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Religião/Igreja/ Teologia/Filosofia |
ESPIRITUALIDADE CRISTÃ |
Urbano Zilles |
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Em meados do século XX, muitos temiam que o processo de
secularização não só minaria as bases da fé, mas também eliminaria o
espaço da religião. Apostava-se na ciência e na técnica como caminho para
a solução de todos os problemas humanos. E tudo indica que o subconsciente
espiritual se vingou. Nunca houve tamanha proliferação religio-sa como na
segunda metade do século XX. Tomou-se consciência não só dos limites da
ciência e da técnica, mas que a religião brota de fontes profundas do
homem. A sociedade ocidental cristã, marcada pela racionalidade científica
e despreocupada de promover o cul-tivo da oração contemplativa, importou
gurus da Índia, do Paquistão e de alhures para ori-entar seus jovens na
busca do contato com o Deus transcendente. Milhares de jovens
uni-versitários procuram “ashams” hindus para exercitar a meditação
transcendental ou se fe-cham nos mosteiros zen-budistas para iniciar-se e
progredir nas fortes experiências extra-sensoriais ou no relacionamento
imediato com Deus. Por outro lado, encontramos em nossa juventude grandes
interrogações: Que significa, por exemplo, o consumo alarmante de
narcóticos? Neste fenômeno complexo certamente há fuga, alienação,
hedonismo. Mas não expressará este fenômeno uma aspira-ção para algo
transcendente? Não será um substitutivo para um vazio
religioso? Nos últimos anos, em alguns ambientes acadêmicos, percebe-se não só
certa va-lorização positiva da religião, mas surge uma revitalização da
vida religiosa, uma recupe-ração do sentido de Deus. Entre os cristãos
podemos exemplificar com o movimento de oração carismática. Ensaiam-se
muitas formas, estilos e métodos para avançar na experiên-cia de Deus. Há,
sem dúvida, uma forte busca do espiritual. Há cerca de três séculos, a palavra espiritualidade passou a ser
muito usada no Ocidente cristão. Mas, quando se indaga pelo significado
constatamos que este é vago, como é vago o significado da palavra
espírito, que lhe deu origem. Ocorre um processo semelhante ao desgaste de
moedas em circulação durante muito tempo, que falsificadores facilmente
substituem e multiplicam. Quando se indaga a filósofos e teólogos “o que é espiritualidade?” as respostas são evasivas ou vagas. Parece uma daquelas palavras que todo o mundo pode usar sem medo de equivocar-se. Desta maneira, por um lado, encontramo-nos diante de uma reali-dade difícil de definir e, por outro, difícil de excluir do vocabulário. 1 – Conceituação de espiritualidade Para os filósofos, em geral, trata-se mais de uma qualidade que de
uma entida-de. Contrapõe-se à materialidade. Refere-se a uma qualidade que
transcende toda materia-lidade. Assim Deus, os anjos, a alma, são exemplos
perfeitos de seres espirituais. Neste caso emprega-se espiritual como
negação de material. Espiritual então é a qualidade que convém a seres
situados fora do espaço e do tempo. Via de regra aí pára a eloqüência dos
filósofos. Os teólogos, por sua vez, conhecem diferentes respostas. Alguns
repetem mais ou menos os filósofos. Outros se referem aos escritos e aos
ensinamentos da teologia. Re-correm, então, ao binômio da ascese e da
mística. Para conhecer a história dos tratados de espiritualidade, é preciso
voltar ao sé-culo XVI. Naquela época, os “espirituais”, desejosos de
ampliar seu público e fazer-se en-tendidos pelos leigos, abandonaram a
linguagem aristotélica e tentaram expressar-se na linguagem popular.
Alguns textos de S. Paulo estimularam certa liberdade em relação a uma
espiritualidade por demais especulativa, pois, “o homem dotado de espírito
pode exa-minar todas as coisas, mas ele não pode ser examinado por
ninguém” (1 Cor 2, 15). De acordo com Blaise Pascal, “honram devidamente à
natureza aqueles que se convencem de que esta pode falar de tudo,
inclusive de teologia”. Ora, se o homem caído foi resgatado pelo
sacrifício de Cristo, agora se encontra numa situação melhor que na
“natureza pura”. O Verbo de Deus, fazendo-se homem, integrou-se na
humanidade, nela permanecendo misteriosamente, podendo Pascal afirmar que
“o homem supera infinitamente o homem”. Por vezes o termo espiritualidade foi extraído de uma filosofia,
ideologia ou síntese doutrinal: espiritualidade judaica, espiritualidade
cristã, a ortodoxa, a protestante e até a marxista... Algumas vezes
recorreu-se à espiritualidade para designar a reivindicação de homens que
se negavam identificar-se com meras máquinas: espiritualidade do trabalho,
dos doentes, dos médicos, da ação católica. Outras vezes designa uma
demanda religiosa: a espiritualidade dos sacerdotes diocesanos, dos
leigos... Mais complexo torna-se o termo quando empregado para designar a
identidade religiosa de confrarias, ordens, congregações e institutos ou
movimentos leigos. Quer mos-trar-se que tais comunidades ou coletividades
situam-se numa ordem diferente, como dizia Pascal, na ordem do “coração
que sente a Deus” (Pensées, 424). Todos e cada um queriam ser memória viva
dos “estados de Jesus” e portadores do espírito de Jesus. Na ordem
efê-mera das coisas visíveis queriam sinalizar a ordem invisível e
intemporal graças à sua ade-são à inspiração religiosa de seu fundador. A
espiritualidade de um instituto religioso su-punha, pois, uma maneira de
ser fiel ao Espírito de Deus vivo na Igreja, um modo humano-divino de ser
seu intermediário e de secundar a obra de regeneração do
mundo. Se examinarmos os múltiplos usos da palavra “espiritualidade” podemos encon-trar o sentido fundamental da espiritualidade cristã e situá-la no contexto da revelação. Para o judeu-cristianismo, a palavra espírito, da qual deriva espiritualidade, não designa espírito do homem, mas o Espírito de Deus, o Espírito Santo. Quando a Bíblia fala do espí-rito do homem refere-se não a uma parte do homem, mas ao todo em sua relação com Deus. Desta maneira, a espiritualidade não é a exclusão da materialidade, mas a relação ou união do homem todo – corpo e alma – com o Espírito de Deus. 2 – Conceito cristão Sob certo aspecto, a espiritualidade é o lado subjetivo da
religião. Para o cris-tão, a espiritualidade não se reduz à interioridade
da pessoa, nem ao sentimento (Schleier-macker) ou à necessidade subjetiva
(modernismo). Relaciona, antes de mais nada, o ho-mem finito com a
realidade divina, com Deus que se revela na obra da criação e no misté-rio
de Cristo. O conceito de espiritualidade é moderno, não se encontrando como
tal nos anti-gos. Estes preferiam falar de teologia espiritual, de ascese
e de mística ou, simplesmente, de vida cristã e evangélica. Chegaram até
nós alguns escritos, como a Didaqué, o Pastor de Hermas e outros que
espelham a vida espiritual vivida nas comunidades. A Didaqué des-creve as
práticas de jejuns, orações e obras. A Carta de Barnabé apresenta uma
espirituali-dade do batismo e aconselha que o cristão não trabalhe pela
salvação na tristeza, mas é filho da alegria (4, 11). Todos esses textos
judaico-cristãos, em particular a Didaqué, acen-tuam a escatologia, que
polariza toda a vida espiritual. Em Inácio de Antioquia, a vida espiritual realiza-se na igreja, nas
assembléias, lugar das orações, na eucaristia. Na vida individual, a
espiritualidade consiste em revestir-se de Cristo, de sua paixão, morte e
ressurreição. O martírio parece-lhe o caminho mais curto para encontrar
Cristo. A Carta a Diogneto mostra a ação dos cristãos no mundo: “os
cristãos são a alma do mundo” (6). Na literatura apócrifa encontramos a
irrupção da redenção no mundo através de Cristo, recuperação universal do
cosmo pela ressurreição e exaltação da
mulher-virgem. No século III dois centros principais, apesar das perseguições,
brilham: Alexan-dria e Cartago. As comunidades vivem unidas. Tertuliano
desenvolve temas espirituais: batismo, oração, martírio, castidade, etc.
Cipriano reflete sobre a Igreja una, a oração, o martírio, a vigilância.
Clemente convida à imitação de Cristo. Mas o mais influente torna-se
Orígenes para a vida espiritual. Centra sua espiritualidade na presença de
Deus e de Cristo na Escritura, na Igreja e no
cristão. No período entre o concílio de Nicéia (325) e o de Constantinopla
(381), passa-das as grandes perseguições, a espiritualidade concentra-se
no convite à conversão e à fé através da vida evangélica. S. Agostinho,
com sua teologia da graça, sua Regra para os religiosos, seu itinerário
para Deus, exerceu influência na Idade Média até nossos
dias. A experiência do renascimento no Espírito de Verdade e de Amor,
leva os es-critos paulinos e joaninos a intuir não só a pessoa do Espírito
Santo na Trindade, mas tam-bém a espiritualidade da existência cristã,
seja do indivíduo, da comunidade e da Igreja. Assim, desde S.
Paulo, pneumátikós torna-se o termo técnico para a existência
cristã (1 Cor 2, 13; 9, 11; 14, 1). O
adjetivo spiritualis designa o coração da existência cristã. O substantivo
correspondente, espiritualidade, expressa o aspecto formal da estrutura
central da vida cristã para designar a relação pessoal do homem com
Deus. A espiritualidade cristã enraíza-se no acontecimento da revelação
de Deus e da concretização histórica da revelação em Jesus Cristo como na
tradição da Igreja. S. Paulo já teve que frear um entusiasmo mal-entendido
dos dons do Espírito Santo na comunidade de Corinto. A busca
do extraordinário e milagroso permanece a tentação através dos tem-pos e
já conta com a advertência de Jesus (Mt 16, 1-4). Por outro lado, não é
menor a ten-tação de identificar ministérios e normas com espiritualidade.
Há uma tensão autêntica entre ministério hierárquico e carisma. S.
Francisco de Assis, em seu movimento entusiás-tico de pobreza, sofreu as
limitações impostas pela hierarquia. Muitas iniciativas autênticas da
espiritualidade cristã, quem sabe, foram banidas e se estabeleceram fora
da Igreja. Existem desvios ou pseudoespiritualidades. Por exemplo, a tentativa
de reduzir filosoficamente a espiritualidade ao estritamente racional ou à
psiqué dos psicólogos. Se admitimos um subconsciente psíquico não temos
porque não admitir um subconsciente espiritual. A realização humana global
não se reduz ao saber racional. Também o dualismo – corpo e alma – cedo
teve influência negativa na espiritualidade cristã, sobretudo certo
menosprezo do material. Podemos resumir, dizendo que a espiritualidade cristã tem algumas
característi-cas essenciais: a) É teocêntrica. Não se trata apenas de uma
satisfação subjetiva, nem somente da salvação da alma, mas da entrega a
Deus, a seu amor. Em síntese, podemos dizer que espiritualidade cristã é a dimensão
do mistério das verdades objetivas da doutrina traduzidas para a vida
cotidiana. A espiritualidade vivi-da transcende a univocidade dos
conceitos e não se identifica com espiritualismo, muito menos com
espiritismo. Todas as religiões têm sua espiritualidade e mística. O pensador
francês H. Bergson dizia que uma religião sem mística não passa de
ideologia. Aqui nos limitaremos ao cristianismo. Se o Espírito de Deus é um, num primeiro momento, podemos dizer que
só há uma espiritualidade. Todos na Igreja são chamados à santidade,
embora esta se exprima de vários modos (LG 5 ,39). Cristo pregou o mesmo
Evangelho a todos, enviou o mesmo Es-pírito Santo. Todos são chamados ao
seguimento de Cristo, à oração, aos sacramentos, à
caridade.
Mas, sendo uma, a espiritualidade também é múltipla, segundo a
condição do sujeito, segundo seu carisma, os dons da natureza e da graça,
a vocação de cada um. O concílio Vaticano II fala dos “vários gêneros e
ocupações de vida”: os pastores, os presbí-teros, os clérigos, os esposos,
pessoas viúvas ou celibatárias etc. (LG, V, 41). Reconhece lugar
importante, na Igreja, às almas consagradas pela Perfeição dos Conselhos
Evangéli-cos. Mas o critério de santidade é o mesmo para todos: a
caridade. A espiritualidade não é um estado, mas uma forma de viver a fé
cristã a partir de um impulso da graça para participar da vida divina na
peregrinação terrestre, pois a con-sumação só terá lugar quando Deus será
tudo em todos (1 Cor 15, 28). A vida nova do ho-mem exige algo mais que
uma descomprometida adesão intelectual a Deus. Requer uma adesão de todo
seu ser, uma entrega total a Deus. O Evangelho possibilita uma
transforma-ção através da renúncia, obediência até a morte na cruz,
ressurreição e elevação, esvazian-do-se de si mesmo e enchendo-se de Jesus
Cristo. Por outro lado, a vivência do evangelho pressupõe um equilíbrio
emocional das pessoas e não elimina a responsabilidade perante a razão. A
imersão na água do batismo simboliza a ação da morte e sepultura com
Cristo e a emersão simboliza a ressurreição e a vida
nova. A transformação cristã não se realiza à maneira dos estóicos
através de uma a-ção solitária para conquistar a santidade através do
próprio esforço. No batismo e na cris-ma recebemos a seiva do Espírito de
Cristo e de sua graça. O Espírito Santo, habitando em nós, concede-nos as
inclinações e disposições para seguir Jesus Cristo. Independentemente das
formas e variedades dos meios propostos pelas diferentes escolas de
espiritualidade, o objetivo único e invariável é a união com Deus já aqui
na terra como preparação à união definitiva no
além. Para evitar um palavrório vazio sobre espiritualidade cristã, pois
esta pode tanto evocar e proteger uma presença misteriosa e indefinível
como desviar nossa atenção dessa presença, cabe perguntar: Como viver em
Cristo e no Espírito, sendo Cristo, para nós, o caminho, a verdade e a
vida? (Jo 14, 6). A existência visível, por maior que seja sua
fasci-nação, é temporal e provisória enquanto a existência no Espírito e
em Cristo, embora ocul-ta, é eterna (2 Cor 4, 18). Através de que sinais,
de que critérios, o cristão pode sentir-se seguro da presença nele da
Santíssima Trindade, que transcende toda investigação sensível e é
inacessível à inteligência humana imersa na matéria? Como o cristão pode
avaliar, ain-da que de maneira aproximada, suas atividades passadas e
assim garantir uma melhor ori-entação para seu futuro? O certo é que a
espiritualidade, reduzida a uma sedimentação em conceitos e em doutrina,
pode permanecer alheia à verdadeira vida. A verdadeira vida não se
descreve, experimenta-se, vive-se. Através da história da Igreja apareceram várias escolas de
espiritualidade. No essencial coincidem, pois propõem o seguimento a
Cristo. Entretanto se distinguem nos meios especiais e modos de
santificação. Assim os cristãos, no início de nossa era, tinham o desejo
de imitar Cristo no martírio. Acabadas as perseguições, o novo ideal passa
a ser o ascetismo e a virgindade. Claro, por exageros e falta de
orientação houve desvios e erros. Na idade patrística, a mística cristã é caracterizada pela
conjunção de uma con-cepção teológico-ontológica e
psicológico-experimental. Caso típico é “mística do logos”. Encontramo-la
em Orígenes. A vida ascética, com a finalidade de conseguir a indiferença
às paixões, é vista como condição indispensável para a contemplação
mística e a união com Deus. O centro da mística cristã, nesta época, é a
humanidade de Cristo. Acentua-se, por vezes, a incognoscibilidade de Deus,
como ocorre em Gregório Nisseno e no Pseudo-Dionísio, e, por conseqüência,
a obscura visão mística (teologia negativa). Logo depois surgiu o monaquismo que se caracterizou pela fuga do
mundo e pela vida contemplativa, seja na vida solitária dos anacoretas ou
na forma de vida comuni-tária dos cenobitas. Assim, surgem os beneditinos,
cuja espiritualidade está resumida no ora et labora. Da ordem beneditina,
na Idade Média, originaram-se varias escolas como Cluny, Claraval e outros
ramos. Trata-se de uma espiritualidade apoiada em três princípios:
trabalho, leitura e oração. Na Idade Média registra-se um paulatino regresso da visão teológica
em favor de uma mais psicológica. Acentua-se sempre mais o elemento
afetivo sobre o intelectual. A mística afetiva do matrimônio espiritual,
da paixão e a do Coração de Jesus vividas por Bernardo de Claraval,
Francisco de Assis, Catarina de Sena expressam uma riqueza da vida mística
medieval. Mas o caráter eclesial empalidece sempre mais. A mística
torna-se uma ocupação de poucos privilegiados. Às vezes é difícil
distinguir a verdadeira mística da simples afetividade. A falta de
preparação teológica, não raro, conduz a um desenfreado sentimentalismo.
S. Francisco de Assis foi um apaixonado de Cristo e de sua
humanidade, ado-tando o “evangelho sem glosa”, o desprendimento das
criaturas pela dama “pobreza”. S. Domingos descobriu o caráter dinâmico da
Verdade que tinha que ser vivida e anunciada. As alturas do Carmelo
ofereciam à alma separada do mundo a perfeita contemplação de Deus sob o
olhar de Maria: S. João da Cruz, S. Teresa. Sto. Inácio de Loyola,
sintetizando escolas anteriores, levado pelo lema “para a maior glória de
Deus”, cria a mística do servi-ço à Igreja, fundando a ordem dos jesuítas,
formada por homens temperados na ascética dos Exercícios (retiro). Mas a
espiritualidade de cada escola transcende as mesmas, encon-trando seus
adeptos entre os leigos. Na Idade Moderna, Teresa d’Ávila aperfeiçoou a descrição psicológica da ex-periência mística. Distingue sete “moradas” ou degraus da subida mística, dos quais os três primeiros servem de preparação à experiência de Deus que se desenvolve nos quatro se-guintes. Caminho semelhante segue S. João da Cruz, com base mais teológica. 4 – Espiritualidade e mística O vocábulo místico aparece no século V a.C. (Ésquilo, Sófocles,
Heródoto) sig-nificando algo concernente aos mistérios. No platonismo e no
gnosticismo deixou de se referir à relação cultual com a divindade para
significar o fundamento divino do ser do mundo, escondido e velado nos
ritos, nos mitos e nos símbolos, acessível somente a quem é capaz de um
tal tipo de conhecimento. No século V d.C., o teólogo cristão Pseudo-Dionísio usa a palavra
teologia mís-tica no sentido de doutrina da subida aos degraus mais altos
da experiência de Deus e da íntima união com Ele. O termo relaciona-se com
o mistério, indicando um movimento para um “objeto” que está além dos
limites da experiência empírica. A mística cristã relaciona-se com o
“mistério” de Cristo. Para os padres gregos, a partir do século IV, a perfeição cristã
parece coincidir com a theoria ou contemplação. Segundo Platão (Rep. IV,
532c) esta vê “aquilo que de mais alto existe nos seres”, a “beleza
divina”, e nisto está o puro inteligível. Desta maneira, os contemplativos
cristãos encontram-se diante do difícil problema: a experiência de Deus
deve ser posta unicamente no plano intelectual ou se deve, ao invés,
postular um contato direto com Ele, fora de toda mediação, seja ela
conceito ou imagem. Mas a realidade “espi-ritual” não se pode identificar
com a realidade “intelectual” dos gregos, pois é
mística. Há diferença entre espiritualidade e mística, mas muitas vezes os
dois termos são usados como sinônimos. Usa-se o termo mística para
designar a experiência íntima de uma realidade transcendente, a vivência
de ideologias fortemente arraigadas e absorventes ou, no que nos
interessa, a comunhão com Deus que o homem julga conseguir mediante seu
esforço (prática generalizada entre as religiões orientais) ou por
condescendência de Deus (concepção judaico-cristã). Segundo os próprios
místicos, a experiência mística tem caráter repentino e breve do instante
necessário para esta experiência. Tal pode ser um êx-tase, uma saída ou
perda de si mesmo, uma irrupção repentina do Absoluto. Não se trata de um
privilégio de poucos eleitos, mas de um aspecto e de um fruto da fé e do
amor-divino, dado por Deus. A causa imediata da experiência mística de fé
é o Espírito Santo. Seus ca-rismas permitem-nos experimentar o amor de
Deus e de Cristo como uma luz, inaugurando uma nova esperança, garantindo
um novo modo de existir. Os dons do espírito são conce-didos a cada um.
Ninguém recebe todos, mas cada um recebe alguns. É a diversidade de dons
que enriquece a vida em comunidade. Em 1910 o grande escritor francês Peguy declarou: “Tudo começa pela
mística e termina na política” (Notre Jeunesse). O místico parece ver e
perceber o que os demais não vêem nem percebem. Os termos místico, mistificação, misticismo e mística cedo foram
despojados de sua raiz religiosa. A mística existe antes e fora do
cristianismo. A palavra mística, entretan-to, não se encontra na Sagrada
Escritura. Há, por isso, no Ocidente, toda uma Teologia mística
desvinculada da revelação, que é uma teoria filosófica ou
psicológico-religiosa na qual se descrevem as etapas necessárias para
chegar a certa união com Deus. Mas quem é este Deus? O organizador do
mundo, o demiurgo ou o Deus de Abraão, de Isaac e de
Jacó? O que a revelação cristã nos dá a conhecer de Deus e do homem é
muito distin-to do que nos apresentam Platão e Aristóteles. Acaso alguém
amou o deus de Aristóteles ou rezou a ele? Certamente na Sagrada Escritura, embora não ocorra a palavra
mística, há um impulso místico que arrasta o povo de Deus. Mas este Deus
não se parece com nenhum outro. Israel sabe isso, sente isso, pois nenhum
deus lhe é tão próximo nem tão forte como o Deus de Israel. Os profetas de
Israel, começando por Moisés, foram surpreendidos pela irrupção de Deus em
sua vida. A presença de Deus está cercada, nos profetas de Israel, de uma
obscuridade impenetrável. Os profetas não encontram linguagem para
expressar o inefável de sua expe-riência de Deus. Moisés declara: “Pobre
de mim, Senhor! Nunca fui bom orador, nem an-tes, nem agora que falas a
teu servo. A minha pronúncia e a minha fala são pesadas” (Ex 4, 10).
Jeremias clama: “Senhor Javé, não sei falar, pois sou um menino” (Jer 1,
6). Cristo resume os grandes profetas em sua
pessoa. Para os cristãos, os místicos autênticos são os que vivem de Deus pela fé e a graça. Cristo é a manifestação visível e palpável do amor do Pai aos homens. Por isso diz: “Quem me ama, será amado pelo Pai e eu o amarei e a ele manifestar-me-ei” (Jo 14,21). No amor de Cristo estamos em comunhão com Ele. A mística cristã é a experiência do amor de Cristo crucificado e ressuscitado que supera todo o conhecimento, pois é a experi-ência do imenso amor do Pai. S. Paulo considera a experiência da fé característica da mís-tica cristã, pois inclui fundamentalmente a união com Cristo, que entregou sua vida por amor. Limitar o objeto da mística aos fenômenos extraordinários é inadmissível, pois o conhecimento de Deus e a comunhão com Ele no mais elevado grau não necessitam dessas manifestações. A mística de S. Paulo tem sua raiz sacramental no batismo (Rm 6, 3-11) e na Eucaristia. Tem seu caráter social, a sua orientação para o “Corpo de Cristo”, isto é, para a comunidade dos irmãos. Conclusão As afirmações bíblicas sobre a experiência de Deus e de Cristo, que
chamamos místicas, evoluíram na história da piedade cristã nos seus
diversos elementos. Esta evolu-ção é, até certo ponto, um reflexo das
concepções teológico-filosóficas de uma determina-da
época. A nova imagem do homem impede-nos de reduzir espiritualidade à
interioriza-ção. A indissociabilidade de querer (vontade) e saber
(ciência) humanos com fatores pré-pessoais e sociais leva-nos a desconfiar
de dados puramente interiores. A tendência mo-derna da objetividade deverá
indicar-nos o caminho para a realidade da revelação.
Não podemos ignorar, outrossim, a nova imagem de cosmo. Cada vez
mais a ta-refa do homem se desloca do conhecimento para a transformação do
mundo. A visão de um Teilhard de Chardin do encontro com Deus na ação
parece distante do tema tradicional da contemplatio x
actio. Também a imagem da sociedade mudou. A vinculação da consciência
religiosa individual à sociedade manifesta-se no diálogo com o marxismo e
postula o retorno ao tema bíblico do engajamento social da fé cristã. Hoje
a tradição judaico-cristã está em con-fronto ou diálogo com outras
tradições. Espiritualidade e mística são caminhos para Cristo. Não são metas,
mas meios de perfeição cristã com diferentes métodos de vida. Todas as
diferentes escolas de espiri-tualidade e mística cristãs concordam
no essencial, reconhecendo Cristo como Mestre. Distinguem-se pela
acentuação de uma ou de outra faceta no seguimento a Cristo em rela-ção à
qual são iluminados os demais aspectos da vida
cristã. Espiritualidade e mística proporcionam sentido transcendente à vida
passageira. Deus é, antes de mais nada, este sentido. Com isso
espiritualidade e mística fazem bem não só à vida da mente mas também à do
corpo, garantindo equilíbrio existencial ao homem. |
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