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Os cativos e os Homens de Bem. Experiências negras no espaço urbano |
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Apresentação Muitos anos de pesquisa. Muita experiência na vida de arquivo. Muita garra e vontade de dar voz e dar luz aos anônimos do passado. E lucidez no olhar, brilho na análise. Como resultado desse longo caminho percorrido por aqueles que teimam em ser historiadores, uma tese que resultou ser excelente e que foi muito bem defendida frente a uma banca extremamente qualificada no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Mas agora chegou o momento de Paulo Roberto Staudt Moreira repartir com os leitores da cidade - que, espero, sejam muitos... - os segredos de uma Porto Alegre negra através de um livro que em boa hora é publicado. Como professora, amiga, colega, orientadora, eu acompanhei essa trajetória e posso dizer, sem medo de cair mais uma vez no lugar-comum, que “ela veio preencher uma lacuna”. Nesta cidade de Porto Alegre do século XIX, que se queria bela, branca, ordenada, bem-comportada, Paulo partiu em busca dos seus personagens negros, que há tanto tempo persegue na poeira dos arquivos, nos velhos documentos, nos papéis esquecidos nas prateleiras, seguindo pistas, pegadas, indícios. Leu discursos em práticas, descobriu segredos, reuniu fragmentos e compôs com eles tramas. Deu voz a tal gente sem importância, chegando até a formular, inventiva, estratégias de ação inusitadas, mas convincentes, portadoras de desejos e valores estranhos a nós, contemporâneos, mas tudo através de uma narrativa plausível, redigida em belo estilo. Mapeou trajetos, dramas e malandragens no jogo dos interesses, reconstituiu vidas. Um livro atraente, como podem ver, uma obra relevante pela abordagem escolhida, pelo cuidado com que a argumentação é elaborada; no tecer e retecer dos fios com que é feita a História... Seu tema, sua questão? Percorrer os caminhos de diversos atores e grupos que construíram a liberdade dos negros em um mundo de cativos e de homens de bem! A abolição, mais uma vez? Mas tal tema não estaria, de uma certa forma, exaustivamente explorado? Ou, talvez mesmo, já esgotado em termos de interpretação? Este livro vem demonstrar que não, pois nosso autor percorreu a sociedade da época de ponta a ponta, penetrando nas razões e sentimentos dos seus diversos atores, reconstituindo experiências do mundo de então. Não se recusou, com isso, a enfrentar o risco da alteridade do passado, tentando chegar até lá, naquela estrangeiridade das formas de falar, de pensar e de ação que levaram os homens de um outro século a agir e a representar o mundo. Das experiências escravas ao movimento emancipacionista, com suas sociedades e organizações que, sob o impulso de motivações próprias, foram construindo a liberdade dos negros, Paulo Roberto foi, aos poucos, resgatando o caprichoso e intrincado mundo das representações e das práticas sobre o cativeiro e a liberdade. Trata-se de uma espécie de costura, de um puzzle ou de um mosaico, em que ele reconstrói, com os tais pedaços do passado, a trama da História. |
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Um historiador-detetive, enfim, claramente definido! Um arqueólogo dos arquivos! Um metódico, implacável e terrível capitão de mato das fontes! Por vezes - aliás, muitas vezes... - os amigos comentam, intrigados, por onde andará o Paulo, onde ele se esconde quando desaparece de circulação, misteriosamente... Pois eu sei, minha gente, eu descobri! Ele mergulhou dentro das fontes, atravessou o espelho, entrou no mundo dos seus personagens, sumiu no mato, como os negros fugidos, desceu à senzala, para estar com os escravos, saiu às ruas, disfarçado, para lutar com eles pela liberdade, ou, mais disfarçado ainda, foi participar das reuniões dos homens de bem para ouvir suas estratégias e entender as suas motivações... E, quando volta ao nosso mundo, é distante e discreto, mas corre logo ao seu computador para registrar tudo o que viu e ouviu. E, com essa estratégia e esse segredo, compõe suas histórias, das quais é exemplo, é claro, este belo livro! Sandra Jatahy Pesavento Professora Titular de História do Brasil da UFRGS
Sumário Abreviaturas 13 Introdução 15 1.1 Negociando seres humanos: “o motivo da venda não desagradará ao comprador” 42 1.2 Moradias e esconderijos: as “habitações inabitáveis” 54 1.2.1 Insurreição na senzala: desordem e negociações 65 1.3 Fugas 67 1.3.1 Suicídios 88 2 Quebrando os grilhões do cativeiro: o emancipacionismo organizado 91 2.1 Primórdios da luta contra o “cancro horrendo e contaminador”: o Partenon Literário e as primeiras sociedades libertadoras 92 2.2 Ciência, progresso e reforma social: a Sociedade Emancipadora Rio Branco e a manifestação da mocidade militar 106 2.2.1 Personagens 2.2.2 Fechamento 2.3.1 Esperança, filantropia e caridade 137 2.3.2 Os operários infatigáveis do abolicionismo e o papel político dos ex-escravos 147 2.4.1 o Centro Abolicionista 169 2.4.2 A propaganda e os populares 174 2.4.3 A crise da "lenda social" do abolicionismo 179 3 Ambigüidades e ambivalências: em busca da liberdade 185 3.1 Alforrias sem ônus ou condição: a liberdade como castigo ou prêmio 200 3.2 A1forrias condicionais 210 3.2.1 A liberdade fardada 212 3.2.1.1 A Guerra do Paraguai 215 3.2.1.2 As comissões de notáveis e as libertações por conta do Governo Imperial 221 3.2.1.3 Os substitutos 232 3.2.2 Esperando a morte do senhor – “se tiver a sorte de me sobreviver” 239 3.2.3 Os contratados por prestação de serviços 251 3.3 Alforrias compradas 258 3.3.1 Recursos de terceiros 260 3.3.2 Recursos próprios 271 3.4 Representações e práticas sobre cativeiro e liberdade 291 Considerações finais 301 Referências bibliográficas 303 | |