Africanos na Santa Casa de Porto Alegre. Óbitos dos escravos sepultados no Cemitério da Santa Casa (1850-1885).

 

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PREFÁCIO

 

Cabe-me, na condição de Provedor da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, a honra de prefaciar esta obra, cuja finalidade é por à disposição dos pesquisadores que buscam definir as linhas formadoras da etnia rio-grandense, um magnífico acervo de dados, zelosamente guardados nos arquivos desta Instituição.

A história da Santa Casa, hoje já duas vezes secular, caminha lado a lado, com a história de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul. E, grande parte desta memória comum está preservada no seu Centro Histórico-Cultural.

A obra, ora publicada, traz documentos de valor singular relativos aos escravos que foram sepultados no Cemitério da Santa Casa, entre os anos de 1850 e 1885, somando aproximadamente 7.000 registros de óbitos. Formatados em verbetes, óbito a óbito, esses registros oferecem informações preciosas aos pesquisadores das Ciências Humanas, notadamente à História, Sociologia, Antropologia, Genealogia, e também à própria Ciência Médica.

Sua elaboração se deve a um trabalho cuidadosamente realizado pela equipe integrante do Centro Histórico-Cultural Santa Casa, retraçando um espaço histórico compreendido pelo século XIX.

Esta publicação resulta do esforço empreendido, com brilho e competência, pelo Frei Rovílio Costa, através da EST Edições, divulgando a contribuição oferecida pelas diversas correntes migratórias que se integraram na formação do povo gaúcho.

Portanto, esse quadro, para ser completo, não poderia silenciar sobre a valiosa doação feita pelos representantes da raça negra, com seu trabalho e com seu sacrifício.

Ao voltar-se, agora, para a santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, promove a ação benemérita de editar graciosamente esta obra, possibilitando não apenas a preservação dessas fontes sobre a escravidão, como também abre aos estudiosos da comunidade gaúcha uma parcela de seu precioso acervo.

Desejo, pois, que tantos esforços somados sirvam para clarear as veredas das muitas relações sociais que marcaram a história do nosso povo.

José Sperb Sanseverino

Provedor da ISCMPA

 APRESENTAÇÃO

As histórias do Rio Grande do Sul e de sua Capital estão associadas à trajetória da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.

O acervo que ela constituiu ao longo de seus 200 anos, é rico e multifacetado. Ele informa sobre as condições de vida dos pacientes, a origem social dos que se dirigiam ao hospital, os limites e os cuidados que a população tinha com a saúde privada e pública, enfim, um conjunto de informações que possibilitam reconstituir  em muitos aspectos o cenário de vida da Capital e de muitas cidades gaúchas.

Dentre as fontes históricas que a Santa Casa produziu por atuação cotidiana, destacam-se os registros de óbitos do seu Cemitério. Em tempo de escravatura no Brasil, foi no Campo Santo que a Misericórdia acolheu os escravos de Porto Alegre e de outros municípios; destes, eles foram enviados por seus senhores para serem tratados no Hospital. Não vencendo a vida, a morte deu-lhes morada final no mais antigo cemitério da capital, em ininterrupto funcionamento até o presente. São mais de seis mil óbitos de escravos com informações que interessam não só à história da saúde, como à história social e à genealogia de muitos que perderam suas raízes familiares, por força da condição escrava. Eis a relevância que esta obra encerra.

Ora oferecida à comunidade, mais que um presente da Editora EST, ela resignifica a participação dos escravos na história de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul, e por extensão redimensiona a atuação da nossa Santa Casa, que ao longo do tempo vem promovendo a vida e zelando a morte.

O Centro Histórico-Cultural Santa Casa reconhece a larga visão do editor Frei Rovílio Costa que oportuniza a muitos a publicação de seus trabalhos. Sua política editorial, especialmente voltada às etnias formadoras do Rio Grande do Sul, dá guarida aos europeus que emigraram para o Rio Grande do Sul, notadamente os italianos, berço de sua família. Mas não silencia os indígenas, os primeiros povoadores, nem tampouco os africanos que foram trazidos por força da colonização. É aos escravizados que vem dirigindo sua maior atenção no tempo presente. Esta obra é uma das que empreendeu muitos esforços para brindar à comunidade regional, e dizer aos afrodescendentes que sua memória não mais vai ser sonegada em nosso meio; ao contrário, mais identificada e revificada. Gratidão, portanto, é a palavra de muitos.

Que esta parceria seja a primeira de outras, para ganho coletivo, ao animar a cidadania ativa entre nós, através do respeito ao passado.

Rosani Porto Silveira

Coordenadora do Centro Histórico-Cultural Santa Casa

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