Desde 1964, a CNBB, seguindo o exemplo de conferências
episcopais européias, por ocasião da quaresma cada ano lança a Campanha da
Fraternidade com um tema em vista de uma coleta dos fiéis como gesto
concreto. Esses temas centraram-se na renovação interior da Igreja
(1964-1972), na denúncia do pecado social e na promoção da justiça, ou
seja, na sua relação com o exterior (1973-1984) e no alívio em situações
existenciais do povo brasileiro (1985- ). O método usado é o da antiga
Ação Católica: ver-julgar-agir. Para 2007 foi escolhido o tema:
Fraternidade e Amazônia. Todos os anos a CNBB divulga a soma arrecadada,
sem, entretanto, apresentar uma prestação de contas da aplicação e dos
resultados materiais e espirituais obtidos com o dinheiro arrecadado no
ano anterior.
De acordo com a
tradição litúrgica, a quaresma é tempo de penitência e conversão para
preparar a celebração dos mistérios centrais da fé cristã na Páscoa. Se
outrora se acentuou unilateralmente o aspecto espiritual, hoje existe o
perigo de acentuar apenas o aspecto material e social. A Campanha da
Fraternidade não deve desvirtuar o sentido originário da quaresma, pois
deveria expressar em gesto concreto a solidariedade cristã para com os
mais necessitados como o era a coleta na celebração eucarística dos
cristãos nos primórdios. Os não-cristãos diziam: “Vede como se amam”. Do
contrário, a coleta se torna um gesto descompromissado da responsabilidade
cotidiana de ajudar os mais necessitados.
A Campanha
da Fraternidade oportuniza uma mudança de mentalidade. Não somos cristãos
sozinhos nem só para nós mesmos. Através de nosso corpo fazemos parte de
todo o universo material pelo ar que respiramos e pelo alimento que
ingerimos. Estamos em comunhão permanente não só com os semelhantes, mas
com o mundo que nos cerca. O corpo é nossa maneira de ser no mundo. Mas
não somos apenas corpo. Há uma diferença entre uma pessoa viva e um
cadáver. O homem é responsável pelo mundo no qual vive. O autor do Gênese
diz que, depois de criar o homem, Deus descansou. Ora, este descanso
simboliza sua confiança no homem. Agora é a vez de ele trabalhar e
administrar responsavelmente a criação.
Quando
falamos da Amazônia nos referimos a uma região imensa de nosso planeta que
abrange diversos países da América do Sul, sobretudo no Brasil. Logo
associamos nossa idéia de Amazônia a uma extraordinária biodiversidade e a
uma grande diversidade cultural. Às margens de seus grandes rios,
afluentes do Amazonas, ainda vivem muitos povos originários (índios). Mas
para lá também migram populações de outras partes do planeta, devastando a
natureza em busca de riquezas como madeira, minérios e animais selvagens.
E isto pode constituir uma ameaça para a sobrevivência humana, pois, para
muitos cientistas, a Amazônia, com suas florestas e seu gigantesco
manancial de água doce, é o pulmão que ajuda a viver em nosso planeta. A
Campanha da Fraternidade deste ano oferece uma oportunidade para todos os
brasileiros se conscientizarem de sua importância. O tema como tal talvez
se preste mais para aulas e estudo que para homilias quaresmais, mas o
meio ambiente e a água potável só permanecerão acessíveis a todos se todos
dela cuidarem.
Se a
Amazônia é patrimônio da humanidade, o é, em particular, de todos os
brasileiros como responsáveis imediatos de sua preservação. É preciso
transformar a economia da ganância e do supérfluo em uma economia
socialmente responsável e do necessário. A economia deve estar a serviço
do homem todo e de todos os homens e não vice-versa. Na era da
tecnociência, o homem precisa reencontrar um estilo de vida mais simples e
austero, pois o que sobra para uns falta para outros.
Todos os
homens precisam tomar consciência de que o exercício do domínio sobre a
natureza tem limites. Cuidar do meio ambiente é questão de sobrevivência
da humanidade. A manipulação tecnológica tem limites. Enormes superfícies,
cujas florestas levaram séculos e milênios para crescerem, da noite para o
dia, na Amazônia, se transformam em desertos, enquanto em outras partes do
país se gastam somas altíssimas para impedir que árvores que crescem em
poucos anos sejam abatidas para serem usadas como madeira ou lenha de
maneira razoável. O abuso destruidor da natureza será punido, pois se não
houver mais respeito à mãe natureza, a terra tornar-se-á inabitável. Nos
últimos tempos a capacidade humana de transformar a natureza cresceu de
maneira gigantesca. É preciso não perder o bom senso no seu uso, pois
recursos naturais como água e ar são limitados. Por isso, proteger a
natureza de maneira responsável é dever de todos e de cada cidadão, de
cada instituição e do Estado. Neste sentido a Campanha da Fraternidade
contribui para a conscientização dos cristãos e
cidadãos.
Entretanto
cabe ficar atento a que a Campanha da Fraternidade não se transforme numa
rotina de meras preocupações sociais e materiais, esquecendo o
fundamental: a conversão interior do homem a Deus. Somente esta garantirá
uma fraternidade duradoura capaz de construir um mundo mais justo e de
paz.