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EVANGELHOS APÓCRIFOS

Urbano Zilles

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Junto aos intelectuais e crentes sempre houve curiosidade e interesse pelos escritos apócrifos. Recentemente esse interesse propagou-se em amplas camadas populares em vista da descoberta de parte do texto do "evangelho de Judas" e do best-seller "Código da Vinci". Pergunta-se: que são apócrifos? O que dizem? Onde encontrá-los? Aqui nos limitamos aos evangelhos.

Quatro evangelhos foram aceitos pela comunidade cristã como representando a autêntica tradição e inspirados pelo Espírito Santo. São quatro livros redigidos em linguagem simples, direta e clara. Séculos depois esses quatro foram assumidos no cânon dos livros sagrados dos cristãos. Na mesma época ou depois dos canônicos surgiram numerosos escritos judaicos e cristãos que não foram usados no culto das comunidades e na Teologia. Pelo título, pela apresentação e por elementos internos e externos reivindicam, aparentemente, uma autoridade igual aos textos canônicos. Para obter crédito junto ao público, sua autoria é atribuída falsamente a personagens ilustres. Essas obras, por vezes, têm origem em grupos heréticos (gnose) e, por isso, algumas foram suspeitas de heresia. Em síntese, a literatura apócrifa imita a literatura bíblica e, em geral, é mais recente.

Desde o século II o conjunto dos quatro canônicos era tido como fechado. O cânon das Sagradas Escrituras foi fixado no século IV, a partir daí os apócrifos, muitas vezes, passaram a ser designados não-canônicos. Seu conteúdo não logrou impor-se nas comunidades. Assim S. Irineu (cerca do ano 180) critica o Evangelho de Judas, cujo título sequer consta na relação dos apócrifos do Decreto Gelasiano, no século V.

Alguns apócrifos reproduzem partes dos canônicos. Satisfazem a curiosidade dos leitores com detalhes dos eventos da vida de Jesus, Maria e José. Cedendo ao gosto pelo maravilhoso e lendário, tentam "completar" os canônicos preenchendo lacunas na informação. Embora não aceitos como canônicos, alguns apócrifos exerceram influência na vida dos cristãos que perdura até hoje. Através deles sabemos os nomes dos pais de Maria (Joaquim e Ana), os nomes dos três magos (Melchior, Gaspar e Baltasar) etc.

A quase totalidade desses textos desapareceu durante séculos. Sabemos de sua existência através dos escritos dos padres. Muitos foram reencontrados parcialmente ou totalmente e hoje são acessíveis através de traduções. Trata-se de um gênero literário interessante do qual o cristão deveria tomar conhecimento, sem, todavia, esperar demais de seu conteúdo. Entretanto, nesses escritos a Igreja já nos primeiros séculos, não reconhecia a si mesma nem suas origens.

 

 

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