|
|
BUONA GENTE Marcha para o sul |
Cesar Pires Machado |
|
“Os últimos serão os primeiros,” diz o Nazareno pela boca do apóstolo Mateus (19,30). Assim foi com a Quarta Colônia Imperial, que, silenciada pelos estudiosos, desponta em consistente e farta bibliografia. Buona Gente não é um acaso da Imigração Italiana, porque expressa a vocação histórica do italiano emigrante e imigrante. Seu primeiro passo é olhar para o mundo e delinear o espaço onde realizar seus ideais. Buona Gente é a continuação da história do antes e depois da Unificação Italiana, quando todo um povo se movimenta, se organiza e projeta sua presença no mundo. Silveira Martins ou, mais precisamente, a Quarta Colônia Imperial, com as três anteriores, forma quatro pontos de referência da sonhada América Italiana do Rio Grande do Sul. Depois de uma longa viagem, uma necessária parada para o merecido descanso, para organizar a casa e lançar as bases de uma nova pátria. Enquanto as demais colônias se envolviam com o afã da agricultura extensiva, a indústria e do comércio, a Quarta Colônia privilegiou a vida, mantendo tradições e culturas, para, depois, escolher o horizonte de seus destinos. E um grupo de italianos e descendentes, anteriormente empolgados com a variedade da mata nativa da Quarta Colônia, se encontraram para formar a Mata Grande de etnias e culturas, o maravilhoso e multiétnico São Sepé. A história é feita por pessoas e de pessoas. E Cesar Pires Machado olhou para as pessoas que acorreram para formar a bela e humana São Sepé. Não esqueceu ninguém, porque cada pessoa é um pilar único da cidadania. Que São Sepé continue sendo o pé firme em terra de culturas e etnias, atestando ao mundo um modo singular e único de ser e viver.
Porto Alegre, 1º de abril de 2005 Frei Rovílio Costa |
SUMÁRIO
¨
|
Apresentação / 7 Introdução / 11 Por que vieram? / 13 De volta à Itália / 14 Fatores de emigrações italianas / 21 Aspectos do povoamento brasileiro / 29 Acerca da imigração alemã / 34 Escravatura e imigração / 37 As três primeiras colônias italianas do nordeste do Rio Grande do Sul / 39 Quarta Colônia / 42 Origem / 42 Poloneses / 44 Os primeiros italianos / 45 As viagens / 47 Os primeiros tempos / 51 Designação Silveira Martins / 54 Expansão inicial / 56 Ivorá / 56 Nova Palma / 57 Novo Treviso / 57 Faxinal do Soturno / 58 São João do Polêsine / 59 Dona Francisca / 59 Pinhal Grande / 60 A expansão continuava / 60 Estagnação / 61 Progresso inicial / 61 Arrefecimento / 62 Revendo a história / 63 Ao Sul do Vacacaí / 69 Colônia Santa Bárbara / 71 Colônia Nova Feltre (Antão Faria) / 73 Histórico da área / 75 Alguns pioneiros / 76 Aspectos da vida na colônia / 81 Mudança de nome / 87 Colônia da Aroeira / 89 Histórico da área / 89 Alguns pioneiros / 92 Aspectos da vida na colônia / 95 Picada Grande / 99 Histórico da área / 99 A presença italiana / 100 Colônia da Mata Grande / 104 Histórico da área / 104 Alguns pioneiros / 105 Aspectos da vida na colônia / 116 As colônias na atualidade / 120 Colônia Santa Bárbara / 120 Colônia Antão Faria / 123 Colônia da Aroeira e Picada Grande / 124 Colônia da Mata Grande / 125 Nova fase das imigrações / 127 Cidade de São Sepé / 129 Padres / 129 Presenças não vinculadas às colônias / 136 Presenças vinculadas às colônias / 160 Atual presença italiana nos municípios de São Sepé, Formigueiro e Vila Nova do Sul / 176 Nasce uma associação / 178 Fontes consultadas / 180 Anexos / 186 Anexo I Regiões e províncias da Itália / 186 Anexo II Esboço étnico dos municípios de São Sepé, Formigueiro e Vila Nova do Sul / 189 Anexo III Relação de sócios fundadores do Circolo Veneto di São Sepé e primeira diretoria / 192 Anexo IV Relação de sócios fundadores da Associação Italiana de São Sepé e primeira diretoria / 194 Anexo V Relação de sócios fundadores do Circolo Trentino di São Sepé e primeira diretoria / 195 Índice onomástico / 197 |
APRESENTAÇÃO
¨
|
Há espaços com significado, ou lugares de memória. Para imigrantes italianos e seus descendentes, um desses lugares é a chamada Quarta Colônia, na região de Santa Maria, centro do Rio Grande do Sul. Ali foram concedidas terras pelo Governo Imperial e demarcados lotes, destinados a imigrantes europeus, no último quartel do século XIX. Agricultores provenientes da Itália, na maioria, foram ocupando tais lotes para iniciar no Brasil uma vida nova e desejada. Ali, tornaram-se proprietários de terra, o que fora um sonho absurdo na pátria de origem, onde se expandia uma verdadeira febre emigratória, na expressão de vários estudiosos do fenômeno, decorrente da combinação de fatores internos e externos. Abriam-se as rotas transoceânicas para os países americanos e neles havia forte demanda de mão-de-obra, além de grandes extensões de terra a ocupar. É bem verdade que, antes disso, os peninsulares já haviam firmado a tradição da transumância, alcançando inclusive as Américas. Eram exilados políticos, artesãos, comerciantes, profissionais liberais, como médicos e jornalistas, os primeiros a criar raízes nos distantes países americanos que recém apareciam no mapa político mundial. Mas, comparando-se aos fluxos do período pré-industrial, a emigração, na segunda metade do século XIX, diferencia-se pela enorme quantidade de pessoas envolvidas e pela contribuição muitíssimo maior de populações rurais. A febre emigratória propagou-se nas áreas da campanha italiana, impondo problemas às elites dirigentes, especialmente às agrárias, que precisaram enfrentar um crescente despovoamento e a conseqüente escassez de mão-de-obra. Os italianos partiam, deflagrando movimento que pode ser considerado como uma verdadeira revolução social. Partiam impulsionados pela crise econômica e demográfica do imediato período pós-unitário, pelas pressões fiscais, pela industrialização crescente a fazer declinar o artesanato e as manufaturas, pela grave crise agrária decorrente da concorrência dos grãos russos e americanos. O êxodo do campo italiano seria ainda facilitado pela excessiva fragmentação fundiária e pela injustiça nas relações de trabalho. No pensamento de Ercole Sori, a emigração representou um ato de autonomia social, caracterizado principalmente pelo protesto contra a classe dirigente que insistia na manutenção de um sistema espoliativo. Em poucos versos de uma preservada canção popular, a cultura contadina resume o contexto de partida, tão debatido e repetido pelos estudiosos do fenômeno, assim como assinala às esperanças dos que partiam: “Aos nossos Senhores entregaremos a enxada e a pá; iremos para o Brasil beber vinho”. Na verdade, tardaram muito a beber o vinho que precisaram produzir, quando os parreirais vingaram, depois de cavarem, semearem, colherem, sempre curvados sobre a terra. Mas curvados sobre uma terra que lhes pertencia. Foi assim na Quarta Colônia e esta é a História que narra Cesar Pires Machado, reconstruindo o percurso de pessoas e famílias que ajudaram a desenvolver a constelação de cidades liderada por Santa Maria, espaço portador de diversos tempos, de momentos mais ou menos nítidos, emoldurados pelos quadros sociais de quem lembra, como ensina Halbwachs. E são tantos os que narram, porque muitos lá estiveram e por lá transitaram; e foram tantos os que chegaram e partiram, porque para emigrantes pouco há de definitivo. Mas muitos ficaram para sempre ou ficaram por algum tempo; a Quarta Colônia para estes representou o Porto Speranza. Desse Porto é a narrativa do autor, movimentada pelo ir e vir das gentes. O agrônomo Cesar fixa seu olhar na sua terra de origem, onde brotaram as videiras, detendo-se nos homens que as plantaram. Assim, percebe que não abandonaram a enxada e a pá, mas retomaram as ferramentas que lhes permitiram ir adiante de Silveira Martins: Ivorá, Nova Palma, Novo Treviso, Faxinal do Soturno, São João do Polêsine, Dona Francisca, Pinhal Grande. A expansão continua nas primeiras décadas do século XX, na direção sul do rio Vacacaí: Santa Bárbara, Nova Feltre, Aroeira, Picada Grande e, a sudoeste da cidade de São Sepé, a Colônia da Mata Grande. O intrincado da marcha dos colonos, avançando pela região, está sendo explicado na sua complexidade. Alguns rostos vão sendo apontados na legião de pioneiros, provenientes da Itália Setentrional, do Vêneto, especialmente das províncias de Belluno, Vicenza e Treviso. Também provenientes de Cremona, na Lombardia, ou ainda trentinos, abandonando as montanhas tirolesas pelo município de São Sepé, onde procuraram todos recriar aspectos de uma cultura camponesa milenar. Tenho repetido algumas vezes que a experiência da colonização por italianos no Rio Grande do Sul é tão importante, seja sob o ponto de vista quantitativo, seja sob o ponto de vista qualitativo, chegando a eclipsar estudos de outras formas de presença dos italianos entre nós, como aquela relacionada aos núcleos urbanos do Estado, freqüentemente anterior a 1875. O autor não descura desta forma, no que se refere a São Sepé, destacando na cidade, no decorrer do tempo, a presença de muitos padres católicos, agricultores, comerciantes, ferreiros, alfaiates, moleiros, dentistas, médicos. Dessa forma, uma presença significativa, de origem colonial ou não, acrescenta características à cidade, a exemplo do acontecido em outras cidades brasileiras, do Amazonas ao Rio Grande do Sul. Essa presença também justifica a construção de uma identidade étnica, uma italianidade, que se cristaliza na fundação recente de uma Associação Italiana em São Sepé, onde estes imigrantes introduziam novas tecnologias e muitos valores relativos ao trabalho, adequados às idéias de progresso que orientavam nossas elites políticas na virada para o século XX. No período, as cidades, em geral, ofereciam boas condições aos italianos, que falavam idioma semelhante ao português e que praticavam o Catolicismo, religião oficial e majoritária no Brasil. Ademais, hábitos de poupança e de operosidade contribuíam para o sucesso econômico de muitas famílias e para a sua integração, muitas vezes, realizada através de casamentos com representantes de famílias luso-brasileiras, como bem demonstra o autor, ao ampliar o conhecimento da nossa História Regional. Lembro que, depois da Primeira Guerra, acelerou-se, na Europa Ocidental, uma tendência ao abandono daquela História calcada nos grandes vultos. Demorou um pouco mais para acontecer a fuga de uma História fundamentada nas grandes massas sem rosto. Vultos ou massas haviam sido incapazes de dar conta dos problemas que afligiram as sociedades no período do conflito; perderam credibilidade como principais forças motrizes do social. Os homens desejaram uma História que narrasse o seu próprio passado, que lhes pertencesse, que deles estivesse mais próxima. A História Regional pode ser um prolongamento do nosso grupo familiar, de nós mesmos; reflete uma necessidade de valorizar redes familiares, lembranças da infância, genealogias, tradições orais, documentos guardados em velhos baús, como afirma Philippe Ariès, na sua obra Le temps de l’histoire. Depois da Segunda Guerra, essa tendência encontrou-se ainda mais fortalecida. Grandes unidades políticas haviam sido pulverizadas, Estados sumiram. As pequenas localidades reapareceram na cena histórica, sobretudo na França, sob a ocupação alemã. Narrar a História dessas comunidades era uma questão de sobrevivência, de reconstrução de uma identidade que parecia perdida. Por tais razões, o pensamento dos historiadores também dirigiu-se para o local, para o regional e eles passaram a considerar elementos do cotidiano como indicadores de uma realidade histórica mais ampla. Cesar Pires Machado, incansável pesquisador e apaixonado pela investigação histórica, com o presente estudo contribui para a História da Imigração Italiana e para o conhecimento da História Regional. Seu interesse pelo passado incide melhor sobre aquilo que seus conterrâneos conhecem e sobre a vivência de determinado grupo humano, cujos componentes, agora, têm rostos. Redefine paisagens da sua terra natal, tornando-as familiares. Aponta para uma maneira quase secular de viver, analisando a trajetória desses imigrantes italianos e dos seus descendentes no município de São Sepé. Núncia Santoro de Constantino Doutora em História Social Docente no Programa de Pós-Graduação em História – PUCRS |
|
EST EDIÇÕES | Fone/Fax (51) 33361166 |