125 anos da Imigração Italiana no Rio Grande do Sul Rovílio Costa
 

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Em 1974, em solenidade especial, o Rio Grande do Sul lançava o Biênio da Imigração e Colonização, para celebrar os 150 anos da Imigração Alemã, e o 1º Centenário da imigração Italiana, Polonesa, Suíça e outras.

As minorias étnicas foram silenciadas com a campanha de nacionalização do Estado Novo (1937-1945), através da imposição da língua nacional nas escolas, cultos, repartições públicas, reuniões sociais, vias públicas e, também, domicílios, onde as minorias étnicas eram a maioria da população.

O Biênio entendia celebrar os eventos de 150 e 100 anos de grupos populacionais significativos. Mas os resultados foram além.

Com o concurso de monografias sobre imigração e colonização, desencadearam-se estudos, publicações, e a imigração voltou a ser assunto do quotidiano educacional. O alemão batata, o italiano polenteiro, os gringos todos começaram perder o medo, e voltaram a se pronunciar, a estudar e a resgatar sua história e sua cultura.

No auge do processo de nacionalização foram proibidos: a importação, impressão e circulação de livros textos, revistas e jornais em língua estrangeira, o ensino de línguas estrangeiras a menores de 14 anos.

Durante a Campanha de Nacionalização, imperava o medo e a vergonha de ser estrangeiro. Depois da campanha, continuou a vergonha e o silêncio.

Programas radiofônicos esporádicos em língua Alemã, Italiana, Polonesa... foram ao ar tímida e raramente, por continuarem não permitidos pelas normas da radiodifusão brasileira.

Finalmente, a atual Constituição Federal no Art. 215, e a Constituição Estadual no artigo 220, repetindo a Federal, arremata:

"É dever do Estado estimular as manifestações culturais dos diferentes grupos étnicos, formadores da Sociedade Rio-Grandense." Portanto a língua e cultura italianas, como as das demais etnias, se tornaram também constitucionais.

A Constituição do Estado, pois, nos reconhece como Italianos do Rio Grande do Sul, com identidade própria, necessária à plenitude da identidade do Estado, integrantes dos 60 milhões de italianos da diáspora, com os quais formamos A Itália no Mundo.

Somos os Italianos do Rio Grande do Sul, porque nossos antepassados escolheram este Estado, longínquo e extremo do Brasil, para realizar seus sonhos.

A Itália, em 1860, contava 37 milhões de habitantes e destes, até a I Guerra Mundial (1914), 17 milhões emigraram. Destes, aproximadamente cem mil escolheram o Rio Grande do Sul, não emigraram para as Américas, nem para o Brasil, mas emigraram para o Rio Grande do Sul, dando continuidade à vida e cultura italianas que remontam às origens históricas do Estado.

No século XVI, o geógrafo italiano Sebastiano Caboto contempla a costa arenosa de nosso Estado e navega pelas águas do rio Uruguai, quando vários de seus compatriotas acompanharam a expedição de Martin Afonso de Sousa.

Entre os Jesuítas estrangeiros nas reduções, desde 1628, diversos foram italianos, entre os quais o arquiteto missioneiro da igreja São Miguel, Giovanni Battista Primoli (1717).

No início da ocupação oficial portuguesa, em 1737, a Frota de Silva Paes contava com a orientação espiritual dos capuchinhos italianos Antonio de Perugia e Anselmo de Castelvetrano.

Tito Lívio Zambeccari, Luigi Rossetti, Francesco Anzani, Luigi Nascimbene (autor da primeira, inédita ainda, História Farroupilha) e Giuseppe Garibaldi aderiram e lutaram pelos ideais farroupilhas (1835).

De 1860 a 1875, com Dom Sebastião Dias Laranjeiras, 45 padres seculares italianos atuavam na então Igreja essencialmente luso-brasileira do Rio Grande do Sul.

E as presenças pontuais de italianos culminaram com o início da grande imigração, de 1875 em diante.

Se o Estado de São Paulo escolheu, mais precisamente iludiu, 1 milhão de italianos principalmente para suas fazendas de café, cem mil italianos, no mesmo período, escolheram livremente o Rio Grande do Sul.

Andrea Pozzobon, depois de deixar sua Carpenedo-TV, em Gênova, com uma leva de emigrantes, a 26 de outubro de 1885, não partiam para a América, nem para o Brasil, mas partiam para o Rio Grande do Sul. Em seu relatório que começa com as palavras "Stipati come le acciughe nel barile," Apertados como sardinhas em lata", depois de descrever a viagem no navio Poitou, de bandeira francesa, com péssimas condições de higiene e alimentação, diz:

"Finalmente o Rio de Janeiro, estrela caída do céu; a Ilha das Flores, um paraíso terrestre, onde o venerando Dom Pedro II se dignava visitar os imigrantes, especialmente os italianos e lhes manifestava cordial atenção e afeto.

"Como os plantadores argentinos tentavam convencer que o Brasil era o cemitério dos imigrantes, os plantadores paulistas faziam os imigrantes chegarem a Santos, porque precisavam de braços para as plantações de café.

"Em São Paulo, fomos pessimamente instalados no casario do Bom Retiro. Assim pressionados, os imigrantes só pensavam em suas casas. Éramos 700 decididos a ir para o Rio Grande do Sul, onde o clima e os produtos seriam semelhantes aos da Itália. Cansados de ficarmos em São Paulo, assediados por pouco escrupulosos agenciadores do interior da Província que nos queriam em suas fazendas de café, decidimos entrar em contato com o cônsul italiano, cientificando-o de nossos desejo de irmos para o Rio Grande do Sul, e este nos tachou de imbecis e revolucionários, dizendo que devíamos ficar em São Paulo, onde o governo nos oferecia terrenos, casa e dinheiro.

"Só quando pedimos para mandar um telegrama ao Ministro do Exterior em Roma, dizendo-nos 700 italianos que pedíamos providências para sermos encaminhados ao Rio Grande do Sul, e que o cônsul era contrário, é que este, informado de nosso propósito, veio pessoalmente à casa da Imigração e, de punhos serrados, nos disse: "Ide imediatamente para o Rio Grande do Sul."

"Desta forma é que se deu nossa partida para o Rio Grande do Sul, em 27 de novembro de 1885, pelo navio Itapuã e, 14 dias depois, estávamos em Rio Grande. Na verdade, o Itapuã era um navio de carga, e os imigrantes deviam ficar satisfeitos como bagagem e não como criaturas humanas.

"Mas em Rio Grande começou nossa vida. Mercado do tamanho de uma invernada, com salame, presunto, queijos, vinho a 400 réis à garrafa... era o paraíso terrestre. Em Pelotas, enfim, polenta, peixe e vinho. Começava nossa vida italiana, tão bela, que eu recomeçaria para conquistá-la, se fosse necessário.

"Em Pelotas havia muitos italianos e, quando chegava algum emigrante que trazia notícias da cidade natal, dilatavam-se os corações, e arrepios de emoção percorriam todo o corpo.

"Porto Alegre era relativamente grande, mas longe de possuir a imponência, a arte e as belezas das cidades do Vêneto, como Padova, Verona, Vicenza e Treviso. As casas, simples e lisas, na sua grande maioria, eram de um único piso, construídas no estilo colonial português...

"Nas ruas e praças, viam-se muitas pessoas de cor negra, as mulheres com imaculados vestidos brancos, quase todas descalças. O povo, em geral, era saudável. Notei boa quantidade de alemães e austríacos. Eram fortes, loiros e de olhos azuis, e as mulheres bastante corpulentas. Falavam a língua materna e pareciam muito à vontade entre o povo nativo. Eram imigrantes como nós. Também encontramos alguns italianos, morenos e de baixa estatura, principalmente nas proximidades do porto. Pela fala percebia-se que eram do Sul da Itália."

Pozzobon não está se referindo a imigrantes recém-chegados, mas a uma Itália já existente no Rio Grande do Sul, como se diz em Far la Mèrica (De Boni / Costa, 1991, p. 44): "A partir da segunda década do século passado, uma outra classe de italianos, começa a aparecer em solo gaúcho: são comerciantes, marinheiros, mascates, artesãos, tomados muitas vezes por espírito de aventura. O decreto de abertura dos portos valeu-lhes como instrumento legal de entrada no país, e o porto de Montevidéu, ancoradouro de tantos e tantos errantes, bem como o de Rio Grande, serviram-lhes como porta de ingresso na Província."

1875 marca o encontro de duas itálias no Rio Grande do Sul. Ambas por caminhos diversos, escolheram o Estado para sua nova pátria.

Os 125 Anos da Imigração Italiana no Rio Grande do Sul nos remetem à maneira como especialmente os cem mil italianos da imigração agrícola responderam aos desafios do País e do Estado, através da agricultura, artesanato, indústria e comércio.

Construindo capitéis, capelas e escolas em conseqüência da fé e da solidariedade cristã; abrindo clareiras para casas e plantações, estradas e picadas para fluir o fruto do próprio trabalho e impulsionando povoados, cidades e municípios, deram uma faceta própria e definida à vida do Estado, enriquecida com a vinda espontânea de Italianos, especialmente após a I e II Guerras Mundiais.

No Rio Grande do Sul, os italianos, como as demais etnias, tivemos liberdade de nos organizarmos em famílias e comunidades, e dar à identidade sul-rio-grandense e brasileira as marcas de nosso modo de falar, trabalhar, crer, fazer e conviver. Por isto somos os Italianos do Rio Grande do Sul.

Ao festejarmos os 125 anos da imigração agrícola, no contexto dos 500 anos do descobrimento do Brasil, pretendemos dar continuidade ao aprofundamento cultural que herdamos de nossa pátria de origem, engajados e comprometidos com a identidade e a cidadania sul-rio-grandense e brasileira, conscientes de que a riqueza maior de nosso Estado é a diversidade étnico-cultural. Pe. Antônio Cuber (in Stawinski, Primódios da Imigração Polonesa no RS, 1999, p. 38...), em seu relatório observa que em áreas de nosso Estado, em 1889, eram falados 19 idiomas. Com todas as demais etnias, pois, queremos reconquistar as facetas étnico-culturais do Estado, com seu folclore e suas ricas tradições, nas quais os italianos são de efetiva participação.

Em nome de nossos antepassados, somos agradecidos ao Estado que nos recebeu, e que espontaneamente escolhemos, e que tantos italianos o continuam escolhendo por sua segunda pátria.

 

(Discurso no Palácio Piratini, no lançamento dos 125 anos da Imigração Italiana no RS. – Porto Alegre 17 de fevereiro de 2000).

 

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