| Frei Bruno Glaab |
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A Bíblia é o principal livro dos cristãos. Nele é que se baseia a nossa fé. Conhecemos Jesus Cristo através da Bíblia. Claro que também experimentamos Jesus Cristo na comunidade de fé, no testemunho, na oração, etc. Mas quem vai nos definir Jesus Cristo sempre será a Bíblia. Por isto, um cristão sem a leitura da Bíblia é como um caçador sem arma, ou um músico sem instrumento. Dito isto, não é necessário lembrar que a Bíblia deve ser o livro que nos acompanha diariamente. Sem a leitura da Bíblia nossa fé sempre será frágil, sem consistência. A Carta aos Hebreus nos diz: “Muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora, aos Pais pelos profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio de seu Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e pelo qual fez os séculos” (Hb 1,1-2). Daí concluímos que Deus se revela a nós. Ele o fez, já no Antigo Testamento, através de Abraão, Moisés, através dos profetas, mas quando chegou a plenitude dos tempos, Deus se revelou na pessoa de Jesus Cristo (Novo Testamento). Ou seja, em Jesus Cristo encontramos a plenitude da revelação. Tudo aquilo que nós precisamos saber sobre os planos de Deus, nós o encontramos em Jesus Cristo. O que não encontramos em Jesus Cristo, não é de nosso real interesse. Em Jesus Cristo Deus nos deu a conhecer seu plano salvífico de amor. Mas como vamos conhecer Jesus Cristo, o Filho de Deus, portador da revelação de Deus? Ora, a melhor maneira é conhece-lo na Bíblia. Principalmente no Novo Testamento. É no Novo Testamento que Jesus Cristo é apresentado em diversas cores. Marcos o apresenta de um jeito, Mateus e Lucas o reinterpretam, cada qual para sua comunidade. João tem outra cristologia de Marcos, Mateus e Lucas. Assim também Paulo e os demais escritores do Novo Testamento. Mas em algo todos são unânimes: Jesus é a revelação do Pai. Ele é o caminho que conduz ao Pai. Hoje existem pessoas mal informadas que buscam curiosidades na Bíblia. Querem saber segredos sobre o fim do mundo, sobre guerras, catástrofes, etc. Porém, Jesus não veio satisfazer curiosidades de ninguém. Ele veio instaurar o Reino de Deus e revelar o que Deus quer de cada filho e filha. Então busquemos na Bíblia o alimento sólido de nossa fé, para que Jesus Cristo não seja desfigurado. A leitura da Bíblia é como o alimento cotidiano. Se faltar, tornamo-nos fracos. Fracos, sucumbimos. Se sucumbirmos, nossa fé morrerá e se torna ineficaz. Para que Jesus Cristo seja o nosso vigor, para que possamos ser fiéis a Deus, leiamos a Bíblia todos os dias. |
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O que dizer de Maria? A Bíblia é o livro base do cristão. Hoje, quando tantas doutrinas querem fazer a cabeça das pessoas, convém lembrar o que diz 2Tm 3, 16-17: “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para toda boa obra”. - Toda Bíblia é inspirada por Deus. Embora tenham sido homens e mulheres que escreveram a Bíblia, eles não agiram apenas como seres humanos. Deus os inspirou para que sua obra não fosse apenas humana. A linguagem é humana, mas as verdades reveladas são divinas; - Útil para instruir. Para que a nossa fé seja autêntica ela deverá se basear na Bíblia. ali está o fundamento de toda teologia. - Para refutar e corrigir. Tantas falsas doutrinas permeiam o nosso mundo. Falsos valores impregnam a sociedade. A confusão é geral. Ás vezes não sabemos onde nos agarrar. Temos um caminho seguro. A Bíblia nos ensina a refutar e nos corrige. Por isto, diante de doutrinas, de filosofias, de teorias passageiras, está a Bíblia como caminho seguro para refutar os erros e corrigir os desvios. Importa deixa-la entrar em nossa vida, pela reflexão e pelo estudo. - Para educar na justiça. Só seremos verdadeiramente justos quando agimos motivados pela Bíblia, ou seja, quando nos pautamos pelas palavras de Jesus Cristo. Se nossa justiça não se inspirar em Jesus Cristo, não será verdadeira justiça. Poderá bem ser justiça dos homens, mas não a justiça de Deus. - A fim de que o homem de Deus seja perfeito. A perfeição do homem e da mulher são chega ao auge, quando se aproximam de Deus. O ser humano vem de Deus e somente em Deus realiza o seu fim último. Quem pautar sua vida por outros valores nunca atingirá a perfeição última. Fomos criados por Deus e para Deus. É nele que encontramos a perfeição. Ele nos ensina isto na Bíblia. Para que de fato possamos ter uma fé verdadeira, livres dos desvios, maduros na justiça e perfeitos no amor, não podemos nos esquecer que há um caminho. Este caminho é a revelação de Deus que se dá de maneira privilegiada na Bíblia. Por isto mesmo, a Bíblia deve merecer um lugar de destaque em nossos lares e em nossa vida. Quem não lê a Bíblia corre o risco de se desviar das verdades de Deus. Será um guiado de outros, mas se estes outros que o guiam não forem verdadeiros, corre o risco de se desviar do caminho. |
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A formação do Novo Testamento O Novo Testamento não nasceu pronto, nem sequer se formou no tempo de Jesus. Os apóstolos que conviveram co Jesus não possuíam livros. Eles liam o Antigo Testamento, mas do Novo Testamento nada estava escrito. Ninguém fez atas durante a vida de Jesus. Ou melhor, enquanto Jesus vivia em Nazaré e depois quando se tornou missionário ambulante, as pessoas não viam nele o Deus feito homem. Viam algo de especial nele, mas nem mesmo os apóstolos tinham certeza de que Jesus fosse Deus. Isto se percebe quando os apóstolos se frustram diante da morte de Jesus. Com a paixão, morte e ressurreição de Jesus uma luz é projetada sobre os seguidores do divino mestre. Com o pentecostes, a vinda do Espírito Santo, aos poucos, os apóstolos começam a entender a pessoa de Jesus Cristo e a assumir seu papel de testemunhar Jesus, sua vida, sua pregação e principalmente a sua ressurreição. Passam então a anunciar Jesus aos povos. Mas até então, a vida de Jesus não tinha sido escrita ainda. Também não era necessário, pois os apóstolos que conviveram com Jesus não precisavam de livros para pregar. Tinham sua memória. Podiam anunciar o que eles mesmos presenciaram, ou melhor, testemunhavam Jesus diante dos povos. Assim se formou um testemunho transmitido através da tradição oral. Ou seja, o Novo Testamento, antes de ser um livro, era a ação de Jesus Cristo com seu povo, depois transmitido e testemunhado como tradição oral durante décadas. Os primeiros livros escritos Alguns anos depois da paixão, morte e ressurreição de Jesus aconteceu a conversão de um fervoroso fariseu: Saulo que depois passa a se chamar de Paulo. Este ardoroso apóstolo iniciou a pregação do evangelho fora de Israel. Paulo ia às cidades, anunciava o evangelho e formava comunidades e depois partia para outras cidades. As comunidades recém-convertidas não estavam maduras para caminhar com suas próprias pernas. Quando surgiam problemas Paulo lhes escrevia cartas (epístolas). Assim, por volta de 48 ele escreveu a Primeira Carta aos Tessalonicenses (1º documento escrito do Novo Testamento). Até aí pelo ano 63 ele escreveu todas as cartas paulinas. Por volta do ano 70 a maioria dos apóstolos que conviveram com Jesus já estava morta e novos missionários estavam surgindo. Foi então que Marcos escreveu o primeiro evangelho para preservar o testemunho dos apóstolos. Em 80 Mateus e Lucas pegaram o evangelho de Marcos e o reescreveram, completando-o e melhorando algumas partes. Estes três evangelhos chamam-se de sinóticos, pois têm uma mesma perspectiva. Lucas também escreveu Atos dos Apóstolos. Neste período também se escreve algumas das outras cartas: Tiago, Judas, 1 e 2 Pedro, Hebreus. Por volta de 90 João escreve o 4º evangelho. Alguém de seu grupo escreve, logo após, as três cartas e o Apocalipse. Assim, ao terminar o primeiro século do cristianismo, o Novo Testamento, como livro, está pronto, mas ainda nem todos os livros são aceitos em todas as comunidades. Isto só acontece aí pelos anos 380. |
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O evangelho de Marcos Quando abrimos a Bíblia no Novo Testamento nos deparamos, logo no início, com o evangelho de Mateus. Mas não foi este o primeiro evangelho escrito. O primeiro evangelho escrito foi Marcos, cuja redação deve ser dos anos 70. Ele é o primeiro que escreve um evangelho, portanto, inaugura este gênero literário. Ao ler o evangelho de Marcos é bom ter presente que não se trata de um livro de atas que pode ser lido como se lê um livro de história. Marcos, antes de ser um historiador, é um teólogo. Mais do que transmitir detalhes da vida pessoal de Jesus, que testemunhar a mensagem do Reino de Deus, trazida por Jesus. Assim sendo, no evangelho de Marcos, podemos perceber a mão do redator, bem como o testemunho da comunidade que transmitiu o conteúdo de Marcos. Ou seja, Marcos e sua comunidade apresentam Jesus a sua maneira. Jesus fez muito mais do que está nos evangelhos. Cada evangelista selecionou aquilo que no momento precisava para sua comunidade em vista de preservar a verdadeira fé. Foi assim que Marcos buscou na tradição, o que no momento convinha para as comunidades onde ele anunciava Jesus. Linhas mestras do evangelho de Marcos Marcos é o evangelista do Segredo Messiânico. Talvez o leitor já tenha percebido que em Marcos, quando Jesus faz algo interessante, ele proíbe de dizê-lo. Ora são os demônios que devem calar, ora são os agraciados que devem calar, ora são os discípulos que devem calar (Mc 1,25.34-44; 3,11; 5,43; 7,36; 8,26.30; 9,9, etc.). Ou seja, sempre que Jesus age e de sua ação se poderia concluir que ele de fato é o Cristo, deve-se calar. Só quando ele morre como um fracassado na cruz, então é que se pode dizer quem ele é: “de fato este homem era o Filho de Deus” (Mc 15,39). Quando Jesus pergunta aos discípulos quem ele seria e Pedro responde, dizendo: “tu és o Cristo” (Mc 8,27-30), também ele deve calar, pois Jesus irá até Jerusalém, lá será flagelado, crucificado, morto e ressuscitará (Mc 8,30ss; 9,30ss; 10,32ss). Por que Marcos insiste tanto no silêncio e no anúncio da cruz? Nos tempos da redação de Marcos, por volta do ano 70, havia uma cristologia festiva. Muitos daqueles cristãos que não conheceram o Jesus histórico de Nazaré, mas apenas receberam o anúncio do ressurreição e dos milagres, olhavam para Jesus como uma espécie de super-herói. Facilmente esqueciam da cruz. Isto causava um transtorno na mentalidade dos seguidores. Desta forma Jesus, mais do que um modelo a seguir, tornava-se um suposto remédio para qualquer problema. Antes de levar os discípulos a tomar sua cruz e seguir Jesus e assim transformar a história, pretendia-se fazer dele um quebra-galho para qualquer problema. Não é difícil perceber que os discípulos se tornavam passivos, sem compromisso com a história. Diziam: “por que se preocupar, se Jesus pode resolver todos os nossos problemas?” Marcos quer evitar este tipo de mentalidade. Jesus não faz milagres por sensacionalismo. Só pode entender Jesus quem, com ele for até a cruz (Mc 15,39). Quem, como o centurião, não viu nada de extraordinário, a não ser o fracasso de um condenado, e mesmo assim acredita, este é apto a ser cristão. Quem, pelo contrário, espera milagres, nunca entenderá Jesus.
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O evangelho de Mateus O evangelho de Mateus é um livro escrito sobre o evangelho de Marcos, ou seja, Mateus usou o evangelho de Marcos, o reescreveu, o completou e aumentou. Então, Mateus conhecia o evangelho de Marcos, mas também conhecia outra fonte onde se testemunhava o ensino de Jesus. Quem lê o evangelho de Marcos e depois lê o evangelho de Mateus há de perceber que a estrutura do evangelho é a mesma. Porém, Mateus tem material que não se encontra em Marcos. Assim poderíamos citar os evangelhos da infância (Mt 1-3), ou seja, Mateus fala da infância de Jesus, Marcos não o faz. Seu evangelho inicia com a vida pública de Jesus. Além dos capítulos que falam da infância de Jesus, Mateus também escreve sobre muitos discursos de Jesus. Marcos muitas vezes diz que Jesus ensinava, mas não diz o que ele ensinava aos seus discípulos. Mateus traz muitos discursos, dizeres, frases de Jesus que não se encontram em Marcos. Por exemplo: além dos já citados capítulos 1-3 que falam da infância, Mateus nos traz o belo Sermão da Montanha (Mt 5 e 6). Este mesmo sermão não está em Marcos. Temos outros discursos de Jesus, que não estão em Marcos. Mt 18,12-35; 20,1-16, etc. Teologia de Mateus Mateus é judeu e escreve para cristãos de origem judaica. Logo, em seu livro ele usa muitas categorias judaicas. Já na genealogia (Mt 1,1-17) o evangelista interliga Jesus com a tradição judaica. Jesus é descendente de Abraão e entre seus antepassados estão figuras como Davi, Salomão, Josias, etc. todos da história de Israel. A infância é semelhante à origem de Israel. Moisés está no Egito (Ex 2), Jesus foge para o Egito (Mt 2,13ss). No Egito se mata os meninos (Ex 1), quando Jesus foge para o Egito, em Israel se mata os meninos (Mt 2, 16ss). O povo de Deus é tentado no deserto (Ex 16ss), Jesus também sofre a tentação no deserto (Mt 4,1ss Moisés recebe a lei sobre o Monte (Ex 19), Jesus sobe ao monte e dá a nova lei (Mt 5,1ss). Mateus, como os judeus fervorosos, evita pronunciar o nome de Deus. Enquanto os demais evangelhos falam no Reino de Deus, Mateus diz, Reino dos Céus, pois um judeu não pronunciava o nome de Deus. Assim se pode perceber outros paralelos entre a figura de Jesus e o Antigo Testamento. Outra idéia teológica que podemos perceber em Mateus é o nome de Emanuel, que significa Deus conosco (Mt 1,23). Depois de terminar sua narração da vida de Jesus, Mateus conclui que o ressuscitado que se despede, ficará sempre com sua Igreja: “eis que eu estarei convosco todos os dias, até a consumação dos séculos! (Mt 28,20). Conclusão Mateus segue Marcos de perto, mas tem uma perspectiva própria, pois seus leitores são outros. Como foi dito, Mateus quer alimentar a fé, ou catequizar cristãos de origem judaica, por isto mesmo, ele usa um linguajar, imagens e conceitos próprios do mundo judaico. Cada evangelista apresenta Jesus Cristo aos seus leitores com uma fisionomia própria, ou seja, Jesus deve ser compreensível para seus leitores. |
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O evangelho de Lucas Assim como Mateus, também Lucas se valeu do evangelho de Marcos para desenvolver o seu evangelho. Também ele seguiu a estrutura do evangelho de Marcos, mas a completou. Da mesma forma que Mateus, Lucas reescreveu o evangelho de Marcos valendo-se também de outra fonte para completar sua obra. Assim sendo, também o evangelho de Lucas segue a estrutura do evangelho de Marcos, mas seu evangelho é mais completo. Alguns ensinos de Jesus estão em Lucas e em Mateus, mas não estão em Marcos. Isto mostra que tanto Lucas como Mateus, além de terem acesso ao evangelho de Marcos, tiveram acesso a outra obra, de onde tiraram discursos, como as Bem-aventuranças, o Pai Nosso, etc. Lucas, assim como Mateus, tem o evangelho da infância de Jesus (Lc 1-3). Se o leitor comparar o evangelho da infância no evangelho Lucas (Lc 1-3) com o evangelho da infância de Mateus (Mt 1-3), vai perceber que há muitas diferenças. Daí podemos concluir que os evangelhos não devem ser lidos como se fossem atas ou relatos estritamente históricos. São, na realidade, mais teologia do que história. Contém história, mas não no sentido atual do termo. Lucas é o único autor não judeu de um livro bíblico. Ele é de cultura grega e escreve para gregos, ou seja, para cristãos vindos de fora do judaísmo. Por isto mesmo, a obra de Lucas, apesar de ter as mesmas fontes do evangelho de Mateus (Marcos e uma outra fonte), se diferencia de Mateus. Ou seja, Mateus apresenta Jesus para judeus. Por isto usa uma linguagem, ou uma roupagem judaica. Lucas apresenta o mesmo Jesus para gregos e por isto não usa a linguagem e roupagem judaica, pois assim não se faria entender. Algumas idéias teológicas de Lucas Lucas insiste muito na presença do Espírito Santo na obra de Jesus. Já na concepção de Jesus está a força do Espírito (Lc 1,26ss). O velho Simeão vai ao templo na hora da apresentação do menino, movido pelo Espírito Santo (Lc 2,27) e profetisa sobre o menino. O Espírito vem sobre Jesus no batismo (Lc 3,21-22) e é este mesmo Espírito que conduz Jesus ao deserto e o mantém firme na tentação (Lc 4,1ss). Ainda é o mesmo Espírito que leva Jesus a Nazaré e o faz entrar na sinagoga para pregar (Lc 4,14-15). Lá o mesmo Espírito Santo é o animador do programa de Jesus, quando ele diz: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou pela unção para evangelizar os pobres...”(Lc 4,18ss). Neste texto onde se mostra a que Jesus veio, é o Espírito o animador. A missão de Jesus está embasada na ação do Espírito Santo. Assim sendo, toda missão de Jesus é animada pelo Espírito Santo. Esta mesma idéia teológica continua no livro dos Atos dos Apóstolos, que também foi escrito pelo mesmo Lucas. Lucas tem uma grande sensibilidade para com os pobres, fracos e pecadores. Maria, ao receber o anúncio da maternidade divina, canta: “Depôs os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Cumulou de bens os famintos e a ricos despediu de mãos vazias” (Lc 1,52-53). Em Lc 4,18ss ele diz que veio anunciar uma boa notícia aos pobres, libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor. Tudo isto eram favores aos pobres. Também nas Bem-aventuranças Lucas é mais incisivo do Mateus. Ele fala na forma pessoal: “Bem-aventurados vós, os pobres...” Diz ainda: “mas ai de vós ricos...” (Lc 6,20-26). Concluindo Lucas mostra um Jesus muito sensível aos pobres, aos fracos e aos pecadores. Toda a sua obra é animada pelo Espírito Santo. Sua linguagem não é judaica para que pudesse ser entendido pelos gregos. Lucas apresenta Jesus da forma que seus leitores o pudessem entender. |
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O evangelho de João O evangelho de João é também chamado de quarto evangelho. Ele é posterior aos evangelhos sinóticos (Mc, Mt e Lc). Sua estrutura difere muito dos demais. É um evangelho bastante espiritual. João apresenta Jesus de forma preexistente (Jo 1,1-17). Ele diz: “No princípio era o Verbo, o Verbo estava em Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). Jesus, o Verbo, era Deus e estava desde o princípio. Estava como Verbo, mas ele resolveu se encarnar na história dos humanos. João apresenta seu evangelho se desenvolvendo em duas semanas. Logo no primeiro capítulo ele começa a contar dias, como no Gênesis 1. Ele descreve o início da ação de Jesus (Jo 1,19ss) e depois diz: “No dia seguinte” (Jo 1,29). O mesmo ele repete em Jo 1,35 e em Jo 1,43. Nas bodas de Cana ele diz: “ três dias depois”, ou “ no terceiro dia” (Jo 2,1ss). Está ali iniciando a primeira semana e nela Jesus age criando o homem novo. A primeira semana culmina com a ressurreição de Lázaro (Jo 11). Em Jo 12 ele inicia a segunda semana. “Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia” (Jo 12,1). Esta segunda semana culmina no sábado santo, quando Jesus está na sepultura (Jo 19,38ss). Agora acabou a velha realidade. Com a ressurreição de Jesus inicia a nova semana, ou seja, o domingo sem ocaso. “No primeiro dia da semana, Maria Madalena vai ao sepulcro (Jo 20,1). É no primeiro dia da semana que Maria Madalena encontra o ressuscitado e o testemunha aos apóstolos (Jo 20,18). Ainda é no primeiro dia da semana, à tarde que Jesus aparece aos discípulos; “À tarde deste mesmo dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas...! (Jo 20,19ss). Foi neste primeiro dia que Jesus assopra o Espírito Santo sobre os apóstolos e lhes dá a missão de continuar a sua obra pelo mundo. Tomé, o incrédulo, não participo do primeiro dia e por isto não chegou à fé no ressuscitado (Jo 20,24). Oito dias depois, portanto, novamente no primeiro dia da semana, a comunidade estava reunida e Tomé estava com a comunidade e o milagre acontece: no primeiro dia ele pode proclamar: “meu senhor e meu Deus” (Jo 20,28). Agora é o primeiro dia que não termina ou o domingo sem ocaso. Neste dia acontece a Igreja, isto é, a adesão a Jesus pela fé, mesmo sem ter visto. Concluindo Jesus fez muito mais do que está escrito nos evangelhos (Jo 20,30 e Jo 21,25). João se valeu de uma parte e dispôs esta parte numa redação lógica para apresentar Jesus como aquele que veio para recriar o homem novo. A obra de Jesus se completa com a paixão, morte e ressurreição. Agora iniciou a nova realidade. O ressuscitado pede a adesão pela fé, pois assim a sua obra continua através da história. Muitas outras idéias poderiam ser destacadas no quarto evangelho, mas devido ao espaço ficamos por aqui. Noutras ocasiões estudaremos partes dos evangelhos, e provavelmente também do evangelho segundo S. João. |
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Os Atos dos Apóstolos O mesmo autor que escreveu o evangelho de Lucas, escreveu, também o livro dos Atos dos Apóstolos (comparar Lc 1,1-4 com At 1,1-5). Portanto, no evangelho de Lucas se conta a vida de Jesus, e nos Atos dos Apóstolos se conta a vida da igreja, logo depois da despedida física de Jesus, quando, enfim, os apóstolos começam a guiar e conduzir a igreja fundada por Jesus. Na realidade, o livro dos Atos dos Apóstolos não narra propriamente os atos dos apóstolos, mas antes, os atos de Paulo (At 13-28) e, até certo ponto, os atos de Pedro (At 1-5; 10; 15). Cita levemente Tiago e João e dos outros cita apenas os nomes. Mas o centro do livro é a missão de Paulo. Algumas idéias teológicas de Atos dos Apóstolos Entre as muitas idéias podemos destacar: 1) Paulo foi o apóstolo que abriu a igreja para os gentios (não judeus). Por isto mesmo ele foi mal entendido e até odiado por algumas pessoas da comunidade. Uns vinte anos depois de sua morte, Lucas quer defender Paulo. Lucas faz isto de diversas maneiras. Em primeiro lugar mostra que a abertura eclesial feita por Paulo também já foi ensaiada por Pedro (At 10). Mostra também que sempre que Paulo foi aos gentios para anunciar o evangelho, ele o fez motivado pelo Espírito Santo (At 13,1-5; !6,1ss, etc.). A abertura do evangelho aos povos, segundo Lucas, não foi obra humana, mas sim, do Espírito Santo. No livro de Atos dos Apóstolos, o grande missionário Paulo sempre se dirigia antes aos judeus (At 13ss), mas como estes não quiseram se converter, Paulo se dirigiu aos gentios. Logo, Paulo agiu pelo Espírito e fez o que Pedro também já fez. Ou seja, Paulo é legítimo sucessor de Pedro, assim com Pedro é legítimo sucessor de Jesus, enquanto Jesus segue o Antigo Testamento. Quem está na comunidade paulina, está em sintonia com Pedro, com Jesus e com o Antigo Testamento. 2) A igreja, depois da ascensão de Jesus é testemunhada pelos apóstolos, mas estes têm a proteção do Espírito Santo (At 1,6-8). Os apóstolos se tornam ativos com a vinda do Espírito Santo (At 2). Até então eles são medrosos, mas com a vinda do Espírito Santo eles se tornam anunciadores da Palavra. A igreja, segundo Lucas, caminha com duas pernas: o Espírito Santo e o testemunho (At 1,6-8). 3) O livro dos Atos dos Apóstolos destaca o primado de Pedro. Assim que Jesus se despede (At,1,6-11), é Pedro que toma as rédeas da comunidade na mão. É ele quem coordena a escolha do sucessor de Judas (At 1,15-26). Também é ele quem se pronuncia por primeiro depois da vinda do Espírito Santo (At 2,14ss). É ele quem dirige a palavra no templo (At 3,11-26) e diante do sinédrio (At 4,8-12). Quando surge o primeiro problema pastoral na igreja (At 15,1-35) novamente é Pedro quem toma a dianteira para dirimir a questão. 4) A igreja deve congregar todos os povos. Quando vem o Espírito Santo (At 2,1-13), ele faz com que os apóstolos sejam entendidos por todos os povos que se congregam em Jerusalém: partos, medos, elamitas, da Panfília, da Frigia, judeus, árabes, etc. A igreja animada pelo Espírito Santo não exclui, mas faz com que todos os povos se entendam. Não é preciso ver milagres neste fato. Trata-se da união de todos os povos em Cristo, movidos pelo Espírito Santo. Conclusão O livro dos Atos dos Apóstolos quer mostrar, mais teológica do que historicamente, os primeiros passos da jovem igreja depois da ausência física de Jesus. A igreja é para todos. Paulo abriu sua prática pastoral para todos os povos, pois assim o Espírito o determinou. Pedro também já o fizera.
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As Cartas de Paulo Paulo escreveu uma porção de cartas. Algumas levam seu nome, mas foram escritas, talvez depois de sua morte. Assim, as cartas de Paulo, que os biblistas supõem serem de Paulo, com toda certeza, são: 1 e 2 Ts; 1 e 2 Cor; Gl; Rm; Fl; Fm. As cartas que parecem ser de Paulo, mas sem total certeza: Cl e Ef. Cartas que não são de Paulo, mas levam seu nome: 1 e 2 Tm; Tt. Carta não é de Paulo, mas, às vezes foi atribuída a ele: Hb. As cartas aos Efésios e Colossenses se assemelham-se à maneira paulina de escrever, mas há algumas dúvidas. Poderiam ser de algum discípulo de Paulo. As cartas a Timóteo e Tito certamente não são de Paulo. Seu estilo e seu conteúdo são diferentes. Talvez, depois de sua morte, um discípulo tenha usado a doutrina de Paulo e escreveu estas cartas. Naquele tempo é comum se atribuir a autoria de um livro a uma pessoa importante. A carta aos Hebreus não é de Paulo, nem é carta, mas antes um tratado cristológico e também não é destinado aos hebreus. Esta definição vem dos primeiros séculos e por isto, hoje não se pretende mudar, mas sabe-se que não se está diante de uma carta paulina. Mas isto não muda em nada a doutrina genuína que estas cartas transmitem, pois mesmo não sendo de Paulo, são livros inspirados e como tal devem ser lidos em nossas Bíblias. Algumas idéias teológicas de Paulo Entre as muitas idéias teológicas de Paulo, podemos destacar: 1) A justificação pela fé (Rm 4 e Gl 3-4). No mundo farisaico o fiel praticamente produzia a sua salvação, ou seja, pela observância da Lei de Moisés (Pentateuco), julgava-se que o homem e a mulher tinham a salvação garantida. Os primeiros cristãos não tinham ainda clareza quanto a isto. Apesar de terem aderido a Jesus, eles ainda iam ao templo (At 3), ainda circuncidavam seus filhos (At 21,10-26) e observavam a Lei de Moisés. Paulo percebe que a justificação não vem pela observância da Lei, mas pela fé em Jesus Cristo. Se fosse a Lei que justificasse, então a vinda de Jesus Cristo, bem como sua paixão, morte e ressurreição seriam em vão. Segundo Paulo, não é a Lei, nem a observância da Lei que salva, mas é Jesus Cristo. Em outras palavras, não é o fiel que produz sua salvação, mas é Jesus Cristo. A salvação é graça, não mérito. 2) Jesus morreu por nós (Gl 1,3-4; 1Cor 15,3, etc.). Paulo talvez foi um dos primeiros a interpretar a morte de Jesus como sacrifício pelos pecadores. Por isto Paulo insiste muito na cruz de Cristo (1Cor 1,17ss; Fl 2,6-11; 3,18). 3) Em Cristo não há, nem judeu, nem grego (Gl 3,28; Rm 1-3). Os fariseus eram excludentes. Não se misturavam com outras raças. Também os primeiros cristãos que tinham vindo do judaísmo não estavam muito propensos a se misturar com os gentios, isto é, os não judeus. Só anunciavam o evangelho aos judeus. Paulo foi um dos primeiros missionários que saiu da Palestina e anunciou o evangelho indistintamente a todos. Ele entendeu que em Cristo todos somos um. Tanto os judeus como os gregos precisam da graça, e esta graça, quem a dá, é Cristo (Rm 1-3). O fato de o cristianismo hoje estar espalhado no mundo, se deve em grande parte ao apóstolo Paulo. Sem ele, a igreja poderia ser um pequeno raminho dentro do judaísmo. Conclusão Paulo percebeu que Jesus é a grande novidade. A velha Lei caducou. O homem não se salva pelas obras, mas pela fé em Jesus, pois este morreu por nós. Ninguém mais tem preferência. Todos, judeus e gregos, escravos e livres, homens e mulheres, são um em Cristo.
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As outras cartas Além das cartas de Paulo, no Novo Testamento encontramos as assim chamadas cartas católicas, isto é, universais. São assim chamadas, por não terem destinatário específico, mas universal. Trata-se da cartas de Tiago, Judas, 1 e 2 Pedro. 1,2 e 3 João. Estas cartas, ao que parece, são posteriores às cartas de Paulo. Diríamos que são cartas dos anos 80-90. Elas foram atribuídas a Tiago, a Pedro, a Judas e a João, mas estes apóstolos provavelmente já não viviam mais. Ou seja, ao serem escritas, foram atribuídas a pessoas importantes dentro da comunidade. Dentro de todas estas cartas podemos destacar três: 1) A carta de Tiago: é uma carta que fala pouco de Jesus (1,1; 2,1). Seu gênero literário é próximo ao Eclesiástico e ao livro da Sabedoria. Tem certo parentesco com Mateus. A teologia de Tiago é muito diferente da teologia de Paulo. Enquanto Paulo fala da justificação pela fé (Rm 4; Gl 3-4), Tiago fala que a fé sem as obras é morta (Tg 2,14ss). Chega até a usar o mesmo exemplo que Paulo usa: a figura de Abraão que justificado pela fé (Paulo), ou justificado pela fé e obras (Tiago). Alguns biblistas julgam que a teologia de Paulo foi levada ao extremo, ou mal interpretada. Tiago teve de chamar os cristãos à realidade. Fé sem obras é morta. 2) A Primeira carta de Pedro: Pedro dirige-se cristãos da diáspora (1Pd 1,1; 1,17 e 2,11). Parece que os cristãos estavam vivendo uma situação de desarraigamento social. O Império Romano jogava os cristãos de um lado para o outro, ou lhes tirava as terras e eles ficavam numa situação de penúria. Além do mais, os cristãos eram maltratados pelo povo, pois eles eram diferente dos pagãos. Eram objeto de gozação. Pedro quer animar os cristãos peregrinos e forasteiros sem lar. Quer criar uma identidade nos grupo, para que juntos, possam suportar as contradições desta vida e permanecer firmes na fé. 3) A Primeira carta de João: a comunidade joanina vive um dilema. Alguns membros interpretaram mal o evangelho de João. Entre eles está um grupo de discípulos que seguem a doutrina dos docetitas. Estes negavam a materialidade de Jesus. Diziam que a corporalidade de Jesus era apenas aparência. Por isto, a primeira carta de João começa dizendo: “O que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos, e nossas mãos apalparam...”. Ou seja, João combate esta falsa doutrina mostrando que Jesus é real. João chama esta gente de Anticristo (1Jo 2,18). E ainda diz: “Eles saíram de entre nós, mas não eram dos nossos. Se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco” (1Jo 2,19). Conclusão Desde os primórdios do cristianismo, sempre houve dificuldades. Uns cristãos exageravam na teologia de Paulo. Tiago responde a eles, chamando-os à responsabilidade de uma fé compromissada. O Império Romano deixava o povo sem raízes. A Primeira carta de Pedro quer criar uma identidade no grupo dos cristãos. Os docetistas iludem o povo com falsas doutrinas cristológicas. A Primeira carta de João corrige estas doutrinas. A Igreja sempre esteve exposta às heresias e ainda continua. As cartas católicas são tentativas de correção.
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A carta aos Hebreus Costumeiramente se chama Hebreus de Carta de São Paulo aos Hebreus. Mas isto não corresponde à verdade. Em primeiro lugar, Hebreus não é carta. Em segundo lugar, Hebreus não foi escrita por Paulo. E por fim, nada prova que a carta é dirigida aos hebreus. Porém, isto em nada desmerece o livro que leva este nome. Hebreus, antes de ser uma carta, é um tratado teológico. Sua linguagem e seus conceitos teológicos estão muito distantes da literatura paulina. Hebreus, não obstante isto, é um livro inspirado do Novo Testamento e por isto mesmo merece nossa atenção e respeito como qualquer outro escrito do Novo Testamento. O livro de Hebreus reflete a teologia do fim do primeiro século da era cristã. Alguns autores a situam nos anos 80, outros, nos anos 90 ou até início do segundo século. Alguns pontos importantes de Hebreus Entre as muitas idéias teológicas de Hebreus que se pode destacar, estão as seguintes: - A superioridade de Jesus Cristo (Hb 1,1-14). Num momento, quando se faz especulações sobre os anjos, o autor de Hebreus nos apresenta Jesus Cristo como a revelação definitiva do Pai. Não se pode colocar nenhum anjo acima de Jesus, pois este é o filho de Deus. Não há redenção pelos anjos (Hb 2,5ss), mas somente por Cristo. - Jesus Cristo como sumo sacerdote (Hb 3; 5; 7; 8). Hebreus é o único escrito do Novo Testamento que chama Jesus de sacerdote, pois Jesus de fato não era da linhagem sacerdotal, e, alem do mais, a teologia de Jesus não se coadunava bem com a teologia do templo, ou do sacerdócio. - Jesus Cristo como único e definitivo sacrifício (Hb 10-11). No Antigo Testamento se fazia sacrifícios no templo. Uma vez por ano o sumo sacerdote entrava no santo dos santos, levar o sangue de animais para obter o perdão dos pecados. Com Jesus Cristo e com sua doação na cruz, os antigos sacrifícios perderam seu sentido. Jesus morreu uma vez e esta doação da vida é para sempre. Não é mais preciso imolar nenhum animal pelos pecados. Em Cristo está a remissão dos pecados e esta remissão é definitiva, para sempre. - A fé exemplar dos antigos (Hb 11). O autor de Hebreus apresenta a fé dos antigos, citando inúmeras pessoas do Antigo Testamento, como exemplo para os fiéis atuais. Neste capítulo pode-se fundamentar o sentido do culto aos santos. O exemplo dos antigos, como desafio para os fiéis, leitores da carta. Conclusão Hebreus trata de questões teológicas e pastorais. Apresenta Jesus Cristo como sumo sacerdote e sacrifício definitivo, acima dos anjos. Apresenta, também , a fé do antigos como exemplo para os fiéis de hoje. Assim, os leitores podem conhecer melhor a Jesus, bem como se espelhar no exemplo dos que outrora viveram a sua fé.
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O livro do Apocalipse O livro do Apocalipse é um livro um tanto estranho, ou melhor, trata-se de um gênero literário não convencional. Existem outros livros bíblicos que fazem parte da literatura apocalíptica, o principal deles é o livro de Daniel, no qual o Apocalipse se inspira muito. O gênero literário apocalíptico tem como característica escrever através de símbolos, visões e previsões, que na realidade não são previsões. Muitas pessoas mal informadas valem-se do Apocalipse para amedrontar as pessoas e fazer previsões sinistras, fixando datas para o fim do mundo e tudo o que acontece na história atual, querem ver prefigurado neste livro. Mas isto é uma grande bobagem. Apocalipse não é livro de previsões. Antes, é livro de encorajamento. Ou seja, o gênero literário apocalíptico surge no século II a.C. em tempos de duras perseguições. O povo de Deus não tinha como se expressar, pois a violência dos reis helênicos era muito cruel. Assim sendo, usava de uma maneira velada para encorajar o povo desolado. Fazia-o de forma simbólica para que a polícia do rei não o entendesse. Assim surgiu o livro de Daniel no Antigo Testamento. No Novo Testamento temos o livro chamado de Apocalipse. Ele foi escrito em três momentos. Nos anos 60, quando o imperador Nero perseguia os cristãos com requintes de crueldade, foram escritos os capítulos 4-11 com a intenção de animar os pobres cristãos diante da possibilidade da apostasia. Nos anos 90, quando o imperador Domiciano reassumiu o projeto sanguinário de Nero e quis por fim ao cristianismo, foram escritos os capítulos 12-22. Depois se acrescentou os capítulos 1-3 como o alpendre de uma casa. Doutrina do Apocalipse A grande tese do Apocalipse é: "Não tenham medo! Jesus ressuscitado é o Senhor do mundo". Assim sendo, Ap 1 mostra o Jesus ressuscitado como o senhor da história, bem como as sete cartas (Ap 2-3) mostram que preciso perseverar diante das perseguições. Em Ap 4-11 se aponta para o fato de que Deus é o Senhor do mundo. Ele é adorado pelos anciãos, pelos animais e pelos anjos (humanos, todos os animais e seres celestes). Ele concede todo o poder ao seu filho, o cordeiro imolado. Este recebe o livro da história em suas mãos e é o único que pode abrir os selos, enquanto os anjos derramam o furor de Deus sobre a terra para terminar aos poucos os grandes impérios. Quando tudo estiver terminado, sobram os que foram fiéis ao cordeiro. É a vitória do cordeiro e dos discípulos sobre o império do mal. Nos capítulos 12-22 a mesma história é retomada, mas agora com cores mais vivas. A luta acontece no céu (Ap 12) entre a mulher grávida e o dragão (igreja e o demônio). A igreja é protegida por Deus, ela dá à luz e é levada ao deserto. O dragão é expulso para a terra e passa seu poder à besta (Ap 13) que vem do Mar (Imperador Domiciano). Assim o imperador assassino recebe o poder do demônio. A partir do capítulo 14 começa a derrocada do império da besta. Tudo é destruído. Agora começa o reinado de Cristo, o casamento do cordeiro (Ap 19,7). Assim se formam Novos Céus e nova terra (Ap 21). Conclusão Apocalipse não é livre de magia ou de previsões, mas antes, de encorajamento diante das dificuldades. Os cristãos devem saber que o império, por mais cruel que seja, tem os dias contados. Vale a pena permanecer fiel ao ressuscitado, pois todos os reinos serão destruídos. Só Deus é o Senhor do mundo. Todo sofrimento passa. A fidelidade será compensada. |
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A pessoa de Jesus Cristo Hoje muito se fala em Jesus Cristo. Até aqueles que não têm fé mencionam seu nome. Nem todos, no entanto, o conhecem da maneira bíblica. Para alguns Jesus é pessoa importante pelas idéias que semeou e pelo bem que fez. Para outros Jesus é um personagem como tantos outros: Gandi, Sócrates, Isaías, etc. Esta certamente não é a maneira bíblica de ver Jesus. Ele não é apenas uma pessoa importante. É o próprio Deus feito homem, caminho que leva ao Pai, ou melhor, único caminho (Jo 14,6). Por isto, aqui vamos apresentá-lo segundo o evangelho de São João. No princípio era o Verbo (Jo 1,1-18) O quarto evangelho (S. João) nos diz que no princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Com isto o evangelista nos ensina que Jesus é algo mais do simplesmente um ser humano, mas Deus feito humano e que foi este ato de se encarnar que trouxe para os humanos a possibilidade da salvação. O Verbo estava desde o princípio, ou seja, Jesus, enquanto Deus, sempre existiu. Ele estava em Deus e ele era Deus. Ele estava junto à criação desde sempre, pois ele, com o Pai e o Espírito Santo, é Deus. Porém, ele não era conhecido como Jesus. Num dado momento de nossa história ele se encarnou (Jo,114) e o fez para ser a vida e a luz para o mundo (Jo 1,4-5). Veio – se encarnou – para que tivéssemos a vida e a luz. Muitos não o receberam, pois preferiram as trevas, mas aqueles que o receberam, tornaram-se filhos de Deus (Jo 1,12). Nesta perspectiva podemos falar da encarnação de Jesus Cristo como a vinda de Deus até a história humana, não mais como alguém de forma, mas como alguém que experimentou em sua existência a situação humana com todos os limites que isto implica. Ele o fez para trazer a luz ao mundo e para estabelecer o único e definitivo caminho para o Pai (Jo 14,6). Por isto mesmo, falar de Jesus Cristo é muito mais do que falar de qualquer personagem importante da história humana. É falar de Deus que se tornou humano, que veio para ser a luz do mundo, a verdadeira vida (Jo 1,10). Conclusão Para nós, homens e mulheres, que vivemos dois mil anos depois deste fato (encarnação do Verbo), cabe uma reflexão toda especial: não queremos olhar para Jesus Cristo como para uma líder ou para algum iluminado. Jesus pode ser tudo isto, mas é muito mais. Ele é o Deus encarnado na história que revelou o caminho do Pai para os humanos e o caminho dos humanos para o Pai. Por isto, mais do admirar a figura de Jesus, admirar suas idéias e sua coerência, cabe a nós, assimilá-lo em nossa vida e testemunhá-lo ao mundo como a encarnação da própria salvação do gênero humano. Ninguém dá a vida pelos líderes, heróis e iluminados da história, por mais que sejam admirados. Jesus não quer ser admirado, quer ser seguido. Não quer nossa admiração, mas sim, nossa adesão total. Por isto mesmo, para nós, os cristãos, Jesus Cristo é a única condição que dispomos de viver a nossa humanidade no verdadeiro sentido que Deus para nós planejou. Ele é o caminho, a verdade e a vida.
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A jovem igreja em crise (Lc 24,13-35) O relato do evangelho de Lucas conhecido como o relato dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35) é um retrato falado das primeiras comunidades. O texto nos diz que no dia da ressurreição dois discípulos estavam indo embora para uma aldeia chamada de Emaús. Estavam tristes, pois tinham colocado a sua esperança em Cristo, mas agora já fazia três dias que ele fora condenado à morte. Humanamente falando, tudo resultou num grande fracasso. Só restava voltar para a vida de antes, tudo deu em nada. Mas é nesta caminhada que um estranho se aproxima e entra na vida deles. Eles não o conhecem. Revelam ao estranho toda a sua desilusão. Pensaram que a maldade dos chefes fora mais forte que a vida do seu mestre. Ou seja, supunham que a maldade vencera o bem. Nestas circunstâncias, em que nada é claro, surge um forasteiro estranho que entra em seu assunto. Dialoga, mas não se revela. Somente quando a comunidade dos retirantes acolhe este estranho, com ele celebra e partilha o pão é que o véu cai. Agora os discípulos reconhecem o ressuscitado e imediatamente se põem a caminho para testemunhar o ressuscitado. O texto de Lc 24,13-35 é um retrato falado da igreja nascente. Às vezes, em meio às dificuldades, parece que tudo está perdido. O Cristo está ausente, ou ao menos parece estar ausente e as esperanças se esvaem. Quando falta esta certeza, os discípulos se recolhem, voltam para Emaús, isto é, se retiram para seu pequeno mundo. Mesmo Cristo caminhando com eles, não o reconhecem. As incertezas e as dúvidas tomam lugar. O testemunho dos outros não convence mais. Percorrer as páginas da Bíblia não é o suficiente para encontrar o ressuscitado. A solidariedade e a fé expressa na comunidade Mas nem tudo está perdido. Havendo ainda, debaixo das cinzas da falta de fé, um pequeno sinal de solidariedade, de acolhida, de partilha e de espírito de celebração comunitária, tudo pode acontecer. Os discípulos de Emaús acolheram um estranho, com ele celebraram e partilharam seu pão. Isto foi suficiente para se lhes abrir os olhos e reconhecer o Cristo Vivo. Em nossas comunidades a fé nunca será verdadeiramente autêntica quando faltar a dimensão comunitária. A fé que aprendemos na catequese é verdadeira, mas nunca chega a ser madura se não a expressarmos na comunidade. Nunca será genuína se nos faltarem a partilha, a acolhida e o espírito de celebração comunitária. É comum vermos cristãos individualistas. Vivem até uma vida boa, sem maldade. Não roubam, não matam, não prejudicam a ninguém. Há quem diga: "sou cristão, mas não participo da minha igreja. Rezo em casa". Esta fé, com toda certeza, não é a fé autêntica que Jesus Cristo trouxe e viveu. A verdadeira fé cristã precisa se expressar na comunidade, na acolhida e na partilha. Fora isto, pode-se até saber intelectualmente que Jesus é Deus, mas idéias abstratas não convertem ninguém. Cristo só revela seu verdadeiro rosto àqueles que vivem comunitariamente a sua fé. Conclusão O relato dos discípulos de Emaús é um retrato falado das primeiras comunidades cristãs, mas também de todas as comunidades, inclusive as nossas. Cristo se revela na comunidade e não individualmente. A fé no ressuscitado não pode se fechar, mas lança os discípulos na ação.
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O que dizer de Maria? Muitas vezes, quando falamos de Maria, buscamos base fora da Bíblia. Assim se fala de Fátima, Lourdes, Salete, Aparecida, Guadalupe, etc. É claro que nestes casos sempre estamos falando da mesma Maria dos evangelhos, mas o que dela falamos não vem propriamente dos evangelhos. Nem tudo o que hoje sabemos dos apóstolos vem da Bíblia. Temos informações dos primeiros séculos do cristianismo a respeito de Pedro e de Paulo que não encontramos na Bíblia. Assim também, nem tudo o que sabemos de Maria vem da Bíblia. Maria em Lucas O evangelista Lucas nos fala do anúncio do anjo a Maria, de sua visita a Isabel e do maravilhoso cântico do Magnificat (Lc 1,26-56). Neste relato Lucas nos fornece alguns dados. Maria foi escolhida para ser a mãe do salvador e isto se dá por obra do Espírito Santo. Mas o que Lucas destaca está no maravilhoso cântico de Maria, quando ela diz: "Doravante todas as gerações me chamarão de bem-aventurada" (Lc 1,48b). Na compreensão de Lucas Maria deveria ser honrada por todas as gerações pelo fato de Deus ter feito grandes coisas nesta humilde serva do Senhor. De fato, todas as pessoas que se aproximam de Cristo, o salvador da humanidade, devem honrar a mãe que tornou possível a vinda deste salvador. Tanto pelo fato de ela ter tornado possível a encarnação, como pelo exemplo daquela que permitiu que Deus agisse nela. Portanto, Lucas, inspirado pelo Espírito, demonstrou que aquela mulher que teve tão íntima participação na encarnação de Jesus deveria ser honrada e amada por todos os homens e mulheres de boa vontade. Foi assim que, no livro dos Atos dos Apóstolos, o mesmo Lucas escreveu que a comunidade da jovem igreja se reuniu e com ela estava Maria, a mãe de Jesus (At 1,14). Fiel ao evangelho de Lucas, a igreja sempre venera Maria em suas reuniões. Maria em Mateus Mas não é apenas Lucas que escreve sobre Maria. Também Mateus fala de Maria (Mt 1,18-25). Também Mateus destaca a concepção virginal por obra do Espírito Santo, bem como a ação de anjos. Mateus lembra a visita dos magos do oriente e a fuga para o Egito. Nesta história toda, a figura de Maria sempre é a zelosa que cuida do Deus humanado. As lições de Maria Poderíamos ainda falar do evangelho de João e também de Marcos, que também citam Maria. Mas por ora nos contentamos em ressaltar que, Maria, nos evangelhos é a síntese de todos aqueles homens e mulheres que durante todo processo de Revelação Bíblica colaboraram para que os desígnios de Deus se realizassem na história da humanidade. Desde que Deus começou a se revelar, sempre quis contar com a participação humana: Abraão, Moisés, Profetas, Ruth, Ester, etc. No Novo Testamento também Jesus quis contar com homens e mulheres para continuar a sua obra: apóstolos, discípulos, discípulas, etc. No meio de todos estes colaboradores e colaboradoras da obra de Deus está a figura de Maria, aquela que será chamada de bem-aventurada por todos os povos (Lc 1,48b). Conclusão Ao venerar Maria, nada mais fazemos do que adorar a Jesus, o salvador do mundo que, para realizar a sua obra pediu a colaboração de todos os homens e mulheres. Maria é a colaboradora número u. Portanto, modelo para todos os colaboradores de Jesus.
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Como entender a missão de Jesus? Quem costuma ler o evangelho de Marcos, deve ter-se surpreendido diversas vezes com o fato de Jesus mandar calar os apóstolos e até mesmo os espíritos impuros (Mc 1,25; 1,34; 1,44; 3,11; 5,43; 7,36; 8,26; 8,30; 9,9). Ou seja, sempre que Jesus faz algo importante que poderia atestar sua divindade, ele manda calar. Os espíritos impuros professam a verdade sobre Jesus, mas devem calar. Deficientes são curados, mas devem calar. A menina de 12 anos é ressuscitada, mas ninguém deve dizer nada. Jesus se transfigura, mas os apóstolos devem calar. Pedro professa que Jesus é o Cristo (Mc 8,27-30), mas também ele deve calar. Por que este silêncio imposto? Os biblistas chamam esta ordem de silêncio de Segredo Messiânico. Os espíritos impuros, mesmo falando a verdade, não devem dize-lo, pois Jesus não quer nenhuma profissão de fé sem que a pessoa que professa tire as conseqüências desta fé. Os deficientes curados poderiam criar um clima de euforia que não cabe dentro do cristianismo. Pedro, quando professou sua fé em Jesus, na realidade tinha uma falsa perspectiva. Por isto mesmo, todos deviam calar. Jesus não é um sensacionalista a procura de fama. Mas como termina esta história? Aos pés da cruz, quando Jesus morre como um malfeitor, completamente abandonado e fracassado, o centurião romano que chefiara a execução, proclama: “verdadeiramente este homem era o Filho de Deus” (Mc 15,39). E desta vez ele já não é mais proibido de dizer aquilo que os espíritos impuros, os deficientes agraciados e Pedro tentaram dizer. Uma cristologia da cruz É fácil dizer quem é Jesus. Mesmo quem não tem fé pode dize-lo. Porém, professar fé na pessoa de Jesus, segundo o evangelho de Marcos, é mais do que emitir uma opinião ou mesmo um conceito. Estes até nos livros se pode procurar. Professar a pessoa de Jesus na sua verdade, só é possível para aquele que estiver disposto de ir com ele até a cruz. Nos momentos de milagres, da transfiguração ou de qualquer momento festivo não se tem toda a experiência para dizer quem é Jesus. Mas indo com ele até a cruz, nossa experiência de Jesus amadurece. Cabem umas perguntas: o que viram os deficientes agraciados? O que viram os espíritos impuros? O que viu Pedro? Certamente viram a grandeza de Jesus. O que viu o centurião romano? Nada mais que um grande fracasso. Uma morte ignominiosa. Pois bem, até quando os homens e as mulheres precisam de milagres para crer, nossa fé é superficial, imatura e mesquinha. Marcos julga que a fé que se origina nos momentos de milagres, ainda não é a fé madura que leva os cristãos a seguir a Jesus. Quem precisa do extraordinário para crer, ainda não crê de verdade. O centurião não viu nada além de um vergonhoso fracasso. Um homem morrendo como um assassino. No entanto, foi ele quem fez a verdadeira profissão de fé que não mereceu ordem de silêncio. Só quem for capaz de perceber a mão de Deus no sofrimento, no fracasso, na morte, este de fato chega à maturidade da fé. A fé, segundo Marcos, não deve buscar os milagres, os acontecimentos extraordinários, mas se mostrar firme nos fracassos, nos acontecimentos corriqueiros, no dia-a-dia. Conclusão Jesus, segundo Marcos, é o Messias que vai à cruz. Só se pode entende-lo verdadeiramente quem estiver disposto a ir com ele até a cruz. Quem parar nos milagres, ainda não entendeu quem é Jesus.
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Como entender a pessoa de Jesus? Uma leitura simplista dos evangelhos nos dá uma visão errada da pessoa de Jesus. Alguns escritores atuais de livros gostam de vasculhar a vida de Jesus, ou mesmo os intervalos dos evangelhos para deduzir coisas a respeito de Jesus que não estão relatadas em nenhuma parte da Bíblia. Já se escreveu as coisas mais absurdas possíveis. Alguns sugerem que Jesus esteve na Índia durante sua adolescência, outros insinuam que Jesus fazia magia, etc. Tudo isto, na realidade, são fábulas e lendas que nascem das mentes mal intencionadas. A Bíblia não relata isto. O que se pode dizer da pessoa e da missão de Jesus? Quando Jesus esteve em Nazaré, sua cidade, as pessoas não sabiam que ele era Deus feito homem. Ele vivia de forma humana a tal ponto que todos o viam como um simples ser humano e nada mais. Ninguém fez atas da vida deste menino e depois jovem Jesus. Viveu a vida como as pessoas daquela época. Quando, por volta dos trinta anos começou a sua missão pública, ele não foi compreendido, nem mesmo pelos seus conterrâneos (Mc 6,1-6) e familiares (Mc 3,20ss). Nem mesmo os apóstolos entenderam que era Jesus, pois não ficaram com ele na hora da cruz. Assim como Jesus, que pregava, que andava de aldeia em aldeia, havia também outros líderes populares. Ninguém, nem mesmo os apóstolos acreditavam que aquele homem simples fosse o próprio encarnado. Tudo terminou num vergonhoso fracasso no dia da crucifixão. Os apóstolos fogem e os discípulos se retiram (Lc 24,13ss). As mulheres vão ao túmulo querendo embalsamar um corpo. Até aqui Jesus era visto como um homem bom, comprometido com os pobres, com os pecadores e com toda espécie de sofredores e talvez, como um possível líder revolucionário. Com a cruz e sepultura as últimas esperanças se frustram. A ressurreição, porém, mudou as expectativas. Agora, aos poucos, a pessoa de Jesus começa a ser entendida. Ele é Deus feito homem. Os apóstolos saem a pregar esta maravilhosa verdade. A partir de então se anuncia que Jesus fez o bem, foi crucificado, ressuscitou e está no céu (At 2,14ss; At 3,11ss; etc.). Agora as comunidades querem saber mais da vida deste homem-Deus que morreu e ressuscitou. Uma nova fase A partir de então se olha para trás e, de acordo com o testemunho dos apóstolos, se desenvolve a tradição daquilo que Jesus fez e disse. Só depois da morte dos principais apóstolos se escreveu os evangelhos. Assim, Marcos escreveu de forma reduzida, Mateus e Lucas já avançam um pouco mais e por fim João, como base na sua comunidade, apresenta o Jesus conforme ele foi pregado em sua comunidade. Então podemos perceber que, tanto tempo depois, não se poderia escrever com detalhes alguns aspectos da vida de Jesus, mas antes, os valores por ele vividos e pregados. Conclusão De tudo isto devemos entender que os evangelhos não são meras atas da vida de Jesus. Antes, são o testemunho de comunidades que, à luz da ressurreição, apresentam a pessoa de Jesus para seus fiéis. Mais do que saber detalhes da vida material de Jesus, busquemos nos evangelhos a compreensão da pessoa de Jesus que a igreja tinha nos anos 70-90 da era cristã.
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A morte de cruz É comum se pensar que Jesus veio ao mundo para ser pregado na cruz pelos nossos pecados. Parece que Deus queria que seu filho morresse numa cruz e que o próprio Jesus queria isto. Usa-se, muitas vezes os cânticos do Servo Sofredor (Is 52,13-53,12) para justificar tais idéias. Em primeiro lugar, deve se dizer que isto é errado. Nem o Pai, nem o Filho queriam a morte na cruz. Além do mais, por que Deus se alegraria com a morte do Filho, ou ainda, por que Deus se aplacaria em sua ira diante da morte do trágica do Filho? Quando Jesus se encarnou, nada mais quis do que instaurar o Reino de Deus já aqui na terra. Queria levar todos os homens e mulheres a Deus. Para isto, necessariamente teve de enfrentar obstáculos. Ou seja, teve de lutar contra aquilo que impedia a instauração do Reino de Deus já aqui na terra. Por exemplo: tudo o que exclui um irmão ou irmã obstaculiza o Reino de Deus. A mentira, a maldade, a ganância e toda espécie de exclusão impedem o Reino de Deus. Jesus queria o Reino, ou seja, que todos os irmãos vivessem de fato como irmãos e honrassem a Deus. Em poucas palavras, Jesus queria que se amasse a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo (Mc 12,28ss). Isto é Reino de Deus. Ao tentar instaurar este Reino, Jesus se chocou com aqueles que impediam a vivência fraterna, com aqueles que excluíam o pobre, o pecador, a mulher, o deficiente, etc. Sua ousadia de enfrentar os mentores desta exclusão lhe custou caro. Logo que Jesus se compromete com os pobres e sofredores, os fariseus e herodianos pensam em mata-lo (Mc 3,6). A morte de Jesus como salvação Dito isto, convém dizer que Jesus não queria a morte de cruz, nem o pai queria isto. Jesus queria o Reino. Se todos tivessem aceitos a proposta de Jesus, ele poderia muito bem ter morrido idoso numa confortável cama, venerado por todos, e mesmo assim teria sido para nós, o salvador. Não seria necessário morrer na cruz. Mas as autoridades religiosas e políticas viam na ação de Jesus um perigo para seus privilégios. Queriam que Jesus se calasse. Como Jesus não aceitou esta imposição, deram-lhe a morte. Então, Jesus não veio ao mundo com a intenção de morrer numa cruz, nem ele próprio, nem seu Pai queriam isto. Quem quis a morte de Jesus foram as autoridades. Jesus não queria a morte de cruz, queria o Reino. O Pai também não quis a cruz para seu Filho, mas queria a sua fidelidade. A morte de cruz foi, então, o preço que Jesus pagou pela sua fidelidade aos planos do Pai. Se Jesus traísse o Pai teria escapado da cruz, mas não teria trazido o Reino de amor e de justiça. Conclusão Toda a vida de Jesus, desde a encarnação, até a ressurreição, é salvadora. Nem o Pai exigiu a morte de Jesus para nos salvar, nem o Filho veio com a intenção de morrer na cruz. Ele veio para trazer o Reino. Como muitas pessoas, e principalmente as autoridades, não aceitaram esta proposta, levaram Jesus à cruz. Jesus, antes de trair o Reino preferiu morrer. Esta sua fidelidade ao Pai foi o caminho da salvação. Porém, se sua proposta fosse aceita e ele tivesse morrido de outra forma, seria igualmente nosso Salvador.
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A criação do mundo(Gn 1,1-2,4a) A Bíblia nos fala da criação do mundo em dois relatos (Gn 1,1-2,4a e Gn 2,4b-3,24). Hoje vamos refletir sobre Gn 1,1-2,4a). Neste relato se diz que Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo. Este relato está cheio de incoerências. O texto nos diz que Deus criou a luz no primeiro dia (Gn 1,3), mas só no quarto dia ele criou o sol e a lua (Gn 1,14). Diz ainda que no segundo dia Deus criou o firmamento e que este separa as águas que estão debaixo das águas que estão acima do firmamento. Ora, ora! No terceiro dia Deus criou a relva, as ervas, o verde, etc. Ora, tudo isto sem o sol? Pois este só é criado no quarto dia. Se o leitor observar atentamente vai encontrar outras incoerências do ponto de vista científico. E agora, como é que fica? A Bíblia pode errar? Já foi dito acima que o relato de Gn 1 está cheio de incoerências. Será que isto agride a nossa fé? Evidentemente não. Antes de qualquer afirmação deve-se fazer um esclarecimento: A Bíblia contém partes históricas, mas não é um livro de história e menos ainda de ciências, nem nunca pretendeu sê-lo. Os relatos de Gn 1-11 nada têm de história, são reflexões teológicas e não históricas. Portanto, não se deve ler a Bíblia para buscar as origens históricas do mundo. A Bíblia pode errar em matéria de ciências e de história e erra muitas vezes. Não erra, no entanto, quando nos revela o plano de Deus. Gn 1: um poema litúrgico Gn foi escrito no Exílio da Babilônia quando muitas pessoas de Jerusalém haviam sido exiladas num país estranho, em meio a cultura diferente, religião idolátrica onde até se adorava o sol e a lua como divindades. Um grupo de sacerdotes escreveu um poema, espécie de salmo em estrofes. O povo cantava, ou o salmista cantava e o povo respondia: “E Deus viu que era bom”. Entre os muitos objetivos do poema, pode-se destacar três: 1º) O mundo foi criado em seis dias e no sétimo Deus descansou. Ora, Deus não descansa nunca (Jo 5,17). Quem tem de descansar somos nós. Logo, os exilados querem para si um dia em que possam descansar para preservar sua identidade e transmitir sua fé aos seus jovens; 2º) O sol e a lua foram postos no céu por Javé. Os babilônios adoravam sol e lua. O poema nos diz que estes supostos deuses não passam de criaturas de Javé. Logo, não devem ser adorados. 3º) O homem e a mulher foram a última obra saída das mãos do criador. Eles foram feitos à imagem e semelhança de Deus. Recebem uma bênção. Logo, o homem e a mulher não podem ser escravizados ou maltratados como estavam sendo na Babilônia. Eles têm dignidade. Conclusão Se alguém olhar para Gn 1 como relato de história, vai se dar mal, pois os erros saltam à vista. Não é verdade que o mundo foi criado em seis dias. Mas é verdade que o ser humano deve descansar um dia por semana. Não é verdade que Deus criou o sol e a lua no quarto dia, mas é verdade que sol e lua são criaturas de Deus e não devem ser adorados. Também não é verdade que o homem e a mulher foram criados no sexto dia ou que estes se pareçam com Deus. Deus é espírito. Mas é verdade que o ser humano tem dignidade e que não pode ser escravizado. Logo, do ponto de vista da história e da ciência, Gn 1 está completamente errado. Mas do ponto vista da teologia o relato está 100% certo.
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O segundo relato da criação(Gn 2,4b-3,24) A Bíblia nos relata uma segunda vez a criação, completamente diferente da primeira (Gn 1,1-2,4a). Neste relato se diz que Deus criou o mundo e da argila fez o ser humano (Adam). Plantou um jardim e colocou o humano para cuidar e cultivar (Gn 2,15). Depois criou também os animais. O humano devia dar nome aos animais. Aí Deus mandou um sono, tirou-lhe uma costela e fez a mulher. Os dois viviam bem até que a serpente seduziu a mulher, levando-a a comer um fruto que Deus havia proibido (Gn 3,1ss). Agora o homem e a mulher começam a ter problemas. Percebem que estão nus. Nasce a inimizade entre os animais, rompe a boa relação entre homem e mulher e por fim ainda são expulsos da terra. Começa o sofrimento e a morte. Novamente estamos diante de um relato simbólico. É certo que o ser humano não é a criatura mais antiga. Alguns animais, peixes e répteis são bem anteriores ao ser humano, assim como também os vegetais antecedem em muito ao surgimento do homem e da mulher sobre a face da terra. O que se pode entender do relato de Gn 2-3? Antes de tudo deve-se situar este relato como uma antiga tradição oral que se formou por volta do século VIII a.C. Neste tempo o povo de Israel passava por uma crise violenta. A causa de tudo era o sistema monárquico que havia se instalado em Israel por volta de 1030 a.C. O terceiro rei de Israel, Salomão era um rei do luxo (1Rs 10,14ss e 1Rs 11,1-8). O rei não conhecia limites. Extorquia os bens do povo, as terras, os animais, os filhos, etc. (1Sm 8,10ss). O povo virou escravo dentro de seu próprio país. Neste tempo o povo lembrava, com muita saudade, de um tempo anterior à monarquia em que se vivia num sistema político chamado de sistema tribal. Neste sistema, a terra era da tribo, as colheitas eram coletivas. Tudo estava a serviço do povo. Ninguém tinha abundância e ninguém tinha fome. As terras e as colheitas eram da tribo, isto é, de todos. Mas o sistema monárquico acabou com isto. Um retrato faladoO texto de Gn 2 é o retrato falado do sistema tribal. Onde a vida é uma maravilha. O homem vive em harmonia com a terra, pois vive num jardim (Gn 2,8ss). Vive em harmonia com os animais, lhes dá o nome (Gn 2,19ss). Também está em harmonia com a mulher (Gn 2,21ss). Porém, a monarquia e a idolatria (serpente) seduziram o homem e a mulher. Veio a desgraça (1Sm 8,10ss). Agora o homem perde a harmonia com os animais (Gn 3,14ss). Quebra a relação entre homem e mulher (Gn 3,16ss) e por fim é expulso da terra (Gn 3,23s). Assim sendo, o Gn 3 é um retrato falado do sistema monárquico. Conclusão Gn 2 e 3 não deve ser lido como se fosse um relato histórico, mas antes, como um relato simbólico. O ser humano vivia bem no tempo do tribalismo, pois possuía terra, animais e as relações homem e mulher eram boas. Com a vinda da monarquia toda esta tranqüilidade acabou. Gn 2 lembra com saudades dos bons tempos do tribalismo e Gn 3 ilustra as agruras do sistema monárquico. O autor diz: quando observávamos a aliança e vivíamos em tribos, havia paz. Quebramos a aliança e instauramos a monarquia, tudo quebrou. O texto quer ser um convite a voltar a viver a aliança onde a vida é para todos.
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O dilúvio (Gn 6-9) O relato do dilúvio (Gn 6-9) é rico em detalhes contraditórios e, do ponto de vista científico, impossível. Aliás, para Deus nada é impossível, mas Deus age dentro da natureza que ele mesmo criou. Vejamos: O texto nos diz que devido à maldade humana Deus se arrependeu de ter criado o homem. Ora, Deus não se arrepende. Ele sabe tudo e por isto mesmo não poderia fazer algo para depois se arrepender. O texto ainda diz que Deus mandou Noé fazer uma arca de aproximadamente 150 metros de comprimento, 25 metros de largura e 15 metros de altura, em três andares (Gn 6,15ss). Noé devia levar na arca um casal de todos os animais (Gn 6,19s). Logo adiante diz que Noé devia levar sete casais de animais puros e um dos impuros (Gn 7,2). O texto também afirma que choveu por quarenta dias e o dilúvio cobriu toda a terra por 150 dias (Gn 7,24) numa profundidade de quase oito metros acima das montanhas (Ararat). Estes são apenas alguns exemplos de impossibilidades do texto. O leitor atento certamente encontrará muitas outras incoerências. Vamos aos fatos: num navio destas dimensões, caberia um casal de tudo o que é espécie de animal? Se coubesse, Noé teria condições de armazenar alimento para todos estes animais para 150 dias? Quarenta dias de chuva fariam submergir a terra? Aliás, nem existe água suficiente no globo para cobrir toda a superfície da terra. Sabemos que o Ararat tem mais de 5 mil metros de altura e existem outros montes mais altos que este. Cobrir tudo isto com água? Não seriam quarenta dias de chuva que multiplicariam a água. Ou seja, as chuvas não fazem aumentar o volume de água, elas apenas concentram as águas num certo ponto do planeta. Como o leitor pode perceber, não estamos diante de um relato histórico. Um contra-conto Bem antes de a Bíblia ter um relato de dilúvio este já existia na Mesopotâmia, sobre o nome de Gilgamesh. É bom lembrar que na Mesopotâmia existem dois grandes rios, o Tigre e o Eufrates. Estes muitas vezes transbordam inundando tudo. O relato bíblico é uma cópia do relato de Gilgamesh. Os israelitas conheceram este relato durante o exílio na Babilônia. Eles o copiaram e o reinterpretaram. Deram-lhe uma conotação bíblica. Ou seja, diante de constantes ameaças de dilúvio usadas pelos reis para dominar o povo, o relato de Gn 6-9 apresenta a certeza de que nunca mais vai haver um dilúvio (Gn 8,21; 9,9.11). A promessa de nunca mais haver dilúvio não se deve ao fato de agora o ser humano ter se tornado bom, mas justamente porque o humano é mau desde sua infância (Gn 8,21). Diante de ameaças dos reis da Mesopotâmia, de |