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Desde 1909, onde o conteúdo faz a diferença.

Edição 5.026 – Ano 99 – Caxias do Sul-RS, 14 de fevereiro de 2007.

 

EDITORIAL

Proteger a natureza custa bem menos que a omissão

A natureza é reflexo do homem. Se está ferida, a humanidade também está

 

O Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), criado pela ONU, não deixa dúvidas sobre o que está acontecendo com o clima do planeta. E também prova, cientificamente, qual é a origem das anomalias que castigam um número cada vez maior de pessoas. Manda o bom senso que se combata as causas. O que parece óbvio, torna-se complicado na medida em que envolve interesses econômicos de vários setores e países.

A Terra está doente e terá um futuro sombrio se continuar crescendo a emissão de gases do efeito estufa, como dióxido de carbono (CO2) e metano (CH4), responsável pelo aquecimento global, a raiz das mudanças climáticas que tem espalhado destruição e mortes. Para estabilizar a emissão é preciso reduzir os desmatamentos, a atividade de segmentos da indústria e o uso de veículos movidos a derivados de petróleo.

O preço é alto, mas poderá custar ainda mais se não for bancado já. Mesmo do ponto de vista econômico, um estudo chamado "Revisão Stern", elaborado a pedido do governo britânico, conclui que se a temperatura da atmosfera subir em média 2º C, o PIB global deixará de aumentar em até 20% ao ano nos próximos dois séculos. Como o IPCC projeta elevação média da temperatura em 3º C, esse prejuízo é certo. Mas o mesmo trabalho chega a outro resultado: 1% do PIB mundial a cada ano é o volume de recursos necessários para reduzir o aquecimento do planeta.

Está claro, portanto, que a ação custa bem menos que a omissão. E essa diferença se agiganta quando se coloca no palco das avaliações milhões de espécies animais e vegetais que serão extintas e de vidas humanas que serão ceifadas – pela fome, escassez de água e fenômenos como ciclone e furacão cada vez mais freqüentes e intensos.

O painel da ONU mostra que é preciso acabar com a guerra contra a natureza, uma fonte de recursos que é reflexo da humanidade – se está ferida, a humanidade também está. Diante da gravidade constatada e projetada, a comunidade internacional precisa assumir o compromisso de uma trégua, de buscar a paz com o meio ambiente. Por motivos econômicos também, mas principalmente por um gesto de solidariedade sem precedentes com as futuras gerações.

 

CAXIAS DO SUL

Medidas tentam controlar invasões

Propriedades rurais são o alvo. Agricultores denunciam ameaças

 

A invasão de uma área de cerca de dois hectares, na sexta 9 à noite, por 120 famílias (algumas identificadas como originárias de Santa Catarina), seguida de um protesto por segurança e direito à propriedade, no domingo, trouxeram à tona um problema que tem gerado muito desconforto – em alguns casos pavor – entre produtores rurais caxienses. O local ocupado por barracas de lona, em Nossa Senhora da Maternidade, 5ª Légua, fica a apenas dois quilômetros da cidade e o principal argumento usado pelos invasores é de que se trata de área improdutiva. "Tem uma parte de mata nativa. Mas os agricultores estão impedidos de cortar para ampliar a área de cultivo. Agora os invasores chegam com motosserra, machado e foice e derrubam. Por que não acontece nada?", indaga Raimundo Bampi, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Caxias do Sul.

Bampi e outros dirigentes têm ouvido com freqüência cada vez maior relatos de agricultores que recebem ameaças de invasores por telefone e pessoalmente. Sem muita clareza, as informações dão conta de que cinco propriedades já foram invadidas. Todas são de pequeno porte, assegura Bampi, e "os donos que conheço são agricultores", acrescenta.

A intranqüilidade na zona rural caxiense motivou uma reunião entre o prefeito José Ivo Sartori, autoridades de segurança, Fundação de Assistência Social, Secretaria de Habitação e STR. Ao final do encontro, na segunda 12 à tarde, Sartori anunciou algumas medidas que serão tomadas para tentar conter essa onda.

Sartori, que classificou as medidas como emergenciais, se comprometeu em repassar ao comando da Brigada Militar os recursos financeiros necessários (não foram especificados) para o conserto de viaturas que serão utilizadas com o objetivo de controlar as invasões e durante as operações de reintegração de posse dos locais invadidos. O prefeito também determinou que a Guarda Municipal fique à disposição para auxiliar o 12º Batalhão de Polícia Militar para preservar o patrimônio público. "As áreas invadidas são propriedades privadas, mas isso não impede que façamos a nossa parte, sob pena de a situação se tornar insustentável", afirmou Sartori.

 

Campanha atrai consumidor e eleva vendas do comércio

 

Injetar R$ 6,3 milhões na receita do comércio de fevereiro, setor que normalmente movimenta nesse mês cerca de R$ 85 milhões. Esta é a previsão para o Liquida Caxias 2007, uma campanha que tem a adesão de dois mil estabelecimentos (33% a mais que no ano passado), todos comprometidos em oferecer condições especiais de venda, a começar por descontos que podem atingir até 70%.

Iniciada na semana passada, a campanha prossegue até domingo 18, com as lojas "alongando prazos, reduzindo juros e dando descontos reais", como propõe Milton Corlatti, presidente da Câmara de Diretores Lojistas de Caxias do Sul, uma das entidades promotoras – as outras são o SPC e a Prefeitura.

"O maior dos compromissos é realmente dar vantagens ao consumidor. E para que cada vez mais empresas participem do Liquida estamos orientando os consumidores a comprarem apenas nas lojas identificadas com o selo da campanha", afirma Paulo Magnani, diretor de Assuntos Extraordinários da CDL.

Pesquisa parcial feita na primeira semana da campanha revelou que o setor de vestuário teve um incremento nas vendas de 12% em relação ao mesmo período do ano passado. No de móveis e eletrodomésticos, o índice de crescimento foi de 10%. "Há um clima muito positivo na cidade, atraindo público da região. Nosso objetivo é atrair cada vez mais consumidores, até atingirmos Porto Alegre", complementa Magnani. Segundo ele, um dos diferenciais deste ano também é a inclusão do setor de serviços.

 

REPORTAGEM

Universidade de Caxias celebra 40 anos de ensino

Criada em 1967, hoje a instituição destaca-se pela infra-estrutura e caráter regional

 

A Universidade de Caxias do Sul (UCS) está completando 40 anos. Neste período, formou mais de 45.300 profissionais, sendo 37.769 só no campus de Caxias do Sul. Iniciou ofertando seis cursos, hoje conta com 40 graduações, 37.841 alunos e 1.434 professores. As comemorações alusivas ao aniversário iniciaram no sábado 10, com missa de ação de graças na Catedral Santa Tereza, mas seguem até o fim do ano.

Há quatro décadas, em 10 de fevereiro de 1967, o presidente Castelo Branco assinou o Decreto 60.200, autorizando a criação da Universidade de Caxias do Sul. Cinco dias depois, foi instalada a universidade e empossado seu primeiro reitor, Virvi Ramos.

A UCS nasceu graças ao emprenho de três entidades; Igreja Católica, Sociedade Cultural e Científica Nossa Senhora de Fátima e Prefeitura Municipal, que juntas formavam a Associação Universidade de Caxias do Sul. Na época, a Mitra Diocesana mantinha as faculdades de Filosofia, Ciências e Letras, Ciências Econômicas e Enfermagem. A Sociedade Fátima mantinha o curso de Direito e o Município, o de Belas Artes.

Para Isidoro Zorzi, atual reitor, a história da UCS atesta sua pluralidade e respeito às diferenças desde a fundação. "Pela primeira vez, acredito eu, na história de Caxias, conseguiu-se juntar em 1967 a Igreja Católica e a representação da doutrina espírita para fundarem a UCS, junto com o poder público local", declara. "A palavra universidade vem do latim universitas e significa unidade na diversidade. Por isso a UCS é um local de debate livre de todas as formas de conhecimento", afirma Zorzi.

Em 1974, após uma crise econômico-financeira e uma intervenção do Ministério da Educação, a Associação transformou-se em Fundação Universidade de Caxias do Sul (Fucs), atual mantenedora da instituição. Além das três entidades fundadoras, o grupo agregou o Ministério da Educação, o Estado do Rio Grande do Sul, a Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do Sul (CIC) e a representação dos municípios da região.

Nestes 40 anos, a UCS conquistou prestígio. Apesar de ainda ser considerada uma instituição jovem, é reconhecida nacional e internacionalmente. Hoje, a instituição destaca-se pela infra-estrutura, pela ampla oferta de cursos, pela consolidação da pesquisa e, principalmente, por seu caráter regional, considerado um marco na história da universidade. "A UCS criou raízes nesses 40 anos de existência porque soube entender sua região, identificou-se com ela, deu respostas à comunidade. É por esse caminho que devemos continuar", declara Zorzi.

 

UCS reavalia forma de regionalização

 

No fim dos anos 60, a UCS criou os campus de Bento Gonçalves, Lajeado e Estrela e o de Vacaria. Porém, mais tarde, essas unidades tornaram-se autônomas. Em 1993, a universidade torna-se formalmente regional, firmando comodato com a Fundação Educacional da Região dos Vinhedos e com a Associação Pró-Ensino Superior dos Campos de Cima da Serra. Sucessivamente, foram criados os campi de Bento Gonçalves e Vacaria e os núcleos de Canela, Guaporé, Nova Prata, Veranópolis, Farroupilha e São Sebastião do Caí. Hoje, a UCS atinge 69 municípios e um milhão de habitantes.

Porém, o reitor Isidoro Zorzi diz que a regionalização está sendo repensada. "Em alguns lugares, a UCS acabou reproduzindo sua estrutura", observa. "Devemos ter uma só universidade na região, com campi e núcleos que atendam as demandas de cada microrregião. Isso não significa necessariamente cursos de graduação, mas também técnicos, programas de educação continuada", completa Zorzi. "Pensamos na UCS como a Universidade Comunitária da Serra, não apenas de Caxias do Sul", conclui.

 

Meta é ser referência em tecnologia

 

Em entrevista coletiva à imprensa, na sexta 9, o reitor Isidoro Zorzi disse que a meta da UCS é ser referência no Estado, pelo menos no que diz respeito ao ensino tecnológico. Para isso, boa parte do orçamento deste ano da UCS deve ser direcionado à qualificação do ensino das áreas tecnológicas, com a melhoria dos laboratórios. "Devemos certificar os nossos laboratórios e equipá-los para que possamos atender as necessidades do parque industrial da região", afirma. "Muitas empresas buscam serviços de fora porque não temos condições de atendê-las; devemos acompanhar o crescimento da região", esclarece. Outra meta é melhorar as bibliotecas, o que inclui compra de acervo e ampliação do acesso à base de dados virtual.

"Também devemos profissionalizar a administração da universidade, portanto vamos investir em um sistema corporativo de informática para administração acadêmica e financeira", completa o reitor. Zorzi ainda deseja racionalizar a infra-estrutura da UCS. "Temos uma planta onerosa, com prédios enormes e muito distantes um do outro, o que exige uma estrutura individual para cada um, com telefone, secretária, recepcionista etc, temos que melhorar isso", explica.

Até o final do ano, segundo o reitor, a UCS deve criar um fundo de apoio aos alunos, com regras semelhantes ao PróUni, para financiar os estudos de quem têm dificuldade em pagar a universidade.

"Somos a maior universidade do Rio Grande do Sul, mas queremos ser a melhor", diz. "Para isso vamos redirecionar os investimentos da instituição para os principais fins de uma universidade: o ensino, a pesquisa e a extensão", afirmou. "Assistência social, à saúde, esporte profissional não são competência da UCS", declarou Zorzi. Segundo ele, a intenção é firmar convênios que permitam a continuidade desses serviços sem tantos investimentos da própria universidade.

Zorzi ainda manifestou o desejo de estabelecer regras para o processo de escolha do reitor da universidade. "Cada escolha de reitoria ocorreu de uma forma diferente, quero que ainda nessa gestão sejam definidas e formalizadas as regras", disse.

 

AGRONEGÓCIO

Brasil vai liderar a agricultura mundial

União Européia prevê que o posto deve ser ocupado até 2020

 

O Brasil será o país que apresentará o maior crescimento em produção e exportações no setor agrícola no mundo até 2020. A estimativa é da União Européia (UE), que começa a contabilizar o que significaria a abertura de seu mercado agrícola diante de acordo na Organização Mundial do Comércio (OMC). Os cálculos da UE mostram que a liberalização e a reforma interna do sistema de subsídios reduziriam em 25% o número de propriedades na Europa nos próximos 15 anos.

As projeções fazem parte de um levantamento elaborado por economistas da UE sobre como seria a agricultura européia em 2020 e quais desafios externos e internos ela sofreria. "Está claro que temos de mudar a forma como atuamos no setor rural. Estamos perdendo competitividade há anos e a conclusão do levantamento mostra que não podemos seguir assim", afirmou um dos economistas.

De acordo com o estudo, três fatores devem provocar mudanças no cenário europeu até 2020: a pressão por cortes de subsídios, eventuais reduções de barreiras à importação e a competitividade da produção brasileira em vários setores.

Segundo o estudo, o crescimento nas exportações brasileiras não ocorrerá graças aos mercados ricos, mas principalmente por causa dos emergentes, como Índia e China. Nos últimos 30 anos, um bilhão de pessoas foi somado à população mundial, a maioria em países em desenvolvimento. A projeção da UE estima que, nos próximos 15 anos, essa população terá renda maior, incrementando o consumo. As exportações de soja, açúcar, frango e carnes do Brasil vão aumentar rapidamente.

Reforma – Para evitar esse cenário, os europeus se dizem dispostos a continuar reformando a agricultura. Os 27 países do bloco vão cortar subsídios de legumes e frutas, que chegam a US$ 2 bilhões/ano. O projeto deve entrar em vigor em 2008.

Pela proposta, cada produtor teria de gastar 20% do que recebe em subsídios para preservar o meio ambiente. Os subsídios à exportação seriam eliminados, assim como o mecanismo que permite que um produtor rural seja 100% reembolsado quando um produto seu não é vendido no supermercado – o valor cairia para até 50%.

 

Exportação cresceu 99% em cinco anos

 

O agronegócio foi um dos setores que mais cresceu nos últimos cinco anos. De 2002 a 2006, as exportações de produtos agropecuários aumentaram de 99%, saltando de US$ 24,8 bilhões para US$ 49,4 bilhões, segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

O complexo sucroalcooleiro teve o melhor desempenho, com incremento de 243%. As carnes ficaram em segundo lugar, com expansão de 170%. Em terceiro, aparece o café, com crescimento de 143%; em quarto, cereais e preparações, com 123%; e em quinto, frutas, com 91%. O setor de carnes apresentou o segundo maior crescimento, com expansão de 170%.

Mas não são apenas esses setores que ampliaram as vendas externas. "A partir de 2004, deixamos de ser importador líquido de produtos lácteos, registrando um superávit de US$ 29,4 milhões", assinala o ministro do Mapa, Luís Carlos Guedes Pinto. No ano passado, os embarques de lácteos cresceram 11,9% em comparação a 2005.

Em 2006 – No ano passado, as vendas de carne bovina aumentaram 29,6%, passando de US$ 2,4 bilhões para US$ 3,1 bilhões. Os embarques de frango in natura e industrializado totalizaram US$ 3,2 bilhões (queda de 21% – o RS terminou 2006 com retração de 17,77% na produção) e os de carne suína in natura, US$ 990 milhões (+5%).

 

Corte nos subsídios beneficia o país

 

O Brasil pode ser beneficiado também com o corte nos subsídios norte-americanos. A avaliação é da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O presidente George Bush disse que os Estados Unidos irão cortar U$ 18 bilhões de subsídios aos grandes produtores nos próximos anos.

Para o assessor técnico da CNA, Antônio Donizeti Beraldo, a proposta dos Estados Unidos sinaliza que o governo pretende investir mais na produção agrícola familiar e diminuir o protecionismo dado à categoria empresarial agrícola do país. "Se a proposta passar pelo Congresso americano, o Brasil ganhará mais espaço na competição de produtos como o milho, a soja e o algodão", prevê Donizeti.

A redução integra a revisão da lei agrícola americana, conhecida por Farm Bill. A idéia é reduzir os subsídios para os produtores que têm rendimento bruto anual superior a US$ 200 mil.

Segundo o assessor da CNA, o governo norte-americano vem sendo pressionado por organizações não governamentais de preservação ambiental e de consumidores a investir mais na agricultura familiar, em programas de conservação de florestas e em pesquisas sobre energia renovável, retirando apoio aos produtores.

 

Safra pode bater recorde histórico

 

A safra brasileira de grãos para o ciclo 2006/07 será de 126,5 milhões de toneladas e a área cultivada, de 45,5 milhões de hectares. A estimativa é da Conab. Se for confirmada, será o melhor resultado da história e representará um crescimento de 3,3 milhões/t (2,7%) sobre a safra de 2002/03, a maior do país até agora. Em relação à safra anterior (121 milhões/t), o aumento será de 5,7 milhões/t (4,7%).

Já o IBGE estima que safra deve crescer 9,7% em 2007, alcançando a produção de 127,9 milhões de toneladas. Impulsionada pelo clima favorável, a região Sul poderá colher 54,9 milhões de toneladas (+13,7%). "A agricultura, apesar dos percalços nas duas últimas safras, deverá responder positivamente face ao cenário mundial, que é favorável e sinaliza bons horizontes para o setor nos próximos meses", enfatiza o economista José Camargo.

 

Aposentadoria rural mobiliza Contag

Déficit do segurado foi de R$ 28,5 bilhões no ano passado

 

A Previdência Social encerrou 2006 com déficit de R$ 77 bilhões. As aposentadorias dos trabalhadores rurais foram responsáveis pelo crescimento de 11,9% no déficit, segundo o Ministério da Previdência, Nelson Machado. O saldo negativo dos benefícios rurais cresceu R$ 4,5 bilhões no último ano, passando de R$ 24 bilhões para R$ 28,5 bilhões. As aposentadorias rurais representam 7,31 milhões dos 21,64 milhões de benefícios pagos no país.

Apesar do ministro ter garantido que o governo não pretende aumentar a contribuição dos segurados que vivem no campo, o déficit preocupa a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). A entidade está mobilizada para preservar os direitos previdenciários e aponta soluções. "Investimentos públicos no campo são fundamentais para melhorar a arrecadação", afirma o presidente da Contag, Manoel dos Santos.

O dirigente defendeu também o recadastramento dos trabalhadores rurais aposentados. "Saber quanto se arrecada e quem de fato são os segurados especiais é fundamental, uma vez que a categoria é apontada como principal responsável pelos prejuízos da Previdência Social", afirma ao CR.

Garantia – Instituídas pe-la Constituição de 1988, as aposentadorias rurais exigem contribuição menor que a dos demais benefícios concedidos pelo INSS – contribuições cobrem 11,8% dos gastos. Em vez de contribuir com uma fatia de 7,65% a 11% sobre o salário, como ocorre com os urbanos, os rurais retiram 2,2% sobre o valor da produção comercializada. A agricultora Rita Tessaro, por exemplo, de São Martinho, interior caxiense, contribuiu com R$ 600 em 2006, mas recebe um salário mínimo mensal.

A coordenadora de políticas sociais da Fetag/RS, Elisete Hintz, calcula a contribuição de forma diferenciada. "Para ter idéia do valor dessa tributação, é só pensar nos milhões de toneladas de grãos, carnes, hortigranjeiros, além do leite, geradores de riquezas neste país", compara. Por enquanto, o segurado rural tem no ministro um defensor. "Essas aposentadorias geram renda e são instrumento de política de desenvolvimento social", declarou ele.

 

Contribuição social começou em 1964

 

Há mais de 30 anos, o produtor rural contribui com a Previdência. Em 1964, de acordo com o sindicalista Quirino Signori, da regional da Fetag na Serra, o governo criou o Funrural. A contribuição era obrigatória e incidia sobre a comercialização dos produtos agrícolas. O objetivo era oferecer assistência social à família rural.

O Funrural começou com uma taxação de 2,5%. Este valor era descontado do produtor rural e recolhido para os cofres federais. Na época em que começou essa cobrança, por muitos anos, nenhum trabalhador rural conseguia uma baixa hospitalar, problema que precisou ser enfrentado pelos sindicatos de trabalhadores rurais (STRs). A aposentadoria nem existia.

Mais tarde, o governo obrigou o produtor rural a pagar contribuição previdenciária sobre o pagamento de salário de seus empregados rurais. Hoje, são descontados 2,2% sobre todas as vendas realizadas pela propriedade. "O desconto é automático. "Conheço casos em que os valores são superiores ao que é descontado dos contribuintes urbanos", observa o presidente do STR de Caxias do Sul, Raimundo Bampi.

 

Produtor pagará ICMS na conta da luz

 

O agricultor gaúcho vai pagar mais pela conta de luz. Pelo menos é o que determina o decreto 44.879. Ele estabelece a cobrança de ICMS dos produtores rurais no consumo de até 100 kWh. Antes do decreto, os produtores rurais não pagavam ICMS sobre a energia elétrica.

Os estabelecimentos rurais tinham o imposto diferido, o que significava um benefício para não pagar o tributo. Agora, os primeiros 100 kWh serão tributados, os demais seguem sem o imposto. "As contas de luz passarão a incluir 12% de ICMS que, dada a fórmula de cálculo, significará 13,6% sobre o custo de 100 kWh", explica o secretário-geral da Fetag, Elton Webber.

Em resumo, todos os 420 mil produtores familiares do Estado vão pagar, pois em 100% dos estabelecimentos agrícolas gaúchos há motores e equipamentos elétricos em atividade. "A alteração representa desembolso de R$ 15 milhões anuais do produtor", enfatiza Webber ao CR. "Em Caxias do Sul, os mais de 5.000 produtores serão afetados", observa o presidente do STR de Caxias do Sul, Raimundo Bampi.

Nesta semana, a Fetag, a Fecoagro e a Federação das Cooperativas de Energia do RS estarão em audiência com a Secretaria Estadual da Fazenda para rever a decisão da governadora Yeda Crusius.

 

VIDA AGRÍCOLA

Engº. Agrº. José Zugno

Pasteurizado, leite dispensa fervura

Gostaria de saber se o leite depois de fervido continua possuindo suas propriedades nutritivas.

Armindo Grillo

Pranchita – PR

 

A fervura do leite não altera a maioria das suas propriedades nutritivas, mas transforma ou destrói algumas delas.

Sabemos que o leite é o melhor e mais completo alimento para o ser humano, porque contém todos os nutrientes necessários para o bom funcionamento do organismo: água, açúcar, gorduras, proteínas, sais minerais e vitaminas. O leite que se consome, produzido principalmente por vacas ou cabras, apresenta diferenças na composição mesmo provindo de mesma raça e espécie. No leite bovino a composição média dos principais componentes é a seguinte:

Água 87,5%

Matéria gorda (lipídios) 3,6%

Hidrato de carbono, açúcar (lactose) 4,6%

Proteínas (caseína, albumina) 3,6%

Sais minerais e vitaminas 0,7%

Os hidratos de carbono e os lipídios são alimentos energéticos porque se destinam a produzir calor corporal e energia para os movimentos musculares. As proteínas e os sais minerais são alimentos considerados "plásticos" porque são responsáveis pelo crescimento, formação e renovação dos tecidos humanos. As vitaminas, por sua vez, garantem o bom funcionamento dos órgãos.

O leite tomado imediatamente após a ordenha é puro, sem micróbios nocivos, mas isto normalmente não acontece pois, em geral, é extraído para consumo posterior e neste intervalo de tempo, entre a ordenha e o consumo, fica sujeito a contaminação de microorganismos indesejados. Estes microorganismos encontram nos componentes do leite um ambiente muito favorável a sua proliferação. A contaminação é facilitada pela falta de higiene do animal, do ordenhador, dos instrumentos e vasilhames utilizados. Por esta razão o leite não consumido imediatamente é submetido a fervura nas fazendas, colônias e cidades onde não existem usinas de tratamento. O resfriamento do leite apenas dificulta o desenvolvimento dos microorganismos mas não os destrói, o que ocorre somente com a fervura ou a pasteurização.

A esterilização do leite pela fervura a 140 °C, como acontece no processo de obtenção do leite longa vida, destrói completamente todo tipo de microorganismo e causa alterações em certos componentes essenciais.

O principal tratamento do leite é a pasteurização, que consiste em aquecê-lo a 75°C e resfriá-lo rapidamente a 3°C. Aquilo que destrói totalmente os microorganismos nocivos, neste caso, não é a fervura, mas a diferença brusca de temperatura de 75°C a 3°C. Sendo assim, sem fervura, a pasteurização preserva a maioria dos componentes do leite e a maioria das vitaminas. Portanto, para consumo, uma vez pasteurizado, o leite não precisa ser fervido, somente aquecido; deste modo não perde suas qualidades nutritivas.

Maiores informações sobre o leite se encontram nas edições de Vida Agrícola de 01/02/2006 e 08/02/2006.

 

ALIMENTAÇÃO & SAÚDE

Dieta balanceada deve fazer parte da rotina

A regra é equilibrar quantidade e qualidade de diferentes alimentos

 

O aumento das taxas de sobrepeso e de obesidade no mundo inteiro tornam a adoção de uma alimentação saudável uma atitude cada vez mais urgente. Conhecer o papel dos alimentos no funcionamento do corpo e saber a melhor forma de compor as refeições contribui para uma rotina com mais saúde. "Uma alimentação saudável deve ser saborosa, variada, colorida, acessível do ponto de vista físico e financeiro, equilibrada em quantidade e qualidade e segura sanitariamente", explica Dillian Goulart, consultora técnica da Coordenação Geral da Política de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde.

Segundo Dillian, a expressão "dieta balanceada" refere-se ao equilíbrio entre as quantidades dos diferentes grupos de alimentos que precisam estar presentes em cada refeição diária. De acordo com os profissionais da área, de modo geral, uma refeição deve conter de duas a três porções de alimentos do grupo de cereais, raízes e tubérculos; uma porção do grupo dos feijões e outras leguminosas ricas em proteínas; de duas a três porções do grupo frutas, legumes e verduras; e uma porção de carne, peixe ou ovo. Recomenda-se carne magra. Além disso, dar preferência às preparações cozidas, assadas ou grelhadas, ao invés das fritas.

Além do conteúdo das refeições, o número também deve ser balanceado. Os nutricionistas indicam três refeições diárias, intercaladas por pequenos lanches. Uma fruta, um iogurte sem açúcar, um sanduíche natural sem maionese ou uma fatia de bolo caseiro sem cobertura são consideradas alternativas saudáveis para um lanche.

Para iniciar o dia, é indispensável o café da manhã, que garante a energia necessária à realização das atividades. Um bom café deve ser composto por cereais – fonte principal de energia – e alimentos do grupo do leite e derivados. Aos adultos, aconselha-se leite e derivados com quantidades menores de gordura. As frutas também são indicadas como parte de um café da manhã saudável e podem ser in natura ou em forma de sucos.

O jantar precisa ser mais leve que o almoço, já que à noite, geralmente, o ritmo das atividades diminui e o metabolismo do corpo torna-se mais lento. Em conseqüência, a digestão e a absorção dos alimentos tendem a demorar mais, principalmente em caso de uma refeição pesada. Verduras e legumes refogados, cereais integrais ou um sanduíche natural são boas alternativas para esta refeição.

 

Produtos diet e light exigem moderação

 

Alternativa para dietas especiais, os alimentos diet e light precisam ser consumidos com moderação. Ao contrário do que muita gente pensa, esses produtos não podem ser consumidos livremente e, em excesso, também levam ao aumento de peso.

Alimentos diet são especialmente formulados para grupos da população com condições específicas de saúde. Diet é o alimento do qual algum nutriente foi totalmente retirado, como acontece com produtos sem açúcar, destinados a diabéticos. A linha light reúne alimentos com a quantidade de algum nutriente reduzido, quando comparado a outro na versão convencional. É o caso de um iogurte com redução de 30% de gordura.

Tanto os alimentos diet quanto light podem não ter necessariamente o conteúdo de açúcar ou de carboidratos reduzidos; podem ter alteradas as quantidades de gordura, proteínas, sódio ou qualquer outros componentes. Por essa razão, deve-se ler atentamente os rótulos com a composição dos produtos.

Uma boa opção para uma dieta balanceada são os alimentos integrais. Por sofrerem menos processamento industrial, mantêm preservados vários nutrientes. Se consumidos em quantidades adequadas, ajudam no controle do peso.

As fibras, presentes em grande quantidade nos alimentos integrais e em frutas, verduras e legumes, reduzem a sensação de fome, contribuem para o bom funcionamento do intestino e ajudam a diminuir a absorção de gorduras e açúcares.

 

Gordura trans prejudica as artérias

 

Restaurantes, lanchonetes e fabricantes de alimentos do mundo inteiro vêm mudando seus cardápios e a receita de alguns de seus pratos por conta da recente rejeição às substâncias chamadas de gorduras trans, também conhecidas como gordura vegetal hidrogenada. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já determinou que todos os alimentos apresentem em sua embalagem a quantidade de gordura trans presente em suas fórmulas.

Formada por um processo de hidrogenação, as gorduras trans são largamente utilizadas pela indústria alimentícia. Elas servem para melhorar a consistência e aumentar a vida de prateleira de alguns produtos. O aspecto crocante de certos biscoitos, por exemplo, vem do uso desse tipo de gordura, presente ainda em margarinas, sorvetes, biscoitos recheados etc.

O consumo excessivo de alimentos ricos em gorduras trans tende a aumentar o colesterol total e o colesterol ruim (LDL) e a diminuir os níveis do bom colesterol (HDL). A conseqüência dessas alterações no sangue, a longo prazo, pode ser a formação de placas nas artérias (aterosclerose) e o surgimento de doenças como infarto e derrame cerebral.

Um produto muito comum em restaurantes naturais e que também merece atenção em seu consumo é o açúcar mascavo. Embora mais saudável que o açúcar refinado, continua sendo um açúcar. Sua composição de glicose é a mesma que a do açúcar branco. Por isso deve ser ingerido com moderação. Os diabéticos devem evitá-lo igualmente, assim como o mel e o melado.

 

Desjejum ajuda na manutenção do peso

 

Levantar cedo e geralmente atrasado são as explicações mais usadas para que as pessoas deixem de tomar o café da manhã. Qualquer que seja o motivo, essa omissão influencia negativamente o metabolismo durante o resto do dia, pois após um jejum prolongado (noite e a manhã) o corpo traduz essa situação como escassez de alimentos e reage reduzindo a queima de calorias. Portanto, não comer pela manhã dificulta a manutenção do peso e não é uma boa estratégia para emagrecer.

A composição do cardápio deve priorizar a escolha de uma porção de carboidrato, evitando o consumo de pães e cereais na mesma refeição. Os alimentos mais gordurosos, que põem em risco o café da manhã, são os queijos amarelos, os embutidos, a manteiga, os biscoitos recheados e os bolos. Não há a necessidade de bani-los do cardápio, mas pode-se optar por queijos brancos e margarina livre de gordura trans. Quanto aos bolos e biscoitos, ingerir um ou outro e variar os tipos.

 

OPINIÃO

As esquerdas precisam de biologia

Leonardo Boff

Importa entender que sociedade e meio ambiente são interdependentes, partes inseparáveis de um único processo evolucionário do planeta. Falta-nos muito ainda para sentirmo-nos parte da natureza e tratarmos humanamente os humanos

 

Em geral, são as esquerdas que utilizam a categoria de classe social para o entendimento da sociedade, principalmente de seus conflitos e dos mecanismos de exploração de uns sobre outros a partir do lugar que cada um ocupa no processo produtivo. Esta categoria ajudou a mostrar a desumanização que multidões padecem e as formas de como enfrentá-las para que não se perpetuem e se possa construir relações que permitam o ser humano tratar humanamente a seus semelhantes. Mas a classe, por imprescindível, é insuficiente para dar conta da complexidade da sociedade. Importa inseri-la dentro de uma realidade maior, subjacente a todos os fenômenos sociais: sua base biológica.

Sem a garantia da base biofísica e ecológica da vida, os problemas ficam dependurados no ar. Importa entender que sociedade e meio ambiente são interdependentes, partes inseparáveis de um único processo evolucionário e planetário. A atividade biológica representa uma propriedade de Gaia, que inclui os seres vivos, especialmente os humanos e sua infra-estrutura físico-química-informacional, expressões de um todo vivo e sistêmico. Daí que o pacto social deve ser articulado com o pacto natural.

Não se pode também olvidar a segunda lei da termodinâmica, a entropia, o desgaste lento e irrefreável do uso de energia até seu esgotamento total na morte térmica. Quanto mais acelerarmos o processo produtivo e quanto mais consumirmos, mais gastamos energia e assim fazemos aumentar a entropia. O ser humano não pode deter a entropia, mas pode desacelerá-la, favorecendo formações sociais com menos uso e desperdício de energia, prolongando assim o tempo de sobrevivência pessoal e coletiva.

Da consciência de classe devemos passar à consciência de espécie, da classe social à biologia social. A consciência de espécie é fundamental na relação ser humano-natureza. De nosso comportamento coletivo face às questões ligadas à biologia como a biodiversidade ameaçada, a escassez dos recursos, o crescente aquecimento global, atestado agora pelo IPCC, o problema demográfico angustiante e as questões das armas de destruição em massa, depende a sobrevivência de nossa espécie homo. Esta questão ultrapassa a classe social, pois a ameaça atinge indistintamente a todos. Todavia, há que se reconhecer com os marxistas que a diminuição da desigualdade e a justiça societária são precondições para o equilíbrio sócio-ecológico que retarda os efeitos da entropia.

Jean-Paul Sartre, numa entrevista, pouco antes de morrer, ao jornal italiano La Repubblica de 14 de abril de 1980, talvez nos ajude a entender a questão. Fala da origem biológica comum e do fim da espécie humana. Diz ele: "Não somos seres humanos completos. Somos seres que se debatem para estabelecer relações humanas e para chegar a uma definição de ser humano. É uma luta longa que consiste em procurarmos viver juntos humanamente. É pois, mediante esta busca, que não tem nada a ver com o humanismo, que podemos considerar o nosso fim. Em outras palavras, nosso fim é alcançar um corpo constituído no qual cada um se sinta ser humano e uma coletividade que se sinta também humana".

Numa linguagem da cultura humanística ele diz a mesma coisa que dissemos acima na linguagem da biologia. Falta-nos muito ainda para sentirmo-nos parte da natureza e tratarmos humanamente os humanos. Caso contrário, corremos o risco de conhecer o caminho já percorrido pelos dinossauros.

 

CARNAVAL & PLENITUDE

Frei Betto

A liberdade como infinitude só existe na demência ou no êxtase místico... Todos os carnavais do mundo não se comparam à felicidade que irrompe no espírito de quem faz de Deus seu caso de amor

 

Guardo a nostalgia dos carnavais de rua, dos cordões de mascarados, dos carros alegóricos, dos blocos alegres, dos salões de confetes e serpentinas, adultos e crianças misturados nas avenidas ou nos desfiles de fantasias. Nem o carnaval resistiu à privatização. De foliões, viramos meros espectadores, ou melhor, telespectadores do reinado de Momo no Sambódromo, onde o ágape dos piratas da perna de pau cedeu lugar ao erotismo dos destaques das escolas de samba e, enfim, à pornografia dos salões, onde já não se aponta a cabeleira do Zezé nem se pergunta se será que ele é.

Ágape, eros e porno – os gregos entendiam de gente. Ágape, a comunhão de espíritos mediatizada pelos símbolos. O silêncio como matéria-prima do amor. Eros, o corpo como expressão estética dos sentimentos mais puros e profundos. O gesto como sacramento de e/fusão. Porno, a degradação, o sexo como negação de si e reificação do outro. A morte como salário do pecado.

Carnaval significa festa da carne. Outrora, a partir da Quarta-Feira de Cinzas, os cristãos passavam 40 dias em abstinência de carne, preparando-se para celebrar a Páscoa, a ressurreição do Senhor. Festivais de carnes eram promovidos nos três dias que antecediam o início da abstinência e muitos se fartavam do alimento que iriam evitar nas semanas seguintes. Um exercício de penitência que ajudava a aplacar a gula e a fermentar o espírito.

Hoje, soa anacrônico falar em penitência. Enquanto a confissão auricular perdurou entre os católicos, ainda era costume recomendar-se alguma "penitência" para reparar as faltas. Em geral, umas poucas orações que não obrigavam o fiel a reparar, de fato, a ofensa ao próximo nem privar-se de preferências e situações que favoreciam a reincidência.

Esse cristianismo prêt-à-porter fez com que perdêssemos o caráter pedagógico da formação da vontade e do aprimoramento da inteligência, premissas à dilatação espiritual. Filhos bastardos de Protágoras, queremos desfrutar todas as possibilidades, como se pudéssemos voar simultaneamente em todas as direções do desejo. Ora, a liberdade como infinitude só existe na demência ou no êxtase místico. Este, contudo, exige que se saiba dizer não aos apetites desordenados, à mente que mente, ao olhar alheio que nos engaiola na sedução narcísica, às ambições que blefam com o ego, prometendo-lhe uma saciedade que só aumenta a sede.

Sábios eram os antigos monges que, ao impor limites aos sentidos e à razão, alcançavam a graça da fruição no Espírito, como ensina Aristóteles. É verdade que o dualismo platônico e a devoção que, de olhos no Céu, dava às costas à Terra, este "vale de lágrimas", prejudicaram, e muito, uma espiritualidade que escapasse do solipsismo e tivesse, como centro de todas as renúncias, o amor de Deus como fonte exclusiva de amor aos semelhantes.

Agora, livres dos demônios que contrapõem alma e corpo, temos melhores condições para percorrer o árduo e fascinante caminho que conduz da via purgativa (livrar-se das tendências nefastas) à via iluminativa (fazer das virtudes, hábitos) e, desta, à via unitiva (viver em comunhão de Amor). A noite escura que atira o náufrago do Espírito na praia luminescente da paixão inefável.

Nessa sociedade consumista, adquirir liberdade espiritual diante de tantos apelos hedonistas supõe um pouco mais de silêncio interior, menos sofreguidão na disputa de espaço pessoal, modéstia no estilo de vida, frugalidade na alimentação e saber dizer não para abraçar com firmeza opções fundamentais. Uma questão de qualidade de vida, de plenitude interior, da qual se infere aquela espiritualidade que nos faz descobrir que trazemos no coração um poço de água viva. Quem o descobre aprende a aplacar a sede.

Todos os carnavais do mundo não se comparam à felicidade que irrompe no espírito de quem faz de Deus seu caso de amor. Tamanha alegria merece ser celebrada com muito samba, cuíca e tamborim, já que a dança é a única forma que o ser humano conhece de multiplicar-se e voar sem outra ajuda senão a do impulso vital que faz do corpo arte e liturgia.

 

ESPECIAL

PLANETA DOENTE

Aquecimento global provocado pela ação do homem projeta um mundo mais quente, com menos água potável e mais famintos. Efeitos da emissão de gases serão sentidos por milênios

 

A primeira conclusão não surpreendeu: o homem é o culpado pelo aquecimento global e decorrentes mudanças climáticas. As projeções soaram como um forte alarme: a temperatura pode aumentar até 4º C em 2100, tempestades e secas serão mais freqüentes, o nível do mar continuará subindo, safras serão perdidas, a escassez de água e a fome atingirão cada vez mais pessoas... A dimensão do problema assusta: mesmo que haja uma redução imediata da principal origem das anomalias climáticas, a emissão de gases, alguns dos efeitos serão sentidos por milênios.

Desde a sexta-feira 2 de fevereiro, o mundo conhece com mais clareza e profundidade o estado de sua saúde atmosférica e o que precisa fazer para tratar de doenças contraídas ao longo de séculos e que se tornaram crônicas – em alguns casos irreversíveis. O diagnóstico foi fornecido pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC, sigla em inglês), estudo da ONU elaborado por 600 especialistas de 40 países e divulgado em Paris.

Cenários – O relatório traça três cenários para a temperatura até o final deste século. No mais otimista, subirá em média 1,8º C – além do 0,76º C que aumentou de 1850 até hoje. No intermediário, a elevação será de 2,8º C e no mais pessimista, de 4º C. O mais provável, segundo os cientistas, é de que até 2100 o planeta esteja 3º C mais quente.

As conseqüências dessa mudança podem ser devastadoras para milhares de cidades. O IPCC prevê que o nível do mar subirá de 18 cm a 59 cm até 2100 (no século passado a elevação foi de 17 cm). Se atingir meio metro, além de engolir praias, ameaçará milhares de cidades, entre elas metrópoles como Nova York, Londres, Hong Kong, Tóquio e Shangai.

O cenário pessimista – e de certa forma também o intermediário – põe em risco a vida na Terra. Se a temperatura média subir de 2º C a 3º C, mais de 20% das espécies ficam ameaçadas de extinção, as safras em baixas latitudes serão fortemente prejudicadas, aumenta de 25% a 80% o número de famintos – a metade deles na África e no oeste da Ásia. Se a temperatura seguir o caminho que culmine com a elevação em 4º C, já por volta de 2050 faltará água para até 3,2 bilhões de pessoas e haverá quebra nas safras em regiões inteiras – inclusive no mundo desenvolvido.

Nesse cenário ainda, poderá desaparecer a geleira sobre a Groelândia em alguns milênios, elevando o nível do mar em 40 cm por século até um nível de 7 metros. Seria uma situação semelhante à do último período entre glaciações, que ocorreu há 125 mil anos, quando o mar subiu de 4 a 6 metros.

O mundo sente, há mais de década, as alterações da temperatura. Onze dos últimos 12 anos foram os mais quentes desde 1850. De acordo com os cientistas reunidos pela ONU, nada semelhante ocorreu nos últimos 20 mil anos, talvez até 650 mil anos, como revela estudo feito na Antártida. Esse trabalho, baseado na análise da composição de bolhas de ar, encontrou uma concentração jamais vista de gases do efeito estufa na atmosfera – como dióxido de carbono (CO2) e metano, resultado da queima de petróleo e derivados, da destruição de florestas tropicas e do uso do solo pela agricultura.

Custo – "O documento aponta o custo da inação", afirmou Rajendra Pachauri, presidente do IPCC. "Pequenas nações-ilhas diriam que já ultrapassamos o estado de perigo", acrescentou. Mesmo nível de perigo vivem as pessoas que dependem da agricultura de chuva.

Apesar da fartura de indicadores negativos, cientistas, entre eles o físico brasileiro Paulo Artaxo, da USP, afirmam que o IPCC não deve ser visto como catastrófico. Nem se trata do fim do mundo. Mas todos entendem que agora, com a identificação científica do homem como responsável pelo aquecimento global, que se passe do discurso à ação.

Agir quer dizer reduzir a emissão de gases responsáveis pelo efeito estufa. O que parece tão óbvio, no entanto, é muito difícil de acontecer a curto prazo devido aos interesses econômicos. "É hora para uma revolução", declarou o presidente francês Jacques Chirac. "Por que somos tão lentos em tomar as medidas necessárias"?, indagou-se. "Porque, com egoísmo culpável, nos recusamos a reconhecer as conseqüências", respondeu.

 

Um relatório mais preciso e menos otimista

 

Inevitável a comparação entre o relatório do IPCC divulgado em 2001 com o atual. E a conclusão de especialistas é de que o penúltimo estudo pode ter sido otimista demais. Alguns dados confirmam essa avaliação. A elevação dos mares é um deles. O IPCC de 2001 projetava um aumento no nível dos oceanos em média de 2 milímetros por ano. Satélites constataram que desde meados dos anos 90, em média, a elevação atingiu 3,3 milímetros ao ano.

O relatório de 2007 projeta um aumento de temperatura mais provável até o final do século de 3º C, dentro da variação de 1,8º C a 4º C. Mas alerta, com menores possibilidades, que pode chegar a 6,4º C. O anterior estipulava uma faixa de valores que ia de 1,4º C a 5,8º C. No caso dos mares, em 2001 foi prevista elevação do nível de 0,9 cm a 88 cm; agora, de 18 cm a 59 cm. Pode parecer menos porque a tendência é de comparar o dado mais alto, mas tanto os 18 cm como os 59 cm são valores elevados, e com mais probabilidade de serem registrados.

Há explicações técnicas para essa diferença – e outras. O relatório mais recente contou com centenas de dados medidos por instrumentos que não estavam disponíveis em 2001. Além disso, os modelos climáticos, elaborados a partir de programas de computador que simulam o clima na Terra, estão mais precisos.

A soma dessas vantagens é que levou os 600 cientistas a usar quantificativos como "inequívoco" e "muito provável" para descrever situações e, principalmente, construir previsões. "Muito provável", no caso, equivale à segurança de 90% sobre as projeções ("virtualmente certo significa 99%, "extremamente certo", 95%, "improvável", menos de 30%). O "muito provável" foi usado mais de uma vez no relatório final, de 21 páginas, ao atribuir à humanidade a causa das mudanças climáticas. Em 2001, o IPCC afirmava que a contribuição humana era apenas "provável", o que representa mais de 66% de certeza.

"O aquecimento do sistema do clima é inequívoco e agora se torna evidente a partir de observações de acréscimos nas temperaturas globais do ar e do oceano, derretimento disseminado de neve e gelo e elevação do nível médio global do mar", diz o relatório.

 

REMÉDIO É EMITIR MENOS GASES

Para impedir o pior cenário climático é preciso reduzir pela metade a emissão de gases do efeito estufa

 

Deter o aquecimento global é uma meta difícil e os resultados das ações demoram a aparecer. Levará ainda mais tempo na medida em que a emissão desses gases só tem aumentado. O crescimento, que era de 6,4 bilhões de toneladas anuais em 1990, passou para 7,2 bilhões de toneladas anuais. Os números do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) indicam que para evitar o pior cenário possível em 2100 – ou seja, um aumento de mais de 4º C na temperatura média global – a humanidade teria de diminuir pela metade a emissão de gás carbônico prevista para este século. Na prática, isso significa reduzir a geração de CO² até 2100 de 1,4 trilhão de toneladas para "apenas" 750 bilhões de toneladas. O tamanho do desafio pode ser medido pelo Protocolo de Kyoto, assinado em 1997, que previa o corte na emissão até 2012 equivalente a 5 bilhões de toneladas.

Dois termos passam a dominar o debate internacional sobre o clima: mitigação (medidas para reduzir a presença de gás carbônico na atmosfera) e adaptação (formas de proteger as populações de efeitos inevitáveis). Os cientistas do IPCC já estimam como evitar a emissão de 40 bilhões de toneladas de CO² até 2030. O caminho passa pela política de geração de energia, pela agricultura e indústria, pelas edificações. Está atrelado a melhorias em eficiência energética, o que pode inclusive trazer lucro como retorno de investimentos.

O mais indicado é também o mais complicado: cortar emissões em países em desenvolvimento. Como esses países ainda não estão com sua infra-estrutura completa, têm opções de escolhas – usinas, indústrias... – mais limpas. Por outro lado, isso significaria tirar o direito dessas nações atingirem graus mais altos de desenvolvimento. E estabeleceria uma injustiça: os países industrializados, que têm uma responsabilidade histórica sobre o aquecimento global, continuariam sendo os maiores emissores de gases.

O Protocolo de Kyoto desobrigou os pobres de reduzir a emissão de gases. Mas os países industrializados, entre eles os EUA, que não assinou o tratado, pressionam. A saída pode ser os ricos bancarem a mitigação para os pobres em troca de abatimento de suas cotas de redução. Uma discussão que demandará tempo, justamente o que falta para tentar reverter o avanço do aquecimento global.

 

Um desafio para as cidades

 

As cidades ocupam apenas 0,4% da superfície do planeta, mas são responsáveis pela emissão de 75% dos gases causadores do efeito estufa. E pela primeira vez, em 2008 mais pessoas viverão em zonas urbanas do que em rurais. A tendência é de aumentar o grau de emissão, em especial de CO², através de carros, cuja frota mundial é de 850 milhões de unidades. A tecnologia flex é um sucesso, mas a gasolina predomina com larga margem.

A potencialização de problemas urbanos exige um novo modelo de planejamento, que contemple infra-estrutura e saúde – para atender os efeitos das mudanças climáticas. É preciso também diminuir a fonte de gases. Proibir periodicamente a circulação de carros pode ser uma alternativa.

 

Crise climática muda o mapa agrícola brasileiro

 

O Brasil está sendo fortemente atingido pelas mudanças climáticas e não tem um plano eficiente de adaptação. Se o cenário pessimista do IPCC 2007 se confirmar, as perdas na agricultura serão trágicas. A área de plantio da soja, para dar um exemplo, será 64% inferior à atual.

Estudo do pesquisador Hilton Pinto, do Centro de Pesquisas Meteorológicas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Unicamp, tema de matéria especial do Correio Riograndense na edição de 24 de janeiro passado, dá a dimensão das transformações que estão em curso. "Se a temperatura máxima aumentar 3º C, a perda do potencial de plantio no país será de 25%", afirma o pesquisador. Esse percentual representaria atualmente mais de 30 milhões de toneladas de grãos – a primeira estimativa do IBGE para a produção em 2007, divulgada na quinta 8, é de 128 milhões de toneladas.

A questão não se resume a perdas. Ela avança para a profunda transformação de características regionais. O café paulista, por exemplo, praticamente desaparece. "Caso a temperatura aumente em média 5,8º C, perderemos 92% da área útil de plantio em São Paulo, Minas e Paraná", calcula Pinto. É que na época do florescimento da planta de café não podem ocorrer mais do que cinco dias com temperaturas superiores a 34ºC. E pelas previsões, isso tende a ocorrer com mais freqüência com o passar dos anos.

Os paulistas estão substituindo o café por outras culturas. Uma delas é a seringueira, cuja área de plantio no Estado saltou de 3,7 mil hectares em 1990 para 37 mil hectares em 2005.

O café tende a migrar para o Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina, com temperaturas mais amenas. Mas a seqüência de períodos de seca em solo gaúcho fará com que o Estado perca condições favoráveis para o cultivo de soja, que será viável apenas no Centro-Oeste e no sul da Amazônia. Pela migração de culturas projetada pelo especialista, fica claro que o Rio Grande do Sul terá no futuro um clima parecido com o que tem atualmente São Paulo e este Estado viverá sob condições semelhantes às da Amazônia de hoje.

 

IGREJA

Visita do Papa transforma Aparecida

Obras na basílica e na cidade visam receber Bento XVI em maio

 

Aparecida, pequena cidade do interior de São Paulo, com 36 mil habitantes, localizada a 167 km da capital paulista, está passando por grandes mudanças. As reformas destinam-se a preparar o município para receber o Papa Bento XVI em maio, quando abrirá a 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. A maior parte das obras está sendo realizada pela Igreja Católica, com a ajuda da iniciativa privada.

Aparecida abriga o Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do Brasil, um dos locais mais visitados do mundo. São cerca de 150 mil romeiros por semana ou oito milhões de peregrinos por ano. O santuário, que administra o complexo da basílica, já efetuou diversas reformas, que incluem a troca da iluminação da torre da igreja, a construção da tribuna, próxima ao santuário, onde o Papa vai celebrar a missa, e o revestimento da cúpula do templo com 230 toneladas de cobre.

O interior da basílica também está passando por reformas. As paredes, que já contam com tvs para acompanhar a celebração da missa, estão sendo revestidas com painéis que retratam a vida de Cristo. O valor das obras não é divulgado, mas depende das doações que entram através da Campanha dos Devotos, iniciada em 1999 com o objetivo de arrecadar fundos para as reformas; de restaurantes e lojas com licença para funcionar na área da basílica e dos anúncios de empresas no terreno do santuário.

As obras também incluem a reforma no seminário Bom Jesus, que deve hospedar Bento XVI e sua comitiva, mas essa está a cargo da arquidiocese e não do complexo da basílica, administrado pela congregação dos redentoristas.

Na cidade, a prefeitura de Aparecida deverá investir cerca de R$ 10 milhões com obras que visam facilitar a acolhida dos romeiros. Elas incluem melhorias na iluminação, calçadões, construção de um reservatório de água, um novo portal turístico, placas com informações turísticas e uma estrada marginal à via Dutra, para facilitar o acesso à cidade.

 

Bento XVI abre conferência episcopal

 

Bento XVI presidirá uma missa campal na basílica de Aparecida no dia 13 de maio e na parte da tarde abrirá a 5ª Conferência do Episcopado Latino-americano, que será realizada em Aparecida de 13 a 31 de maio. A Conferência, que deverá reunir cerca de 300 pessoas, entre bispos e padres latino-americanos e do Caribe, terá como metas redefinir o papel da Igreja no continente.

O secretário executivo do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), o padre chileno Sidney Fones, informou no início de fevereiro à Folha de São Paulo que a realização da conferência deverá custar à Igreja cerca de R$ 2,5 milhões. Fones revelou que metade desse montante deverá ser com passagens e hospedagem, valor que será pago pelos próprios participantes da conferência. O restante (R$ 1,27 milhão) deverá ser gasto com comunicação por satélite para todo o mundo. Esse custo poderá ser coberto com doações feitas por fiéis e empresas.

 

Mosteiro beneditino hospeda Pontífice durante três dias

 

Bento XVI vai permanecer cinco dias no Brasil, durante sua primeira viagem apostólica, como pontífice, fora da Europa. O Papa chega ao Brasil no dia 9 e retorna a Roma no dia 13 de maio, logo após abrir solenemente a 5ª Conferência Geral do Celam. Bento XVI chega a São Paulo no dia 9 de maio. Durante os três dias em que permanece na capital paulista, o Papa vai se hospedar no Mosteiro de São Bento. A programação, em São Paulo, prevê missa no Campo de Bagatelle e na catedral da Sé, além de encontros com jovens e com bispos. No dia 11, segue para Aparecida.

Nas visitas apostólicas fora do Vaticano, o Papa costuma hospedar-se na Nunciatura Apostólica do país anfitrião ou no palácio episcopal da diocese, mas diante da falta de tal estrutura na residência episcopal paulistana, o então arcebispo de São Paulo, o cardeal dom Cláudio Hummes, hoje prefeito da Congregação vaticana para o Clero, solicitou que os beneditinos acolhessem Bento XVI.

No centenário mosteiro – foi construído há mais de 408 anos – vivem 38 monges. O mosteiro também vai receber a comitiva papal, formada por pelo menos uma dúzia de assessores. O Pontífice vai dispor de um apartamento de 38 metros quadrados – o mesmo que foi ocupado em 2003 pelo dalai-lama -, um escritório privado e uma pequena sala de reuniões. Todos os espaços serão decorados com obras de arte sacra do próprio mosteiro.

 

JESUS ME DISSE

Padre Zezinho

Falsos profetas anunciam o que Jesus nunca falou

 

Foi Jesus quem disse com meridiana clareza que deveríamos tomar cuidado com os auto-proclamados profetas. Não deveríamos lhes dar ouvidos. E acrescentou: – Olhem que eu avisei!

Quem viesse com a conversa do tipo "Eu sei, eu vi, ei-lo aqui, ei-lo acolá, ele me falou, ele mandou dizer, sou seu porta-voz, ele me revelou ontem à noite, Jesus me disse", deveria ser questionado pela assembléia. Como assembléia não leva Jesus a sério, os falsos profetas continuam a todo vapor anunciando revelações que não lhes foram feitas, dando recados que não lhes foram dados, profetizando o que Jesus não mandou e predizendo o que não vai acontecer nunca!

Ligo a televisão e vejo, nas mais diversas religiões, algum profeta curando quem não está doente, expulsando demônios que nunca foram demônios, dizendo que Jesus lhes revelou o que depois não se verifica e anunciando milagres que não aconteceram. Como pregam bem, o povo acaba encantado com sua fala e nunca vai verificar. Esquecem mais do que depressa o milagre anunciado e não realizado. Quando o doente supostamente curado de câncer morre dois meses depois, eles prudentemente mudam de assunto, o show da fé precisa continuar, então arranjam outro fogo de artifício. O que não podem é deixar de fazer as suas pirotecnias espirituais para atrair mais fiéis.

O pregador que dizia que todos os presentes àquele culto tinham um demônio oculto que apenas ainda não tinha se manifestado estava prendendo os fiéis ao medo e à sua pregação.

Não vê quem não quer. Ninguém comprova, nunca mandam aos médicos, como Jesus mandou os leprosos aos sacerdotes do Templo. Não deixam os ex-agraciados com o anunciado milagre voltar e falar a verdade quando não foram curados. Só podem dar testemunho se forem curados. Se não foram negam-lhes o microfone.

Agiu bem aquele grupo de mulheres que, naquela quarta-feira, ao ouvir pela enésima vez o pregador dizer que Jesus lhe havia feito uma nova revelação para a comunidade, saíram pisando firme da celebração.

– "Viemos aqui ouvir falar de Cristo e da Igreja. O que você ouviu quarta-feira não tem a menor importância para nós. Queremos saber o que Igreja disse e o que está na Bíblia. Guarde suas visões para si mesmo...". Foi o que disseram.

Não adiantou nada porque toda segunda-feira ele tem uma visão e toda quarta-feira continua a dizer à comunidade o que Jesus lhe disse... Pedro, Paulo, Jeremias, Ezequiel e Jesus já disseram o que pensam desse tipo de pregador que adora dizer que Deus falou com eles... Pena que o povo nem sempre lê a Bíblia. Se lesse não daria ouvido a esse tipo de pregação!

 

Pastorinhas celebram ano vocacional

Período marca 70 anos da congregação e 25 anos da província gaúcha

 

Para marcar os 25 anos da Província Jesus Bom Pastor e os 70 anos de fundação da congregação, as Irmãs de Jesus Bom Pastor – Pastorinhas, celebram, de janeiro de 2007 a janeiro de 2008 o Ano Vocacional na província do Rio Grande do Sul. Nesse período, as pastorinhas também recordam os 100 anos de ordenação sacerdotal do fundador, o bem-aventurado Padre Tiago Alberione, e os 50 anos de consagração religiosa das primeiras irmãs da província (matéria abaixo).

Motivadas pelo tema "Vocações para cuidar da vida" e pelo lema "Coragem! Cultivai a vocação!", as irmãs pastorinhas abriram o ano vocacional durante encontro anual, realizado no dia 28 de janeiro, em Veranópolis (RS). Participaram do encontro 69 das 70 religiosas que integram a província gaúcha, além dos leigos cooperadores paulinos de Jesus Bom Pastor.

"O objetivo do ano é fortalecer, em nível interno e com todo o povo de Deus, uma nova consciência e mentalidade vocacional, pedida pelo 2º Congresso Vocacional do Brasil: todos os batizados são chamados para chamar. A Igreja toda é responsável pelo cultivo de todas as vocações", salienta irmã Suzimara Barbosa de Almeida, do setor de animação vocacional da província.

As irmãs pastorinhas chegaram ao Brasil em 1946, fixando-se em São Paulo. Seis anos depois, em 1952, estabeleciam-se em São Pedro da Terceira Légua, interior de Caxias do Sul. Atualmente, a província gaúcha é composta de 20 comunidades em cinco Estados brasileiros – Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e Tocantins – e uma em Payssandu, no Uruguai. Irmã Soeli Teresinha Branco é a provincial.

 

Pioneiras recordam 50 anos de profissão

 

Cinco irmãs pastorinhas, que integraram o primeiro grupo de vocacionadas da congregação no Brasil, comemoraram, em janeiro passado, 50 anos de vida religiosa. A data foi celebrada no dia 6 de janeiro, na comunidade Jesus Bom Pastor, na av. São Leopoldo, em Caxias do Sul, com missa de ação de graças, renovação dos votos e confraternização.

Celebraram o jubileu as irmãs Elisa Comerlato, Iolanda Piva e Zelinda Gavazoni, da Província Jesus Bom Pastor, com sede em Caxias do Sul, e as irmãs Rosária Ribeiro e Pierina Iope, da Província Padre Alberione, com sede em São Paulo. As irmãs Elisa, Iolanda e Zelinda residem em Caxias do Sul. Nos próximos dias, irmã Zelinda vai atuar no Tocantins. Irmã Rosária trabalha em São Paulo e irmã Pierina em Brasília. Elas iniciaram sua caminhada religiosa na comunidade da Terceira Légua, em Caxias do Sul.

 

Presença na catequese e na formação

 

A Congregação de Jesus Bom Pastor foi fundada na Itália, por Tiago Alberione, no dia 7 de outubro de 1938. Hoje a congregação conta com cerca de 600 irmãs, presentes em 17 nações dos cinco continentes. Estão agrupadas em 10 circunscrições – cinco províncias e cinco delegações. Duas províncias têm sede na Itália, duas no Brasil (Caxias do Sul e São Paulo) e uma nas Filipinas. As delegações são constituídas por Argentina-Bolívia, Chile-Peru, Austrália, Coréia e Colômbia-Venezuela-México.

As irmãs pastorinhas atuam nas comunidades cristãs, através da catequese e da evangelização, da animação litúrgica, da formação dos agentes de pastoral e de outros serviços sociais, apostólicos e missionários.

 

PORQUE VOCÊ BRILHA

Aldo Colombo

Os dons que temos não são nossos, mas dados por Deus. Mérito nosso é aperfeiçoá-los e colocá-los a serviço dos outros

 

Numa noite de verão, junto a um pântano, um vaga-lume divertia-se acendendo e apagando sua luzinha verde. Outros insetos cumprimentavam o vaga-lume e seu efeito luminoso. De resto, ele não tinha inimigos. Aí surgiu uma cobra, exibindo uma língua desafiadora e olhos malvados. O vaga-lume tentou dialogar. Por acaso, faço parte de sua cadeia alimentar? A cobra disse que não. O vaga-lume insistiu: talvez, sem querer, eu te fiz alguma coisa? Também não, afirmou a cobra, mantendo a postura agressiva. Então, perguntou o vaga-lume: por que você pretende me destruir? E a cobra foi direta: é porque você brilha.

A inveja é um dos piores vícios capitais e mesmo um dos mais humilhantes. Trata-se de um reconhecimento das virtudes e dons de outra pessoa, mas pelo lado negativo. A inveja é marcada pela mesquinhez. É cultivar o despeito e o rancor pelo bem que existe nos outros. E como maneira de justificar-se, o invejoso trata de falsificar a atitude do irmão, caracterizando como defeito o que é qualidade.

Já nas primeiras páginas da Bíblia, encontramos o invejoso Caim assassinando seu irmão Abel, na tentativa de destruir o bem que existia nele. E o sinal do crime ficou marcado em sua testa. Os dons que temos não são nossos, mas dados por Deus. Mérito nosso é aperfeiçoar esses dons e colocá-los a serviço dos outros. Uma canção é feita com diferentes notas musicais. São diferentes letras que compõem um poema.

Numa orquestra, os mais variados instrumentos criam torrentes musicais. A refeição é composta por diferentes pratos e juntos formam uma dieta perfeita. A mesma diversidade funciona num time de futebol ou numa família. Nem todos fazem a mesma coisa, mas todos trabalham em favor do conjunto, do objetivo final. Numa comunidade, a perfeição surge dos diferentes dons colocados em comum.

Ninguém é completo em si e todos se beneficiam das qualidades dos outros. Nenhuma pessoa pode dizer: não preciso de ninguém. Desde o primeiro momento da vida, precisamos dos outros para sobreviver. Santa Catarina de Sena afirmava: Deus nunca dá todos os seus dons a uma única pessoa, e não deixa ninguém sem dons; isto é para que aprendamos a partilhar.

Embora educado no orgulho fariseu, o apóstolo Paulo foi vencido pelo amor de Cristo. É dele um dos mais maravilhosos poemas sobre o amor-partilha. Diz o apóstolo: "Há diversidade de dons, mas um mesmo é o espírito. Há diferentes atividades, mas é o mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos" (1Cor 12, 4). E ele desenvolve toda uma linha de pensamento em relação à unidade que surge de Cristo. O olho, o pé, a mão, todos os membros formam o corpo. Todos eles são importantes e nenhum é auto-suficiente. E Paulo termina dizendo: "Se não tiver amor, nada sou". Nossa fé se origina de um Deus que é Pai e, como conseqüência lógica, todos somos irmãos. E quanto mais percebermos e nos maravilharmos com as qualidades do irmão, mais perceberemos o brilho de Deus.

 

Catedral terá torre depois de 90 anos

Obra, junto ao templo caxiense, deve estar concluída em outubro

 

Um sonho acalentado há quase um século deverá concretizar-se a partir de março – a construção do campanário ao lado da catedral diocesana de Caxias do Sul. O projeto de construção da torre foi apresentado na quinta-feira 8, junto à catedral, com a bênção de dom Paulo Moretto e a colocação simbólica, por parte do bispo diocesano, do primeiro tijolo.

O campanário será construído entre a catedral e a Casa Magnabosco. No local estão a pedra fundamental e os alicerces da obra, abençoada no dia 8 de dezembro de 1917 por dom João Becker, sobre os quais dom Paulo colocou o primeiro tijolo. As obras, executadas pela Construtora Vêneto, iniciam em março, com previsão de conclusão em outubro, para a festa da padroeira da catedral, Santa Teresa.

O projeto original, feito em 1916 pelo arquiteto Francesco Meneguzzo, previa uma torre com mais de 60 metros, mas a obra nunca foi concretizada por causa dos custos, revela o pároco da catedral, padre Leomar Brustolin. O projeto atual segue o estilo neogótico do templo e a torre terá 35 metros de altura. "É uma releitura que tem analogia ao campanário de 1916 e segue uma linguagem alinhada ao monumento arquitetônico da catedral", salienta a arquiteta Bernadete Corso Gazzi.

Segundo a arquiteta, serão quatro grandes pilares, coroados com pináculos em seu topo. O fechamento do campanário terá a mesma proposta da igreja – tijolos rebocados com tratamento de bugnato, isto é, alvenaria de pedra. Há também aberturas em arcos ogivais, com guarnições em relevo.

Sinos – No alto da torre serão colocados três sinos feitos na Alemanha e que estão guardados na catedral desde 1889. O térreo do campanário será ocupado pela secretaria da paróquia e além da torre estão previstas a revitalização do Jardim de Maria, a construção de um auditório para 150 pessoas e a cobertura da rampa de acesso à catedral pela rua Os 18 do Forte.

O custo total da obras está orçado em R$ 400 mil. Segundo padre Leomar, a paróquia não vai investir um centavo no projeto. A captação dos recursos será por meio de doações da iniciativa privada. Já está disponibilizada uma conta no Bradesco (agência 2869-0, conta nº 14753-2). Doações também poderão ser feitas na secretaria da catedral, rua Os 18 do Forte, 1801, telefone (54) 3221.2564. "Contamos com o apoio da coletividade caxiense", destaca padre Leomar.

 

Obra resgata antigo sonho dos caxienses

 

O pároco da catedral, padre Leomar Brustolin, destaca que o campanário, um projeto que sai do papel depois de 90 anos, não pretende ser mais um monumento, mas uma obra funcional, que atende uma questão histórica, religiosa e cultural da cidade. "O projeto todo foi pensado de uma forma que pudesse ser viabilizado, atendendo as necessidades da igreja e principalmente das pessoas que diariamente participam da vida paroquial da catedral", reforça a arquiteta Bernadete Gazzi.

O anúncio da construção da torre suscitou críticas de algumas pessoas, inclusive padres, contrárias à sua execução. Padre Leomar explica que as obras serão financiadas pelos mesmos benfeitores (fiéis e empresas) que ajudam a Casa Madre Tereza e que colaboraram na construção da igreja da Ressurreição no Bairro Mariani, na qual foram empregados em torno de R$ 600 mil.

A catedral desenvolve diversas ações sociais, especialmente através da Casa Madre Teresa, que distribui mensalmente 3,5 toneladas de alimentos e oito mil fraldas geriátricas e conta com 145 voluntários.

 

CONHECER-SE

Wilson João

Sabemos pouco de nós. 90% se contentam apenas em comer, dormir e trabalhar

 

A estrada mais curta, e ao mesmo tempo mais longa, é caminhar para dentro de si. O caminho mais curto, e menos andado, é para a casa dos sentimentos e segredos pessoais. E porque não se tem coragem de enfrentar esse caminho que é tão curto, buscam-se caminhos distantes. Gastam-se dinheiro e tempo, energia e esperanças na busca de psicólogos e psiquiatras, de pastores e benzedeiros, de sacerdotes e médicos, de romarias e promessas, de devoções e passes de descarregos e purificações. Em algumas situações há soluções, em outras ficam a ilusão e o sonho de buscar mais um caminho. Experimenta-se de tudo e não se experimenta a viagem mais curta, que é para dentro de si.

HÁ UM DESCONHECIMENTO DE NOSSO CONSCIENTE. Conhecemos muito pouco de nós mesmos. Usamos poucas idéias e palavras. Ignoramos o potencial que somos. Ficamos na periferia dos fatos e de nós mesmos. Estudamos muito pouco. Lemos menos ainda. Quase não refletimos, e preferimos lamentar. Poucos tomam para si dez minutos das vinte e quatro horas de seu tempo diário. Não penetramos no coração dos fatos e das notícias. Andamos na onda do "rádio falou... o jornal nacional disse... o artista da novela teve essa atitude..." e o eu e o meu, minha opinião e decisão ficam engolidas pelo parecer e decisão dos outros. Sabemos muito pouco de nós mesmos e por isso noventa por cento da sociedade se contentam em comer e dormir, trabalhar e consumir.

HÁ UM DESCONHECIMENTO DE NOSSO INCONSCIENTE. Temos medos e angústias, tristezas e bloqueios, insônias e agressividades, e até convulsões e reações estranhas, e em vez de buscarmos as causas dentro de nós, em nosso infinito e sábio inconsciente, vamos buscar explicações em vidas passadas, em teorias espíritas, em espíritos encostados, em invejas e olho grande, em bênçãos e promessas. Busca-se em todos os lugares e em tudo o que é pessoa. A vida se torna uma peregrinação de ilusões. Sem contar com analgésicos, calmantes e entorpecentes, que fazem os grandes negócios dos grandes laboratórios, muito bem planejados.

A VIAGEM INTERIOR É QUE RESOLVE. E amigos, psicólogos, terapeutas e tantas outras pessoas podem ajudar. Mas a solução está dentro de cada um. Para isso é preciso tomar a estrada mais comprida e mais curta: sentar-se, refletir, ver as causas, perceber-se, sentir-se, ver as reações e tomar as decisões.

Para isso é necessária muita humildade. Reconhecer-se frágil. Sentir-se um necessitado. Dar-se tempo. Projetar-se em planos de vida melhor. Programar-se. É o trabalho do conhecer-se. Dizia o sábio filósofo grego: "Conhece-te a ti mesmo". Ali está o princípio da sabedoria e da felicidade.

 

CORREIO SABE-TUDO

ESTRANHAS SENSAÇÕES

 

Soluço, cócegas, choque no cotovelo, tremor das pálpebras etc. Essas são sensação corriqueiras do corpo humano, mas quem já não se questionou de onde elas vêm? Por que ocorrem e de que forma? A seguir, o Correio Sabe-Tudo esclarece algumas dessas dúvidas.

O que causa o soluço? Qualquer irritação do nervo frênico, que controla o diafragma, ou do próprio diafragma, o que acontece em várias situações do dia-a-dia: distensão do estômago pela ingestão de bebidas com gás, deglutição de ar ou comida em excesso; mudanças súbitas da temperatura de alimentos ingeridos ou da temperatura corporal; ingestão de bebidas alcoólicas e até mesmo gargalhadas. Essas situações estimulam em excesso o nervo frênico, que por sua vez passa a se contrair de forma descontrolada, e fazem a glote – aquela parte da laringe onde as cordas vocais estão localizadas – se fechar, dando origem ao soluço. Para livar-se dele, os especialistas não sugerem nada além das conhecidas soluções caseiras: prender a respiração ou beber água gelada.

Por que ao comer alimentos gelados a cabeça, às vezes, dói? Esses alimentos causam um superestímulo nos nervos do céu da boca, mas a sensação de dor vem da cabeça porque é lá que está a matriz nervosa. Os especialistas dizem que quem sofre de enxaqueca está mais propenso a sentir essa dor. Para reduzir o impacto dos alimentos gelados no sistema nervoso, recomenda-se ingeri-los a uma velocidade mais lenta.

Por que as pálpebras tremem? Trata-se de uma falha na transmissão dos impulsos nervosos que chegam aos músculos ao redor dos olhos. O sintoma quase sempre está relacionado a estresse, fadiga ou insônia.

Por que o cotovelo dá choque? A origem dessa sensação vem de um nervo espesso e bastante sensível que reveste os ossos do cotovelo e fica muito exposto, logo abaixo da pele. Ao ser estimulado, quando batemos o cotovelo na quina de um móvel, por exemplo, o nervo cubital produz a sensação de choque e, às vezes, de dor. Como o nervo estende-se até os dedos mínimo e anular, a sensação espalha-se até as mãos. Horrível! Mas não há nada a fazer a não ser esperar a dor passar.

 

"Auto-cócegas" não funcionam

 

Por que não é possível fazer cócegas em si mesmo? A resposta vem de uma parte do cérebro chamada cerebelo. Ele é responsável pelo controle dos movimentos voluntários do corpo. Estudo da Universidade de Londres mostrou que o cerebelo pode prever cócegas causadas pelo próprio movimento da pessoa, mas não quando ela é realizada por outra.

Segundo Bla-kemore, líder do estudo, quando você tenta fazer cócegas em si mesmo, o cerebelo prevê o movimento. Isso cancela a resposta de outras duas áreas do cérebro que forneceriam a sensação de cócegas caso outra pessoa estivesse fazendo o mesmo movimento.

As duas regiões citadas são o córtex somatosensorial e córtex cingular anterior. São elas as principais responsáveis por sentirmos cócegas. Essas duas regiões ficam menos ativas quando detectam uma "auto-cócega" do que quando sentem os mesmos movimentos feitos por outra pessoa.

 

CULTURA DA IMIGRAÇÃO

L’italiano che c’è in me

Francesco Rosito

Professor, Porto Alegre – RS

 

De culinária, música e cultura se compõe a italianidade de Francesco (Rovílio Costa):

"Nasci em Morano Calabro-CS (1946), filho de Domenico e Maria Severino Rosito. Meu pai combateu na II Guerra, o mesmo acontecendo com meu avô Rocco, que faleceu em combate. Para evitar que o mesmo acontecesse com seus filhos, meu pai resolveu vir para Porto Alegre, onde já estava meu avô materno, Francesco Severino. Fomos morar perto dele e de outros familiares.

Minha infância foi rodeada de italianos e em casa só se falava o moranês, o que dificultou a aprender o português e o relacionamento com colegas brasileiros, porque os italianos eram mal-vistos no pós-guerra. Meu contato com o italiano gramatical deu-se aos 20 anos. Cursei Química na PUC-RS e Pós-Graduação em Marketing na UFRGS.

Eu não conhecia Morano Calabro, mas tinha em mente sua beleza e gastronomia pelo que diziam os mais velhos. Está presente na minha retina a imagem da grande festa gastronômica da matança do porco e do preparo da famosa lingüíça calabresa, a sopressata, o torresmo, a banha e demais embutidos. Ao patriarca cabia a honra de abater o porco, e toda a família trabalhava no corte da carne, desossamento e preparação dos demais produtos. Era realmente uma grande festa.

Eu me sentia italiano como os demais, mesmo tendo vindo pequeno para Porto Alegre. E o sentimento de italianidade era tão forte que quando completei 18 anos fui no Consulado Italiano me apresentar para o Serviço Militar. Grande foi minha decepção, ao ser informado que não precisava servir pois o exército italiano tinha excesso de contingente.

Mas meu sentimento não esfriou. Sempre que encontrava alguém falando italiano, procurava falar e saber mais sobre a Itália. Desde a infância ouço óperas italianas e canções napolitanas.

Desde jovem, trabalhei pela comunidade italiana. Em 1967 assumi o cargo de diretor social do Centro Ítalo-Brasileiro, atual Sociedade Italiana do Rio Grande do Sul, e nos anos de 1981 e 1982 fui seu presidente. Neste mandato, fundamos o Grupo Folclórico Monte Pollino, para divulgar a dança, as tradições e a cultura italiana. Fui depois presidente do Conselho Deliberativo e colaborador em quase todas as gestões. Atualmente, sou primeiro secretário da SIRGS e vice-presidente da Associação Cultural Italiana do Rio Grande do Sul (ACIRS) e Conselheiro do Centro Calabrese.

Depois de trabalhar como químico em uma multinacional, passei a trabalhar como professor e chef de gastronomia italiana, tendo realizado mais de 50 cursos em cidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Goiânia, após fazer o Curso de Enogastronomia Italiana junto ao ICIF e o Curso Chef Esperto in Gastronomia Típica Italiana, promovido pela Leader Ulixes de Palermo. Depois destes dois cursos, patrocinados pelo governo italiano, cabe-me mostrar a cozinha típica italiana, apresentar sua história e importância no mundo.

Hoje sou professor na Escola Técnica Senai Mauá, em Porto Alegre, e também ministrei cursos de Extensão na PUC-RS e na FEEVALE, em Novo Hamburgo, divulgando a cultura, através da gastronomia italiana.

Sou casado com Jocélia Maisonnave Rosito e temos os filhos Enrico, Branca e Bibiana, aos quais passo sempre o amor que tenho pela Itália e por sua milenar cultura.

Minha emoção de ser italiano num país tão longe da Itália e com uma cultura tão diferente ainda é igual à da minha juventude. Estou pronto para colaborar com todas as entidades e com o Consulado, para divulgar la nostra bella Italia. Eis o italiano que vive em mim." (frarosito@hotmail.com).

 

EL RITORNO DE NANETTO PIPETTA (398)

Nanetto in Longarone, pìcola cità trameso montagne

Rafael Baldissera

Professor, Curitiba – PR

 

Imbarcadi par ndar a Longarone, Edilson el spiega:

– Longarone la ze na pìcola cità trameso montagne. La Prefetura dea sità la gavea fato costruir na grande rosta tra due montagne, ben rente e ben dessora la cità, par fornir aqua al pòpolo. Tel 1962, na parte dea montagna la ga sbrissià rento la rosta, butando fora tuta l’aqua, che la ga inondà la cità, destrugéndola completamente. L’aqua la ga traversà la cità e la ze ndà su te la montagna oposta, a na altessa de 280 metri e la ze ritornada. Cossita, le case che no le ze stà destrute ntel primo colpo, le ze stà destrute tel secondo. Le ze morte 2.000 persone. Lora, arquanti Longaronesi sopraviventi i ze emigrai ala cità de Urussanga, in Santa Catarina. Par questo le due cità le ga fato el gemelaio.

– Cosa vien esser sto gema l’aio? Domanda Nanetto.

– Ge-me-la-io, Nanetto, la ze na parola che vien da gemel. Gemelaio vol dir fradelarse, sioè, ogniuna la iuta l’altra. Longarone la ze el prinsìpio dei Alpi e del Tirol. Se vede l’influensa tirolesa ntel architetura. El ze el Tirolo Italiano.

– Lora, ghe ze nantro Tirolo? Osserva Nanetto.

– Sì, ghe ze anca el Tirolo austrìaco, coa capital Innsbruck. Tel Tirolo Italiano i Tirolesi i parla talian e tel Tirolo austrìaco i parla tedesco. Vardè che le case le ze diferente: le ga el piano dessora sempre de legno e con sacade e fiori.

– Gràssie, Edílson, vedo che savì pròprio tuto!

– Tuto nò, Nanetto, ma bona parte! Tel Àustria, la capital del Tirolo la ze Innsbruck, come te go dito. Là anca le case le ze tìpiche. La lìngua la ze el tedesco. La cità la dòpera el bonde biarticolà. La ga tante aragne tirade par cavai, par far passegi. La so catedrale la ze stà costruida tel 1700. La ga rento un balcon spessial, che’l gera del Kaiser Massiminiano. La ga anca la tomba de Massiminiano. Innsbruck el ga ricevesto el nome dal rio Inn, che la straversa. Nel 1669, la ze stà fondada la so Università. Nel 1809, el nome Tirolo l’è stà trucà par Baviera del Sud. Innsbruck la ga 130.000 abitanti e 30.000 universitàrii.

Con Nanetto, ghemo ringrassià Edílson e ghemo cantà: Tirol, Tirol, Tirol!

 

VITA STÒRIA E FROTÒLE

Rovílio Costa e Arlindo Battistel

A scampo via de reoplano

Setembrino Rubbo

Construtor, Pinto Bandeira, Bento Gonçalves – RS

 

Tonin Pavan, fradel de me nona, el volea scapar via de casa de avion. Come tanti altri, el fea anca lu le so ciuchete, e vegnea fora anca dele barufete con la zia Giudita. Un giorno el se ga inrabià, e el ga deciso:

– Ciapo su, e vo via per sempre, ancora ancoi.

El va rento in càmera, el ciapa su un nissol, lo mete su le spale, el va in tela finestra, e el osa:

– Adio, Mora, vao via, me despiase par la creatura. Arivederci nel mondo de là.

La creatura zera la Rosina, la ùnica fioleta che i gavea. Così el ga fato. El se ga trato fora par la finestra, alta sinque metri, ma, par sorte, el ze cascà sora un persegaro, no’l se ga fato nessun mal, spacà sol i rami.

El zolo de reoplano el ze stà curto, e tuti i ze ndai tirarlo su!

Zera vin o sangue?

El barba Tonin Pavan el ghea na fameia pìcola, el gavea sol na fiola. Lora, quando che i gavea de far laori, el ciamea sempre i so neodi Germo e Fonso par giutarghe.

Ze vegnesto el giorno de travasar el vin, che’l ghin fea tanto. Lora el se ga messo bever bonora. Par travasar i metea la sotospina davanti el cocon. E dopo i trea el vin rento naltra bote. E, ala fine, ze vansà i fondassi, le bore te la sotospina.

E ghe ze vegnesto voia de bever naltro poco, ma no ghe zera né biceri, né scudele. Cosa falo? El se cùcia zo par bever rento la sotospina, in tera, che zera tuto moio, el sbrìssia indrio, el perde le sinele, e el bate col naso tei fondi dea sotospina. I lo tira su, cola fàcia tuta sporca, e lu el se passa na man, el vede tuto rosso, e el dise:

– Tosati, son ruvinà, son insanguanà, me go roto tuto el naso!

Zera falso alarme, l’era sol sporco dei fondassi!

Come far tanti dolsi boni

Na volta, quando el sùcaro l’era scarso e misurà, le done le ga risolvesto far un omaio a me barba, Calisto Pavan, che’l fea i ani.

– Ghe femo un cafè con tanti dolsi.

Ma, intanto le fea i dolsi, nono Calisto ghe fea la varda. E le done zo sùcaro dequà, zo sùcaro delà. E lu el salta fora, e el dise:

– Anca i pétoi de mul i resta boni co tanto sùcaro!

A quel tempo no se savea gnente de la diabete de oncó!

Sepolio con due litri de vin

Te la Lìnia Giacinta ze rivà la ùltima fameia de migranti taliani in 1900. Zera la fameia de Doménico Tumelero che’l gavea quatro fioi: Toni, Casemiro, Vitòrio e Dècimo. Anca a lori, come boni taliani, ghe piasea tanto el vin. Doménico el ga incaricà i so fioi, che quando el moria, i ghe metesse due litri de vin in tel casson. Così i ga fato, morto e sepolio con du litri de vin. Sti fioi i laorea de muradori. Dopo diese ani i ga risolves-to farghe su na tomba de materiale. Al giorno del esumassion, arquanti i ze ndai veder. I ga catà ancora i due litri de vin pieni. I ciapa, i lava ben, uno el gavea el suro ruinà, ma quelaltro el zera bon. Cosa gai fato? I lo ga bevesto. I lo ga catà gran bon e ben staionà.

 

GERAL

Sem asfalto, cidades param de crescer

Municípios sofrem com obras inacabadas que afetam economia

 

Estradas de chão em precárias condições. Nos períodos de chuva, os atoleiros são freqüentes, danificando caminhões e atrasando o calendário de entrega da produção. Nos dias de sol, muita poeira e prejuízos. Esse é o cenário que motoristas enfrentam em seus deslocamentos pelas BRs 470, no trecho Barracão-Lagoa Vermelha-Nova Prata, e a 285, trecho Bom Jesus-São José dos Ausentes.

A falta do asfalto impede a realização de projetos para o desenvolvimento e geração de empregos. Em André da Rocha, de 1.158 habitantes, a situação é preocupante e com reflexos na economia. "Por falta do asfaltamento de 65 km da BR 470, enquanto as cidades vizinhas cresceram de 27% a 37%, nosso município cresceu apenas 12,4%", observa o prefeito Ademir Zanotto.

Além disso, o asfaltamento encurtaria em 200 quilômetros o acesso ao centro do país. "Nossa região está mobilizada e esperando audiência com a governadora Yeda Crusius, para viabilizar, ao menos, os 15 km que são de responsabilidade do Estado", adianta Zanotto ao CR.

A população e prefeitos dos Campos de Cima da Serra também estão unidos. A região produz mais de 80% da maçã, grande parte da batata e do florestamento do Estado. "Estamos reivindicando melhorias na 285. Temos a promessa de R$ 45 milhões do orçamento da União em 2007", revela o prefeito de Bom Jesus, José Paulo de Almeida. A verba é insuficiente para concluir os 62 km que faltam até a divisa com Santa Catarina.

Ligação – Há ainda 121 municípios gaúchos sem ligação asfáltica no Estado, antiga reivindicação dos prefeitos. O BID dispõe de US$ 300 milhões, mas o assunto depende de aprovação do governo federal. A solicitação aguarda resposta do Ministério do Planejamento e da Secretaria de Assuntos Internacionais.