A FELICIDADE DE SER DEVEDOR

Frei Rovílio Costa

 

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Em minha prática pastoral, ao dialogar com pessoas que foram alvo de injustiças, injúrias, calúnias, tentei mostrar que, na vida, é melhor ter haver que ter dívidas, pois o infeliz não é o injustiçado que sabe perdoar, e sim o caluniador. É o caso do provérbio: "O feitiço virou contra o feiticeiro."

Mas o tempo foi passando, e fui encontrando graça pela maneira como as pessoas foram me percebendo na vida religiosa, no sacerdócio, no magistério e na função livre de escriba e editor. Fatos que não mais recordava, foram destacados! Prêmios, distinções, cidadanias municipais... vieram às dezenas e, um dia, rindo de mim mesmo, concluí: "Julgo que o provável bobo de circo sou eu, porque, quando sobra alguma comenda ou distinção, e não sabem a quem destiná-la, destinam-na para mim."

Sempre me sentia entre o malho e a bigorna: aceitar ou não uma distinção!? Não aceitar, seria desprezar os amigos que a destinaram, e aceitar seria admitir o mérito. Depois de algum tempo, porém, concluí que o mais importante não é a honraria recebida, e sim ser oportunidade à celebração da generosidade dos amigos.

Mas, recentemente, fui distinguido com um livro em minha homenagem, coordenado pela pessoa que é o suporte principal do meu trabalho, Prof. Antônio Suliani, editado pela EDIPUCRS, cujo presidente do Conselho Editorial é Mons. Urbano Zilles, com o qual trabalho há mais de 25 anos, e o diretor da Editora é o descendente libanês Prof. Antoninho Muza Naime, ligado afetiva e efetivamente à Paróquia Maronita Nossa Senhora do Líbano, na qual ajudo a quem trabalha de verdade, que é Mons. Zilles, auxiliado por Frei Arlindo Itacir Battistel. Ademais, nesta obra, estão escritos de 98 amigos pesquisadores e escritores que me distinguiram com sua amizade, resultando um livro de 1.168 páginas que os alemães costumam chamar de Festschrift (livro festivo), e que Suliani denominou Etnias e Carisma: poliantéia em homenagem a Frei Rovílio Costa.

E agora, pensei eu, qual a saída coerente e cristã?

Olhei para trás e me deparei com outra realidade também singular. Todos os finais de ano, sou agraciado com centenas de cartas, cartões e mimos. Tomei como decisão prática responder a todos, mas não tomar a iniciativa de escrever por primeiro. Mas sempre com a pulga na orelha por causa dessa dívida de gratidão, sempre menos sanável.

Unindo correspondências, distinções e, agora, uma poliantéia, que Suliani denomina ramalhete de excelentes escritos, mas que é sobretudo um ramalhete de amizades, fiz a grande descoberta teológica, ou seja, descobri a felicidade de ser devedor.

Esta descoberta a fiz na Semana Santa, quando ouvi o texto do canto que dizia: "Ele assumiu nossas dívidas", e, antigamente, no Pai-Nosso, se dizia: "Perdoai as nossas dívidas."

Nesta Semana Santa, descobri que nasci para ser devedor. Sempre ouvi de meus pais: "Se el Signor te ciama, te pol ndar." Se Deus te chama, podes ir. Depois, lendo sobre vocação, e ouvindo meus mestres, sempre encontrei esta afirmativa: "A vocação é um dom gratuito de Deus." Um presente da parte de Deus e, da parte do vocacionado, uma dívida de amor a ser saldada através da fidelidade. Portanto, Deus me escolheu para ser eterno devedor. Ademais, São Paulo, em Romanos (13, 8), diz: "A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, a não ser amor recíproco..."

Seria impossível, em curto espaço, nomear autores, editores, leitores, amigos, livreiros, gráficos, colaboradores... e todos os que mediante cartas, e-mails, telefonemas, presença na seção de autógrafos (5-4-2001), bem como a Ordem dos Capuchinhos, a PUCRS, a EST Editora, Faculdade de Educação da UFRGS, Editora Correio Riograndense, jornais, revistas... se associaram à homenagem, aumentando minha dívida, e também minha alegria, porque me escolheram como mediação à sua liberalidade e generosidade.

Com tantas manifestações de apoio e amizade, incluindo em especial todas as pessoas, muitas conhecidas só por correspondência, do Brasil e de outros países, de quem editei obras ou artigos nos mais de 1800 títulos publicados, pessoas que se tornaram parte essencial do meu trabalho, descobri outra dimensão cristã do devedor: "Ser oportunidade aos irmãos de expressarem sua generosidade e liberalidade."

Por isto, a todos, sem nomear a ninguém, porque só Deus o saberia fazer condignamente, agradeço tantas provas de amizade, e as guardo no coração como provas do amor de Deus derramado em mim através dos irmãos.

Suliani, Zilles e Muza, que motivaram meu processo junto ao Todo Poderoso, para que seja abundante em bênçãos para com todos, um agradecimento especial.

Todos os amigos e colaboradores que se sentem incluídos neste meu reconhecimento, sintam-se também agraciados do amor especial de Deus como participantes da obra de resgate de nossa tradição e cultura, que iniciei há 30 anos.

 

 

Porto Alegre, 21 de abril de 2001.

 

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