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CULTURA E DESENVOLVIMENTO Uma investigação sociológica sobre os imigrantes italianos e alemães no Sul do Brasil |
Orgs. & Gabriele Pollini |
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Cultura e desenvolvimento, na linguagem religiosa dos antepassados, é um livro abençoado. Exatamente no momento em que o mundo se prostra diante do altar da globalização, ergue um monumento à identidade, com acenos à experiência religiosa de italianos – vênetos, lombardos e trentinos – disputando o quinhão da interioridade cristã, com alemães católicos e luteranos. As diferenças que hoje parecem mínimas, antropologicamente são ricas e de profundo significado. A privação de toda ordem, no momento da fixação de imigrantes ao solo sul-brasileiro, fez com que os diferentes grupos quase se nivelassem e igualassem numa única e nova religião, que continua como fulcro da nova cultura que constituíram – a solidariedade cristã. A solidariedade, baseada na fé cristã, de extração católica e luterana, foi a linguagem de intercomunhão de alemães e italianos, e de grupos italianos entre si e com os grupos alemães. As tendências seculares se expressavam – nas festas de patronos para as igrejas católicas – e nos kerb, para as igrejas luteranas, mas a interioridade cristã de ambos os grupos se expressava no interior de igrejas e templos, de mãos postas, de promessas e preces elevadas aos céus, de dúvidas, esperanças e certezas, amalgamadas em Cristo no encontro do divino com o humano. Igrejas, salões, escolas, estradas, creches, canchas de esportes... tiveram como alicerces, que superaram o tempo e chegam aos dias de hoje, a gratuidade da fé e da solidariedade. A caridade, na forma da solidariedade com as necessidades alheias, irmanou populações, e se constituiu a base do novo cristianismo nascente, que lançou raízes ao hoje fluente ecumenismo. A riqueza e o progresso de alemães e italianos foi se radicando no trabalho, temperado pela fé, unindo as mãos humanas do trabalho às mãos divinas da graça e da fé. E aí estão vilas e cidades, campos e fábricas, instituições de toda a ordem em que se alicerçam a cultura e o progresso. O que ontem foi silenciado, isto é, as diferenças na identidade, na auto-estima e na auto-imagem, como a presente pesquisa revela, vai se revelando e firmando, cada dia mais, de sorte que os outrora genericamente imigrantes italianos, passam a reconquistar-se e firmar-se como vênetos, lombardos, trentinos em convívio com alemães. A afirmação das diferenças ontem era menos necessária que a busca da solidariedade, enquanto hoje é indispensável para o resgate das origens em todas as dimensões do ser, do fazer, do pensar, do falar e do crer peculiares a cada grupo. Superado o período de implantação dos alicerces do progresso material, lançam-se agora os alicerces da preservação da alma deste mesmo progresso – a identidade histórico-antropológica. Cultura e desenvolvimento coloca lado a lado os diferentes fermentos culturais e históricos da identidade étnica e interétnica, abrindo caminhos ao crescente número de associações, institutos e círculos culturais que nascem com o propósito do resgate da própria história, vida e cultura. O progresso material, com a vitória na primeira grande batalha do Fazer a América, está abrindo espaço à reconstrução de uma história que começou como sonho e utopia e, pelo trabalho e pela fé, foi se tornando realidade, construída por braços de diferentes dinâmicas antropológico-culturais. Cultura e desenvolvimento coloca, sobre a mesa da vida e da história, os frutos de diferentes estações étnico-cultuais brasileiras ítalo-germânicas.
Porto Alegre, 20 de agosto de 2005 Prof. Frei Rovílio Costa |
SUMÁRIO
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Prefácio à edição brasileira 9 Apresentação da edição italiana 11
1 Religião, orientação de valor e mudança social 13 Gabriele Pollini
1.1 Introdução 13 1.2 Evoluções da perspectiva de Max Weber 14 1.2.1 Elementos das doutrinas religiosas e sua relevância prática 18 1.2.2 Tipologia e características das orientações religiosas 22 1.2.3 Religião e personalidade: o processo de interiorização 28 1.2.4 O processo de institucionalização: religião e coletividades sociais 31 1.2.5 Conclusões 42 1.3 A relevância prática das doutrinas não-lógico-experimentais: a perspectiva de Vilfredo Pareto 44 1.4 Os modelos de orientação de valor e a estrutura social: perspectiva de Talcott Parsons 48 1.5 A orientação aquisitiva e o processo de socialização: a perspectiva de David McClelland 50 1.6 Conclusões 53 Referências 54
2 Italianos e alemães no sul do Brasil: as características principais do fenômeno imigratório e os objetivos da investigação 57 Gabriele Pollini
2.1 Introdução 57 2.2 Colonização alemã e italiana no sul do Brasil: diferenças e semelhanças 59 2.3 A estrutura sociocultural das comunidades italianas e alemãs e a propensão à pertença à “nação” brasileira 66 2.4 As relações interétnicas entre luso-brasileiros, alemães e italianos 69 2.5 As características principais do fenômeno imigratório 72 2.6 O objeto, o método e as técnicas da investigação 74 Referências 80
3 Cultura e valores dos descendentes de imigrantes italianos e alemães no sul do Brasil. As respostas ao questionário 84 Renzo Gubert
3.1 Introdução 84 3.2 As amostras dos entrevistados: algumas características gerais 5e disposição ecológica, sociais e culturais 87 3.3 A família de origem 95 3.4 A família construída do entrevistado 99 3.5 O trabalho 104 3.6 A participação na vida social e o uso do tempo livre 107 3.7 Religiosidade, valores éticos e racionalidade 114 3.8 As atitudes políticas 120 3.9 Conclusões 126 Referências 130
4 Mudanças da estrutura familiar em um contexto migratório 131 Giuseppe Scidà
4.1 Introdução 131 4.2 Estrutura da família, tendências demográficas e orientações endogâmicas e exogâmicas 135 4.3 Língua e instrução 145 4.4 Mobilidade e transformações das atividades produtivas 154 4.5 Uma consideração conclusiva 169 Referências 173
5 Católicos e protestantes, italianos e alemães no Sul do Brasil: análise das conexões entre variáveis 177 Gabriele Pollini
5.1 O esquema das conexões entre as variáveis 177 5.2 A diferenciação das freqüências em ordem à adesão religiosa 178 5.2.1 Conclusões 188 5.3 A diferenciação das freqüências em ordem à pertença religiosa: católicos e protestantes 189 5.3.1 Conclusões 195 5.4 A diferenciação étnico-linguística: origem italiana e alemã 196 5.4.1 Conclusões 202 5.5 Conclusões gerais 204
6 os fatores principais da orientação cultural 208 Gabriele Pollini
6.1 Introdução 208 6.2 As características culturais da família de origem 209 6.3 As orientações concernentes à relação social, da família, do trabalho e do tempo livre 211 6.4 A língua, a religião e a moralidade 212 6.5 Responsabilidade da desordem social, concepção do desenvolvimento e principais problemas sociais 217 6.6 Considerações conclusivas 222
7 A percepção da transgressão: a prioridade moral dos comportamentos da esfera privada sobre os da esfera pública 236 Bruno Bertelli
7.1 Moralidade pessoal e moralidade cívica: uma indicação geral das escolhas prioritárias 236 7.2 As variáveis mais influentes sobre o juízo moral das sete ações 239 7.2.1 Adultério (trair o próprio cônjuge com outra pessoa) 240 7.2.2 Aborto (abortar voluntariamente) 242 7.2.3 Falta da educação religiosa (não educar os filhos aos valores religiosos) 246 7.2.4 Falta de socorro (não prestar socorro a uma pessoa desconhecida, vítima de um acidente rodoviário) 247 7.2.5 Furto ocasional (roubar qualquer objeto de valor, se aparecer a ocasião) 249 7.2.6 Corrupção (corromper um funcionário para obter um favor) 250 7.2.7 Sonegação fiscal (sonegar os impostos) 252 7.3 Gravidade e urgência de alguns problemas: da percepção do desvio social a uma posterior verificação sobre orientações morais 254 7.4 Considerações conclusivas 261
8 Descendentes de lombardos, trentinos e vênetos: semelhanças e diferenças 269 Luigi Tomasi
8.1 Moralidade pessoal e moralidade cívica: uma indicação geral das escolhas prioritárias 269
9 A cultura do desenvolvimento: um produto de pertenças religiosas e étnicas? 284 Renzo Gubert
9.1 Introdução 284 9.2 As concepções do trabalho 287 9.2.1 A concepção “religiosa” do trabalho 287 9.2.2 A concepção “familista” do trabalho 288 9.2.3 A concepção “altruística” do trabalho(ou o trabalho como utilidade social) 291 9.2.4 A concepção “aquisitiva” (ou “predatória”) do trabalho 293 9.2.5 O trabalho como meio de sucesso social(ou concepção “ostentativo-aquisitiva”) 295 9.2.6 O trabalho como lugar de auto-realização 297 9.3 Universalismo realizativo ou particularismo atributivo 300 9.4 Tradições e progresso 303 9.5 Fatalismo e ativismo 305 9.6 A escala de racionalidade da ação de Max Weber 309 9.7 Conclusões 314 Referências 315
Conclusões 316 Renzo Gubert
Referência |
PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA
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Dez anos após a edição italiana de Cultura e Sviluppo – un’indagine sociológica sugli immigrati italiani e tedeschi nel Brasile meridionale, publicada pela Angeli Editore de Milão, é publicada a edição em língua brasileira. A pesquisa da qual o volume analisa os resultados, foi realizada pela Universidade de Trento (Itália), em colaboração com algumas universidades brasileiras do Estado do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Os resultados foram apresentados, a seu tempo, em Trento, com a contribuição dos colegas brasileiros, mas também em Caxias do Sul, Florianópolis e Blumenau e, logo em seguida, foi proposto, por parte das universidades envolvidas, publicar uma edição brasileira. Fizeram-se os primeiros passos, preparou-se a tradução da parte da Universidade de Trento, mas compromissos acadêmicos e restrições econômicas impuseram o abandono do projeto. Em 2004, por iniciativa do Prof. Luiz Ernesto Brambatti, da Universidade de Caxias do Sul, o projeto foi retomado. Pela iniciativa, os autores agradecem, convencidos que a pesquisa pela realidade brasileira envolvida continua a despertar grande interesse. Desde os testemunhos dos docentes universitários brasileiros que colaboraram na investigação, da sua fase inicial àquela de avaliação dos resultados, esta foi a primeira que, na área, se desenvolvia sobre os temas considerados, tendo como base os dados estatísticos representativos. Mas, talvez, não seja tanto a atenção metodológica e estatística que justifique a permanência de um interesse pela publicação de uma edição brasileira, como a persistência a um modelo de desenvolvimento, no Sul do Brasil, que é, em certo sentido, peculiar, sendo embasado sobre pequenas e médias empresas esparsas no território, em um ambiente social e cultural que mantém elementos vitais da tradição, da Gemeinschaft, uma forte solidariedade familiar e comunitária que controla as estimulações do individualismo moderno, uma forte religiosidade, pouco importando seja de fé protestante ou católica, que controla a tendência secularizante presente em outros contextos de alto desenvolvimento econômico, como aquele do Centro Norte europeu. O modelo de desenvolvimento econômico, social e cultural do Sul do Brasil apresenta uma surpreendente analogia com o modelo vêneto, na Itália, e ambos constituem, ao menos à primeira vista, um desafio às interpretações muito simplistas da tese de Max Weber sobre a relação entre o desenvolvimento capitalista e a ética protestante. Sobretudo constituem um desafio para aqueles que teorizam sobre a existência de um só modelo de desenvolvimento, contra aqueles que o relegam ao abandono de cada elemento da tradição não compatível com o individualismo, o hedonismo e a secularização (para dizer com palavras de Thomas e Znaniecki na sua análise, no início do século XX, da modernização rural da Polônia). A investigação enfrenta o problema e formula algumas hipóteses conclusivas que confirmam a compatibilidade entre caracteres solidários do tecido social, relevância da religião e da religiosidade na vida pessoal (e social), e desenvolvimento socioeconômico. São configuradas com fundamento hipóteses referentes, seja à praticabilidade e à existência de vias diversas ao desenvolvimento e à modernidade, seja à pluralidade de modelos de desenvolvimento e de modernidade. Como não pensar que este tema não seja de interesse para o Brasil, que está buscando uma presença própria no cenário global, não limitada àquela de imitação de experiências de outros? Como não pensar que, no Sul do Brasil, o desenvolvimento é mais forte e dinâmico, que se interrogue com interesse sobre o presente e sobre o provável futuro do próprio modelo de desenvolvimento, em certos aspectos, peculiar? As orientações culturais e de valores não mudam de hoje para amanhã, como as opiniões sobre qualquer fato. Tem ritmos de mudança lentos. Também os dados recolhidos alguns anos atrás podem manter seu interesse e validade. Constituem, ao menos, um ponto de referência útil para medir as mudanças, com novas investigações. A eliminação da barreira lingüística para conhecer um pouco melhor a própria sociedade é um serviço do qual não se pode dizer outra coisa que agradecer a quem o realizou. Na edição brasileira, relacionada à edição em língua italiana, não foram publicados os capítulos de Giuseppe Scidá (Dipendenza e specificità dello sviluppo) e um de Bruno Bertelli (La responsabilità del disordine sociale: rappresentazioni sociali e stereotipi culturali prevalenti), e foram omitidos dois Apêndices, um de caráter estatístico, que se referia aos dados da análise fatorial e outro referente à publicação do questionário com a distribuição de freqüências. Trento, janeiro de 2005 Renzo Gubert |
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