
DESCOBRINDO CAMINHOS
Desde 1909, onde o conteúdo faz a diferença.
Edição 4.992 – Ano 98 – Caxias do Sul-RS, 14 de junho de 2006.
|
|
Menos desigualdade social e a violenta invasão do Congresso
Por melhores que sejam, os fins não justificam os meios
A sociedade brasileira não pôde festejar o resultado de uma pesquisa que apurou a redução da desigualdade social ao menor nível desde 1960. Trabalho realizado pela conceituada Fundação Getúlio Vargas (FGV) em parceria com a Organização das Nações Unidas (ONU) revela que, nos últimos dez anos, a renda média da população em geral caiu, mas entre os mais pobres teve crescimento.
Embora os dados construam uma situação paradoxal, a interpretação de especialistas sinaliza queda da desigualdade. O mais importante entre as conclusões do estudo é a indicação de tendência de melhora na distribuição de riquezas – como se sabe, o Brasil é um dos campões mundiais de concentração de renda, origem da grande maioria dos problemas sociais que fazem milhões de pessoas sofrer.
A boa notícia foi logo deslocada para um plano inferior pelo descalabro provocado por mais de 500 manifestantes do denominado Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST). Numa ação premeditada, o grupo invadiu o prédio do Congresso Nacional, destruiu portas de vidro, obras de arte, arremessou um carro contra uma das entradas e agrediu seguranças e outros funcionários da Casa.
Alegadamente, o MLST foi ao Congresso cobrar aceleração no processo de reforma agrária -, que, a bem da verdade, há anos segue lento, barrado por interesses políticos e econômicos, apesar de seguidas promessas de governantes. Mas a violenta invasão tirou do movimento qualquer resquício de legitimidade. Os fins não justificam os meios.
Muitos movimentos sociais se obrigam a adotar formas nada convencionais de protestos para chamar a atenção às suas causas e para tentar acordar governos e parlamentares do sono da conveniência – e da omissão. Mas para tudo deve haver um limite. Desta vez os manifestantes receberam ordem de prisão e mesmo que para 90% a cadeia tenha durado três dias, desfez-se parcialmente a sensação de impunidade.
Há, porém, um outro aspecto que precisa ser pelo menos rediscutido. O MLST vem recebendo recursos financeiros da União, comprovadamente, desde 1999. Num país cercado por deficiências no campo social, o dinheiro público não pode continuar alimentando ações violentas e ilegais.
Caxias festeja 116 anos com vigor
Município tem 414 mil habitantes e é o 2º mais importante do Estado
Tomando-se como base a população estimada pelo IBGE no ano passado e aplicando a taxa de crescimento de 2,55%, Caxias do Sul está completando 116 anos de emancipação política-administrativa com 414 mil habitantes. É o segundo mais populoso município gaúcho, perdendo apenas para a capital, Porto Alegre.
Este é apenas um dos indicadores que dimensionam a grandeza do município colonizado por imigrantes italianos, chegados à Serra gaúcha em 1875. No campo econômico, os números revelam com mais evidência ainda a pujança caxiense. Pelo último dado oficial, de 2003, o Produto Interno Bruto (PIB), por exemplo, era de US$ 3,1 bilhões. Segundo estimativa, alcançou US$ 3,5 bilhões em 2005 e projeção da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias (CIC) aponta para US$ 3,7 bilhões neste ano. Caxias representa 6% de toda a riqueza produzida no Rio Grande do Sul.
O PIB per capita, em 2003, atingiu US$ 8.232. Em 2005, foi de US$ 8,659 (R$ 19,6 mil pela cotação de sexta 9 da moeda americana). Mas o PIB per capita já passou de US$ 10 mil, em 1997, conforme estudo de Roque Luiz Klering (Análise do Desempenho dos Municípios Gaúchos).
Esse resultado é patrocinado por 28.310 empresas, quadro de 2004 fornecido pela CIC. Eram 6.630 indústrias, 10.604 estabelecimentos comerciais e 11.076 de serviços, que empregavam 123.281 trabalhadores (em abril de 2006, os empregos somavam 127.400). O bairro Rio Branco tem 1.742 empresas, mais do que boa parte dos municípios gaúchos – há outros quatro bairros com mais de 1.000 empresas cada (CIC/Secretaria da Fazenda).
É a produção industrial que fez Caxias exportar, em 2005, US$ 746,5 milhões de dólares – praticamente três vezes mais do que em 1999. Só de ICMS o município recolheu, em 2005, R$ 399,1 milhões (Fundação de Economia e Estatística (FEE)). No ano passado, a frota de veículos caxienses era de 183.730 – um para cada 2,2 habitantes -, razão da venda de 92,3 milhões de litros de gasolina, 76,2 milhões de óleo diesel e 9,3 milhões de álcool hidratado (FEE).
Nem tudo é positivo no cenário caxiense. Há demandas importantes no campo social, como as identificadas nas mais de 100 favelas que proliferam na cidade. O déficit habitacional está estimado em 10 mil unidades. Embora em índices não muito elevados, existe desemprego. E se não for investido em novo reservatório, em cinco anos o abastecimento de água tende a ficar crítico.
Destaque também na produção agrícola
Em 2005, quando Caxias tinha 404 mil habitantes (densidade demográfica de 243,5 hab/km² ), 93,9% viviam na área urbana. Embora com apenas 6,1% de população rural, em torno de 25 mil pessoas, o município é o maior produtor de hortigranjeiros do Estado.
A produção caxiense de tomate atingiu 28,7 mil toneladas em 2005 (FEE), 13,5 mil toneladas de milho, 3,7 mil toneladas de cebola, 1,6 mil de alho, 2,4 mil de laranja, 4,5 mil de pêssego e 66,3 mil toneladas de maçã. É também expressiva a participação da uva: 47.180 toneladas. Saem de Caxias, portanto, alimentos que são consumidos por grande parte dos gaúchos.
Semana alusiva à data inicia dia 14
Pela primeira vez desde que foi instituída a Semana de Caxias, em 1965, o município festeja sua principal data no dia 20 de junho – dia em que, em 1890, foi emancipado. Até 2005, era no dia 1º, em alusão à elevação, em 1910, da Vila de Caxias à categoria de cidade.
Neste ano, a Semana de Caxias vai de 14 a 20 de junho. Para marcar a data, uma programação inclui palestras, shows, exposições, campanhas, filó (dia 17, às 19h30, nos pavilhões da Festa da Uva), ações educativas e outras atividades.
FUTURO DO MEL
O Brasil reage ao embargo europeu às exportações de mel investindo em qualidade e incentivando a adoção de novas tecnologias para um setor que envolve 350 mil pessoas
A busca de um produto de alta qualidade através do incentivo a novas tecnologias, como o manejo adequado, alimentação correta para as abelhas e novas maneiras de comercializar a produção, pode determinar o futuro do mel brasileiro, ameaçado pelo embargo imposto em março pela União Européia. A UE alegou falta de controle e monitoramento de resíduos e contaminantes.
O Brasil agiu rápido à decisão do bloco econômico, que até então absorvia de 70% a 80% das exportações brasileiras de mel – cerca de 60% da produção é direcionada ao mercado externo. A rigor 10 mil toneladas de mel ficaram estocadas no país. "Os apicultores exportaram 8.000 toneladas no primeiro trimestre do ano, buscaram mercados alternativos como o Japão e os Estados Unidos e incluíram o produto na merenda escolar", diz o presidente da Confederação Brasileira de Apicultura (CBA), José Gomercindo Correa Cunha, gaúcho de Porto Alegre e presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Mel e Produtos Apícolas do Brasil (leia página 5).
Além disso, o Ministério da Agricultura, Pecuária e do Abastecimento (Mapa) incluiu o mel no Programa Nacional de Controle de Resíduos Biológicos (PNCR) e elaborou, juntamente com o setor privado, plano de ação com informações sobre as práticas produtivas e medidas que podem ser adotadas para o maior controle da qualidade, como o investimento de R$ 25 milhões na remodelação dos laboratórios nacionais. "Com isso, as vendas à União Européia devem ser retomadas em outubro, logo após a reunião da comissão que analisa o embargo, prevista para setembro próximo", adianta Cunha ao CR.
Descoberta – O Brasil começou a exportar mel depois que China e Argentina, maiores fornecedores mundiais, sofreram um embargo às vendas externas, em 2000. "O mundo então veio em busca de mel no Brasil", relata Cunha. A partir daí, as regiões Norte e Nordeste começaram a despertar para a atividade e para o potencial de produção. Mas, não havia capacidade e nem experiência para produção em escala. Os apicultores começaram a vender sem estratégia de comércio exterior. Já a região Sul vive uma situação diferente. "O Sul não se ressente da "crise" por causa da safra menor e do consumo elevado, principalmente no inverno", destaca.
De acordo com o presidente da CBA, o governo federal só descobriu a importância do mel depois de 2004, quando foram embarcadas ao exterior 20 mil toneladas do produto e o país faturou US$ 43 milhões. "Ai, o Mapa quis saber quem eram e onde estavam os apicultores brasileiros", revela.
Preparo – Ao mesmo tempo que a apicultura é uma grande saída para aumentar a renda e segurar o homem no campo, ela ainda é uma atividade complementar. "Mas, ainda há muito o que avançar", assegura Maurilo Oliveira, consultor da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, no Brasil. A avaliação do consultor é que a cadeia produtiva apícola precisa se preparar internamente e se estruturar para enfrentar as adversidades conjunturais do mercado externo.
O presidente da CBA e da Câmara Setorial aponta outras saídas para a viabilização do setor. Entre elas, estão o associativismo, a capacitação tecnológica e gerencial para melhoria da produção, aumento da produtividade e a certificação em segurança alimentar.
A cadeia produtiva da apicultura envolve cerca de 350 mil pessoas no Brasil, sendo a maioria agricultores familiares. A produção nacional é de cerca de 40 mil toneladas, levando o país ao quinto lugar no ranking de produtores mundiais. Mas, estima-se que essa produção poderia ser de até 200 mil toneladas por ano.
Baixa produtividade e alto potencial de crescimento
A produtividade brasileira é pequena quando comparada internacionalmente, o que, segundo estudo da Rede Apis/Sebrae, é "justificada pela baixa produtividade dos apiários brasileiros devido à pouca utilização tecnológica". Em média, uma colméia no Brasil produz 15 quilos de mel por ano, enquanto uma colméia da Argentina e da China têm uma produtividade de até 35 quilos e 100 quilos, respectivamente.
A pesquisa aponta que o mercado apícola brasileiro possui alto potencial de crescimento e encontra-se em fase de ascensão. Entre os pontos fortes para isso estão as características especiais da flora e o clima e o fato de a maioria dos apiários trabalharem com abelhas africanizadas, mais resistentes às pragas do que as européias. Um ponto fraco é a informalidade no setor e o baixo nível de organização.
O presidente da Associação Paulista de Apicultores, Criadores de Abelhas Melificas Européias (Apacame), Constantino Zara, acredita que a solução está na melhora das técnicas do manejo apícola e na capacitação. "Poderíamos dobrar a produção em um ano, se os apicultores melhorassem as técnicas de manejo", garante Zara.
Rede – Para Alzira Vieira, uma das coordenadoras nacionais da Rede Apis, o fato de haver apicultores iniciantes e a falta de informação sobre a produção são os principais fatores para a baixa produtividade, que deve ser combatida com capacitação e treinamento. Os 40 projetos da Rede resultam em elevação da produtividade, que é de 26,2 quilos por colméia anualmente. A meta é atingir 37,8 kg/colméia/ano. Os projetos envolvem cerca de 13 mil apicultores, em 423 municípios.
O estudo mostrou que o mel ainda é visto como medicamento e falta o hábito de consumi-lo como alimento. Além disso, os consumidores ainda acham o produto muito caro e preferem comprar diretamente do produtor como garantia de qualidade. Isso faz com que o consumo aparente de mel no Brasil, medido pela soma da produção interna mais as importações, menos as exportações, seja muito baixo frente a outros mercados.
Os dados indicam que cada brasileiro consome, por ano, apenas 60 gramas de mel. Esse consumo cresce no Sul no país, para 200 a 300 gramas por ano. Nos Estados Unidos, Alemanha e Suíça, o consumo per capita chega a 910, 960 e 1.500 gramas per capita, respectivamente, por ano. "Se o consumo per capita do brasileiro fosse de 200 gramas por ano, teria mercado suficiente para absorver toda a produção nacional", diz o apicultor de Içara (SC) Agenor Sartori Castagna.
Informalidade compromete desenvolvimento do setor
A grande informalidade do setor, os problemas burocráticos, a deficiência da infra-estrutura tecnológica e o baixo consumo do mercado nacional são as principais barreiras ao desenvolvimento sustentável e consolidado do segmento apícola. Os problemas foram revelados por uma pesquisa do Sebrae. O estudo teve o objetivo de avaliar o mercado brasileiro e identificar os gargalos do setor.
O diagnóstico constatou que, apesar da baixa produtividade de mel brasileiro, o mercado nacional possui capacidade para, no mínimo, triplicar o consumo. A região Nordeste recebe um destaque especial para produção de mel orgânico, que apresenta características especiais de flora e clima, aliadas à presença abundante da abelha africanizada.
Na avaliação da gerente do Sebrae Raissa Rossiter, um dos principais entraves à comercialização do mel no país é a falta de consumo do brasileiro. "O setor ainda não é maduro, mas é um problema que pode ser contornado com a definição de estratégias que reposicionem o mel no mercado", afirma.
Para Raissa, é preciso atrair e estimular o consumo dos produtos apícolas junto ao consumidor, "buscando novos nichos de mercado para alcançar maior rentabilidade entre o público segmentado." Entre eles, o público infantil, atletas profissionais e amadores e público empresarial.
Ações reforçam utilização como alimento
Grande fonte de energia, vitaminas e minerais, o mel ainda é pouco utilizado no país como alimento. Para ampliar a demanda pelo produto, várias ações são realizadas em todo o país, para mostrar sua importância e valor nutritivo. A inclusão do mel na merenda escolar, por exemplo, tem sido uma saída em municípios para ampliar o consumo e despertar nas crianças o interesse pelo produto.
Em Curitibanos (SC), todas as escolas públicas já utilizam o mel na merenda escolar. Com apoio do Sebrae, a Prefeitura mantém parceria com os apicultores que participam do Arranjo Produtivo Local, fornecendo mel para as escolas. A iniciativa tem agradado. "Os pais pedem para levar mais sachês de mel para casa porque, além do valor nutricional, ainda previne contra gripes", conta a diretora do Centro de Educação Infantil Doutor Alfredo Lenser, Silvia Vezaro. Desde o ano passado, as 200 crianças do colégio recebem um sachê de mel por semana. O mel é distribuído na saída da escola.
No Mato Grosso do Sul, uma lei estadual também colocou o mel no cardápio da merenda escolar. Toda a rede pública terá que incluir o produto na alimentação das crianças. No Piauí, três cidades têm lei municipal que inclui o produto na merenda dos alunos.
País ganha Câmara no Dia do Apicultor
No Dia do Apicultor, em 22 de maio, foi instalada a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Mel e Produtos Apícolas no Brasil. A Câmara é um órgão consultivo do governo federal, com representantes de toda a cadeia produtiva e do setor público, encarregado de apresentar propostas de políticas públicas para o setor.
Comandada pelo presidente da Federação Apícola do RS e da CBA José Gomercindo Correa da Cunha, a Câmara foi instalada durante o Congresso Brasileiro de Apicultura, em Aracaju, realizado de 22 a 25 de maio. "A primeira reunião será de 3 a 5 de julho, em Brasília, e vamos traçar as ações até 2008", informa Cunha.
Para o presidente da Confederação Brasileira de Apicultura (CBA), o Ministério da Agricultura tem que ter um departamento específico para tratar das políticas de fiscalização do mel. "A Câmara será o espaço de negociação dessas demandas", diz.
Segundo o presidente da CBA, a apicultura brasileira precisa de maior profissionalização e, para isso, é necessário maior controle de qualidade. "É preciso trabalhar a qualidade, a capacidade de produção e a profissionalização", afirma.
Investimento e eficiência atraem o mundo do leite
RS sediará o maior congresso da América para o setor leiteiro
O Rio Grande do Sul vai receber o mundo do leite no Congresso Pan-Americano do Leite. O evento será realizado de 20 a 23 de junho, no Centro de Eventos da Fiergs, em Porto Alegre. Organizado pela Embrapa Gado de Leite e pela Associação Gaúcha de Laticinistas, deve contar com a participação de 1.500 pessoas de 44 países para discutir os principais assuntos da cadeia produtiva.
O Estado tem bons motivos para sediar o maior evento do gênero na América Latina. Em razão dos investimentos atraídos nos últimos meses com os anúncios de instalação das empresas Nestlé, Embaré e CCGL, além da ampliação da Elegê e Cosulati, o RS vai processar mais de quatro milhões de litros de leite por dia.
Para o diretor da Embrapa Leite, Paulo do Carmo Martins, o encontro servirá para mostrar como o brasileiro produz com eficiência e qualidade, principalmente no Estado, onde o setor está em ascensão. "Nada melhor do que trazer para o RS esse encontro de produtores de todo o mundo. O Estado vem crescendo e tem produção modelar para o Brasil", disse.
O RS possui a segunda maior bacia leiteira e o rebanho com a melhor produtividade do país. O Brasil ocupa a sexta posição no mundo com uma produção de 25 milhões de litros de leite por dia.
Agroshow em julho
Nova Petrópolis sediará, de 12 a 16 de julho, a 3ª edição do Agroshow – Negócios e Tecnologia, que este ano tem como tema a "Valorização da agricultura familiar". Durante os cinco dias, 150 expositores estarão apresentando ao público produções e processos produtivos de insumos, equipamentos, máquinas e eventos de transferência de tecnologias.
O evento é promoção da Cooperativa Piá, Prefeitura, Emater, Cooperativa Sicredi Pioneira RS. Informações: (54) 3281-8800 e agroshow@pia.com.br
Suinofest exibe carne
Um encontro gastronômico onde o suíno é a base de todos os pratos, e a equipe da Emater/RS ensinará o aproveitamento da carne suína. Essa é a Suinofest, que se realiza em Encantado e prossegue até o próximo dia 18.
A Suinofest é promoção da Associação Comercial e Industrial de Encantado, com o apoio da Prefeitura. O evento pretende reunir, além dos apreciadores da carne suína, produtores e investidores, com o objetivo de promover o consumo e a integração daqueles que apostam no suíno como fonte de renda.
Embrapa lança soja mais tolerante à seca
Uma variedade de soja mais tolerante à seca. Essa é a novidade anunciada pela Embrapa em parceria com o Jircas (instituto de pesquisa do governo japonês). É uma planta geneticamente modificada, que recebeu um gene chamado "derb" da Arabidopsis thaliana (erva daninha nativa dos EUA).
O derb consegue acelerar a codificação de uma proteína que aciona os genes de defesa das estruturas celulares da planta em casos de estiagem prolongada. Quando há estresse na planta ocasionado pela falta de água, a soja aborta as flores e a formação das vagens. Geralmente, esse processo do aborto ocorre a cada cinco ou sete dias sem chuva e quando a umidade do solo está baixa. Essa variedade consegue ampliar a tolerância da planta para até 20 dias.
"Até 2010 esta será a variedade de soja tolerante à seca mais importante do mundo", salienta o coordenador do projeto Alexandre Nepomuceno.
Engº. Agrº. José Zugno
Galhas nos ingazeiros
Nas amostras de ingá que remeti apareceu "doença esquisita", desconhecida. Tenho observado a presença de um besouro preto de pintas e traços transversais amarelos. Suponho que a fêmea deposite os ovos nas folhas jovens de brotação, que desenvolvem as larvas, que comem as folhas e produzem as deformações.
Em outra planta observei a presença de lagartas peludas amarelas que podem ser as causadoras da doença. Constatei também em certas vagens a presença de brocas, bichinhos duros que danificam até as sementes. Desejo receber informações a respeito desses males e também a maneira de combatê-los sem a necessidade de arrancar todas as árvores.
ROSÂNGELA MIOSSO
Caçador-SC
A amostra nº 1 está perfeita, nas folhas e ramos. As amostras 2 e 3 é que apresentam a "doença esquisita", hipertrofia de tecidos com formas diferentes, revelando não ter sido provocada por uma só espécie de causador. Essas "doenças esquisitas" são conhecidas como "galhas". Cientificamente têm o nome de "cecídias" e os causadores são os "galhadores" ou "cecidógenos". A definição de galhas já foi dita, mas a repetimos: "Desenvolvimento anormal de tecidos da planta pela irritação da mesma com as secreções de certos insetos" ou de outros organismos como bactérias, fungos, ácaros, vermes, mas sem dúvida são os insetos os principais causadores de galhas, pois são eles que transmitem bactérias e esporos de fungos.
Os insetos galhadores (ou galhíferos) são, principalmente, os sugadores-pungitivos e os mastigadores britadores, e pertencem às seguintes ordens:
Homoptera, que compreende as cigarrinhas, os afídios (pulgões) e coccídeos (cochonilhas), cujos machos são alados e as fêmeas imóveis;
Hymenoptera: formigas, vespas, marimbondos, mamangavas, abelhas; Lepidoptera: borboletas e mariposas; Coleóptera: besouros, cascudos, gorgulhos etc; Diptera: moscas, mosquitos, pernilongos, borrachudos, varejeiras etc.
As larvas desses insetos são, em geral, mastigadoras, muito devoradoras.
As partes da planta mais visadas pelos galhadores são as zonas de crescimento, brotos e folhas novas, botões de flores, ramos terminais, pois estas zonas, denominadas "meristemas", são caracterizadas por suas células pequenas, com grande capacidade de multiplicação. Também as raízes, que têm zonas meristemáticas, estão sujeitas às galhas. Nos troncos e galhos fortes são mais raras.
As hipertrofias resultam dos efeitos químicos da saliva do inseto, das secreções renais e das secreções das glândulas genitais femininas. Um exemplo: a fêmea de um inseto galhador põe os ovos em locais próprios. Do ovo nasce a larva que se instala numa zona de crescimento. Mastigadora e voraz, a larva passa a alimentar-se dos tecidos da planta e estimular a multiplicação celular iniciando-se a formação da galha. A larva, por suas secreções, tem a capacidade de digerir os tecidos do interior da galha. Vai crescendo e transformando-se. A galha é abrigo e fonte de alimento para o inseto que sai dela no estado adulto.
A prezada leitora observou a presença de um coleóptero (besouro) e suspeitou que a fêmea depositasse os ovos nas brotações da planta cujas larvas produziam as galhas. A observação é correta. O que pode não ser certo é concluir que os besouros sejam os responsáveis pela deformação nas plantas. Da mesma forma com relação à lagarta peluda amarela, como responsável pela formação das galhas.
Métodos de combate – para a organização de um plano de combate às galhas duas condições são necessárias: conhecimento exato dos causadores das galhas e conhecimento da extensão das áreas atingidas. Não tendo estes conhecimentos não é possível indicar meio de combate às deformações. Estou, neste caso, impossibilitado de recomendar forma de combate às galhas. Seria imprudência aconselhar o uso de um inseticida sistêmico de grande poder sobre todo tipo de galhadores, por ser produto muito tóxico, caro, que exige cuidadoso manuseio e conservação. A recomendação é procurar o contato com os técnicos da extensão rural que, examinando o problema "in loco", terão condições de indicar um método correto de combate, ou de intermediar o contato com os órgãos especializados de SC.
Os endereços são os seguintes:
Cidasc
Rua Alcides Tombini, 33 – bairro Sorgatto, Cep 89500-000, Caçador-SC
Telefone: (49) 35630458 / 35630145 / 35634493
e-mail: cacador@cidasc.sc.gov.br
Epagri
Também de Caçador. Caixa postal 591.
Telefone: (49) 3647-3055.
Secretaria da Agricultura e de Desenvolvimento Rural
Rod. Admar Gonzaga, 1.486. Caixa postal 436, Itacorubi,
Cep 88034-001, Florianópolis-SC
Frutas e verduras chegam à mesa com agrotóxicos
Em excesso, essas substâncias causam câncer e infertilidade
Atualmente, 16% das frutas e verduras chegam à mesa dos brasileiros com algum resíduo de agrotóxicos, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Em 83,4% dos casos de irregularidades o problema é o uso de veneno não autorizado. O restante, 16,6%, são produtos com resíduos acima do limite permitido.
Segundo os pesquisadores da Anvisa, câncer, infertilidade e complicações no sistema nervoso são as principais conseqüências do consumo de agrotóxicos acima do índice tolerado. Os problemas de saúde causados por essas substâncias são de efeito crônico, ou seja, ninguém fica mal de uma hora para outra, mas as pessoas podem desenvolver sérios problemas ao longo dos anos. Normalmente, os males aparecem em pessoas de idade avançada, por isso a dificuldade em relacionar essas doenças com a ingestão excessiva de resíduos de agrotóxicos.
A infertilidade humana pode estar ligada aos efeitos dos venenos agrícolas no organismo porque eles interferem nos hormônios. Pesquisas da Fundação Oswaldo Cruz indicam que no homem, por exemplo, há uma tendência de queda na quantidade e na qualidade dos espermatozóides. Outros estudos apontam que quem manuseia ou consome essas substâncias em excesso ou algum tipo não permitido está sujeito a câncer de próstata, de testículos, de mama, de ovário e de tireóide.
Os riscos são cumulativos e, em alguns casos, ainda desconhecidos, por isso a importância de aumentar a fiscalização. Pensando nisso, a Anvisa vai elevar de 1.500 para 10.000, em dois anos, o número de análises para detectar a presença de agrotóxicos proibidos ou o excesso dessas substâncias em frutas e verduras. O assunto foi discutido recentemente, no último encontro do Comitê de Resíduos de Pesticidas da Organização das Nações Unidas.
Dos alimentos avaliados pela Anvisa, morango, cenoura, alface e tomate lideram a lista dos que mais contêm agrotóxicos proibidos ou concentram níveis acima do permitido. Além dessas, outras cinco culturas são analisadas em 16 Estados desde 2001: banana, batata, laranja, maçã e mamão. O morango, todos os anos, aparece à frente, com os maiores percentuais de produtos com agrotóxicos não permitidos ou em excesso. Conforme a Anvisa, por ano, 46,6% dos morangos avaliados estão contaminados.
Tomate é o caso mais preocupante
Dos itens que lideram o ranking de contaminação, três são consumidos em larga escala no Brasil: alface, tomate e cenoura. Com base nas avaliações anuais da Anvisa, a pior situação é a do tomate. O percentual médio anual de amostras com irregularidades é de 11,3%.
O agrotóxico utilizado no tomate penetra na polpa e é eliminado com o tempo. Há um ano, a Universidade de Caxias do Sul (UCS) realizou pesquisa envolvendo a cadeia produtiva do tomate. Segundo Mirian Salvador, coordenadora do Laboratório de Análises e Pesquisas em Alimentos, quando as regras são respeitadas, não há prejuízo à saúde. "Segundo as análises, quando o produtor usa o veneno indicado, na concentração correta, respeita o número de aplicações e o tempo de colheita, não sobram resíduos no alimento, mas essa não é a realidade em Caxias do Sul", afirma Mirian.
Consumo de hortaliças é baixo no país
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o consumo inadequado de frutas e hortaliças é um dos cinco principais fatores envolvidos na ocorrência de doenças em todo o mundo. Esses alimentos são importantes para a composição de uma dieta saudável, já que apresentam uma densidade energética baixa e são ricos em micronutrientes, fibras e outros elementos fundamentais ao organismo.
Há evidências de que a ingestão de frutas e hortaliças reduz o risco de doenças cardiovasculares e de alguns tipos de câncer. Apesar disso, o consumo desses alimentos no Brasil ainda é baixo. É o que mostra um estudo feito por Patrícia Jaime e Carlos Augusto Monteiro, da Universidade de São Paulo, que se baseou nos dados da Pesquisa Mundial de Saúde, realizada no Brasil pela Fundação Oswaldo Cruz.
Segundo a pesquisa, menos da metade (41,0%) dos indivíduos adultos relataram o consumo diário de frutas, enquanto menos de um terço (30,0%) referiu o consumo de hortaliças diariamente. Eles verificaram também que a ingestão desses alimentos é maior nas áreas urbanas do que nas zonas rurais e aumenta com a idade e com a escolaridade das pessoas, assim como com o número de bens no domicílio, em ambos os sexos.
"Nosso estudo mostrou que apenas uma minoria da população adulta brasileira, ou seja, 13%, segue as recomendações nutricionais de ingestão de frutas e hortaliças, colocando o país em uma situação desfavorável", afirmam os pesquisadores. Eles alertam para a necessidade de ações que informem corretamente a população sobre a importância do consumo desses alimentos para a saúde, já que a ingestão de frutas e hortaliças corresponde a aproximadamente um terço do que é recomendado pela Organização Mundial de Saúde".
O objetivo do trabalho era estimar a freqüência e a distribuição do consumo de frutas e hortaliças e analisar a influência das variáveis demográficas e sócio-econômicas na determinação do padrão de consumo desses alimentos. O estudo foi conduzido entre janeiro e setembro de 2003 e contou com uma amostra de 5 mil pessoas com 18 anos de idade ou mais.
O silêncio de Deus 60 anos depois
Maria Clara Lucchetti Bingemer
Enquanto os carrascos gritam e dão ordens, Deus se cala. Seu silêncio, porém, não é de tolerância, mas de amor compadecido e solidário
O papa alemão olhou, recordou, chorou e rezou. Diante do museu do horror, onde mais de um milhão de vidas foram ceifadas, conseguiu experimentar apenas perplexidade, terror e humilhação. Bento XVI, em visita à Polônia, não se esquivou de cruzar o portão da morte que levava ao principal campo de concentração do III Reich, palco das maiores atrocidades hitleristas.
Não realizou sua peregrinação apenas como Papa, mas – em suas próprias palavras – como um "filho da Alemanha". Levava sobre os ombros, ainda que revestidos com as vestes brancas do Pontificado, todo o sangue por cujo derramamento uma parte de seu povo foi responsável.
Contemplando as câmaras de gás, os trens da morte, o cenário onde ainda paira o tom mortífero da "solução final" hitlerista, Bento XVI fez seu mais emocionante e emocionado discurso desde que foi eleito Papa, em abril de 2005. Discurso atravessado de perplexidade, estupefação e não entendimento. Discurso todo ele feito pergunta angustiada lançada à face de Deus: "Por que o silêncio de Deus diante daquele extermínio programado? Por que, Senhor, permaneceste em silêncio?"
Muitos, à semelhança do Papa Bento XVI, fizeram semelhante pergunta após a Segunda Guerra Mundial, quando a Europa e todo o Ocidente gemiam humilhados diante dos escombros de uma raça e da própria humanidade. Hans Jonas, eminente cientista alemão, não deixou de fazê-la. Jurgen Moltmann, talvez o maior teólogo cristão vivo nos dias de hoje, também a fez. Elie Wiesel, escritor judeu que foi vítima do nazismo, escapando vivo por milagre de Auschwitz, repetiu a pergunta ao assistir à agonia interminável de um adolescente que não conseguia morrer na forca por não ter peso suficiente para que a corda partisse sua espinha e lhe trouxesse o alívio da morte.
Em seu livro "Noite", Elie Wiesel diz que, contemplando a agonia do menino, ouvia a voz de alguém que, atrás de si, sufocado por semelhante espetáculo, perguntava sussurrando: "Onde está Deus?" E ele diz ter ouvido em seu coração a resposta: "Está ali, pendurado na forca". A chamada de atenção de Bento XVI para o silêncio de Deus diante da violência e do assassinato implacável traz, portanto, a impostação correta para a posição que o mesmo Deus toma diante da violência e do mal. Deus silencia porque se encontra junto às vítimas, não aos carrascos. Enquanto as vítimas são silenciadas pelo terror, pela tortura, pela morte, Deus não pode falar. Reduzido à impotência do amor compassivo e solidário, pode somente calar-se com elas. Enquanto os carrascos gritam e dão ordens, Deus se cala.
Seu silêncio, porém, não é de tolerância, mas de amor compadecido e solidário. Amor que tudo pode, mas que não pode reagir à violência com violência igual ou maior. Amor que tudo pode, mas não pôde impedir o holocausto de seis milhões de judeus na Segunda Guerra. Amor que tudo pode, mas não pôde impedir que o próprio Filho morresse crucificado. E segue sem poder impedir que a Paixão de Jesus Cristo continue acontecendo hoje em Abu Graib, em Guantanamo, nos presídios de São Paulo, nas favelas cariocas. Reduzido à impotência e ao silêncio pelo amor que é sua identidade mesma, Deus se cala. E o ser humano não compreende e o interpela: Por quê?
Ontem como hoje a aparente e silenciosa cumplicidade de Deus com a injustiça, a violência e a matança dos inocentes espanta a humanidade. Bento XVI, sem deixar de espantar-se igualmente, buscou um sentido para o silêncio divino e fez dele o conteúdo de seu discurso quando da visita ao campo de extermínio. Diante do silêncio de Deus que se fez sentir enquanto o holocausto era perpetrado, o Papa declarou ser quase impossível falar neste "lugar de horror", especialmente como um papa alemão.
Porém, mais importante do que essa comunhão com o silêncio divino, foi o sentido para ela encontrado por Bento XVI: tornar nosso silêncio súplica por perdão e reconciliação, em pedido para que Deus nunca mais deixe tal coisa acontecer novamente.
Diante do lugar da morte, o Papa relembrou que o desejo de Deus para a humanidade é a vida. Mas apenas depois de ter assumido, em nome do povo alemão que é o seu, a responsabilidade pelo que ali aconteceu. O silêncio de Deus e o silêncio do Papa, 60 anos depois do holocausto, se somaram para fazer memória do passado e abrir caminho para um futuro feito de paz e reconciliação.
Frei Betto
Diante de tanta injustiça, não é o silêncio de Deus que deveria nos incomodar, e sim a nossa desmotivação para combatê-la e construir "outro mundo possível"
Em visita a Auschwitz, o Papa Bento XVI fez uma prece que surpreendeu a muitos: "Onde estava Deus naqueles dias? Por que ficou em silêncio? Como pôde permitir esse massacre sem fim, esse triunfo do mal?"
Esta foi a oração de Jesus na cruz: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Mateus 27, 46), fazendo eco ao Salmo 22: "Meu Deus, eu grito de dia e não me respondes; de noite, e nunca tenho descanso."
Nem sempre a nossa oração é de súplica, gratidão ou louvor. Há momentos em que o silêncio de Deus nos incomoda, sobretudo diante do mal praticado e da impunidade. Talvez Ele esteja sugerindo, com esse silêncio, caber a nós reparar a injustiça e evitar o mal. Deus é pai, mas não paternalista. "Onde estavam vocês, homens e mulheres de bem, naqueles dias? Por que se omitiram?"
A religião não é para ser crida, é para ser vivida. Mais vale fazer do que crer. Amar ao próximo do que prestar culto a Deus. Mas quem, hoje, prescinde de religião? Como celebrar momentos fortes da vida – nascimento, casamento, morte – sem recorrer a ritos e símbolos religiosos?
Muitos já não buscam a libertação social e política, devido ao ocaso das ideologias progressistas, embora sonhem com um mundo melhor. Agora a libertação cede lugar à salvação. A utopia – situada no futuro da história – é suplantada pela experiência imediata do sagrado.
As instituições tópicas da modernidade estão em crise, como a família monogâmica, a escola e a Igreja. Nunca Protágoras esteve tão em moda como nesse primórdio da pós-modernidade. Também quanto à religião os fiéis querem ser a medida de todas as coisas. Rejeitam os canais institucionais de mediação com o divino. Olham desconfiados para instituições aferradas ao equívoco histórico de que sempre coincidem autoridade e verdade.
Daí o êxodo de fiéis das igrejas históricas às variadas manifestações esotéricas. Não estão à procura de doutrina, mas de alívio e soluções a seus problemas existenciais. Não buscam mandamentos, e sim consolos. Não querem o perdão, mas explicação para suas angústias e dificuldades. À promessa de salvação pós-morte preferem o guru capaz de premonição frente ao futuro imediato. Ficarei curado da doença? Meu filho largará as drogas? O amado retornará aos meus braços? Há videntes que garantem, em seus anúncios, a volta em três dias do amor perdido ou a devolução do dinheiro da consulta...
Nas grandes cidades há muita insegurança. O ritmo da vida se acelerou e não bastam pão e pouso para ser feliz. O nível de exigência inclui riqueza, fama e beleza (sobretudo magreza). O ser robótico esculpido pela mídia acentua a baixa auto-estima. Como posso me sentir feliz se tenho dívidas, sou anônimo, desprovido de beleza física e não consigo me conter diante de um caldeirão de gorduras saturadas e uma travessa de doces? Como me sentir bem se estou ameaçado pelo desemprego? E se a política não me dá respostas e as ideologias se calam, onde buscar refúgio senão no esoterismo religioso? Como resistir ao pastor que me promete prosperidade em troca de uma vida menos desregrada e o dízimo pago em dia? Como não se sentir atraído pelo padre que me insere entre os eleitos do Espírito Santo e me faz falar em línguas estranhas?
As igrejas históricas se dividem entre as que ainda não se urbanizaram e insistem nos mesmos arcaicos métodos paroquiais, sem recursos para evangelizar a juventude, os setores profissionais, os movimentos sociais, e aquelas que, atualizadas pela mídia televisiva, "privatizam" a fé, reduzida a um meio de consolo pessoal e identificação do fiel com a sua igreja. Toda a dimensão social encontrada no Evangelho – o compromisso de Jesus com os mais pobres, a crítica aos opressores e vendilhões do Templo, o amor ao próximo que reconhece nos famintos a própria face do Cristo – é ignorada. Assim, a religião exerce, de um lado, o papel de legitimadora da desordem vigente na sociedade e, de outro, induz ao fundamentalismo que acredita na partidarização política da Igreja como única forma de salvar a sociedade...
Evangelizar, hoje, é resgatar os métodos adotados por Jesus: antes de proferir o discurso moralista, oferecer o absoluto de Deus, como fez ele à samaritana; antes de exigir adesão à doutrina, propor a opção pelos pobres, como disse ao homem rico; antes de realçar a sacralidade das instituições religiosas, acentuar o ser humano, em especial o faminto, o enfermo e o oprimido, como templos vivos de Deus. E anunciar o Deus do amor e do perdão, e não do juízo e da condenação; o Deus da alegria, não da tristeza; Deus como pão da vida, e não cruz a ser carregada neste vale de lágrimas...
Jung demonstrou como Jesus está presente no inconsciente coletivo do Ocidente. O que explica o sucesso do Código Da Vinci que, supostamente, esclarece a "história da vida privada" de Jesus. Essa tendência à privatização de todos os aspectos da vida, comprovada pelo êxito de publicações que aparentemente fazem o leitor penetrar na intimidade de celebridades, é uma das características da filosofia neoliberal que respiramos em tempos de unipolaridade do capitalismo. Esse voyeurismo exacerbado neutraliza nosso potencial de transformar a sociedade e resgatar a nossa auto-estima como seres ontologicamente políticos, como observou Aristóteles.
Diante da tanta injustiça, não é o silêncio de Deus que deveria nos incomodar, e sim a nossa desmotivação para combatê-la e construir o "outro mundo possível".
Desigualdade atinge menor nível em 40 anos
Renda do brasileiro, que no total caiu, cresceu entre os pobres
A desigualdade social atingiu o menor nível desde o Censo realizado em 1960. Essa é uma das conclusões de pesquisa inédita produzida pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em parceria com a Organização das Nações Unidas (ONU). O estudo, feito com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad – IBGE), com dados de 2004, indica que o país vem avançando desde o início da década na redução das desigualdades entre pobres e ricos.
O levantamento aponta que, em 2004, a renda média do brasileiro cresceu 3,6%, enquanto a renda dos mais pobres chegou a crescer 14,1%. Indica, ainda, que, no período de 2001 a 2004 a renda total do brasileiro caiu 1,35% ao ano, enquanto entre as classes menos favorecidas a renda cresceu 3,07%.
Paradoxo – A pesquisa da Fundação Getúlio Vargas revela que a queda da desigualdade ocorrida em 2004 dá seqüência a uma tendência de melhora na distribuição de renda que ocorre desde 2001. "A última Pnad mostra que o bolo se tornou mais bem distribuído. Mas nos últimos dez anos o crescimento da renda para o total da população deu ‘bolo’ nos brasileiros. O grosso do bolo cai, mas o bolo dos pobres cresce", explica o professor Marcelo Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais da FGV.
Neri identifica uma situação paradoxal: neste período, em média, a renda da população brasileira, como um todo, caiu 0,63% ao ano; já o rendimento da camada mais pobre chegou a crescer 0,73% per capita – ou seja: já descontado o crescimento populacional. "É como se os pobres vivessem na China, país com elevadas taxas de crescimento econômico, e o resto dos brasileiros continuasse morando em um país cuja economia se encontra estagnada – e a renda em queda".
O economista atribui o crescimento entre as classes mais pobres da população às políticas sociais desenvolvidas pelo governo. Neri destaca a contribuição da Previdência Social e de programas de distribuição de renda. E diz acreditar que, se a década de 90 ficou marcada pela erradicação dos índices crônicos de inflação e pela conquista da universalização do ensino fundamental, a década atual é a da redução da desigualdade. A redução é gradativa, mas para um país onde a desigualdade de renda só se agravou nos últimos 30 anos...
Congresso vira palco de violência e destruição
Um automóvel que estava em exposição na entrada do Congresso Nacional foi virado de cabeça para baixo. A cena expõe o nível de violência dos mais de 500 manifestantes que invadiram na terça 6 a Câmara dos Deputados, em Brasília. "Enquanto não expulsarmos os ladrões, e eles são muito organizados, isso vai acontecer". A avaliação é do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), refere-se aos deputados envolvidos em escândalos e identifica o motivo da indignação do brasileiro.
A relação entre o fato e a interpretação é inevitável. Mas o grupo que invadiu o Congresso foi movido, alegadamente, por outra causa: cobrar agilidade no processo de reforma agrária, promessa de governantes que esbarra em interesses políticos e econômicos há anos.
O grupo do Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST), dissidência do MST, invadiu a Câmara numa ação premeditada e promoveu quebra-quebra, ferindo 26 pessoas, a maioria delas seguranças. Também quebrou vidros, computadores, obras de arte... Prejuízo estimado: R$ 100 mil.
O tumulto durou cerca de uma hora. Após conversarem com deputados, as lideranças entregaram reivindicações aos presidentes da Câmara e do Senado. Na seqüência, os manifestantes receberam ordem de prisão. 469 ficaram na cadeia até sexta 9; 42 lideranças permaneceram presas.
CPI dos Bingos pede o indiciamento de 79
Relatório final da CPI dos Bingos, apresentado na quinta 8 depois de 11 meses de trabalho, aponta a existência de um esquema de corrupção montado por pessoas próximas do presidente Lula e pede ao Ministério Público o indiciamento de 79 pessoas, entre elas o ex-ministro Antônio Palocci e o presidente do Sebrae Paulo Okamotto. Palocci é acusado de cinco crimes, entre eles o de comandar esquema de caixa 2 em Ribeirão Preto e a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa.
O documento do relator senador Gabriel Alves (PMDB-RN), que cita Lula três vezes, porém sem envolvê-lo em denúncias, desagradou situação e oposição. Os governistas querem a retirada dos nomes de Palocci e Okamotto; os oposicionistas cobram a inclusão do ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu e do chefe de gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho.
TSE muda legislação, gera confusão e recua
Dois dias após ter decidido radicalizar a verticalização, impedindo que partidos fizessem alianças nos Estados diferentes das do plano nacional, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) voltou atrás e manteve as mesmas regras da eleição de 2002. Com elas, os partidos que não tiverem candidato à presidência da República poderão se coligar livremente, de acordo com suas conveniências, com outras siglas nos Estados. A mudança, anunciada a pouco mais de 20 dias do fim do prazo das convenções para definir candidatos e a menos de quatro meses do pleito, provocaria uma confusa reviravolta. O recuo do TSE (por sete votos a zero) foi prudente. A tendência é de que não haverá mais alterações, mas o TSE tem ainda 11 consultas pendentes sobre as regras da verticalização.
A ALEGRIA DO FUTEBOL
Primeiros jogos na Alemanha mostram a empolgação de torcedores de todos os continentes, que desfilam por estádios e pelas ruas da sede da Copa do Mundo com as suas fantasias criativas e espalhafatosas
Os temidos hooligans bebem e se divertem pelas ruas de Frankfurt, embalados pela vitória da seleção inglesa na estréia, contra o Paraguai – mas sem violência; os ameaçadores neonazistas circulam, porém sob rígido controle; o exotismo africano desfila descontraído, alterando o cenário normalmente calmo; o rosto das iranianas finalmente aparece; o otimismo dos alemães aflora em cada esquina; o colorido no corpo e nas roupas de holandeses, portugueses, italianos, franceses... contrasta com o clima tradicionalmente sisudo do país; as fantasias se multiplicam, tão criativas quanto espalhafatosas.
A Copa do Mundo, a julgar pelos primeiros quatro dias de disputas, transformou a Alemanha num grande palco de festa. Pequenos exageros existem, e até podem crescer com o avanço da competição e a frustração de resultados. Mas o começo tem a marca da alegria das torcidas – e isso que o Brasil só entraria em campo na terça 13, contra a Croácia.
A ordem não aflora espontaneamente. Há um rigoroso esquema de segurança que envolve dezenas de milhares de policiais alemães e de outros países – como ingleses, que acompanham os hooligans; agentes da CIA, que protegem os norte-americanos. Estrategicamente, o número exato nunca foi divulgado. Mas eles são muitos. E precisam ser para controlar multidões como a reunida no estádio de Munique, na abertura da 18ª Copa, sexta 9. Mais de 60 mil pessoas assistiram a um espetáculo que teve como astros 158 ex-jogadores campeões mundiais, com destaque para Pelé.
A cerimônia enalteceu a cultura local, mas não esqueceu temas globalizados. E foi transmitida para o mundo com um show de tecnologia. Mas a apoteose começou quando a bola rolou no jogo de abertura, com vitória da Alemanha (leia ao lado), o que disseminou a euforia da torcida anfitriã.
Há motivos de sobra para o esforço de atletas no campo. Existem rivalidades políticas – Irã e Estados Unidos seria um confronto que teria mais seguranças que público no estádio -, disputa entre colonizadores e colonizados – como no jogo de Portugal contra Angola -, de países desenvolvidos contra nações pobres (Suécia X Trinidad e Tobago, EUA X Gana...), mas essas diferenças parecem sucumbir quando a bola rola.
As câmaras que geram imagens para um público que deve atingir 32 bilhões de espectadores nos 64 jogos, através de 300 canais de TV e milhares de profissionais – só brasileiros há mais de 500 jornalistas -, registraram nas 11 primeiras partidas apenas empolgação de aficionados pelo futebol. Um exemplo do esporte patrocinado por torcedores que deveria ser estendido para todo o mundo. Que seja assim até o final da Copa – e, mesmo que possa ser considerado impossível, depois também.
Seleções consideradas candidatas vencem, mas nenhuma impressiona
As 11 partidas realizadas por seleções de seis dos oito grupos do Mundial 2006 – até o fechamento da edição, na segunda à tarde, não tinham estreado algumas das melhores seleções do mundial, como Brasil, França e Espanha – apresentaram resultados previsíveis. Todas as seleções candidatas ao título venceram, mas poucas empolgaram.
A Alemanha fez uma boa partida de abertura da competição, mas a goleada de 4 a 2, a maior até o momento, não reflete uma incontestável superioridade alemã. Os anfitriões da Copa fizeram apenas o dever de casa. Holanda, Argentina, Inglaterra, Itália e República Tcheca venceram na primeira rodada, mas apresentaram um futebol apenas regular.
Entre os resultados mais surpreendentes, o empate da Suécia com a estreante Trinidad e Tobago (0 a 0) é considerado a primeira zebra da Copa. O tropeço sueco comprometeu seriamente suas possibilidades de classificação para a próxima fase. Costa do Marfim, também pela primeira vez participando de um Mundial, foi uma das agradáveis surpresas, apesar da derrota para a Argentina por 2 a 1. Portugal, Inglaterra e México garantiram três pontos em suas estréias, mas mostraram um futebol muito abaixo do esperado.
Dos dois adversários do Brasil na primeira fase – Japão e Austrália – que abriram os jogos do Grupo F, a derrota japonesa por 3 a 1 foi até certo ponto inesperada, pois havia grandes expectativas em relação à seleção treinada pelo brasileiro Zico, que apesar de ter sido um dos melhores jogadores brasileiros da história, nunca conquistou uma Copa do Mundo.
Na primeira fase da Copa é bastante normal que as melhores seleções não mostrem tanta empolgação, joguem com cautela e não apresentem seu melhor futebol. Afinal, classificam-se dois de cada grupo e até uma derrota, nessa fase, pode não comprometer a passagem para a fase seguinte. Mas a partir das oitavas-de-final, ninguém pode se dar ao luxo de um vacilo, pois os jogos são eliminatórios até a grande final. Quem perde dá adeus à Copa e em caso de empate haverá prorrogação e a imprevisível disputa de pênaltis.
Cresce a prática religiosa na China
Mesmo entre o PCC, um terço de seus membros segue alguma religião
A Igreja Católica na China, apesar das restrições e do controle impostos pelo regime comunista e até das perseguições, no caso da "Igreja clandestina", vive a expectativa de uma primavera de fiéis. Os últimos números indicam que entre 10 e 12 milhões de chineses professam a fé católica.
Conforme dados da Associação Patriótica, que formula os dados oficiais, existem mais de seis mil igrejas, 74 bispos e 1.740 sacerdotes. Nos 14 seminários maiores estão estudando 580 seminaristas. Constam dos registros ainda 3,5 mil religiosas e 40 noviciados com mais de 800 jovens que se preparam para a vida religiosa. A Igreja oficial (controlada pelo regime chinês e independente de Roma) possui ainda 60 escolas, 22 asilos e 174 ambulatórios.
Tendências – Quanto aos dados da chamada "Igreja clandestina", não reconhecida pelo governo e que obedece diretamente ao Papa, presume-se que existam no território chinês 46 bispos, mais de mil sacerdotes e um número de fiéis que deve superar o de seguidores da Igreja "oficial". Esses dados foram fornecidos pelo Centro Espírito Santo de Hong Kong.
Irmã Fabiana Fengxia, do Coração Imaculado de Maria, testemunha que "não é fácil para os chineses, que sofreram a revolução cultural, crer no que dizemos. Mas o nosso modo de agir os convence que a religião pode influir positivamente em suas vidas".
Entretanto, enganam-se os que pensam que o regime comunista chinês controla com mão de ferro todas as Igrejas impedindo qualquer tipo de liberdade religiosa. "Zhengming", uma importante revista de Hong Kong, publicou uma surpreendente matéria revelando que há prática religiosa, mais ou menos clandestina, até mesmo entre os membros do Partido Comunista Chinês (PCC). Segundo a revista, um terço dos 60 milhões de filiados ao partido pratica alguma religião. Mesmo sem estatísticas oficiais, analistas falam que os praticantes de alguma religião, entre o 1,3 bilhão de chineses, podem chegar a 300 milhões.
Controle – Zhengming cita estatísticas da própria secretaria geral do PCC. Entre os filiados, cerca de 12 milhões participam de atividades religiosas nas cidades, dos quais cinco milhões são praticantes regulares; e oito milhões no meio rural, dos quais quatro milhões participam com freqüência. Desse contingente, um número significativo é formado de católicos – a religião mais odiada pelo PCC e, por isso mesmo, mais perseguida – e protestantes. Na província de Hebei, que registra a maior concentração de católicos, membros do partido afirmam que participar da missa constitui uma parte importante de sua vida. Outros declaram que preferem criar uma "igreja" em casa, para "evitar problemas".
Talvez por isso o chefe do Departamento de Assuntos Religiosos da China, Zghan Zunmou, revelou que o Estado estuda a eliminação do rigoroso controle do governo sobre as religiões, as interferências arbitrárias e a autonomia dos grupos religiosos. O governo deverá criar novas normas de proteção à liberdade de crença religiosa e às atividades das igrejas. Aliás, o artigo 36 da constituição chinesa garante a todos os cidadãos "liberdade de crença religiosa".
Governo pode frear nomeações unilaterais
Depois de ordenar, em menos de um mês (entre abril e maio passados), três bispos sem a concordância do Vaticano, o governo chinês manifestou a intenção de frear ordenações episcopais ilegítimas. Informação foi dada pelo cardeal de Hong Kong, dom Joseph Zen Ze-kiun no início de junho. O regime chinês permite a prática religiosa no país só com pessoal reconhecido e em lugares registrados no Departamento de Assuntos Religiosos e sob o controle da "Associação Patriótica", cujos estatutos admitem uma Igreja nacional independente da Santa Sé.
A decisão do governo pode estar ligada à reação de Bento XVI que definiu as nomeações unilaterais como "grave violação da liberdade religiosa" e que os nomeados à revelia de Roma podem até ser excomungados.
Padre Zezinho
Todo fruto bom tem seu tempo de amadurecer
O mapa da violência no mundo se expandiu assustadoramente. Tornou-se o mapa da violência, o mapa dos violentos e um mapa violento. Quem chegou ao poder, anda fazendo de tudo para não perdê-lo e quem desafia, recorre a qualquer método para derrubá-lo. Ao quadro acresce, ainda, o poder econômico que em geral descamba para os mais diversos tipos de violência; o poder do tráfico que não hesita em matar, explodir, eliminar e torturar seus opositores. Isto, mais a disseminação das armas que alimentam o banditismo, o terrorismo subversivo e o dos Estados e temos o que temos: um mundo assustadoramente mais violento do que nas últimas décadas.
O mundo mudou para pior desde que uma nação poderosíssima se tornou hegemônica e decidiu enfrentar a ONU, desde que a economia do mundo é controlada por não mais de dez nações e cerca de 200 megaempresas, nenhuma delas sediada em países pobres, desde que as armas se sofisticaram, desde que o tráfico se organizou, desde que acabou a privacidade, desde que o cidadão passou a ser mais controlado, desde que aumentou em escala absurda a corrupção que é uma espécie de macroprostituição, desde que venderam ao mundo a idéia de que o neo-liberalismo é o único caminho viável para a economia. Aumentaram as dívidas, as insolvências, os becos sem saída, o desemprego e a tentação de soluções imediatistas, que sempre desembocam na violência.
O imediatismo é um dos piores ídolos do homem. É querer agora, já, as respostas para as perguntas que fazemos e para as necessidades que temos. Pior ainda, forjar respostas falsas para quem as busca no desespero. Imediatistas são os ladrões, os assassinos, os políticos corruptos ou imaturos, os fanáticos religiosos e políticos. Nadam, nessas águas do agora, já, todos os que dizem ter as respostas religiosas, sociais, políticas ou econômicas. O preço é o dízimo inadiável, o imposto cada dia mais alto, a obediência cega, a submissão aos donos das respostas ou aos senhores da droga. Não pagou, não pertence! Todo o imediatismo leva à ditadura. Olharam o fruto e não aprenderam que fruto bom tem seu tempo de amadurecer e, quando alguém o apressa tem pressa de apodrecer. É o que está acontecendo no mundo. O tecido social dos povos já não cobre mais o cidadão. Reveja o mapa do mundo. Os violentos estão vencendo!
Migrações são desafio para o mundo
Semana do Migrante convida para a acolhida e a solidariedade
De 18 a 25 de junho, o Serviço Pastoral dos Migrantes, vinculado à CNBB, promove a 21ª Semana do Migrante, que tem como tema "Migração e Cidadania" e por lema "O mundo é nossa pátria". Os migrantes são, nos dias atuais, um desafio para a ação da Igreja. Segundo estimativas da Pastoral do Migrante, no mundo, 2006 deve terminar com 220 milhões de pessoas deixando seus países, dos quais 45 milhões como refugiados.
No próprio Brasil o fenômeno das migrações é constante e crescente. De país de imigração, tornou-se país de emigração. São cerca de dois milhões de brasileiros vivendo no exterior, sendo mais de um milhão nos Estados Unidos, 300 mil no Paraguai e, em menor escala, no Japão, em Portugal, na Itália, na França e na Inglaterra. Cerca de 36 milhões de latinos estão fora dos seus países; desse total, 27 milhões se encontram nos EUA.
Irmã Eléia Scariot, scalabriniana que atua no Centro de Atendimento ao Migrante (CAM), de Caxias do Sul, salienta que a semana tem um tríplice objetivo: sensibilizar a Igreja, as autoridades e a sociedade civil para o fenômeno das migrações; refletir mais profundamente sobre as causas e conseqüências e implicações desse fenômeno; e colocar-se ao lado dos migrantes, na defesa de seus direitos e na busca de uma cidadania sem fronteiras.
Para o secretário nacional do Serviço Pastoral dos Migrantes, o gaúcho Luiz Bassegio, a problemática das migrações é ao mesmo tempo sintoma, conseqüência e denúncia da realidade enfrentada por trabalhadores pobres no mundo inteiro. "São conseqüência de uma economia mundial que cada vez mais concentra renda, riqueza e poder. O fenômeno migratório aponta para a necessidade de repensar o mundo não mais baseado na competitividade, mas na solidariedade; não na concentração, mas na repartição; não no fechamento das fronteiras, mas na cidadania universal".
Na mensagem para o 92º Dia Mundial do Imigrante e do Refugiado, em 15 de janeiro, o Papa Bento XVI, destaca que as migrações são um "sinal dos tempos", conseqüência, entre outras coisas, do poderoso estímulo exercido pela globalização. Para o Papa, a Igreja não pode deixar de atender e buscar solução para os graves problemas decorrentes das migrações.
Pessoas buscam mais qualidade de vida
A pesquisa Fenômeno Migratório em Cidades das Dioceses do Rio Grande do Sul, realizada pela Pastoral do Migrante, mostra que 47,9% da população da capital gaúcha e região metropolitana é constituída de migrantes. Essas pessoas são oriundas de outras cidades do Rio Grande do Sul, de outros Estados e até do exterior. Os dados foram apresentados no dia 23 de maio em Porto Alegre.
O estudo mostra, por exemplo, que do 1,36 milhão de habitantes de Porto Alegre, somente 714,3 mil nasceram na capital – 578,8 mil (43%) são de outras cidades gaúchas, 60,8 mil de outros Estados e 11,5 mil do exterior. Cerca de 30 mil migrantes latino-americanos vivem na região metropolitana, a maioria como clandestino. Nas cidades de Bento Gonçalves e Caxias do Sul, quase 10 mil pessoas se deslocam todos os anos, em busca de melhores condições de vida, de trabalho, de estudo etc.
Oficinas qualificam adolescentes e adultos
Em Caxias do Sul, para celebrar a semana e o Dia Nacional do Migrante (neste ano, 25 de junho), o CAM realiza, no dia 20, feira de artesanato, na sua sede (bairro Desvio Rizzo), com venda de produtos feitos nas oficinas oferecidas aos migrantes pela entidade. No dia 24, o CAM anima missa do Dia do Migrante às 18 horas, na paróquia São José, no Desvio Rizzo.
Visando cumprir sua missão de qualificar e capacitar migrantes mais vulneráveis, o CAM já realizou, neste ano, oficinas de confeitaria e doces, bijuteria, crochê e tricô, colares de papel, cestaria em jornal e produção de sabonetes. Algumas dessas oficinas atendem adolescentes filhos de migrantes.
Aldo Colombo
Viver a cada instante é a verdadeira sabedoria. O tempo é um dom de Deus e o tempo de Deus é agora
Preocupado em conseguir uma sabedoria acima de qualquer contestação, um jovem monarca decidiu aconselhar-se com os melhores mestres conhecidos. A cada um deles apresentou três questões: Qual o momento mais importante da vida? Qual a pessoa mais importante na vida de um homem? E qual a tarefa mais importante a ser feita ao longo de uma vida?
As respostas foram as mais diversas. Todas elas, de alguma maneira, representavam a verdade a partir de um ponto de vista ou – pelo menos – representavam parte da verdade. Mas nenhuma delas satisfez o futuro monarca.
Já desiludido, no final de um dia pediu pousada a um velho camponês, que morava sozinho à beira da floresta. Enquanto as chamas de uma diminuta fogueira iluminavam a casa, o peregrino contou-lhe, decepcionado, sua inútil procura. Decidira regressar ao palácio e confessar ao pai sua incapacidade de sucedê-lo no trono. Ele não conseguira a sabedoria. Os olhos do camponês se iluminaram e as respostas brotaram tranqüilas.
O momento mais importante – explicou ele – é sempre o momento presente. A pessoa mais importante é a que está em nossa frente e a tarefa mais importante na vida de uma pessoa é ser feliz.
Há pessoas que vivem, saudosas, no passado. Outras sonham com o futuro. São duas maneiras de alienação. O momento mais importante na vida de qualquer pessoa é o momento presente. O passado não é mais nosso, o futuro, provavelmente, será a continuação do presente. Viver a cada instante é a verdadeira sabedoria. O tempo é um dom de Deus e o tempo de Deus é agora. Por isso falamos de tempo presente, isto é, presente de Deus. Nossa vida é feita de escolhas, não das escolhas feitas ontem, ou das escolhas que pretendemos fazer amanhã. As escolhas que valem são as que fazemos agora.
A pessoa mais importante é aquela que está, agora, na nossa frente. Ela tem o direito de um presente: o nosso tempo. Ela é a pessoa mais importante e deve merecer nossa atenção total. É o verdadeiro próximo desse momento. A vida continuará a girar. Amanhã teremos tempo para acolher outras pessoas que estarão à nossa frente. A pessoa que está na nossa frente agora estará presente no dia do julgamento. No rosto dessa pessoa devemos perceber o rosto do próprio Jesus.
Cada um de nós nasce com um objetivo definido: ser feliz. Quem não consegue a felicidade morrerá frustrado. O território da felicidade já está delineado. Nascemos para amar e sermos amados. A verdadeira felicidade consiste no amor. No entanto, muitas vezes, nos enganamos em relação ao amor. Amar não é ser feliz. Amar é fazer felizes os outros. E fazendo felizes os outros, seremos felizes. É o segredo que Jesus nos revelou.
CEBs se comprometem com a ecologia
Dioceses gaúchas temem conseqüências da monocultura
Contando com a participação de aproximadamente mil pessoas, representantes das 17 dioceses do Rio Grande do Sul, foi realizado em Canoas, de 1º a 4 de junho, o 11º Encontro Estadual das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). O evento foi motivado pelo tema "Desvelando as raízes da espiritualidade" e pelo lema "Sepé Tiaraju ressuscita de novo nas luta do povo".
Numa "carta às comunidades", aprovada pelos participantes do encontro, as CEBs do RS assumiram o compromisso de serem comunidades proféticas, de fé, serviço e celebração. Entre os compromissos expressos por cada diocese, além das questões específicas da Igreja, como formação bíblica, ecumenismo, articulação e renovação das comunidades, destacam-se a preocupação com a questão ambiental e ecológica, os povos indígenas, os desempregados, os pequenos agricultores, os trabalhadores sem-terra, a economia popular e solidária e a reciclagem de lixo.
"A maior ênfase foi dada à questão da ecologia, pois há uma grande preocupação com as conseqüências ambientais e sociais ligadas ao agronegócio e à monocultura", salienta frei Pilato Pereira, capuchinho que atua na pastoral dos assentamentos e acampamentos em Hulha Negra. Segundo o frade, na sua diocese (Bagé), onde se teme o "deserto verde", provocado pela monocultura do eucalipto, foi assumido o compromisso de implantar uma pastoral específica de ecologia.
Os delegados e delegadas das dioceses foram acolhidos no santuário São Cristóvão, na quinta-feira à noite, com uma celebração, presidida pelo arcebispo de Porto Alegre, dom Dadeus Grings, que resgatou a experiência cristã dos guaranis das missões jesuíticas. Além do escritor Alcy Cheuiche, grande conhecedor da história dos povos indígenas gaúchos, também estiveram presentes índios guaranis e caingangues.
A memória de Sepé Tiaraju, martirizado há 250 anos, foi constante. A experiência de vida comunitária cristã dos guaranis na região missioneira é considera raiz do cristianismo no RS. O 12º Encontro das Comunidades Eclesiais de Base do RS será em 2008, na diocese de Pelotas.
Livro analisa a inclusão libertadora
"CEBs: Nos trilhos da inclusão libertadora" é o título do livro de padre Dirceu Benincá, coordenador das pastorais sociais da diocese de Erechim, e do professor Antônio Alves de Almeida, de Osasco (SP), que acaba de ser publicado pela Editora Paulus. A obra é resultado de ampla pesquisa desenvolvida durante o encontro Intercontinental das Comunidades Eclesiais de Base e o 11º Encontro de CEBs, realizados em julho de 2005, respectivamente em Cariacica (ES) e Ipatinga (MG).
Além de apontar causas e cenários da exclusão na visão das CEBs, o livro apresenta alternativas que as comunidades estão encontrando para enfrentar essa realidade. São descritas experiências, caracterizadas como iniciativas de inclusão libertadora desde uma perspectiva ética, democrática, justa, solidária e ecológica.
Gaúcho é arcebispo do Ordinariato Militar
O Papa Bento XVI nomeou, na semana passada, dom Osvino José Both, até o momento bispo de Novo Hamburgo (RS), arcebispo do Ordinariato Militar do Brasil. Ele substitui dom Geraldo do Espírito Santo Ávila, falecido em novembro do ano passado. Dom Osvino nasceu aos 26 de abril de 1938 em Três Arroios (RS). Foi ordenado padre no dia 22 de abril de 1967. Atuou como pároco nas paróquias São Judas Tadeu e Sagrado Coração de Jesus, em Passo Fundo, foi coordenador diocesano de pastoral, presidente da Cáritas diocesana e assistente do Movimento de Leigos. No dia 26 de junho de 1990 foi nomeado bispo auxiliar de Porto Alegre e desde novembro de 1995 é bispo da diocese de Novo Hamburgo.
Wilson João
Gostamos do simples e escolhemos o complicado. Gostamos do fácil e tornamos as coisas tão difíceis
Na origem de tudo está a simplicidade. Todas as coisas são simples. Todos os seres nada têm de complicado. A vida é simples. Porém, com o andar do tempo, as pessoas foram arranjando complicações. Gostamos do simples e escolhemos o complicado. Gostamos do fácil e tornamos as coisas difíceis. Por que esse mau gosto em nossa sociedade? Por que o viver humano se tornou tão complicado? Tão pesado e lento?
GOSTAMOS DE COMER LIVREMENTE, sem cerimônias, comida simples, comida de panela, feita na hora, poucos talheres, mesa simples, o apenas necessário, e construímos o sofisticado com salões enfeitados, mesas cheias de enfeites, talheres e copos para funções diversas, tudo a meia-luz, cardápio com aparência impecável, mas gosto duvidoso. Por que complicar se todos gostam do simples e livre?
GOSTAMOS DE FESTAS SIMPLES, sem gravata e trajes a rigor, sem lugares marcados, sem o antes e o depois, sem mestre de cerimônia, e ao mesmo tempo preparamos cerimônias cansativas, com equipes para todas as funções, com preparação de chegada de pessoas mais importantes, com atrasos de todos os tipos, com a respiração de leveza no final com o desabafo: "até que enfim tudo acabou."
GOSTAMOS DE NOS VESTIR LIVREMENTE, com roupas leves, bermudas soltas, camisetas gostosas, roupas funcionais para cada momento e ambiente, e quanto menos roupa melhor, e nos tornamos escravos do momento com roupas que castigam o corpo. Meninas com roupas apertadas. Rapazes com bermudões que atrapalham o caminhar e os tornam mais mal-feitos em seus corpos sendo feitos. Mulheres e homens que vestem roupas tão estranhas ao seu corpo que nas festas oficiais chega-se a exclamar: não reconheci você, você está tão diferente nesta roupa! Por que viver escravo da aparência e da moda se todos desejam vestir-se do seu jeito simples?
GOSTAMOS DE NOS SAUDAR DE UMA MANEIRA SIMPLES, um bom dia, um oi, como vai você, como você está, abraço simples, beijo espontâneo, mão na mão com simplicidade, e temos que ouvir a complicação social do como vai o "senhor" ou a "senhora", destacamos a presença do "doutor" ou "doutora", felicitamos "vossa excelência"... Por que os ouvidos humanos têm que agüentar tanta baboseira, se o mestre dos mestres ensinou: "A ninguém chameis de senhor, chefe, doutor, patrão... vocês são todos irmãos".
E por que não desejar a simplicidade religiosa que se concretiza no mandamento do amor a Deus e ao próximo, sem tantas complicações que fazem perder de vista Deus e o próximo? Por que tantas complicações sociais, se o viver humano é muito mais gostoso sem complicações e culturas impostas como peso?
Eu decidi ser mais livre e simples, e você?
A minha italianidade
Jucemar José Imperatori
Bancário, Brasília-DF
Jucemar José Imperatori, nascido em Selim, distrito de Progresso-RS, casado com Márcia Terezinha Kristosch Imperatori, pais de Thais Kristosch Imperatori, formado em Economia e pós-graduado em Gestão Urbana, declara:
A minha Italianidade vem de minha origem. Meu bisavô, Giacomo Giuseppe Imperatore nasceu a 6 de maio de 1847 em Piazzola sul Brenta, a 20 quilômetros ao nordeste de Padova, no Vêneto. Quem chega a Piazzola, vindo de Padova, tem uma visão inesquecível; depois de uma longa estrada retilínea e plana se chega em frente à grandiosa Vila Cantarini, que parece fechar o horizonte, toda rodeada de árvores. A natureza vislumbrante circunda uma população acolhedora e hospitaleira, praças amplas e poucas edificações centenárias, e na avenida principal se registra a opulência da chaminé de uma antiga indústria química.
Meus bisavós, Giacomo e Giuseppina Rizzo, emigraram para o Brasil em 1887, com seu filho Giuseppe Imperatore, e se instalaram na Colônia Dona Isabel, atual Bento Gonçalves. Giacomo tinha uma ferraria e morou vizinho da Igreja Santo Antônio, em Bento Gonçalves.
O desenvolvimento da italianidade que está em mim se explica em dois momentos da minha vida. Até os 17 anos, quando vivi junto com os pais e irmãos, em Selim, distrito de Progresso, tínhamos hábitos e costumes bastante vivos da colônia italiana na alimentação, no jogo da bocha, de cartas (tri-sete, quatrilho, bisca, escova...) na reza do terço todas as noites e na participação na comunidade. Recentemente, com a oportunidade de estudar a língua italiana, tudo tomou outra forma.
Por mais de 20 anos, desde que saí da casa, vivi em várias cidades em busca de profissão e de formação acadêmica. Aos poucos fui como esquecendo minha italianidade, mas no íntimo a sentia como uma força, embora adormecida, porque quando tive a oportunidade não vacilei em reatá-la.
Com o curso da língua italiana, aos poucos fui me envolvendo e acabei me dedicando cada vez mais, e resolvi estudar também a história e cultura italianas, o que me levou a realizar uma viagem à Itália. Fiz o roteiro da viagem e conheci muitas cidades, em especial, Piazzola, cidade onde meu bisavô nasceu e foi batizado. Foi uma emoção inexplicável.
Hoje, estou escrevendo um livro sobre as origens da família de Giacomo Imperatore, do qual tive a oportunidade de trazer algumas informações da Itália, e continuo pesquisando por aqui. Sempre que vou rever meus familiares, principalmente meus tios, procuro registrar suas palavras e histórias, com a certeza de que essa minha atitude seja marcante para os descendentes da família e para a italianidade de cada um.
Sou descendente de vênetos, povo migrante desde os primórdios da civilização, que conseguiu transmitir aos seus filhos amor ao trabalho, à família, vivência da fé cristã, perseverança e heroísmo, atestado pelos seus pioneiros no Sul do Brasil, na Colônia Dona Isabel e Conde d’ Eu, e todas as demais, onde semearam uma rica cultura e história, e sobretudo a riqueza material e espiritual.
Nós, seus filhos, estamos comemorando 131 anos de chegada desses pioneiros, suas lutas e vitórias. Estou consciente da rica história que nos legaram e quero contribuir com minha ação, testemunho e gestos para juntos iniciarmos um novo ciclo dos próximos 130 anos (imperatori@terra.com.br; fone (61) 3223.9539 e (61) 951.2445)
Como Jucemar José, muitos jovens experimentam a força da italinidade quando se tornam cidadãos do mundo, e se dão consciência de que são detentores de uma rica história e de uma herança cultural e religiosa única e singular. (Rovílio Costa)
EL RITORNO DE NANETTO PIPETTA (364)
Nanetto va a messa e là i lo acusa ingiustamente
Luiz Bavaresco
Nova Prata-RS
Zera el mese de aprile, scomìssio del otono. El mìlio el zera mauro, e lo gavea piegà parché no’l smarsisse. El ze ndà soto la casa, el ga ciapà su un sestin de strope e el ze ndà in meso el mìlio per catar due o tre suchete marine, parché le ghe piasea tanto cote te la pignata. El ga catà dei gran bei pié de pissacan, i ga cavai su con la radisa. Col sestin pien, el ze ndà casa.
Quel giorno no’l se sentia ben. L’era stufo e el gavea anca na poca de fiévara. Se ga ricordà del dotor Genaro che’l stava a Pagnano, el ga cosinà i pissacan e el ga messo via el aqua par bévarla che la ghe faria tanto ben. Le radise le ga lavade ben, e se’l stesse ben, le cosinaria e dopo le consaria col sale e col lardo scaldà col aseo. Dopo el cosinaria due o tre ovi e li meteria par sora ste bele e gustose radise. Con tuta quela bondansa, el se ga ricordà de so mama e dei so fradei che i stea in Treviso, tea strada che va de Pagnano a Àsolo. Quante volte el ga piandesto insieme a luri per non ver cossa magnar. Quando i stava là lu e so fradei, i era stenti, magri che i parea bachete in pié. So mama, poareta, la fea quel che la podea par tèg-narli in vita. Se ga ricordà che, quando la mama fea la polenta, in tel brondin picà te na cadena, i restava come mati per magnar la crosta che la vegnea dopo de butar la polenta tel taier. Le gros-te le era pressiose. In pochi minuti le zera tute in pansa.
Zera un sabo de sera. Nanetto el ga tolto su sime de mìlio, artisui e suchere de mato e le ga date a la Pintada, che l’era drio spetar come tute le altre sere. La magnea con na voia, che’l stava lì incantà, intanto che’l pensava che dopo vegnaria fora un bel baldo de late.
Riva note. Come sempre, el ga pregà per ringrassiar a Dio de esser in Mèrica, ndove ghe saria la cucagna e anca la Gelina. El se ga butà zo e dormisto fin la doménega de matina.
El sol vegnea su, drio el monte, bel e caldo. Le passarine le fea buio intorno la so caseta. La Faís-ca, stesa al sol, lo vardava e la ramenava la coa. L’è ndà tel seciaro lavarse la fàcia e far la barba, che la zera dala e rossa. El se ga vestio cole robe de doménega, messo su le scarpe, anca le mudande, che no le doperava de stimana par sparagnarle, el ga sarà la porta e el se ga messo a ndar su per la strada che lo menava a Lajeadinho. In meso la strada, el ga catà la fameia de Lunardi che i ndava con la careta tirada a mule.
– Se te vol vegnar insieme, salta su.
E così el ga fato. Rivadi a Lajeadinho zera ora dea messa dele diese. Quel giorno disea messa el Padre Alèssio. Te la prèdica, el ga ricordà a tuti che i devea pagar el dìsimo e che i fusse tuti boni cristiani... Zera caldo e sofocante in cesa. In quel tempo no zera costume el bag-no. Lora, na spussa agra de sudor girava in cesa. De colpo, anca na maladeta spussa de scoreda.Tuti se vardea par veder chi zera el paron dea scoreda, fin che Lunardi el varda Nanetto, e el ghe ponta el deo. Nanetto el ze deventà mato. El ze levà su, el ze ndà fora dea cesa, e via casa de corsa parché no i lo coionasse.
– Maladeto Lunardi, no’l perde par spetar, ma che ghe impianto una, ghe la impianto. Spètame.
Dopo el mesdì, con la pansa piena de radise de pissacan, consae col lardo scaldà tel aseo e sale, querte con i ovi coti tel aqua, taiai in meso, e butadi sora le radise, el ze ndà far un soneto. Là per le tre, el se ga desmissià, el se ga ricordà dea cesa, dea scoreda, dea spussa e del deo de Lunardi voltà drito al so naso, e el pensa:
– Spètame! Te vedarè!
El se ga tolto na s-ciopa taquari, la ga cargada de pólver e balini, ghe ga messo la capeta, e el se ga incaminà al mato par catar qualcossa par cosinar tea cassarola al luni de mesdì.
Rovílio Costa e Arlindo Battistel
Schersi dei padri ai fìlii
Bruno Jorge Bergam
Professor, Porto Alegre-RS
Fiol, disi su pi presto che tel pol:
1 – Padeleta pìcola, poca papa ghè.
2 – Una tigre la ga tre tigreti.
3 – Tre gati grisi e tre gati grassi.
4 – Varda un caval bianco, àlseghe la coa, bàseghe el stampo.
5 – Toni boni, fa barete, se le mete t’un canton, Toni boni scoredon.
6 – Toni boni, pianta pai. Moldi la mussa e fa formai.
7 – Toni, toneti, spaca bacheti, fuma tabaco, Toni macaco.
8 – I dei dela man: scomìnsia dal pi grosso:
– Mi go fame.
– Va robar.
– Nò, parché se fa pecà.
– Va tel cassetin che ghè un boconin.
– Dàmelo a mi che son pi picenin
9 – Viva el can de Piva
Che’l va su par la riva
Co’l pissa el fa na bissa
Co’l chega el fa fadiga
10 – Trù, trù, musseta,
La mama ze ndata a messa
Con tre cavali bianchi.
Bianca la sela
Adio, moroseta bela!
11 – Me pare, me mare
Mama ze ndata a messa con
Me nona me vede
Mi taco a scorede.
12 – Ridi, ridi, cagnolin,
Drio la porta fa el pissin.
Provèrbii
– Pari che sparagna, fioi che ghe magna.
– Chi sparagna, la gata magna.
– Come noaltri no ghenè altri, se ghenè ancora che i salte fora.
– Noaltri taliani, coi nostri inzegni, soldi de carta, scarpe de legni.
– E col ciò o sensa el ciò, la galina la va in pignata. E col ciò o sensa el ciò, la galina se ga cosinà.
– Chi barufa, col tempo, fa la mufa.
– Magna sta menestra, o salta sta fenestra.
– Chi no ama l’onesto, perde el mànego e anca el menestro.
– Speta ti, te ciaparò tel fil dela polenta!
– Piutosto che la roba vansa, crepa la pansa!
– Soldi e bote no i torna più.
– Tégnete i soldi, ma saluta la gente!
– Mai créderghe a quei che i ara co le vache e i molde le mule.
– Un pontilioso el ze come un mul, pi che te ghe dè, pi el se impaca.
– Soldi, done e cavai no se impresta mai.
– Se te vol el pomo, sbassa la rama; se te vol la tosa, caressa la mama.
– Tromba de culo, sanità de corpo.
– Co se ga 8 ani se ze putei, co se ga 80, se ze ancora quei.
– Basi de morosi, pache de sposi.
– Chi serca caval e dona sensa difeto, no’l gavarà mai caval in stala e dona in leto.
Atuaserra lança projeto para preservar identidade cultural
Iniciativa envolve a rede escolar regional
"Pulando janelas" é o projeto de educação turística, patrimonial e ambiental que a Associação de Turismo da Serra (Atuaserra) e os municípios de Nova Prata, Veranópolis, Cotiporã, Fagundes Varela, Vila Flores e Protásio Alves irão implantar na rede escolar da região.
O projeto "Pulando janelas" é uma ação conjunta que envolve professores, alunos, gestores públicos e parceria público-privada. "A iniciativa tem o objetivo de sensibilizar a sociedade sobre a importância de manter a identidade cultural, preservar o meio ambiente e desenvolver o turismo sustentável", explica a presidente da Atuaserra, Salete Fiori Bortoli.