Conflitos agrários no Norte Gaúcho 1960-1980

 

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 Na singela reflexão que ora apresentamos, enfatizamos uma forma de organização social de camponeses, pequenos proprietários ou não, em luta pela terra, revestida e produzida com certo poder de pressão sobre a esfera política e no interior de determinadas organizações da sociedade civil.

Aliás, a noção de pressão social não era incomum no período histórico  brasileiro em questão. Os anos de 1950 e parte dos da década de 1960 passaram a ser reveladores de movimentos societais, de dinâmicas organizativas.

No campo econômico, o progressismo aliava-se a políticas desenvolvimentistas e intervencionistas, tentando imprimir uma nova fase de acumulação de capital, tendo os campos industrial e infra-estrutural como pontas de lança; na esfera política, fases populistas se sucediam, acopladas de horizontes clientelistas, coronelistas e assistencialistas, posterionl1ente, abafadas, em parte, pelo militarismo que se estendeu por décadas; na esfera cultural, os fenômenos de urbanização, migração, esgotamento de fronteiras de expansão em vários âmbitos, a modernização tecnológica e a mobilidade social davam o tom de um país que se redefinia e que se auto-referenciava pelo urbano em suas novas manifestações modernizantes; no âmbito dos movimentos sociais, a fase populista dos anos de 1950 e parte dos da década de 1960 revelou intensos embates, aberturas, organizações de representação social, mobilizações e propostas de mudança (na época, consideradas “reformas”).

Nessa conjuntura, parecia que a modernidade havia verdadeiramente emplacado no país; tudo parecia querer se alterar; a idéia de movimento, como  pano de fundo e base da modernidade cultural e social, havia encontrado uma conjuntura de oportunidades políticas. Forças sociais, políticas, econômicas e culturais dialogavam e interagiam, ao seu modo, com dinâmicas presentes na esfera internacional como é o caso do internacionalismo, o comunismo, o keynesianismo, o industrialismo, o progressismo, o trabalhismo, o capitalismo, o americanismo associado, também, ao europeísmo e, vários outros ismos  reveladores de tendências e macrodinâmicas sociais. 

No entanto, dentre outros, havia um horizonte (e é o que nos interessa aqui) que parecia não possuir o mesmo dinamismo no sentido de alteração, mudança e reversão do quadro. Era a forma de organização fundiária que, historicamente, havia se cimentado sob a égide do latifundismo concentrador de terra, renda e poder, revelando seu lado produtivo de irracional idade econômica e injustiça social.

           O lado perverso desse processo passa a ser manifestado pelos movimentos sociais no campo; os mesmos, através das Ligas Camponesas, dos sindicatos e organizações combativas, das agremiações políticas progressistas e/ou modernizantes, das reformas na esfera política, ambas como fruto de pressão social, atestam, sociologicamente, uma história lenta das mudanças na base estrutural de organização fundiária e agrária do país.

A história das lutas sociais no campo, no país, está recheada de movimentos, ações, reivindicações, protestos, levantes, revoltas, invasões e dezenas de outros nomes e formas de manifestação anteriores aos anos de 1950 e 1960. Porém, de uma forma mais ampla, menos localizada, mais orgânica e mediada, esse período passa a ser mais revelador. O Master (Movimento dos Agricultores Sem Terra), como expressão de uma história agrária, em solo gaúcho, que relutava em permitir a manifestação orgânica de suas contradições em forma de luta e de pressão social e política, vai transformar-se nesse elo indutor, agregador e difusionador desse real complexo; vai revelar as mazelas de um sistema de organização da propriedade da terra; vai fazer aflorar e mobilizar atores sociais totalmente esquecidos e marginalizados das estâncias e instâncias agropastoris e latifundiárias, bem como da esfera pública.

O estudo em questão busca localizar, além de um movimento social, uma área de terra que, em nível regional, no centro/norte gaúcho, como também estadual, tornou-se paradigmática pelas suas múltiplas ingerências políticas, jurídicas e de lutas sociais, que é a Fazenda Sarandi. Buscamos localizá-la e centrar as ações de camponeses com esferas mediadoras numa conjuntura maior em nível regional que agrega os expropriados da terra, os pequenos camponeses, indígenas e assalariados rurais num horizonte interligado de fatores e num feixe de trajetórias que a periodização em questão permite visualizar.

É importante destacarmos que apenas sistematizamos alguns dos aspectos que essa realidade de lutas sociais em torno e no cenário da Fazenda Sarandi produziu.

Vários estudos se ocuparam dessas questões, dentre os quais podemos mencionar a dissertação da Córdula Eckert, sobre o Master; trabalho do professor Ivaldo Gehlen, sobre o conflito de Nonoai e sua repercussão na Fazenda Sarandi; o livro do professor Telmo Marcon, sobre os desdobramentos desse processo de luta e sua condensação no Acampamento da Encruzilhada Natalino; bem como as várias pesquisas do professor Aldomar Rückert, sobre a região de Sarandi, nos seus processos de territorialização do espaço agrário e nas múltiplas formas de organização do trabalho e da propriedade da terra. Não temos dúvida de que são todos materiais que (somados a outros) problematizam essa realidade de luta e de tentativas de camponeses de alterar o quadro fundiário regional, buscando democratizar, pelo menos em parte, o acesso a terra, contemplando os expropriados de uma história agrária regional e, em nível de país, muito pouco ou quase nada edificante.

O presente estudo busca interligar os processos de luta, com esferas de mediação institucional e conjuntural; tenta agrupar processos sociais, envolvendo a questão indígena, as formas de apropriação da terra, as mediações do Estado, de lideranças partidárias e da esfera religiosa e o feixe de trajetórias que culminou com a organização camponesa, na Encruzilhada Natalino, no início da década de 1980; propõe-se, também, analisar, ainda que de forma sintética, a importância e/ou o papel que tiveram certas lideranças políticas na organização e apoio aos sem-terra, suas ações, discursos, utopias e as contraposições ou oposições enfrentadas pelas mesmas. Neste particular, fazemos uma reflexão sobre as mudanças ocorridas na forma de pensar e de enfrentamento do problema da falta de terra ao longo do período pesquisado de 20 anos.

Buscamos reconstituir e problematizar algumas fontes, principalmente de jornais; trouxemos algumas vozes representativas da situação de luta na Fazenda Sarandi. Nossa intenção era trazer para o diálogo o máximo possível de depoimentos orais que pudessem, algumas décadas após, racionalizando faros e situações, revelar aspectos pertinentes das ações que se arrolaram.

Enfim, nossa intenção, nesse singelo trabalho, é contribuir com a sistematização de alguns dos processos que envolveram a luta pela terra na região da Fazenda Sarandi, complexificados em torno dessa, mostrando alguns elementos que revelam contradições em torno da organização fundiária regional e a base das lutas sociais pelo acesso à terra que se consolidam algumas décadas posteriores e permanecem até hoje.

 

Rovílio Costa

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

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