Faina Linguística

 

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INTRODUÇÃO

Escrever sobre aspectos da cultura e língua dos imigrantes italianos e seus descendentes não é tarefa das mais fáceis porquanto, tendo-se passado já três ou quatro gerações desde o início da imigração, são poucos os que ainda mantêm o “sangue italiano” e, mesmo que o mantenham, há uma grande gama de dados culturais que se interpenetram e que mereceriam (re)interpretação. Contudo, e apesar do processo irreversível de miscigenação cultural em que entraram os descendentes dos imigrantes, interessam-nos, e por isso estudaremos, alguns aspectos lingüísticos de comunidades bilíngües italiano-português do Alto Uruguai Gaúcho.

O Rio Grande do Sul, pela especificidade de sua colonização, presta-se consideravelmente a estudos de aculturação lingüística. Seus povoadores vão dos luso-brasileiros e açorianos aos castelhanos das fronteiras; dos imigrantes italianos, alemães, poloneses aos negros escravos; dos indígenas aos espanhóis.

Nesta heterogeneidade étnica, rica em matizes lingüísticos, destacamos, para estudo, a cultura e a língua dos imigrantes italianos que, ao aqui aportarem, traziam em suas bagagens todas as suas esperanças e muitos séculos de experiências. Em princípio, em razão da língua, isolaram-se em núcleos fechados. No entanto, a necessidade de nomear coisas estranhas à sua vivência estrangeira - ambiente físico, métodos e instrumentos de trabalho, etc. - e, por haver no seu léxico de origem uma lacuna para tais ocorrências, os imigrantes viram-se obrigados a recorrer a empréstimos portugueses de natureza lingüística e, também, a adotar hábitos, costumes, divertimentos,... Com isto, estabeleceram o contato e a conseqüente interferência entre as duas línguas e culturas.

Analogamente ao que ocorreu com o Estado, a região norte do Rio Grande do Sul - área de abrangência desta pesquisa - é singular por sua colonização e povoamento. Planejada pelo governo, a colonização processou-se no início deste século e nela implantou-se o sistema da pequena propriedade, ou seja, a policultura destinada ao consumo interno. Em vista desse sistema de colonização, a população da região foi-se constituindo numa mistura de diversas etnias e há, até hoje, uma grande variedade de microregiões constituídas por núcleos de (i)migrantes italianos, poloneses, alemães, caboclos, indígenas e outros.

            Até o momento, passados mais de 80 anos, na região do Alto Uruguai Gaúcho (norte do RS), as informações e conhecimentos sobre a língua e a cultura destes grupos são escassas restringindo-se, basicamente, a informações verbais: pouco existe registrado cientificamente sobre a tradição e os dialetos de tais grupos. Com o processo de contínua miscigenação e aculturação, os núcleos de heterogeneidade lingüística-cultural tendem a desaparecer.

Entendendo cultura como um conjunto de idéias, conhecimentos, padrões de comportamento e de atitudes que caracterizam um determinado grupo social, este trabalho, de cunho lingüística, também levantará dados para um estudo dos valores e comportamentos - projetados na língua - que caracterizam o grupo étnico italiano da região citada. Julgamos seja relevante porquanto parte da necessidade de resgatar e preservar a história das comunidades bilíngües italiano-português em processo de extinção, sua língua e diversidades dialetais, seus usos e costumes, sua vida social e espiritual, seu modo de vida, enfim, sua tradição lingüística-cultural.

A idéia do “italiano” vem sempre ligada à do vinho, pão, massas, polenta, queijo, trabalho,... Sendo assim, parece oportuno dedicarmos um estudo à faina agrícola do colono italiano. Delimitamos o campo desta pesquisa a três culturas básicas que se constituem na própria essência do esforço do (i)migrante pela sobrevivência. Assim, estabelecemos três percursos: “do Trigo ao Pão”, “do Milho à Polenta” e “da Parreira ao Vinho”. O material coletado deriva de pesquisa bibliográfica de estudiosos do assunto - citada no decorrer do trabalho - e de pesquisa realizada entre os (i)migrantes.

O estudo de uma língua é fundamentalmente o estudo da cultura de que ela é forma e produto - diz Celso Cunha. Por isso, na escolha dos informantes buscamos o bilíngüe em sua atividade diária e propiciamos condições para que se manifestasse de forma livre, espontânea e informal. Nas entrevistas tivemos a preocupação de captar a palavra em sua total espontaneidade.

Com base nesta realidade, elegemos como objetivos do trabalho:

1. Proceder levantamento da realidade lingüístico-cultural de grupos de etnia italiana em macro e micro comunidades do Alto Uruguai Gaúcho.

2. Identificar a atitude dos bilíngües frente às duas culturas e línguas (italiano-português) em diversas situações.

3. Proceder à descrição e análise do meio lingüístico-cultural agrícola.

Os objetivos propostos nortearam a estruturação do trabalho que dividimos em cinco capítulos.

No Capítulo 1, intitulado Língua, Cultura, (I) migração, discutimos os pressupostos teóricos que embasam toda a pesquisa.

Apoiada em Coseriu, Silva Neto, Sapir, Martinet, Bunse e outros, levamos em conta alguns dos aspectos que fundamentam as relações língua/ cultura, enfatizando a importância do léxico na compreensão da realidade. Destacamos a situação dos (i)migrantes - sujeitos desta pesquisa - no contato com a realidade brasileira e o choque e/ ou interação entre as duas culturas e línguas. A seguir abordamos a relação que se estabeleceu entre estes homens e o novo meio, destacando a importância que adquirem os objetos, sobretudo os da faina agrícola, nesta realidade.

O item seguinte procura estabelecer o lugar do dialeto no contexto lingüístico. Alvar, Giraldo, Staub, Levi Mattoso são os principais teóricos em quem nos respaldamos na análise. Após estabelecermos as delimitações entre língua-dialeto-falares, analisamos a língua e cultura italianas na área focalizada, e tentamos situar o “dialeto vê neto sul-rio-grandense”, ao qual conferimos ‘status’ de língua. Embasamos nossas reflexões nos trabalhos dos estudiosos da etnia italiana no RS, Frosi, Mioranza, De Boni, Costa, Manfrói, Battistel e outros - da Universidade de Caxias do Sul e do Instituto de Teologia São Lourenço de Brindes de Porto Alegre. Mereceram destaque os trabalhos de Stawinski e Bunse por terem sido estes autores os primeiros a elaborar glossários e dicionários do dialeto.

Martinet, Coseriu, Giraldo, Weinreich e Garmadi ofereceram subsídios para as reflexões sobre contato de língua e interferências lingüísticas. Neste item destacamos os três níveis de interferências possíveis entre línguas em contato: interferências fonológica, gramatical e lexical, sendo que nosso trabalho volta-se sobretudo para as interferências lexicais decorrentes do contato entre um dialeto italiano e o português.

Fazemos um estudo sobre Bilingüismo: um fenômeno sócio-psico-cultural no item que encerra o capítulo das reflexões teóricas. Comentando conceitos e correntes de diversos autores, dentre os quais Lanchec, Weinreich e Levi Mattoso, buscamos situar os bilíngües sujeitos de nossa pesquisa a fim de, em capítulo posterior, analisar seu comportamento de bilíngües em situações determinadas.

No item 1.2 fazemos um levantamento dos Aspectos Históricos da Imigração Italiana no Rio Grande do Sul partindo do processo de colonização e povoamento do Estado, até chegarmos à (i)migração italiana na região de pesquisa e o contato dos (i)migrantes com a língua portuguesa. Consideramos a língua como um fato social e, por isso, profundamente ligada e dependente do meio em que é usada. A partir disso acreditamos que, quanto melhor se conhecer e caracterizar o contexto sócio-cultural em que os fatos lingüísticos acontecem, melhores condições se  tem de identificar as causas e mecanismos que provocam tais fatos e as interferências lingüísticas que se verificaram no decorrer dos tempos.

No Capítulo 2 fazemos a exposição do Método utilizado nas várias etapas da pesquisa. Destacamos o respaldo teórico de Nascentes, Wouk, Paiva Boléo, Alvar, Bunse e Fernandez para a elaboração do material de pesquisa e, de Stevenson, Drew e Witter para a análise estatística.

Dividimos o capítulo em: a) Delimitação da amostra - onde descrevemos a forma de seleção e traçamos o perfil dos informantes selecionados; b) Descrição do material - no qual detalhamos os dois instrumentos utilizados na pesquisa - o Instrumento-1 ou Questionário através do qual colhemos os dados que nos possibilitaram a análise do comportamento lingüístico do falante bilíngüe e, o Instrumento-2 ou Entrevista Gravada, organizado em “Roteiro para História de Vida” e “Levantamento da Cultura e Léxicos Específicos”, instrumentos que propiciaram o levantamento de léxico nos percursos “do Trigo ao Pão”, “do Milho à Polenta” e “da Parreira ao Vinho” que constituem o corpus do nosso trabalho; c) Procedimentos de coleta do material e de análise do corpus. Aqui descrevemos detalhadamente os critérios para análise estatística do Instrumento-1 e os critérios para levantamento do léxico e análise do meio lingüístico-cultural.

No Capítulo 3 realizamos a Análise quantitativa do comportamento lingüístico do falante bilíngüe. O material coletado no Instrumento-I, aplicado a 80 informantes, permitiu que fizéssemos uma análise detalhada do comportamento dos bilíngües em seis situações lingüísticas distintas: a individual, a familiar, a profissional, a cultural, a social e a pessoal-emotiva. Por ser uma análise quantitativa, o capítulo vem ilustrado com tabelas estatísticas e figuras que são mais facilmente manuseadas num contexto visual.

O Capítulo 4 - Análise de Meio Lingüístico-Cultural é uma síntese do “fazer” e do “falar” do grupo étnico estudado. Iniciamos o capítulo com uma reflexão teórica sobre “o sistema sócio-cultural dos objetos” que introduz uma descrição das três culturas agrícolas objeto da pesquisa. Após, fazemos a Análise Lingüístico-Cultural, através da descrição da faina agrícola nos percursos “do Trigo ao Pão”, “do Milho à Polenta” e “da Parreira ao Vinho”. Concluímos com uma amostra das interferências lingüísticas ocorridas no contato entre o dialeto italiano falado pelos informantes e a língua portuguesa onde os empréstimos portugueses são analisados e descritos em termos de adaptação no dialeto receptor.

Fazemos, após, uma Discussão dos resultados, enfocando as atitudes dos bilíngües considerando as variáveis “zona de residência”, “idade” e “município” e os diversos itens abordados, quais sejam, “língua e cultura”, “dialetos”, “bilingüismo” e “interferências lingüísticas”... As Conclusões decorrentes das análises feitas comprovam a validade da pesquisa uma vez que nos permitiram analisar, especialmente, o comportamento lingüístico do falante bilíngüe e proceder levantamento e descrição dos principais objetos nos percursos estabelecidos.

Finalmente, podemos dizer que o (i)migrante hoje é, não só um tipo étnico, mas espiritual. O que o caracteriza não é mais a sua atividade, mas a diversificação cultural que o acompanha.

Assim sendo, estudos que se façam sobre “dialeto vêneto sul-rio-grandense” permitem reviver-se todo um passado da história e tradição posto que

 

Os povos enriquecem sua língua com

termos novos, graças ao trato com

outros povos e outras terras”

(Romanguera Corrêa)

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