LEITORES 

 DESCOBRINDO CAMINHOS

 

Desde 1909, onde o conteúdo faz a diferença.

Edição 5.027 – Ano 99 – Caxias do Sul-RS, 21 de fevereiro de 2007.

 

EDITORIAL

Combate à violência exige muito mais do que reação

Parece que o país acordou surpreso para uma realidade com a qual convive há anos

 

Em apenas dois dias, dois importantes projetos de lei tiveram a tramitação acelerada no Congresso Nacional. Um deles, aprovado pela Câmara Federal, obriga o cumprimento de dois quintos da pena para o condenado por crime hediondo ter acesso a regime semi-aberto - hoje esse direito é assegurado com apenas um sexto. Outro, que passou pela Comissão de Direitos Humanos do Senado, amplia de apenas quatro para 15 anos de reclusão, mais multas, a pena para adulto que utilizar menor de idade para praticar crimes.

As propostas têm bom conteúdo e esse deveria ser o ritmo normal da atuação parlamentar. No entanto, só ganhou essa velocidade abastecido pelo combustível de uma tragédia - a brutal morte do menino João Hélio Fernandes Vieites, no Rio de Janeiro, que comoveu o país - e pela conseqüente cobrança da sociedade, cansada, e acuada, pelo crescimento da violência.

Menos mal que a repercussão tenha sacudido os políticos, mesmo aqueles que, de forma flagrante, se preocupam mais em ocupar espaço em busca de promoção. Melhor também que a insegurança ocupe como prioridade o cenário dos debates, único caminho capaz de indicar uma solução que contemple a punição justa aos criminosos e ao mesmo tempo combata a origem dos crimes, boa parte dela com raízes fincadas em graves problemas sociais.

A violência não será controlada, muito menos erradicada, com mudanças superficiais na legislação. Nem será bloqueada apenas com a redução da maioridade penal, um tema recorrente em situações como a atual, marcada pela participação de um menor no bárbaro assassinato do menino carioca, mas que precisa ser analisado com muita profundidade, cautela e sem viseiras emocionais.

Parece que o país acordou, surpreso, para uma realidade com a qual convive há anos. E só vai conseguir superá-la, recuperando pelo menos um pouco de segurança, se houver uma alteração abrangente da legislação. Para isso é necessária a aprovação de um conjunto de medidas, muitas delas previstas em uma dezena de projetos que tramitam no Congresso. Que isso seja feito sem afobação, uma natural indutora de equívocos, mas com o empenho, a agilidade e a urgência que o delicado momento exige.

 

CAXIAS DO SUL

Invasões elevam o clima de tensão

Ausência de medidas constrói cenário propício para uma tragédia

 

De um lado, a ação ameaçadora dos invasores, liderados, entre outros, por grileiros (como denunciou o vereador Édio Elói Frizzo, do PPS); de outro, proprietários de terra se sentem impotentes e unem forças para reagir. O clima ficou mais tenso na semana passada diante da demora da reintegração de posse e da ausência absoluta de ação para coibir a continuidade do corte de mata nativa e outros abusos nas áreas ocupadas.

Protesto organizado pelos proprietários prejudicados, no sábado 17, interrompeu o trânsito na BR-116, percorreu o centro da cidade e culminou com manifestação em frente à casa do prefeito José Ivo Sartori. Os donos de terras invadidas prometeram, na ocasião, mais ações, incluindo o fechamento da BR-116. "Se tivermos que voltar, só vamos sair quando a polícia cumprir os mandatos (três) de reintegração de posse", afirmou o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Caxias, Raimundo Bampi, irritado com o aparente descaso e temeroso diante da gravidade dos fatos.

O mais preocupante é a possibilidade de esse cenário de conflitos descambar para atos de violência. Moradores admitiam, no sábado (conforme citação do jornal Pioneiro), até o uso de espingardas "de grosso calibre". Como os invasores também já deram demonstrações de hostilidade e fizeram ameaças à integridade física de agricultores, estão expostos ingredientes típicos de um cenário para tragédia.

São cinco as áreas invadidas. A mais recente fica na localidade de Nossa Senhora da Maternidade, 5ª Légua, por mais de 100 famílias de sem-teto. Mas as invasões têm se repetido há mais de 30 dias sem uma medida forte para coibi-las. Ao todo, em apenas três áreas, são cerca de 1.000 famílias. A Prefeitura anunciou ajuda à Brigada Militar, mas não admite intervir. "Eles deixaram as coisas irem longe demais. O Poder Público não deu a devida atenção", afirmou o vereador Frizzo na segunda 18, lembrando que há 15 dias abriu a discussão sobre as invasões na Câmara. "Onde estava a Patran (patrulha ambiental da BM) que não impediu o corte de matas, e outros crimes ambientais?", questiona. Lideranças rurais, entre elas Bampi, extravasam sua indignação: "Os invasores podem tudo. Se o agricultor cortar uma árvore, é multado ou preso", declarou.

Informações extra-oficiais davam conta de que a Brigada Militar pretendia cumprir mandados de reintegração ainda nesta semana. Mas isso dependia de providências no campo social - transporte, destino etc... No final de semana passado era evidente a sensação de que sem uma ação eficaz imediata, os riscos de um confronto cresceriam.

 

Marcos Palmeira propaga agroecologia

 

A convite dos produtores da Feira Ecológica de Caxias do Sul, o ator Marcos Palmeira vem à cidade, no próximo dia 24, para conversar com feirantes e consumidores sobre sua experiência como produtor orgânico. A palestra, com o tema "Produto orgânico: consumo consciente e solidário", será realizada no largo da Estação Férrea, junto à feira ecológica, a partir das 10 horas. Também participam o sócio de Palmeira, o engenheiro agrônomo senegalês Aly Ndiaye, formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, e Leandro Venturin, técnico do Centro Ecológico de Ipê.

O ator contará ao público como rendeu-se à produção orgânica e como é a rotina da Fazenda Vale das Palmeiras, que ele adquiriu há 10 anos no Rio de Janeiro, onde implantou conceitos ecológicos. Ao meio-dia, ele almoça na Linha 60, onde também visita a propriedade de Antonio Rossi.

Sobre a vinda a Caxias do Sul, Palmeira disse estar feliz em poder conhecer a realidade local. "Espero poder trocar informações e conhecimentos com os produtores, e que isso nos aproxime mais. Desejo que possamos pensar juntos alternativas de popularizar a consciência ecológica", afirmou.

Os ingressos para a palestra são limitados e estão à venda a R$ 5,00 em quatro endereços na cidade: Fruteira Ecológica, Ponto Ecológico, Restaurante Natural Trigais e Zum Zum Café. Segundo o Centro Ecológico de Ipê, a Serra gaúcha tem 324 famílias de agricultores ecológicos, além de 19 associações e três cooperativas de produtores orgânicos.

Além de produtor orgânico, Marcos Palmeira é defensor da causa indígena e crítico dos transgênicos. A influência familiar acabou aproximando o ator das questões ambientais. Seu avô, Sinval Palmeira, era advogado comunista e questionava a monocultura e o desperdício das grandes fazendas em termos de matéria orgânica.

 

REPORTAGEM

Plasticultura altera paisagem vitícola

Mais de 100 hectares de videiras protegidas são conduzidos na Serra gaúcha

 

Ao andar pelas colônias da Serra gaúcha, nota-se que uma nova paisagem está se formando. São centenas de hectares de frutas e hortaliças cobertas por plásticos. Olhando mais de perto, o cultivo protegido de videiras é o que mais chama a atenção. "São mais de 100 hectares de vinhedos protegidos", revela o pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, Henrique Pessoa dos Santos.

Mais de 90% dessa área protege uvas de mesa (destinada ao consumo in natura). "O sistema está despertando o interesse de produtores de uvas comuns, como a niágara, e também de variedades nobres, voltadas à produção de vinhos", observa o engenheiro agrônomo da Emater de Caxias do Sul, Luciano Ilha. Estima-se que, aos poucos, os vitivinicultores adaptarão o cultivo da uva protegida em toda a extensão das suas propriedades.

O custo para cobrir um hectare coberto é de R$ 20 mil, devendo ser substituído a cada quatro ou cinco anos. O que está levando o agricultor a optar pela plasticultura? "Principalmente a qualidade e o prolongamento da colheita", resume Henrique Pessoa ao CR. O interesse do produtor motivou uma tarde de campo, dia 24 de janeiro, sobre o cultivo protegido de videiras, na propriedade da família Giacomin, de Mato Perso, Flores da Cunha. No local, a Embrapa e a Universidade Federal do RS desenvolvem pesquisas.

As coberturas são barreiras físicas contra chuva e granizo. Entretanto, não proporcionam proteção contra as geadas - não há diferença de temperatura mínima diária entre áreas cobertas e descobertas.

Agrotóxicos - Pesquisadores e produtores são unânimes em afirmar que o emprego desta tecnologia diminui os danos por adversidades climáticas sobre a produção e a maturação das uvas. Também interessa aos que produzem com redução de agrotóxicos.

Com a diminuição das aplicações de fungicidas, obtida com o uso da cobertura, o produtor e o consumidor se expõem menos aos riscos de intoxicações por agrotóxicos. O meio ambiente é menos agredido com estes produtos que, de alguma forma, afetam o ecossistema, incluindo a microbiologia do solo. Há ainda outro benefício. Com a tecnologia, diminui o consumo de água pela redução de aplicações de fungicidas.

"Os benefícios no ambiente e na saúde do viticultor não são mensuráveis economicamente", diz o pesquisador da Embrapa. A decisão de cobrir os parreirais deve ocorrer considerando também esses aspectos, principalmente quando se toma como referência o valor agregado do produto final (diferenciado) e a redução de agrotóxicos.

 

Sob o plástico, durante todo o ciclo

 

A cobertura plástica acelera o processo de brotação em função do aumento da temperatura. Entretanto, pela diminuição da radiação solar sobre as plantas, o processo de maturação se torna mais longo. "Estas duas influências das coberturas são utilizadas em países como a Itália, para o manejo da data de colheita de uvas de mesa", ensina Henrique Pessoa.

Já se o objetivo for antecipar a brotação, utiliza-se o plástico da poda até a mudança de cor; se o interesse for o prolongamento do ciclo, a utilização do plástico é feita somente no período de maturação da uva. "Em nossas condições, pelos problemas de pluviosidade e doenças fúngicas, recomenda-se a cobertura em todo o ciclo", orienta.

Observações preliminares da pesquisa demonstram que as videiras cobertas, por apresentarem período prolongado de fotossíntese e menor condição de estresse, tendem a gerar maior número de cachos e com peso individual superior.

Doenças - Algumas doenças fúngicas, além de prejudicarem a produção da uva, afetam a qualidade do vinho, durante o processo de vinificação e no produto final, acentuando odores indesejáveis e acéticos. Em uvas com Botrytis, por exemplo, podem ocorrer oxidações enzimáticas de compostos fenólicos, prejudicando a cor, o aroma e o sabor do vinho.

Conforme o constatado na propriedade Giacomin, o incremento na qualidade enológica em áreas cobertas é alcançado pela diminuição das podridões de cachos e pela ampliação do período de maturação, independente das condições meteorológicas. "As coberturas possibilitam colheitas no momento adequado e, conseqüentemente, melhor estabilidade de qualidade entre safras", destaca o produtor Luiz Carlos Giacomin.

 

Sistema controla doenças fúngicas

 

As principais mudanças proporcionadas pela utilização da cobertura plástica são o aumento das temperaturas máximas, ocasionando maiores picos de temperaturas em dias quentes; restrição da água livre sobre as partes vegetativas e reprodutivas, sendo grande fator de controle de doenças fúngicas; diminuição da radiação sobre as plantas (média de -33% no dossel e -55% nos cachos), e da velocidade do vento (média de -88%) e perda de água do solo por evaporação e transpiração (via planta).

Com a alteração do microclima, sobretudo pela restrição da água livre sobre as folhas e cachos, o cultivo protegido não permite o desenvolvimento da maioria das doenças fúngicas, como míldio e podridões de cacho. Entretanto, o oídio adquire maior importância neste sistema, por se desenvolver em ambiente com pouca água livre e alta temperatura.

Na cultivar moscato giallo foram observadas reduções de incidência de podridões de cacho, atingindo em média 64,35%. Nesta diminuição destacam-se a glomerela (-76,55%) e a podridão ácida (-77,11%). Quanto à severidade (número de bagas atacadas por cacho) houve diminuição de podridão-da-uva-madura (-89,47%), podridão-cinzenta-da-uva (-57,56%) e podridão ácida (-84,54%).

 

Efeito residual dos venenos é superior

 

Os pesquisadores Henrique Pessoa e Geraldo Chavarria (UFRGS) dizem que o produtor deve ter cautela na utilização de agrotóxicos em áreas com cultivo protegido. "O efeito residual de fungicidas pode ser até 33% superior nas videiras cultivadas sob cobertura plástica", alertam.

O resultado pode afetar o processo fermentativo na cantina, já que a levedura é inibida pelo fungicida. No caso de uvas de mesa, este resíduo pode afetar diretamente o consumidor. Isso ocorre porque o agrotóxico não é lavado pela chuva e fica exposto à menor radiação solar, o que amplia o período de carência (rótulo).

Enfolhamento - As folhas no cultivo protegido podem permanecer biologicamente ativas por um período superior, comparativamente às do cultivo convencional. A queda das folhas das plantas cobertas ocorre devido à senescência, e sem a interferência de agentes externos. Já no cultivo convencional, a queda das folhas é precoce e, possivelmente, relacionada ao ataque de doenças fúngicas ou às respostas de fitotoxidez aos agrotóxicos.

 

AGRONEGÓCIO

Plano de irrigação prevê 9.000 miniaçudes no RS

Cada um terá no máximo 2 hectares. Em março inicia formação de técnicos e agricultores

 

O secretário Extraordinário da Irrigação e Usos Múltiplos da Água, Rogério Ortiz Porto, entregou na quinta 15 à governadora Yeda Crusius proposta preliminar do programa de irrigação que começa a ser implantado no Estado no mês que vem. A intenção do secretário é iniciar com a formação de 450 técnicos, da Emater e das prefeituras, e 9.000 agricultores - "número que se multiplicará em um ano, podendo atingir os 400 mil produtores gaúchos", afirmou em entrevista ao CR. "Para isso, contamos com a grande capacidade do agricultor gaúcho de absorver e repassar tecnologia", acrescentou.

O programa projeta a construção de 9.000 miniaçudes - número que Porto evita mencionar, preferindo dizer que serão "20 por município produtor agropecuário". Essa ressalva se deve a reações de órgãos ambientalistas. Muitos agricultores não têm conseguido licença ambiental para açudes, motivo de preocupação não só de entidades do setor como também de prefeituras.

Os miniaçudes do Programa de Irrigação terão no máximo dois hectares e capacidade de armazenar de 10.000 m3 a 50.000 m3 de água, quantidade suficiente, segundo Porto, para irrigar até 25 hectares de lavoura de milho. Também está prevista a construção de açudes com capacidade para 100 mil m3 e capacidade para 20 milhões de m3 de água e represas para 20 milhões de m3 a 100 milhões de m3 de água. Não está prevista perfuração de poços artesianos.

Barragens - Na sexta 16, Porto entregou à Fundação Estadual de Proteção Ambiental os estudos para a construção de barragens nos arroios Taquarembó e Jaguari. Essas obras fazem parte do projeto piloto do programa Pró-Água Nacional e dependem da licença prévia do órgão ambiental para que o governo do Estado e o Ministério da Integração assinem convênio no valor de US$ 88 milhões.

Juntas, vão acumular 300 milhões de m3 de água, volume que permitirá a irrigação de 80 mil hectares. Elas também integram o Programa de Irrigação e beneficiarão Dom Pedrito, Rosário do Sul, Lavras do Sul e São Gabriel, todos da Metade Sul.

Para a Serra, onde está o maior produtor de hortigranjeiros do Estado - Caxias do Sul -, o Programa de Irrigação prevê a construção de miniaçudes, seguindo a média de 20 por município. Indagado sobre a origem dos recursos necessários para a implantação do programa, o secretário respondeu que há linha de financiamento do BNDES - "mas a taxa de juros precisa baixar dos atuais 8,75%", enfatizou. Isso pressupõe a contrapartida dos agricultores que participarem.

Porto atribui importância muito grande para a execução do programa de irrigação a parcerias com as prefeituras. São elas inclusive que a partir de março receberão uma circular para que identifiquem os agricultores que vão receber treinamento direto.

 

Licenciamento ambiental preocupa

 

"Não queremos criar um sistema produtivo que piore o meio ambiente, mas que melhore". A frase do secretário da Irrigação Rogério Porto é reflexo da certeza de que haverá reações ao programa de entidades ambientais. Obter a licença ambiental, hoje muito reclamada por agricultores em todo o Estado, é também a maior preocupação das prefeituras, como informa João Bogorni, consultor da área de agricultura da Famurs. "A viabilização do programa de irrigação depende fundamentalmente da parceria com os órgãos de licenciamento ambiental", afirma, convicto de que a irrigação é uma das formas para recuperar as perdas dos dois últimos anos e evitar, ou pelo menos reduzir, futuros prejuízos provocados por estiagens.

 

Vinicultores levam pedidos a Yeda

Fiscalização, promoção e recursos para o Ibravin são as prioridades

 

Fiscalização do vinho e divulgação institucional do produto. Estas foram as duas mais importantes reivindicações levadas por lideranças do setor à governadora Yeda Crusius, na quinta 15. Como forma de viabilizá-las, foi solicitada a retomada do projeto que altera o Fundovitis, garantindo ao Ibravin 25% do total de recursos recolhidos - atualmente não está assegurado sequer 1% dos R$ 8 milhões a R$ 10 milhões arrecadados para o fundo. Sem essa garantia, o instituto criado para qualificar e promover o vinho gaúcho pode fechar as portas.

O primeiro encontro entre representantes da cadeia produtiva vitivinícola - mais vinícola, na verdade, pois não havia representante direto dos produtores de uva - com o novo governo gaúcho foi marcado por um clima de descontração. E teve a presença de pesos-pesados do setor. Entre eles, o presidente do Conselho Deliberativo do Ibravin, Danilo Cavagni, o presidente do Sindicato da Indústria do Vinho do RS, José Carlos Estefenon, o presidente da Uvibra, Antoninho Salton, o vice, Adriano Miolo, e o empresário Raul Radon - presidente das empresas Randon que vem investindo também na vitivinicultura há cerca de cinco anos.

A governadora Yeda, acompanhada pelos secretários da Agricultura e Desenvolvimento, tomou conhecimento das dificuldades que o Ibravin vem enfrentando para se manter devido à falta de repasse de recursos. Daí a importância de reapresentar o projeto de lei (508/2006) que fora encaminhado à Assembléia pelo governador Germano Rigotto em dezembro e que, por evidente falta de tempo, não foi votado.

Soube ainda da ameaçadora concorrência de vinhos estrangeiros. Cavagni relatou que em 2000 a venda de vinhos finos brasileiros correspondia a 57% do total consumido no país - 43% eram de importados. Em 2006, a participação dos nacionais caiu para menos de 33% - e a dos estrangeiros saltou para quase 68%. O encontro terminou com a governadora assumindo o compromisso de dar atenção ao setor, mas sem nenhuma promessa. Apesar disso, participantes deixaram o Piratini satisfeitos.

 

Embrapa lança nova variedade de uva

 

A Embrapa Uva e Vinho, de Bento Gonçalves, lança no sábado 24, durante a XI Fenavindima, em Flores da Cunha, a variedade de uva BRS Margot. Trata-se de uma cultivar de uva híbrida tinta destinada para a elaboração de vinho de mesa (comum) com característica das varietais.

A BRS Margot foi desenvolvida pelo programa de melhoramento genético da Embrapa Uva e Vinho, apresentando-se como uma opção para o vitivinicultor que busca uma uva rústica, mas que produza um vinho de mesa com características de vinhos varietais, como o Merlot. Entre as principais características da nova cultivar destaca-se "o baixo custo de produção, resistência a doenças, alta produtividade, elevado teor de açúcar e fácil manejo", informa a assessoria de comunicação da Embrapa.O lançamento oficial ocorre a partir das 14h30min, na Vinícola Gilioli, Travessão Lagoa Bella, interior de Flores da Cunha.

 

VIDA AGRÍCOLA

Engº. Agrº. José Zugno

Oliveiras em Carlos Barbosa

 

Tornei-me leitora atenta de "Vida Agrícola" nos últimos anos. Aproveito as suas informações na minha pequena propriedade rural próxima a Carlos Barbosa. Gostaria de plantar oliveiras para preparar azeitonas. Como conseguir mudas? Lembro de meu pai, também engenheiro agrônomo, preparando vidros de excelentes azeitonas, colhidas das inúmeras oliveiras que havia na Estação Experimental de Domingos Petrolini, em Rio Grande, onde morávamos. Contando com sua orientação, sempre precisa, agradeço.

Lúcia Nora Cruz

Carlos Barbosa - RS

 

Cumprimento a prezada leitora por sua decisão em plantar oliveiras e por seu pai, um colega que eu não tive o prazer de conhecer, mas sei que foi um batalhador na antiga e conceituada Estação Experimental de Domingos Petrolini, a qual, além de suas finalidades específicas (de pesquisa em horticultura) dedicava-se também ao cultivo e pesquisa da oliveira. Ainda quando estudante de agronomia conheci uma oliveira carregada de azeitonas na praça principal da cidade de Rio Grande, provavelmente oriunda daquela estação experimental.

Serra Gaúcha - Em praticamente todos os municípios existem oliveiras, algumas não produtivas, apenas como planta ornamental pela suas folhagens acinzentadas ou produtoras de ramos para o Domingo de Ramos, na Semana Santa. Algumas, porém, produzem azeitonas, provando que é possível cultivá-las bem na Serra Gaúcha. Pelo que consta, apenas a família Bridi, de Farroupilha, mantém um pomar de oliveiras e industrializa as frutas. Em Caxias, anos passados, existia nas proximidades do Parque da Imprensa um pomar de oliveiras que não deu produção desejada, creio, por falta de tecnologia que a cultura exige.

Clima - A oliveira é de clima subtropical e temperado. Nas regiões mediterrâneas (Espanha, Portugal e Itália), as condições climáticas são mais constantes, chuvas no inverno e estiagem e luminosidade no verão. Na região produtora argentina (Mendoza e províncias vizinhas) o clima é seco, chove pouco durante o ano todo, as oliveiras precisam ser irrigadas. No Brasil o clima não é constante, mas existem numerosos microclimas com temperatura, altitude e exposição contra ventos, favoráveis à cultura. A oliveira exige frio no inverno, resiste bem às geadas fortes e também às geadas leves na primavera.

Solo - A oliveira não é exigente quanto à fertilidade do solo, embora produza melhor nos solos ricos e profundos, mas é extremamente exigente em relação à acidez do solo. Os solos da Europa são calcáreos, os da Argentina são neutros ou alcalinos, os preferidos pela oliveira. Os solos brasileiros, em geral são ácidos e precisam ser corrigidos.

Uma experiência pessoal: quando assumi a direção do Fomento Agrícola de Caxias, ao qual estava subordinado o Serviço de Praças e Jardins, encontrei na praça principal da cidade uma oliveira viçosa, mas sem frutos. Fora plantada no dia da árvore de 1948 por Celeste Gobbato. Consegui que a oliveira frutificasse aplicando no solo grande quantidade de calcário. As azeitonas, embora pequenas, eram ricas em óleo, da variedade Frantoro. Apliquei nelas uma receita caseira de conserva que havia sido divulgada pelo colega Carlos Peixoto, então chefe do Serviço Oleícola do RS. As azeitonas ficaram saborosas.

Variedades - Embora existam variedades autoférteis como a Arbequina, a maioria não o é porque produz pouco pólen ou produz em momento impróprio para a fecundação. Por esse motivo recomenda-se cultivar duas ou três variedades entre as oliveiras da variedade principal para garantir a polinização cruzada no devido tempo.

Mudas - Obtidas de matrizes importadas da Espanha e do Chile encontram-se mudas no viveiro São Pelegrino (RS-122, Km 56 – cx. postal 189 – 95180-000 Farroupilha – RS. Tel.: (54) 3261.1003). O responsável pelo viveiro é o engº agrº Charles Pontalti, conhecedor da cultura da oliveira no Estado. A prezada leitora poderá manter contato com ele para obter maiores informações. Como a multiplicação é realizada por estaquia, sendo transportadas em tubetes, as plantas não perdem as folhas e podem ser transplantadas em qualquer época do ano. Convém plantar mudas de 2 a 3 anos, bem formadas, pois, embora mais caras, ganha-se tempo. Tratando-se de plantas de porte, a distância entre elas é grande. Para compensar os custos de manutenção, enquanto as plantas crescem e não produzem, convém cultivar nas entrelinhas plantas de ciclo curto ou frutíferas de pequeno porte como cítricas, pessegueiros etc.

 

SAÚDE

Geladeira diminui casos de câncer de estômago no Brasil

Em 25 anos, tumor foi o que mais caiu

 

Nos últimos 25 anos, o tipo de câncer que mais diminuiu entre os brasileiros, tanto em homens quanto em mulheres, foi o de estômago, segundo publicação sobre a situação da doença no Brasil, divulgada pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca). Entre elas, a taxa de mortalidade por essa causa caiu de 7,49 mortes por 100 mil para 4,86, uma redução de 35,1%. Nos homens, a queda foi de16,52 para 11,67, diminuição de 29,4% de 1979 a 2004.

De acordo com o Inca, um dos principais fatores a influenciar essa queda na mortalidade pela doença foi o aumento do acesso à energia elétrica, principalmente nas regiões Norte e Nordeste. Com a possibilidade de conservar os alimentos na geladeira, a população diminuiu o consumo excessivo de sal, que era usado na conservação de alimentos, principalmente da carne. Sal em excesso favorece o câncer de estômago. Segundo o diretor do instituto, Luiz Antonio Santini Silva, a diminuição no número de casos ocorreu no mesmo período em que aumentou o acesso à energia elétrica, especialmente naquelas regiões.

Outra explicação para a queda nesse índice foi a melhoria do combate à bactéria Helicobacter pylori, isolada pela primeira vez em 1982. A descoberta de que esse microorganismo poderia causar câncer de estômago facilitou o tratamento dos portadores com antibióticos.

Conforme o Inca, cerca de 140 mil pessoas morrem todo ano no Brasil vítimas de algum tumor. O câncer é responsável por 13,7% dos óbitos registrados no país. Apenas as doenças circulatórias matam mais. A tendência nos países mais desenvolvidos é de que o câncer torne-se a principal causa de morte.

 

Tumor de próstata foi o que mais aumentou nos homens

 

De 1979 a 2004, o câncer de próstata foi o que mais aumentou entre os homens. Nas mulheres a maior variação ocorreu nos casos de câncer de pulmão. Em 1979, a taxa de mortes por câncer de próstata era de 7,08 por 100 mil homens; 25 anos depois, o índice aumentou para 13,84, ou seja, elevação de 96% no período. Entre elas, os óbitos por câncer de pulmão saltaram de 3,61 em cada 100 mil mulheres para 7,11, variação de 97%.

O aumento das mortes por tumor de próstata é atribuído ao envelhecimento da população, já que a doença é mais comum com o avançar da idade, e à melhoria do diagnóstico da causa de morte. No caso das mulheres, a principal explicação para a elevação dos óbitos por tumor de pulmão é o aumento do consumo de cigarros, principal fator de risco para o surgimento desse tipo de câncer.

No mesmo período, também cresceu, nos homens, em 54,24% a taxa de mortalidade por câncer de cólon e reto. Já a mortalidade por câncer de mama aumentou 38,62% nas mulheres.

 

OPINIÃO

A figura paradoxal da beleza

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Nesta Quaresma, podemos fazer essa experiência do belo em sua dupla vertente: dolorosa e conflitiva no Cristo que caminha para o suplício; refulgente e exultante no Cristo Transfigurado que já prefigura o triunfo da Ressurreição

 

A beleza é uma das faces de Deus que mais instiga e fascina o homem na revelação de seu mistério. Rodin esclarece que "não há, na realidade, nem estilo belo, nem desenho belo, nem cor bela. Existe apenas uma única beleza, a beleza da verdade que se revela. Quando uma verdade, uma idéia profunda, ou um sentimento forte explode numa obra literária ou artística, é óbvio que o estilo, a cor e o desenho são excelentes. Mas eles só possuem essa qualidade pelo reflexo da verdade".

Esta afirmação nos remete a uma afirmação teológica fundamental. Se a fé nos diz que Deus é a verdade, a experiência humana ao longo dos séculos e milênios tem nos revelado que a verdade é bela, ou que o belo é o verdadeiro. Beleza e Verdade são outros nomes para o Deus que as diversas religiões vêm nomeando ao longo dos tempos, experimentando em suas vidas e vendo-se por elas fascinadas.

Contemplar a Deus, experimentar sua presença tem sido descrito com palavras, imagens e metáforas muito próximas daquelas utilizadas para descrever a experiência estética. Na tradição judaico-cristã e na rica mística gerada pelo cristianismo, a ética e o apelo ao compromisso no serviço ao outro anda de par com a experiência do fascínio e deslumbramento pela contemplação da beleza desse Outro que fascina e atemoriza com a força de sua sedução. A mística tem, inegavelmente, uma dimensão estética.

Porém, de que estética e de que beleza se trata? Certamente não da beleza dos padrões ditados pelos parâmetros humanos. A beleza do divino é desconcertante e imprevisível, apresentando-se freqüentemente com visibilidade e signo invertido e paradoxal, deixando aquele ou aquela que a experimenta perplexo e fascinado, buscando captar a direção que lhe é mostrada com tal experiência.

Desde os primeiros séculos do cristianismo, opõem-se duas concepções relativas à interpretação da figura de Cristo e sua representação. Orígenes foi um dos primeiros a defender a representação de um Cristo perfeitamente belo. Apoiava-se no salmo de David, que cantava: "Oh mais belo dos filhos dos homens, reina, triunfa pelo fulgor atraente de tua beleza". Esta sublimação do Cristo respondia às concepções teológicas de São Gregório de Nissa, de São Jerônimo, de Santo Agostinho e São João Crisóstomo.

Por outro lado, os monges e padres da Igreja da África e da Ásia Menor se recusavam representar um Cristo de beleza fulgurante. Seguiam nisto o profeta Isaías: "O Filho do Homem é sem beleza e sem brilho, nós o vimos e o desconhecemos. Era um objeto de desprezo, o último dos homens, um homem das dores e conhecendo a enfermidade. Não tinha graça nem beleza que pudesse atrair nossos olhares." São Cirilo de Alexandria, bispo de Jerusalém, e São Basílio, bispo de Cesaréia, foram partidários de uma representação austera, melhor adaptada ao Cristo, que recusou todas as tentações do mundo, veio para a redenção dos pecadores e foi crucificado vergonhosamente com os escravos.

Ao longo da história do Cristianismo, estas duas tendências vão se alternar sobre as representações da figura de Jesus Cristo. Ora será representado com esplendor e glória dentro dos cânones de beleza vigentes em cada época, como os Cristos bizantinos e renascentistas, ora representado e venerado inseparável do mistério de sua cruz, com as mais dolorosas representações de seu sofrimento e suplício, no qual os seres humanos verão sua salvação e esperança, no consolo de seu próprio sofrimento e dor.

Nesta Quaresma, que se inicia nesta quarta 21 de fevereiro, quando somos convidados pela Igreja a voltar os olhos para o Cristo que caminha para Jerusalém, podemos fazer essa experiência do belo em sua dupla vertente: dolorosa e conflitiva no Cristo que caminha para o suplício; refulgente e exultante no Cristo Transfigurado que já prefigura o triunfo da Ressurreição.

 

O ESTUDANTE DE 1907 EM 2007

Frei Betto

Educar deveria ser muito mais do que propiciar conhecimentos e habilidades. Mais importante que formar um profissional é formar uma pessoa capaz de atuar como cidadã

 

A crise da modernidade afeta suas principais instituições, sobretudo a escola. Se um estudante falecido em 1907 ressuscitasse hoje, ficaria perplexo frente a tamanhos avanços e inovações. Mas com certeza não estranharia a escola, uma relíquia dos tempos de antanho.

Para que serve a educação escolar? Para muitos estudantes, é o túnel pelo qual se tem acesso ao mercado de trabalho. A luz no fim do túnel é a capacitação profissional, um bom salário, uma identidade social, graças a conhecimentos e habilidades adquiridos nos bancos escolares.

Seria a escola mera estufa de adestramento para o mercado de trabalho? Como me disse um adolescente de 16 anos, "na academia eu malho o corpo; na escola, o cérebro". De fato, essa "malhação" cerebral tem seus efeitos positivos. As diferenças de salários são menores em sociedades que apresentam melhor resultado educativo.

Porém, o ressuscitado em 2007 notaria na escola uma diferença marcante em relação ao seu tempo: o caráter mercantilista fez a qualidade do ensino transferir-se da escola pública para a particular. A progressiva demissão do Estado frente a seus deveres sociais - e direitos da cidadania, como educação e saúde -, fruto amargo do neoliberalismo que, em nome do capital, apregoa a privatização do patrimônio público, sucateia o ensino público e permite que muitas escolas particulares funcionem como meras empresas que ofertam educação como mercadoria de luxo.

Educar deveria ser muito mais que propiciar ao educando conhecimentos e habilidades para que venha a obter melhores salários que seus pais e avós. Mais importante do que formar um profissional, é formar uma pessoa capaz de atuar como cidadã; inserir-se sem preconceitos nessa realidade multicultural; associar significados e construir sínteses cognitivas; superar a mera percepção da vida como fenômeno biológico para encará-la como fenômeno biográfico, processo histórico.

O educando de 1907 estava confinado numa pedagogia que não diferia muito do regime dos quartéis, e onde o aprendizado dependia do esforço memorial. Tratava-se de assimilar conhecimentos. Hoje, o aprendizado é um processo interativo e criativo. E o conhecimento é determinante no novo paradigma produtivo.

Não basta assimilar informações. É preciso saber selecioná-las, relacioná-las e fazê-las convergir para processos criativos. Deve a escola dotar o educando de capacidade para enfrentar os novos desafios, lidar com as múltiplas racionalidades vigentes, aprofundar seu espírito crítico. Enfim, saber converter informação em cultura e cultura em sentido de vida.

Se quisesse reciclar-se, o nosso ressuscitado se veria impelido a evoluir da memorização à compreensão, da assimilação de informações à seleção crítica, do mero aprendizado à criatividade. Uma boa pedagogia o instigaria a analisar criticamente a realidade; conviver dialogicamente nesse mundo de pluralidade cultural; transformar idéias e sonhos em projetos sociais e políticos.

O estudante de 1907 ficaria atordoado com as novas tecnologias de comunicação. Veria, espantado, o quanto o mundo encolheu. Vivemos agora na aldeia global. Em tempo real, o que ocorre do outro lado do planeta entra em sua casa através da janela eletrônica.

Ele se sentiria muito ameaçado se não soubesse como relacionar conteúdos globais e realidades locais. Sua identidade cultural estaria abalada frente ao rolo compressor da hegemonização televisiva da cultura de entretenimento como isca hipnótica de atração ao consumismo. Educar é saber lidar com a diferença e o diferente. O educando que não se sente nem se sabe diferente corre o risco de ceder à massificação midiática. Buscará na imagem desse espelho retorcido uma face que não é a sua e, no entanto, o fascina pela ilusão de que, ao negar as suas raízes, haverá de alcançar aquele outro ser que só existe em sua fantasia.

Um dos grandes desafios da educação é como incutir vivências comunitárias como expressão de singularidades, jamais de despersonalização. Esse situar-se no lugar do outro, procurar ver o mundo com olhos do outro, é o que provoca mudanças de lugares social e epistêmico, e funda as condições de convivência democrática. Em suma, verbalizando uma expressão em moda, é preciso aprender a desterritorializar-se para saber ressignificar os sentidos.

 

NACIONAL

Violência reacende debate sobre maioridade penal

Assassinato brutal de menino desengaveta projetos e acelera a aprovação de medidas

 

O bárbaro assassinato do menino João Hélio Fernandes Vieites, que completaria sete anos em março, no Rio de Janeiro, chacoalhou o Congresso Nacional. Como que num despertar repentino do sono da letargia, parlamentares disputaram espaço no palco dos discursos e se anteciparam em apresentar proposições e/ou agilizar a tramitação de projetos de lei para mudar a legislação sobre segurança, justiça e, em especial, crimes hediondos. Não que essa reação mereça ser condenada, afinal, o Brasil inteiro ficou chocado com a brutalidade praticada. Mas de uma hora para outra descobre-se, em primeiro lugar, a existência de várias propostas de interesse geral; em segundo, que muitas delas poderiam estar vigorando se houvesse maior empenho; em terceiro, que há o risco de equívocos construídos pela pressa e, principalmente, por decisões tomadas sob o efeito da comoção.

O país acompanhou, comovido, o drama da família do menino carioca João Hélio. E ficou estarrecido com a frieza dos acusados, presos poucos dias após. Entre eles está um menor de idade, o que reacendeu a polêmica em torno da maioridade penal. O Brasil adotou o critério de 18 anos, através do Estatuto da Criança e do Adolescente - o que impede que menores sejam presos -, mas há um movimento para reduzir para 16 anos.

Um dos mais consistentes argumentos para essa alteração na lei é a constatação de que quadrilhas, com destaque para traficantes de drogas, utilizam menores de idade em suas ações criminosas. Se forem apreendidos, a pena será cumprir medidas sócio-educativas por no máximo três anos.

Medidas - Na quarta 14, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado adiou para o dia 28 a votação de projeto que diminui a maioridade penal. A proposta, de Demóstenes Torres (PFL-GO), sugere que a idade penal passe de 18 para 16 anos, mas a punição com prisão só aconteceria em casos de crimes hediondos, como estupro, latrocínio e tortura. Nos demais crimes, seriam aplicadas penas sócio-educativas. "A redução sozinha não é solução. Mas temos que começar de algum lugar", afirma.

No mesmo dia, a Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei do Executivo que obriga o cumprimento de 2/5 da pena em regime fechado para que o condenado por crime hediondo possa ter acesso a regime semi-aberto - hoje basta 1/6. Falta passar pelo Senado. Na quinta 15, a Comissão de Direitos Humanos do Senado aprovou projeto de lei apresentado pelo senador Aloizio Mercadante (PT-SP) que amplia de quatro a 15 anos de reclusão, mais multa, a pena para adulto que utilizar, instigar ou auxiliar criança ou adolescente a praticar crime ou delito. Mas é preciso avançar mais. É necessário um conjunto de medidas, algumas delas previstas em projetos de lei que estão na pauta do Congresso (veja quadro).

 

Redução não resolve, opinam lideranças

 

"Essa discussão (redução da maioridade penal) sempre retorna cada vez que acontece um crime como esse, terrível. Não sei se é a solução", afirmou à agência Brasil a ministra Ellen Greice, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). "Ao invés de reduzir a maioridade penal, deveríamos aumentar o período em que o jovem fica submetido a um programa sócio-educativo", opina o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), presidente da Câmara Federal.

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), também é contra a redução: "É preciso apresentar um conjunto de medidas", alega. "Pensar que a solução para combate ao crime está na mudança da legislação é uma reação cômoda", afirma Cezar Britto, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil. A coordenadora-chefe do Núcleo de Pesquisa do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, Jaqueline Sinhoreto, segue na mesma linha: "A política em relação à criminalidade tem que partir para outro lado, investir em educação, em emprego e no crescimento da economia."

O secretário da mesa diretora da Câmara, deputado Osmar Serraglio (PMDB/PR), alerta para outro ponto, a forma de recrutamento: "Se reduzir a maioridade penal para 16 anos, os criminosos vão utilizar os de 15, 14...". Já o deputado e ex-secretário gaúcho de Segurança José Otávio Germano, diz que "se o país não encontra soluções para a violência, deve oferecer responsabilidade a quem já tem 16 anos".

Apelo - Corroídos pelo medo, os brasileiros assistem o permanente crescimento dos indicadores da violência. Só no Rio de Janeiro, em 2006, 48 mil pessoas morreram por facadas ou tiros. Rosa Vieites, a mãe de João Hélio, acredita que é preciso rever a legislação em relação à maioridade penal. Num apelo que sensibilizou a nação, atingiu também quem pode implantar as mudanças necessárias: "Eu queria que os governantes tivessem alma e olhassem o João como filho, e não como mais um."

 

CNBB: o caso é de políticas, não polícia

 

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) por várias vezes se manifestou contrária à redução da maioridade penal. Embora reconheça o desafio que o crime organizado representa à ordem política e social, a entidade entende que os adolescentes autores de crimes já são responsabilizados por lei que prevê medidas sóci-educativas.

"Entendemos que a solução para as questões da violência entre crianças e adolescentes passa pela necessidade de oferecer e garantir o acesso às políticas fundamentais mais básicas que operam como preventivas aos atos infracionais", diz documento da CNBB, que acrescenta: "... afirmamos que a infância e adolescência brasileiras são muito mais caso de política do que de polícia."

 

IGREJA

CELAM ESTIMULA AÇÃO EVANGELIZADORA

De 13 a 31 de maio, cerca de 300 bispos da América Latina, reunidos em

Aparecida pela V Conferência do Celam, vão refletir sobre o discipulado e a missão da Igreja no continente diante dos grandes desafios e mudanças dos tempos atuais

 

A Igreja na América Latina e no Caribe tem encontro marcado no histórico Santuário de Nossa Senhora Aparecida (SP) de 13 a 31 de maio do corrente ano, com a realização da V CELAM – Conferência do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. A presença do Papa Bento XVI, em sua primeira visita ao continente, fala da importância do encontro que definirá os rumos a serem seguidos nos próximos anos. Num mundo globalizado, onde a fé também é envolvida pelo mercado religioso, a Igreja Católica quer sinalizar sua fidelidade a Jesus Cristo e ao tempo presente.

No prólogo do Evangelho de São João se lê: "O Verbo se fez carne e armou sua tenda entre nós" (Jo 1, 14). Uma tradução mais livre e que vai ao encontro da teologia atual afirma: e Deus se fez história e armou sua tenda entre nós. Humana e divina, a Igreja de Jesus, dócil ao Espírito Santo, precisa estar atenta aos sinais dos tempos.

Enfoques - Representando as diversas conferências episcopais, cerca de 300 bispos participarão da V CELAM. Os preparativos, nos diversos níveis, intensificaram-se na segunda metade do ano 2006. Também já está delineado o cronograma da visita do Papa. Bento XVI deve chegar a São Paulo, no dia 9 de maio, desembarcando em Guarulhos. Ele ficará dois dias na cidade, tendo como referências principais um encontro com os jovens e uma missa campal. Também poderá presidir a canonização do bem-aventurado Frei Galvão, que poderá tornar-se o primeiro santo nascido no Brasil. Depois o Pontífice segue para Aparecida, onde a 13 de maio, data emblemática para os católicos, presidirá a abertura da Conferência, retornando em seguida para Roma.

Os trabalhos da Conferência continuarão até o dia 31. O documento conclusivo, independente das pontualizações, terá como objetivo anunciar a Boa Nova da Salvação hoje. O tema principal, que pode acolher os mais diversificados enfoques é este: Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que nele todos os povos tenham vida. Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6).

O Santuário da Aparecida, em São Paulo foi escolhido por sua grande participação popular e por ser dedicado à Mãe de Jesus, a mais perfeita dos Pobres de Javé. De resto e devoção mariana faz parte da identidade católica de todo o povo de Deus, em especial, do sofrido povo da América Latina.

Expectativas - À primeira vista, a partir da temática proposta, é de se esperar que a Conferência dos Bispos da América Latina impulsione para um aprofundamento da formação da vida cristã. Que levante pistas exeqüíveis para o cristão católico latino-americano e caribenho viver o intenso processo do discipulado de Cristo. Que ele possa ser ajudado a ter clareza da opção existencial por Cristo. E a partir dessa opção, ter um espírito missionário semelhante ao dos primeiros cristãos, impulsionados pelo Espírito.

A partir do complemento do tema "para que nele (em Cristo) todos os povos tenham vida" – complemento acrescentado pelo próprio Papa, é de se esperar que a Conferência tenha um olhar evangélico aguçado sobre a nossa realidade e aponte caminhos de desenvolvimento integral, integrado e sustentável, que possibilite vida com dignidade para todos. Que levante também um novo clamor pela defesa do planeta, a fim de que nele a vida não venha a se inviabilizar. Que ajude a reorientar a globalização, para que não seja apenas da economia que concentra os bens e os lucros e apresenta a conta aos pobres.

Naturalmente, a V Conferência deverá ter presente a complexa realidade que inclui, entre outros, estes aspectos como a miséria sempre maior, as desigualdades sociais, as migrações constantes, o narcotráfico, o desenvolvimento de cunho neoliberal, a violência urbana, os desafios à juventude, a depredação do meio ambiente.

Aggiornamento - Ela deverá também garantir fidelidade e continuidade ao processo de "aggiornamento" (atualização) da Igreja, desencadeado pela Concílio Vaticano II e às opções pastorais de Medellín, Puebla e Santo Domingo: opção pelos pobres e pelos jovens, defesa da justiça social, firmeza no profetismo, evangelização libertadora e inculturada, busca da comunhão e da participação, comunidades eclesiais autênticas e missionárias, defesa e promoção da dignidade da pessoa humana, protagonismo dos leigos e leigas... Enfim, na herança do Concílio Vaticano II e das Conferências anteriores, responder aos novos desafios da realidade à Igreja na América Latina e no Caribe.

Em mensagem divulgada no dia 8 de fevereiro, a presidência da CNBB conclama o povo de Deus a acompanhar a Conferência de Aparecida com oração, reflexão e escuta da Palavra do Senhor. "Este é um tempo favorável que a Providência Divina nos concede! Alegremo-nos e abramos nosso coração para ouvir e acolher aquilo que o Senhor irá falar", conclui a mensagem.

(Textos de padre Antonio Valentini Neto, pároco da catedral de Erechim, e frei Aldo Colombo).

 

Conferências dão rosto próprio à Igreja católica da América Latina

 

As quatro conferências dos bispos latino-americanos realizadas antes de Aparecida marcaram a Igreja da América, dando-lhe um rosto próprio, a partir da realidade social. A história é a mediação onde aparecem mais nitidamente os apelos de Deus. Cada uma das conferências anteriores partiu de um contexto histórico.

A primeira ocorreu no Rio de Janeiro, de 25 de julho a 4 de agosto de 1955, logo após o 36º Congresso Eucarístico Internacional, realizado na capital carioca. Anterior ao Vaticano II, foi solicitada pelo Papa Pio XII. O tema "Vocações e instrução religiosa" centralizou os debates. A preocupação maior foi com a vida interna da Igreja, a falta de padres e de formação para os leigos. E a pedido do próprio Papa foi criado nesse encontro um organismo capaz de unir mais as forças e as orientações da Igreja na América Latina. Surgiu assim o Conselho Episcopal Latino-americano (Celam), aprovado pelo Papa a 2 de novembro de 1955.

A II Conferência realizou-se em Medellín, na Colômbia, de 26 de agosto a 4 de setembro de 1968. Foi aberta oficialmente pelo Papa Paulo VI. Medellín tratou de traduzir para a realidade latino-americana os documentos do Vaticano II. O Concílio tivera uma visão otimista do mundo; os 16 documentos de Medellín mostram um continente sub-humano, afetado pela miséria, pelo subdesenvolvimento, pela marginalização da grande maioria do povo, pela violência e pela corrupção. O documento elaborado nessa conferência tornou-se um marco doutrinário para a Igreja no continente.

Puebla - Na cidade de Puebla de los Angeles, no México, realizou-se a III Conferência do Episcopado da América Latina, de 27 de janeiro a 13 de fevereiro de 1979. Ela foi convocada por Paulo VI, que faleceu no dia 6 de agosto de 1978. Seria realizada em outubro daquele ano, mas seu sucessor, João Paulo I, faleceu com apenas 33 dias de pontificado e João Paulo II, eleito em outubro de 1978 confirmou a conferência, mas em nova data e esteve presente na sua abertura.

Continuidade de Medellín, Puebla abordou o tema "Evangelização no presente e no futuro da América Latina". O dado mais importante foi o endosso à chamada Teologia da Libertação. Uma análise da realidade do continente mostrava que a brecha entre ricos e pobres havia aumentado muito. Jesus Cristo veio libertar o homem do pecado e de todas as conseqüências do pecado – entre elas a doença, a fome e a opressão. A Igreja tem o compromisso de viver esta dimensão evangélica. É a opção preferencial pelos pobres.

Santo Domingo - Coincidiu com a passagem dos 500 anos da Descoberta (muitos preferem invasão) da América. Transcorreu de 12 a 28 de outubro de 1992 na República Dominicana. Foi continuidade de Medellín e Puebla. Para Medellín a palavra-chave foi libertação, para Puebla foi comunhão e participação, para Santo Domingo, inculturação. O documento de Santo Domingo, contrariamente aos de Medellín e Puebla, é bastante confuso. Mas isso não prejudica sua densidade profética.

Precioso instrumento de colegialidade, as Conferências do Episcopado latino-americano tiveram sempre o decisivo apoio do Vaticano. Pio XII inspirou o encontro do Rio de Janeiro e Paulo VI abriu a Conferência de Medellín. Já o encontro de Puebla teve a participação de Paulo VI, que comandou os preparativos, João Paulo I que tencionava presidir a abertura e João Paulo II, que abriu o encontro. O Papa Bento XVI presidirá a Conferência de Aparecida, em sua primeira visita ao Brasil. Compete ao Papa o dever de confirmar os seus irmãos, na continuidade da missão confiada por Jesus a Pedro. Peregrina no mundo a Igreja deve exercer a fidelidade criativa como dizia João Paulo II. E Dom Hélder Câmara costumava lembrar: "É preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

 

Aparecida é convite para grande despertar missionário

 

"Aparecida quer concentrar sua atenção na pessoa batizada, que recebeu a missão de evangelizar o presente e o futuro da América Latina, que se torna responsável pela promoção do homem; que intervém na transformação de todo o continente". É a afirmação do cardeal Francisco Javier Errazuriz Ossa, chileno, presidente do Celam, feita em janeiro ao presidir os trabalhos preparatórios da V Conferência Geral.

Conforme o cardeal, a América Latina hoje "está sendo desafiada por transformações religiosas, éticas e em geral, culturais, que constituem as dores do parto de uma nova época". No caminho de preparação da conferência, foram recolhidas as contribuições das dioceses dos países participantes, foram realizados congressos e seminários de especialistas, publicados livros sobre a situação do continente.

"A V Conferência Geral será um grande dom para a América Latina e o Caribe se conseguir dirigir nossas aspirações e esforços em direção do bem para o qual o Bom Pastor nos amou até o seu extremo: para o bem da vida de nossos povos, para a vida em abundância", disse o presidente do Celam. Para ele, a conferência deverá produzir um grande despertar missionário em toda a América.

 

Reuniões auxiliam ação eclesial

 

Pelo termo "conferência" pode-se designar a instituição permanente que congrega os bispos da Igreja católica de uma nação ou de mais de uma. No Brasil, temos a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Em relação ao evento em Aparecida, trata-se de um encontro periódico de bispos delegados de cada país deste continente. Do Brasil, por exemplo, dos 300 arcebispos, bispos, coadjutores e auxiliares e dos mais de 130 bispos eméritos, são 22 os eleitos pela CNBB e confirmados pelo Papa, mais três pela função que ocupam. Nos outros continentes não há esse tipo de "Conferência".

Sínodo - Mas há outras formas de reunião de bispos de todo o mundo, de um continente ou de um país. Uma delas é o Sínodo, instituição permanente criada pelo Papa Paulo VI em 1965. O Código de Direito Canônico descreve assim o sínodo: assembléia dos bispos do mundo que reúnem-se para promover a estreita união entre o Papa e os bispos, para auxiliá-lo com seu conselho, na preservação e crescimento da fé e dos costumes, na observância e consolidação da disciplina eclesiástica, e ainda para examinar questões que se referem à ação da Igreja no mundo.

A diferença entre sínodo e conferência é de natureza e de metodologia. O sínodo é instituição permanente com Assembléias periódicas, preparadas e realizadas sob a coordenação da sua Secretaria Geral. Ele não produz um documento decorrente do tema de estudo. A conferência é preparada pelo Celam e produz um documento que é tornado público depois de ratificado pela Santa Sé.

Concílio - Outra forma de reunião é o Concílio Ecumênico, meio pelo qual o "Colégio dos Bispos exerce seu poder sobre toda a Igreja, de modo solene". A competência para convocá-lo é unicamente do Papa. O Código de Direito Canônico reconhece também o concílio particular plenário, isto é, para todas as Igrejas particulares da mesma Conferência dos Bispos; e o concílio provincial, para as Igrejas Particulares da mesma província eclesiástica.

 

Quaresma revela a loucura do amor

Mensagem do Papa destaca a misericórdia suprema de Deus

 

Quarenta dias para experimentar a loucura do amor de Deus. Essa é a proposta que o Papa Bento XVI faz na mensagem que escreveu para o período da Quaresma deste ano. Publicado pela Santa Sé na segunda-feira 12 de fevereiro, o texto explica que essa loucura de amor tem sua expressão culminante em Cristo crucificado, Filho de Deus. Por isso, o tema para a mensagem pontifícia é "Hão de olhar para Aquele que trespassaram" (Jo 19,37).

"É no mistério da cruz que se revela plenamente o poder irresistível da misericórdia do Pai celeste. Para reconquistar o amor da sua criatura, Ele aceitou pagar um preço elevadíssimo: o sangue de seu Filho Unigênito", salienta o Papa. O texto prossegue afirmando que "a morte, que para o primeiro Adão era sinal extremo de solidão e incapacidade, transformou-se assim num ato supremo de amor e de liberdade do novo Adão".

Retomando o tema do amor, presente na sua primeira encíclica, "Deus caritas est", Bento XVI realça suas duas formas fundamentais - o ágape e o eros. O "eros", declara o Papa, citando o teólogo e místico bizantino Pseudo-Dionísio, o Areopagita, é aquela "força que não permite que o amante permaneça em si mesmo, mas o estimula a unir-se ao amado". "Qual ‘eros mais insensato’ do que aquele que levou o Filho de Deus a unir-se a nós até ao ponto de sofrer como próprias as conseqüências dos nossos delitos?", pergunta o Pontífice.

Ágape - A palavra "ágape", muitas vezes presente no Novo Testamento, salienta o Papa, "indica o amor oblativo de quem procura exclusivamente o bem do próximo. O amor com o qual Deus nos circunda é sem dúvida ágape. Mas é também eros, pois o eros faz parte do próprio coração de Deus".

Por isso, na sua mensagem para esta Quaresma, Bento XVI convida: "Vejamos Cristo trespassado na cruz!". "Na cruz, o próprio Deus mendiga o amor de sua criatura: Ele tem sede do amor de cada um de nós". Em seguida o Papa salienta que "na verdade, só o amor no qual se une o dom gratuito de si mesmo e o desejo apaixonado de reciprocidade infunde uma alegria tão intensa que torna leves inclusive os sacrifícios mais pesados".

A mensagem pontifícia destaca que a resposta que o Senhor deseja ouvir de nós é que aceitemos seu amor e nos deixemos atrair por ele, de forma incondicional. "Aceitar seu amor, contudo, não é suficiente. É preciso corresponder a esse amor e depois comprometer-se a comunicá-lo aos outros: Cristo ‘me atrai para si’ para unir-se a mim, para que aprenda a amar os irmãos com seu próprio amor", conclui o Papa.

A Quaresma é o período litúrgico de preparação para a paixão, morte e ressurreição do Senhor. O tempo da Quaresma se estende da Quarta-feira de Cinzas (neste ano, 21 de fevereiro) até a missa "na Ceia do Senhor", exclusive, na Quinta-feira Santa, celebração vespertina que, nos livros litúrgicos, dá início ao Tríduo Pascal.

 

Número de católicos no planeta chega a 1,115 bilhão

 

Conforme o Anuário Pontifício 2007, organizado pelo Vaticano, o número de católicos no mundo passou de 1,098 bilhão em 2004, para 1,115 bilhão em 2005. O crescimento, de um ano para outro, foi de 1,5%, índice que supera o da população mundial, que no período foi de 1,2%. No mundo, os católicos representam 17,20% da população total.

O Anuário, apresentado na segunda 11 ao Papa Bento XVI, no Vaticano, reúne dados coletados em 2.915 circunscrições eclesiásticas (dioceses e similares) de todo o mundo. Segundo um comunicado emitido pela Sala de Imprensa da Santa Sé, o maior crescimento de católicos, entre 2004 e 2005, ocorreu no continente africano. Nesse período, houve um aumento de 3,1% dos católicos na África, que, contudo, viu sua população crescer menos de 2,5%.

Também nos continentes asiático e americano foi registrado um aumento de católicos superior ao da população. No caso da Ásia, o número de fiéis seguidores do Papa cresceu 2,71% contra 1,18% da população. Na América, os católicos aumentaram 1,2%, ante 0,9% da sua população. Mesmo sem divulgar números, a nota vaticana explica que na Europa verificou-se um leve aumento dos católicos e uma situação de quase estabilidade da população presente no velho continente.

 

Mais sacerdotes na Ásia e na África

 

No que se refere ao número de sacerdotes, tanto diocesanos como religiosos, o Anuário Pontifício revela que o total passou de 405.891 para 406.411, de 2004 para 2005. O aumento é quase insignificante - apenas 0,13%. África e Ásia registraram os maiores índices de crescimento - 3,80% e 3,55%, respectivamente.

Nos outros continentes houve diminuição, inclusive na América, que, junto com a Europa, viu seu contingente de sacerdotes cair 0,5%. Na Oceania, houve baixa de 1,8%. No mesmo período, o número de candidatos ao sacerdócio cresceu 1,23%, passando de 113.044 seminaristas em 2004, para 114.439 no ano seguinte.

 

A IGREJA QUE CASTIGA

Padre Zezinho

Engenheiro consciente represa o rio, mas deixa que ele corra

 

Os que perguntam por que a Igreja castiga passam a idéia de que a Igreja é má. Nós respondemos que a Igreja tem o direito de castigar e punir e nem por isso ser má. Uma mãe pune uma criança que pôs a mão num fio elétrico, para que ela nunca mais faça isso, e nem por isso a mãe é má. Da mesma forma, a mãe exige que a criança evite determinados comportamentos. Uma vez que encontra a criança fazendo o que não devia, dá-lhe uma punição. Dá-se o mesmo com adultos inteligentes que desviam bilhões do tesouro nacional. O país inteiro quer vê-los punidos. Sabiam o que faziam!

Existe uma pedagogia da punição que precisa ser justa. Na Igreja - aliás, em todas as Igrejas - há uma pedagogia da punição que não pode ser excessiva e nem branda demais. A religião que pregasse que Deus é cruel e castiga estaria deturpando a idéia de Deus. Mas estaria, também, deturpando essa idéia se dissesse que Deus deixa passar tudo e que Ele não está nem um pouco preocupado com nossas injustiças. É só abrir a Bíblia para perceber que a noção de um Deus que pune foi evoluindo para a noção de um Deus que educa.

A noção de um Deus terrível e castigador foi evoluindo para a de um Deus que orienta, educa e converte, mas não deixa de exigir. Portanto, existe um Deus misericordioso, exigente, paterno, mas capaz de cobrar dos filhos a coerência. Esse Deus que mais ama, que mais apóia do que castiga é o nosso Deus. A religião que dissesse que não existe nenhum castigo estaria deturpando o sentido fundamental de toda e qualquer religião. O prêmio, o incentivo, a motivação são fundamentais para uma pregação religiosa. Mas o castigo, a punição, e a penitência também são fundamentais.

Toda a religião que se preze precisa ensinar a perdoar e a ser perdoado, a punir sem exagero, mas também a não deixar as coisas seguirem seu curso, pura e simplesmente, como qualquer riacho selvagem. Engenheiro consciente represa o rio, mas deixa que ele corra. Quem quiser luz e irrigação provavelmente vai aprender a disciplinar o rio. As Igrejas devem disciplinar os seus fiéis e canalizar as suas energias para o bem. E é por isso que a punição pode fazer parte desse processo, sem excesso, mas, também, sem liberdade demais.

A moral prega a liberdade, mas faz exigências. Ninguém é livre para fazer o que bem entende. Se fizer isso, terá rompido com o próprio Deus. Foi Ele quem disse "Eis que te ponho diante da vida e diante da morte..., se queres viver escolhe a vida" (Dt 30,19).

 

Escola desperta para ações sociais

 

Iniciativa da diocese de Caxias do Sul já formou mais de 200 lideranças

Estão abertas até o dia 1º de março de 2007 as inscrições para a 4ª edição da Escola Fé, Política e Trabalho, iniciativa da diocese de Caxias do Sul, em parceria com a Unisinos – Instituto Humanitas. O evento é destinado a lideranças comunitárias, sociais, políticas e sindicais; agentes de pastoral, professores, funcionários públicos, vereadores, estudantes e lideranças de movimentos e organizações populares.

São realizadas 10 etapas, durante os meses de março a dezembro, sempre no terceiro final de semana de cada mês, totalizando 170 horas/aula. Ao concluir o curso, os participantes recebem certificado, concedido pela Unisinos.

"A Escola Fé, Política e Trabalho surgiu em 2004, como um espaço para formar lideranças que passassem a atuar com sensibilidade nas áreas sociais mais carentes das próprias comunidades", revela irmã Brendali Costa, da Coordenação Diocesana de Pastoral. Para a religiosa, o curso é um convite ao cristão engajado para que veja além da realidade religiosa, para que possa atender as necessidades da comunidade.

Nos três anos de caminhada, a Escola já formou 213 lideranças, tendo como desafio que "construir uma sociedade solidária exige repensar mais radicalmente a doutrina social e desenvolver a reflexão ética acerca das novas questões políticas e sociais", e buscar, de forma permanente, respostas adequadas aos novos desafios.

Das 213 pessoas que participaram da Escola, 114 eram caxienses e as restantes de outros 20 municípios da área da diocese de Caxias do Sul. Segundo levantamento da Coordenação Diocesana de Pastoral, 67% (186 pessoas) estavam engajadas em atividades pastorais e 20% (55 pessoas) atuavam em sindicatos, partidos políticos ou associações de classe. Quanto às profissões, 23% (43 pessoas) eram professores e 20%, industriários. Apenas quatro, dos que responderam qual a profissão, disseram ser vereadores. "Sabemos que participaram mais, mas nas fichas de inscrição não mencionaram a atividade política", destaca irmã Brendali.

 

Conteúdos temáticos são abrangentes

 

A programação de 2007 da Escola Fé, Política e Trabalho, da diocese de Caxias, prevê a primeira etapa nos dias 17 e 18 de março, com o tema "Elementos para entender a estrutura e o funcionamento da sociedade", assessorado pelo professor Laurício Neumann, da Unisinos. A última etapa ocorre dias 8 e 9 de dezembro, com o tema "Desafios da relação ‘ética, fé e espiritualidade política’", com assessoria do professor Flávio Guerra.

Cada etapa tem um custo total de R$ 75,00 por participante, que paga apenas 30% do valor. O restante é financiado pela paróquia ou entidade e pela diocese. A programação da Escola e outras informações complementares poderão ser obtidas pelo telefone (54) 3211.5032 , no site www.diocesedecaxias.org.br ou pelo e-mail coord.pastoral@diocesedecaxias.org.br

 

Mutirão evangelizador mobiliza Antônio Prado

 

A paróquia do Sagrado Coração de Jesus de Antônio Prado realizou um grande mutirão de bênçãos das casas. Essa atividade evangelizadora foi realizada pelos padres João Panazzolo e José Mussoi, da paróquia, e por um grupo de seminaristas maiores (filosofia e teologia) da diocese de Caxias do Sul, apoiados pelas zeladoras de capelinhas.

A bênção às casas, devido ao grande número de comunidades – 32, com a matriz –, foi realizada em duas etapas. Na primeira, foram abençoadas as casas e estabelecimentos das comunidades rurais. Na segunda, as casas, entidades, indústrias e estabelecimentos comerciais da área urbana. A bênção às casas representou um momento forte de evangelização, de renovação e de reanimação em toda a paróquia. O encerramento ocorreu na festa de Nossa Senhora de Lourdes – 11 de fevereiro.

 

COMECE AGORA

Aldo Colombo

A vida de cada um é feita de escolhas. E as escolhas bem feitas trazem a felicidade

 

"Preciso dar-lhe uma notícia que, talvez, você ainda não saiba. Pensei em suavizar esta notícia, pintá-la com cores mais brilhantes, enchê-la com promessas de Paraíso, visões do Absoluto ou explicações esotéricas, mas embora tudo isso exista, não vem ao caso agora. Respire fundo e prepare-se. Sou obrigado a ser direto e franco e - posso assegurar – tenho absoluta certeza do que estou dizendo. É uma previsão infalível, sem qualquer margem para dúvidas. A notícia é esta: você vai morrer. Pode ser amanhã, pode ser daqui a cinqüenta anos, mas, cedo ou tarde, você vai morrer. Mesmo que você não concorde. Mesmo que você tenha outros planos. Pense com todo cuidado no que você irá fazer hoje. E amanhã. E no resto dos seus dias".

O texto é clássico e foi colhido do livro Maktub, de Paulo Coelho, cuja tradução é Está Escrito. Na realidade, todos sabemos que vamos morrer... um dia. O que falta é internalizar essa certeza. E atualizar prazos. Mesmo assim, não devemos viver pensando na morte. Comparando a vida a uma partida de futebol, a morte é apenas o apito final. Vale o resultado do jogo. A morte apenas torna definitivo o que estamos sendo em vida.

Há dois séculos, a expectativa de vida era de 25 anos. Isso significa que eu estaria morto – e provavelmente você também. Mas hoje a expectativa de vida disparou. Há um número crescente de homens e mulheres com 70, 80 ou 90 anos vivendo ainda como as pessoas de 60 viviam há 200 anos. Mas a média de idade não é uma certeza. Um adolescente pode ter apenas mais cinco meses de vida, enquanto um homem de 60 anos pode ainda viver 25 ou 30 anos. No Brasil temos, atualmente, cerca de 30 mil pessoas acima dos 100 anos. Mas é grande o número dos que não chegam aos 25 anos.

Você é muito velho ou muito novo? Muito gordo ou muito magro? Muito rico ou muito pobre? Qual mesmo é a sua desculpa? Nenhuma desculpa justifica a não realização do seu potencial. E não podemos esperar amanhã. O que achamos importante deve começar agora, começar já. Não importa a idade que temos. Na verdade, não temos a certeza de terminar. O certo é que tudo o que conseguimos terminar é porque, um dia, começamos.

A vida de cada um é feita de escolhas. E as escolhas bem feitas trazem a felicidade. Logicamente, as escolhas mal feitas têm como conseqüência a infelicidade. Nós somos donos e responsáveis por todas as nossas escolhas. Mas as escolhas que valem não são aquelas que fizemos ontem. Valem as escolhas feitas hoje. Não podemos voltar atrás e fazer um novo começo, mas é inteligente começar agora e preparar o fim desejado.

Na contabilidade do tempo temos alguns fatores a nosso favor. Deus sempre nos possibilita começar de novo. No Evangelho vemos cegos, surdos, mudos, paralíticos que recuperam a vista, a audição, a fala e a capacidade de caminhar. Sempre é tempo de recomeçar. Outro fator importante: Deus não nos cobra êxitos e vitórias, exige apenas nossa capacidade de luta.

 

Missionários retomam as atividades

Equipe de 2007 prega missões em oito cidades dos Estados do Sul

 

Após um período de férias e cursos, a equipe dos freis missionários capuchinhos do Rio Grande do Sul, com sede em Vacaria, inicia, no dia 27 de fevereiro, as atividades de 2007, com renovação missionária na paróquia Nossa Senhora das Dores, de Barracão (RS). Ao longo do ano, serão missionadas oito paróquias de oito municípios, encerrando no dia 16 de dezembro, na paróquia Sagrado Coração de Jesus, em Cruz Machado, Paraná (veja programação, ao lado).

Neste ano, a equipe adotou como lema "Missões capuchinhas a serviço da vida, da paz e do bem!". O grupo, que geralmente é formado por 10 missionários, este ano sofreu apenas uma modificação. Com a saída do coordenador da equipe no ano passado, frei Jadir Segala, que passou a atuar como vigário paroquial em Tramandaí (RS) e no Serviço de Animação Vocacional (SAV) da diocese de Osório, a equipe passa a ter nove integrantes.

A coordenação do grupo foi assumida por frei Eduardo Luís Canali, 37 anos, natural de Caxias do Sul. Os outros integrantes são os freis Antério Parise, natural de Veranópolis, Claudecir Fantini (Charrua - RS), Clóvis Armani (Boqueirão do Leão - RS), Émerson Bocalon (Nova Bassando - RS), Eudes Capellari (Ibiriaiaras - RS), Ivo Zoraski (Vacaria - RS), Valdivino Salvador (Ipê - RS) e Volmir Luiz Warken (Rolante - RS), ordenado sacerdote no início de fevereiro em São José do Norte - RS).

As missões capuchinhas têm o objetivo de colaborar com as comunidades no processo de reanimação da fé, da fraternidade e da espiritualidade. Toda missão compreende três etapas: pré-missão, preparativa para a segunda etapa, a missão. A missão pode durar algumas semanas, conforme o número de comunidades de cada paróquia. Após 30 a 40 dias ocorre a pós-missão, etapa de organização das novas lideranças que se inscrevem para participar das equipes de liturgia, catequese, conselhos pastorais etc.

 

PROJETAR-SE

Wilson João

Pessoa que faz planos sabe onde chegar, como chegar e quando chegar. É um projeto de vida que carrega consigo

 

Há pessoas que vivem voltadas para trás: problemas, saudades, bloqueios, medos... Vivem sem sonhos. Há pessoas que vivem somente o tempo presente: o agora, o momento, o prazer... Vivem sem passado e sem futuro. Há pessoas que vivem somente o futuro: idealismo, sonhos, utopias... Vivem a ilusão de uma vida que não têm nas mãos. É preciso ter os pés no chão, somar as experiências do passado e projetar-se no futuro.

Pessoa inteligente sabe projetar-se.

PROJETA O DIA-A-DIA: toma nas mãos as vinte e quatro horas e as organiza. Sabe que deve estabelecer tempo para trabalhar e comer, para dormir e descansar, para se divertir e ler, para rezar e conviver. Não espera o tempo passar. Faz o tempo.

PROJETA A SEMANA: senta e planeja o grande tempo de uma semana. Há sete dias para preencher. Sabe que, chegando no dia de sábado, não pode sentir-se um frustrado, mas uma pessoa que pode dizer: fiz o que planejei. Estou em paz e feliz.

PROJETA O TEMPO DE UM MÊS. Porque o tempo é grande, se torna perigoso desperdiçá-lo. Nada deve ser improvisado. No primeiro dia do mês deve estar presente o último. Nas quatro semanas cabem muitas atividades, e deve caber, necessariamente, o tempo para um bom descanso, para que a pressão da atividade não venha estragar o tempo e a vida.

PROJETA O TEMPO DE UM ANO. Como é bom começar um novo ano! Parece que tudo está pela frente. Muito mais importante é sentar e tomar na mão o ano todo, que é longo demais, e nele projetar grandes planos e realizações. É um caminho grande demais para se vislumbrar o fim, mas é por isso mesmo que temos que projetar nossos grandes sonhos para que eles se encaixem dentro desse tempo disponível.

PROJETAR-SE GLOBALMENTE. Somos muito mais que máquinas de produção e consumo. É necessário projetar-se e planejar-se como pessoa inteira. Pessoa que carrega dentro de si uma vida mental e emocional, uma vida física e familiar, uma vida profissional e social, uma vida material e espiritual.

PROJETAR-SE É CONCENTRAR AS FORÇAS. Ao contrário das pessoas que vivem o dia-a-dia, ao Deus dará, a pessoa que se projeta sabe onde chegar, como chegar e quando chegar. É um projeto de vida que carrega consigo. Para realizar esse projeto é capaz de concentrar todas as energias e tempo, toda fé e potências da vida. Projetar-se é ter certeza de chegar.

 

CORREIO SABE-TUDO

ANFÍBIO MINÚSCULO

Descoberto sapo de 11 milímetros, o menor do mundo

 

Omenor sapo do mundo é catarinense e tem o tamanho de um mosquito. Ele foi encontrado pelo casal de ambientalistas Germano e Elza Woehl, responsáveis pela organização não governamental Instituto Rã-bugio, de Jaraguá do Sul (SC). A recente descoberta ocorreu na Serra do Mar, em Joinville, depois de seis anos de buscas. Da espécie Brachycephalidae, o anfíbio, um macho adulto, mede 11 milímetros e estava embaixo de folhas secas.

O sapo, batizado pelo casal de pingo-de-ouro, em razão do tamanho reduzido e da cor dourada, é mais comum na Mata Atlântica, do Espírito Santo até o Paraná. "Ficamos na serra das 12 às 17 horas. Ouvimos barulhos de sapo e encontramos um pingo-de-ouro", brincou Elza.

O pequeno animal foi fotografado, filmado e devolvido para a natureza. O Rã-bugio tem como diretriz de trabalho identificar as espécies anfíbias e deixá-las no habitat natural. O próximo passo é tentar um registro oficial do sapinho nos Estados Unidos, já que no Brasil é exigida a coleta do animal para isso. Em 2000, o instituto já registrou nos Estados Unidos a rã-marrom, única da espécie em Santa Catarina, localizada em Guaramirim. A rã costuma ficar enterrada no chão da floresta, o que dificulta sua localização.

O menor sapo do mundo tem como reduto apenas a mata virgem. Ele não sobrevive em mata secundária. A espécie não passa pela fase de girino. A reprodução é direta, fora da água. Isso significa que os sapinhos já nascem na forma adulta, a partir de ovos depositados embaixo de folhas, galhos e troncos de árvores caídos.

Eles são adaptados para viver somente nas partes mais altas da Serra do Mar e também da Serra da Mantiqueira, que freqüentemente ficam encobertas pela densa neblina que molha o ambiente, ocasião em que ficam ativos durante o dia. Porém, raramente essa espécie se expõe.

 

É sapo, rã ou perereca?

 

Estima-se que o Brasil tem mais de 600 espécies de anfíbios anuros, como são classificados os sapos, rãs e pererecas. Com tantos animais, não surpreende a dificuldade em usar corretamente os três termos.

A língua portuguesa, falada em Portugal, apresenta, oficialmente, apenas os termos sapo e rã. A palavra perereca, que foi incorporada ao português falado no Brasil, vem da língua indígena tupi-guarani e significa "andar aos saltos". Era o termo utilizado pelos índios para designar os anfíbios, provavelmente, de forma genérica. Com o passar do tempo, a palavra perereca passou a ser empregada por toda a população.

Mas, afinal, como diferenciar sapos, rãs e pererecas? Para denominar os anfíbios anuros, a grosso modo, podemos seguir as regras abaixo:

- Sapo: a pele é rugosa e fosca, tem bolsas nas laterais, chamadas de glândulas parotóides

- Rã: tem pele lisa e vive no chão

- Perereca: tem discos aderentes na ponta dos dedos para subir em árvores e paredes.

 

Curiosidades do mundo dos anfíbios

 

Benefícios - Sapos, rãs e pererecas são importantes para o equilíbrio da natureza. Como eles alimentam-se de insetos e outros invertebrados, controlam a população desses bichos. Também servem de comida para répteis, aves e mamíferos.

Água – Esses anfíbios anuros não bebem água, absorvem-na pela pele.

Veneno - Na Floresta Amazônica existem rãs venenosas, mas o veneno está contido na pele e não há como elas aplicarem-no nas pessoas. Os sapos têm uma bolsa em cada lado da cabeça (glândulas parotóides) que contêm um líquido leitoso, mas eles não o espirram nas pessoas, a não ser que alguém aperte a bolsa. Mesmo em contato com a pele, o líquido não faz mal; só causa irritação se for colocado na boca.

 

CULTURA DA IMIGRAÇÃO

A italiana que eu sou

Declei Carmen Padova

Professora, Veranópolis - RS

 

A pedagoga Declei Carmen faz da vida e do trabalho um festival de boas palavras e belas canções, como italiana da festa, do canto e do filò.

 

"Meu sobrenome Padova me remete à cidade italiana de Santo Antônio, o que me dispensa de dizer que sou pura italianidade. Nasci em São Brás, interior de Cotiporã (RS), na casa da nona Eliza Brancher Baldissera (Isa), mãe da minha querida mãe Dilecta. Ela ficou órfã e foi adotada pelos Brancher. Recordo a nona Isa lavando louça, enquanto eu ficava sentada na caixa da farinha; ou lavando roupa no tanque, à sombra de uma guabirobeira, enquanto eu saboreava as frutinhas amarelas.

O avô, José Baldissera (Bepi), era filho de Antônio Baldissera (Toni Sòto), meu bisnono, que, na viagem da Itália para o Brasil, quebrou uma perna, no navio, e o mau conserto lhe eternizou o apelido de Toni Sòto. Hoje, contemplando sua foto, com o pé sobre uma pedra, copo de vinho na mão, percebo-o vaidoso e perfeito, disfarçando seu defeito. Enquanto o nono Bepi colhia uvas, eu saboreava os vermelhos moranguinhos que vicejavam sob o parreiral.

Do pai, Antônio Itelvino, herdei o sobrenome Padova, advindo do avô Ermelindo (Lindo), pedreiro e cantor, cujos pais nasceram em Cremona. Foi o avô com quem mais convivi, que me ajudou a ser a italiana que sou. Foi o construtor da maioria das capelas de Veranópolis. Na infância, ao folhar seus livros italianos, eu encontrava os moldes das rosáceas que ele modelava em cimento, para enfeitar o frontispício de igrejas e capitéis. Analfabeto em língua portuguesa, à noite me fazia sentar à sua frente, para ler livros italianos que ensinavam a arte de modelar. E a Bíblia italiana, que lia a seus pés e que pouco entendia, modelou em mim a vida da fé. Saudades do terço, rezado de joelhos. Nós, crianças, no fundo da sala, ríamos muito, sem entender o sentido.

Inesquecíveis os filós com os tios, as tias Vilma e Odila, entre risadas, conversas, discussões banais, e as inúmeras canções que desenvolveram em mim o gosto pela música e o cultivo da voz para louvar o Deus, que tão bela me a concedeu. Saudades do nono Lindo, excelente cantor, que todos queriam cantando nos filòs, nas festas, nos encontros... Lembro o compromisso sagrado do dia 25 de julho quando, de mãos dadas com ele, eu ia ao Salão Paroquial Dom Vital cantar em italiano na Rádio Veranense, para homenagear os colonos no seu dia. Não podia faltar a Santa Lucia.

O nono Padova era um colono perfeito. Ia cedo trabalhar na sua pequena roça na estrada do Retiro, e mais tarde eu lhe levava a colassion. Seu modo de ser me propiciou lições de honestidade e dedicação à família. Ensinou-me a desenvolver a música, pelo que lhe sou eternamente grata. Ensinou-me a falar e cultivar a língua e cultura italianas; a viver a fé e a espiritualidade; a apreciar a arquitetura sacra, de que era mestre.

O nono Ermelindo, que integrava a importante Società Principe di Piemonte, está vivo nas canções que eu canto e nas capelas que construiu; no italiano que falo e na italianidade que vivo, e condivido com meus filhos, Carlos Daniel, biólogo (em memória), e com Cindy Eliza, advogada. Ajudo a meus alunos a resgatarem sua história, mostrando que a vida é feita de existenciais lembranças dos antepassados que nos legaram sua singular maneira de ser, viver, amar e crer" (declei@terra.com.br).

Declei continua Fazendo a América do trabalho, da fé e da alegria, em meio ao vinho e ao canto! (Rovílio Costa).

 

EL RITORNO DE NANETTO PIPETTA (399)

Nanetto va a Belluno, la cità dei fiori alpini

Rafael Baldissera

Professor, Curitiba - PR

 

Ndando via de Longarone, par i Alpi, Edilson el spiega:

- Adesso ndemo a Belluno, na pìcola cità tra el rio Ardo e el rio Piave, la ze stà municìpio romano col nome Bellunum. Durante un bon tempo el ze stà goernà pai veschi, che i lo ga sercà de alte muràlie e fondi vali. Dopo la dominassion napoleónica, la cità la ze stà unida al Regno del Itàlia, nel 1865, con tuto el Véneto. Ma dopo la ze stà ocupada dai Austrìachi fin nel 1917, quando, finia la prima guera mondial, la ze tornada definitivamente al Itàlia. Belluno la ga na grande tradission turìstica. La ga monti de 2.556 metri, montagne de sassi in forma de tore, che ze i Dolomiti.

- Speta che vui scriver. Cossa ze sti Demoliti?

- Do-lo-mi-ti, Nanetto, ze alte montagne de puro sasso in forma de tore. I ga ricevesto sto nome in omenaio a un sientista francese de nome Dolomien, che’l ga studià la formassion de ste montagne. Ma adesso ve conto na fròtola sora el nome Belluno. La cità la gera sempre invasa de giavalì, che i fea na granda destrussion. I ndava rento ntei orti, de note, e i magnea fora tuto. Un bel di, ze capità ntea cità un brao gueriero de nome Belluno. Lora el pòpolo lo ga contratà: i ghe ga domandà se no’l volea guadagnar la vita copando giavalì. Lu el ga acetà e, in pochi giorni, el ga destruto tute ste bèstie. Lora, in so omaio, i ghe ga dà ala cità el nome de Belluno.

Dopo semo ndai visitar la Comperativa de Belluno. Ghemo cognossesto el fior tìpico dei Alpi - el fior alpino, che l’è vendesto in cartoline.

- Sto fior, spiega Edilson, el se ciama anca edelweiss.

Nanetto, snasando sto fior, el domanda:

- Parché sto fior el se ciama anca onde vais?

- E-del-weiss, Nanetto, vol dir fior alpino. El ze un nome tedesco. El fior alpino o edelweiss ze el sìmbolo dea persistensa. El vien su pai sassi, su le montagne, sensa tera e sensa aqua, sol co a rugiada dea note. Qua in Belluno e in altre cità alpine, i vende cartoline con edelweiss seco.

- Cossa giova, dise Nanetto, un fior seco? No’l spussa e gnanca el sa de bon!

- Nanetto, dise Cláudio Coen, tuto quel che se porta via da un paese straniero el ze un bel ricordo, soratuto dal Itàlia.

- Brao, Cláudio, dise Edilson, son sicuro che la maioransa de valtri portè casa arquanti pìcoli ricordi.

 

VITA STÒRIA E FRÒTOLE

Rovílio Costa e Arlindo Battistel

El sognato e mai sintito: Bom dì, papà!

Giovanni Foltran

Roncade (Treviso), pedreiro

 

Giovanni Foltran (*13-3-1931), emigrou à Suíça em 1953. Realizou o sonho de retorno à Itália em 1961, construindo uma casa em Roncade, sua terra natal, onde recebe amigos de diferentes partes do planeta. Como trevisano no mundo, organiza encontros das Famílias Foltran no Brassil. Mantém contato com os trevisanos de Bento Gonçalves, RS, desde 2003, e na fundação da Associação Trevisani nel Mondo, trouxe a Bento o Grupo Folclórico Borgo Furo, em 2005, e em 2006, a Orquestra de Sopro Bersaglieri del Piave. Em 2007, trouxe placa comemorativa aos 130 anos da chegada de vênetos, sobretudo trevisanos, colocada na Praça da Igreja da Linha Paulina; em Viadutos, RS, participou da Festa do Boi Recheado, e em Santa Teresa, RS, do Gemellaggio. Em Curitiba, PR, se encontra com as famílias Foltran.

Indagado sobre seus estudos, respondeu jocosamente:

– Sono studente di asineria. In Swizzera ho fatto il mestiere di muratore.

Da necessidade de simetria e harmonia no serviço de pedreiro, passou à simetria e harmonia das palavras, fazendo-se exímio poeta, tendo já publicado: ‘Na sesta de ricordi, 1995; Ogni mattina, 1995; Luminoso, 1997 e Voci della vita, 2005.

Quando observamos sua barriga avantajada, cabeça e rosto grandes, com 1 metro e 80 de altura, nos afirmou em trevisano:

– In sto mondo son stà emigrante, muratore, me ga piasesto quel che go fato, e come emigrante go portà l’Itàlia insieme, e son sicuro che quando me presentarò a San Piero, un postesin del paradiso el ze mio, parché, quando San Piero el varda la me fàcia, e el me domanda chi son mi, ghe rispondo:

– Mi son quel panciuto lì!

E nos indicou a figura de João XXIII, para cuja escultura serviu de modelo ao escultor do Vaticano, Carlo Balliana.

Casado com a emigrante Silvana Moro, dedicada a atividades domésticas, ao recordar sua bela vida matrimonial, dizendo que foi uma bênção de Deus, mas um sonho ficou para ser realizado:

– Me son sposà col sogno de un giorno poder sentir, al ndar a leto, o al levar su: ‘Bona note, papà! Bon di, papà!’ E sto sogno no’l se farà mai realtà. E me son fin fato poeta par descrìverlo. El poema el ze bel, ma la realtà la ze amara. Eco, lora:

Quanto è amara la sera

Mia creatura mai nata

ed ogni notte sognata

più bella del sole,

tu non potrai mai sapere

il bene che ti avremo dato,

quante lievi ninne nanne

avremmo sussurrato

sopra una culla di sogni,

quanti paradisi di sole

avremmo creato per te!

E quanto è amaro nella sera

non potersi specchiare

sui tuoi occhi sereni

e pieni di infinito chiaro,

e da quella bocca di baci

non sentirsi chiamare:

MAMMA, PAPÀ!

E lágrimas rolaram dos olhos grandes de Giovanni, assim descrito por seu apresentador, Ângelo Agliati:

– Giovanni Foltran, classe 1931, è un autentico figlio della Marca Trevisana: alto, robusto, di benevolo aspetto e modi gentili, ha sempre coltivato e mostrato..., bei sentimenti umani e religiosi, giovanissimo ha cominciato a dare a quei sentimenti voce in poesia: con versi ancora di breve raggio, destinati alla cerchia familiare. Ben presto ha dovuto battere la via dell’emigrazione, una via dura, che portava lontano, e talvolta (metaforicamente) in lande non segnate più da altre vie e dov’era impossibile intuire una meta: ‘tanto lavorar, sempre a ramengo!’

– E conclui Giovanni:

Come emigranti abbiamo fatto il mondo con orgoglio ed impulso degli Italiani nel Mondo (Via Fogazzaro, 8. 31056 Roncade, TV, Itália; 1-2-2007).

 

GERAL

Flores da Cunha celebra a vindima

Festa une exposição de produtos, shows e gastronomia típica

 

A XI Festa Nacional da Vindima, de Flores da Cunha, será inaugurada no próximo dia 23, às 14 horas, e segue até 18 de março, durante os finais de semana. Após a solenidade, no Parque de Exposições Eloy Kunz, os convidados abrem oficialmente a colheita da uva na Granja Argenta. O primeiro desfile alegórico ocorre às 18 horas deste mesmo dia, na rua Borges de Medeiros. Os demais, aos domingos e na última sexta-feira da festa, 16 de março.

Ao completar 40 anos, a Fenavindima aborda o tema "Retratos da Nossa História", que sugere o resgate das edições anteriores. As atrações da festa concentram-se no parque de exposições. No pavilhão I, está instalada a Escola de Gastronomia UCS-ICIF, que abrirá ao público excepcionalmente nos dias 10 e 11 de março, com duas opções de cardápio. Outros restaurantes e lancherias também prometem gastronomia farta aos visitantes.

Nos pavilhões II e III, concentra-se a exposição de uvas, malhas, artesanato, produtos coloniais e cerca de 20 vinícolas. Na área externa, shows musicais, com destaque para o grupo Nenhum de Nós, dia 2 de março, e Tangos e Tragédias, em 17 de março.

O presidente da festa, Eusébio De Bastiani, destaca o lançamento de uma nova variedade de uva, dia 24 (leia na página 6), e a inauguração do Núcleo Audiovisual, dia 25 - projeto desenvolvido em parceria com a União Européia que visa a profissionalização na área.

A expectativa é receber 200 mil visitantes. Os pavilhões abrem das 14h às 22h nas sextas; das 10h às 23h nos sábados e das 9h às 21h aos domingos. O valor do ingresso é R$ 5,00.