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Escravidão rural. Formação de um território negro noVale do Caí, RS 1870-1888 |
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Sumário Apresentação (Paulo Roberto Staudt Moreira) 9 Introdução 13 1 Mirando os senhores 17 1.1 Histórico da região: o Vale do Caí 17 1.2 Nomeando os senhores: considerações sobre os donos de escravos 27 2 Paternais relações: cotidianas vivências de escravos e senhores no Vale do Caí 38 2.1 Escravos, senhores e parceiros: violência, desespero e resistência 38 2.2 Famílias, parentes, aliados 48 2.3 Paternalismo e compadrio 55 3 Cativas mobilidades: isolamento e transitoriedade 60 3.1 Crime e justiça: o caso do escravo Paulino 60 3.2 O “serigote”, negros armados e a “justiça de castelhano” 71 Considerações finais 82 Referências 85 APRESENTAÇÃO Capítulos de um meio rural
escravista
Naquela quinta-feira do início de novembro de
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O instrumento do suplício de Izabel era usado por Joaquim da Cruz para tocar os animais de seu rebanho; com ele, pensou que poderia rebaixá-la à condição de gado ou de coisa. Enganava-se, pois o status jurídico de “propriedade de alguém” não privava os escravos de humanidade, não os reduzia à animalidade. Com anedotas como esta o historiador Raul Róis Schefer Cardoso monta seu belo e importante texto. Influenciado pelas recentes tendências historiográficas que mesclam competente e séria pesquisa empírica, com a valorização de histórias individuais, Raul nos ajuda a repensar o que sabíamos sobre o espaço rural sulino. Santana do Rio dos Sinos pertencia ao município de São Sebastião do Caí, região não muito distante de Porto Alegre. Segundo o levantamento feito, percebemos que entre 1875 e 1879,43% dos inventários realizados registravam a posse de escravos. O censo de 1858 apresenta uma população composta de 32% de habitantes escravos e libertos, sendo 28,86% pertencentes ao primeiro grupo. Era um contingente escravizado que vivia em pequenos plantéis de um a cinco cativos por propriedade, na maioria dos casos. A escravidão é tão importante para a reflexão de nossa
atualidade social que o itinerário do autor descreve a passagem de uma
temática contemporânea, para a pesquisa do passado imperial. Raul Cardoso
envolveu-se há anos em uma pesquisa que procurava visibilizar
academicamente uma comunidade negra localizada Já há anos o Rio Grande do Sul tem assistido ao crescente debate sobre as comunidades remanescentes de quilombos, agrupamentos de população negra que têm resistido à exclusão através de vários estratagemas, entre eles a insistência em permanecer nas terras de seus ancestrais - terra de pertencimento. Pesquisador diligente e detalhista, logo ficou claro para este historiador que seu interesse necessitava de um mergulho no passado escravista desta região. Assim surgiu a dissertação defendida em 28 de outubro de 2005, aprovada por uma banca composta dos professores Marcus Joaquim M. de Carvalho (da Universidade Federal de Pernambuco) e Eloísa Capovilla Ramos (da Unisinos). No trabalho apresentado como pré-requisito para a
conclusão de seu curso de especialização na Unilasalle, e que serviu de
base para o projeto com o qual ingressou no PPGH/Unisinos, Raul Cardoso já
explicitava muito de seu estilo. Naquela monografia, ele valorizou
práticas e espaços de sociabilidade cotidianas da comunidade negra de Nova
Santa Rita, revelando sensibilidade para os detalhes. Ele chamou a atenção
para os momentos de lazer (churrascos, futebol), batizados e mesmo para a
lavagem de roupas, aspectos que ele denominou de práticas
informais. No caso de Izabel, com que começamos esta apresentação, Raul retoma sua sensibilidade para o informal. O fazendeiro Joaquim Pires da Cruz extravasou toda a sua agressividade sobre o corpo desta cativa de 22 anos, quando a encontrou indo lavar a roupa de seus parceiros. Ela não desempenhava esta ocupação de lavadeira por prazer, mas para ganhar alguns vinténs, pagos pelos escravos que queriam vestir roupa limpa, pelo menos às vezes. Ela ganhava vinténs acumulados pelo trabalho duro de seus companheiros de cativeiro - todos eles envolvidos em formas de economia própria, à revelia de seus senhores. No verão de 1887, às vésperas da abolição, outra resistência feminina é descrita. Aparda velha Fortunata, em caso quase idêntico ao de Izabel, abandonou sua senhora Florisbela Marques Ferreira e foi denunciar os maus tratos sofridos às autoridades. Na subdelegacia, ela foi examinada por peritos que encontraram um ferimento em sua cabeça “ainda aberto e produzindo mau cheiro”, sinais de chicotadas nos braços e de uma pancada no ombro. Ainda hoje encontramos em livros didáticos a idéia
de que o Rio Grande do Sul, seguindo o exemplo do Ceará e Amazonas, aboliu
a escravidão quatro anos antes da Lei Áurea. Este engano historiográfico
desconsidera que a emancipação de centenas de escravos, nos anos
anteriores a 1888, foi feita através de contratos de prestação de
serviços, que instituíram não a liberdade, mas uma forma de
escravidão disfarçada. Este era o caso de Fortunata, liberta
em 1884 com a exigência de que prestasse anos de serviço fiel e
gratuito para sua senhora. Analisando as 10.055 cartas de alforria
registradas nos cartório de Porto Alegre entre 1748 e 1888, percebemos que
35,28% delas eram condicionais, sendo destas cerca de 11 % mediante contratos de
prestação de serviços. O auge deste tipo de alforria foi entre 1879 e
1888, quando representaram perto de 44% das cartas registradas, sendo o
ano de 1884 - justamente quando Fortunata foi libertada -, o auge desta estratégia senhorial,
com 785 cartas emitidas. O nome do santo que abençoaria a região, ora analisada, gerou debates: uns queriam Santo Antônio e outros São Bernardo, mas valeu o peso da sugestão do Bispo Dom Sebastião Dias Laranjeira - dedicou-se o município a seu homônimo, São Sebastião. Em 1879 foi inaugurada a Igreja local e uma procissão conduziu a imagem de São Sebastião, doada pelo Bispo Laranjeira, até o altar. Izabel e Fortunata, nossas anfitriãs neste primeiro contato com a pesquisa de Raul Cardoso, poderiam ter tentado - se é que não o fizeram! - curar suas feridas recorrendo ao santo padroeiro do município. São Sebastião, como se sabe, é tradicionalmente invocado em momentos de conflitos armados, de carência de alimentos, e se especializou em curar moléstias contagiosas e outros males que machucavam os corpos de seus fiéis. Segundo o folclorista Câmara Cascudo, os “devotos de São Sebastião não morrem de fome, de peste nem de guerras”. Graças ao trabalho que agora é publicado e ao esforço de pesquisa deste historiador, podemos garantir que os negros devotos de São Sebastião do Caí também não definharão no esquecimento. Paulo Roberto Staudt
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