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Religião/Igreja/ Teologia/Filosofia |
ÉTICA FILOSÓFICA E ÉTICA CRISTÃ |
Urbano Zilles |
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A
discussão ética é anterior ao Cristianismo e ocorre, ainda hoje, também
fora dele. A palavra ética
deriva do grego ethos e
originariamente significa costume como também o espaço vital (habitação)
costumeiro. No uso lingüístico comum de hoje, o ethos pode expressar a atitude e
conduta do indivíduo ou de uma comunidade ou, também, determinado tipo de
ethos. Dessa maneira falamos do
ethos bíblico e
cristão.
A palavra moral deriva
do latim mos (costume) e mores (costumes) e, entre os
romanos, foi usada como sinônimo de ética. O conceito de teologia moral
como disciplina autônoma, ao lado da dogmática, para estudo sobre o agir
moral do cristão, à luz da fé e da revelação, data do começo dos tempos
modernos. Hoje usa-se o conceito de teologia moral para distingui-la da
ética filosófica.
Por ética entende-se, desde a Antiguidade, a doutrina sobre
fundamentação e justificação do ethos. Se a moral não depende da
vontade de Deus ou dos deuses, dependerá da vontade dos homens? Para
Sócrates, a discussão moral só é possível, se existe uma norma constante e
imutável. Platão, seguindo Sócrates, buscou um fundamento metafísico na
idéia do Bem. Aristóteles perguntou: o que os homens querem realmente e
como chegar ao fim? Segundo ele, todo homem quer a felicidade, uma
plenitude de vida na qual entram sentimentos subjetivos e elementos
objetivos. Essa felicidade depende do exercício ativo e constante das
virtudes próprias ao ser humano. Segundo Aristóteles, a ética é a doutrina
das virtudes. É a fundamentação e justificação teórica do que constitui o
agir bem e correto. Eticidade é a autodeterminação na qual o homem
responde ao apelo do bem absoluto que percebe com sua consciência.
Enquanto se decide a seguir esse apelo de fazer o bem e evitar o mal,
falamos do bem moral.
O acesso à questão ética é possível, através do ethos e da tradição, através da
reflexão e da realidade da vida. Toda sociedade se identifica, mediante
sua tradição moral, pois o que o ajuda a viver em coerência e lhe dá
continuidade é um conjunto de regras, de valores e de costumes. As
tradições morais possibilitam o entendimento entre as pessoas,
propondo-lhes um modelo de comportamento reconhecido com pontos de
referência que permitem aos membros da comunidade formular ideais
pessoais. A ética é
determinada pela origem, contexto e cultura. Uma sociedade forma seu
próprio ethos: costumes e usos
orientam a convivência de uma comunidade. O indivíduo encontra-se inserido
numa forma social mais ampla e relaciona-se com suas normas, mandamentos e
modelos de agir. Ora, a ética é o estudo sistemático da
moral. A ética surge, por outro lado, de problemas concretos da vida de
indivíduos e grupos. Nessa perspectiva, a ética é uma espécie de ciência
da realidade. O desafio que a realidade coloca ao homem exige uma resposta
refletida e discutida, buscando justificativas para chegar ao juízo. No
fundo, trata-se de justificar nosso agir perante a
consciência. O ponto de partida da ética são convicções morais. Convicções
morais referem-se ao que é bom ou a ações moralmente condenáveis. A teoria
ética desenvolve critérios gerais para discernir o que é bom, certo,
justo, etc., compatíveis com convicções morais e oferecer orientações em
casos singulares, nos quais nossas concepções morais se tornam inseguras
ou parecem contraditórias.
1 Ética filosófica
Considera-se,
geralmente, Aristóteles o fundador da disciplina filosófica chamada ética,
referindo-se ao tratamento racional dos costumes. No contexto do enfoque
de Aristóteles encontra-se a idéia dos sofistas de que seria inadequado
para seres racionais, como os humanos, orientarem seu agir apenas por
rotinas, convenções e tradições. O estagirita formula a convicção de que a práxis
humana, em princípio, se sujeita a uma reflexão racional e teoricamente
fundada. Dessa maneira, submete os costumes e usos tradicionais à razão e,
caso não satisfizerem seus critérios, devem ser abolidos. O pensamento
ético refere-se, pois, ao conjunto do agir individual e coletivo,
incluindo seus pressupostos. Dessa maneira, a compreensão filosófica da
ética se distingue do conhecimento empírico. As ciências empíricas podem
conhecer seu objeto, mas a ética não avança até à ação em situações
concretas. Somente consegue indicar o contexto e os princípios
fundamentais do agir correto.
Para esclarecer problemas éticos concretos, muitas vezes, contudo,
se devem responder questões empíricas. No centro da reflexão ética, não
está a tarefa descritiva e explicativa sobre questões morais, mas a
geração, o exame e a fundamentação de proposições normativas. A ética normativa não indaga por aquilo
que é, mas por aquilo que deve ser. Quando se fala de ética
descritiva, entende-se a
apreensão empírica e descritiva da moral existente, ou seja, descrevem-se
atitudes e convicções morais. Quando se faz uma reflexão metódica sobre
moral, com o objetivo de fundamentar e criticar ou reconstruir uma moral
existente de fato, falamos de ética normativa, A ética normativa é a ética
do dever, pois desenvolve critérios para o juízo moral. Além da ética
descritiva e normativa, mais recentemente surgiu a análise lógica,
semântica e pragmática das estruturas do discurso ético. Nesse caso,
fala-se em metaética, que usa
os meios da moderna análise lingüística. Critérios éticos são normativos, pois não descrevem convicções morais
existentes, mas formulam uma convicção moral A diferença entre uma
reconstrução descritiva de convicções morais existentes e o
desenvolvimento de uma teoria ética está no fato de a última desenvolver
normas para o juízo moral como para o agir, enquanto a primeira se abstém
de posicionamentos normativos.
No tempo de Aristóteles, os habitantes das cidades-estado da Grécia
passaram por uma mudança na situação política. Exigiam-se novas
competências dos cidadãos, diferentes do tempo da aristocracia ateniense.
A filosofia foi desafiada a refletir sobre a melhor forma de convivência e
quais as virtudes a cultivar para tanto. A tradição fora questionada no
confronto com outras culturas, com práticas jurídicas diferentes e
diferentes hierarquias de valores. Platão apresenta, em seus diálogos, um Sócrates que colocou toda a
sua vida a serviço da razão, buscando critérios para a práxis contra a
tradição e contra o relativismo dos sofistas. São critérios racionais.
Segundo Platão, a prática certa funda-se num conhecimento verdadeiro. Com
isso perdura uma questão fundamental até nossos dias: pode haver ou não um
saber fundante do agir bom e certo? Esta é uma questão chave para os
estudiosos da ética filosófica. Aristóteles posiciona-se, dizendo que tal saber é pressuposto. Se
Platão, contrariando os sofistas, defendeu um cognitivismo ético,
Aristóteles postula uma racionalidade prática autônoma. Entre as correntes
éticas do helenismo e da época dos imperadores, cabe destacar o estoicismo
e o epicurismo. Ambos, apesar
de variantes populares, caracterizam-se por uma opção cognitivista. A stoá defende uma concepção teleológica
da natureza e considera como práxis aceita aquela que estiver de acordo
com a razão universal, recapitulando, de certa maneira, o modelo unitário
de Platão. Os pensadores epicuristas, por sua vez, baseiam-se num
esclarecimento racional da estrutura das necessidades humanas. Enfim,
tanto o estoicismo quanto o epicurismo acreditam poder fundamentar
racionalmente o agir certo. No decurso de mais de dois milênios de história da ética, depois de
Aristóteles, foi formulada e desenvolvida uma pluralidade de teorias e
critérios éticos. Esses critérios e essas teorias ainda conservam muita atualidade.
Éticas como a de Aristóteles, D. Hume, Stuart Mill e I. Kant ainda gozam de interesse
sistemático. Assim, no estudo da ética, nos confrontamos com uma série de
paradigmas: a) o utilitarista,
constituído pelos elementos de uma teoria utilitarista de valores, do
princípio da simples agregação e do critério conseqüencialista do agir reto; b)
o deontológico ou ética
kantiana parte do dever moral imediato como fundamento da análise,
cabendo-lhe um primado lógico. Reduz a variedade das justificativas morais
ao princípio do imperativo
categórico; c) o contratualista, baseado em Uma teoria da justiça, de John
Rawls (1971), quer melhorar a teoria contratualista (Hobbes) e, por outro
lado, oferecer uma alternativa à teoria normativa da ética e da filosofia
política; d) o jurídico individualista, que recorre a
direitos individuais (Direitos Humanos); e) a ética das virtudes com a qual
iniciou a história da ética na antiga Grécia. A reflexão ética recebeu uma série de impulsos do Cristianismo.
Claro, no início eram contribuições menos em forma de estímulos
filosóficos e mais na forma de ampliação de conteúdos morais, como, por
exemplo, o sermão da montanha de Jesus, a utopia da comunidade originária,
segundo Lucas, nos Atos, a superação paulina do pensar legalista e a
concentração ética que o evangelista João dá ao mandamento do amor. Na
apologética do século II, o Cristianismo passa a identificar-se, até certo
ponto, com a herança grega. Na discussão do maniqueísmo, Agostinho questiona a existência de um
princípio do mal e define o mal, no sentido do neoplatonismo, como
ausência de ser, como privação do bem. Segundo ele, a dignidade
humana resulta do livre-arbítrio, do qual Adão já abusara, voltando-se,
não para o Criador, mas para as criaturas. A perversão da ambição gerada
pelo pecado, conforme Agostinho, perpetua-se pelo pecado de Adão. A
concupiscência não aniquila mas enfraquece o livre-arbítrio. Na discussão
com os pelagianos, Agostinho esclarece que desapareceu a liberdade da
vontade para agir bem. Já o conhecimento do que é bom depende da graça de
Deus. Dessa maneira torna-se impossível fundamentar racionalmente
afirmações sobre o agir ético em vista do pecado. Neste ponto Agostinho
pensa na forma do irracionalismo que torna impossível uma ética
filosófica. Ora, o pensamento de Agostinho exerceu uma influência dominante
sobre a filosofia e a teologia, no Ocidente, durante cerca de oito
séculos. Isso esclarece por que, durante esse período, não houve maior
desenvolvimento da ética filosófica. Claro, houve exceções, como no caso
de Anselmo de Cantuária e Pedro Abelardo, mas somente nos séculos XII e
XIII ocorre uma mudança mais significativa com a recepção de Aristóteles.
Na segunda parte da Summa
Theologiae, Tomás de Aquino desenvolve um sistema ético autônomo,
distanciando-se de Agostinho. Para ele, a razão humana não foi totalmente
corrompida pelo pecado. Pela razão teórica, o homem pode conhecer coisas
boas. Para conhecer verdades sobrenaturais, depende da revelação divina,
mas no âmbito natural dispõe de um princípio prático no qual pode orientar a
ação: “Deve fazer-se o bem e evitar o mal”. Para Tomás, tal axioma não é
apenas formal, mas as inclinações naturais caracterizam o esforço humano.
Entre essas inclinações naturais, destaca-se o instinto de
autoconservação, da procriação e da convivência comunitária. Com a ajuda
da razão, pode ordenar-se o potencial de realização. Ao conjunto de normas
que daí surgem Tomás de Aquino chama lei natural. Para garantir a
eficiência duradoura dessa lei, precisam-se hábitos, que o Aquinate elabora numa doutrina
sistemática das virtudes. Mas, Tomás de Aquino deixa claro que a determinação última do homem
situa-se além da razão, numa visão beatífica de Deus, da qual o homem sabe
através da revelação divina. Aí reconhece lugar especial às virtudes
teologais (fé, esperança e caridade) como atitudes de conduta adequadas,
pois a salvação é graça. Entretanto, reveladas as verdades sobrenaturais
podem ser penetradas racionalmente. No final da Idade Média, ocorreu uma mudança profunda que
possibilitou e gerou a modernidade. Muda fundamentalmente a situação
social e política. A ética confronta-se com problemas novos. Curiosamente
a discussão partiu mais uma vez de Agostinho. Ao contrário das grandes
sínteses da Escolástica
florescente, na Idade Média tardia, os representantes do nominalismo (J.
Duns Scotus, G. de Ockham etc.) acentuam a onipotência divina absoluta a
ponto de ser inacessível à razão humana. O conceito da livre vontade,
apresentado por Agostinho, tornou-se o atributo central de Deus. Com isso
o conjunto da criação aparece como
contingente. O voluntarismo teológico conduz a um programa de emancipação, que
se consolida na Europa moderna. De um lado, situam-se as ciências da
natureza, a quem se confiam as construções autônomas de conhecimentos
teóricos e, a partir de Galileu, servem-se do método dos experimentos
científicos. Nos problemas práticos, por outro lado, o homem encontra-se
entregue a si mesmo. À liberdade de Deus, proclamada pelo nominalismo,
corresponde a liberdade humana, que possibilita o grande projeto da
tecnociência moderna. Uma das conseqüências dessa transformação foi a pluralização e
particularização da concepção do que é bom. Pluralizam-se, outrossim, as
metas. Por isso surgem conflitos de concepções, como mostram as guerras
religiosas, em começos do século XVI, cuja razão são as diferentes
concepções do homem e do mundo. Em decorrência dessas experiências, Tomás
Hobbes, mais tarde, no Leviatã,
usa a metáfora segundo a qual “o homem é o lobo para o homem”, num estado
de guerra “de todos contra todos”. De maneira cruel expressa-se que o
indivíduo, em luta pela sobrevivência, passa a ser a única fonte da
colocação de valores que deve defender contra todos os outros. Esta é a
conseqüência da pluralização e particularização do bem com o surgimento
dos antagonismos. Diante disso, a ética moderna defronta-se com problemas
até então desconhecidos. Com o empirismo e o racionalismo, o pensamento moderno se enquadra
em duas grandes correntes filosóficas, cuja reação, no campo da ética, aos
novos desafios éticos se diferencia. Os empiristas partem do pressuposto
de que o saber ético, em última análise, sempre se funda na experiência. A
razão apenas tem função de instância decisória, quando houver conflitos.
Na filosofia moral de David Hume, o papel da razão é ainda mais restrito.
Pergunta: o que nos motiva a agir moralmente? Segundo ele, são
exclusivamente os sentimentos que colocam os objetivos últimos à ação
humana. Aceita uma série de sentimentos morais que pressupõe existirem em
todos os seres humanos. Exemplifica com o bem-querer, o sentimento de
justiça e o sentimento de utilidade comum: “A razão apenas é a escrava dos
afetos e deve sê-lo. Sua função restringe-se a servir e obedecer-lhes”. O
universalismo da moral é baseado numa constante antropológica a-racional.
Percebe-se que Hume abre, assim, caminho para o utilitarismo de Jeremy
Bentham e John Stuart Mill, do qual tratamos em outra
oportunidade. A segunda grande corrente filosófica, na ética moderna, é o
racionalismo. Esta corrente encontra precedentes em Tomás de Aquino e no
estoicismo com sua idéia do direito natural. Desenvolve-se uma tendência
de secularizar a ética, fundamentando-a exclusivamente na razão humana.
Neste sentido, Descartes coloca a base para uma ética de tipo do
universalismo cognitivista. Restringindo o papel da razão prática, esta se
restringe a exercer a função de racionalidade técnico-aplicativa.
3
Ética filosófica e mensagem cristã Tomás de Aquino, em seu tratado sobre a lei (S. th. I-II q. 90-97), reflete
sobre a ética, tematizando a relação entre mensagem cristã e ética
filosófica, entre fé cristã e razão. Diz que quer estudar “os atos humanos
para saber quais são aqueles que nos fazem atingir a beatitude e aqueles
que nos interditam seu acesso” (I-II, q. 6 Prol.). Primeiro apresenta o
conceito de lei e dedica-se, depois, a diferentes espécies de leis. Define
a lei: “Uma lei é uma ordenação da razão em vista do bem comum, feita e
promulgada pelo legislador”. É uma definição aplicável, tanto no âmbito
civil quanto no eclesiástico. São termos essenciais: a) o legislador (todos ou seus
representantes); b) o bem comum (a lei vale para a
comunidade política maior); c) a promulgação (a lei deve ser
publicamente conhecida ou tornada conhecida para valer); d) a razão, que, para Tomás de Aquino,
é princípio, regra e critério do agir humano. |
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