Descolonização, cuecas e pós-modernidade

José Hildebrando Dacanal

 

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Era início dos 70. O SNI da embaixada brasileira em Bonn fuçava minha vida. Sem nada encontrar de, digamos, desabonador em meu passado... À semelhança, aliás, do lumpesinato intelectual petista de Porto Alegre nos dias atuais... Enquanto isto, lépido e fagueiro, eu encardia meus garrões – de novo o lumpesinato! – correndo a Europa de ponta a ponta. Bons tempos!

Um dia cheguei à nauseabunda e luminosa Nápoles. Subindo à colina de Posillipo, entrei ao entardecer no Albergue de Juventude, surpreendentemente limpo e organizado. Depois de gozar do cálido frescor do anoitecer – a vida deve ter nascido em condições semelhantes! – pedi um prato de massa e meia garrafa de vinho.

Era o máximo que minhas posses permitiam. Creio que, sem saber, à época, como hoje, eu era um criptopetista... Bem, o atendente foi rápido e gentil. A massa, não recordo, devia estar ótima. Mesmo porque faminto e pobre não têm escolha! Mas o vinho, lembro, estava quente, aí pelos 25 graus. E isto eu tinha aprendido muito bem embaixo dos parreirais e nas adegas de Três Vendas de Catuípe: o vinho deve estar fresco. Reclamei. E o atendente, entre irônico e divertido, não deixou por menos: "Ma, signore, vino se beve a temperatura ambiente..." Só me restou engolir em silêncio, ao estilo – de novo! – do lumpesinato intelectual petista de Porto Alegre...

Claro, vinho se bebe à temperatura ambiente nos invernos europeus. Mas não no tórrido agosto napolitano ou nos trópicos! O sacana do atendente tinha cultura e sabia das coisas, caso contrário não poderia me ter deixado sem resposta. Deve ter sido aí que começou a esboroar-se minha, ainda que superficial, colonização cultural.

Lembrei-me deste episódio dias atrás, ao observar na rua mulheres vestindo pesadas meias pretas enquanto um sol venenoso castigava todo mundo e a temperatura chegava a 35 graus. Deve ser moda do outono europeu copiada pelas macacas daqui... É a mesma coisa, guardada a diferença de área, que tomar vinho tinto à temperatura ambiente ou chamar o semi-analfabeto do Francis Fukuyama para falar sobre o fim da História... Aliás, a respeito deste me contaram que durante uma de suas assim chamadas palestras um petista inteligente e irônico – e é tranqüilizador saber que no partido existe pelo menos um ou dois – perguntou: "Mas como falar em fim da História se aqui nem houve reforma agrária?..."

Pois é, colonização cultural é fogo! Mas as coisas mudaram rapidamente, pelo menos em alguns setores. E é difícil acreditar, por exemplo, que em 1970 fui considerado moderno e ousado por dar aulas sem gravata na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Hoje, um colega meu dá aulas de cuecas. E ninguém reclama!...

Eu, francamente, acho isto um exagero. E me convenci de que jamais chegarei à pós-modernidade...

dezembro/92

 

 

Publicado inicialmente em:

DACANAL, J. H. O pedagogo do PT. Porto Alegre: Soles, 1995, p. 140-141

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