Calabreses

em

Santa Vitória

do Palmar

Stella Borges, professora (ULBRA) e escritora

Rovílio Costa, professor (UFRGS) e escritor

 

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O tema Calabreses é nosso foco de estudos e pesquisas no presente momento. Tema incipiente e provisório ainda. Pretende, a partir de situações e realidades presentes, acenar para o possível cultural, resultante de experiências anteriores, e capaz de nova utopia, para uma planejada ação.

O homem é memória individual e coletiva. Em seu bios e em sua psique tem registrado, mesmo que silenciado e/ou subjacente, o ontem inalienável da história pessoal, familiar, vicinal, comunal, regional e nacional. História que define nossa imagem e ação no mundo.

Apostamos na cultura como específico modo de ser, viver, pensar e falar, em dinâmica interação com o diverso, com o diferente, com o outro cultural, pelo qual transcendemos os umbrais do limitado, do geográfico, do profissional, à medida em que afirmamos nossa cultura de origem.

É o individual que, pelo cultural, ingressa no universal. É o calabrês, em nosso caso, que, da bota da península, une a seu território cultural o universo. Assim, a Calábria dos dois milhões de habitantes, do pedaço geográfico, da conhecida ponta de bota, perde seus limites físicos em favor de horizontes infinitos de liberdade que a própria experiência cultural propõe.

 

Calabreses, cidadãos do mundo

Houve o calabrês que a bota chutou nos tempos de crise, das emigrações forçadas, como houve o calabrês que fez da bota o trampolim para lançar-se ao mundo como mensagem e proposta de uma forma singular de ser e de viver. A bota ou o trampolim, como marcos materiais, ficaram desafiando os tempos, não perdendo jamais sua identidade; muitos de seus filhos nasceram em todos os continentes, mas nunca pisaram na bota nem no trampolim, no entanto assumiram uma identidade psicológica e cultural que os distingue e conscientemente os identifica com suas raízes geográficas e culturais, porque a cultura, como a vida, comunica-se de pessoa para pessoa. E a cultura calabresa é tão incisivamente região e geografia, que a própria região e a própria geografia se comunicam com a experiência cultural embasada na sonoridade do idioma.

Famílias calabresas aos milhares, perfazendo mais de 800.000 trabalhadores, da unificação ao presente, marcados pela dor e contrariedade, abandonaram a Calábria para, pelo próprio trabalho, construir uma nova e sonhada realidade, que foi eldorado de atração, levando consigo fé, esperança, utopias familiares e religiosas, traduzidas na solidez do viver, pensar e falar, e que hoje fazem parte de um universo calabrês intercontinental.

"Poi verso il fine dell'800 accade un fatto nuovo, che doveva avere tanta influenza sullo sviluppo dell'economia e della società calabrese: si scoprì la via dell'emigrazione verso le Americhe. E da quel momento l'emigrazione è diventata la forma con cui si è espressa la protesta silenziosa delle classi subalterne calabresi ed è stato lo sbocco dei conflitti sociali (Seminara, 1982, p. 307).

Milhares de outras famílias, neste mesmo período, não forçadas por necessidades, nem por imperativos de qualquer ordem, como aqueles que abandonaram a Calábria por motivos de sobrevivência ou para fugir aos revoltantes efeitos de guerras, ao contrário dos primeiros, que tiveram a coragem de sair, estes não tiveram a coragem de ficar, porque, tanto uns como outros, tinham dentro de si o sonho de um mundo a construir com as marcas da própria vida e cultura. Em 1900, porém, começa um fluir constante de calabreses: "I dati della grande fuga parlano e si comentano da soli: nel 1900 dalla Calabria sono andate via 23.328 persone ( nel 1876, primo anno di cui si hanno i dati, l'esodo aveva interessato appena 530 unità, incrementandosi però anno dopo anno); nel 1901 l'emigrazione calabrese è salita a 34.437; nel 1902, a 35.918; nel 1903, 33.999; nel 1904, 35.482 per diventare addirettura 62.290 l'anno sucessivo."

 

Calabreses no Rio Grande do Sul

De 1900 em diante, especialmente a partir da década de trinta, a presença calabresa no Rio Grande do Sul, particularmente em Porto Alegre, foi se acentuando. A maior parte dos atuais italianos de passaporte, em Porto Alegre, são calabreses (Constantino, 1991).

A Itália nunca precisou de colônias, porque os habitantes de todas as suas regiões, especialmente os da Calábria, souberam ser, como italianos e/ou calabreses, cidadãos do mundo.

O processo de identidade pessoal é, por isso, um processo nuclear único, que se explicita nas formas de auto-imagem e auto-estima, e se faz base da qualidade do viver. Assume-se uma nova realidade na medida em que se tem consciência clara das experiências anteriores que se tornam base de um novo relacionamento pessoal, social e cultural.

Precisamos conhecer os antecedentes culturais italianos e calabreses do Rio Grande do Sul, um pólo importante da presença e ação italiana e calabresa em todos os tempos.

Em 1824, o Rio Grande do Sul, em busca de mão-de-obra colonizadora, acolheu as esperanças de um grupo de alemães que iniciaram o mundo que, cinqüenta anos após (l875), foi sonhado, também, com matizes próprios, por um universo de italianos, poloneses, franceses, russos, suíços... todos em busca de uma mesa tosca, feita de araucárias ou cedros, onde pudesse estar em abundância o pão que lhes faltava nas pátrias de origem. Pão que devia ser repartido entre todos os da família em primeiro lugar e, depois, também com os amigos e vizinhos que estivessem de mal com a sorte e a fortuna. O sonho de uma mesa solidária e fraterna mereceu o investimento da pátria deixada no além-mar, por italianos de todas as regiões.

No mesmo período em que em São Paulo entrava mais de um milhão de italianos, contatados, contratados, negociados para fazendas de café, conseguindo um percentual destes estabelecer-se em pequenas propriedades, começando logo sua sonhada autonomia, no Rio Grande do Sul entravam aproximadamente cem mil italianos de 1875 aos inícios da Primeira Guerra Mundial. Outros Estados brasileiros, como Santa Catarina, Paraná, Espírito Santo, Bahia, Minas Gerais receberam um contingente médio de 25 a 30 mil italianos.

Caxias, Garibaldi, Bento Gonçalves e Silveira Martins são as quatro colônias imperiais que iniciaram, as três primeiras em 1875, e a última em 1877, seguindo-se, uma década após, as colônias além do Rio das Antas, Veranópolis, Antônio Prado... e por estes caminhos os italianos foram ocupando áreas agrícolas do Estado. Muito mais que três milhões seriam eles não fosse o êxodo interno para outros Estados do país após a II Guerra, sempre em busca de terras para os próprios filhos.

Os colonos italianos que vieram ao Rio Grande do Sul trouxeram consigo alguns pertences, pouco dinheiro, mas muita vontade de lutar e vencer. Trouxeram mais que a cultura de sua pátria, a Itália, a cultura de suas regiões, províncias e comunas. Colocados em pequenas propriedades, uns ao lado dos outros, puderam desenvolver-se num relacionamento de vizinhança e amizade, conservando as características culturais. Pesquisas dão conta de que, desses imigrantes agricultores que conservaram o hoje inestimável patrimônio da língua familiar, apenas 1 por mil falavam o Italiano Oficial; os demais todos falavam o dialeto de sua região, especialmente trentino, vêneto, lombardo.

 

Quem é o calabrês emigrante

Todo emigrante, na nova realidade, necessita adaptar-se a novas condições de vida e de cultura. De sua tradição originária, abandona primeiro os valores que considera negativos e incorpora logo, da nova realidade, aqueles que lhe são agradáveis. Começa a convivência de duas experiências. Este fato nos coloca diante da pergunta: Qual seria a reação dos descendentes se a Itália, em especial a Calábria, optasse por preencher seus vãos populacionais com descendentes de imigrantes? Haveria resposta afirmativa por parte destes?

Quem emigrou se preocupa em que sua localidade de origem e a casa onde nasceu permaneçam, e as pessoas conservem os mesmos comportamentos. São conservadores em relação ao mundo deixado. Não há maior decepção do que chegar, depois de longas buscas, como muitas vezes acontece a descendentes de imigrantes do norte da Itália, ao lugar de origem dos antepassados e não encontrar ninguém mais morando lá, a propriedade desfeita, as casas demolidas. O sonho do contato com espaço físico concreto fica desfeito, sobrando a meia satisfação de ter a consciência de ser de tal comuna, de tal província, de tal região.

Quanto mais restritiva a cultura deixada, seguramente menos reassimilável pelo emigrado e descendentes. Nesta linha de pensamento, para o caso da Calábria, citamos a análise de Antonino Denisi (1982, p. 303-4): "L'Emigrazione dell'ultimo secolo ha messo in evidenza l'esistenza di una cultura propria dell'uomo e della comunità calabrese, che può essere sommariamente sintetizzata in pochi tratti fondamentali. Il calabrese emigrato è un’uomo ricco di interiorità, possiede una tenace laboriosità, è cordialmente ospitale ed accogliente, avverte un acuto bisogno di giustizia, forte senso della solidarietà di gruppo, è profondamente legato alla propria comunità ed alla terra da cui proviene, ha coscienza lucida della vita come valore da custodire e da proteggere, attribuisce una particolare importanza alla stabilità e coesione della famiglia, per la quale è pronto ad affrontare qualsiasi sacrificio.

 

Calabreses em Santa Vitória do Palmar (Stella Borges, professora (ULBRA), e escritora)

 

Geralmente chegados através do Prata, por volta de 1865, encontramos italianos em Santana do Livramento, fronteira com o Uruguai, o mesmo acontecendo em Jaguarão, São Borja, Dom Pedrito, Santa Vitória do Palmar, Bagé e outros municípios. Em geral todas essas localidades iniciaram a receber italianos, anos antes da imigração colonial agrícola, iniciada no nordeste do Rio Grande do Sul. Seguramente são italianos que entraram no Estado espontaneamente com recursos próprios. E que podem ter estabelecido diferentes formas de identificar-se e de serem identificados.

Santa Vitória do Palmar, no extremo Sul do Estado, é um exemplo de reimigração do Uruguai ao Brasil na virada do século. A maioria são calabreses e todos conhecem suas origens; entretanto maioria não conhece ou não fala a língua familiar, não mantêm contatos com a Calábria, a não ser algumas famílias, especialmente duas.

Em Santa Vitória, antes da colonização espanhola e portuguesa, habitavam a região, os índios charruas ocupando uma vasta área entre o Rio Uruguai e o Oceano Atlântico.

Em 1737, uma expedição portuguesa penetra na região, construindo fortes e delimitando fronteiras. Mas os primeiros desentendimentos entre Portugal e Espanha, no que diz respeito à demarcação só foram solucionados após a assinatura do Tratado de Madri, estabelecendo divisas naturais. Porém a efetivação de tal processo só ocorre em 1751. Muitas guerras vão se suceder no território, o que atrasa a definitiva demarcação que será concluída um século depois, em 1852.

Em 1852, será demarcado o local para a fundação de Santa Vitória do Palmar. Antes da denominação definitiva, era conhecida apenas como Andrea, nome de um dos fundadores. A região também era conhecida como Campos Neutrais, referindo-se especialmente ao período em que foram terras de ninguém, sem leis, sem reis ou seja, campos neutros (1777-1801). Esta região se estendia do Taim até o Chuí, onde então começava as possessões espanholas, do outro lado do Arroio de mesmo nome. "(...) Rio Grande e Santa Vitória do Palmar, oficialmente, foram as primeiras terras conquistadas por Portugal no RS (...) A posse militar de Santa Vitória foi assegurada, em outubro de 1737, com o estabelecimento do forte de São Miguel e Guarda do Chuí, guarnecidos por soldados da expedição de Silva Paes"(Revista Militar brasileira. Ano LX, n. 3 e 4, jul./dez. Vol. CV. Centro doc. exército, p. 64)

Os Campos Neutrais foram povoados por portugueses, após a delimitação, contando depois com a presença de outros grupos étnicos.

Em 1858, o distrito Capela de Santa Vitória do Chuí (2o. distrito de Rio Grande) passa à freguesia adotando então o nome atual, Santa Vitória do Palmar. Somente em 1872 é criado o Município. A atividade econômica principal, foi especialmente a pecuária com base no latifúndio, aliás como foi em toda região da fronteira, além do comércio.

Como cidade de fronteira, recebeu uma significativa leva de imigrantes, da chamada imigração espontânea, oriundos principalmente de Buenos Aires e Montevidéu. Este grupo, em função da localização e situados na fronteira do vaivém permaneceram, de certa forma, juntamente com todos os habitantes de Santa Vitória, num relativo isolamento. Até a década de 1950, as viagens em direção norte do Estado, eram realizadas pela praia, dependendo portanto das marés. Somente a partir da década de 1960, quando foi construída uma estrada de terra, conhecida como Carreteira (estrada carretas) até Pelotas, facilitando o acesso, os santavitorienses vão estreitar relações com o Brasil. Até este período, pode-se considerar que Santa Vitória era uma cidade uruguaia, pois a infra-estrutura e a curta distância favorecia a aproximação. Até a década de 1970, muitos que desejavam estudar, passar as férias e mesmo residir, buscavam, freqüentemente, Montevidéu ao invés de Porto Alegre.

Assim, só podemos explicar a imigração italiana em Santa Vitória do Palmar numa dimensão histórica uruguaia e não brasileira, portanto diversa do processo imigratório ocorrido no contexto do Rio Grande do Sul.

Os imigrantes italianos, começaram a chegar no município a partir de 1860, trabalhando como mascates, concorrendo com o comércio dos sírio-libaneses, vendendo pelo interior do município, essa facilidade é um dos motivos que optaram por Santa Vitória; num segundo momento acabaram por ter como ramo definitivo de atividade econômica o comércio de secos & molhados.

Partindo sempre da amostragem, ainda identificam-se prestadores de serviços como: sapateiros, pedreiros, soldadores (ambulante), alfaiates e atividades no ramo de transportes em diligências. Atividades tipicamente urbanas.

Realizadas 23 entrevistas, todos os entrevistados alegam como razão de emigrar a fuga da miséria e o desejo de melhorar de vida.

As justificativas para fixar-se em Santa Vitória são de que já havia parentes no município e que foram chamados, garantindo, num primeiro momento, a ajuda e solidariedade para atingir o objetivo – fare l’America – mito do Novo Mundo, da riqueza e da sorte.

Todos os entrevistados vieram para cá ou sozinhos ou com parentes, predominando os de 1º grau como pai, mãe e esposa. Os que vieram sozinhos se estabeleceram e depois de alguns anos chamaram esposa e filhos ou os pais, promovendo a reunificação da família. Este é um possível indício de imigração permanente. Pelo censo da população, segundo o sexo e a nacionalidade, de 1900, encontramos 166 italianos e 66 italianas, sobre um total populacional de 8.970 pessoas, sendo 80% destes, brasileiros. É interessante notar, o número excessivo de homens italianos para o de mulheres, o que colabora para a idéia de migração em Cadeia.

Imigrantes italianos estão presentes em Montevidéu desde o início do século passado, sendo significativa a atuação de inúmeros combatentes italianos. Assim como no RS, no Uruguai também chegaram grande número de imigrantes destinados a ocuparem territórios despovoados. Segundo BRIANI, em 1843 o censo registrava cerca de 4.025 italianos em Montevidéu constituindo-se na segunda coletividade estrangeira, sendo os franceses em primeiro. Desde essa data, a freqüência de chegada de italianos no porto de Montevidéu aumenta, continuando intenso até a I Guerra Mundial.

A contribuição desses imigrantes foi significativa, mas a conjuntura política e econômica, na segunda metade do século passado, tanto no Uruguai como na Argentina provocou uma migração interna, fazendo com que muitos desses imigrantes percorressem cidades do interior, procurando melhores condições de vida. É interessante notar que mais de 50% dos entrevistados afirmam ter como destino inicial ou Buenos Aires (5) ou Montevidéu (9), fazendo parte então da entrada oficial de imigrantes na Argentina ou Uruguai.

Além da crise, outra justificativa para o ingresso em nossa região de fronteira, de imigrantes de diversas etnias, entre eles os italianos, tenha sido o contrato realizado pelo empreiteiro Serpa Júnior. Segundo Pasquale Corte (em De Boni / Costa, 1984, p. 65) muitos italianos "...estão em Pelotas, Rio Grande, Bagé, Jaguarão, Santa Vitória do Palmar, Alegrete, Uruguaiana, Santana do Livramento, São Jerônimo, Cachoeira e outras localidades menores."

Assim que poderemos encontrar em Santa Vitória do Palmar, italianos originários do mesmo tronco familiar, encontrados também na capital Uruguai e nas cidades de Minas – Castillo e Rocha. É provável, que o mesmo se repita em outros municípios fronteiriços, como em Livramento ou Bagé.

Como Santa Vitória foi sendo urbanizada, nascendo junto praticamente com o início da presença de imigrantes italianos, encontramos os mesmos envolvidos nas mais diversas atividades sociais e associações: em lojas maçônicas, clubes e sociedades pastoris, agrícolas e industriais (MELLO, Tancredo F. O Município de Santa Vitória do Palmar. Porto Alegre: Livraria Americana, 1911).

Membros do grupo italiano no município, fundaram a Società Benevolenza, em 1880, com exclusiva participação de italianos. Seus membros fundadores foram: o médico Francisco Palombo, Carmine Brundo, Luigi Bottini, Antonio Blasi, Pietro Martino, Stefano Ferrari e Giovanni Boraglia.

Da amostra, nem 50 % dos entrevistados participavam da Sociedade italiana.

Dos que não participaram, um afirmou que como havia dificuldades para o sustento, não participaram de nada, só trabalharam!

Os entrevistados são oriundos de diversas regiões do sul da Itália (Consenza, Napoli, Salerno; Sicilia) mas também se estabeleceram no município italianos de Firenze, Gênova e Novara.

Em Santa Vitória do Palmar havia a chamada Quadra dos Italianos, mas não foi possível identificar ainda a proveniência daqueles e se outros italianos moravam fora do gueto.

Novas entrevistas deverão ser realizadas a fim de perceber as relações interétnicas, através da memória dos últimos descendentes de italianos, visando olhar de dentro com o ator e como ele, montando, desmontando e remontando sua construção/desconstrução étnica/cultural. Estabelecendo um processo positivo de construção histórica a partir de todas as fontes possíveis, desde álbuns de famílias, fotos, filmes, cartas, entrevistas, documentos em geral e demais fontes oficiais a fim de estabelecer qual identidade é formulada nos diversos períodos da história onde o palco por nós escolhido, foi Santa Vitória do Palmar!

 

Calabreses sobre si mesmos

 

Na cidade de Cosenza, em entrevista, o cobrador do ônibus que faz o trajeto Cosenza/Pedace e frações, interessado e bom conhecedor da história regional e local, assim caracterizou os preconceitos norte/sul:

"Quanto aos particularismos norte/sul, a explicação que eu tenho é a seguinte: somos considerados diferentes, primeiramente, em função da raça. Mas não é a cor da pele a base do preconceito da gente do norte em relação à gente do sul. Para mim, a base de tudo é a questão econômica. Como no sul não há indústrias, os jovens, quando terminam o segundo grau, continuam os estudos, ingressando nas universidades, enquanto no norte vão trabalhar, pois com o dinheiro que adquirem, consomem tudo o que podem. Assim, dizem, o índice de analfabetismo é maior no norte do que no sul.

A cultura geral e o conhecimento também são maiores no sul, por isso que grande parte dos sulistas vão trabalhar e ensinar no norte e são sempre os melhores. Do ponto de vista econômico, um dos fatores é a concorrência dos poucos produtos produzidos no sul, pois o custo para colocá-los em algum centro de bom poder aquisitivo, isto é, no resto da Europa, e não no Norte da África, onde o poder aquisitivo é pequeno, o custo do frete é muito maior para o sul do que para o norte, razão por que os produtos do sul chegam ao mercado mais caros que os do norte. Os jovens do sul, com mais estudo, não aceitam trabalhar nas poucas empresas do norte que chegam aqui. Daí vem o discurso do norte de que o sulista não gosta de trabalhar. Porque nossos jovens seguem as profissões acadêmicas, a agricultura não é tão desenvolvida e, ademais, os marroquinos e tunisianos que aqui chegam em busca de trabalho, preferem o comércio ambulante".

 

O idioma como base da história e da cultura

A grande imigração agrícola, começada em 1875, com levas de imigrantes especialmente do norte da Itália, vênetos, lombardos, trentinos, friulanos... estabelecidos em pequenas propriedades, em colônias homogêneas quanto a seus habitantes, todos italianos, mas italianos de diferentes regiões, formaram um idioma próprio resultante dos diferentes idiomas falados por cada integrante. Desta amálgama resultou o Vêneto Brasileiro, hoje solidificado com dicionário, gramática e mais de uma centena de publicações históricas, genealógicas, literárias e com programações diárias ou semanais em dezenas de rádios do interior e constantes informações em veículos de imprensa escrita.

Indiscutivelmente a identidade cultural da grande imigração agrícola no Sul do país foi, em parte, mantida graças à manutenção da língua. Hoje, se o Vêneto, a Lombardia, o Trentino, o Friuli quiserem pesquisar seu idioma original, falado há cem anos nessas regiões, precisam passar pelo Rio Grande do Sul.

Até pouco tempo, antes de se generalizar a preocupação com aquisição de cidadania italiana e de pesquisas genealógicas muito desenvolvidas no Rio Grande do Sul, a maior parte dos descendentes da imigração agrícola não sabia qual era a comuna de origem, ou tinham vaga idéia da província e região de procedência. Entre os calabreses, porém, seja da imigração antiga, como se verifica em Santa Vitória do Palmar, seja da imigração deste século, mesmo grupos que não mantiveram o idioma, mantêm a consciência da sua origem.

Muitos descendentes da imigração agrícola, depois de prolongadas pesquisas, chegam a localizar sua parentela na Itália, e ceifam a decepção de se encontrarem com parentes que já não se dizem parentes, ou têm medo de sê-lo, ou cultivam de sua cidade de origem aquela mesma idéia que lhes fora transmitida há cem anos.

Os dois grandes pólos de imigração italiana no Rio Grande do Sul e no Brasil, como na Argentina e Uruguai, tiveram o privilégio da manutenção de sua identidade cultural pela manutenção do idioma. Isto porém não aconteceu em toda parte. Apenas os Estados do Sul conservaram a fala familiar de modo geral; nos demais estados conservou-se em alguns casos.

A língua/dialeto é importante para identificar processos evolutivos e de mudanças sócio-culturais entre as comunidades. Para abordar este aspecto, estudos recentes têm elaborado pesquisas científicas na área da lingüística e da sóciolingüística A língua tem papel importante ou intrínseco na constituição tanto da identidade individual, quanto social "... la lingua non è un aspetto accessorio e successivo rispetto alla dimensione sociale e individuale, ma è ciò che consente di fondare queste due stesse dimensioni; il suo valore non è strumentale alla sopravvivenza comunicativa, ma alla possibilità stessa, del concetto di individuo e di società, e dunque alle caratteristiche più profonde della loro identità" (Vedovelli, in Pitto, 1991, p. 249-57).

Sem a pretensão de uma palavra definitiva, apontamos para pesquisas de Scott Bowles e Hugh McCann (Folha de São Paulo, 3-7-1994), assim intituladas: "Metade das 6 mil línguas corre perigo de extinção". O Eyak, uma língua nativa do Alasca, é, hoje, falada apenas por Marie Smith Jones, residente em Anchorage, com seus 76 anos. À medida em que aumentam as comunicações eletrônicas e a tecnologia computadorizada, as línguas desaparecem. Cerca de metade dos 6.000 idiomas falados no mundo enfrenta o perigo de extinção. Cientistas vêm aumentando seus esforços para documentar as línguas nativas, idealmente, para salvá-las, mas mais provavelmente para dar-lhes um lugar na história.

Cada língua humana é um recurso cultural único e insubstituível. Quando uma língua desaparece, ela leva consigo sua literatura, sua mitologia e, em alguns casos, uma poesia profunda e fascinante que reflete a cultura em desaparecimento. Das mais de 700 línguas faladas na América do Norte antes da chegada de Cristóvão Colombo, menos de 200 sobrevivem. Dessas, menos de 40 estão sendo aprendidas por crianças – fator essencial para a sobrevivência da língua.

 

Emigração italiana na atualidade

Se perguntarmos à Itália de hoje se ainda existe emigração, a resposta será negativa, embora estatísticas comprovem o êxodo de 50.000 pessoas da Itália, a cada ano.

"Ufficialmente l'emigrazione italiana è finita...La dichiarazione può essere accolta qualora intenda che il fenomeno delle partenze di massa oggi non si verifica. Non può invece essere accolta, se intende anche che gli italiani residenti all'Estero sono integrati nei loro nuovi paesi e con l'Italia non hanno piú niente a che fare. Si tratta, comunque, di una conclusione sibilina poiché, anche se si riferisce al movimento migratorio, induce alla conclusione commoda e facile che, se gli italiani non emigrano più, l'emigrazione ha cessato di essere un dramma per il nostro paese e perciò essere dimenticata. Una rimozione abbastanza utile, poiché cancella tanti debiti di carattere economico e morale, poiché consente lo sganciamento progressivo da ogni impegno di assistenza" (Bruni, 1994, p.14). Renato De Bona (apud Laganà, 1994, p. 9) mostra, por exemplo, como a imprensa italiana considera o fato emigração: "Si dedicano più notizie ai problemi dei gatti e dei cani, che degli emigrati."

Se olharmos a Europa de hoje e sua necessidade de reposição populacional e a Itália em particular, nos parece absurdo que 50 mil italianos deixem a Itália, hoje, como também de que a Itália não se preocupe com o retorno de emigrantes e descendentes. Por que isto não acontece? Também caberia a pergunta de se, efetivamente, emigrantes e descendentes querem retornar pura e simplesmente. Não será que a realidade de quem detém o poder de contratar mão-de-obra, ou detém o domínio de terras, conserva a mesma nefasta tradição de explorar massas pobres e desprotegidas? A resposta nos faz chegar, talvez, à mesma afirmativa: muitos quereriam retornar, mas poucos têm a coragem de fazê-lo. "Secondo l'Istituto Tedesco di economia, nei prossimi trent'anni l'Unione Europea avrà bisogno di 28 milioni di lavoratori extracomunitari per coprire i buchi occupazionali lasciati scoperti dal calo demografico... L'Europa dovrebbe prevedere un ingresso annuale di circa 900.000 lavoratori extracomunitari. Il contingente previsto per la Germania viene calcolato su 400.000 lavoratori circa. All'Italia ne basterà la metà. La Spagna ne avrà bisogno di 80.000; 60.000 la Francia; 50.000 Portogalo, Dinamarca, Grecia, Belgio, Olanda e Inghilterra" (La Regione Calabria Emigrazione, Supplemento al n. 4/1994, p. 20).

 

 

Referências bibliográficas

 

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