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Religião/Igreja/ Teologia/Filosofia |
éTICA E FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO |
Urbano Zilles |
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No livro X das Leis, Platão afirmou: A religião foi considerada por todos os homens, em todos os tempos, como o fundamento indestrutível das sociedades humanas. A concepção de uma sociedade fundada na religião apresenta-se ainda hoje como uma das alternativas para os restauradores da ordem social e política. Mas há também outras alternativas. Nas sociedades contemporâneas, tenta-se construir uma concepção de
sociedade democrática como sociedade baseada na idéia de justiça, que se
apóia no núcleo da consciência moral coletiva. Essa concepção precisou-se
mais, durante as últimas décadas, através de filósofos políticos,
destacando-se Jürgen Habermas e John Rawls. Mas ambos apresentam
restrições importantes a essa complexa sociedade em transição. Afirmam que
uma moral pública, fundada numa ética universalista, deve renunciar
expressamente a impor uma única concepção ontológica, metafísica ou
científica do mundo e, conseqüentemente, uma única concepção antropológica
ou religiosa do ser humano como base de seus
preceitos. Segundo os autores citados, é impossível estabelecer uma moral
pública sustentada por uma concepção universalmente compartilhada da vida
feliz. O que se pode conseguir é a regulação procedimental das interações
sociais, que asseguram a igualdade de todos os membros da comunidade moral
e a garantia de usufruir aquelas oportunidades mínimas, para que cada um
encontre o caminho de auto-realização livremente escolhido. Encontramo-nos, pois, diante da alternativa de construir uma
sociedade de acordo com uma postulada ética universal, baseada na razão e
no consenso humano, ou sobre uma moral fundada em Deus, através das
leituras que as religiões fazem de suas Sagradas Escrituras e tradições.
Será que essa alternativa é bem-fundamentada? As duas posições
necessariamente se excluem? Entre as diferentes maneiras de leitura
religiosa o fundamentalismo é uma. Nesse contexto, primeiro perguntamos: o que entendemos por moral ou ética? O que entendemos por fundamentalismo religioso? 1 – Conceituação a) Ética Antes de mais nada, cabe esclarecer alguns termos usados nesta
abordagem. As palavras ética (éthos), derivada do grego, e moral (mores),
derivada do latim, a rigor, têm a mesma etimologia. Ambas, entretanto, são
entendidas de diferentes maneiras, sempre referentes à conduta e ao agir
humanos. Antes da moral filosófica existe a moral vivida. As ciências
humanas que estudam o comportamento humano, como a sociologia e
psicologia, de modo algum substituem a ética ou
moral. Para alguns autores, é fundamental distinguir ética e moral. Por
ética entendem a análise da dimensão pessoal da ação, mostrando o modo
como o agir surge da própria interioridade da pessoa que age. A moral, por
sua vez, considera o agir na sua relação com a
lei. Os dois termos, para nós, abrangem as mesmas áreas de problemas, embora a ética se proponha o nível da fundamentação da lei e da moral e a moral se ocupe mais do campo da lei e da regra.
a) um
sistema de obrigações intersubjetivas. Considera-se, então, imoral uma
ação que transgride as normas consideradas intersubjetivamemte
válidas; b) um
comportamento altruísta. Este pode fazer parte de um sistema, mas existem
ações altruístas que não são normativas. Pode funcionar por simpatia,
compaixão e não só por normas; c) qualquer
coisa que uma pessoa crê dever fazer, como deve viver. A palavra moral
pode ter o sentido de dever, no sentido de uma obrigação. Neste
significado em geral se usa a palavra ética. Quando
usamos a palavra moral, geralmente, designamos aquelas regularidades do
comportamento que se baseiam na pressão social. Nesse sentido, a moral é
um sistema de exigências recíprocas. É bom o membro de uma sociedade
moral, quando ele se comporta como os membros o exigem mutuamente uns dos
outros; é mau, quando transgride tais normas. A
moral é um sistema de normas que restringe ou condiciona a liberdade dos
membros da sociedade. É um peso que nos impomos mutuamente uns aos outros.
Por isso tais normas somente são aceitas quando justificadas. Aceitar um
sistema de normas é dispor-se a observá-las. A aceitação implica uma
atitude, não apenas racional, mas também afetiva. Segundo
E. Tugendhat, somente existem dois tipos de justificação recíproca de
normas: o religioso e o relacionado aos interesses dos membros da
sociedade. O religioso pode ser denominado de justificação vertical ou
autoritária, e o segundo de justificação horizontal. Diz Tugendhat: “Em
todas as sociedades tradicionais, a justificação era vertical.
Nietzsche e Dostoiewski pensavam que, quando a justificação vertical se
torna impossível, a moral simplesmente não é justificável e muitos pensam
assim ainda hoje” (p. 17). Certamente
a justificação religiosa pode conduzir para além de si mesma, pois a
justificação feita só de maneira autoritária pode não convencer. Pode
perguntar-se: as normas são boas, porque Deus as promulgou, ou Deus as
promulgou, porque são boas? No segundo caso, a justificação vertical
conduz de per si à justificação horizontal. Se, por um lado, não faltam aqueles que pensam que não mais se pode justificar religiosamente a moral, há, por outro, aqueles que só admitem a justificação religiosa. Essa última facilmente se associa a um fundamentalismo religioso, que não é privilégio do judaísmo e do islamismo. Ocorre também no cristianismo, em grupos mais ou menos piedosos, os quais fundamentam nas Sagradas Escrituras radicalismos puritanos para justificar excessos e desequilíbrios, que a Igreja católica muitas vezes condenou. É verdade que os exageros encontram menos resistência nos meios eclesiásticos porque, não raro, são considerados pouco prejudiciais. b) O fundamentalismo religioso O conceito de fundamentalismo deriva de fundamento. Sem bom
fundamento nenhum edifício fica de pé por muito tempo. Uma argumentação
sem fundamento é inconsistente. Buscamos o fundamento de nossa existência.
Nesse sentido, todos somos fundamentalistas. O termo fundamentalismo, no campo religioso, é recente, mas a
postura fundamentalista é antiga. Durante a 1a. Guerra Mundial, nos
Estados Unidos, surgiu uma corrente teológica de origem protestante que
admite apenas o sentido literal das Escrituras, opondo-se a toda
interpretação histórico-crítica e identificando-se com um conservadorismo.
Essa corrente passou a ser chamada fundamentalista. Dessa maneira, o termo
fundamentalismo, no campo religioso, passou a ser associado a ortodoxo ou
conservador. Essa tendência marcou, inicialmente, certas denominações
protestantes. O movimento não é unitário, mas atinge certos setores que
pretendem defender e conservar os elementos “fundamentais” da fé cristã.
Por isso, o fundamentalismo encontra-se dentro das mais diversas
denominações. Mas algumas Igrejas podem ser consideradas, pela sua posição
oficial, de tendência mais fundamentalista. Aparentemente, a Igreja
católica deveria estar menos afetada por essa tendência pelo papel que
nela ocupa o Magistério. Mas nela também ocorrem manifestações
fundamentalistas, acentuando exageradamente a autoridade do
Papa. Quando, no cristianismo, se esquecem idéias centrais do Evangelho,
como o ensinamento do amor e a reconciliação, ou se as marginalizam, ele
também se expõe facilmente ao fundamentalismo farisaico, tão criticado por
Jesus, de contentar-se com a observância de leis e ritos ou então degenera
em espiritualismos alienados. No centro do fundamentalismo americano, no início do século XX,
está o conceito da infalibilidade da Bíblia, considerada como fonte
absolutamente autorizada e digna de total confiança para o correto
conhecimento de Deus e de sua ação no mundo. Nessa perspectiva, o
fundamentalismo se opôs à teoria evolutiva de Darwin por não estar de
acordo com a narrativa literal da criação no
Gênese. O fundamentalismo originado nos Estados Unidos, em círculos
protestantes, pregava, pois, a interpretação literal da Bíblia em oposição
a tendências modernistas. A polêmica entre fundamentalistas chegou ao
auge, quando, em 1925, um professor do Tennessee, J. T. Scopes, foi
processado (processo dos macacos), por ensinar teorias evolucionistas.
Para defender a fé no criacionismo, numa fidelidade intransigente à
interpretação literal da Bíblia, os fundamentalistas fecham-se ao diálogo
com novos problemas e, por outro lado, tomam a letra da Bíblia como
palavra pura de Deus. Com isso criam um chão fértil para fanatismos e
radicalismos. Por fanáticas entendemos aquelas pessoas que se tornam escravas de
suas próprias idéias, não muitas e geralmente pobres. Por isso o fanático
torna-se incapaz de verdadeiro diálogo, pois nega, condena ou tenta
destruir tudo que questiona ou contraria suas
idéias. O fundamentalismo americano, reagindo a tendências liberais e
modernistas, entre 1910-12, publicou uma obra em 12 volumes sob o título
The fundamentals: A testimony to the Truth, com uma primeira edição de um
milhão de exemplares. Assim obteve influência significativa. Contra a
aceitação do pensamento científico na exegese bíblica, responsabilizado
pela descristianização da vida, os fundamentalistas defendem a fé na
inspiração verbal da Sagrada Escritura e a infalibilidade de todas as suas
afirmações, entre outras coisas, também sobre a concepção virginal de
Maria. Depois da 1a. Guerra, houve um renascer fundamentalista que se
expandiu para a Europa e para as jovens igrejas em terras de missões. Em
1919, foi fundada a World’s Christian Fundamental Association. No fundo,
trata-se de um movimento ao qual faltou a capacidade de assimilar
teologicamente as novas conquistas da ciência e libertar a revelação de
seus condicionamentos histórico-culturais. Isso trouxe conflitos terríveis
para o protestantismo e, muitas vezes, foram associados a sentimentos
anti-semitas e anticomunistas. Em 1952, os protestos contra a tradução da
Bíblia, Revised Standard Version, mostraram que o fundamentalismo ainda
estava vivo. Enfim, o fundamentalismo nasce como emergência de uma atitude defensiva, frente a um mundo em transformações profundas, tanto nos aspectos técnicos e econômicos, como sociais, culturais e religiosos. Provocado entre os protestantes, significa uma reação contra tendências muito fortes chamadas de liberalismo, e suas posições tornaram-se radicais. Em geral, o fundamentalismo ainda se associa a um rigorismo moral. Aparece sob diversas formas, como o tradicionalismo, que escolhe um momento da tradição, absolutizando-o e fazendo-o norma para a Igreja e a Teologia. 2 – Ética e fundamentalismo religioso Relacionar os dois temas significa indagar por um critério
orientador na conduta humana em comunidade. Cada pessoa sempre se encontra
diante da pergunta do que deve fazer ou deixar de fazer em determinadas
situações. Cada pessoa também faz a experiência de que fez algo que não
deveria ter feito. Cada pessoa julga sua própria conduta e a de outros,
segundo critérios. A ética torna-se problema onde e quando as evidências se tornam
questionáveis. A reflexão sobre o que é bom ou mau, certo ou errado,
inicia quando encontramos respostas contraditórias sobre o que devemos
fazer ou deixar de fazer. A ética é o esforço racional de encontrar
critérios gerais válidos para medir e julgar nossas ações e formas de
vida. Se, por um lado, a ética visa critérios universais, por outro, deve
reconhecer que, no contexto ético, a instância última não é uma razão
universal abstrata, mas o sujeito agente ou a consciência. Esta é sinal e
expressão da dignidade do homem. A consciência torna o homem capaz de
reconhecer o bom e o mau e agir de acordo, assumindo a responsabilidade
por suas ações. A dignidade humana designa, pois, o homem em sua
subjetividade ética como ser livre para autodeterminar-se. A consciência,
como expressão da dignidade humana, coloca-nos, não só diante da
responsabilidade perante a própria consciência, mas também de como nos
comportamos perante a consciência dos outros. Todos, também o Estado,
devem respeitar a liberdade de consciência. Esse respeito, entretanto, não
obriga a aceitar tudo, porque alguém apela para sua liberdade de
consciência. Impedir alguém de matar outro não seria agir contra a
liberdade de consciência. Se, em última análise, cada pessoa deve seguir sua consciência,
isso não significa que já nascemos com uma consciência pronta. Nossa
consciência constitui-se e se forma no encontro com outras consciências. A
concordância consigo mesmo e suas convicções é uma condição necessária,
mas não suficiente, para determinar o que é eticamente bom, pois a
consciência também pode errar. Quando constatamos que nossa consciência
está errônea devemos tentar esclarecê-la. Para falar em ética, é preciso reconhecer a si e a todos os homens
como seres dotados de razão e liberdade. Tal reconhecimento é o critério
do agir. Isso significa que o homem, como sujeito ético, não é propriedade
de ninguém. Mas se alguém não conhece esse princípio ou não o reconhece,
erra, pois só reconhece a razão e a liberdade para si mesmo. Assim a razão
e a liberdade constituem o último critério de nosso agir, pois algo
manifesta-se como bom, porque reconhece a dignidade do homem em sua pessoa
e na pessoa do outro. O teólogo naturalmente perguntará se a razão e a
liberdade não se fundam em algo que transcende a razão finita.
Tomás de Aquino, em seu tratado sobre a lei (S. Th. I-II, q.
90-97), examina a questão do fundamento e da relação entre mensagem cristã
e ética natural. Primeiro, Tomás de Aquino examina o conceito de lei. Define-a: “Uma
lei não é outra coisa que uma ordenação da razão em vista do bem comum,
proclamada por aquele que tem o cuidado da comunidade”. Essa definição
corresponde à experiência política e vale para leis positivas no campo
civil e eclesiástico. Segundo essa definição, fazem parte da essência da
lei: a) o legislador; b) o bem comum, pois trata-se, não do bem individual, mas da
comunidade; c) a promulgação, pois a lei deve ser conhecida
publicamente; d) a razão. Para Tomás de Aquino, a razão é princípio de ação, regra e critério
da ação humana. Como teólogo, pressupõe que Deus é a origem de todos os
acontecimentos da criação. Por isso estão sob a Providência Divina. Chama
lei eterna a direção universal do mundo pela razão
divina. A idéia da lei eterna implica duas dificuldades. A primeira
relaciona-se com sua definição de lei quanto ao elemento da promulgação.
Como pode ser promulgado o conteúdo da lei eterna, válida para toda a
criação, se o mundo é temporal? Tomás resolve o problema colocando a
promulgação no próprio ato da criação. A segunda é esta: se a Providência Divina dirige o curso do mundo,
então a razão divina também é fundamento e critério das ações humanas. Só
resta submeter-se à lei eterna. E Tomás tira as conseqüências. Para ele,
toda lei humana deve ser derivada da lei divina. Nesse caso, não se
elimina o espaço da autonomia do homem? Para o Aquinate, a lei eterna não é uma grandeza prática, mas
teórica. Deve ser aceita. quando se indaga o agir humano por suas
condições metafísicas. Tomás de Aquino opõe à lei divina a lei natural, como regra
original e fundamental para o homem orientar sua vida. Essa é uma grandeza
prática. Relaciona a lei divina e a lei natural, sendo a última
participação na primeira. A lei natural é a forma pela qual o homem
participa na lei divina. A diferença está na capacidade limitada da razão
humana. A lei eterna é a regra e medida da criação em seu desenvolvimento.
Mas o homem só consegue compreender princípios gerais dessa lei. E aqui a
razão humana deve agir por si mesma para a conduta
concreta. Tomás de Aquino não desenvolveu uma ética teológica que partisse de
uma lei divina. Entende a nova lei antes como “lei da liberdade” e, por
isso, reconhece liberdade a todo o agir que não contraria a fé. Tomás
desenvolve uma ética teológica, que coloca o fiel numa situação
correspondente à da razão natural. Também o fiel deve medir suas
experiências concretas no critério da fé. Mas a fé não substitui a
inteligência. Ainda que a inteligência, na perspectiva teológica, tenha o impulso
da graça, permanece a forma relacionada com a experiência da razão
prática, que dirige e conduz a ação humana. A mensagem cristã, a lei
divina, não suspende a razão prática. A rigor, segundo Tomás de Aquino,
existem duas formas de ação divina na formação do mundo
humano: a) a lei natural como participação do homem na lei
divina; b) a relação histórica concedida ao homem pela vontade
salvífica e a obra redentora de Deus que encontra sua expressão na lei
divina. A segunda pressupõe a primeira. Tomás de Aquino entende a lei
divina como lei da liberdade que abre imenso espaço à responsabilidade e à
criatividade humanas no espaço da fé. Esse é o espaço da razão
prática. As religiões incluem em suas doutrinas orientações e normas de
viver e agir. Algumas acompanham a vida de seus membros até nos detalhes.
Por isso excluem todo o espaço para uma moral não-religiosa e, por isso,
não deixam espaço para uma ética filosófica. Mas isso ocorre, sobretudo,
em visões fundamentalistas. Ao conceito de fundamentalismo, seja religioso, político ou
intelectual, associa-se, antes de tudo, a volta ao passado, vinculando a
consciência humana a princípios e valores tradicionais, perdidos nos
últimos séculos. Manifesta-se como um neotradicionalismo religioso radical
e isso no mundo inteiro. Segundo alguns analistas, o fundamentalismo nasce como uma reação
contra a modernidade (Thomas Meyer, Fundamentalismo: a rebelião contra a
modernidade, Hamburgo, 1989 e Richard Webster, Os herdeiros do ódio,
Frankfurt, 1992). Outros, como Helmut Dubiel (in: Fundamentalismo: Porto
Alegre: Edipucrs, 1995, p. 9-27), tentam mostrar que as correntes
fundamentalistas são genuinamente modernas, “pois elas só podem ser
decifradas com referência aos processos de modernização, que elas
combatem” (p. 10). Se o livro de Meyer confronta o fundamentalismo, no quadro de uma
teoria da modernidade, o de R. Webster foi provocado pela campanha de
solidariedade de intelectuais do Ocidente contra a ordem do aiatolá
Khomeini de matar o escritor Salman Rushdie. Para Meyer, não está em jogo
o confronto entre modernidade ocidental e tradição islâmica, nem entre
fundamentalismo e liberdade. Trata-se de uma guerra, entre duas facções
oriundas de uma mesma tendência religiosa, com as armas
intelectuais. Quando falamos do fundamentalismo islâmico, entendemos, em geral,
uma corrente que defende os valores tradicionais do islamismo e prega a
adoção do Corão como Constituição dos Estados. Atualmente, os
fundamentalistas islâmicos agem, sobretudo na esfera política, algumas
vezes por violência, recorrendo ao “olho por olho e dente por dente”,
caracterizando-se por uma intolerância radical. Desde 1979, quando o aiatolá Khomeini assumiu o poder no Irã, o
fundamentalismo islâmico assumiu novas conotações. Existe não só no Irã, e
é diferenciado, com múltiplas correntes, entre sunitas e xiitas. Em alguns
países árabes, os fundamentalistas estão no poder e, em outros, constituem
uma poderosa oposição. Propõem uma revitalização religiosa. Se, no
passado, o antimodermismo religioso estava restrito aos conhecedores das
Sagradas Escrituras, mais recentemente tornou-se o fermento cultural de um
movimento de massas. O islamismo, fechando-se ao progresso científico das
democracias ocidentais, na sua expressão fundamentalista volta-se
diretamente aos textos sagrados e à tradição religiosa, fundando a vida
política nas mesmas. E muitas vezes recorre à força para eliminar os
inimigos de Alá, através da violência (guerra
santa). Também no judaísmo mais recente constatamos tendências
fundamentalistas. De maneira semelhante aos islâmicos, mostram uma forte
intolerância religiosa e nacional, em nome de uma verdade religiosa
declarada como fundamento da vida política. O fundamentalismo protestante, nos Estados Unidos, é, dentro da
Igreja protestante, uma reação contra o liberalismo, rejeitando o uso das
ciências modernas na exegese bíblica. De maneira semelhante ao fenômeno
fundamentalista no islamismo, o protestante tornou-se politicamente
virulento, quando não conseguiu proibir o ensino do evolucionismo nas
escolas na década de 1920. A partir de 1960, seus representantes lutam
pela proibição do aborto, contra a equiparação das mulheres, o
homossexualismo, etc. No catolicismo não há um movimento com expressão semelhante.
Entretanto, não faltam pequenos grupos, como o do bispo Lefevre, na
França, que se rebelou contra as reformas promovidas pelo Concílio
Vaticano II. Alguns querem ver o movimento leigo da Opus Dei como sendo de
tendência fundamentalista por causa de seu aparente conservadorismo. Mas
trata-se de uma interpretação equivocada, pois a Opus Dei e a Comunione e
Liberazione não só contam com os favores do Papa João Paulo II, mas
desenvolvem um diálogo crítico com as ciências
modernas. Parece insuficiente querer ver e analisar o fenômeno do
fundamentalismo como simples choque entre modernismo e regressão. O que
há, num primeiro momento, é a criação de dois diferentes meios de moral
social, de duas maneiras diferentes de reagir a uma sociedade em vias de
urbanização e industrialização. O fundamentalismo protestante dos Estados
Unidos, no início do século XX, concentra-se na luta contra o ensino do
evolucionismo, defendendo o criacionismo, e contra o uso da crítica
histórica, na leitura e interpretação da Bíblia. Claro, abrange a nova
imagem das cidades com seus bares, motéis, o desenvolvimento de uma moral
sexual permissiva e a mudança do status social da mulher, a elevação do
índice de divórcios, etc. Tudo isso, para os fundamentalistas, é uma
decadência moral da sociedade. Quando o número de crenças religiosas
institucionalizadas aumentou nos Estados Unidos, o papel do Estado
tornou-se cada vez mais neutro no campo religioso. Surgem, todavia,
situações de conflito, na vida prática, quando se trata de questões como o
aborto, o divórcio e a definição de conteúdos
escolares. Por outro lado, constata-se também que nem todas as áreas da vida
moderna podem ser subsumidas ao regime da racionalidade formal. Também a
modernidade tem limites. Embora se busquem fontes imanentes ao mundo, para
legitimar a nova política, e seja irreversível a pluralidade de sistemas
interpretativos seculares e/ou religiosos e a diferenciação de nexos
funcionais da economia, da técnica e da organização burocrática, não se
pode concluir que as fontes de legitimidade da política sejam totalmente
secularizadas. No contexto atual, será difícil querer fundamentar a ética
apenas numa fonte sagrada de legitimidade determinada pela religião,
menosprezando ou neutralizando os nexos funcionais técnicos de maneira
apenas simbólica. A contradição dos fundamentalistas, na sua reação contra
a modernidade, manifesta-se, por exemplo, no uso desinibido dos modernos
meios de comunicação de massa. Desde a década de 1960, surge o fenômeno
religioso com o uso de TV. É um movimento de massas sem preocupação de
criar comunidades. Esses movimentos foram chamados de “igrejas
eletrônicas”. Em geral vendem um produto fundamentalista em forma de
shows, com o objetivo de obter muitas doações. Como superar o choque entre o fundamentalismo tecnocrático e o
fundamentalismo religioso? As democracias ocidentais caracterizam-se por um pluralismo nas
suas redes de instaurações de sentido. Distanciam-se sempre mais da
possibilidade de eliminar conflitos, e a esperança dos fundamentalistas de
um consenso tradicional unitário, em escala mundial, que reintegre a
sociedade, evidencia-se como ilusão. Nas sociedades atuais, nas quais a pluralidade de formas de vida e a relatividade social da própria religião e do próprio interesse tornaram-se parte integrante da experiência cotidiana, será difícil a integração das religiões por semelhanças entre si. Tudo indica que as brigas, que dividem essa sociedade, em torno de questões, como a distribuição de bens, a ecologia ou a questão dos sexos, permanecem sem perspectivas de solução. Da mesma maneira, não se pode esperar um consenso universal de uma ética fundada verticalmente. É preciso ponderar sempre mais a dimensão horizontal, o que a rigor me parece uma conseqüência da maneira como no catolicismo se relacionam fé e razão. Não mais se pode querer eliminar simplesmente o diferente, pois ele pode enriquecer a convivência. Em outras palavras, para superar os fundamentalismos, o caminho parece ser o da tolerância mútua e do diálogo respeitoso. 3 – Fundamentalismo e teologia católica O fenômeno do fundamentalismo religioso tem suas raízes num
processo de transformações rápidas que atingiram nossa existência,
trazendo-nos muitas incertezas. Por isso é um fenômeno de crise. O
problema central não são questões de conteúdo, mas o interesse formal do
homem por um apoio ou fundamento sólido que o suporte na vida e na morte.
Essa necessidade fundamental não se discute. Quando Nicolau de Cusa, um dos grandes pensadores do século XV, em
suas reflexões filosóficas, manifestou a convicção de que a Terra não
poderia ser o centro do Universo, isso deixou de ser uma idéia qualquer,
quando Copérnico e Galileu elaboraram a prova. Era o desenraizamento total
do homem. Restou o medo que, desde então, determina o sentimento
existencial e a consciência do homem. A questão decisiva é saber onde encontrar um apoio firme. Trata-se
do problema central da verdade absoluta do cristianismo. Diz–se que o
cristianismo só pode ser verdade de Deus e oferecer apoio inabalável ao
homem, se não estiver sujeito à mutabilidade
histórica. A significação da Sagrada Escritura, nesse contexto, é
indiscutível. Afirma-se, entre os fundamentalistas, que foi inspirada
literalmente por Deus e, por isso, é infalível. Embora este tipo de
fundamentalismo não seja tão comum na Igreja católica, seu lugar é ocupado
pelo exagero atribuído à autoridade do Papa, por uma falsa absolutização
da doutrina da infalibilidade. O próprio Concílio Vaticano I (1870) impôs
limites claros. A liberdade de consciência é desprezada, porque
incompatível com a autoridade do Papa. A isso, muitas vezes, acresce um
rigorismo moral ou ainda um tradicionalismo que escolhe e absolutiza um
momento da tradição como norma para a Igreja e para a
teologia. Faz parte do fundamentalismo defender acriticamente a própria
posição. Seria oportuna uma reflexão sobre o homem e sua capacidade de
conhecer. O homem é um ser finito, e seu conhecimento é condicionado por
essa finitude. Ora, se a revelação de Deus em Jesus Cristo pressupõe as
estruturas naturais da inteligência humana, também a revelação e a
teologia estão sujeitas a essa lei. Deus falou ao homem de maneira
correspondente e adequada ao homem. Com isso também se diz que o homem só
tem a verdade da fé, de maneira provisória. O homem só consegue falar de Deus de maneira finita. Um deus
compreendido não é Deus, mas ídolo, uma projeção do pensamento humano.
Isso significa que todas as formulações do cristianismo não são a
realidade, mas falam de uma realidade que nunca entenderemos totalmente.
Deus sempre permanece mistério, que não se conhece, mas se aceita ou se
rejeita. O Novo Testamento não é a revelação de Deus, não é a Palavra de
Deus, mas fala de maneira humana a Palavra de Deus que se tornou humana.
Contém revelação, mas não se identifica com ela, pois não podemos
responsabilizar Deus pelas inexatidões científicas ou
históricas. Admitindo que o Espírito Santo assista a Igreja, com isso não se
diz que os dogmas são a realidade, mas falam, em linguagem e modelos de
pensar humanos, da realidade para a qual indicam. Ora, se isto vale da
Sagrada Escritura e da Igreja, vale ainda muito mais de sua ação na
história. A essência do Cristianismo não é uma verdade que se pudesse
formular em frases; não é uma doutrina, mas uma ação de Deus: sua
encarnação em Jesus Cristo, sua morte e ressurreição. Nessa perspectiva
compreende-se como são limitadas as teorias do homem finito e como têm
caráter transitório. Portanto, se afirmamos a verdade absoluta do cristianismo, isso não
significa que o homem possa ter essa verdade de maneira absoluta. A
verdade que temos sempre será provisória em sua formulação durante nossa
peregrinação terrestre. Todas as posições, que afirmam possuir a verdade
absoluta, são fundamentalistas. Proposições falam da realidade ou indicam
para ela, mas não são a realidade, da mesma forma como uma fotografia não
é o fotografado, uma imagem ou conceito de Deus não são o próprio Deus.
Não se devem confundir projetos e absolutizações humanas com o
cristianismo. Quem se julga na posse da verdade absoluta, em geral não vê
motivos para uma discussão e expõe-se à tentação de se impor sobre outros.
Por conseqüência, tende a limitar a liberdade ou até a eliminá-la. Com
isso perdem-se os pressupostos da existência e moral cristãs.
Aqueles que planejaram e realizaram os ataques suicidas contra as
torres gêmeas de Nova Iorque e o Pentágono, em Washington, certamente
estavam convencidos de fazê-lo em nome da luta do bem contra o mal. O
fundamentalista é como o daltônico: só vê o preto e o branco. Da mesma
maneira, o presidente Bush reage ao jurar vingança: “Vamos eliminar o mal
deste mundo”. Quando os fundamentalistas procuram argumentos, para
justificar seus atos, procuram inimigos, que encarnam o mal. Por isso
devem ser eliminados. Portanto, é preciso distinguir fundamento e fundamentalismo. Conclusão Quem se ocupa com o tema do fundamentalismo logo perceberá que se
trata de um tema difícil, pois carece de contornos precisos. No início,
era diferente, pois um grupo de cristãos protestantes deu-se a si mesmo
esse nome. Esse grupo queria preservar os conteúdos fundamentais de sua
fé, frente à ciência e frente ao método histórico-crítico, em vista das
conseqüências práticas nas comunidades. Para eles, as verdades
fundamentais da fé eram: a inspiração verbal, literal, da Bíblia; a
afirmação da verdadeira divindade e do nascimento virginal de Cristo, seu
sacrifício expiatório vicário; a segunda vinda de Cristo, rejeição dos
resultados das ciências modernas, quando contrariassem a fé
bíblica. Se o fundamentalismo, no início do século XX, era oposição às
crenças seculares, ao cientificismo da modernidade, hoje é diferente. As
promessas da modernidade não se cumpriram. O processo das ciências não
eliminou, mas agravou a miséria. Perdida a certeza secular, o homem busca
respostas alhures. Nesse ponto, para muitos, o fundamentalismo religioso
promete esse apoio ou fundamento seguro e, por isso,
atrai. Positivamente, o fundamentalismo religioso mais recente significa
que a religião retornou à história como um fator do processo histórico. Os
fundamentalistas defendem sua religião, que vêem ameaçada pelos efeitos da
modernidade: pluralismo, relativismo, historicismo e destruição de
autoridades. Assim, os fundamentalistas islâmicos lutam por uma
reislamização do mundo islâmico; os judeus não buscam uma secularização do
Estado de Israel, mas sua fundamentação teocrático-religiosa; os cristãos
empenham-se por uma recristianização do mundo
ocidental. Por outro lado, os fundamentalistas estabelecem um vínculo entre
religião e política. Os cristãos querem uma política cristã, tendo a
verdade religiosa como pressuposto da ação política do Estado. Nesse
sentido, o Papa Pio IX, através do Syllabus de 1864, tornou-se um aliado
do fundamentalismo. Esse fundamentalismo amplia-se no final do século XX.
Em Israel, o Partido Trabalhista baseia-se na religião. Em 1979, o aiatolá
Khomeini reinstaura a República islâmica no Irã, com o objetivo de
expansão do islamismo da Malásia ao Senegal. Na Igreja católica formam-se grupos tradicionalistas,
integralistas, como Lefevre, na França, e Plínio Correia de Oliveira,
fundador do movimento Tradição, Família e Propriedade (TFP) no Brasil.
Este contava com apoio de bispos, como Dom Sigaud e Dom Eugênio de Castro
Meyer. No protestantismo brasileiro, na década de 1980, surgiu o “Bloco
Parlamentar Evangélico”, que pretendia introduzir na Constituição
Brasileira parágrafos que proibiam, por exemplo, o homossexualismo. Tudo
isso mostra que o curso da história tomou rumo diferente do proclamado
pelo Iluminismo, através do culto à razão. A religião saiu do espaço
privado para o público. O fundamentalismo, como filho da Modernidade, não é mero
conservadorismo. Quer retornar à vida pública, de acordo com a vontade de
Deus. Reconhece, outrossim, importância para o comportamento ético
individual, sendo a conversão garantia de uma postura fundamentalista,
frente à experiência de crise do mundo atual. Se o fundamentalista experimenta a sociedade atual como estando em
decadência moral, sem rumo certo e sem lei, na vida prática apela a regras
severas. Justamente isso torna-o atraente para muita gente que busca
segurança e uma nova ordem de valores, longe das inseguranças, dissoluções
e relativizações, no campo religioso como no
político-social. Para um diálogo, no campo religioso, talvez devamos aprender da área técnico-científica. Uma das conseqüências da especialização é que ninguém mais se pode considerar auto-suficiente. Precisamos aprender uns dos outros, da ajuda de outros. S. Agostinho afirmou que em toda a religião há uma semente de verdade. O cristianismo do Evangelho aponta-nos para o equilíbrio entre posições fundamentalistas e liberais.
Bibliografia DE BONI, Luis A. (Org.). Fundamentalismo. Porto Alegre: EDIPUCRS,
1995.
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