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O pensamento do professor Eugênio GudinRicardo Bergamini |
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Artigo
publicado no jornal "O Globo" do Rio de Janeiro, edição de
03/04/70 O
sexto aniversário Em
recente exposição dos rumos de governo, disse, com toda a razão, o
Presidente Médici que: "a plena democracia é ideal que nunca se
realizou no Brasil". Não existiu na monarquia, porque era então
controlada pelo Poder Moderador, exercido pelo imperador. Não existiu
na Primeira República, porque a Constituição de 1891 era apenas uma
fachada, atrás da qual funcionava o regime oligárquico que governou o
País até 1930. Não existiu de 1930 a 1945, pelo motivo óbvio da
ditadura. Não existiu de 1946 a 1954, porque os Governos Dutra e Vargas
foram de transição da ditadura para a democracia. O
que se pode dizer é que de 1956 a 1964 houve uma tentativa de regime
democrático em que o primeiro período (Kubistchek) caracterizou-se
por quanto despautério houve e em que o segundo (Goulart), na justa
expressão do Presidente Costa e Silva, deixou "o País em
frangalhos". A
Revolução, cujo sexto aniversário ora se comemora, não só
restabeleceu a ordem: ordem civil, ordem militar, ordem econômica, como
trouxe para o governo um homem excepcional, que foi o General Castello
Branco, cujo valor como chefe de Estado só encontra paralelo nos
governos dos três grandes brasileiros do início da República:
Prudente, Campos Salles e Rodrigues Alves. As Forças Armadas podem
orgulhar-se legitimamente de ter dado ao Brasil, numa hora de grave
crise, um "varão de Plutarco" da categoria de Castello
Branco. Legou, além do mais, ao país, a melhor Constituição (de março
de 1967) que já teve, no sentido de ser a primeira Carta Política
realmente exeqüível, dentro dos padrões da educação política do
povo brasileiro, na segunda metade do século XX. Infelizmente,
Deus, que é injustamente acusado de ser brasileiro, não permitiu que
as instituições legadas por Castello Branco fossem respeitadas pelos
governos que o sucederam. Não, seja dito desde logo, por culpa do
saudoso Presidente Costa e Silva, que fez profissão de fé do respeito
à Constituição, à qual apegou com uma firmeza e um denodo que o farão
passar à História como um ilustre brasileiro. Mas a experiência veio
infelizmente provar que Castello Branco e posteriormente Costa e Silva
superestimaram o nível de educação tanto das forças políticas que
compunham o Congresso Nacional como das Forças Armadas que teimaram em
impor suas diretivas ao chefe do Governo. Foi
assim que a ordem política retrogradou, no Brasil, a partir de dezembro
de 1968, com a expedição de um Ato Institucional que solapou os
alicerces da Constituição de 67 e decretou o recesso do Congresso
Nacional por tempo indeterminado. E, como se tal não bastasse, a morte
do Presidente Costa e Silva, cujo organismo não resistiu aos embates da
luta que teve de sustentar, veio ainda agravar a situação com a expedição,
pela Junta Militar que o sucedeu, de Atos Institucionais, já então sem
prazo de vigência, acabando assim por desmantelar o que restava de
democracia no regime da Constituição de 67. O
decreto-lei, que a Constituição de 67 restringia cuidadosamente
(artigo 58) aos casos de relevante interesse público em matéria de
segurança e de finanças públicas, campeia hoje livremente em todos os
setores da administração, sem peias nem restrições. Os governadores
de Estado, que em 1966 foram eleitos por voto direto, são hoje nomeados
pelo presidente da República, com um mínimo de aparente respeito pela
opinião pública. O excelente comentarista político que é o Sr.
Carlos Castello Branco escreve que "a edição de Atos
Complementares é, portanto, uma aberração jurídica e indica algum
propósito de continuar a destruição da ordem constitucional, ao invés
da intenção de consolidá-lo a restaurá-la" Reduzido
praticamente a zero o prestígio do Poder Legislativo, em grande parte
por culpa dos desmandos que praticou, as pressões de que sofre o atual
presidente ficaram reduzidas a duas espécies, ambas de origem militar.
Uma que pensa e age "como se a realidade global do País (diz
aquele comentarista) se limitasse aos fichários em que se move o
restrito mundo da segurança". Para essa corrente, os poderes
extraordinários conferidos ao chefe do Executivo são imperativos da
segurança do Estado. "O relacionamento entre ação subversiva e
restrições políticas é fenômeno típico da América Latina,
refletindo escasso grau de convicção democrática e pouca consistência
das instituições tradicionais", escreve a esse propósito o
citado comentarista. O
outro grupo de pressão militar é o desenvolvimentista, para o
qual cabe à Revolução o dever iniludível de resolver todos os
problemas nacionais: educação, transportes, saúde, irrigação,
navegação fluvial, Nordeste; Amazônia e tutti quanti. Não
parece ocorrer aos dignos patriotas que integram este grupo que tudo
isso é "função do homem" e que a valorização do homem,
que é afinal o único problema nacional, exige um tempo indefinido. A máxima
há poucas semanas enunciada pelo presidente da República, da suposta
incompatibilidade do desenvolvimento com a vigência das liberdades públicas,
é uma derivada genética da influência desse grupo. Diante
desse quadro não se vê facilmente como alimentar esperanças de
restabelecimento, em futuro previsível, da vigência do estado de
direito com a volta à Constituição de 1967. O
presidente Médici tem diante de si mais de quatro anos de governo. Sua
palavra merece indiscutivelmente o respeito e a confiança da Nação.
São portanto válidas suas promessas de envidar todos os esforços para
o restabelecimento do regime democrático, não daquela "democracia
romântica", a que bem se refere o General Orlando Geisel, mas
democracia responsável e exeqüível que o grande Presidente Castello
Branco plasmou na constituição de 1967.
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