80% das pessoas com idade entre 15 e 25 anos. Embora a doença não ofereça riscos à saúde, afeta a auto-estima. Especialistas alertam que a orientação médica representa o melhor caminho para o tratamento, já que os medicamentos oferecem riscos de efeitos colaterais.
A acne é um termo genérico para designar uma série de problemas que atingem a pele, como as espinhas (pústulas), cravos (comedões), nódulos ou cistos. De origem genética e hormonal, atinge indiscriminadamente homens e mulheres. Embora predomine entre jovens, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica aponta sua incidência em 30% dos adultos. Segundo pesquisas, 85% das pessoas apresentam manifestações simples do problema, que permanecem por algum tempo e, na maioria das vezes, somem espontaneamente. Já os outros 15% têm o que é chamado de acne inflamatória, ou seja, lesões mais intensas e aparentes, que necessitam de cuidados especiais.
Ao contrário do que muitos pensam, a acne não é apenas um problema estético, pois pode trazer transtornos emocionais à vida do paciente, atrapalhando seu relacionamento com colegas e com o sexo oposto, além de trazer sentimentos de preocupação e frustração. Se não tratada corretamente, pode deixar cicatrizes que dificilmente são eliminadas. O adolescente, por exemplo, passa por mudanças críticas relacionadas à aparência nessa fase da vida e estar com o rosto marcado, inflamado, é bastante comprometedor.
O aparecimento da doença depende de fatores como aumento da produção de sebo e presença de bactérias que vivem normalmente sob a pele. Na fase da puberdade, entre 14 e 17 anos, o organismo intensifica a produção de hormônios. Quando esses hormônios atingem a pele, provocam aumento das glândulas sebáceas e, conseqüentemente, da quantidade de sebo sobre a pele. Esse é o principal motivo da acne atacar um número tão grande de adolescentes. Apesar da ação hormonal, herda-se a tendência para desenvolver a acne. Essa herança também determina o tamanho das glândulas sebáceas, a quantidade de sebo (seborréia) e a tendência para poros abertos. O problema também pode ser agravado por fatores psicológicos, como estresse e ansiedade.
Tratamento adequado evita cicatrizes
O tratamento da acne é eficaz na maioria dos casos e visa prevenir o agravamento do problema e o surgimento de cicatrizes. Em casos mais leves, geralmente indica-se sabonetes e loções antiinflamatórias, que controlam a oleosidade, esfoliantes que combatem o excesso de produção de sebo e antibióticos tópicos que inibem a proliferação de bactérias.
Não se deve manipular, espremer ou coçar as espinhas, nem usar cosméticos oleosos. É importante também usar filtro solar adequado à pele com acne. Quanto ao consumo de certos alimentos, não há comprovação científica de sua influência sobre o aparecimento da acne.
Hoje, a isotretinoína, supressora da produção de sebo, tem sido muito usada no tratamento de cravos e espinhas. Porém, o Ministério da Saúde alerta para os riscos do medicamento quando utilizado sem indicação e acompanhamento médico. O principal é causar defeitos congênitos graves no corpo do bebê, se for consumido na gestação. Mulheres que usam a substância não podem engravidar até dois meses depois do término do tratamento.
Há ainda registros de dor nas articulações e de cabeça, queda de cabelo, aumento do colesterol e triglicerídeos. No Brasil, a comercialização da substância é controlada.
Problema provoca ansiedade na mulher
A acne pode ser muito prejudicial para a auto-estima de quem busca um rosto sem marcas. Um estudo realizado com mulheres adultas acneicas, com média de 26 anos, e defendido como tese de mestrado na Fundação da Universidade de Pernambuco, revelou que 88,3% delas manifestam ansiedade por causa desse problema. Outros 70% disseram sentir "desgosto por ter acne" e 65% relataram medo de a acne nunca terminar.
A pesquisa também indicou que 63,3% das entrevistadas estavam insatisfeitas quanto à aparência de seu rosto. A forma clínica predominante foi o grau II de acne (48,3%).
Descoberta causa do mal de Parkinson
Cientistas da Coréia do Sul encontraram a principal causa da doença de Parkinson. Segundo o biólogo Chung Jong-Kyeong, a doença está relacionada a problemas nos genes Parkin e PNK 1 e à deterioração das funções das mitocôndrias nas células.
O Parkin produz uma substância que ajuda a eliminar as proteínas defeituosas que podem aparecer em células cerebrais. O PNK 1 ajuda a ativar as funções das mitocôndrias, estruturas encarregadas de fornecer energia para a atividade das células. Testes em moscas-das-frutas indicam que problemas nesses genes impedem o funcionamento correto das mitocôndrias. A falha interrompe a produção da dopamina, substância fundamental para o controle do movimento. Com isso, aparecem os sintomas de Parkinson, com destruição do sistema nervoso e do tecido muscular.
As experiências sugerem que a correção do problema no gene Parkin permite deter o processo de deterioração. Embora a mutação dos dois genes possa causar a doença, a deterioração do PNK 1 é a mais importante para o surgimento.
Chung prevê que as descobertas sirvam para futuras pesquisas de um tratamento para a deterioração física produzida pela doença e de um diagnóstico precoce. No entanto, ainda levará anos até que se encontre remédio e tratamento para ajudar os pacientes, devido a necessidade de testes clínicos. Embora um tratamento dos genes defeituosos possa deter a progressão da doença, não poderá ajudar quem já sofre a degeneração de tecidos nervosos e musculares.
Cartão infantil terá novo ideal de peso
O atual gráfico usado para acompanhar o desenvolvimento das crianças, nos cartões infantis, vai mudar. O novo padrão foi apresentado pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Uma das principais mudanças é o detalhamento da obesidade infantil.
Segundo o consultor da OMS, César Victora, o gráfico de hoje tem como padrão uma criança de maior peso. O novo usa como modelo uma criança que foi amamentada. "A criança amamentada é menos obesa, tem crescimento mais adequado, normal e saudável. A nova curva identifica melhor quem já está ficando obeso", explicou.
Ambiente interfere mais que genética
O novo cartão da criança foi elaborado com base no desenvolvimento de 8,4 mil crianças de seis países, entre eles Brasil. O estudo mostra que nutrição, práticas alimentares, ambiente e serviços de saúde são mais importantes no crescimento de crianças com até cinco anos do que genética ou etnia. Um início de vida em condições inadequadas pode levar a conseqüências que durarão por toda a vida, como doença cardíaca, deficiência mental, câncer, diabetes. A nova versão tem tabelas para diversas metas, como peso e altura por idade, momentos do desenvolvimento motor (sentar e andar) dicas sobre amamentação.
Essas belas mulheres e seus corpos
Maria Clara Lucchetti Bingemer
Digna de toda a indignação ética é a situação de uma humanidade que leva mulheres criadas por Deus para o amor e a maternidade a vender o corpo e se transformar em "mulas" do tráfico de drogas para buscar um salto qualitativo na vida
Problema número um de saúde pública do século XXI, o tráfico de drogas é também o negócio que mais movimenta dinheiro em todo o mundo. Não se consegue calcular quantos infinitos milhões de dólares circulam de um lado a outro do planeta através do pó mágico da cocaína, da erva da maconha, das pílulas de ecstasy ou de outras substâncias químicas. Estas prometem aos deprimidos e entediados seres humanos o paraíso das sensações artificiais de bem-estar, euforia e prazer. Portanto, não têm preço.
Ultimamente, no afã de transportar de um lado para outro as inebriantes drogas, o tráfico descobriu novo veículo: o corpo das mulheres. Não é de hoje que mulheres de todas as idades, de meninas quase crianças a senhoras respeitáveis, servem de "mula" para o tráfico. Ou seja, aceitam levar na bagagem um determinado contingente de droga em troca de remuneração (alta) a combinar.
Agora, porém, parece que a bagagem não é mais meio de transporte tão seguro. A polícia anda alerta, os cachorros têm bom faro e a droga vai sendo descoberta mais freqüentemente do que seria de desejar. As "mulas" acabam presas e o prejuízo para o traficante é enorme. Buscando um transporte mais imponderável e seguro, é agora nos próprios corpos femininos que a droga se aloja para chegar sã e salva a seu destino.
Nas mais de dez mil mulheres que foram identificadas realizando esse tipo de ilegalidade na enorme via de mão dupla que se formou entre a América Latina e o hemisfério norte, quase 80% guardam o mesmo perfil: são jovens, bonitas e de classe média. Para carregarem seu precioso fardo, as belas moças aceitam fazer incisões cirúrgicas no próprio corpo, escondendo sob a pele mercadorias ilegais como cocaína e ecstasy. Pelo serviço, de acordo com a quantidade transportada e o tipo da mercadoria, recebem gordas quantias: nunca menos de US$ 1 mil podendo mesmo chegar a US$ 15 mil.
Para carregar a cocaína elas entregam ao bisturi as coxas e os seios. Ali, naquelas partes do corpo feminino criadas e destinadas ao amor, ao carinho, à nutrição dos filhos, alojam-se quantidades gigantes de pasta de coca, que compradas a US$ 2.000,00 o quilo em países latino-americanos podem chegar a ser revendidas na Europa por US$ 100.000. As cirurgias são realizadas em clínicas clandestinas bem escondidas em algum ponto de países latino-americanos. Dali as moças partem em direção à perigosa viagem que pode ser sem volta devido à carga milionária que levam nas entranhas. Já as pílulas de ecstasy se acomodam melhor no aparelho digestivo, seja no estômago ou no intestino, provocando graves distúrbios que afetam a saúde da mulher para sempre ou a levam inclusive à morte.
A gravidade do fato espanta e provoca perguntas que não querem calar. Como mulheres jovens e bonitas são seduzidas pelos traficantes? Por que uma moça jovem e bela, que teria tudo para ter uma vida intensa e realizada procura tal descaminho deixando retalhar o próprio corpo para transportar droga. A resposta, veiculada recentemente por importante revista brasileira, torna ainda mais triste o fato já de si tão tenebroso. O tráfico em geral consegue aliciar as mulheres que têm algum ponto vulnerável ao nível dos afetos, ou estão passando por algum momento difícil em suas vidas.
Os aliciadores do tráfico ganham por cada mulher recrutada o que os estimula a investir na busca da quantidade cada vez maior para gerar lucros expressivos. Aonde vão eles buscar suas vítimas? Em shopping centers, filas de emprego e até mesmo portas de hospitais. Nesses lugares, seu olhar cúpido poderá identificar mulheres bonitas que sonhem conhecer o exterior, mas não possuam recursos suficientes para tal. Ou então mães solteiras com filhos doentes sem recursos para tratá-los. Essas parecem as mulheres mais fáceis de serem convencidas. A angústia com a vida dos filhos as podem levar facilmente a procurar saídas desesperadas como transformar o próprio corpo em lugar de carga para a droga sem pensar nas conseqüências.
Muitas igualmente estavam desempregadas ou sem atividade regular remunerada. O desespero de não ter como garantir a sobrevivência as faz dizerem sim à proposta do traficante. O ingrediente da beleza corre por conta de poder mais facilmente captar a benevolência da polícia ou de outras instâncias que pudessem impedir a conclusão da ilegalidade. Mulheres bonitas têm mais chance de burlar a fiscalização.
Dignas de toda compaixão são essas belas "mulas" que vendem seus corpos e sua dignidade em um tipo de prostituição mais vil do que qualquer outro. Mas digna de toda indignação ética é a situação de uma humanidade que leva mulheres criadas por Deus para o amor e a maternidade a buscar um salto qualitativo na vida através de desvio tão profundo e equivocado!
Frei Betto
Enquanto a escola se esforça, pelo menos teoricamente, para formar cidadãos, a TV forma consumidores. Por que não destronarmos a TV como rainha do lar e levá-la para a sala de aula? Chegou a hora de nos emanciparmos do tirânico monólogo televisivo
Desde que me entendo por gente, a escola ensina análise de textos. Graças a essas aulas, aprendi o ufanismo de "criança, jamais verás um país como este", conheci a paixão de Tomás Antônio Gonzaga por sua Marília e deleitei-me com os poemas satíricos de Leandro Gomes de Barros, como esses versos tão atuais, escritos no início do século XX:
"O Brasil é a panela
O Estado bota sal,
O Município tempera,
quem come é o Federal".
Todo texto tece-se com os fios do contexto em que foi escrito. Quanto mais próximo encontra-se o leitor da conjuntura em que se produziu o texto, tanto melhor capta o seu pretexto, o significado. Um alemão tem mais condição de apreender, com a sensibilidade, o universo das obras de Goethe, assim como um brasileiro sente o perfume da culinária descrita nos romances de Jorge Amado.
Pra que serve estudar literatura? Entre outras razões, para ler com mais acuidade o livro da vida, cujos autores e personagens somos nós. Quem lê, sabe distinguir entre arte e panfleto, jogo de rimas e poesia, experimentalismo barato e ficção de qualidade. Ler é um exercício de escuta e ausculta. Por isso, enquanto não chegam novos avanços tecnológicos, tenho a impressão de que ler livro na internet é como ver a foto de um entardecer de maio sobre as montanhas de Belo Horizonte. Prefiro contemplar a maravilha ao vivo.
Na adolescência tive em cine-clubes minha primeira educação do olhar. Após a exibição do filme, debates deixavam nítida a diferença entre obra de arte e mero entretenimento. Cultivava-se a sensibilidade, saturada pelas sagas melodramáticas dos pastelões de Hollywood e insaciada diante dos grandes mestres do cinema. A chatice repetitiva do humor televisivo jamais produzirá um Chaplin.
Hoje, a imagem ocupa em nossos olhos mais espaço que o texto, graças à universalização da TV. No entanto, a escola parece não se dar conta de que vivemos numa era imagética. Ou pior, compete com a TV em arrogante indiferença ou desprezo. Dentro da sala de aula ainda predominam a narrativa textual, a palavra escrita, a seqüência demarcada por início, meio e fim, marcas da historicidade. Fora da escola, recebemos a avalanche de imagens, o vertiginoso coquetel que embaralha passado, presente e futuro, a narrativa implodida pelo recorte inconcluso dos clipes, a cultura definhada em diversão vazia.
Enquanto a escola se esforça, ao menos teoricamente, para formar cidadãos, a TV forma consumidores. Se, hoje, os alunos são mais indisciplinados que outrora, é porque não podem – ainda – mudar o professor de canal... Por que não destronar a TV como rainha do lar e levá-la para a sala de aula? Chegou a hora de nos emanciparmos do tirânico monólogo televisivo. Pode-se discordar de um jornal e escrever à seção de cartas dos leitores ou protestar no rádio, ligando para a emissora. Como queixar-se à televisão, uma concessão pública utilizada em função de interesses e lucros privados? O melhor recurso é inverter a relação: ela passa a ser objeto e, nós, sujeitos.
Imagino os alunos em sala de aula analisando programas de TV e clipes publicitários; transformando o jogo de emoções – fotos, sons, movimentos – em objeto da razão, decodificando os conteúdos dos programas e a carpintaria da produção televisiva. Atores e produtores de TV seriam recebidos em salas de aula; a qualidade dos produtos ofertados conferida; abrir-se-ia o debate sobre a "ética" implícita nos programas de auditório, onde pobres e nordestinos são ridicularizados, e na publicidade, que reduz a mulher a seus atributos físicos como isca de consumo.
Ver TV na escola é educar o olhar. E, assim, dar importante passo rumo à democratização dos meios de comunicação, pois instituições de ensino também devem ter suas rádios comunitárias e produzir vídeos. Só um olhar crítico abre-nos o horizonte da cidadania e da democracia real. Caso contrário, corremos o risco de ver cada vez mais caras e menos corações, acreditar que a predominância da estética dispensa ética e crer que os sonhos são apenas casulos que não geram borboletas da utopia.
Reduz exploração da mão-de-obra infantil
217,7 milhões de crianças e adolescentes ainda trabalham. No Brasil são 2,2 milhões
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) registra pela primeira vez desde que realiza levantamento a redução no trabalho infantil em todo os países. É o que mostra o relatório Fim do Trabalho Infantil: Um Objetivo ao Nosso Alcance, divulgado na quinta 4. De 2000 a 2004, houve queda de 11% no número de crianças e adolescentes com idade entre cinco e 17 anos que trabalham: passou de 245,5 milhões para 217,7 milhões.
Entre as crianças de 5 a 14 anos, a queda foi mais significativa: 33%. Já o envolvimento em atividades perigosas diminuiu 26% na faixa etária de cinco a 17 anos, segundo o relatório da OIT. Em 2000, a estimativa era de que 179 milhões de crianças e jovens estavam em trabalhos perigosos ou insalubres, contra 126 milhões em 2004.
De acordo com o documento, a América Latina e o Caribe apresentaram os melhores resultados. Apenas 5% das crianças de cinco a 14 anos estão envolvidas no trabalho, representando redução de impressionantes dois terços no período de quatro anos. A OIT cita ainda bons resultados no México e países da Ásia e do Pacífico. Por outro lado, 26% das crianças africanas (quase 50 milhões) estão trabalhando.
O relatório aponta ainda que será possível eliminar em 10 anos o trabalho infantil em suas piores formas se o ritmo de redução atual for mantido e o momento atual de sensibilização para combater o trabalho infantil continuar. O estudo atribui esse resultado à vontade política, conscientização e ações concretas, particularmente no campo do combate à pobreza e na área da educação.
Brasil – De acordo com a OIT, o Brasil possui mais de 2,2 milhões de crianças trabalhadoras. Desse total, 58,7% (1,29 milhão) estão no setor agrícola. A maioria da força infantil no campo é composta por garotos (63,6%).
O índice de ocupação de crianças brasileiras de cinco a nove anos caiu 61% entre 1992 e 2004. Na faixa etária de 10 a 17 anos, a queda nesse mesmo período atingiu 36%. Mas a redução não foi uniforme. O trabalho infantil diminui em Estados como Rio de Janeiro e Distrito Federal, se manteve estável em Estados mais ricos, como Rio Grande do Sul, São Paulo e Paraná, e cresceu em Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Acre e em outros dez Estados.
Elogiado, Brasil tem de enfrentar questão cultural
A questão cultural é o que mais dificulta o fim do trabalho de crianças na área rural. A avaliação é do secretário de assistência social do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Osvaldo Russo.
O coordenador do Programa Internacional para Eliminação do Trabalho Infantil (Ipec) da OIT, Pedro Américo Oliveira, acrescentou que boa parte da sociedade acredita que é bom que uma criança pobre trabalhe. Ele defende a realização de campanhas para mudar essa concepção. "Não é apenas a pobreza que leva ao trabalho infantil, a cultura também", ponderou Oliveira em entrevista à ABr.
A ação brasileira contra a exploração da mão-de-obra infantil foi elogiada. Juan Somavia (foto), diretor-geral da OIT, afirmou que o país dá um bom exemplo ao apoiar as famílias com crianças encontradas trabalhando.
Somavia ressaltou o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), através do qual famílias recebem uma bolsa mensal (R$ 25 para a área rural e R$ 40 na urbana) para compensar os recursos anteriormente trazidos pelas crianças para casa. Segundo Somavia, o combate ao desemprego, o aumento no trabalho formal e no salário mínimo também reduzem o trabalho infantil. "Quando os pais trabalham, as crianças não precisam trabalhar", lembra Somavia.
Agricultura concentra trabalho infantil
A agricultura é o setor que mais concentra o trabalho infantil no mundo. De acordo com o relatório Fim do Trabalho Infantil: Um Objetivo ao Nosso Alcance, da OIT, 69% das crianças trabalham no setor, número que equivale a 130 milhões de meninas e meninos.
O documento mostra que as crianças, especialmente as meninas, tendem a começar a trabalhar na agricultura entre cinco e 7 anos de idade. Em alguns países, calcula-se que as crianças com menos de 10 anos representem cerca de 20% do trabalho infantil no setor.
O relatório destaca, no entanto, que muito desse trabalho é "invisível", já que a agricultura ainda é uma atividade pouco regulamentada em todo o mundo. "Não surpreende que este seja um setor no qual os sindicatos são tradicionalmente fracos. As leis sobre o trabalho infantil, quando existem, aplicam-se de forma menos rigorosa na agricultura do que em outros setores", diz o levantamento.
Os setores de serviço e indústria também chamam a atenção da OIT pela presença de trabalho infantil. O primeiro – que inclui o comércio varejista e atacadista, construção e hotelaria, transportes e finanças – concentra 22% das crianças trabalhadoras. A indústria (nos segmentos de minas e pedreiras, manufatura e construção) representa 9%.
Só 30 países têm prazo para eliminação
Apesar da redução no trabalho infantil, a OIT alerta que é preciso continuar avançando nas ações de combate a esse problema. Segundo a entidade, apenas cerca de 30 países já definiram prazos e metas a serem adotados para conseguir a eliminação das piores formas de trabalho infantil nos próximos dez anos. A organização propõe que os demais países passem a adotar estratégias até 2008 para ter condições de cumprir esse compromisso.
O relatório destaca também as questões que precisam receber mais atenção nos próximos anos, como o uso de mão-de-obra infantil na agricultura. De cada dez crianças que trabalham sete estão na zona rural. Os países também precisam adotar medidas para enfrentar o trabalho forçado, em regime de servidão por dívida e doméstico. "O trabalho infantil doméstico continua a ser uma questão extremamente sensível, pois aparece freqüentemente disfarçado de acordos em família dentro de um ambiente supostamente protetor", destaca o documento.
A situação no continente africano, onde foram registrados os menores índices de redução, também é um aspecto que precisa de atenção. Na África sub-saariana, onde existe a maior incidência de trabalho infantil, quase 50 milhões de crianças exercem alguma atividade, ou seja, 26,4% da população infantil da região, proporção maior do que a de qualquer outra localidade. Em 2000, eram 28,8%.
A HORA E A VEZ DA BOLÍVIA
Governo boliviano nacionaliza produção de petróleo e gás, assusta o Brasil e ainda obriga o presidente Lula a assumir postura amistosa para manter disputa por liderança no continente
Trinta e cinco anos após a última nacionalização na América do Sul, ocorrida no Chile, o governo boliviano liderado por Evo Morales assumiu todas operações estrangeiras no país de exploração e comercialização de gás e de petróleo. Logo após a divulgação do decreto, dia 1º de maio, tropas do exército tomaram as instalações das companhias, entre elas a brasileira Petrobras, maior empresa da Bolívia.
A decisão de Morales atende promessa de campanha. É um gesto político identificado com a cartilha do populismo, que ressurge com força no continente. Primeiro indígena presidente da Bolívia, Morales teve apoio de 54% dos eleitores. Considera injusto o que o país ganha por suas riquezas, sente-se explorado e quer elevar os preços.
A brusca intervenção do Estado sobre a atividade econômica, rompendo unilateralmente contratos (caso da Petrobras e de outras empresas, como a britânica British, as espanholas Andina e Repsol YPF e a francesa Total), mostra a firmeza do governo boliviano em suas intenções. Ao mesmo tempo, deixou vulneráveis os planos da Petrobras e assustou o Brasil, que precisa do gás boliviano para suprir 51% de suas necessidades.
Uma missão brasileira está na Bolívia nesta semana para começar a negociar o novo preço do gás. O governo Morales quer elevar os valores em 45%, um percentual que trará graves efeitos para a economia brasileira, principalmente para indústrias, as que mais consomem o combustível boliviano. A Petrobras havia declarado que não aceitaria aumentos, mas como o governo brasileiro quer seguir uma política de acordos, admitindo aumento para não tornar o negócio inviável, o brasileiro vai pagar mais caro para ter o gás da Bolívia.
Se no campo econômico o baque provocado por Morales estremeceu vários países –, muito mais o Brasil –, no campo político a atitude ajuda a construir um novo cenário, dirigindo os holofotes mais para a figura do presidente venezuelano Hugo Chávez. Coincidência ou não, na véspera de nacionalizar os hidrocarbonetos, Morales estava com Chávez visitando Fidel Castro, em Cuba.
No palco da liderança sobre o continente, onde o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva ensaiava a ocupação do espaço mais destacado, Chávez volta a ser protagonista importante. E Lula, que tanto elogiou a eleição de Morales, oscilou: inicialmente, reconheceu a nacionalização como um ato de soberania; no dia seguinte, afirmou que "uma nação não pode impor sua soberania às outras"; no terceiro dia, após reunião com os presidentes da Bolívia, Venezuela e Argentina, retomou o tom amistoso; na sexta 5 disse que a Bolívia tinha o direito de pedir preço justo pelo gás. Declarou que futuros projetos na Bolívia dependeriam de decisão da Petrobras, contrariando postura do presidente da estatal brasileira que 24 horas antes anunciara a suspensão de todos os investimentos naquele país.
Exploração – Historicamente, a exploração de riquezas de países sul-americanos por grandes potências tem levado ao empobrecimento da população local e a uma desigualdade social que escancara a vergonhosa concentração de renda. O pouco que fica nos países é dividido entre privilegiados, normalmente intermediários ou garantidores de ações de grandes grupos econômicos chancelados por governos de países – Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e outras superpotências. Reagir contra esse modelo não é só um direito, é um dever dos governantes. Entre países vizinhos, porém, pressupunha-se a negociação bilateral. Mesmo que os brasileiros há anos sejam denominados de "imperialistas" por bolivianos.
A idéia de transformar a América do Sul num grande bloco político e econômico, opção à rejeitada Alca, pode estar sendo substituída por um processo de desintegração. O Uruguai anunciou a troca do Mercosul por contratos bilaterais com os Estados Unidos; o Paraguai emitiu sinais de seguir o mesmo caminho; o Chile já negocia direto com o Norte há anos. Soma-se a isso a briga entre Venezuela e Peru e as históricas disputas entre Brasil e Argentina e se terá uma dimensão das dificuldades para a formação de um bloco forte e unido. Agora ficou pior ainda.
Dependência perigosa para economia brasileira
A crise do gás boliviano pode afetar principalmente a indústria do Estado de São Paulo e os Estados do Sul, em especial setores como cerâmica, vidros, alimentos e bebidas. O problema não é o petróleo, diante de uma eventual interrupção. Já do gás utilizado no país, em média 51% vêm da Bolívia. Do gás consumido em São Paulo, 75% são dos vizinhos andinos; no Rio Grande do Sul esse índice chega a 70%. Situação delicada ainda é a do Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde o índice é de 100% de gás boliviano. Se houver um corte, o desabastecimento seria imediato.
Esta dependência é perigosa, como admitiu o presidente Lula. "Foi um erro estratégico o Brasil ficar dependente de uma única fonte de energia que não é nossa", afirmou. O gás que vem da Bolívia é natural, extraído do subsolo e diferente do gás de cozinha (GLP), vendido em botijões. É usado na indústria, em automóveis, em termelétricas e, em menor escala, nas residências e no comércio.
No Brasil, o uso mais intensivo do gás boliviano é na indústria, como combustível. Em março deste ano, o país consumiu 42,7 milhões de metros cúbicos de gás por dia (há seis anos gastava um terço dessa quantia). Desse total, 21 milhões de metros cúbicos vieram da Bolívia. Embora tenha sido um mês de baixo desempenho do setor, a indústria do país consumiu 26 milhões de metros cúbicos (60,8%). As termelétricas aparecem em segundo lugar, com 9,5 milhões de metros cúbicos e os automóveis em terceiro, com 6 milhões. O consumo residencial, restrito ao Rio de Janeiro e São Paulo, bateu nos 568,3 mil metros cúbicos, e no comércio, em 534,9 mil metros cúbicos.
Desde que nacionalizou gás e petróleo, o governo boliviano sempre ressaltou que não quer parar o fornecimento. Quer, isso sim, elevar os preços. Hoje, o Brasil paga US$ 3,60 por mil metros cúbicos de gás, mas até oposição ao presidente Evo Morales defende um aumento de US$ 2 (55%).
É consenso entre os especialistas que, caso o fornecimento de gás pela Bolívia sofra redução ou interrupção, o Brasil não tem como resolver o problema no curto ou médio prazo. Assim, as indústrias teriam de optar por outro combustível, como óleo diesel, o que, além de encarecer a produção, impõe prejuízos ambientais. É preciso considerar, porém, que a economia da Bolívia estará atrelada à exportação de gás e que o Brasil é o seu maior "cliente", condição importante numa negociação.
Investimentos de 11 anos atrelados a novas regras
A Petrobras opera na Bolívia desde 1996. Os negócios da empresa incluíam exploração, produção e comercialização de gás natural e o sistema de transporte através de gasodutos. O gasoduto Brasil-Bolívia custou à estatal brasileira US$ 2 bilhões. A obra tem 3.150 quilômetros de extensão, 557 quilômetros em território boliviano e 2.593 em solo brasileiro – entra pelo Mato Grosso do Sul e chega ao Rio Grande do Sul. A Bolívia fornece em média 26 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia ao Brasil – mais da metade do consumo local -, que são transportados pelo gasoduto.
Em 10 anos de Bolívia, a Petrobras investiu ainda US$ 1 bilhão em projetos para extração e refino de gás. Era a maior empresa do país, responsável por 20% do Produto Interno Bruto (PIB) boliviano, com atividades em seis dos nove Estados bolivianos (observe mapa). Operava as duas maiores refinarias: Gualberto Villarroel, em Cochabamba, e Guillermo Elder Bell, em Santa Cruz de La Sierra. Até a semana passada não havia garantia de que todos esses investimentos fossem ressarcidos. O governo boliviano quer que a Petrobras continue no país, mas atuando apenas na distribuição.
Regras – A estatal do Brasil faz parte de um grupo de empresas que foram atraídas à Bolívia na década de 1990, quando o então presidente Hugo Banzer privatizou as reservas de gás e petróleo. Entre 1996 e 2005, as empresas estrangeiras (as principais são, além da brasileira, da Inglaterra, Espanha, Canadá e França) ficaram com 82% dos lucros. Desde o ano passado, uma lei obrigou a transferência para o Estado de 50% da produção, por meio de tributos.
Desde 1º de maio, a empresa estatal Yacimientos Petroliferos Fiscales Bolivianos (YPFB) toma conta dos campos de produção de petróleo. Agora a estatal boliviana passa a ter controle de no mínimo 50% mais um do capital votante das empresas estrangeiras, inclusive a Petrobras Bolívia. E não há nenhuma sinalização boliviana para indenização.
As empresas estrangeiras têm 180 dias para regularizarem sua situação e se adaptarem às novas condições do governo boliviano. As que não aceitarem as regras terão de deixar o país. Nesse período de transição, apenas 18% da produção serão destinados às empresas. A Bolívia produz 150 milhões de pés cúbicos de gás por ano e extrai 40 mil barris de petróleo por dia, 0,05% da produção total mundial, que é de 84 milhões de barris diários.
O caminho trilhado até o desfecho de Morales
Esta é a seqüência dos principais fatos que levaram à nacionalização dos recursos naturais da Bolívia.
1996: Para atrair as grandes companhias de petróleo, o presidente boliviano Gonzalo Sánchez de Lozada assina contratos de exploração com 26 empresas do setor.
2003 (outubro): Depois de um mês de revolta popular pela nacionalização dos hidrocarbonetos (petróleo e gás natural) – conhecida como a "guerra do gás" e responsável por atos de violência sangrentos – o ultraliberal Sánchez de Lozada se vê forçado a renunciar e é substituído por Carlos Mesa, um ex-jornalista e historiador sem partido político de apoio.
2005 (17 de maio): Depois de dez meses de debates em meio a uma grave crise social e política, o Congresso promulga uma nova lei sobre hidrocarbonetos em substituição à de 1996. Esta nova lei prevê 18% de royalties e 32% de impostos sobre a exploração sem possibilidade de dedução sobre o valor dos hidrocarbonetos na boca do poço. As empresas estrangeiras são obrigadas a adotar o novo regime contratual para compartilhar a produção com o Estado.
Assim como os sindicatos e os movimentos indígenas, um dos partidos mais importantes da oposição, o Movimento para o Socialismo (MAS) do líder dos plantadores de coca Evo Morales, reivindica presença maior do Estado no setor. O presidente Mesa propõe inicialmente royalties de 18% e impostos progressivos, com deduções previstas para evitar a fuga dos investimentos estrangeiros. Carlos Mesa é obrigado a renunciar também.
2005 (21 de dezembro): O indígena Evo Morales, eleito três dias antes presidente da Bolívia, anuncia a revisão de todos os contratos de exploração de hidrocarbonetos assinados com as multinacionais. "Os hidrocarbonetos pertencem ao Estado e a Bolívia deve aproveitar seus recursos gasíferos, que serão a base do novo crescimento econômico do país", escreve o jornal espanhol El Mundo.
2006 (1º de maio): O exército da Bolívia é ordenado a ocupar todos os campos de petróleo e gás natural do país. O governo dá seis meses às companhias de petróleo para que regularizem sua situação com novos contratos de exploração, caso contrário não poderão mais operar no país.
Evangelizar os jovens é um desafio
Bispos refletem sobre o tema durante assembléia da CNBB
Um levantamento feito em mais de 260 arquidioceses e dioceses brasileiras revela que elas se propõem como compromisso prioritário a evangelização da juventude. Esse é o tema central aprovado pela CNBB para a 44ª Assembléia Geral dos Bispos do Brasil, que iniciou em Itaici (SP) nesta terça 9 e encerra dia 17 de maio. Para dom Itamar Vian, capuchinho gaúcho e arcebispo de Feira de Santana (BA), o futuro da Igreja depende da formação cristã dos jovens.
Dom Itamar, que está participando da assembléia dos bispos, em contato com o CR, discorreu sobre diversos assuntos relacionados à Igreja no Brasil e na América Latina e também sobre a situação política do país. Membro do Conselho Permanente da CNBB, dom Itamar considera a evangelização dos jovens um tema desafiador para a Igreja. Os bispos pretendem elaborar, na assembléia, um texto que deverá ser distribuído e estudado pelos próprios jovens durante um ou dois anos em todas as paróquias e comunidades do país. "A partir desse estudo, a CNBB vai elaborar um documento que deverá orientar na evangelização da juventude", afirma.
O arcebispo também destacou que, entre outros numerosos assuntos, em Itaici serão ampliadas as discussões sobre a preparação da 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho (Celam), que será realizada em Aparecida (SP) no mês de maio de 2007; eleitos os delegados brasileiros que vão participar do evento; e organizada a visita do Papa Bento XVI ao Brasil, que virá para a conferência do Celam. Dom Itamar salienta que vários países latino-americanos desejavam sediar a conferência, mas Bento XVI fez questão que ela fosse realizada no Brasil.
Dom Itamar revelou que o Papa deseja visitar, além de Aparecida, também algumas capitais. "Já enviamos um roteiro, que poderá ser ampliado em sua duração de três dias para até uma semana". O bispo acredita que a visita do Papa e a Conferência dos bispos latino-americanos serão um momento forte de evangelização e o início de uma nova etapa para a Igreja do continente.
Faltam padres em Feira de Santana
Dom Itamar Vian assumiu a diocese de Feira de Santana em 1995, depois de 11 anos à frente da diocese de Barra. Com a elevação de Feira de Santana à condição de arquidiocese, em 2002, foi promovido a arcebispo. A arquidiocese abrange uma superfície de quase 7 mil km2. Tem 32 paróquias em 19 municípios e uma população de 906 mil habitantes – 527 mil em Feira de Santana. "Deveríamos criar mais paróquias, mas há falta de padres. Temos 36 diocesanos e 21 do clero religioso" conta dom Itamar.
Governo deve retomar transposição do rio São Francisco
A pedido da CNBB e por ter sido bispo de Barra (BA), dom Itamar Vian acompanhou de perto a greve de fome que o bispo dom Luiz Flávio Cappio realizou no final de setembro e início de outubro do ano passado, fato que ganhou repercussão nacional e internacional. Dom Cappio, franciscano, bispo de Barra, entrou em greve de fome, se preciso até a morte, caso o governo Lula não suspendesse o projeto de transposição do rio São Francisco, que prevê levar água, através de grandes canais, a alguns Estados do Nordeste.
"A transposição do São Francisco e sua revitalização são hoje como um vulcão em erupção. Existe uma calmaria no momento, para evitar uma série de situações políticas regionais, inclusive com a Igreja, mas a transposição, com esse governo, infelizmente deverá ocorrer", revela dom Itamar. O arcebispo acredita que passado o período eleitoral, o projeto deverá ser retomado com força. "Isso ficou claro na audiência que dom Luiz teve com Lula e um grupo de técnicos, em Brasília", salienta.
Dom Itamar considera o projeto um processo praticamente irreversível, porque são muitos os interesses nacionais e internacionais, econômicos e políticos. Mas destaca que a greve do bispo teve um lado positivo – o projeto, aprovado pelo governo e com verbas já garantidas, que prioriza a revitalização do São Francisco, a grande bandeira defendida por dom Cappio.
O bispo de Barra entregou pessoalmente a Lula um detalhado levantamento técnico sobre as graves conseqüências da transposição e alternativas muito mais baratas e seguras para fornecer água a todas as famílias do sertão. É o caso das cisternas (o próprio Lula prometeu um milhão delas, mas até agora fez menos de 50 mil) e dos poços artesianos, pois a água é abundante no subsolo nordestino. "Se o dinheiro da transposição fosse aplicado em projetos menores, atenderia praticamente todo o Nordeste e não apenas alguns Estados", explica dom Itamar.
Ele revela que dom Luiz sabe que a transposição vai ocorrer, mas continua seu trabalho de conscientização com palestras, encontros, entrevistas e debates atualizando a sociedade sobre esse tema doloroso. Infelizmente, os interesses econômicos e políticos sobrepujam o que deveria ser prioritário para os nordestinos – água para todos. "Dom Luiz Cappio é uma pessoa profética, de palavra, determinada. Não teme dar a própria vida para que o povo nordestino tenha mais vida e vida em abundância. Diante de sua coragem, é possível que ele retome a greve de fome. Lula sabe disso. A Igreja também", conclui dom Itamar.
Caminhada política é questão de cidadania
Para dom Itamar Vian, a situação política que o Brasil atravessa é responsabilidade de todos os cidadãos. "Se hoje o país enfrenta tanta corrupção, a culpa é de todos. Nós somos responsáveis por tudo o que está acontecendo, porque elegemos mal nossos representantes", destaca. Ao falar sobre as próximas eleições, o bispo de Feira de Santana salientou a importância da cartilha, publicada recentemente pela CNBB, que foi elaborada por um grupo de pessoas que realmente conhecem a realidade brasileira.
Para o bispo, a cartilha oferece os princípios básicos e orientações seguras para os eleitores brasileiros, especialmente os mais jovens. Segundo dom Itamar, com a cartilha a CNBB não quer se intrometer no processo eleitoral, mas manter o princípio de motivar a população brasileira a participar ativamente da caminhada política do país. Ele lamenta que estejam surgindo grupos que podem fazer com que os jovens não recebam uma educação política como seria desejo da Igreja, especialmente os que pregam a anulação do voto.
Esperança – "A grande preocupação da Igreja é que as pessoas continuem acreditando naqueles que querem assumir cargos políticos, mesmo diante de tantas decepções", afirma dom Itamar. E ele conclui que "mesmo tendo cometido erros, por escolhermos maus políticos ou por termos sido enganados por aqueles que elegemos, não devemos perder a esperança de ter no país políticos melhores, mais éticos e com menos corrupção".
Padre Zezinho
Ecoar como católico é escolha urgente
Catequese, na sua origem, é palavra grega que significa eco. Vem do verbo catechein: ecoar. Uma orquestra ecoa. Seu som sai daquele palco e vai para todo o teatro ou estádio, ainda mais se ampliado por microfones.
Nossas palavras também podem e devem ser catequéticas como podem e devem ir além do nosso pequeno espaço. De um modo ou de outro, todos podemos sempre ir mais longe do que nossos passos.
Mas, à semelhança do violino, da trompa ou do tímpano, podemos emitir qualquer som ou qualquer ruído e a qualquer hora. Será um som e ecoará, talvez até reboe, mas, para ser o que nós, católicos, chamamos de catequese católica, terá que ecoar junto aos demais instrumentos da orquestra e em harmonia com eles.
Ecoar como católico é escolha urgente e exigente. Demanda estudo e preparo. Não basta estar entusiasmado, querer falar e cantar e repetir o que ouvimos no último encontro. É mais do que repercutir.
Alto Uruguai celebra seus mártires
Romaria de Nonoai recorda padre Manuel e coroinha Adílio
A paróquia de Nonoai, no norte gaúcho, celebra nos dias 20 e 21 de maio, a 42ª romaria penitencial ao santuário Nossa Senhora da Luz e aos mártires padre Manuel Gonzalez e coroinha Adílio Daronch. A programação religiosa inicia nesta quinta 11, com a realização da primeira noite da novena. No sábado 20, serão celebradas missas às 11, 13 e 19 horas, esta sendo precedida de grande procissão luminosa, que sairá de cada um dos sete bairros da cidade até o santuário.
No domingo haverá missas às 6, 8, 10 e 14 horas. Padre Antônio Ângelo Dal Piva, pároco e reitor do santuário desde janeiro desde ano, destaca que a missa solene das 10 e a de encerramento, às 14 horas, com bênção da saúde, serão presididas pelo bispo diocesano, dom Zeno Hastenteuffel. A região de Nonoai pertence à diocese de Frederico Westphalen.
Martírio – Padre Manuel Gonzalez, espanhol, veio ao Brasil em 1913. Encaminhado ao bispo de Santa Maria, foi nomeado pároco de Soledade em janeiro de 1914. No ano seguinte foi designado pároco de Nonoai, onde desempenhou sua missão evangelizadora com grande dedicação até 1924. Nessa época, a região norte do Estado sofria com os combates entre maragatos e chimangos e alguns padres foram duramente perseguidos.
Mesmo sem garantias de vida, padre Manuel e o coroinha Adílio, natural de Dona Francisca (RS), estavam atendendo as comunidades de colonos de Feijão Miúdo, perto de Três Passos, distante 250 quilômetros de Nonoai, quando caíram numa emboscada armada por soldados provisórios. Depois de serem agredidos, foram assassinados a tiros no dia 21 de maio de 1924. Foram sepultados no mesmo cemitério que iriam abençoar.
Em março de 1964, por determinação de dom João Hoffmann, então bispo de Frederico Westphalen, os restos mortais dos dois mártires foram exumados e, depois de percorrerem paróquias e capelas da região, foram transladados para o santuário Nossa Senhora da Luz, em Nonoai. Desde então, é celebrada anualmente a romaria penitencial ao Santuário Nossa Senhora da Luz, e aos mártires. Maior evento religioso do Alto Uruguai, a romaria é realizada sempre no terceiro domingo de maio.
Região quer que Roma marque beatificação
No dia 14 de junho de 1996 foi aberto oficialmente o processo de beatificação dos mártires padre Manuel Gomez Gonzalez e seu coroinha Adílio Daronch. Uma comissão de consultores aprovou, em 2001, a causa de martírio em nome da fé e agora só falta o Vaticano marcar a data de beatificação, destaca o reitor do santuário, padre Antônio Dal Piva.
No dia 16 de junho, dom Zeno Hastenteuffel, padre Antônio e uma comitiva da região seguem para Roma, para solicitar que o Vaticano agilize o processo. O pároco de Nonoai salienta que se forem confirmadas a beatificação e canonização dos dois mártires do Alto Uruguai, Adílio será o primeiro coroinha canonizado da Igreja Católica no mundo.
Feijão Miúdo recorda sacerdote e coroinha
Padre Manuel Gonzalez e Adílio Daronch também são reverenciados no local onde sofreram o martírio em 1924. No dia 28 de maio, a comunidade de Feijão Miúdo realiza a 13ª Romaria ao Santuário dos Mártires do Alto Uruguai. No lugar onde foram assassinados foi construído um santuário que vem atraindo cada vez mais romeiros e devotos dos dois mártires.
Fazem parte da programação a "cavalgada dos mártires", que inicia dia 23 em Nonoai e encerra no dia 28, em Feijão Miúdo; tríduo no santuário dos mártires, de 25 a 27 de maio; e moto-romaria, dia 27. No dia 28, às 8 horas, saída da romaria em frente à igreja matriz Santa Inês rumo a Feijão Miúdo e missa campal às 10 horas. A partir das 13h30, ação de graças pelas colheitas e bênção das sementes, do sal, da água e da saúde.
Aldo Colombo
Na vida, tudo é bom, mas algumas realidades são marcadas por uma bondade e uma importância maiores
No apogeu de sua vida profissional, uma psicóloga decidiu fazer uma experiência. Na entrada de sua casa, junto a uma floreira, deixou crescer uma teia de aranha. Qualquer pessoa que entrasse na elegante residência não poderia ignorar a teia de aranha. Ainda mais: convidou muitas pessoas para uma recepção em sua casa. Naturalmente, a teia de aranha foi o grande assunto.
As opiniões foram as mais abrangentes. Para alguns a teia dava um ar de modernidade à residência. Outros falavam no bom gosto, na personalidade da psicóloga... É um meio de afastar as fobias e o medo, arriscou alguém. Os mais críticos sugeriram que poderiam ser duas as teias, ou mesmo que ela se situasse num ângulo mais favorável. Não faltou alguém que planejasse algo parecido em sua residência. A psicóloga, radiante, anotava todas as observações.
Depois de algumas semanas de experiência, a psicóloga comprovou o que pretendia comprovar. E resumiu sua experiência num cartaz: quando as pessoas usam sua criatividade, sua bondade, são mais artísticas, mais positivas, mais felizes... Depois de uma semana, teve de colocar outro cartaz ao lado que dizia: por causa dessa teia de aranha, meu marido separou-se de mim.
A vida de todos é marcada por uma escala de valores. Naturalmente o valor maior ocupa o topo da escala. Depois vêm os valores com certa importância e, na base, os valores pouco importantes. Mesmo quem nunca pensou numa hierarquia de valores possui – na prática – sua escala. Há coisas muito importantes e menos importantes na vida de cada um. Nem sempre o critério é objetivo. Para uns, o valor mais importante pode ser o clube de futebol, o partido político ou a novela. Outros colocam no topo de sua escala de valores o dinheiro, o prazer, a vaidade, o prestígio, o emprego, os amigos do fim de semana! Outros ainda, com mais seriedade, optam pelo serviço e pela comunidade...
É fácil saber qual é o valor maior para alguém. É só avaliar como gasta o seu dinheiro, como emprega o seu tempo e qual é o pensamento que mais lhe ocorre. Aí está sua prioridade, seu ideal.
No portal da Bíblia, após a Criação, Deus olhou sua obra e sentiu-se realizado: viu que tudo era bom. Na vida, tudo é bom, mas algumas realidades são marcadas por uma bondade e uma importância maiores. Duas dessas realidades merecem figurar no topo de nosso projeto de vida: a família e a fé. Elas não excluem outras realidades – emprego, amigos, realizações – mas são superiores.
À medida que os anos passam, a experiência nos deve ajudar a purificar os valores. Isso significa dar menos importância a coisas sem importância e dar mais importância a coisas mais importantes. Significa, simbolicamente, deixar de lado a teia de aranha de nosso narcisismo e da superficialidade. São Paulo, no fim da vida, fez um balanço: combati o bom combate, guardei a fé, resta-me agora a recompensa do Senhor.
Florianópolis vira altar do Brasil
Cidade sedia, de 18 a 21 de maio, 15º Congresso Eucarístico Nacional
A cidade de Florianópolis espera cerca de 100 mil peregrinos e mais de 200 bispos para o 15º Congresso Eucarístico Nacional (CEN), que será realizado na capital catarinense de 18 a 21 de maio. Durante os quatro dias do evento estão previstas grandes celebrações, concentrações populares, shows artísticos e culturais, além do Congresso Teológico.
Dom Murilo Krieger, arcebispo de Florianópolis e presidente da comissão central do CEN, destaca entre os momentos fortes do congresso, as grandes celebrações no estádio Orlando Scarpelli (do Figueirense Futebol Clube) na noite de abertura (18 de maio), no sábado à noite e no encerramento (dia 21, a partir das 9 horas); o Simpósio Teológico, no Centro-Sul, para mais de três mil pessoas de todo país; a Adoração Eucarística, durante todo congresso, no Centro de Convenções; o Congresso dos Jovens, na tarde do dia 20.
O arcebispo salienta que também fazem parte do programa celebração no santuário de Santa Paulina, dia 19 (matéria abaixo); a caminhada eucarística, no dia 20, às 16h30, saindo do Centro Multiuso em direção ao Orlando Scarpelli, onde haverá show com cantores católicos às 17 horas; e a missa da juventude, às 19 horas.
Conforme dom Murilo, algo inédito em termos de congressos eucarísticos está previsto para o dia 19 à noite. Ao invés de uma grande celebração, os bispos e sacerdotes congressistas vão presidir celebrações nas paróquias da arquidiocese, com adoração do Santíssimo. "Calculamos que haverá cerca de 500 celebrações no congresso, com missa, momentos de adoração, confissão, procissão e outras", destaca o arcebispo.
O 15º CEN tem como tema "Ele está no meio de nós" e como lema "Vinde e vede!". Dom Eusébio Oscar Scheid, cardeal do Rio de Janeiro, catarinense de Joaçaba e que foi arcebispo de Florianópolis de 1991 a 2001, é o enviado do Papa Bento XVI ao 15º CEN. Ele presidirá as celebrações de abertura e encerramento do congresso, quando será dará a bênção papal aos presentes.
História – O Congresso Eucarístico é uma grande concentração de fiéis católicos, que se reúnem para louvar Jesus Cristo na Eucaristia. "É uma solene manifestação pública de nossa fé e de nosso amor a Jesus Sacramentado; um grande ato de adoração a Jesus eucarístico", diz dom Murilo. O primeiro congresso eucarístico foi celebrado em Lille (França), em 1881, por iniciativa de um grupo de leigos, apoiados por São Juliano Eymart.
Até hoje, foram realizados 48 congressos eucarísticos internacionais, o último deles em Guadalajara, no México. O Brasil sediou o 36º, em 1955 no Rio de Janeiro. Os congressos eucarísticos nacionais iniciaram em 1933, na cidade de Salvador (BA). O último ocorreu em Campinas (2001). Porto Alegre (1948) e Curitiba (1960) também já foram sedes do congresso nacional. O Papa João Paulo II esteve presente em dois – Fortaleza (CE) em 1980 e Natal (RN) em 1991. As sedes são escolhidas pelos bispos do Brasil.
Santa Catarina é terra de muitas vocações
O Estado de Santa Catarina se destaca por sua riqueza vocacional e espírito missionário. O Estado tem dez dioceses que, juntas, atendem mais de 5,4 milhões de habitantes. O clero é formado por 406 padres diocesanos e 329 sacerdotes religiosos. Conta também com 157 diáconos permanentes e 1.658 religiosos e religiosas.
Santa Catarina foi elevada a diocese em 1908. Até então estava subordinada a Curitiba. Seu primeiro bispo foi dom João Becker (1908-1912). Além de Florianópolis, são sedes diocesanas Lajes, Tubarão, Chapecó, Rio do Sul, Joinville, Caçador, Joaçaba, Criciúma e Blumenau. A presença de migrantes de diversas etnias fez surgir numerosas vocações e quatro congregações femininas nasceram em solo catarinense: as Irmãzinhas da Imaculada Conceição, fundadas por Santa Paulina (Nova Trento); as Irmãs Catequistas Franciscanas (Rodeio); as Irmãs Franciscanas do Apostolado Paroquial (Lages); e a Associação Fraternidade Esperança (Florianópolis).
Santuário de Vígolo acolhe participantes
A arquidiocese de Florianópolis conta com sete santuários, entre eles o de Santa Paulina, em Vígolo, Nova Trento, local onde a primeira santa do Brasil iniciou seu trabalho missionário. É o segundo santuário mais visitado do país, atrás apenas de Aparecida. No início do ano foi inaugurada a nova igreja do santuário. No dia 19, às 11 horas, bispos, padres e peregrinos que participam do 15º CEN terão a oportunidade de conhecer o berço da obra da santa ítalo-brasileira e celebrar solene missa no novo templo.
Wilson João
Declarações de amor, de apoio e de carinho são atitudes de grandeza que sempre agradam as pessoas
Fazer declarações de amor, declarações de gostar, declarações de apoio são atitudes de grandeza que agradam a todos. Pensei na relação filha e filho com o pai e a mãe, do aluno com o professor e a professora, do povo com o prefeito, o padre, o pastor e até a relação de cada um com as pessoas com quem se encontra e convive todo dia. Uma relação, tipo declaração de amor, que expressasse carinho e ternura com palavras. Sem medo das palavras. Sem medo de declarar-se no tu a tu. E sem medo de falar, olhos nos olhos, todos pudessem dizer:
GOSTO DE VER VOCÊ CONTENTE! Gosto de ver você feliz e de bem com a vida. Que bom estar com você! Que bom ter você por mãe, pai, professor, irmão... Eu gostaria e vou gostar de ser como você.
GOSTO DE SENTIR VOCÊ COMIGO. Você tem tempo para estar comigo. Para sentar comigo. Até penso, às vezes, que você deixa de fazer outras coisas importantes, para estar perto de mim, para conversar comigo. A gente vê todas as pessoas apressadas e ocupadas e você sabe gastar tempo para estar aqui comigo. Você é demais! Você está me ensinando a viver.
GOSTO DE PERCEBER VOCÊ SE CUIDANDO. Nem todos se cuidam. Até fico um pouco estranhando, mas vejo você lendo, meditando, estudando, cuidando de sua vida. Pouca gente faz isso. Você fala com a gente de calma, descanso, relaxamento, cuidado com a vida. Você é uma lição de quem coloca a vida acima do trabalho e da agitação social. Faz muito bem ver você assim.
GOSTO DE ESCUTAR VOCÊ. Você fala do jeito que vive. Tem muita gente que fala do que os livros dizem, do que aprenderam, do que escutaram na televisão. Você fala de sua experiência pessoal, de como você vive e enfrenta os problemas da vida. A gente percebe que você tem coração, é gente, tem uma história para contar, um sonho para realizar. A gente escuta por aí só abobrinhas, futilidades e como é gostoso ouvir falar da experiência da vida, da fé, do amor, do sucesso e do fracasso, do passado e do futuro.
GOSTO DE VER VOCÊ SENTIR O QUE SINTO. Há momentos em que eu estou alegre e de bem com a vida, e você fica feliz com isso. Vibra comigo. Há momentos em que eu estou em baixa e você como que se rebaixa comigo. Vai sentindo o que eu sinto. Se liga nos meus sentimentos e emoções. Percebe que estou carente. Vai se aproximando para me dar força. Você me entende. Você sente comigo.
TODOS NESTA SINTONIA. Todos necessitamos ser faladores e escutadores. Todos necessitamos estar perto de alguém e sentir alguém perto da gente. Todos somos carentes. Que bom ser pai, mãe, professor, padre, gerente, treinador... e escutar do pequeno povo que nos rodeia (filhos, alunos, comunidade): que bom que você é assim! Gosto de você assim!
O italiano que está em você
Carlos Mazzotti Neto
Professor, Nova Roma do Sul-RS
De cultura rural e urbana se constitui a italianidade de Carlos Mazzotti Neto.
"Nasci no povoado Fagundes Varela (Faconda), em Nova Roma do Sul -RS. Meu pai foi agricultor e industrial. Em Nova Roma, construiu um Moinho de trigo e um matadouro de suínos, cujos prédios, bem como a casa de alvenaria, próximo à rua Júlio de Castilhos, ainda existem.
Nascido em lugar suburbano, não sou nem da colônia, nem da cidade. O encontro com o escritor Darcy Loss Luzzato me fez repensar minha italianidade.
O fato de ter nascido no dia de Santa Rita de Cássia, de parto difícil, me leva a crer em coisas impossíveis, e na capacidade de enfrentá-las. Quando estava para nascer um bebê, o pai levava os menores na casa dos vizinhos. Depois do fato ocorrido, dizia que a mãe tinha ficado doente e ganharia um nenê. É que os segredos da vida deviam ser conhecidos a seu tempo.
Bem cedo, nossa família veio para Nova Roma, onde eu freqüentava a escola Pio X das Irmãs de São José, em dois turnos. Aos domingos de manhã, íamos à missa e, de tarde, ao catecismo, isto até os 12 anos. Concluído o 5º ano primário, fui a Farroupilha para cursar o ginásio no Colégio São Tiago (1953-1957, da 1ª a 4ª séries), dos Irmãos Maristas e que tinha como patrono o Pe. Thiago Bombardelli.
O contato com colegas alemães e de outras etnias, me mostrou a peculiaridade de ser italiano. Decidi buscar a cidadania italiana, como forma de resgatar e honrar a memória dos antepassados que não se naturalizaram brasileiros, bem como para, em nome deles, me sentir cidadão de duas pátrias.
Na escola primária era proibido falar o Talian, e os que o fizessem, podiam ser denunciados pelos colegas. Mais tarde, na escola onde lecionei, os colegas também execravam quem, num momento de descontração, passava a falar e contar histórias em Talian. Entre outros, minha formação constou dos cursos: Normal Experimental, em São Leopoldo, Estudos Sociais da Universidade de Passo Fundo, Licenciatura Curta e Plena e no pós-graduação em Geografia na Universidade de Caxias do Sul.
Embora fora de casa, longe do contexto de minha italianidade, enfrentando dificuldades, nunca esqueci minhas origens. Por isto participamos dos 100, 125 e 130 anos da imigração italiana, do centenário de emancipação de Antônio Prado, dos cursos de cultura e língua italiana da ACIRS, da leitura das obras de Darcy Loss Luzzato, sempre com mente, corpo e coração voltados ao ser, viver, festejar e divertir italianos. Gosto de cantar, sobretudo as canções folclóricas italianas.
A blasfêmia foi um extravasar italiano, mas está perdendo significado à medida da compreensão. Ao ler os livros do padre Antonio Galioto, que foi pároco de Antonio Prado e teve como auxiliar Frei Rovílio Costa (1962-1968), Don Giocondo, vigário dea Zanta e Deus não é estúpido, entendi que Deus nos ama com tão perfeito amor como os pais e avós italianos nos ensinaram e fizeram.
Com minha esposa Isolda, os filhos Paulo Ricardo e Vera Lúcia e os netos Tainã e Tuani, cultivamos a herança dos antepassados através da culinária, medicina alternativa, ecologia e solidariedade cristã. O fogão à lenha, aceso de manhã à noite, continua nossa estufa na temporada de inverno. Nanetto Pipetta, Stòria de Nino, Vita stória e fròtole, e os filós, as noites e festas italianas dão continuidade ao italiano que está em nós". Fone (54) 2941059).
Carlos vive, estuda e cultiva a italianidade como um todo histórico, cultural e religioso. (Rovílio Costa)
EL RITORNO DE NANETTO PIPETTA (359)
Picà su par el fer, el va zo come un s-ciantiso
Marcelino Carlos Dezen
Caxias do Sul-RS
Come el sol el zera forte, robe de brusar i servei, Mosè, Tuio, Ivo e compagnia i zera postai al ombria, che i se la contea de gusto e anca rìder dele malegràssie de Nanetto col pesse. Nanetto e Ismael i sneta la carpa a caprìssio e i la mena in cosina par esser taià e salà. Nanetto saluda la parona, la Rosa, na noneta magreta e simpàtica. Co la vede quela figura tuta moia e sporca, del rabalton, la ghe mostra na càmera parché el se scàmbie le robe.
Nanetto va fora, insieme ai altri, che i ze là che i se la conta e i ride a crepapansa.
– Sarali drio rìder del spavento che i me ga petà ntel Capoeron?
– Varda, Mosè, ghe gavemo contà tante dele stòrie de sti ani a Nanetto, ma me par che no’l crede mia massa, nò, ghe dise Tuio. Dìghelo se ze mia vera o nò!
Mosè sbassa i oci, el ride e dopo el parla:
– Se tuto quel che gavemo fato ze pecà, semo belche condanai.
Dopo un pìcolo siléncio. Mosè salta fora nantra volta:
– Te ricòrditu...
Qua bisogna far un paréntesi. Co quei là i dise "te ricòrditu", parecieve che ghen vien fora de bone e grosse. E, alora, là i ghen cava fora due tre stòrie de no creder mia, pròpio.
– Tuio, te ricòrditu de quela volta che gavemo picà Tote ntel fero de parar zo legna, faie de formento e cane de mìlio zo par el monte de Avelino Zanella, to pare?
– Cossa zèrelo sto fero? Domanda, corioso, Nanetto.
– Zera un fil de fer che se stirea zo par el monte. Se ghe metea roldane ndove se pichea su le carghe e se le molea monte in zo. In fondo ghera sempre un palon par fermar le carghe. Cari da Dio! Le veg-nea zo come un s-ciantiso e le argole fea fogo tel fer.
– E gavé picà su un omo?
– A la doménega, dopo messa, se no se ndea cassar o pescar, se inventea qualche una sempre, dise Tuio.
– Na doménega, mi, Tuio, Checo, me fradel Joaquim e Armando, cusin de Tuio, che ghe ciameimo Tote, se gavemo inventà de molar zo un par el fer. El gavea un 300 metri. Gavemo ciapà due argole e gavemo ligà Tote par le man e i pie. Dopo lo gavemo picà ntel fer. Tuti a posto, lo gavemo molà. Maria Santa!
– Sorte che insieme noantri ghe zera anca Quel la su che vardea in zo, perché senò lo gavarìimo copà seco, dise Tuio.
– Ciò, tuti là che vardeimo Tote ciapar velossità, come un s-ciantiso. Ma Dio ga fermà quela matità. Tote gavea passà la metà quando el palon, in fondo, no se sa par che miracol, se ga smolà. Col fil sbassà, Tote, poro can, zo cola schena de strìssio [raspon] in tera. Sorte che ghe zera tera arada. Tote ga verto un rego de un trenta metri. Perso camisa, sbregà le braghe e cavà via tuta la pel dela schena. Par tre mesi dormir sol de pansa in zo.
– Se no se smolea el fil, el se verdea par meso co’l batea tel palon.
– Ma vedo che ghe ze stato pi mati de mi a sto mondo, dise Nanetto.
– Mia contenti co quela, ghemo fato nantra de squasi pedo. Stirà el fil nantra volta, zo na lata piena de sassi. Gavemo postà Tuio in fondo, drio el palon, par véder la velossità che la vegnea zo e cossa la fea al bater tel palon. Molada de là de sora, la argola la fea un strisson de fogo monte in zo. Ma Tuio ze stà un poco pi furbo de Tote. Co la lata zera drio rivar, el ga saltà de banda a tempo. El palon se ga fato a tochi e i sassi i ga svolà in tute le diression.
– Ma co te digo, Mosè, che no se gavea gnente in testa! Go idea che un Àngelo Custode me ga dato un sponcion par farme saltar fora pròpio a tempo.
Là al ombria, tuti a scoltar le stòrie e le matità de Tuio e Mosè. Robe gnanca de creder, ma ze stà pròpio così. Domandeghe e i ve le conta. Ze la santa verità.
Rovílio Costa e Arlindo Battistel
El bambin e Dio
Rafael Baldissera
Professor, Curitiba-PR
Un bambin, pronto par nàsser, el ga domandà a Dio:
– I me ga dito che i me inviarà in tera doman. Come viverò là mi che son pìcolo e indefeso?
E Dio el ghe ga dito:
– Intrà tanti àngeli, go s-cielto un spessial par ti. Lu el sarà là spetàndote e el te tenderà.
– Ma dìseme – el dise el bambin – quà in celo, mi no fao altro che soríder e cantar, che’l ze sufissiente par mi èsser felisse. Sarò felisse là?
E Dio el ghe ga dito:
– El to àngelo el cantarà par ti e el te soriderà... Ogni dì e ogni istante, ti te sentirà l’amor del to àngelo e ti te sarà felisse...
E el bambin:
– Come poderò capir quando i parlerà co mi, se mi no cognosso la lìngua che le persone le parla là?
E Dio el ghe ga dito:
– Con tanta passiensa e amor el to àngelo el te insegnarà parlar.
E el bambin:
– E cossa farò quando sentirò malincolia e volerò parlar con ti?
E Dio el ghe ga rispondesto:
– El to àngelo el giuntarà le to man e el te inseg-narà pregar.
El bambin:
– Mi go scoltà dir che in tera ghe ze òmini cativi. Chi me protegerà?
Dio:
– El to àngelo el te difenderà sebenche significhe ris-ciar la so vita.
El bambin:
– Ma mi sarò sempre malincòlico parchè mi no te vederò pi.
Dio:
– El to àngelo el te parlarà sempre de mi, el te insegnarà come vègner a mi, e mi sarò sempre drento de ti.
Ghe gera tanta pase in celo, ma le ose in tera deromai se podea scoltarle...
El bambin svelto el ga domandà soavemente:
– Oh! Dio, se mi sarò pronto par ndar adesso, dìme, par gentilessa, el nome del me àngelo.
E Dio el ghe ga rispondesto:
– Ti te ciamarè el to àngelo... Mama!!!
Tradussion de testo de autor scognossesto da Rafael Baldissera, professor, Curitiba-PR.
Estado ganha mais 232 megawatts
Usina de Barra Grande opera com capacidade total de 698,25 MW
O Rio Grande do Sul ganhou mais 232,75 megawatts (MW) de energia. É que acaba de entrar em funcionamento a terceira unidade da usina hidrelétrica Barra Grande. Localizada entre os municípios de Anita Garibaldi, em SC, e Pinhal da Serra, no RS, o empreendimento já opera na capacidade total de 698,25 MW. As outras duas unidades, cada uma com 232,75 MW, iniciaram as atividades em novembro do ano passado e em fevereiro deste ano.
Segundo a Secretaria estadual de Energia, Minas e Comunicações, a obra gerou 2,8 mil empregos diretos na construção da usina. Na operação, 60 vagas permanentes foram criadas. "O investimento total da empresa Energética Barra Grande (Baesa) superou os US$ 500 milhões, concluindo uma das maiores usinas do Estado", afirma o secretário José Carlos Brack.
Flor do Sertão – A entrada em operação da terceira turbina de Barra Grande reforça o sistema elétrico gaúcho, já que a metade da sua geração é computada ao Estado. A totalidade da produção de energia, porém, ocorrerá em períodos de grande pluviosidade. "Isso porque a capacidade do reservatório é limitada, operando no sistema fio d’água", esclarece.
Com 75% das obras concluídas, a usina Flor do Sertão, que está sendo construída em Descanso e Flor do Sertão (SC), deu início à coleta de sementes e de espécies florestais. A área alagada compreende 91 hectares. Desses, 63,5 ha passarão por limpeza.
As oito cooperativas que se consorciaram para construir a Flor do Sertão querem erguer mais duas usinas: a hidrelétrica São Jorge, com 8,5 MW de potência, no rio das Antas. A outra seria no rio Burro Branco, ainda não inventariado.