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Que com seu trabalho nos sustenta. As cartas de Alforria de Porto Alegre (1748-1888). |
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Que com seu trabalho nos sustenta. Afirmativa enigmática, densa de mistérios, de interrogações e hipóteses. Subjetividades e objetividades. Ser sustentado pelo trabalho de outrem é aparente tranqüilidade, mas inquietante frustração da existencialidade. Saber que o próprio ter para o próprio e arbitrário ser não pertence às próprias mãos, é negar a ordem do Criador - Vai, ordena a natureza, mastiga o pão com o suor do teu rosto - é a suprema frustração! Que com seu trabalho nos
sustenta. Com o consumir de vidas! Com braços cansados e esperanças apagadas! Com vidas dominadas, mas almas jamais amarradas! Dos corpos, a escravidão gerou angústia e prisão aos donos do pão, que amordaçaram seu próprio coração! O Rio Grande do Sul é sítio de indígenas, imigrantes e escravos àqueles o uso de liberdade consigo e com a natureza foi tolhido, retirando-se a terra debaixo de seus pés, chão que foi dado a estes em busca de seu pão, mas aos últimos, aqui aportados, ou melhor, cruelmente abortados, tudo foi negado. Falar de alforrias é falar de liberdade na pura teoria! Pressuposta liberdade, nascida de generosidades, concessões graciosas, crenças religiosas, filantropias, negócios... e desculpas frias. Se fosse possível enganar a consciência, possível seria acreditar nas alforrias! Ler-se-ia, então, a Bíblia da Liberdade, sem perceber o Testamento da Falsidade. Solo, origem, povos, culturas e crenças silenciadas, jamais o tempo as tem apagado! Há, enfim, um universo escuro, do qual o alforriado de ontem e de hoje precisa derrubar o muro! |
A mãe África, sem escravidão, ajude a África alforriada a construir a sua libertação! Indígenas, imigrantes e africanos, privados outrora de suas pátrias materiais, jamais perderam seus patrimônios morais. O reencontro do indígena com o livre solo, do imigrante com o suado manjar, do africano com o livre sonhar, vão a dança da liberdade, juntos, começar. Deo gratias! Graças a Deus.
Dar bases culturais às raízes africanas era meu sonho derradeiro, que agora vejo realizar-se por inteiro. Com aqueles primeiros humanos, negros tropeiros, que na minha mente infantil (1934) dividiam o mundo em negros e brancos, que em minha casa vinham pousar, quero agora, junto com eles, a libertação da opressão e da fome, em mesa farta degustar! Des-peço, pois, a Deus, a última graça pedida, de um dia chegar a esta obra publicar! Que ele desconsidere meu pedido, porque a dança livre entre negros e brancos, em outras obras, quero ainda, trôpego embora, vir a dançar! Porto Alegre, 20 de novembro de 2006. Frei Rovilio
Costa
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