BRASIL, PAÍS CATÓLICO, COM FACE ITALIANA

Rovílio Costa

 

Home | E-mail

 

A História da Igreja Católica no Brasil começa na Europa. Os 500 anos do Descobrimento do Brasil são, também, 500 anos de Presença da Igreja Católica.

O Brasil nasceu à sombra do Catolicismo. Descoberto a 22-4-1500, no dia 26 Frei Henrique de Coimbra, futuro bispo de Ceuta, celebrava a primeira missa no Ilhéu da Coroa Vermelha, atual Baía Cabrália, na Bahia, assistida pelos próprios índios. Os franciscanos, por ordem de Cabral, seguiram para as Índias.

Os primeiros Jesuítas, sob a direção de Pe. Manuel da Nóbrega, e padres do Clero chegaram à Bahía, junto ao 1º Governador Geral, Tomé de Souza, a 29-3-1549. A Armada, que chegava em três navios e três caravelas, com 600 homens de armas e 400 degredados, desembarcou em Pereira, em Salvador, recebidos em festa por Caramuru e sua parentela, umas 50 pessoas. Aqui se estabeleceram os jesuítas, onde em 31 de março o Pe. Manuel da Nóbrega celebrou a primeira missa dos jesuítas no Brasil, com participação de Tomé de Souza e todo o arraial.

Pe. Nóbrega, para implantação do Catolicismo, pediu logo um Vigário Geral ou um Bispo. Em 25-2-1551, o Papa Júlio III desmembrava o Brasil da Diocese de Funchal, fazendo-o bispado independente com sede em Salvador. Em 24-3-1552, foi sagrado o 1º Bispo para o Brasil, Dom Pedro Fernandes Sardinha, que partiu de Lisboa logo depois, chegando à Bahia em 22-6-1552. A 15-6-1556 seguia ao Reino, a pedido de Dom João VI, pela nau Nossa Senhora da Ajuda, quando naufragou no rio Coruripe, em Alagoas, e quase todos os mais de cem tripulantes e passageiros foram devorados pelos índios caetés.

Herbert E. Wetzel (1973, p. 27-48) divide a história da Igreja no Brasil em quatro partes: – 1º Do descobrimento à Expulsão dos Jesuítas por Marquês de Pombal (1759). A catequese, o ensino e a pregação começam com os Jesuítas. – 2º Da expulsão dos jesuítas à extinção do Padroado, com separação entre Igreja e Estado, em 1890. – 3º Com a extinção do Padroado (1890), inicia a renovação da Igreja, com o renascimento católico, inclusive na camada intelectual, com Carlos de Laet, Jakson de Figueiredo, Alceu Amoroso Lima. Florescem as Ordens e Congregações. Inicia o pluralismo religioso com a tolerância de todas as religiões pelo Estado. – 4º Do Concílio Vaticano II (1962-5) aos nossos dias, aprofunda-se a vivência cristã comunitária e a opção e corresponsabilidade pessoal, em contraposição ao catolicismo folclórico, tradicional e formalista. Começa uma efetiva participação de leigos em ministérios (diaconado, ministros de eucaristia, catequese e ação missionária) e estrutura-se o ecumenismo.

Em 1980, 0,77% de população brasileira era estrangeira. Em 1982, dos 12.823 sacerdotes, 4.970, ou 38,8% eram estrangeiros, procedentes de 64 países. Dos 357 bispos, 95 eram estrangeiros, e destes, 29 ou 30,5% eram italianos.

No período colonial, Portugal tinha o mesmo cuidado contra o ingresso de pastores calvinistas holandeses, como contra a vinda de clero das nações concorrentes (colonizadoras). Por isso, missionários espanhóis e franceses eram vistos com reservas. A alternativa de clero italiano oferecia menores riscos. Em 1575, em Lisboa, o procurador dos jesuítas para a Índia e o Brasil, escreve ao Superior Geral (Leite, VII, 1938, p. 102-21), comunicando que à Corte Portuguesa parecia prejudicial que fossem jesuítas espanhóis para a Índia, China, Molucas. O mesmo perigo, disse ele, estende-se ao Brasil. De forma que devem ir para o Oriente: italianos, portugueses, alemães; para o Brasil: nem espanhóis, nem franceses, nem ingleses (em Beozzo, 1987, p. 38).

Os primeiros jesuítas italianos vieram ao Brasil a pedido do Pe. Nóbrega, em 1558. Assim veio o Pe. Scipione Comitoli, que retornou pouco depois. Na década de 1570 chegaram Giuseppe Morinelli, Leonardo Arminio, vindos de Gênova, e mais quatro até o fim do século. Até a expulsão (1759), os jesuítas da Província do Brasil tiveram dois provinciais italianos, Giuseppe della Costa, em dois períodos (1662-65; 1672-75) e Giovanni Antonio Andreoni, de Lucca, (1706-9), célebre pela publicação de Cultura e opulência no Brasil pelas suas drogas e minas, sob pseudônimo de André João Antonil (Leite, VII, 1938, p. 247).

Em 1860, Jesuítas italianos assumiam o Seminário do Rio Grande do Sul e, em 1865, abriam o Colégio do Desterro em Santa Catarina e uma casa em Nova Trento-SC para assistência aos italianos.

Dois Franciscanos portugueses foram os missionários pioneiros, missionando Porto Seguro; foram massacrados numa revolta dos índios contra os colonos. Chegaram, depois, dois italianos que reergueram a Capela São Francisco, assistiram aos colonos, mas um afogou-se no rio do Frade e o outro retornou à Europa (Röwer, 1947, p. 29-30).

Capuchinhos italianos estão presentes no Brasil, de forma isolada, desde 1538 (Nembro, 1958, p. 26), depois com presenças temporárias de missionários em passagem para as missões portuguesas do Congo e da Angola. Os capuchinhos italianos tiveram destacada presença entre os indígenas, sendo os únicos permitidos a atuar entre eles, após o Diretório Pombalino. Em 1735, os capuchinhos italianos Anselmo di Castevetrano, Antonio di Perugia, Francesco di Gubbio, e Sebastiano di Palanza integravam a Expedição de Silva Paes na Fundação de Rio Grande.

Com exceção da missão de Capuchinhos franceses no Rio Grande do Sul (1896), da qual se originou a Província Brasil Central (1982), as demais fundações são de capuchinhos italianos, na Bahia (1671); no Rio de Janeiro (1723). Destas e de fundações posteriores italianas surgiram as províncias de São Paulo (1953); Paraná-Santa Catarina (1968); Maranhão-Pará (1970); Rio de Janeiro-Espírito Santo (1980); Minas Gerais (1980); Bahia-Sergipe (1983); Ceará-Piauí (1983); Brasil-Nordeste (1983), o que indica uma presença de capuchinhos italianos em todos os estados (Alatri, 1998, p. 166-7).

A presença de Clero Italiano data dos inícios do Brasil. No Rio Grande do Sul, por exemplo, é crescente o ingresso de sacerdotes italianos do clero (Rubert, 1977): 10, de 1815-53; 4, de 1853-60; 42, de 1860-75; 71, de 1875-1925.

Com 1,5 milhão de imigrantes italianos, de 1830-1947, o Brasil atraiu clero e religiosos italianos. As Congregações Italianas que se estabeleceram no Brasil em razão da grande imigração, foram: Carlistas, 1895; Barnabitas, 1903; Estigmatinos, 1910; Carmelitas Descalços, 1911; Passionistas, 1911; Orionitas, 1913; Josefinos de Murialdo, 1919; Servitas, 1920; Olivetanos, 1921; Camilianos, 1922; Sacramentinos, 1926; Salesianos, 1883; Palotinos (1886).

A face italiana e católica do Brasil lhe foi dada por um e meio milhão de imigrantes, na quase totalidade católicos, que perfazem, hoje, 25 milhões de descendentes. A face italiana da Igreja Católica foi a preferida pelo Brasil-Colônia, pois o Clero Italiano não provinha de país rival do Brasil. Como descendentes de italianos, somos agradecidos ao Brasil nestes 500 anos de evangelização, porque sempre fomos bem-vindos como italianos e como católicos.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ALATRI, Mariano d’. Os capuchinhos: história de uma família franciscana. Porto Alegre: EST, 1998, p. 166-7.

BEOZZO, Pe. José Oscar. "O clero italiano no Brasil." Em Presença Italiana no brasil, v. 1. Porto Alegre: EST, 1987, p. 34-62.

LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. Lisboa: Portugalia, 1938.

RÖWER, Frei Basílio. A Ordem Franciscana no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1947.

RUBERT, Pe. Arlindo. Clero secular italiano no Rio grande do Sul. Santa Maria, Pallotti, 1977.

WETZEL, Herbert E. "O condicionamento histórico étnico-cultural da Igreja no Brasil." Em Missão da Igreja no Brasil. São Paulo: Loyola, 1973, p. 27-47.

 

Home | E-mail