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Arquitetura e escravidão no Rio Grande do Sul

Marco Villa

 

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O historiador Mário Maestri acaba de lançar o livro O sobrado e o cativo. A arquitetura urbana erudita no Brasil escravista. O caso gaúcho pela Editora da Universidade de Passo Fundo [www.upf.tche.br/editora]. Não é simplesmente mais um livro sobre o tema, mas uma obra magistral que, senão inaugura, pelo menos reafirma a necessidade de estudos deste gênero em outras áreas do Brasil escravista.Baseado em ampla documentação original e trabalhando com absoluto domínio a bibliografia sobre o tema, Maestri conduz o leitor por um passeio pelo Rio Grande do Sul escravista, pelos estilos arquitetônicos, os espaços públicos, o espaço privado e sua normatização, o trabalho servil urbano e seu controle pelos escravocratas e o processo de modernização urbana quando da desescravização.O século XIX acabou sendo o momento de ruptura na arquitetura brasileira, especialmente após a chegada da Missão Francesa, em 1816. Aos novas formas de construção (estilos, materiais, adornos) não só mudaram a cidade do Rio de Janeiro, dando um perfil distinto em relação à cidade colonial, como também exerceu influência decisiva em todo o Brasil.após visitarem o Rio de Janeiro, os senhores de escravos levavam para as suas cidades as novas formas de arquitetura. E no Rio Grande do Sul não foi diferente: as velhas casas – que mais pareciam fortalezas – começaram paulatinamente a serem substituídas por sobrados com estilo neoclássico europeu, principalmente nas fachadas e nos salões sociais.Mas, como lembra Maestri, a permanência da escravidão mantinha o restante do sobrado com as antigas formas do passado colonial. Isto pode ser estendido também a estrutura urbanística e arquitetônica brasileira: a escravidão – e sua permanência até 1888 – acabou dando às nossas antigas cidades uma profunda unidade.As construções, apesar de dirigidas por homens livres – parte deles estrangeiros –, era produto da força de trabalho dos escravos. A rua era um espaço pouco valorizado: afinal, a presença dos escravos desenvolvendo diversas atividades, transformava este espaço em lugar de negro, portanto, onde os brancos deveriam se manter distantes.O autor lembra com propriedade que a modernidade urbana chega no momento dos estertores da escravidão: aí o pelourinho foi substituído pelo chafariz e a praça acabou cercada por grades, deixando claro que agora era espaço de branco.Maestri também observa o movimento trazido pela modernidade, que não só quer distância dos "de baixo", como interfere nas construções populares. Cita vários exemplos: um deles é o da Câmara de Alegrete que determina que o proprietário só poderia cobrir a casa com palha com autorização especial, mas que deveria substituí-la por telhas em um prazo estipulado pelas autoridades.Ficamos sabendo que os cativos dormiam espalhados pelas casas, sem ter um lugar especial. Muitos dormiam ao pé da cama dos seus senhores, outros sobre os fardos de mercadorias, no caso de uma casa de comércio, para, inclusive, protegê-la de roubo. Destaca o autor que as cozinhas foram deslocadas para os fundos das casas – diversamente da casa açoriana –, junto ao quintal, excluindo os escravos dedicados a esta atividade do convívio doméstico: lá era lugar de negro.O escravo urbano era vigiado e severamente punido: não se respirava nas cidades o ar da liberdade. Não podia ir a um bar, não tinha lazer, era proibido de circular pela cidade após determinado horário e as punições eram severas. Mesmo com a proximidade do fim da escravidão, o rigor da lei não diminuiu: o ex-escravo, agora trabalhador livre, continuava sendo visto pela classe dominante como um inimigo, que necessitava ser vigiado e punido.Pela leitura de O sobrado e o cativo temos um amplo painel não só da arquitetura escravista gaúcha mas também do cotidiano urbano, de uma sociedade marcada pelo antagonismo de classe.

* Marco Antonio Villa é professor de História da Universidade Federal de São Carlos e autor, entre outros, de Vida e morte no sertão: história das secas do Nordeste nos séculos XIX e XX (Ática).

 

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