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As Contradições

Pe. Mario Fernando Glaab 

 
 

O Eclesiastes é um livro da Sagrada Escritura que contém passagens muito interessantes, como aliás todo ele é interessantíssimo. Chama-me a atenção os versículos que dizem: “Já vi de tudo em minha vida vã: o justo que perece, apesar da sua justiça, e o ímpio que sobrevive longamente, apesar da sua maldade. Não sejas demasiado justo e nem te tornes sábio demais: porque arruinar-te?” (Ecl 7,15-16).x

            Na mentalidade comum isso não é ou não deveria ser assim. Primeiramente, ninguém quer admitir que a sua vida seja vã. Sempre são procurados motivos suficientes para afirmar de que a vida de quem quer que seja, tenha muitos motivos para não ser considerada vã. Alegam-se as verdades mais santas, como por exemplo, a de que cada ser humano vem das mãos de Deus, é seu filho, e assim por diante. Mas talvez não seja com esta discussão que vamos poder penetrar na mentalidade do Eclesiastes. O autor desse livro tem uma visão bem diferente da vida e das coisas. Para ele tudo é vaidade. Vaidade: é, mas poderia não ser. Não possui ponto de apoio fixo e sólido. Está no ar. No fundo, percebe-se um profundo desânimo em todas as reflexões. Ou então, o Eclesiastes nos leva a entender que falta algo para que a vida humana não seja vã. O que será esse algo que falta?

            E continuando a reflexão, se for verdade, como de fato é, que ordem há nesse mundo, se o justo perece e o ímpio sobrevive longamente? Não é esta afirmação uma contradição? Uma negação da existência de um Juiz justo que governa todas as coisas? De fato fica muito complicado tentar formular uma resposta. E, como fica o conselho que vem em seguida: “Não sejas demasiado justo e nem te tornes sábio demais”? Não vale a pena o esforço para adquirir a perfeição? Não existem dúvidas, se tudo for assim, tudo é vaidade. E o pior deve ser admitido, observando com atenção a realidade, constata-se que de fato é assim que acontece.

            Quem procura a justiça e a igualdade é incompreendido ou até perseguido; quem é injusto e discrimina, leva vantagens e prospera. Estamos estarrecidos diante da violência que existe no mundo. Quantos pobres indefesos são massacrados sem piedade; e por outro lado, os violentos, os poderosos, cada vez aumentam os seus prestígios, as suas riquezas. Suas organizações diabólicas funcionam bem. Resta às vítimas se sujeitarem: não reclamarem demais seus direitos para que coisas piores não lhe aconteçam. É preciso que encontrem uma forma de sobrevivência, mesmo que isso lhes cause mais desgostos e sofrimentos.

            Estamos todos chocados diante das loucuras de uma guerra. Ninguém sabe onde existem motivos justos para tal. A ganância do poder e do possuir estão em ambos os lados. Constatamos que as forças, mesmo iníquas, matam e arrasam sem piedade. A justiça defendida e implorada por milhões de pessoas pelo mundo a fora não encontra eco. As vítimas inocentes e indefesas são mostradas a toda hora. Só lhes resta sofrer e morrer. O que está faltando nesse mundo de Deus e dos homens? Será que o Livro Sagrado (Eclesiastes) somente constata a questão, mas não propõe saída alguma? Onde está Deus e onde estão os seus filhos que podem e devem dar uma luz para esta situação tão lastimável?

            É bom lembrar que o Livro do Eclesiastes é do Antigo Testamento e que foi escrito em tempos bem próximos da vinda do Messias prometido. O autor do Livro, que podemos classificar como muito pessimista, está sendo um porta-voz do seu povo que na época sentia a necessidade de uma intervenção especial de Deus na história. Do jeito como estava indo, não podia continuar. Tudo estava de mal a pior. Ele se torna o intérprete das pessoas que perderam todos os pontos de apoio: estão desesperadas. No entanto, bem lá no fundo, não estão totalmente desesperadas. Ainda, pelo fato de haver reflexões, é possível constatar que algo de positivo continua relutando. A situação levou a um estado de preparação para uma resposta nova: somente o homem que não tem mais em que confiar, pode receber uma grande notícia, a Notícia por Excelência: “Eu vos anuncio uma grande alegria, que será também a de todo o povo...” (Lc 2,10). Que notícia é essa? É o Evangelho – Jesus Cristo, o Filho de Deus entre os homens.

            Mas, como Jesus Cristo e os cristãos respondem a estas questões tão inquietantes? Jesus e os cristãos irão castigar os ímpios, matá-los e eliminá-los? Por que ainda não agiram? Não podemos ser ingênuos. Esse Cristo encontrado no meio do povo veio para ser o Libertador e o Salvador, sem dúvidas. Contudo, sendo o Deus-conosco, assumiu sobre si todas as nossas misérias. Estas misérias o levaram à cruz. E, pela cruz, à Ressurreição. Ele é o Vencedor. Nele a vitória já é realidade. Mas é preciso entender que Ele veio para mostrar o caminho: foi à frente dos seus. Não fugiu diante das dificuldades; não matou os injustos. Ficou do lado dos injustiçados. Assim Ele, de fato, experimentou o sofrimento humano até as últimas conseqüências. Como Salvador, abriu as portas para os que confiam nele. Viveu a justiça até o fim. Cabe, então, aos cristãos fazerem o mesmo. Os cristãos precisam ter coragem para tomar sobre si os sofrimentos de todos os injustiçados da guerra e de toda e qualquer injustiça. Lutar sempre junto aos mais oprimidos, combatendo a todas as formas de violência, sendo sempre sinais de esperança.

Deus está presente também na guerra, mas como está claro, não junto aos líderes que mandam matar, e sim sofrendo com os que estão morrendo. Se hoje a humanidade está vivendo a experiência da cruz de Cristo, amanhã será a Páscoa da Ressurreição. “A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro” (Ap 7,10).

                     

   

 

 

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