A Mosca e o Elefante

 

 

Home | E-mail

 

A Mosca e o Elefante

Jayme Copstein

Em fins de agosto de 1992, eu conversava com o humorista André Damasceno sobre a crise que fervia no Planalto. Uma montanha de provas acumulava-se contra Fernando Collor de Mello. A oposição, da qual Luiz Inácio Lula da Silva e seus correligionários eram a parte mais veemente, levantava a questão da dignidade do mandato, para a qual Collor em nada contribuía com sua conduta. Os governistas de então não alegavam inocência nem se defendiam. Acusavam a oposição - e principalmente a imprensa - de tentar a ilegalidade de depor um governo legalmente eleito. Usava o argumento da legalidade para defender o ilícito. Armava-se uma discussão sem fim, oscilando do ridículo ao trágico. Valia uma fábula. Damasceno criou-a na hora: um elefante desaparece. Alguém escamoteou o elefante. Este alguém está com a barriga estufada, mas alega que o elefante foi engolido por uma mosca. Todos sabem que um elefante não cabe no intestino de uma mosca. Do contrário, ele seria mosca, e ela, elefante. Mas não no Brasil. Aqui, primeiramente, é preciso discutir o conceito filosófico de elefante. Estabelecido o conceito, novo dilema. Caberá este elefante filosófico no intestino de uma mosca metafísica? Antes de resolver questão tão fundamental, é preciso medir o tamanho de um e de outro. O problema não é tão simples como se apresenta aos espíritos honestos, por isso mesmo, simplórios. Como fazê-lo, sem conceituar um metro adequado para medir o intestino da mosca? Sobrevém outra questão: a legalidade do metro. Quem a define? E por aí se vai. O tempo passa, o elefante se evapora e as moscas continuam zumbindo no monte de esterco. Passaram-se 14 anos. Substituída a Operação Uruguai pelo Mensalão, os governistas não alegam inocência nem se defendem. Só acusam a oposição - e principalmente a imprensa - de tentar a ilegalidade de depor um governo legalmente eleito. O que, de novo, equivale a usar a legalidade para defender o ilícito. Há barrigas estufadas, há elefantes engolidos; mas que importa se não se consegue definir o metro para medir o intestino da mosca? Este livro não traz nenhuma contribuição para resolver a questão. É apenas uma coleção de comentários radiofônicos, irradiados entre agosto de 2005 e abril de 2006, sem pretender mais do que reproduzir alguns zumbidos da edificante discussão. Mesmo porque os elefantes se evaporaram outra vez. Como são voláteis e paquidermes!

 

Home | E-mail