| Fórum 1963 |
José Carlos Laitano, www.laitano.cjb.net |
Sábado percorri os espaços do Fórum, que são vários. A variedade de propostas, os tipos de gente e suas idades, as publicações, a efervescência, tudo lembrou-me os anos 60 quando era líder estudantil.
Há um livro de história mundial cuja proposta é a pergunta: e se não tivesse acontecido? Se os judeus tivessem escolhido Jesus e não o ladrão para ser perdoado e assim a crucificação não tivesse ocorrido? Se a bomba colocada aos pés de Hitler, antes do início da guerra, tivesse explodido como devia? Se Portugal não tivesse sido invadido obrigando Dom João vir para o Brasil? Se Jango tivesse abortado o plebiscito e mantido o parlamentarismo?
O Brasil estava em pleno caos, mas caos criativo, e não adianta o coronel Pedro Américo Leal (que continua coronel apesar de vereador) dizer que valeu a pena a ditadura. A cultura brasileira surgia espontânea em todos os cantos, o país firmava-se como nação, no conceito psico-sociológico do termo, as propostas de afirmação como estado econômico, a diversidade de olhares ideológicos, a capacidade de debater com contrários, uma juventude politizada, folclore, artistas encontrando espaços, mesmo que fosse a calçada, começo da boa filmografia nacional, jornais contando a verdade...
Quem não viveu não sabe.
Mas poderá saber se estiver com os olhos abertos e ver o que está acontecendo no país. É quase a mesma coisa. E se esteve no Fórum viu tudo isso de maneira concentrada, num canto índios vendendo seus artesanatos, ao lado baianos dançando seus candomblés, na frente um gaúcho de CTG cantando milongas, indiana ao lado de africana do norte e seus trajes, israelitas e palestinos de mãos dadas porque os que ganham dinheiro com a guerra são outros, não os que morrem...
Encontrei sentada no cordão do calçamento interno, em meio a tantas outras pessoas, uma moça sentada, como sentadas estavam pessoas descansando, ao seu lado alguns poucos livros, nessas situações que passamos ao largo. Mas parei e li as capas, interesei-me pelo que estava fazendo, ela mexeu-se e alcançou um papelzinho com endereço. É uma cooperativa de escritores de Buenos Aires, gente batalhando por um lugar ao sol.
A moça, cujo nome não sei, na sua simplicidade, sem apoio financeiro, certamente dormindo numa barraca no acampamento internacional e comendo um sanduíche como almoço, estava fazendo a sua parte.
Assim acontecia nos anos 60. Pequenos gestos, grandes ideais. Coisas absolutamente malucas aconteceram.
Aqui, ontem à tarde, o Gigantinho lotou, 20 mil pessoas e mais umas três mil do lado de fora que não conseguiram entrar para ouvir um escritor e um teólogo falarem sobre valores e ética. Eduardo Galeano, uruguaio, deu um tom mais político à sua fala; mas Leonardo filosofou e findou sua participação com a leitura da oração de São Francisco de Assis.
Antes do começo eu estava cético: falar de valores para 20 mil pessoas, num calor enorme, gente grudada umas nas outras, é muito difícil. Pois Leonardo conseguiu. E as feições dos jovens demonstravam compenetração, bebendo suas palavras e, ao final, muitos seguraram as mãos uns dos outros para a oração. Num ambiente daqueles, numa diversidade de crenças daquelas, foi emocionante. Igual só nos anos 60.
Esta é a parte boa de ficar-se velho: quando se tem a oportunidade de viver dois momentos importantes como o atual e aquele que a ditadura abortou matando, prendendo e torturando em nome de um nacionalismo ôco que serviu para entregar o país, em definitivo, ao capital internacioanl. Os empresários brasileiros apoiaram a ditadura e deram dinheiro. Hoje, os que não quebraram, estão arrependidos.
Arrependidos, mas aprenderam a lição: estão apoiando Lula por que agora entendem que só nacionalismo sadio, digamos assim, garante a sobrevivência digna, inclusive dos seus negócios.
O Fórum - nas palavras ouvidas - é a globalização de utopias. Ensina a pensar o global e agir o local.
Mais não precisa.
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