OS CAMINHOS DA IMIGRAÇÃO TRENTINO-ITALIANA NO BRASIL

Luis Alberto De Boni

 

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Introdução

 

Principio esta comunicação dizendo que o título inicial dela era: O futuro da imigração ítalo-trentina no Brasil. A mudança deveu-se a um motivo muito simples: recordei-me de um livro famoso, publicado há não muitos anos, hegelianamente intitulados O fim da História. A obra fez sucesso no Brasil e, ao que consta, foi lida e comentada por muitos também na Itália. Ora, pouco depois de lançá-la, Fukuyama teve que defrontar-se com a queda do muro de Berlin, o desmoronamento da União Soviética, o desmantelamento do comunismo na Europa e com diversos outros fatos tanto insólitos como inesperados, o que fez com que um escritor gaúcho, Luis Fernando Veríssimo, afirmasse, ironicamente, mais ou menos o seguinte: "A História deu sua resposta: mostrou que não chegou ao fim, mas também não precisava abusar."

De minha parte, por um lado, não tenho pretensões a profeta e, por outro, sou da firme convicção de que nossas previsões são sempre limitadas pelos nossos horizontes culturais e por fatores circunstanciais que, uma ou duas décadas após, modificam-se a ponto de tornar objeto de interesse paleontológico, quando não de riso, o que se tomou, anos antes, como uma previsão científica e inevitável do futuro. Para dar dois exemplos, que se recorde o impacto causado na década de 60, pelo livro O desafio americano de J.-J. Servan-Schreiber, ou, algo mais recente, o que há cinco anos, ontem portanto, se dizia sobre o Japão, como a nova capital mundial da high-tech, desbancando os Estados Unidos.

 

O estancamento da imigração – os laços com o passado

 

Isto posto, atenho-me, portanto, ao presente, interessado em perguntar-me sobre a situação atual da imigração, embora tal pergunta não deixe de ser também uma interrogação sobre o futuro.

Em primeiro lugar, como pressuposto, creio que todos concordamos que não haverá mais uma grande imigração da Europa Ocidental para a América. De fato, não haverá imigração rural porque não existem mais milhões de camponeses nestes países, onde a tecnologia substituiu com vantagem a mão-de-obra. Também não haverá imigração maciça de proveniência urbana, devido às baixas taxas de natalidade, o que faz com que países, até ontem exportadores de gente – e inclui-se aqui toda a Comunidade Européia –, sejam hoje importadores e, mesmo assim, em alguns casos, constatam-se neles taxas nulas ou negativas de crescimento populacional. Portanto, não haverá mais reposição de imigrantes europeus na América.

Com isso, porém – e este é um segundo ponto –, estamos dizendo que a imigração ficará sempre mais entregue à própria sorte dentro de novo contexto, para o qual foi transportada durante o século XIX e nas primeiras décadas do século que acaba de terminar.

Cabe dizer – em terceiro lugar -, que na lógica do que estamos expondo, é preciso considerar a imigração como um fato social do passado. Ora, isto leva consigo conseqüências que talvez não sejam de todo percebidas por historiadores, antropólogos e sociólogos - e menos ainda, sem dúvida, por industriais, políticos e turistas.

Deixando de lado afirmações genéricas, e atendo-nos especificamente ao caso dos trentinos e italianos no Brasil, tomemos um exemplo: o do grupo de trentinos localizado no município de Nova Trento, em Santa Catarina. Trata-se do núcleo trentino que, em solo brasileiro, melhor conservou língua, costumes e tradições da terra de origem. Quando é anunciada a visita de uma autoridade trentina, a recepção, por parte deles, é sempre calorosa; quando o professor Renzo Grosselli retorna àquele local de suas pesquisas, é com carinho que o reencontram; quando se pergunta a alguém do grupo, qual sua proveniência, é com orgulho que a proclama. E quem lá esteve sabe muito bem como ainda hoje é possível comunicar-se, com a maioria da população, na língua dos antepassados.

Ora, quase todos os indivíduos desta comunidade, como também os de outras áreas de colonização, manifestavam desde há tempos, o desejo de um dia vir a visitar a Itália. Com o passar dos anos, a melhoria de vida e o aumento das relações turísticas, tal sonho pôde tornar-se realidade para muitos deles. Mas é exatamente esta realidade que faz as pessoas caírem na realidade: a viagem para a Europa, seguido, acaba tornando-se uma decepção. Partiu-se do Brasil para rever a pátria dos nonos, o cantado Vale da Valsugana, as terras agrícolas de Vicenza, ou de Morano Calabro – mas a pátria dos nonos não existe mais, ou melhor, só existe ainda na imaginação dos filhos imigrantes: partiu-se para ver um mundo, e acabou-se encontrando um outro totalmente diferente; em vez da comunidade rural, do paesello, do botequim no qual os colonos se encontravam no final da tarde, bateu-se de frente com um mundo capitalista, de relações anônimas, no qual os indivíduos são peças em uma máquina – um mundo homogêneo, que em seu interior não distingue Trento, Feltre ou Cosensa, as quais, sob muitos aspectos - e sabendo que omnis comparatio claudicat -, parecem miniaturas de São Paulo, Nova Iorque ou Milão, tal como Garibaldi, Concórdia, Jundiaí e Venda Nova do Imigrante adquirem cada vez mais feições semelhantes de um mesmo mundo capitalista. Já foi dito, por mais de uma vez, que a melhor maneira de fazer um filho de imigrantes italianos perder as ilusões é mandá-lo visitar a Itália dos antepassados.

Este fato possui uma explicação. A Itália tomada como ponto de referência dos filhos de imigrantes, não é o país de hoje, rico, industrializado, uma das sete grandes economias do mundo, mas a Itália pobre, agrária do século XIX; da mesma forma, o Trentino a que se referem é o dos humildes colonos da Valsugana, não o dos grandes negócios do mundo moderno capitalista. Os ítalo-brasileiros sentem-se filhos de um país europeu do século passado; o imaginário deles não evoluiu pari passu com o crescimento da Itália, após a saída dos imigrantes. A Itália moderna pouco tem a dizer-lhes; se o problema é apresentar o progresso técnico-industrial, é falar do desenvolvimento econômico, então os Estados Unidos são muito mais interessantes e os ítalo-brasileiros estão bem mais próximos dos norte-americanos que dos italianos.

Por isso mesmo, para a grande massa de filhos de imigrantes, os nomes de Ítalo Calvino, Umberto Ecco, dizem muito menos que os de Jorge Amado e José Clemente Pozenato. Um coral alpino ou calabrês, cantando músicas populares de outrora, está próximo à cultura dos imigrantes do Brasil, fala a mesma língua deles; Dario Fò, pelo contrário, é-lhes tão longínquo quanto o Günther Grass ou Ionesco. De igual modo, em política, querer falar de Liga Norte, ou de Partido Neofascista – e mais de um político ou intelectual já andou pelo Brasil com tais pregações – é tentar transportar os problemas italianos de hoje para um mundo no qual eles não têm lugar. O último político italiano que ainda disse algo na língua dos imigrantes, é preciso confessar, embora a contra-gosto, foi Mussolini: quando os colonos e pequenos trabalhadores começavam a enriquecer e procuravam um lugar ao sol, julgaram encontrar apoio nos discursos grandiloqüentes de quem se dirigia a eles e falava do espaço reclamado pela Itália no concerto das nações – o que equivocadamente deu-lhes a impressão de ser um eco das pretensões dos imigrantes, na busca de afirmação social e política dentro do contexto brasileiro. Quem fala a mesma língua dos imigrantes é, sem dúvida, a Igreja Católica – não enquanto Igreja empenhada e engajada no mundo de hoje, mas enquanto portadora de uma fé alegre e simples, tal como a conhecemos nos papas Roncalli e Luciani.

Portanto, ao analisarmos a grande imigração trentina e italiana no Brasil, torna-se necessário evitar um equívoco, qual seja o de supor que se trata de um grupo de compatriotas, de italiani all’estero, de trentini all’estero, com as mesmas preocupações, com a mesma visão de mundo que possuem os hoje residentes na Itália. Na realidade, o Trentino, o Vêneto, a Calábria, que servem de ponto de referência para os gringos brasileiros, encontram-se num passado longínquo e, sob certos aspectos, pouco têm a ver com o que são estas regiões no dia de hoje. O desenvolvimento sócio-cultural, vivido pelas comunidades de imigrantes no Brasil, seguiu seus próprios caminhos, que não foram – e não poderiam ser – os caminhos percorridos pelos que permaneceram na Europa. Os centros de referência são outros: as decisões políticas do ítalo-brasileiros são tomadas em Brasília, não em Roma; a força econômica do país encontra-se em São Paulo, não em Milão; e os tifosi interessam-se pelo Internacional de Porto Alegre ou pelo Palmeiras de São Paulo - la Inter ou la Roma só serão atração na medida em que atletas brasileiros fazem sucesso nelas. Os trentinos e italianos do Brasil são brasileiros de proveniência trentina e italiana – não são mais, se é que um dia o foram, trentinos ou italianos residentes no Brasil.

 

 

Quem são os gringos

 

Os estereótipos, como sabemos, são sempre suspeitos. Mas não deixam de ser indicadores preciosos. O que uma comunidade define como judeu, como negro, como alemão, como ‘turco’ (sírio-libanês), é sempre um ponto de partida, que permite aferir, ao menos em parte, o grau de aculturação e de aceitação do outro em um mundo que não é predominantemente o seu. Permitimo-nos perguntar o que é o italiano na literatura, no cinema e televisão, e na voz do povo.

Na literatura, um estudo a todos acessível é o de Antônio Hohlfeldt, "A cultura italiana e a literatura brasileira". Nele tem-se uma panorâmica da representação do italiano no mundo literário brasileiro. Tomo dois autores, de importância nacional, como modelos: Plínio Salgado e Érico Veríssimo.

O paulista Plínio Salgado - cuja obra literária seguramente será reavaliada no dia em que a separarem das idéias integralistas do autor – foi o primeiro literato-maior daquele estado a dar foros acadêmicos, em forma de romance, à questão das relações entre os diversos grupos humanos em São Paulo. Sua obra, O estrangeiro, com duas edições em 1926, ano de lançamento, sob o fio condutor da tragetória de Ivã, um russo refugiado, conta a história da crise do caboclo (que não se adapta a novos modelos de produção), da decadência do patriarcado cafeeiro e da ascensão dos imigrantes italianos, representados na obra por Carmine Mondolfi e família. Este, "um patriarca meão, mulher e cinco filhos – um rapaz de 20 anos, uma rapariga de 16, crianças miúdas, sacos de roupa, cachimbo fumegante, velhas canções napolitanas [...] Carmine Mondolfi, o patriarca, na sua penúria, tinha uma grandeza estranha de predestinação" (p. 17s). "Com dois anos de permanência na fazenda, tornou-se figura central da colônia [...] Desenvolvia pequena lavoura de cereais, criação de porcos e galinhas. No segundo ano já houve com que comprar dois alqueires de terras a Nhô Indalécio" ( p. 27). Adquirido por 20 contos, revendido por cem, o sítio de Indalécio forneceu parte do dinheiro de que Carmine precisou para comprar a fazenda do coronel Pantojo (p. 77). Pouco tempo depois, Carmine, milionário, industrialista, senhor de ferrovias, residindo em São Paulo, vê uma filha casar-me com o conde Solfieri, outra com um Bueno de Mendonça Coutinho de Menezes e Albuquerque (p. 142) – nobilita a família e sustenta os genros falidos -, e o filho, Humberto, grande plantador de café é autoridade política (p.158). Entrementes, Arquimedes Pantojo gasta a fortuna em prostíbulos e, no dia do falecimento, há apenas três coroas de flores: dos filhos, de Carmine e de Ivã (p. 171).

O segundo autor é o gaúcho Érico Veríssimo. Já em seu primeiro livro, Fantoches, em 1932, um dos contos, intitulado "Malazarte", trata do problema. Em edição de 1972, comemorando 40 anos de atividades literárias, anotou de próprio punho: "Um dia – lá por voltas de 1930 -, quando eu ainda estava em minha cidade natal, me veio a idéia de escrever a estória duma família gaúcha, flor de nosso patriarcado rural, que aos poucos vai perdendo todos seus bens materiais, ao passo que imigrantes alemães e italianos, chegados alguns anos antes [...], quase em estado de indigência, vão progredindo de tal forma, que acabam proprietários das casas avoengas pertencentes ao citado clã nacional". Malazarte, o herói do conto, que compra cigarros na bodega do sírio-libanês e foge para não pagar, fala de sua vida há anos, quando todos o respeitavam, mas agora tem de suportar o fato de sua pretendida preteri-lo a Nino, "um gringo. O pai chegou ao Brasil pobre e sujo. Trazia uma mulher gordíssima e um baú de lata. Começou a vida na pátria nova como vendedor ambulante de frutas. Depois botou bodega, com economias, hoje tem grande casa de negócio. Capitalista. ‘Ornamento de nossa sociedade’. Conselheiro municipal. E o filho vai casar com Clara. Um italiano ignorante que fala mal o brasileiro. Dinheiro! Dinheiro!" (p. 109s.).

Em outras obras Érico apresenta personagens algo semelhantes, italianos que ascendem socialmente, tornando-se médicos, grandes proprietários, políticos. Mas é sobretudo em Música ao longe, que o jogo de ascenso e descenso de grupos sociais melhor transparece. Personagem principal do romance é uma jovem professora, Clarissa, de sobrenome Albuquerque, família de grandes latifundiários, reclamando descendência de ilustres descobridores portugueses, e tendo a adornar a sala, no casarão que habita, o quadro do bisavô, general, herói da guerra do Paraguai; como contraponto, de outro lado estão Vittorio e Annunciata Gamba, pobres imigrantes, cujo filho, Gustavo, é chamado de ‘Pé de cachimbo’ devido a um defeito físico. Em 1911, Vittorio é generosamente socorrido pelo patriarca dos Albuquerques, para evitar a execução de uma promissória que lhe tiraria tudo o que possuía. Poucos anos depois, as coisas mudam, os fazendeiros vivem tomando dinheiro a juro de Vittorio, proprietário de uma padaria e que, aos poucos, vai se adonando, sem piedade, dos bens dos vizinhos. Pensando nesta situação, João de Deus, o novo chefe do clã de latifundiários, reflete: "Quando Vittorio Gamba chegou da Itália com uma trouxa de roupa, a mulher e um filho pequeno, os Albuquerques eram donos de quase todas as casas do quarteirão. Em Jacarecanga dizia-se: ‘Vou para o lado dos Albuquerques’, ‘Vim das bandas dos Albuquerques’. [...] O tempo passou. Os negócios pioraram. A herança não era o que se esperava. Com o correr dos anos, os herdeiros foram hipotecando as casas. Venciam-se as hipotecas, não havia dinheiro para resgatá-las; as propriedades, então, iam passando para as mãos dos Gambas, que prosperaram [...]. Gringos sujos! [...] Gringos porcos" (p. 27s.). A obra acaba com Vasco, primo de Clarissa, encontrando emprego na padaria dos Gamba – agora dirigida por Pé de Cachimbo -, e cuja terceira filial será aberta, em breve, onde antes era o casarão dos Albuquerques.

No cinema, a imagem se repete. Há poucos anos, O quatrilho disputou o Oscar de melhor filme estrangeiro. Resumidamente: dois casais de imigrantes italianos, sediados no Rio Grande do Sul, separam-se e voltam a casar, trocando os companheiros. De um lado vão-se Teresa e Mássimo, românticos, dispostos a viver um grande amor; do outro, sobram Ângelo Gardone e Pierina, os trabalhadores, que acabam ficando milionários. Gardone termina os dias como banqueiro, isto é, como o expoente máximo do ideal de far la Mérica: o homem que ficou dono não só de terras, de bens móveis, ou de outra coisa semelhante, mas do próprio dinheiro. O texto de José C. Pozenato diferia do roteiro: não reservava tanta fortuna para os Gardone, nem esquecia totalmente os dois que se foram; mas o filme seguiu por outros caminhos, relegando praticamente os românticos. Talvez, se fosse rodado nos Estados Unidos, onde o italiano que enriquece nada mais consegue do que aquilo que é típico de toda a sociedade ianque, o diretor tivesse voltado seu interesse para o casal de colonos que preferiu far l’amore a far la Mérica.

Noutro caso, trata-se de uma novela,– ao que consta de grande sucesso na televisão italiana: Terra nostra. Rovílio Costa, consultor técnico, conta que, de início, pensava-se em montar a história ao redor dos jovens Giuliana e Mateus, e do filho que foi tirado de Giuliana. No desenrolar da história, o interesse do público – continuamente auscultado por agências de pesquisa de opinião – alterou o roteiro, e o italiano Francesco, banqueiro milionário, mal-casado com uma ‘nobre’ brasileira, acaba feliz nos braços da jovem Paola. Novamente a história do imigrante financeiramente bem sucedido.

A mesma imagem aparece também na visão popular. Atenho-me breve a dois casos, que tomo como típicos. Numa entrevista, concedida na década de 70, por um velho fazendeiro de Itaqui, cidade de campanha no Rio Grande do Sul, dizia ele à jornalista: "Aqui temos uma colônia muito grande [de italianos]; até teve uma sociedade italiana de mútuo socorro. Eu tenho um filho casado com uma italiana, um genro também. Netos de italianos puros, eles... Foi benéfico... Porque o Itaqui, minha filha, isto há mais de 50 anos atrás, era uma maravilha, quando estes italianos eram verdureiros e padeiros. Depois se tornaram importantes, chefes políticos, tudo aquilo desapareceu. Eu não posso lhe dizer mais nada, não é? O Itaqui nesta época era uma beleza. Mas eles eram verdureiros, boa verdura, mas depois se tornaram importantes, médicos, advogados, políticos".

Há poucos dias, na localidade de Bom Jesus, falando com um fazendeiro, que de idade regula comigo, comentava ele a vida na infância e dizia: "Foram eles [os italianos] que modificaram a vida da vila antiga, pois eram pedreiros, carpinteiros, celeiros, ferreiros, comerciantes e hoteleiros. Cada um deles tinha uma profissão. Nós carneávamos um porco, fazíamos banha e colocávamos a carne dentro da lata de banha para conservá-la, e era tudo. Aí vieram os italianos, e nos ensinaram a fazer salame, morcilha, codeguin, queijo de porco e tantas outras coisas".

 

Um modo típico de ser brasileiro

 

Nas últimas décadas – o que significa, pelo menos, desde a 2ª Guerra Mundial – constata-se o fenômeno da perda de importância da nação e do crescimento do regionalismo, em suas várias formas. No Brasil, este fenômeno possui características próprias, na medida em que o regionalismo e a noção de pátria sempre correram juntos. Todos afirmam que são brasileiros, mas o são a seu modo e se orgulham disso: são paulistas, são capixabas, são barriga-verde.

 

Trentinos, moraneses, italianos, brasileiros

 

Quem são, pois, os trentinos, os italianos em geral, no Brasil? Como acabamos de ver, há uma imagem deles, um estereótipo, que perpassa desde a literatura e as artes até a visão popular. Ela é parcial, ideológica, tendenciosa, mas existe. Ela considera o gringo como o trabalhador bem sucedido. Os que pouco trabalham, os que não obtiveram sucesso, os 50% de favelados de Caxias do Sul com sobrenome italiano, estes não são levados em conta. Italiano é um sujeito trabalhador, econômico, industrioso, - mas também pão-duro, avarento, nouveau-riche, arrivista -, italiano é aquele sujeito que deu certo num país onde quase tudo dá errado.

A imagem não é de todo distorcida. De fato, o gringo inclui-se facilmente na pequena burguesia e luta para encontrar um lugar ao sol. São os gringos do boteco, da sapataria ou da ferraria, que um dia se adonam de boa parte da economia local. Esta procedência de ‘pequena burguesia’, com aspirações à ascendência social é muito bem captada por Núncia S. de Constantino entre os italianos – e principalmente os moraneses – de Porto Alegre. Diz a autora: "[Os moraneses] eram italianos de esquina, postados à frente dos seus armazéns, açougues, cinemas, barbearias, alfaiatarias, sapatarias. Eram os italianos das bancas do Mercado Público [...] Era simplesmente o italiano da esquina, apregoando bilhetes de loteria, oferecendo a fortuna" (p. 162). Dando sua interpretação ao fenômeno, a autora prossegue: "Cultivando valores e tradições da terra de origem, submetendo-se a determinadas normas de comportamento, os moraneses continuam sendo a imagem do trabalhador estrangeiro honesto e respeitoso que seus antecessores construíram com ajuda do discurso oficial que sempre valorizou o trabalho como propulsor da ordem e do progresso" (p. 163).

Estes gringos fazem parte da sociedade brasileira. Aculturaram-se. O futuro deles, como grupo, é o presente: eles se inseriram em uma sociedade que lhes abriu espaço, e têm consciência de, a seu modo, pertencerem a ela: eles são brasileiros. Por isso, alguns problemas, como o da língua, precisam ser interpretados a esta luz. O que se vê hoje em dia parece prenunciar o desaparecimento dos dialetos: a nova geração não o utiliza mais, o português torna-se, sempre mais, a única língua franca entre os grupos. Por outro lado, são centenas os programas de rádio em línguas italianas em diversos estados do Brasil, e inúmeros os textos em jornais – também vale a pena recordar que, entre 1975 e 2000, foram vendidos cerca de 10 mil exemplares de Nanetto Pipetta. Que acontecerá amanhã com estas línguas, é algo difícil de prever: talvez desapareçam, talvez ressurjam com maior vigor, tal como acontece hoje na Alemanha, onde os falares regionais são mais conhecidos e utilizados que há cinco décadas atrás.

Mas, num mundo em que o fator econômico é pesa cada vez mais, o espaço dos ‘gringos’ na sociedade brasileira precisa ser repensado levando em consideração esta categoria. O Brasil modificou os imigrantes, mas estes também modificaram o Brasil. O sucesso econômico da imigração modificou valores, impôs novos valores ao mundo que a acolheu. O Brasil não é mais o mesmo depois que os imigrantes amealharam bens. Explico-me, fazendo novamente uma referência a meu estado. Como todos sabem, a imagem do gaúcho, a cavalo, peleando, tropeando gado, enche nosso imaginário – que o digam os Centros de Tradição Gaúcha espalhados por todo o Brasil. Perguntemos, porém, a turistas de classe-média, sejam eles baianos, cariocas ou pernambucanos, por que estão indo ao Rio Grande do Sul, e provavelmente responderão que desejam gozar da farta e barata mesa com sopa de sopa de agnolini, massas, vinho etc., que esperam comprar malhas a bom preço, ou que querem ver a festa da uva ou do chopp. CTG e galeto! E nisso não há esquizofrenia: é a imagem do Rio Grande do Sul atual.

 

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