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JOGO DA MORA

PROJETO MEMÓRIA

Memória viva de um povo

 

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O jogo da mora é uma tradição trazida da Itália, sobretudo pelos imigrantes da região do Vêneto, tradição esta que se manteve e se incorporou aos hábitos e costumes dos seus descendentes.

Mora, segundo o escritor Frei Aquiles Bernardi, significa morra, jogo aleatório dos imigrantes italianos. Consiste em acertar a soma dos dedos que os contendores venham a expor sobre a mesa. A principal característica é a agilidade no estender os dedos sobre a mesa entre gritos e batidas – para o encanto e a torcida das crianças e adultos que cercam o local. Além desta agilidade, é importante que o jogador perceba que fez o ponto e o diga; caso contrário, o adversário el da sora (continua) e, assim, não se efetua a marcação do ponto.

A mora é um jogo que exige, dos participantes, movimentação rápida dos dedos e mãos, num alternar de encolhe, abre, fecha e bate, enquanto se ouve velozes pronúncias dos números de zero a dez: muta, uno (un), due (du, un per un, un per uno), tre (trrr), quatro, cinque (sinque), sei (ces), sete, oto, nove, dieci (diese, o tuta). É, também, exigido do jogador raciocínio treinado e reflexos apuradíssimos.

 

A vida social e cultural do imigrante

 

Ao chegarem no Brasil, os imigrantes tiveram que recomeçar praticamente do nada uma nova vida em terra estrangeira. Segundo Ribeiro, na Serra gaúcha, o imigrante passou a viver uma experiência inteiramente nova de agrupamento espacial, de adaptação ambiental, de relacionamento social, de proprietário rural, bem como de convivência com outros camponeses provenientes de outras províncias e regiões da Itália. A vida social e cultural do imigrante foi sendo reconstruída tendo como ponto de referência a capela quando já organizada. Ali, desenvolviam-se atividades religiosas, de lazer e da política. Antes disso, na ausência de recursos materiais para prática de esportes e atividades recreativas, fez com que nas primeiras décadas, o lazer sob forma de encontros familiares o filó recebesse a primazia. O filó como institucionalização do lazer, reunia várias famílias para conviver, conversar, comer, jogar e cantar. As famílias combinavam de se encontrar, ao entardecer, para juntas, fraternizarem as próprias experiências. Nesses encontros floresceu a música, a poesia, o humorismo, os jogos, próprios de sua cultura. Os jogos típicos dos italianos e seus descendentes, ao final de tarde durante a semana, ou aos domingos após a missa eram os da mora, a bocha e o baralho (bisca, trissete, quatrilho, canastra, escova, escovão, dentre outros).

O jogo da mora era um dos esportes preferidos, que marcavam os filós e encontros nas capelas aos domingos. Trata-se de um jogo que exige raciocínio rápido para cálculo matemático, agilidade e grande esforço físico pelos movimentos repetitivos das mãos sobre a mesa de jogo. Basicamente o mecanismo do jogo se dá na soma dos dedos entre os jogadores, que expõe na mesa cantando em voz alta o número desejado. Quem acerta a soma proposta entre os seus dedos e os dedos de seu adversário marca o ponto, em seguida, inicia-se com outro jogador a disputa de um novo ponto. As jogadas e trocas entre jogadores se repetem sucessivamente até chegar a 12, 15, 16 ou 21 pontos, quantidade estabelecida para se ganhar uma partida. O jogo da mora se caracteriza pelo barulho feito na mesa de jogo, tanto pelas batidas fortes na mesa, geralmente de madeira, como pelas chamadas dos números em alto tom de voz. Outro ponto interessante é a chamada dos números pelos jogadores que mais freqüentemente substituem o número três e o número seis por um simples grito, dando a entender que se referem as estes números, sem precisar chamar exatamente o nome. A marcação do ponto também tem uma dose de comemoração, vibração e emoção que se diferenciam de acordo com a característica de cada jogador. A mora pode ser jogada em duas, quatro ou mais pessoas, tendo um juiz ou mais, que observa as jogadas para marca os pontos. O juiz só pode marcar o ponto quando, quem o fez, faz um sinal apontando; caso contrário, deve permanecer calado.

O jogo da mora exercita o raciocínio, já que utiliza a adição, uma das operações matemáticas para a realização das jogadas. Além de raciocínio rápido para a soma dos dedos, exige alta concentração e reflexo apurado para acompanhar as jogadas, que muitas vezes são realizadas em centésimos de segundos na mesa de jogo.

O jogo da mora continua presente na maior parte das colônias de imigração italiana no RS, como: Antônio Prado, Arroio Grande, Bento Gonçalves, Casca, Caxias do Sul, Cotiporã, Fagundes Varela, Faxinal do Soturno, Flores da Cunha, Guaporé, Ivorá, Nova Prata, Santa Maria, Serafina Correa, Silveira Martins, Veranópolis, Vila Flores e tantos outros.

Nas comunidades, geralmente nos dias de filò (formas típicas de reunião à noite dos imigrantes, semelhante à serenata) ou no domingo, nas capelas, mal encerrada a celebração, o cenário para o lazer já começava a ser construído. Os homens se reúnem para combinar a maneira de passar o tempo durante a tarde. Quando é dia de festa, até mesmo antes do almoço já começa a ser praticado o jogo da mora. O livro do Instituto Ítalo Latino-americano, diz o seguinte: "La mora era uno dei giochi preferiti che caratterizzavano i filò. Infatti dopo la preghiera del rosario, si riunivano intorno a un tavolo e giocavano. Faceva punti chi combinasse il numero suggerito, sommando volta per volta i ditti aperti di sé con i diti dell’avversario. L’abilità consieste nel far rapidamente calcoli previsionali." [A mora era um dos jogos preferidos que caracterizavam os filòs. Então, depois da reza do terço, reuniam-se em torno de uma mesa e jogavam. Fazia pontos quem acertasse o número sugerido, somando vez-por-vez, os dedos abertos de si com os dedos do adversário. A habilidade consiste no fazer rapidamente as manobras previsíveis.]

O vinho alegra e os participantes se revezam em um jogo que é pura diversão, não sendo disputado por dinheiro. Quando é na bodega, o máximo que se limitam a estabelecer é o pagamento de uma rodada de vinho, um trago de cachaça ou inocentes balas de caramelo.

É um esporte praticado apenas por homens. Ocorrem muitos gritos, sempre em tom bem alto, do jeito típico do sangue italiano. Os números são pronunciados em talian.

Existem várias versões do jogo da mora cada uma com suas características, como por exemplo:

a) mora cantada (mora sonada);

b) mora chamada (mora chiamada);

c) mora morina;

d) mora corrida (in freta);

e) mora lenta (punto parola);

f) mora muda (muta).

 

Na mora cantada os versos são introduzidos no jogo, semelhante a: cinque la mora, cià; sei la mora, cià: mora la mora, e assim por diante. Continua-se assim até fazer o ponto. Quando faz o ponto, canta-se o estribilho do início.

Às vezes o jogo ocorre com os concorrentes expondo os dedos uma vez com a palma da mão para cima, outra vez, com a palma da mão para baixo. Mais usado na mora cantada.

Na morina, o jogador que iniciar usará sempre o chame: "sei, sei, sei (seis) ou, cià, , cià, cià ou, sa, so, so...(imitando os sons das batidas na mesa). O adversário chamará números variados até fazer o ponto. Este, fazendo o ponto, passará a chamar o sei, sei, sei (número que favorece o ganho dos pontos).

A mora corrida é a mais comumente jogada. Os dois jogadores oponentes chamam indistintamente qualquer número – due, sei, tre, oto... Ao fazer o ponto o jogador grita: mio ou sa la mora, sei la ou alla mora. Troca, então, de adversário, passando a jogar com a outra dupla adversária.

Na mora lenta, também conhecida, como, punto parola (ponto palavra), os dois jogadores oponentes chamam indistintamente qualquer número – due, sei, tre, oto... Antes de chamar, batem uma ou duas vezes na mesa (normalmente duas). E segue como a anterior.

Na mora muda uma dupla escolhe (ou sorteiam) par e a outra ímpar. Nesta, a cada batida, tem-se um ponto.

Jogar mora, para os imigrantes e seus descendentes, sempre foi, é e será muito mais que um jogo; é a recreação, a entrega de livre e espontânea. É um entretenimento que agrada aos jogadores e a todos que os assistem. É jogar por jogar e se divertir! Divertir-se consigo, com o companheiro e com os adversários.

 

O jogo em si

 

O desafio para o jogo é tão simples quanto o cenário que o mesmo exige. São pessoas jogando de pé e apenas uma mesa entre eles e, opcional, um ou dois juizes e/ou marcadores dos pontos. Raramente só duas pessoas, desafio individual. O mais normal é a disputa entre duplas. Ocorrem, às vezes, disputas entre trios, quartetos e, até, quintetos.

Jogando com pessoas experiantes, o jogo da mora ganha um ritmo até mesmo violento, devido ao fato de que, ser um bom jogador, este deve, sempre que possível, chamar antes de seu adversário. Daí a batida forte dos dedos na mesa, marcando o veloz compasso e fazendo eventualmente sangrar os dedos dos competidores. Às vezes, por falta de mesa, jogam sentado na grama e, de tanto bater, fazem-na secar.

Em síntese, poder-se-ia descrever:

a) duas pessoas frente a frente, com um anteparo entre elas, que normalmente é uma mesa;

b) cada jogador aproxima o braço ao peito e dão a largada direta ou batem uma ou duas vezes na mesa antes de começar a chamar;

c) cada jogador aponta de 0 a 5 dedos, concomitantemente com o adversário e, cada um, chama um número;

d) a mão fechada, normalmente (combinado antes de começar o jogo), vale "um dedo", pois o polegar poderia causar dúvidas;

e) faz o ponto o jogador que adivinhar a soma dos dedos apresentados sobre a mesa (se os dois chamarem o mesmo número, mesmo que, neste caso, ambos acertem, não é ponto e segue o jogo);

f) os pontos são marcados pelos próprios jogadores, ou por juiz/contador de pontos (o mais normal é um juiz, mas, às vezes, são solicitados dois juízes, neste caso, sendo um para marcar os pontos e o outro para cuidar da palavra);

g) é comum, o juiz, fazer a contagem com os dedos apenas;

h) ao fazer o ponto, o jogador grita: mio ou sa la mora, ou alla mora, recolhendo o braço contra o peito, ou levantando-o e já se dirigindo ao outro adversário;

i) vence o confronto o jogador ou equipe que obtiver 12, 15, 16 ou 21 pontos. No caso de chegarem aos 11 pontos empatados (sendo até 12), param o jogo e combinam se será disputado só o ponto que falta, ou se serão acrescidas mais 5 ou 7 jogadas.

 

Exemplo da Morina

 

O jogo da mora começa com um dos jogadores chamando sempre o número seis (6), enquanto o outro adversário poderá chamar alternadamente os números dois (2) até o dez (10), menos o seis (6), obviamente. O jogador que chama o jogo marca o ponto quando os dedos de sua mão somados aos dedos da mão de seu adversário resultarem na soma seis (6). O adversário marca o ponto quando a quantidade de dedos colocados de sua mão somados aos dedos da mão do adversário resultarem no número chamado proposto, passando a partir desta jogada ter o direito de chamar o jogo com o número seis (6). Assim sucessivamente o jogador que marca o ponto e não está chamando o jogo passa a chamar o jogo com o número (6). O jogador que não está com o mando do jogo, ou seja, não está chamando o jogo, quando chama o número seis e a jogada somar o número seis, não marca o ponto, pois o ponto com o número seis só poderá ser marcado para o jogador que estiver chamando o jogo; assim, segue-se o jogo até um dos jogadores marcar o ponto. Quando os dois chamam o mesmo número o ponto não é marcado para nenhum dos dois.

Nesse exemplo tomamos o jogador da esquerda para o mando de jogo, ou seja, o jogador que chamará o jogo cantando sempre o número seis (6). A mão do jogador da direita chamará os números de dois (2) até o número dez (10). Consideramos que o jogador da esquerda chamou o número seis (6) e apresentou na mesa cinco (5) dedos, e o jogador da direita chamou o número dez (10) e apresentou na mesa também cinco (5) dedos, a soma dos dedos das duas mãos resultou na soma de dez (10). Nessa jogada o jogador da direita marcou o ponto que lhe dará o direito de passar a chamar o jogo com o número seis (6).

Ganhou o ponto o jogador da direita que chamou o número dez (10), pois a soma dos dedos das duas mãos resultou também na soma de dez (10).

Na jogada abaixo o jogador da direita passará a chamar o jogo com o número seis (6) e o jogador da esquerda jogará chamando os números de dois (2) até o número dez (10), até um dos jogadores marcar o ponto.

Considerando que o jogador da direita chamando o número seis (6), colocou na mesa dois (2) dedos, e o jogador da esquerda chamou o número sete (7) e colocou na mesa quatro (4) dedos. A soma dos dedos das duas mãos resultou em seis (6). Nesse caso o jogador da direita marcou o ponto e continuará a chamar o jogo com outro jogador.

Ganhou o ponto o jogador da direita que chamou o número seis (6), pois a soma dos dedos das duas mãos resultou também na soma seis (6).

Na jogada abaixo consideremos que o jogador da direita que chama o jogo com o número seis (6), coloca na mesa a quantidade de quatro dedos, e o jogador da esquerda chama o número sete (7) e coloca na mesa a quantidade de três (3) dedos. A soma dos dedos das duas mãos resulta na soma de sete (7), número chamado pelo jogador da esquerda, que nesse exemplo estará marcando o ponto.

Ganhou o ponto o jogador da esquerda que chamou o número sete (7), pois a soma dos dedos das duas mãos resultou também na soma sete (7).

Assim, sucessivamente as jogadas se repetem até marcarem 12, 15, 16 ou 21 pontos finalizando a partida. É interessante lembrar que as jogadas são realizadas em frações de segundos.

 

Jogo da Mora Linha 21 de Abril, segundo Distrito de Antônio Prado – RS. Jogadores participantes: Antônio Bortolotto (88 anos); Cristiano Beltrame (62 anos); Armindo Beltrame (65 anos); Itacir Beltrame (58 anos); Horácio Zenatto (71 anos); Natalício Simioni (75 anos); e Pedro Zenatto (83 anos). Agosto de 2001

 

PROJETO MEMÓRIA

Coordenação: Fernando Roveda

Pesquisa: Fernando Roveda e Sergio Rigo

Título: Memória Viva de Um Povo

Quadro: Jogo da Mora

Cidade: Antônio Prado – RS

Local: Linha 21 de Abril

Cantina Beltrame

Vídeo: 6’ 37"

VHS

Produção Vídeo: A&B Vídeo Produções

 

Jogadores Participantes:

Antônio Bortolotto – 88 anos

Cristiano Beltrame – 62 anos

Armindo Beltrame – 65 anos

Itacir Beltrame – 58 anos

Horácio Zenatto – 71 anos

Natalício Simioni – 75 anos

Pedro Zenatto – 83 anos

 

Antônio Prado, 06 de agosto de 2001.

 

Fontes bibliográficas

 

BERNARDI, Aquiles. Vita e Stòria de Nanetto Pipetta. Escola Superior Teologia São Lourenço de Brindis. Porto Alegre, 1980.

DE BONI, Luís A. e COSTA, Rovílio. Far la Mèrica: a presença italiana Rio Grande do Sul. VIII, RIOCELL. 1991.

Contributo alla Storia della presenza Italiana in Brasile. Instituto Ítalo Latino-americano. Roma. 1975.

DUMAZEDIER, Jofre. Lazer e cultura popular. São Paulo, 1993.

Depoimento de Armando Piccoli a Sergio Rigo em 25-07-02.

RIBEIRO, Celodes Maria Piazza Julio. Festa & identidade: como se faz a festa da uva. Caxias do Sul: Educs, 2002.