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Edição 5.007 – Ano 98 – Caxias do Sul-RS, 27 de setembro de 2006.

 

EDITORIAL

Voto de muita cautela e de responsabilidade

No país da impunidade, o resultado das urnas é o mais importante julgamento

 

O brasileiro vai às urnas no domingo 1º sob um clima carregado de denúncias, troca de acusações e muitas incertezas. À necessidade de avaliar os candidatos, soma-se a de compreender o significado e implicações de termos incorporados ao dicionário político, como mensaleiro, sanguessuga e caixa dois. O reflexo desse quadro é o aumento da responsabilidade para decidir os ocupantes de 1.655 cargos, de deputado estadual a presidente da República.

A transparência tão apregoada por candidatos raramente se consuma de forma plena em campanhas políticas. Cada concorrente expõe o que convém aos interesses dele. Estratégias de marketing, amparadas por sofisticados recursos de mídia, constroem um cenário repleto de atrativos para conquistar o voto do eleitor. Por isso é preciso muito cuidado na hora da escolha.

Cautela e responsabilidade formam um binômio imprescindível para o voto consciente nestas eleições. O resultado das urnas será o mais importante julgamento para envolvidos em uma seqüência, que parece infindável, de escândalos. E também, no plano estadual, para a eficiência administrativa dos governantes que buscam a reeleição – situação dos três Estados do Sul.

Se de um lado há o justificado temor de que o escândalo nos poderes constituídos se torne uma normalidade, de outro existe a preocupação de que o denuncismo estabeleça o rumo do país. Por trás de ambos os casos está provavelmente o mal maior do Brasil: a impunidade. Se cada escândalo tivesse apuração séria e os punidos recebessem o merecido castigo, o histórico ciclo seria rompido, apesar de profundamente enraizado.

Não será o voto do próximo domingo, isoladamente, que estabelecerá uma redenção na vida pública. Mas ele pode representar o início de uma nova fase. E para quem ainda tem dúvidas, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil aponta alguns traços do perfil do candidato ideal: honesto; com história pessoal coerente com valores éticos, em especial o amor à verdade e à justiça; defensor da dignidade das pessoas e do direito de todos à vida; preparado para o desempenho de sua missão; ter liderança, capacidade e bom senso para discernir de maneira lúcida sobre os fatos e as realidades sociais.

 

CAXIAS DO SUL

Feira do Livro espera 140 mil pessoas

Evento deste ano é voltado especialmente à literatura infantil

 

A 22ª Feira do Livro de Caxias do Sul será realizada de  6 a 22 de outubro na Praça Dante Alighieri. Nesta edição, o evento terá como tema “Leitura, o prazer do encontro”. “O encontro deve ser feito com prazer para aproximar os seres humanos. Essa é a idéia da feira  2006” , explicou Luiza Motta, coordenadora do evento. O escritor e professor Flávio Loureiro Chaves, doutor em letras pela Universidade de São Paulo, é o patrono da feira. O homenageado desde ano é o escritor Delmino Gritti, licenciado em Filosofia pela Universidade de Caxias do Sul. 

Além da presença de livrarias e editoras de Caxias do Sul e Porto Alegre, serão realizados mais de 200 eventos culturais e literários, como contação de histórias, sessões de autógrafos, mesas temáticas, bate-papo com escritores, palestras, oficinas, apresentações de música, dança, teatro e exposições. 

Este ano, como destacou o secretário da Cultura Antônio Feldmann, o evento privilegia a literatura infantil. Haverá um espaço especialmente para as crianças, com palco para as diversas atividades destinadas a este público.  

Outra novidade da feira é a possibilidade de adquirir obras por meio de cartão de crédito, com 15% de desconto, o que deve alavancar as vendas. Nas compras em dinheiro ou cheque, o desconto permanece em 20%. O horário de funcionamento do evento também foi ampliado. Nas segundas e quartas-feiras, sábados, domingos e feriados, a feira estará aberta das 10h às 20 horas; nas terças, quintas e sextas-feiras, das 12h às 20 horas. O auditório da feira também está maior, com capacidade para 150 pessoas. 

A Feira do Livro de Caxias do Sul consolidou-se como o maior evento literário da região. Em 2005, recebeu cerca de 130 mil pessoas. Para este ano, espera-se que mais de 140 mil participem das atividades. A feira é uma promoção da Secretaria Municipal da Cultura e livreiros.

 

Primeiras atrações do evento 

 

A abertura oficial da Feira do Livro ocorre no dia 6, às 18h30, com o show “Fluída”, de Karine Cunha, Prêmio Açoriano de melhor intérprete MPB. No primeiro final de semana, ocorre intensa programação. No sábado 7, durante todo o dia, atividades especiais voltadas às crianças. Às 10h30 e às 14h30 apresentação de teatro de bonecos “A magia da leitura”, no auditório da feira. Às 14 horas, show infantil “O reino encantado”, com Samuel Sodré, e às 14h30, apresentação da orquestra de flautas infanto-juvenil da Secretaria Municipal da Educação, ambos no palco do Espaço Infantil. Às 15 horas, contação de histórias com Ivânia Longhi, no palco do Centro de Convivência da Feira. Das 15h às 17h, performances da personagem Coruja Literária com a trupe Circo de Bolso.

No dia 8, às 14h30, sessão de autógrafos da obra “A caminho da certeza”, de Ana Marlene Gasperin, no Café Cultural. Bate-papo com o cartunista Iotti e o escritor e apresentador “Anonymus Gourmet”, às 15 horas, no auditório. Lançamento e sessão de autógrafos da obra “Dicionário de italianismos”, de Elisa Battisti, Eliana Giani Tedesco, Neires Soldatelli Paviani, Normelio Zanotto, Suzana Damiani e Vitalina Frosi, às 18 horas.

 

Pronto atendimento 24 horas em novas instalações

 

A partir desta quarta 27, às 14 horas, o Pronto Atendimento 24 horas que funcionava na esquina das ruas 20 de Setembro e Marechal Floriano passa a ocupar instalações na rua Sinimbu, 2231 – antigo prédio da Kalil Sehbe. No novo espaço, alugado por R$ 27 mil mensais, os usuários poderão contar com sete consultórios (clínicos, pediátricos e psiquiátricos), duas salas de emergência (adulto e pediátrico), duas salas de observação com oito leitos cada uma, uma sala de gesso, quatro salas de sutura, duas salas de curativo, uma sala de nebulizações e hidratação, uma para coleta de exames e outra de radiologia. 

Embora amplo, o novo espaço é provisório. Toda a estrutura de saúde municipal será centralizada no Complexo Centro à Vida, prédio com sete andares, que começará a ser construído após a mudança para as novas instalações. A obra deverá ficar pronta dentro de 18 meses e custará cerca de R$ 7 milhões.

 

REPORTAGEM

Clima intensifica qualidade de uvas intermediárias Safra da uva 2006 teve mais sol e menos chuvas, atrasando a época da colheita

 

A vindima 2006 teve mais sol, 916 horas acumuladas de dezembro de  2005 a março deste ano, quando a insolação normal é de 876 horas. Também choveu menos:  402 mm contra a precipitação média de  551 mm . A conseqüência foi o atraso da colheita, que normalmente inicia nos primeiros dias de janeiro e se estende até início de março. A safra começou em meados de janeiro e se prolongou até o final de março e, em alguns lugares, até início de abril. 

O menor volume de precipitação pluviométrica ocorreu desde o final de dezembro até a segunda quinzena de março. A falta de água atingiu especialmente os vinhedos localizados em solos com pouca profundidade. “Já os de solos mais profundos, nos quais foram adotadas as práticas culturais recomendadas, as videiras resistiram melhor à estiagem e se beneficiaram”, observa ao CR o pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, Francisco Mandelli. 

As uvas de maturação precoce, como a chardonnay e pinot noir, começaram a ser colhidas em meados de janeiro, estendendo-se a colheita até meados de fevereiro. Durante esse período, a insolação foi semelhante e a precipitação inferior, embora o número de dias de precipitação tenha sido superior à normal climatológica. 

Já as uvas de maturação intermediária, como riesling itálico e merlot, com colheita que se estendeu desde o início até o final de fevereiro, tiveram condições meteorológicas de insolação e de precipitação melhores, quando comparadas à normal climatológica. 

As uvas de maturação tardia, como cabernet sauvignon, foram colhidas desde o final de fevereiro até o início de abril. Essa cultivares também tiveram boas condições meteorológicas, embora a precipitação pluviométrica tenha sido um pouco inferior à normal climatológica da região. A precipitação concentrou-se nos últimos dias de março, tendo como origem as chuvas convectivas (localizadas e de irregular distribuição). “Em função disso, as uvas tardias colhidas antes desta data tiveram melhores condições meteorológicas para a maturação do que as colhidas no final de março”, observa Mandelli. 

Podridões – Embora as condições meteorológicas favoráveis, a pesquisa da Embrapa constatou a incidência de podridões do cacho, principalmente da podridão da uva madura (Glomerella cingulata), tanto nas cultivares brancas quanto nas tintas. 

 

Inverno com 101 horas a menos de frio 

 

O inverno 2005 foi mais quente. O número de horas de frio inferior a 10ºC foi de 555, 101 horas a menos do que a média. Junho teve temperatura média do ar mais alta; julho dentro da normalidade/ agosto com temperatura mais alta e setembro, mais baixa que a normal para a região. 

As videiras brotam no final do inverno-início da primavera, à medida que ocorre o aumento da temperatura. As variedades precoces iniciaram a brotação no início de setembro, enquanto as tardias, no início de outubro. As temperaturas de setembro foram bem inferiores (2,1ºC abaixo da média) e em outubro, um pouco inferior (0,2ºC) à média. 

Já o subperíodo floração-frutificação é um dos mais críticos para a videira, pois define, em grande parte, a quantidade de uva. Para o adequado desenvolvimento da uva, é necessário tempo seco e ensolarado, com temperaturas superiores a 18ºC. Esse subperíodo iniciou na metade de outubro, para as precoces, e se estendeu até meados de novembro, para as mais tardias. Apresentou temperaturas um pouco superiores em novembro.

Nesse período, diz o pesquisador Francisco Mandelli, constatava-se que a produtividade da safra seria menor que a normal, principalmente em decorrência das condições climáticas do inverno e primavera, além dos problemas originados pela forte estiagem do verão de 2005. Soma-se a isso a ocorrência de granizo que, embora localizado, contribuiu para a queda da safra. 

Maturação – O subperíodo maturação é o que mais define a qualidade. Nessa fase, dias ensolarados com reduzida precipitação são fundamentais para obtenção de uvas sadias e com equilibrada relação açúcar/acidez, dentro outros componentes, características essenciais para elaboração de vinhos de qualidade. As temperaturas foram próximas à normal, sendo inferiores em dezembro e fevereiro e superiores em janeiro e março. 

 

Equilíbrio entre tintos e brancos marca a safra 2006 

 

Uma safra harmônica, com equilíbrio entre os vinhos tintos e brancos. O resultado da vindima 2006 foi confirmado pelos 900 apreciadores, sendo 200  em São Paulo , na 14ª Avaliação Nacional de Vinhos, encerrada  em Bento Gonçalves. “Esse equilíbrio deve-se ao clima, ao trabalho dos enólogos e à tecnologia”, declara ao CR o enólogo e tesoureiro da Associação Brasileira de Enologia (ABE), Dario Crespi. 

O comportamento climático do ano passado intrigou os vitivinicultores. “Havia certo temor, pois a menor quantidade de frio aliada à alternância mês quente/mês frio causou problemas para a brotação da videira, principalmente nas cultivares precoces, mas os resultados da avaliação comprovaram a superação deste problema”, diz o pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, Francisco Mandelli. 

Promoção da ABE, a Avaliação Nacional de Vinhos teve a participação de 63 vinícolas com a inscrição de 253 amostras. Oitenta e um enólogos de todo o Brasil avaliaram as amostras indicando 30% dos vinhos mais representativos. No sábado 23 de setembro foi divulgada essa relação.  

Dos 30% dos vinhos mais representativos desta safra, foram degustados 16 (ver tabela abaixo) por 900 pessoas, reunidas simultaneamente em São Paulo e Bento Gonçalves. “Os vinhos degustados foram classificados nas categorias brancos finos secos aromáticos (2 amostras), brancos finos não aromáticos (5), tintos finos secos (8) e vinho base para espumante (1)”, informa o presidente da ABE, Dirceu Scottá. 

 

AGRONEGÓCIO 

Governador veta o projeto do vinho como alimento Decisão desagrada setor. Rigotto anuncia envio de nova proposta 

 

O governador Germano Rigotto anunciou, na sexta 22, o que lideranças da vitivinicultura gaúcha sabiam dez dias antes: o veto ao projeto de lei 119/05, do deputado Estilac Xavier, que classifica o vinho como alimento no Rio Grande do Sul, e que havia sido aprovado por unanimidade pela Assembléia Legislativa. “O projeto é meritório ao procurar diferenciar o vinho das demais bebidas quentes, mas não colocou limitação nas questões da publicidade e do consumo: quem pode e quem não pode beber”, argumentou Rigotto. O veto refere-se a inconsistências legais. “Simplesmente definir o vinho como alimento natural parece-me atécnico, impróprio, até temerário”, disse o governador. 

A decisão foi tomada sob forte pressão de entidades ligadas à área da saúde, com destaque para o Sindicato Médico do RS, Associação Brasileira de Estudo de Álcool e Outras Drogas e Fundação Thiago Gonzaga, além do Ministério Público Estadual, que solicitou o veto. “Não tenho como sancionar o projeto e depois mandar um outro que faça todas as correções importantes. O ideal é vetar a matéria e enviar um novo projeto para o Legislativo contendo todas as sugestões apresentadas e os limitadores determinados pelo resultado dessa ampla discussão”, assinalou Rigotto. 

De acordo com ele, limitadores da publicidade e consumo devem respeitar leis, como a do Estatuto da Criança e do Adolescente. “O vinho é uma bebida alcoólica. O projeto mostra propriedades do vinho consumido com moderação que uma bebida quente não tem. Mas por ter álcool, a divulgação das suas propriedades precisa colocar o fato”, afirmou o governador. 

 

Nova proposta vai estabelecer limites 

 

Ao comunicar o veto, o governador gaúcho anunciou o envio de novo projeto à Assembléia Legislativa. Segundo Rigotto, o texto “terá toda a correção com relação às limitações, a publicidade, as qualidades do vinho e o conteúdo alcoólico, quem não pode ingerir vinho e a diferenciação das bebidas quentes”, referindo-se a uísque, vodka, cachaça.... Mas ele salientou que o projeto evitará a classificação de alimento. “Será uma alternativa que identifique as propriedades benéficas do vinho, sem no entanto estimular o consumo de bebidas”. O governador afirmou que não tinha ainda a forma de como colocar essas questões no texto. E nem data para envio. 

As principais sugestões levadas pelos vitivinicultores na tentativa de evitar o veto e que deverão fazer parte do projeto são essas: 

– O reconhecimento do vinho como alimento não retira seu caráter alcoólico; 

– Deve-se respeitar o Estatuto da Criança e do Adolescente, que proíbe a venda e o fornecimento da bebida a menores de 18 anos; 

– A promoção do vinho deve respeitar as normas federais relacionadas à publicidade e propaganda, sobre restrições ao uso e à propaganda de produtos alcoólicos; 

– A publicidade deve se destinar somente ao público adulto; 

– A promoção do vinho deve informar e difundir as qualidades e os benefícios do consumo responsável e moderado de vinho. 

 

Para produtores, a volta à estaca zero

 

Dez dias antes de anunciar oficialmente o veto, o governador Germano Rigotto chamou ao Palácio Piratini dirigentes das mais representativas entidades da vitivinicultura gaúcha. Objetivo era comunicar a decisão e, se possível, obter a concordância. Não conseguiu e por alguns momentos o clima do encontro se aproximou do estágio da tensão. 

“Fomos levar ao governador sugestões que, entendíamos, poderiam ser aplicadas na regulamentação da lei, fixando normas para a publicidade e venda do vinho”, afirmou Danilo Cavagni, presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin). “Deixamos claro nossa discordância com o veto, embora entendamos a pressão que o governador vinha sofrendo dos contrários ao projeto que classifica vinho como alimento”, acrescentou. 

O setor defendia a idéia da sanção porque entende que o envio de um novo projeto demandará um novo e grande esforço e, mais do que isso, muito tempo. “Voltamos à estaca zero. Serão mais quatro anos de tramitação e sem garantia de aprovação pela Assembléia”, projeta Cavagni. A sanção seria importante para o vinho gaúcho (90% da produção brasileira) na medida em que poderia influenciar a aprovação de projeto de lei semelhante, apresentado pelo senador Pedro Simon (PMDB, mesmo partido de Rigotto), que tramita no Senado desde setembro de 2003. 

Da reunião participaram ainda o chefe da Casa Civil, Josué Barbosa, o ex-chefe da Casa Civil Alberto Oliveira e representantes da Associação Gaúcha de Vinicultores (Agavi), União Brasileira de Vitivinicultura do Brasil (Uvibra), Federação das Cooperativas Vinícolas do RS (Fecovinho) e Comissão Interestadual da Uva. 

 

Produtor elege seguro e preços 

Medidas de proteção lideram pedidos de 72,3% dos produtores 

 

Medidas de proteção à produção, incluindo o seguro agrícola, e preço são a maior preocupação para 72,3% dos produtores rurais. O direito de propriedade e reforma agrária, financiamento e política monetária (leia-se câmbio e juros) também ocupam o topo de uma lista de 15 itens prioritários do setor agropecuário nacional. 

A lista em que o setor agropecuário pede mais atenção dos candidatos foi entregue aos presidenciáveis pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A entidade ouviu 6.000 agricultores de todo o país, de  11 a 28 de julho. Os resultados da consulta refletem a opinião de parcela dos produtores que representam 85% da produção agrícola e 77% do efetivo pecuário nacional, segundo dados do censo agropecuário do IBGE. A entidade reúne 2.200 sindicatos e cerca de um milhão de produtores em todo o país. 

O produtor brasileiro não tem praticamente nenhum tipo de apoio governamental para minimizar os riscos e oscilações da atividade. Enquanto Estados Unidos concedem 17% do valor bruto das receitas com a comercialização agropecuária, o Canadá 22% e a União Européia 30%, o índice no Brasil é de apenas 3% – um dos mais baixos do mundo. 

Além da falta de apoio, o agricultor enfrenta o risco climático e preços baixos. No caso do seguro, os recursos de apenas R$ 42,3 milhões possibilitam a cobertura de menos de 0,5% da área plantada, ou seja, 99,5% das lavouras continuam desamparadas. Com isso, os produtores acumularam perdas de renda de R$ 23,15 bilhões nos últimos dois anos. 

O próprio ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Luís Carlos Guedes Pinto, reconheceu que o modelo brasileiro de política agrícola está esgotado. “Devemos ampliar extraordinariamente o seguro agrícola. Trabalhar mais com o mercado de futuro, diversificar as fontes de financiamento da atividade rural e melhorar os contratos entre os produtores e os setores com os quais eles se relacionam”, defendeu o ministro. 

Gaúchos – A política agrícola adotada por Brasília tem reflexos semelhantes no Rio Grande do Sul. A Federação da Agricultura do RS (Farsul) propõe dividir os prejuízos para sair da crise. “Queremos seguro amplo e redução nos custos de produção”, afirma o presidente, Carlos Sperotto, ao CR. O presidente da Associação Gaúcha de Vinicultores (Agavi), Júlio Gilberto Fante, vai além. “Os próximos governantes precisam reduzir a carga tributária, garantir os preços mínimos e valorizar o produtor”, declara Fante. 

As necessidades dos sindicatos de trabalhadores rurais são praticamente as mesmas. “Pedimos preços justos na hora da comercialização, seguro para fazer frente aos problemas climáticos e segurança no meio rural”, resume o presidente do STR de Caxias do Sul, Raimundo Bampi. 

A Federação dos Trabalhadores na Agricultura no RS (Fetag) amplia o leque de prioridades. É importante a definição de políticas públicas claras, definidas e recursos em volume necessário e na hora certa para que o agricultor possa trabalhar a produção; plantar, comercializar e adquirir os insumos no momento adequado”, enumera o vice-presidente Sergio de Miranda. 

Miranda reconhece avanços, mas diz que falta ampliar as melhorias. “A grande prioridade é superar os reveses climáticos, mercado, preços e o elevado custo de produção.” 

 

Conab projeta cenário favorável em 2007 

 

Depois de dois anos seguidos de turbulências, a agricultura brasileira começa a vislumbrar com mais segurança os primeiros sinais de uma possível virada. E o principal deles é o fim do descompasso cambial entre o momento da compra de insumos e a venda dos grãos, provocado pela apreciação do real em relação ao dólar.  

De acordo com a Conab, os preços dos agroquímicos baixaram 7,8%. “O orçamento para a safra 2006/07 está positivo e esperam-se melhores preços no mercado internacional”, destacou o economista Amaryllis Romano. “A crise está ficando para trás”, disse.  

Há motivos para vislumbrar um ano melhor para a agropecuária. Os preços das commodities permanecem em patamares elevados e há pouco risco de aumento dos juros internacionais. O Brasil caminha para sua menor taxa de juro real, mas com o dólar a R$ 2,15 em 2007 – ainda desfavorável às exportações, segundo os produtores. 

PIB – Já os números da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) para 2006 são menos otimistas. Os baixos preços pagos aos agricultores pelos produtos reduziram em 1,88% o PIB da agropecuária no primeiro semestre deste ano. A maior retração ocorreu na pecuária, com redução acumulada de 2,41% de janeiro a julho.  

Se a tendência for mantida, anunciou a CNA, o PIB anual da agropecuária cairá R$ 5,7 bilhões em 2006, de R$ 153,04 bilhões em 2005 para R$ 147,34 bilhões neste ano. A queda será de 3,72%. 

 

Mérito Farroupilha a Altemir Tortelli 

 

O coordenador da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf-Sul) e coordenador adjunto da Fetraf-Brasil, Altemir Tortelli, recebeu a medalha do Mérito Farroupilha, a mais alta distinção oferecida pela Assembléia Legislativa. O deputado Ivar Pavan (PT) foi o proponente. “Essa homenagem é o reconhecimento à classe trabalhadora e a milhares de agricultores familiares que fazem a maior obra da humanidade, que é produzir comida”, avalia Tortelli. 

 

VIDA AGRÍCOLA

Engº. Agrº. José Zugno

 

Origem e propriedades da romã

Gostaria de ver na coluna Vida Agrícola matéria sobre a romãzeira: como é a planta e como conseguir mudas, quais as suas principais características, utilidades e se existem propriedades. E essa história que, dizem por aí, a romã deve ser consumida no final do ano, tem algum fundamento?

M. Joaquina Conceição 

Santa Maria-RS

 

A romãzeira é um arbusto que produz numerosas ramificações desde a base próxima do solo, e atinge alguns metros de altura, de  2 a 5. Pode-se transformá-la em pequena árvore eliminando-se as ramificações laterais da base, deixando-se somente o tronco central.

A romãzeira é, provavelmente, originária da Pérsia, donde propagou-se para os países vizinhos, principalmente os adjacentes ao Mediterrâneo. É planta conhecida desde a antiguidade, nos tempos do rei Salomão e dos faraós do Egito, onde era reconhecida pelas suas propriedades medicinais e como símbolo da ambição e da prosperidade. 

Hoje em dia encontra-se disseminada em todos os países, menos nas regiões muito secas, muito frias e muito úmidas no solo ou no ar atmosférico. No Brasil, existe em todos os Estados, mas é mais indicada para os do Sul, de clima subtropical e temperado.

A romãzeira é botanicamente conhecida com o nome científico Punica granatum, da família das Punicáceas, desmembrada das Mirtáceas. As folhinhas novas são avermelhadas, depois crescem e tornam-se verde-brilhantes. São folhas simples, inteiras, lanceoladas ou elípticas, de disposição alterna e oposta. As flores são grandes e vistosas, de cor vermelho-alaranjada, isoladas ou em grupo de  2 a 3 na extremidade dos ramos floríferos, hermafroditas e de simetria radial. O cálice é tubular e persistente e a corola, em geral, tem 6 pétalas. O androceu é composto por muitos estames. O gineceu tem ovário ínfero, multicarpelar e multilocular, sendo os lóculos sobrepostos com inúmeros óvulos, as futuras sementes incluídas no fruto, a romã.

O fruto, globoso, algo achatado, tendo no ápice a coroa do cálice tubular, persistente. Possui casca coriácea e lisa, de cor que varia do amarelo ao vermelho com manchas escuras, que apresenta no interior várias divisões que encerram as numerosas sementes, envolvidas por suculenta polpa avermelhada, doce ou agridoce, refrescante, que podem ser saboreadas diretamente ou delas obter-se suco. Os países árabes produzem, a partir dela, agradável bebida.

Os solos preferidos da planta são os de consistência média: argilo-arenosos; bem dotados de matéria orgânica, portanto de boa fertilidade e profundos, posteriormente podendo necessitar de adubação, mediante análise do solo. 

Mudas de romãzeira podem ser obtidas nas florifruticulturas. Talvez a Estação Experimental de Santa Maria disponha de mudas. Mudas também podem ser obtidas a partir das sementes, mas com resultado nem sempre satisfatório, ou melhor, obtidas de estacas lenhosas, retiradas, na primavera, de plantas produtivas. Devidamente plantada e cuidada, a romãzeira começa a florescer e a produzir aos três anos de idade.

Usos e propriedades – A planta é ornamental, frutífera e medicinal. Presta-se para a formação de cercas vivas para delimitar áreas. Como ornamental produz flores vistosas e duráveis que se formam na primavera e por todo o verão. Existem variedades melhoradas especialmente para produção de flores, que praticamente não produzem frutos. Para produção de frutos, não existe plantação exclusiva de romãzeiras, mas somente plantas isoladas. Produzem frutos no verão e no outono. O que se aproveita é a polpa suculenta que envolve as sementes. 

Todas as partes da planta, folhas, flores, casca do fruto e sementes, casca do tronco e raízes, contêm substâncias ativas, taninos, alcalóides e outros componentes, que servem para combater verminoses, disenteria, cólicas, faringite, gengivite e outras inflamações internas e externas.

Quanto à história referida na carta, é da crença popular que as sementes de romã, quando ingeridas na passagem do Ano-Novo, trazem sorte e prosperidade o ano todo. É simpatia muito generalizada, confirmada pelos quitandeiros que aumentam a venda de romã no final do ano

 

SAÚDE

Quedas prejudicam qualidade de vida do idoso

60% dos acidentes ocorrem em casa e podem ser evitados

 

As quedas na terceira idade são as principais causas de morte acidental em pessoas com mais de 65 anos. Estima-se que 30% da população acima dessa faixa etária sofrem quedas ao menos uma vez por ano no Brasil. A lesão acidental é a sexta causa de mortalidade em pessoas de 75 anos ou mais. A queda é responsável por 70% dessas mortes. Preocupadas com esses índices, as sociedades brasileiras de Otorrinolaringologia e a de Ortopedia e Traumatologia querem orientar a população para a prevenção do problema. Com esse objetivo, acabam de lançar a primeira etapa da Campanha Nacional de Prevenção a Quedas de Idosos.

Segundo Raquel Mezzalira, otorrinolaringologista e uma das coordenadoras da campanha, a intenção é evitar que ocorram quedas e/ou minimizar os efeitos nocivos subseqüentes. “Desejamos que as pessoas identifiquem e eliminem os principais fatores de risco”, destaca a médica. Ela afirma que cerca de 60% dos tombos ocorrem em casa e 25% deles são resultantes de perigos domésticos, como pisos escorregadios, pouca luminosidade. “O trajeto quarto-banheiro é considerado o de maior risco na moradia”, alerta.

Os distúrbios do equilíbrio estão entre os principais fatores de risco que originam quedas na população idosa. Raquel explica que o equilíbrio corporal é mantido pela atuação do labirinto, da visão e de receptores localizados nos músculos e nas articulações. Com o envelhecimento, ocorre um desgaste natural nessas estruturas, o que causa tontura, limitando a vida do idoso e aumentando as chances de quedas.

Segundo a médica, cerca de 20% das pessoas com mais de 60 anos apresentam comprometimento nas suas atividades diárias em função dos desequilíbrios. “Além de trazer uma limitação social e física ao indivíduo, as tonturas podem levar às quedas com fratura. 34% das quedas geram algum tipo de fratura”, observa.

A fratura acaba levando o idoso à hospitalização, muitas vezes prolongada. “Quando internado por esse motivo, o idoso costuma permanecer no hospital o dobro do tempo, se comparado a outras causas”, afirma Raquel. Esse longo período predispõe o paciente a adquirir outras enfermidades, que podem agravar doenças já existentes e facilitar o surgimento de outras complicações. A queda tem relação causal com 12% dos óbitos na população geriátrica. Naqueles que são hospitalizados em decorrência de um tombo, o risco de óbito no ano seguinte à hospitalização varia entre 15% e 50%.

Além do risco real de morte, as quedas prejudicam a qualidade de vida do idoso. “Eles passam um longo período imobilizados, podem ficar dependentes de outra pessoa, têm sua vida social prejudicada, tendem ao isolamento e podem desenvolver depressão, daí a importância de agir na prevenção às quedas. Com cuidados simples no dia-a-dia, boa parte delas pode ser evitada”, conclui Raquel Mezzalira. 

 

Osteoporose eleva o risco de fraturas 

 

Outro fator agravante para as quedas está relacionado com a osteoporose. Dados da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia indicam que aproximadamente 40% das mulheres com mais de 50 anos sofrerão uma fratura relacionada à osteoporose durante sua vida. É justamente por isso que a segunda etapa da Campanha Nacional de Prevenção a Quedas de Idosos será lançada em 20 de outubro, Dia Mundial de Combate à Osteoporose.  

Segundo o ortopedista Lindomar Guimarães Oliveira, os hormônios sexuais – o estrógeno nas mulheres e a testosterona nos homens – são importantes na manutenção da massa óssea. Na mulher, durante a menopausa, há uma queda súbita na produção de estrógeno, ocorrendo assim diminuição da massa óssea. No homem, a diminuição dos níveis de testosterona ocorre de maneira bem lenta. “Essa é a principal causa para maior ocorrência de osteoporose em mulheres, na proporção de quatro mulheres para um homem com a doença”, afirma o ortopedista.

A fratura de fêmur é uma das mais freqüentes em decorrência da osteoporose e sua incidência aumenta com a idade. A mortalidade nesses casos atinge 30% dos pacientes nos dois anos seguintes à fratura e é decorrente de complicações.

As estimativas preocupam, principalmente se for levado em conta o aumento da população idosa. Segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em  2000, a população com mais de 60 anos de idade é de 14,5 milhões de brasileiros. Se hoje a terceira idade representa 9% da população do país, estimativas apontam que em 2020 este percentual atingirá 12%. Em 2020 o Brasil terá um idoso pra cada dois jovens.

 

OPINIÃO

Morrer jovem

Maria Clara Lucchetti Bingemer

 

Que planeta erguemos para as novas gerações? Que deserto construímos em torno dos jovens de maneira que seu único e mais caro desejo seja matar e morrer, sem viver, sem amar, sem gerar?

 

Que mundo é esse em que a juventude, eterna e inseparável cúmplice da vida, resolve escolher a morte em tenra idade? Que planeta construímos para as novas gerações se os jovens não querem mais viver e escolhem a morte quando têm toda uma vida pela frente?

O Canadá era um país que desmentia as estatísticas da violência do hemisfério norte. Quem viu o filme “Tiros em Columbine” lembra-se bem da cara espantada de Michael Moore quando, ao perguntar ao policial canadense quantas pessoas haviam morrido violentamente em sua cidade naquele ano, recebeu a resposta: “Um!” E há cerca de 15 dias o Anjo da Morte passou por Montreal, pelo Dawson College, na pessoa de Kimveer Gil, de 25 anos.

O atirador que matou uma jovem estudante e feriu gravemente outras 19 pessoas pertencia ao movimento gótico. Trajava preto, usava corte de cabelo estilo moicano, levava piercings de diversos feitios e tamanhos e portava uma enorme arma. Em um blog onde mantinha um diário, Gil – que se autodenominava Trench – referia-se a si mesmo como o Anjo da Morte e exibia fotos em que aparecia sempre com uma arma e dizeres tão ameaçadores quanto: “Pronto para a ação” e “A raiva e o ódio fervem dentro de mim”.

Em um site de cultura gótica, Gil declarava que seu lema era: “Viva rápido, morra jovem e deixe um corpo mutilado.” Matar e morrer: nisso consistia, segundo ele, seu mais profundo desejo e sua meta. E no coração de Montreal, em pleno dia, poucos minutos antes da saída dos alunos do colégio, realizou seu desejo: matou e morreu.

Os que presenciaram a cena dizem que tinha um semblante gélido e um rosto impassível. Não demonstrava nenhuma emoção ou sentimento mais visível aflorando em seus olhos de gelo. Apenas mirou e atirou nas pessoas que passavam a seu lado.

Gil morreu em companhia daquilo que dizia mais amar: as armas. E eliminando aquilo que dizia mais odiar: as pessoas. Morreu jovem como queria, e deixou um rastro de sangue e morte. Buscando desesperadamente a vida, ou melhor, um sentido para ela, atirou-se nos braços da morte como um apaixonado.

O mais profundo de nossos sentimentos é de compaixão e solidariedade às vítimas – mortos e feridos – que neste momento choram e padecem um drama. Mas fica-me no fundo do peito a sensação de que a vítima maior da tragédia de Montreal é o próprio assassino. Pois o que pode haver de pior e mais terrível do que um ser que é feito para a vida desejar a morte? Mais: o que pode haver de mais antivital, anti-humano, quando esses sentimentos enchem o coração de um jovem na flor de seus 25 anos?

O momento é de luto pelas vítimas de Montreal. Mas é também, e não menos, de luto perplexo e atônito diante da figura fria e implacável do assassino Trench. Ele, mais que ninguém, nos interpela desde sua compulsão pelo ódio e pelo crime. Ele, mais que ninguém, nos faz bater no peito e perguntar: que mundo legamos à juventude? Que tremendo mal-estar, que fruto envenenado e intragável está gerando a assim chamada sociedade do bem-estar? Que deserto construímos em torno dos jovens de maneira que seu único e mais caro desejo seja matar e morrer, sem viver, sem amar, sem gerar? Que o Deus da vida acolha em seu seio as vítimas da loucura de Gil. E que este, ainda que a contragosto, se encontre neste momento acolhido pela misericórdia infinita de seu Criador.

 

Proclame sua independência 

Frei Betto

Conquistar independência é um projeto coletivo, mutirão de convicções éticas, teimosia de quem se recusa a acatar o que é como sendo o que será, o que se faz presente como antecipação do futuro

 

Saiba que a maioria dos homens e mulheres não é independente. Carece de vôo próprio. Quais moluscos grudados na pedra, são incapazes de se soltar e mergulhar na vastidão do mar. Julgam que impedem a pedra de se precipitar na água e, assim, permanecem a vida toda colados a um peso que os aprisiona e, no entanto, não é parte deles.

A pedra são os preconceitos que os impedem de olhar a própria alma. Fitam-se nos olhos alheios, têm de si uma imagem importada. Não alcançam jamais aquela auto-estima que brota do mais profundo de si mesmo. Estão sempre a pedir licença para ser o que não são, a suplicar compreensão, a mendigar afeto, sujeitos à servidão voluntária e escravizados por modismos que os transformam em personagens de ilusões descabidas.

Ser independente não se resume a quebrar tabus e inovar comportamentos. É fácil afrontar os diques do moralismo, lá onde se produz a energia nefasta do fundamentalismo, aquele altruísmo às avessas de quem julga saber melhor o que convém aos outros e insiste em subjugá-los à sua vontade. O difícil é cultivar os valores infinitos engendrados pela autonomia da consciência como reduto inexpugnável, a lucidez crítica, a coragem de divergir acima de todas as afeições, a ousadia de dizer não e praticar a ascese do calar-se, descompactuar-se com ações malévolas, jamais subscrever o que pereniza a injustiça, a desigualdade e a exclusão.

Dê o seu grito de independência, mas não com a garganta, como quem exibe uma rebeldia confinada ao niilismo narcísico. Vale é o grito que ecoa na vida social, suscita o vendaval que semeia utopias, rasga horizontes e aplaina montanhas. O grito uterino dessa gravidez histórica que prenuncia albores de partilha. O grito alucinado que imprime sentido à revolução que subverte as causas de todas as misérias.

Conquistar independência é um projeto coletivo, mutirão de convicções éticas, teimosia de quem se recusa a acatar o que é como sendo o que será, o que está como o que restará, o que se faz presente como antecipação do futuro.

Arranque do mais fundo de si mesmo aquele duplo que o falsifica para efeitos sociais. Anule os fantasmas de seus temores; professe o ateísmo frente aos ídolos dessa sociedade que verga os joelhos perante a suposta sacralidade do mercado. Pratique a iconoclastia diante dessa opulência engordada pela perversa gula de quem suga da terra os nutrientes da vida para todos.

Mergulhe no mais íntimo de si sem medo da vertigem provocada pelo inusitado de sua própria identidade. Embriague-se com a sua singularidade e deixe que ela baile no espaço etéreo de sua liberdade. Penetre suas cavernas interiores, explore os subterrâneos de seu inconsciente, deixe que aflorem em revoada todos os anjos que o povoam.

Corte o fio de seu labirinto cartesiano, pois jamais haverá de conquistar independência quem se mantém à superfície, qual náufrago desesperado a boiar agarrado às conveniências, a dar satisfações imerecidas, vestido de espantalho em plena horta de frutas podres. 

Olhe o passado e verá que as pessoas verdadeiramente independentes acreditaram numa causa, deixaram-se impregnar dessa indignação que fizeram delas artífices de um novo tempo. Tomaram em mãos a história e retorceram-lhe o rumo, e suas vidas simbolizam, hoje, novos marcos, pois ali se rompeu o limite entre idéia e ação, sonho e realidade, amor e gesto.

Arraste consigo multidões à independência. Não permita que a linha de montagem do sistema anule o seu ímpeto e rotule os seus projetos, tornando-o mero repetidor ortofônico de velhos discursos embrulhados em sedutoras embalagens.

Saiba que a matéria-prima da independência encontra-se na sua subjetividade, nas dobras do seu ser, naquele outro que o habita e para quem parece estranho aquilo que agora é. Mantém os olhos bem abertos, pois jamais será completa a sua independência se não se alastrar à sua volta, derretendo todos os grilhões que, agora, impedem que todos sejam independentes, solidariamente independentes, amorosamente independentes.

Independência e vida! 

 

POLÍTICA

Voto de 126 milhões de brasileiros definirá ocupantes de 1.655 cargos

Quase 20 mil disputam de deputado estadual a presidente da República

 

O brasileiro decide no domingo 1º, das 8 às 17 horas, quem ocupará 1.655 cargos. Eles estão divididos entre presidente da República e vice, governador e vice de 26 Estados e mais o Distrito Federal, 27 senadores (renovação de um terço do Senado), 513 deputados federais e 1.059 deputados estaduais (ou distritais, no caso de Brasília). Provavelmente, muitas disputas majoritárias (que incluem governadores e presidente da República) ficarão para o segundo turno, marcado para 29 de outubro.

Até as 17h06 de quinta 21, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 18.093 candidatos estavam aptos a concorrer. Dos 20.732 pedidos de registro, o TSE já havia impugnado 1.671 – oito pretendentes morreram e mais de 800 renunciaram. Dos oito candidatos à presidência da República, Rui Pimenta Costa, do PCO, teve pedido de registro rejeitado pelo TSE por unanimidade – o que dificulta muito um recuo diante de recurso.

São Paulo tem o maior número de concorrentes: 2.649 (só a deputado estadual são 1.609, mais  1.005 a federal). Rio de Janeiro é o segundo (2.176) e Minas, o terceiro (1.423). Paraná é o quarto (810) e o Rio Grande do Sul o quinto (808). Santa Catarina tem 452 candidatos.

Quase a metade dos candidatos tem o ensino superior completo (8.795). Por escolaridade, o segundo nível com mais candidatos é o do ensino médio completo: 4.733. Por idade, a predominância é da faixa dos 45 aos 59 anos, com 46,7%. Em seguida vem a dos 35 aos 44 anos (30%). Apenas um candidato tem entre 10 e 20 anos e 242, entre 21 e 24 anos de idade.

É de São Paulo ainda o maior número de eleitores: 28.037.734 (junho/2006). Minas Gerais tem o segundo maior colégio eleitoral, com 13,6 milhões de eleitores. Na seqüência vêm Rio de Janeiro (10,8 milhões), Bahia (9,1 milhões), RS (7,7 milhões) e Paraná (7,1 milhões).

 

Como votar em 1º de outubro

 

A seqüência do voto inicia por deputado federal, segue pelo deputado estadual (ou distrital), para senador, governador e presidente. Como são muitos nomes e números, a Justiça Eleitoral criou uma cola (reproduzida ao lado) que o eleitor pode levar para a sessão de votação.

– O processo de votação não difere da última eleição. Usando o teclado da urna, que é similar ao do telefone, digite o número do candidato de sua preferência a deputado federal. Na tela aparecerão a foto, o número, o nome e a sigla do partido do candidato. Se as informações estiverem corretas, aperte a tecla verde “confirma”.

– A cada voto confirmado, a urna emitirá um rápido sinal sonoro. Após o registro do voto para presidente, o sinal será mais intenso e prolongado e aparecerá na tela a palavra “fim”.

– Se não aparecerem na tela todas as informações sobre o candidato escolhido, aperte a tecla laranja “corrige” e repita o procedimento.

– Para votar apenas na legenda, o eleitor deve digitar o número do partido, que corresponde aos dois primeiros algarismos do número do candidato e confirmar o voto apertando a tecla verde “confirma”. O voto na legenda só será possível em relação para deputado federal e estadual/distrital.

– Para votar em branco, basta apertar a tecla “branco” e confirmar o voto acionando a tecla verde “confirma”. O TSE recomenda cuidado porque o voto poderá ser nulo se o eleitor digitar um número de candidato ou de partido inexistente e depois apertar a tecla “confirma”. 

– Se houver dúvida sobre onde votar nas eleições de 1º de outubro, o eleitor poderá consultar o site do TSE (www.tse.gov.br) e clicar na opção “Serviços ao Eleitor” e depois em “Consulta ao Título de Eleitor e Local de Votação”. Consulta revela o local de votação e se o título está em dia ou não. 

 

ESPECIAL 

FRANCISCO O SANTO DA PAZ E DO BEM 

Há 780 anos, no dia 3 de outubro de 1226, morria em Assis um dos santos mais admirados da Igreja, eleito pela revista Times, dos EUA, como o “homem do segundo milênio”. Frei Aldir Crócoli expressa as cinco grandes razões de ser de São Francisco de Assis, extremamente válidas para os dias de hoje

 

A primeira saudação franciscana, inspirada no evangelho, foi “o Senhor te dê a paz”. Ela poderia ser vista simplesmente como uma manifestação piedosa de alguém que deseja repedir o que o evangelho diz. Todavia, para Francisco, tinha um alcance muito maior: era uma verdadeira bandeira que ele defendia com toda a sua energia.

Lembremos que sua história pessoal foi marcada por experiências de guerra: ajudou a expulsar os nobres da cidade em 1198, lutou contra Perúgia, quando foi derrotado e preso por um ano. Sabe-se hoje que ele teria sofrido de “estresse pós-traumático” (sensação de estar sempre em perigo de morte com insônias, tensões nervosas...), como a maioria dos soldados que participam de guerras. Sofreu também da “culpa do sobrevivente”, próprio de quem, direta ou indiretamente, se sente culpado pela morte de outros (ele com certeza recrutou soldados que, depois, acabaram morrendo na guerra). Francisco assumiu a bandeira da paz porque carregava esse contexto existencial. Pensou muito nas razões que desencadeiam essas guerras sangrentas.

Empenho – Vencidas estas situações humano-psicológicas pela oração e pela graça de Deus, empenhou-se ao máximo para fazer com que a paz reine sempre. Buscou eliminar todas as causas geradoras de tanto sofrimento e morte. Entre elas podem ser citadas: a) a busca de enriquecimento exagerado; b) o desrespeito aos direitos dos outros; c) a falta de fé e confiança em Deus; d) o abuso do poder; e) a divisão da sociedade em pessoas importantes e insignificantes etc. 

E, além dessas maneiras cotidianas de viver podem ser lembrados fatos que mostram o empenho de Francisco pela paz. Em 1220 havia em Bolonha uma séria intriga de famílias. Pregou na praça pública e as famílias refizeram os acordos de paz. Igualmente a cidade de Arezzo vivia dilacerada pelo ódio de dois grupos políticos. Francisco e frei Silvestre conseguiram criar as condições de paz. Em 1226, ano de sua morte, ao saber que o bispo e o prefeito de sua cidade viviam brigados, fez a estrofe do perdão, e chamou os dois à sua presença. Depois de ouvirem a estrofe da paz, o bispo Dom Guido e o prefeito Opórtulo se abraçaram. Mas talvez o fato mais importante ocorreu em 1219, durante a cruzada no Egito, quando, contra a vontade do cardeal que comandava o exército do papa, atravessou o espaço entre os dois exércitos e foi tentar um acordo de paz com o sultão. Não conseguiu o acordo, mas voltou com um salvo-conduto de livre trânsito entre os muçulmanos e deixou lembranças muito positivas naquele povo.

Lobo – Por fim, outro fato, mesmo se lendário, é emblemático para entender a missão da paz  em Francisco. Na cidade de Gúbio, distante  35 km de Assis, dizem, havia um lobo muito feroz: matava animais e até pessoas. Francisco foi à cidade e, contra a vontade dos cidadãos, foi ao encontro do lobo sem arma alguma. Quando a fera se aproximou feroz, Francisco fez o sinal da cruz e lhe falou mansamente, reconhecendo que ele matava para comer. Prometeu que lhe providenciaria sempre comida se ele deixasse de matar. O lobo consentiu com o rabo. Foram à praça da cidade e, diante de todo o povo, propôs o acordo de dar comida em troca da não agressão. Fechado o acordo de respeito recíproco dos direitos, o lobo viveu dois anos entrando e saindo das casas qual cachorrinho de estimação. Uma das constantes dos acordos de paz de Francisco é o respeito profundo pelos direitos essenciais das pessoas e mesmo das coisas. 

Trabalhar pela paz é muito exigente. É preciso, antes de mais nada, ter a paz no próprio coração. Lembrar sempre que “a paz é um bem que se constrói com o bem”. Nenhuma arma ou violência, por mais que esteja disfarçada, jamais constrói a paz. O mundo de hoje tem em Francisco um grande testemunho e exemplo de pessoa que empunhou vigorosamente a bandeira da paz. 

 

Fazer de Deus centro das coisas e da vida 

 

Uma outra razão, que talvez tivesse sido melhor apresentá-la por primeiro; é a bandeira da conversão pessoal, da transformação de si mesmo, da centralidade de Deus na vida. Por incrível que pareça, sem essa nenhuma das outras se sustenta.

O primeiro objetivo de Francisco não era enriquecer, conquistar fama, projeção social. Com muito esforço, com muita oração, com muita reflexão foi contrariando as expectativas familiares e tomando distância dos amigos que o arrastavam naquela direção. Escondia-se em grutas para ali rezar dias inteiros. E assim foi adquirindo a capacidade de optar por outro caminho, o caminho do evangelho. Disse para si mesmo e para seus irmãos que sua “regra de vida consiste em viver o evangelho, em seguir a doutrina e as pegadas de Nosso Senhor Jesus Cristo”. O que Jesus fez, como ele viveu, como rezou, como serviu aos outros, como valorizou as pessoas mais excluídas ... isso seria a única norma de vida para eles. Por essa razão, por contrariar o modo geral de pensar, foi chamado de louco e desmiolado. Mas tornou-se pessoa de referência. 

Quem não coloca Deus como centro de vida, coloca em seu lugar outra coisa para fazer o papel de Deus e governar sua vida. A centralidade de Deus destrona os falsos deuses, confere o verdadeiro sentido das coisas e da vida. Por isso Francisco pôde dizer a Deus: “Tu és o bem, todo o bem, o sumo bem”. 

Tendo Deus como o valor máximo, relativiza-se tudo o resto. A pessoa passa a viver a obediência. Busca transformar a si mesmo e não apenas fazer de tudo para que os outros girem ao redor dele. Eis a bandeira que dá sentido a todas as demais.

 

A pobreza abre caminho para Deus e o irmão 

 

O leitor certamente já está se dando conta de que as várias bandeiras são como faces de uma mesma realidade. Uma bandeira não consegue existir sem a outra. Todas têm sua raiz no modo de ser da pessoa. Por isso é importante pensar no todo comportamental de alguém, em seu modo virtuoso de ser. O próprio Francisco lembra que “quem vive uma virtude sem ofender as demais, na prática, está vivendo todas”.

A bandeira de uma economia solidária e fraterna na boca de Francisco foi chamada de “pobreza”. Aqui preferimos expressá-la de modo diferente, porque a pobreza franciscana é, hoje, erroneamente entendida. Pensa-se que pobreza é apenas privação de coisas, seja por opção seja pela condição social de não poder ter as coisas que gostaria de ter. Na cabeça do nosso santo de Assis, a pobreza é “apenas o primeiro passo em direção à fraternidade”, como se diz no filme “Francesco”, de Liliana Cavani. A razão para renunciar às coisas não está no desejo de mortificar-se pela privação, e sim no desejo de estar mais próximo, ao lado dos pequenos. Podemos perceber também hoje: quanto mais rica é uma pessoa mais cercas ela levanta para “dar segurança” às suas posses: muros, alarmes, cachorros, chaves, guardas etc. Não há dúvida que estas “armas” dão segurança às coisas, mas mantêm afastadas as pessoas. São barreiras para afastar os outros. Eis uma das razões para o “Poverello” de Assis não querer propriedades. A preocupação com a defesa das posses tira a liberdade de ir ao encontro dos outros. 

Os últimos – Outra razão para viver com o mínimo necessário é que a sociedade atribui valor a quem tem bens, que tem casa grande ou apartamento de luxo, carro do ano, empresas, altas profissões, prestígio social etc. Também no tempo de Francisco, por exemplo, uma pessoa que não tivesse ao menos a posse de um animal de trabalho (burro ou boi) não tinha o direito de ser atendido por um juiz. Francisco entendeu que a fraternidade se constrói de baixo para cima, descendo aos últimos. E o modo de fazê-lo é renunciar a qualquer tipo de posse, pois impedem a capacidade de descer. Certo dia, o bispo Dom Guido mandou chamar Francisco e lhe disse: “Parece-me dura demais a vida de vocês sem segurança econômica alguma. Como poderão viver?”. Ao que Francisco respondeu: “Excelência, se tivéssemos bens, precisaríamos também de armas para defendê-los. Aí surgem os desentendimentos, e começa a ser impedido, de múltiplas formas, o amor a Deus e às pessoas. Por isso não queremos posse de nada”. Com essa radicalidade Francisco deixa claro o verdadeiro motivo para não querer propriedade de bens: impedem o amor a Deus (tiram o tempo da oração) e o amor ao próximo (acaba-se afastando as pessoas e dando preferência mais às coisas que a elas). 

Para expressar o rompimento com toda a lógica nefasta do capital que atualmente exclui e torna invisíveis a milhões de seres humanos, Francisco rompeu até com o uso do dinheiro. Só admitia receber dinheiro para tratar a saúde dos irmãos. Assumiram o tipo de vida dos pequenos da sociedade. Trabalhavam para viver (poucos recordam isso!), aceitando em troca as coisas necessárias para a sobrevivência: comida e roupa. Se iam esmolar, muitas vezes, era para os pobres e leprosos com quem conviviam, recordando aos ricos o direito que os pobres tinham de viver. No testamento, escrito às portas da morte, Francisco disse de modo muito enfático: “Eu trabalhava com minhas mãos e quero que meus irmãos trabalhem. Os que não souberem que aprendam”. Ele percebia claramente que o trabalho braçal era o caminho para estar ao lado dos mais pequenos da sociedade.

Quem desejar hoje viver essa bandeira de Francisco também “precisa optar por não ser rico”. O desejo da riqueza cega para os verdadeiros valores. Numa sociedade que endeusa a “economia”, isto é, o acúmulo de bens, Francisco de Assis se apresenta como uma proposta alternativa de paz, de fraternidade, de proximidade humana, de valorização de todo o outro. Uma economia fraterna é o terreno fértil para a paz.

 

A bandeira do ecumenismo e do diálogo

 

Outro jeito de ser de Francisco de Assis que pode ser considerado verdadeira bandeira é sua relação com as pessoas de outros credos religiosos. Hoje em dia a humanidade vive sérios conflitos bélicos em conseqüência de credos religiosos diferentes. Há fundamentalismos que levam a considerar os outros como verdadeiros inimigos. Como pano de fundo da guerra no Iraque estão esses fundamentalismos, quer da parte dos norte-americanos quer dos muçulmanos.

Francisco de Assis viveu num tempo de cristandade onde não se pensava sequer a possibilidade de existência pacífica de outra religião por se achar que apenas na Igreja havia salvação. O papado convocava guerra contra os seguidores de Maomé (as Cruzadas). Em 1215, o Concílio de Latrão IV conclamou a quinta cruzada para libertar os lugares santos da ocupação por infiéis que apenas os profanavam. Os bispos e superiores de ordens receberam três tarefas em vista desta guerra: fazer alianças com nobres; angariar fundos econômicos; e recrutar o maior número possível de militantes. Francisco não fez nada disso. No acampamento, diz Donald Spoto, comportou-se como um pacifista: fazia de tudo para desmobilizar os soldados.

Depois de muito insistir, obteve do comandante geral do exército, o cardeal Pelágio Galvan, a autorização para ir falar com o Sultão. Tratou de estabelecer com ele um acordo de paz. Evidentemente que não conseguiu, porque não tinha credenciais para agir em nome da Igreja e porque o clima estava demasiadamente acirrado. Mas o testemunho de um árabe (Fakhar al-Din Muhammad Ben Ibrahim Farisi) relata a boa impressão que o “monge do Ocidente” deixou entre os muçulmanos. Teria recebido do sultão Melek-el-Kamel um salvo conduto, uma espécie de chifre todo trabalhado artisticamente, (hoje exposto na basílica de São Francisco em Assis), mediante o qual tinha livre trânsito por todo o território árabe.

Ao retornar à Itália escreveu um novo capítulo na Regra dizendo: “Os freis que vão entre os sarracenos e outros infiéis podem se portar de dois modos: a) primeiramente, não discutam verdades teológicas, nem queiram convencer a ninguém de nada. Antes se portem pacificamente como irmãos, acolhendo a realidade diferente que encontram; b) depois: quando perceberem que há condições, anunciem humildemente a Jesus Cristo. Portanto, nenhuma imposição. Nada de sentir-se dono da verdade e da salvação. Antes alegrar-se que eles possam viver verdadeiramente sua fé. Aprender deles as coisas boas. Francisco importou deles um modo de lembrar o povo de rezar. Eles soavam a trombeta e todo o povo se prostrava em direção a Meca e orava. Retornando à pátria pede aos governantes para que todos os dias toquem os sinos para o povo rezar. É a origem do nosso Ângelus da manhã e da tarde.

É essa atitude dialogal, inclusive na dimensão mais sagrada e profunda, a fé, que faz de Francisco o portador da bandeira do ecumenismo e do diálogo inter-religioso.

 

O respeito profundo pelas criaturas 

 

Há quatro décadas, o papa declarou Francisco de Assis patrono da ecologia e padroeiro dos animais, a pedido de um grupo de cientistas. Em muitas igrejas e em outros ambientes, no dia de São Francisco, 04 de outubro, são levados animais para serem abençoados. O que levou aquele grupo de cientistas e a humanidade toda hoje em dia olhar para Francisco para aprender dele a se relacionar com a natureza?

Certamente no tempo de Francisco não se ouviam notícias e informações como as atuais sobre o superaquecimento do planeta terra, ondas de calor ou de frio que superam recordes, secas ou inundações, espécies de animais ou plantas ameaçados de extinção, desertos aumentando assustadoramente, monoculturas (soja, eucalipto ou cana de açúcar aqui no Brasil) destruindo a biodiversidade em extensões cada vez maiores. É preciso, hoje, andar sempre com protetor solar para evitar câncer de pele. A água está poluída, os alimentos envenenados com agrotóxicos ou alterados geneticamente. São problemas de hoje, inimagináveis no passado. E, no entanto, a humanidade olha para Francisco como uma fonte de esperança de reversão desta crise avassaladora que toma conta de nosso tempo.

Por outro lado, não convém ser ingênuo e imaginar que a solução consistiria em “virar poeta ou criança encantada”. O “Cântico do Irmão Sol” de onde emerge um universo reconciliado é ponto de culminância de todo um processo de vida percorrido na fé em Deus, no respeito à vida presente nas pessoas e em todos os seres da natureza, na auto-proibição de se apossar do que quer que seja. Dessa postura brotou uma atitude “inocente” (etimologicamente quer dizer “não nociva”) para com todas as criaturas.

Há muitos fatos na vida deste santo que ilustram seu respeito a toda a forma de vida: pedia aos que faziam lenha para só cortar a árvore acima do primeiro galho para que rebrotasse mais facilmente. Queria que o hortelão reservasse um canteiro para as ervas daninhas e as flores, já que elas louvam a Deus. Servia vinho doce às abelhas no rigor do inverno. Não tem coragem de apagar uma chama de vela, um fogo porque toda a luz provém de Deus. Retira uma minhoca do caminho para não ser pisada. Bendiz pela água que lhe lava as mãos e o corpo. Liberta uma lebre caída no alçapão de um caçador.

O que se pode ver em Francisco que serve de inspiração para nós hoje? Há algo em Francisco que, se vivido, inverteria a trajetória da história. É a atitude de respeito profundo para todas as criaturas. No dizer dele devemos estar “sujeitos a todas as criaturas”. Nós do século 21 nos sentimos exatamente ao contrário: seus proprietários, com a possibilidade de fazer delas o que bem entendermos. Francisco nos ensina a não ser superiores, mas irmãos e irmãs de todas as coisas. Servir a toda a forma de vida e não apenas servir-se dela. 

Esse modo de ser é muito exigente. Apenas será possível quando se renunciar à ganância, ao desejo desenfreado de lucro. Por isso a ecologia tem a ver com a economia e com a fraternidade cósmica. Bem dizia aquele cacique na carta escrita em 1855 ao presidente dos Estados Unidos: “Tudo o que acontecer à terra acontecerá aos filhos da terra”. Que essa profecia – infelizmente em andamento – possa ser revertida para que a vida prevaleça.

 

IGREJA 

Ordem aprofunda identidade capuchinha 

Capítulo Geral definiu linhas programáticas para os próximos seis anos

 

Uma missa, presidida pelo novo ministro-geral, frei Mauro Jöhri, e um almoço festivo marcaram o encerramento do 83º Capítulo Geral da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, realizado  em Roma. O Capítulo foi uma manifestação de genuína fraternidade, harmonia e unidade, embora a pluriformidade de línguas, culturas e tradições. 

Da província do Rio Grande do Sul participaram, como capitulares, o provincial, frei Álvaro Morés, e o vigário-provincial e definidor para os meios de comunicação, frei Cleonir Dalbosco. Segundo frei Cleonir, o Capítulo reafirmou o trabalho realizado em conformidade com o Concílio Vaticano II e o magistério da Igreja, na concretização da identidade franciscano-capuchinha. 

Além da eleição do novo ministro-geral e de seu definitório, o Capítulo Geral traçou as linhas programáticas para o próximo sexênio (2006-2012), distribuídas conforme as circunscrições. Para a América Latina, foram definidas diversas linhas, que destacam sobretudo a identidade capuchinha, a vida fraterna, a formação e a ecologia.

Para o aprofundamento da identidade capuchinha, os frades farão uso de todos os recursos que favoreçam a revitalização como consagrados para o serviço do Reino. Os freis do continente também se comprometem a evidenciar a espiritualidade e a mística capuchinhas, que estão na base da oração contemplativa; continuar o processo de fortalecimento da vida fraterna como dom de Deus à Ordem e tornar as fraternidades cada vez mais lugares de experiência concreta do amor de Deus.

Convivência – “Zelar para que nossas fraternidades sejam espaços de integração e de intercâmbio fraterno das diversas culturas que formam nossa identidade latino-americana; e como a vida fraterna é nosso principal apostolado, abrir nossas fraternidades ao povo para que experimentemos a alegria da convivência e possamos oferecer a beleza do nosso modo fraterno de ser”, explica frei Cleonir, são outras duas dimensões que os capuchinhos se propõem desenvolver.

Outras metas que os capuchinhos pretendem concretizar são as de acolher as diversas expressões de religiosidade popular, como manifestações de fé e de cultura; e cuidar para que a dimensão ecológica da espiritualidade franciscana se concretize em formas diversas no cuidado da criação e das criaturas, incentivando nas fraternidades capuchinhas práticas ecológicas.

Durante três semanas, de 28 de agosto a 17 de setembro, 174 capitulares e dezenas de outros freis, convocados para os diversos serviços, permaneceram reunidos no Colégio Internacional São Lourenço de Brindes, em Roma, representando quase 11 mil capuchinhos que vivem e trabalham em 101 nações do mundo. Durante o Capítulo, 75.269 pessoas visitaram o site da Ordem em busca de informações e acompanhando o desenrolar do encontro.

 

Desafio maior para os frades é criar pontes e compreensão

 

Na mensagem especial, dirigida aos capuchinhos do Rio Grande do Sul, o novo ministro-geral, frei Mauro Jöhri, disse que eles devem ir onde ninguém vai, lá onde é preciso sujar as mãos, onde estão os mais pobres: 

“Eu sei que no RS são muitos os capuchinhos e que os freis trabalham também muito bem junto do povo. Espero que esse povo vos ajude ainda a crescer na fraternidade e também na fé para ser um povo solidário, um povo atento sobretudo aos mais pobres. Aos frades eu digo: tenham a capacidade de observar aquilo que se passa ao vosso redor e respondei às necessidades mais urgentes. Ide lá onde ninguém vai. Ide para onde se possa também sujar as mãos, mas onde se está próximo dos pobres. Esse é o nosso carisma original.

Durante as três semanas do Capítulo, a atmosfera que reinou entre os frades – provenientes de 101 países que falam muitíssimas línguas, de todos os continentes – foi muito fraterna. Eu fiquei muito surpreso ao ver que fui eleito com 90% dos votos no 1º escrutínio. Penso que este seja um grande sinal de unidade da Ordem. E a mesma coisa ocorreu com os Definidores. A Ordem está unida.

Os desafios principais da Ordem são de que continuemos a ser autores, instrumentos de paz, capazes de criar pontes e de criar compreensão. Porque a ameaça maior do nosso mundo é aquela da contraposição das culturas, das religiões, a contraposição também entre ricos e pobres. Nós queremos um mundo de irmãos.

Um outro desafio é este: Se nós queremos marcar presença entre as pessoas, se queremos doar nossa vida com o coração e a inteligência precisamos estar preparados. Preparados cientificamente, mas também preparados espiritualmente, isto é, devemos dar um espaço grande à vida de oração, à vida interior porque somente partindo de uma interioridade profunda seremos também capazes de uma atenção maior diante de quem vem à procura de nossa ajuda ou quer fazer uma parte do caminho conosco”. (Entrevista a frei Cleonir Dalbosco para os capuchinhos do RS, Roma, setembro de 2006)

 

Palavras que aprisionam

Padre Zezinho

Palavras curam. Mas palavras demais machucam e matam

 

Passei dois longos períodos na Itália, nos anos setenta. O comunismo ainda não sofrera as acachapantes derrotas que aconteceriam dos anos 83  em diante. Era , pois, freqüente ouvir a propaganda dos governos da Romênia, da Albânia e outros países comunistas, em italiano, português e francês. A impressão que davam era a de que seus países tinham progredido em paz e que os pobres ocidentais estavam cada dia mais esmagados pelos seus governos antidemocráticos cruéis e violentos. É claro que não enganavam nem mesmo os mais simples, que também tinham aparelhos de rádio e também ouviam o outro lado. Chamavam suas ditaduras de governo do povo. 

Falavam como sectários. Só eles eram bons. Só eles eram certos. O marxismo venceria e o mundo seria comunista. Igrejas, capitalismo, partidos ocidentais, todos pereceriam. A fraternidade era e seria cada dia mais comunista. Erraram! Seu sistema envelheceu depressa e nem precisou ser conquistado. Implodiu. Morreu engasgado pelas próprias palavras. Falou tanto que ninguém mais agüentava ouvir aqueles auto-elogios. Principalmente porque era marketing falso e mentiroso.

Palavras curam, mas palavras demais machucam e matam. A palavra certa pode salvar e amadurecer, mas a palavra excessiva e as intermináveis repetições produzem efeito contrário. Jesus ridiculariza isso (Mt 6,7-9) ao dizer que alguns pagãos achavam que a oração valia pelo palavreado ou pela quantidade de palavras. Sugeria moderação: menos palavrório e mais conteúdo! (Mt 6,9-12). A seguir dá o exemplo no “Pai Nosso” de como se pode falar ao Pai com conteúdo de louvor, de súplica, de contrição e de compromisso. 

Historiadores e sociólogos afirmam que uma das razões da derrocada do comunismo foi a diarréia de palavras. Seus propagandistas falaram demais. O povo se cansou da mesmice! O regime não tinha mais o que dizer. 

As religiões precisam tomar o mesmo cuidado. Quando pregadores e fiéis, toda a vez que abrem a boca, acabam usando os mesmos vocábulos, as mesmas expressões, as mesmas orações, podem começar a se preocupar. É falta de conteúdo. Alguém lá não anda lendo os outros, nem ouvindo os outros segmentos de sua Igreja. Aprisionados na própria espiritualidade e nos próprios vocábulos acabarão sem ter o que dizer. Não ouviram os outros e agora não são suficientemente criativos para se libertar de seus cacoetes ou de sua tautologia. Todo mundo já sabe o que eles dirão. Veja, ouça, estude e confira! A verdadeira ascese é muito mais criativa! Deus é criativo!

 

Estef abriga mais de 52 mil obras

Escola inaugura nova biblioteca no dia 6 de outubro

 

Será inaugurada  em Porto Alegre nesta sexta-feira  6 a nova biblioteca da Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana (Estef). O novo prédio de três andares, ao lado do convento dos capuchinhos, na rua Paulino Chaves, 291, abriga um acervo de 52.340 títulos, sendo 34.380 na área de Ciências Humanas, sobretudo da Teologia; 11.502 volumes de Literatura e Artes; 3.010 na área das Ciências da Saúde; e 3.450, das Ciências Sociais Aplicadas.

O acervo de revistas conta com 249 títulos, nacionais e estrangeiros, dos quais 87 permutados com a revista Cadernos da Estef, publicada pela Escola desde  1986. A nova biblioteca dispõe de amplo espaço para pesquisa individual, salas para estudo em grupo, mini-auditório e computadores para pesquisa on line. A biblioteca está aberta ao público das 7h30 às 17h30. 

A história da biblioteca está vinculada à história dos capuchinhos franceses que chegaram ao RS em 1896, trazendo na bagagem muitos livros. A biblioteca permaneceu em Garibaldi, onde estava a Escola de Teologia, até 1950, quando foi transferida para Porto Alegre. Hoje constituí-se num patrimônio cultural de valor incalculável.

O ato de inauguração, às 17h30, contará com a presença de dom Antônio Cheuíche, bispo emérito, que dará a bênção ao prédio; do provincial dos capuchinhos, frei Álvaro Morés; de professores, alunos, autoridades e convidados.

 

Dom Sinésio Bohn recebe medalha do Mérito Farroupilha 

 

O bispo de Santa Cruz do Sul (RS), dom Aloísio Sinésio Bohn, foi agraciado com a medalha do Mérito Farroupilha. A Assembléia Legislativa gaúcha concedeu distinção ao bispo no dia 19 de setembro, por iniciativa do deputado estadual Luis Fernando Schmidt (PT). “Foi uma homenagem não só à figura de dom Sinésio, mas principalmente ao seu trabalho com os jovens do Rio Grande”, destacou Schmidt, ao recordar a atuação do bispo na Pastoral da Juventude no Estado.

Dom Sinésio está há duas décadas à frente da diocese de Santa Cruz do Sul, no Vale do Rio Pardo, criada pelo Papa João XXIII em 1959. Coordena mais de 50 paróquias e mil comunidades eclesiais. Nascido em Montenegro há 72 anos, é graduado em Filosofia, Teologia e Direito Canônico. É sacerdote desde 1961 e bispo desde 1977. A medalha do Mérito Farroupilha é a mais alta distinção que a Assembléia concede a autoridades que contribuíram ou contribuem para o desenvolvimento econômico, social e cultural do Estado.

 

Jufra do RS elege secretária regional

 

Ariana Baccin dos Santos foi eleita secretária regional da Juventude Franciscana (Jufra) do Rio Grande do Sul. A escolha ocorreu durante o 10º Congresso Regional da Jufra, que reuniu cerca de 30 jovens dos diversos grupos existentes no Estado. Ariana vai coordenar a Jufra nos próximos três anos, auxiliada por Sílvia Zanatta, eleita sub-secretária.

Além da eleição, o congresso fez uma revisão da caminhada no último triênio e definiu metas para os próximos três anos. Também participaram do evento Anderson Montesol, de Foz do Iguaçu (PR), da coordenação nacional da Jufra; frei Isaías Bordignon, assistente regional da OFS; e Moacir Miotto, ministro regional da OFS. Congresso foi realizado em Marau, dias 19 e 20 de agosto. Um dos próximos eventos da Jufra é um curso de aperfeiçoamento, nos dias 4 e 5 de novembro,  em Santa Maria , para jovens santa-marienses.

 

Evento no Partenon reflete sobre a vida

 

A Pastoral da Saúde do Regional Sul 3 da CNBB e a Pastoral da Saúde da paróquia Santo Antônio do Partenon realizam, dias 6 e 7 de outubro, o 7º Seminário Viva a Vida. Atividade ocorre nas dependências da paróquia Santo Antônio,  em Porto Alegre. A assessora técnica do Conselho Nacional da Saúde, Adalgisa Balsemão Araújo, abre o evento com uma análise de conjuntura sobre a situação da saúde pública no país. Também serão abordados temas de caráter técnico e pastoral.

O seminário se insere na Semana Nacional da Vida, celebrada pela Igreja no Brasil de 1º a 8 de outubro para colocar em evidência o valor sagrado da vida e a preciosidade desse dom dado por Deus a cada um. Diante de tantos ataques que a vida sofre nos dias atuais, a Igreja assume como missão reafirmar sua importância “inalienável e inegociável”.

 

Dois pesos inúteis

Aldo Colombo

Não somos anjos, mas criaturas humanas, e os erros fazem parte da nossa caminhada 

 

No filme A Missão, um jovem jesuíta, interpretado por Robert de Niro, viaja pela floresta, com alguns companheiros, subindo as cataratas do rio Iguaçu em direção a uma aldeia guarani. Como pano de fundo surgem as imponentes quedas d’água, mas o percurso é extremamente difícil. Qualquer passo em falso pode significar a queda para o abismo. Contrariamente aos demais que nada carregam consigo, o jovem jesuíta arrasta um pesado fardo, onde além de seus pertences pessoais, carrega uma armadura e uma espada. São lembranças de um passado recente.

O amor, o ciúme e o ódio haviam causado uma tragédia familiar. Ele matara o irmão e a culpa estragava sua vida. Mesmo tendo ingressado na vida religiosa, carregava consigo o fantasma do passado, simbolizado no fardo. Os apelos para abandonar a incômoda carga haviam sido inúteis. Mas um dia os índios cortam as amarras e seu fardo rola no abismo, sumindo nas cachoeiras. Então ele chora e ri ao mesmo tempo. A caminhada prossegue, agora, sem qualquer dificuldade.

A pesada carga simboliza duas realidades: a ganância e a culpa. Há pessoas que passam pela vida carregando incômodos remorsos do passado Elas julgam e condenam a si mesmas. Por vezes as pessoas também se condenam, mas Deus não julga e não condena. Ele perdoa.

O ponto de partida é a própria pessoa perdoar-se a si mesma. Não somos anjos, mas criaturas humanas, e o erro faz parte de nossa caminhada. O que não podemos é passar a vida culpando-nos por um ou vários erros cometidos. E por isso devemos perdoar-nos – perdoar a nós mesmos – sobretudo porque Deus já nos perdoou. Deixar o fardo da culpa rolar para o abismo do esquecimento é um gesto de sabedoria, de amor a nós mesmos e a Deus que tem alegria em nos perdoar.

A ganância dos bens terrenos também dificulta demais a caminhada. Ao longo do tempo vamos acumulando coisas que em nada nos ajudam e muito nos atrapalham. O peregrino sabe que precisa carregar consigo apenas o essencial para a caminhada. Uma pesquisa, mesmo superficial, em nossos armários, guarda-roupas e gavetas pode explicar algumas dificuldades no caminho da vida. Uma pesquisa em nosso interior também é essencial para caminhar e ser feliz.

Francisco de Assis, um dia, deu-se conta disso. Jogou fora toda a bagagem inútil. Jogou fora as pesadas moedas do pai e os pecados de sua juventude e, a partir daí, andou livre e feliz pelos caminhos do mundo. Ele repetia: Meu Deus e meu Tudo. Depois que descobriu o Deus-Pai, ele descobriu também os irmãos. E estes muito ajudam na viagem pela vida. A mesma filosofia foi seguida por Santa Teresa: “Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa. Quem tem a Deus nada lhe falta”.

 

Superior-geral visita maristas gaúchos

Irmão Seán Sammon conhece atividades do Instituto no Estado

 

Como parte do trabalho de animação e acompanhamento da atuação marista no mundo, está no Rio Grande do Sul o superior-geral do Instituto Marista, irmão Seán Sammon. Ele permanece no Estado durante 13 dias e nesse período realiza visitas às unidades sociais, educacionais e vocacionais, nas quais conversa com os irmãos, com os leigos e com crianças e jovens atendidos nas instituições maristas e nas casas de formação.

A visita faz parte de um amplo programa de acompanhamento das unidades administrativas do Instituto pelo mundo, que tem como objetivo avaliar o vigor do trabalho marista e buscar soluções conjuntas para os desafios. Além de casas e instituições de Porto Alegre, irmão Seán também já visitou Bom Princípio, Viamão e Santa Maria. O superior-geral permanece no Rio Grande do Sul até o dia 30 de setembro. No dia 1º de outubro viaja a Curitiba.

Brasil – Fundado por São Marcelino Champagnat em 1817, na França, hoje o Instituto Marista está presente em 76 países nos cinco continentes. Tem aproximadamente 25 mil pessoas ligadas aos colégios, centros sociais, universidades e centros de formação que mantém para atender 150 mil crianças e jovens. O Instituto chegou ao Brasil em 1897 e o país representa 30% da atuação marista.

O atual superior-geral dos maristas nasceu em Manhattan, Nova York (EUA) em 1947, filho de pai irlandês e mãe inglesa. É doutor  em Psicologia Clínica. Publicou dez livros e um grande número de artigos sobre temas de psicologia e vida religiosa. Em 1987 foi nomeado provincial da Província de Poughkeepsie. Em 1993 foi eleito vigário-geral dos Irmãos Maristas e, em 2001, durante o XX Capítulo Geral, superior-geral do Instituto, para uma gestão de oito anos.

 

Morre irmã Terezinha Presotto, diretora do ACPMen

 

Irmã Terezinha Presotto, da Congregação das Irmãs Murialdinas de São José, que desde 2001 desempenhava a função de diretora da Associação Centro de Promoção do Menor (ACPMen), do bairro Santa Fé, em Caxias do Sul, faleceu no dia 13 de setembro, aos 60 anos. Era natural de Veranópolis, onde nasceu aos 4 de outubro de 1945, quinta dos nove filhos de José Eleutério e Rosa Grandi Presotto.

Ingressou na congregação das Murialdinas em 1965, iniciando sua caminhada de doação a Deus e aos irmãos. Por mais de 20 anos trabalhou como educadora e formadora de jovens no colégio Santa Maria Goretti, em Fazenda Souza, prestando serviços de coordenação da comunidade religiosa e em atividades paroquiais. Também atuou na escola São João Bosco, no Bairro Restinga de Porto Alegre; e  em Presidente Castelo Branco (PR).  

Desde 2001 era diretora do ACPMen, projeto intercongregacional voltado ao atendimento de crianças, adolescentes e jovens carentes, para quem foi “amiga, irmã e mãe”. Tinha vivas em seu coração as atitudes e a pedagogia de São Leonardo Murialdo, visando educar o coração de seus atendidos e formar com todos uma família unida.

Foi uma religiosa de incansável disponibilidade a qualquer serviço que lhe fosse solicitado. Filha de agricultores, gostava de trabalhar a terra e nos serviços mais difíceis. Foi corajosa, perseverante, caridosa, serviçal e manteve sempre acesa a lâmpada da fé e do amor a Deus e ao próximo.

 

Religiosa vicentina falece aos 75 anos

 

Irmã Catharina Maria Saccardo, religiosa da congregação das Irmãs Vicentinas da Caridade, morreu aos 75 anos de idade. Filha de João e Assunta Saccardo, nasceu no dia 1º de outubro de 1930 em Erechim (RS) e faleceu no dia 3 de abril de 2006, em Planalto (PR), onde conquistou muitos amigos, desempenhou atividades educativas e pastorais e amava a cidade. Religiosa vicentina desde 1953, trabalhou em diversas cidades paranaenses – Laranjeiras do Sul, Foz do Iguaçu, Ponta Grossa, Ivaí, Jacarezinho e, desde 1978, em Planalto.

Formada em Geografia pela faculdade de Ciências e Letras de Ourinhos (SP) e em Estudos Sociais pela universidade de Santa Cruz do Rio Pardo (SP), também destacou-se como professora no Ginásio João Zacco Paraná, no colégio cenecista Arnaldo Busato e na direção da Escola Normal Colegial de Planalto.

Em Planalto, coordenou grupos de família, pastoral da terceira idade, integrou o Conselho de Pastoral da matriz e ministrava palestras em cursos de noivos.

 

Ver o bem no outro

Wilson João

Só o amor permanece. Somente o que é feito com amor se eterniza. O resto se perde no tempo

 

Começo a ser ruim desde o momento em que declaro que os outros são ruins. Há pessoas demais que usam óculos escuros, tanto nos olhos da cabeça como nos olhos do coração. Há pessoas demais colocando películas escuras em carros, e muito mais nos olhos da vida, vendo tudo com a cor da noite e das trevas. Odiar a luz é odiar-se. Evitar a luz é evitar a verdade. Esconder-se atrás das trevas é distanciar-se daquele que disse: “Eu sou a luz... vocês são luz.” 

NÃO É BOM ACHAR-SE RUIM. Quem fica com os ouvidos atentos às expressões que muitas pessoas usam referindo-se a si mesmas, percebe que a auto-estima anda muito em baixa: “Eu sou ruim mesmo, burra mesmo, sou azarada, nada dá certo comigo, não tenho sorte...” Quem vai ter sucesso na vida fazendo-se uma pessoa derrotada no dia-a-dia? Quem vai crescer como pessoa, realizando seus sonhos, se os sonhos são esmagados pelos pensamentos negativos de si mesmo e pelas emoções doentias? Por que não ver-se como criatura maravilhosa, que tem potencialidades enormes, e que ainda tem muito a criar e a viver? Por que não perceber-se como alguém que tem um destino de vida plena, de felicidade, de alegria e de realização em todos os sentidos da vida? 

VEMOS O OUTRO COMO NOS VEMOS. Alguém me diz: “você está bem com essa maleta cheia de dinheiro!” Respondo: “aqui dentro tem aquilo que está em sua cabeça”. A gente vê e pensa do outro aquilo que é. A gente, bobamente e ingenuamente, se revela pelas palavras e atitudes do dia-a-dia. É difícil suportar uma convivência e uma conversa com pessoas que não sabem falar a não ser de acidentes, doenças e fatos negativos. Carregam dentro de si a tradicional e negativa imagem do “jornal nacional” que muitas pessoas o assumem como o escovar os dentes depois das refeições. A melhor iniciativa é começar a escutar-se e sentir-se. Escutar o que falamos e tomar nas mãos nossas emoções. Elas são nossa maneira de viver. Escutar-se é perceber quem somos.

HÁ BONDADE EM CADA CORAÇÃO. Deus vê as bondades. Vê os frutos. Vê e recolhe tudo o que é gesto de amor. Só o amor permanece. Somente o que é feito com amor se eterniza. O resto fica tudo perdido no tempo. Por que não ver os gestos de amor em cada ato humano? Ninguém é tão ruim que deseja a infelicidade para si. Apenas tenta a felicidade por caminhos errados. Há uma bondade em cada coração humano que temos que ver e sentir. Deus vê e valoriza essa bondade, porque Deus é bom. À semelhança de Deus, quem vê o bem é bom, quem vê o mal é maldoso.

 

CORREIO SABE-TUDO

RIQUEZA MARINHA

 

Um tubarão que “anda” com as nadadeiras, 24 tipos de peixes, oito espécies de camarões e 20 de corais. Estas foram as descobertas feitas pela expedição da organização ambiental Conservation International à região indonésia de Papua Ocidental.

Em menos de seis semanas, os pesquisadores encontraram mais de 50 novas espécies marinhas. Acredita-se que muitos desses animais são endêmicos da região, ou seja, não podem ser encontrados em nenhum outro lugar do mundo. Seis dos locais pesquisados têm a maior variedade de corais jamais vista, com mais de 250 espécies por hectare. Segundo Mark Erdmann, que liderou a expedição, isso representa mais de quatro vezes o número total de espécies de corais de todo o mar caribenho numa área do tamanho de dois campos de futebol.

A área explorada pela expedição, próxima às montanhas Foja, é considerada um dos ambientes marinhos mais ricos da Terra. Porém, as águas que abrigam baleias, tartarugas, crocodilos e mais de 600 espécies de corais estão ameaçadas por uma proposta do governo que autoriza o aumento da pesca comercial na região.

Os oceanos são um ambiente desconhecido e ainda inexplorado. Até hoje, a ciência apenas passou pela superfície dos mares, que representam 70% da área da Terra. Sobre a vida nas profundezas, sabe-se muito pouco e é justamente lá que estima-se que esteja mais de a metade da biodiversidade marinha.

Em dois séculos de pesquisas oceanográficas, foram catalogadas somente 230 mil espécies. Essa quantidade é considerada ínfima, se comparada ao 1,5 milhão de espécies animais identificadas no ar, na terra, nos rios e nos lagos. Segundo algumas estimativas, há cerca de 2 milhões de espécies a serem descobertas nos oceanos, 90% delas são microorganismos.

 

Censo desvenda os oceanos

 

Para desvendar os mistérios dos mares, está sendo desenvolvido, há seis anos, o Censo da Vida Marinha, que reúne 1.700 cientistas de 70 países. Desde o início do censo, os pesquisadores já registraram 10 mil espécies antes desconhecidas.

Este inventário do fundo do mar, que deve ser finalizado até 2010, terá papel importante no futuro da humanidade. Nos últimos 50 anos, a quantidade de alimentos retirada dos oceanos quintuplicou, enquanto a população mundial dobrou. Conhecendo o que se esconde debaixo d’água, os governos poderão estabelecer com maior segurança regras e cotas para a exploração dos recursos marítimos.

 

Peixe-lua no Brasil

 

Pescadores de São José da Coroa Grande, Pernambuco, encontraram um peixe-lua, com 1,7 metro de comprimento. O animal, de formas arredondadas e corpo achatado, é muito raro. Existem só três exemplares no mundo. Trata-se do maior peixe ósseo conhecido, que pode atingir 3 metros e cerca de 2.300 quilos. O peixe-lua vive a mais de  600 metros de profundidade. Acredita-se que ele tenha sido mordido por um tubarão e trazido à tona. O animal será empalhado e levado para o museu oceanográfico da cidade.

 

Animais domésticos

 

Você sabia que o Brasil é o segundo país do mundo com a maior população de animais domésticos, perdendo apenas para os Estados Unidos? São 28 milhões de cães, 12 milhões de gatos e 4 milhões de outros bichinhos de estimação. Isso significa que há um cachorro para cada seis habitantes do país e um gato para cada 16 pessoas. Já existem cidades com mais pet shops (são 8 mil no Brasil) e clínicas veterinárias do que padarias e farmácias.

 

CULTURA DA IMIGRAÇÃO

A italiana que gostaria de ser

Alessandra Fernandes Sarraiva Fonseca

Advogada, Porto Alegre-RS

 

Alessandra se apaixona pelo pai, mas casa com o filho, que lhe revelou amor à moda italiana (Rovílio Costa):

 

“Escrever sobre alguém que não conheci é missão difícil, mas prazerosa, porque fui estimulada pela admiração, respeito e amor do seu filho, Alcindo Pavan, incansável na luta pela manutenção das raízes italianas. Percebi o que significa ser italiano através de seu pai Antônio Pavan, ou Toninho, como era carinhosamente chamado por todos. E a palavra carinhosamente me remete à palavra latina carere, que, logicamente, me leva à Itália, que nos legou este homem carinhoso, dedicado ao trabalho, vivendo a profundidade da fé e do amor, que chegaram a mim através de seu filho Alcindo, e que admiro nos descendentes italianos.

Seu Toninho, neto de imigrantes italianos, nasceu e cresceu em Veranópolis (RS), onde casou com Dona Lourdes Itália Bissani Pavan, mulher igualmente carinhosa, mas de fibra e coragem, que, de mãos dadas ao grande amor de sua vida, construiu uma sólida família de três filhas e um filho.

Deixei-me impregnar da fé que Toninho me testemunhou, através de Alcindo, uma fé que revelava a presença de Deus em sua pessoa e família e em seus ideais, trabalhos e lutas, seja na saúde como na doença. Senti que Deus foi seu grande companheiro. Deus esteve a seu lado de modo especial na década de 1970, quando seu Toninho foi atropelado, quebrou uma perna, sofreu uma cirurgia e lutou por dois anos contra a conseqüente infecção. Não mais suportando a doença, Toninho fez promessa a Nossa Senhora de Lourdes, a Santa da Gruta de Veranópolis, de ir de Porto Alegre a Veranópolis, a pé. Foi curado e, cumprindo sua promessa, chegou a Bento Gonçalves com os pés deformados de bolhas, mas feliz, porque, dizia, “Deus está comigo.”

Dona Lourdes atesta assim o amor que Toninho lhe tinha: “Era um homem bom, honesto e trabalhador, não falava mal de ninguém; quando ficava bravo, ia para a roça, capinava um pouco e voltava como se nada tivesse acontecido.” Faleceu depois de 46 anos de casamento, e, ainda é possível contemplar seu amor no brilho iluminador dos olhos de Dona Lourdes. Os dois foram para mim a certeza de que Deus nos ama.

Trabalhar mais do que o necessário para viver, e trabalhar como forma de lazer, permanece em mim como lição de vida, amor à família e alegria de viver. A cada gesto, a cada força, a cada grão plantado, a cada ordenha, a cada colheita, a cada geada, a cada praga, a cada seca ou chuva, a música era sempre a mesma – trabalho, trabalho!... Com freqüência, ao amanhecer, descia ao porão da casa para fazer cestos de vimes ou outros trabalhinhos até a família levantar. Mas sempre depois de rezar!

Querendo aos filhos mais que a si próprios, Toninho e Dona Lourdes trouxeram-nos para Porto Alegre, para terem chances de estudar, e, superando a dor da separação, voltaram para Veranópolis, acompanhados apenas da solidão. Lucinda, a primogênita, é formada em direito; Luci, a penúltima, é veterinária; Lolita, a caçula, é economista. Alcindo, único filho homem, bacharel em Ciências Contábeis e em Ciências Atuariais, funcionário público, é meu marido, grande homem como seu pai, responsável pela admiração que tenho aos italianos que souberam tirar da terra adversa a subsistência, que trouxeram consigo a fé em Deus, o amor à vida, ao trabalho e às suas tradições, agora também minhas. Sem a segurança de Toninho e Lourdes, não me aventuraria à utopia de amor com Alcindo” (ale_fsf@yahoo.com.br; fone (51) 32662315)

 

EL RITORNO DE NANETTO PIPETTA (379)

Ritorno a Venèssia

Mário Gardelin

Professor, historiador e pesquisador, Caxias do Sul-RS

 

Na matina, Nanetto, col Pègaso, el zola fin al Moro Grande, rente Fazenda Souza, de dove el varda la sità de Caxias, e el órdina al caval:

– Meu cavalo de ouro, ndemo a Venèssia, onde son nassisto. Vui veder la cesa de San Marco, el campanil, el Canal Grando, la Ponte dei Sospiri e el posto dove go visto el volto de Santo Enrico, ma, prima, vui veder Marco Polo. 

Pègaso, sàvio, el varda a Nanetto, maraveià! Nanetto ga dà na osada. El caval el verde le ale, el zola sul Àfrica, sul Mediteràneo... e el vien fermarse davanti el cafè Florian. Nanetto el salta do, el va rento e el comanda un capucino. El cameriere ghe lo porta e, incantà co sta figura difarente, el domanda:

– Ze la prima volta che vegné qua?

– Nò. Cognosso sta bela sità da tanti ani, el varda el cameriere e el scomìnsia cantar:

Su la Piazza di San Marco / Fu letta la mia sentenza, / Cara mamma, porta pasienza, / Io alla morte dovrò andar.

El cameriere, che no’l conossea sta cansion, el domanda:

– Dove gavì imparà sta bela melodia?

– A Ana Rech, col maestro Basso, che savea tuto de Venèssia, e el ga intonà staltra mùsica:

Soto el ponte, soto el ponte de Rialto / Fermeremo la barcheta / Per andare in gondoleta, / Ò Venèssia, regina del mar!

El cameriere se mete rìdere, e el dise.

– Questa la sò anca mi! Ma, sta Ana Rech no zela de Belun?

– Sì, ma dal altra banda del mar, dal Rio Grande do Sul, in Brasile.

– Brasile, la tera de Pelè? Son contento in saverlo.

E Nanetto el càmbia discorso:

– Gavio sentio parlar de un serto Marco Polo?

– Mi son dissendente distantìssimo de Marco Polo.

– E lora porteme a la so casa.

– Marco Polo, se vivo el fusse, el gavaria 752 ani…

– Tanti cussì?

– Speta un poco, Nanetto, co finisso el me laoro te mostro la cesa dove Marco Polo ze stà sepolio.

– Come zelo el vostro nome?

– Tonin. Ma el pol ciamarme Tonin, el Contento.

– Me gavì parlà de Pelè. Cossa volario veder in Brasile?

– Quel che vui veder, me lo mostreo in ritrato?

– Nò. Te lo fao veder in persona.

El cameriere lo varda medo par sbiego, e Nanetto ghe domanda:

– Cossa votu veder in Brasile?

– El rio dele Amàsoni.

Nanetto el comanda:

– Pègaso, fate veder.

E Pègaso se ga mostrà bel, forte, con due alone. Nanetto ga ciapà el Tonin Contento, lo ga tirà su e lo ga messo in gropa. E el ga comandà:

– Pègaso, su. Fa na zolada in torno a la piassa. E dopo ndemo a veder el rio Amazonas.

Pègaso se ga alsà maestoso e i venesiani, de boca verta, i batea le man, i saludava i due òmeni... E Pègaso, Nanetto e Tonin i ze scomparsi come un lampo.

 

VITA STÒRIA E FRÒTOLE

Rovílio Costa e Arlindo Battistel

Un elefante nea spiàgia del Curumim

Sérgio Bálico 

Administrador, Caxias do Sul-RS

 

La spiàgia del Curumim ze na cosa del tuto diferente in riferimento a quei che i va inserca de un posto de riposo, diversion e qualità de vita.

I loti e le tasse i costa tanto depì de quei e quele dea sità de Caxias do Sul. La maioransa de quei che va a ste spiage ze gente dea Região da Serra, e i so costumi i ze dopiamente i medèsimi.

In medo a le onde i pessi se li pesca de canoa con la bacheta col spago curto e el lamo, e gnente scampa a na tiradina. El vin el va do drito dopo la fritada, e la pele la vien rossa e lustra dopo na matina de sole.

Semo cognossui in Curumim come i taliani polentoni, che duga le boce fin coi sassi tondi del rio, e no semo boni de dassar de dugar le carte spagnole. Tel orto dei abitanti del Curumim se cata le erbe de consiero par pareciar el galeto al speo, che va a rosto te la churrasqueira, e se lo magna insieme ai radici consai col lardo rostio e aseo de vin.

El folclore talian lì el ze completo, ma gnente se compara a quel che i me ga contà te la ùltima stimana.

Un grupo de veranisti, preocupai con le onde gigantesche che le invadia le rive del mare de tute le forme, maniere e tempi, i se mete d’acordo de comperar un elefante. Atraverso risserche i vien saver che tel Àsia le persone che se ga salvà del pedo tsunami che se cognosse fin oncó, le seghia l’istinto dei elefanti che i scampea tei posti pi alti.

Secondo i frequentadori del Curumim, sto elefante el saria postà te la Piassa Centrale.Al stesso tempo, che’l saria na atrassion turìstica, a la matina e a la sera el giutaria catar su le rete dea pesca con la so forsa portentosa. Tuta l’erba, taiada te le piasse e giardini, e le frute e verdure de vanso, saria par pasturir l’elefante. I abitanti del posto i staria sempre atenti al elefante, e tel momento che lu el alsasse la trompa banda la Serra do Pinto, tuti i dovea ndarghe drio, salvàndose così de na possìbile onda criminosa. No zela pròpio na idea fantástica?

E intanto, i paroni del Circo in Brasìlia, i ga fato un schema de na superambulansa par trasportar el pachiderme in caso de necessità o de qualche malatia (bsergio@ubbi.com.br).

 

Par crepar de rìder

Rafael Baldissera, Curitiba-PR

 

El pastor aleman. Spaurà, el toseto scampa via del inorme pastor aleman. – No sta ver paura, el dise el paron del can. Pal zeito come el smena la coa, ti te pol veder che lu no’l vol farte mal. Ma el toseto el ghe risponde: – Sucede che el so davanti el ze drio rosnar e mi no sò in qual ponta mi devo creder!

El toseto e so mare. Un toseto el domanda a so mare: – Mama, zela sta la segònia che la me ga portà al mondo? – Ze vero, me fiol! – E zelo Gesù che ne dà el pan de ogni giorno? – Si, amor mio! – Ancora nantra cosa: zelo el Papà Noel che ne dà i giocàtoli tel Nadal? – Ze vero, tesoro! – Si, ma e alora par cossa prèstelo el pupà?

 

GERAL

Ações reforçam a preservação

Programa atinge 9 mil famílias em 36 cidades ribeirinhas a rodovias

 

A rotina de nove mil famílias rurais de 36 municípios gaúchos, distribuídos em nove regiões do Estado, está mudando. Convênio firmado entre o Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer/RS) e a Emater/RS promove a educação agro-ambiental. As principais ações tratam da conservação da flora e da fauna e de cuidados com o solo nas áreas de influência das rodovias.

Na região de Passo Fundo, por exemplo, 422 famílias, em uma extensão de 80 km , estão recebendo orientação por parte dos técnicos da Emater. O trabalho envolve a RS 324, trecho Passo Fundo-Ronda Alta (60 km) e a RS 471, trecho Soledade-Barros Cassal (20 km). “A equipe fez o diagnóstico sobre os principais problemas e os pontos positivos das estradas da região”, diz o assistente técnico regional da Emater e coordenador dos trabalhos, Antoninho Berton.

Denominado Programa de Educação Agro-Ambiental e de Controle de Voçorocas, o convênio prevê cursos, visitas nas propriedades e reuniões. “São alguns dos métodos utilizados para mostrar aos agricultores e estudantes a necessidade de ações de prevenção e recuperação”, explica coordenador estadual do programa, o agrônomo Edmar Streck.

As equipes da Emater passam as orientações sobre proteção de nascentes, conservação de solos, reflorestamento, saneamento ambiental, redução e adequação do uso de agroquímicos, “destino adequado de lixos e proteção de recursos hídricos”, diz Edmar Streck ao CR.

O convênio entre Daer e Emater prevê que as ações devem ser concentradas nas propriedades localizadas numa faixa até 2,5 km de cada lado das rodovias selecionadas pelo Departamento de Estradas de Rodagem.