|
|
IMIGRAÇÃO ALEMÃ sua presença no RS há 180 anos |
Telmo Lauro Müller |
|
Quando se fala em imigração alemã, italiana, polonesa, suíça, francesa, judaica e outras, pensa-se no fenômeno da mobilidade mundial em busca de um lugar para viver no espaço mundial e no tempo. Trata-se do deslocamento de milhões de pessoas, particularmente a partir do século XIX. É um fenômeno igualitário que retrata um momento da história da humanidade, mas não retrata a pessoa do emigrante de cada etnia que parte para fazer o mundo com o mesmo sonho, mas com identidade étnico-social e religiosa própria. Telmo Lauro Müller, nesta obra Imigração Alemã: sua presença no Rio Grande do Sul há 180 anos, aborda primeiramente a pessoa do imigrante alemão e secundariamente o fato de ele ser imigrante ou descendente no país. Alojando em seu coração duas pátrias, a Alemanha e o Brasil, conjuga-as numa nova forma de vida, a vida alemã do Rio Grande do Sul, ou melhor, a vida brasileiro-alemã do Rio Grande do Sul. Mostra que os alemães, como os demais imigrantes, aqui vieram e aqui estão co-participando do palco multiétnico da vida sul-rio-grandense. Telmo Lauro, como luterano de cepa, é um missionário das culturas. De sua boca brotam palavras em hunsrück, em alemão, em português-gringo, enquanto, depois de um bom Sauerkraut, mastiga, com nobreza, uma feijoada com farofa, mesclada esta com o bacon à la germana, logo depois vai a um Culto Luterano rezando e cantando sua fé de berço, para, em seguida, ouvir um padre no funeral de um amigo católico, que fala português, com mescla de frases latinas. Vai à escola e, no retorno, ensina a seus pais uma nova palavra em Português. Se o provérbio diz que a boca fala daquilo que mora no coração, Telmo, nesta obra, fala com o coração gaúcho do imigrante e descendente alemão no Rio Grande do Sul e no Brasil. Com a sensibilidade de quem cuida de um berçário cultural, acompanha o balbuciar, o se integrar, o viver, o rezar, o cantar e o fazer alemão e brasileiro a um momento, e brasileiro alemão em outro. Telmo é Telmo. É bom que assim o seja único, singular, capaz de tornar-se o referencial que é, não da fria história de uma imigração, mas de seqüência, harmonia e vibração de uma forma de vida alemã no Rio Grande do Sul e no Brasil. O peixe se pega pela boca. É pela boca que Telmo é o alemão brasileiro e o gaúcho alemão que é, como o atesta seu ingresso nas letras, em 1976, publicando Cozinha alemã. E como a cozinha é o lugar da vida em todas as dimensões, na linha da boca e da cozinha, segue publicando Colônia alemã: histórias e memórias, 1978; Colônia alemã: imagens do passado, 1981; Colônia alemã: 160 anos de história, 1984; História da Imigração alemã para crianças, 1996; 175 anos de Imigração alemã, 2001, com mais uma dezenas de outras obras, em todas resumindo sua preocupação, sempre expressa na gestão de presidente do Instituto Histórico Visconde de São Leopoldo e na direção do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo: “Se nós não escrevermos, as futuras gerações não vão saber como nós vivemos, o que fizemos e em que acreditamos”. Em conclusão diria que, nas quinze obras de Telmo Lauro Müller, e nesta em particular, está a nata cultural da vida do imigrante alemão e descendentes, servida no café colonial na mesa das etnias que perfazem a história do Rio Grande do Sul e do Brasil. Prof. Frei Rovílio Costa |
SUMÁRIO
¨
|
Uma explicação 7 Identidade 10 Razões da Emigração na Alemanha 11 Razões da Imigração no Brasil 13 A Feitoria do Linho-Cânhamo 15 A primeira leva de imigrantes 15 Palavras de quem fez 17 Como era a vida? 18 A leitura na colônia alemã 20 Música e canto 21 Um nome em Lomba Grande 29 Um momento doloroso 36 Uma pedra tumular 40 Dor e saudade 44 Participações aos parentes e amigos distantes 45 Monumentos 52 Panos de parede 55 Noivas de preto 57 Graf Zeppelin 59 Humor 63 Ditados populares – Volksmund 67 As sociedades dos imigrantes 68 Livros contam a história do Rio Grande do Sul 72 Tiefenbach 74 Informações necessárias sobre os textos que seguem 80 Língua 80 Natal 91 Páscoa 93 Kerb 96 Kränzchen – Rodinhas de bordado 106 Königschiessen – Tiro ao Rei 107 Bolão 110 Bailes 115 Bandinhas 119 Sociedades de canto 121 Escola 122 Musterreiter – Caixeiro-viajante 131 Comunicações – o “Linha” 133 A casa do colono 135 Fazendo schmier 139 A venda 142 Noite de baile 145 As tradições natalinas 150 A comida 152 O pão 156 Um dia de festa: a matança de porco 158 O luto 161 A marcha do imigrante 164 Museu Histórico Visconde de São Leopoldo. Onde? Quando? Como? 166 Ato ecumênico... 169 Fogo simbólico das etnias 171 O cartaz da capa do livro (São Leopoldo Fest – 2004) 173 Atividades pelos 180 anos de imigração 174 Medalha histórica – 180 anos da colonização alemã no Rio Grande do Sul 180 Atividades do município 182 Atividades em Porto Alegre 184 Comitê Oficial do Estado 184 Viagem à Alemanha 185 Registro fotográfico da visita à Alemanha, por Henrique Prieto 188 Programação da São Leopoldo Fest 196 Algumas datas significativas da história de São Leopoldo 208 A trajetória de uma logomarca 216 O Autor 217 |
UMA EXPLICAÇÃO
¨
|
Com a chegada dos imigrantes alemães, a partir de 25 de julho de 1824, o Rio Grande do Sul passou a receber novos elementos econômicos, como uma intensa agricultura e do artesanato, que foi a semente da industrialização do Vale do Rio dos Sinos. Mas houve outros elementos que ajudaram a mudar nossa história: a criação de escolas nos núcleos coloniais; a fundação das Sociedades que ainda hoje existem: de Canto, de Atiradores, de Ginástica; as tradições que enfrentaram os anos: a árvore de Natal; o ninho de Páscoa; o Kerb (festa de inauguração da Igreja); os hábitos alimentares: a Schmier, o Kuchen, o Sauerkraut, a Bockwurst e outros elementos mais, como a Confissão Evangélico-Luterana. Descendente do imigrante Johann Peter Müller, chegado a São Leopoldo em 16 de dezembro de 1827, de quinta geração, e nascido em 1926, numa colônia alemã chamada Lomba Grande, que fazia parte da histórica “Colônia Alemã de São Leopoldo”, nome oficial dado pelo nosso Governo Imperial ao conjunto da presença germânica, criei-me dentro dos cânones que marcaram a imigração. Tudo começou com meu nascimento, como o terceiro filho de uma família, cuja mãe fazia todo o serviço da casa, cuidava da horta, tirava leite da vaca, dava comida ao porco e às galinhas, varria o pátio, limpava a casa, e sabe-se lá o que mais! O pai, que na adolescência havia aprendido, na prática, numa casa comercial, o que era um livro-caixa, o que eram juros. Ele foi indicado para escrivão, cargo que dava renome a quem o ocupasse, mas acabou fazendo o trabalho burocrático de uma fabriqueta de calçados, lá na Lomba Grande. E aos poucos, os filhos, cujo número foi aumentado e enriquecido com três meninas, começaram a sentir a orientação da família dentro das tradições trazidas pelos imigrantes, seus antepassados: respeito e obediência aos pais e aos mais velhos; ajudar a mãe, enxugando a louça, recolhendo a roupa seca no varal, varrendo o pátio, buscando os ovos no galinheiro, levando pedaços de lenha para junto do fogão, ajudando na limpeza da casa e das janelas, e... aos oito anos Loos in die Schuul! (Toca para a Escola!), no melhor dialeto renano, lá do Hunsrück. Uma nova situação: ao meio-dia, a volta da Escola, o almoço, enxugar a louça e, daqui a pouco, a ordem imperativa: – Die Aufgawe mache! – em bom dialeto (Fazer a lição de casa!). Só depois, vinham os brinquedos: andar de carretinha de lomba; andar de balanço; jogar bolita, ou clica; pegar a funda e caçar passarinhos; trepar nas árvores e comer as frutas. Ao anoitecer, a mãe ia tirar o leite e tratar a vaca, o porco e as galinhas, tendo os filhos nos seus calcanhares, segurando uma lata, um balaio ou um balde. Na área dos fundos da casa, era a zona da higiene pessoal: lavar os pés na gamela (em dialeto, chamada de kammel), e enfiar o tamanco ou o chinelo; lavar os braços e o rosto; pôr roupa limpa; pentear-se. A mãe já estava na cozinha, fazendo a comida da noite. O pai sentava numa cadeira maior e as crianças, em cadeirinhas, o menor no colo do pai, e ali ouviam a conversa dos “grandes”. A mesa está posta: pratos, talheres, a tigela do feijão, a travessa com arroz, um prato com batata doce, um prato com carne assada, uma travessa com salada de verdura. Tudo iluminado pelo lampião de querosene, ao centro da mesa, em cima de uma lata redonda, cor azul, a do açúcar! Cena inesquecível! A semana repetia esse dia-a-dia! No domingo, este ritual rompia-se com a ida ao Culto. Quando lemos Culto, referimo-nos à Igreja Evangélica. Missa, refere-se à Igreja Católica. Da mesma forma acontece com as palavras pastor e padre. O Culto, ou Gottesdienst era dos adultos, ou como também se dizia, dos grandes! As crianças iam no Kindergottesdienst, ou seja, no Culto Infantil. Era bom ir lá, porque a gente ganhava figurinhas com desenhos coloridos e dizeres bíblicos. Uma festa! Mas esta ida ao Culto Infantil tinha um elemento desagradável: tínhamos que ir de sapatos! Durante a semana, as crianças andavam de pés descalços, inclusive na Escola e, por isso, nos domingos, os dedos dos pés sofriam dentro do sapato. Na volta para casa, tiravam-se os sapatos e as meias, amarravam-se os sapatos pelos cadarços e colocavam-se os mesmos no ombro: um para frente, o outro para trás. À medida que se crescia, também mudavam os encargos, os compromissos. Da família, os cinco elementos: respeito, disciplina, ordem, trabalho e religiosidade viriam a ser os formadores de minha vida. Todos esses elementos tinham ligação com a vida plantada pela Imigração Alemã no Rio Grande do Sul, e daí, é fácil compreender minha decisão profissional: fazer da História da Imigração Alemã o “meu pão de cada dia”. Mudamos para São Leopoldo, porque meu pai ia trabalhar lá, quando a fabriqueta de calçados, também havia tomado esta direção. Agora, com sete filhos, quatro rapazes e três meninas (o oitavo nasceu em São Leopoldo), meu pai começava a ponderar o futuro dessas crianças na colônia. A mudança foi feita em duas carretas de bois (sendo uma do avô materno, e a outra, de um Roth), pela única estrada de terra que ligava minha terra natal com São Leopoldo. Às vezes os bois tinham barro lá pelo joelho. Nenhum participante daquela aventura podia imaginar que um dia haveria uma estrada asfaltada! Em 1941, aos 15 anos, entrei para o Ginásio Sinodal, cuja orientação era a Igreja Evangélica/Sínodo Rio-Grandense. Os cinco elementos de minha formação na colônia foram amplamente sublinhados no Sinodal, a quem devo a metade do que viria a ser. O Sinodal será inesquecível para mim, e na sua direção estava o Pastor Rodolfo Saenger. Em 1948, entrei na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), no Curso de História e Geografia, minhas matérias preferidas. Formado em 1951, havia alguma conveniência em estabelecer a preferência temática, ante a vastidão do campo histórico-geográfico. Minha origem, minha formação e minha vocação falaram mais alto e indicaram o caminho para a História da Imigração Alemã no Rio Grande do Sul. Ao mexer na minha pasta de documentos, encontrei as notas que eu recebi na minha vida escolar. Ali, pelo que parece, começa o gosto pela História e Geografia. No Exame de Admissão ao Ginásio Sinodal, em 1941, foram as seguintes notas: História: 80; Geografia: 100. E foram as mais altas, entre as cinco disciplinas do exame. Ao final da 1ª série, as notas em Geografia e História, foram: 78 e 87,3. Após o ciclo ginasial, estudei no Colégio Estadual Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, no Curso Clássico, de 1945 a 1947, e as médias nos três anos, foram: História: 8,6 e Geografia: 9,03. |
|
EST EDIÇÕES | Fone/Fax (51) 33361166 |