Dissionàrio: la grande stòria

Rovílio Costa

 

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Dissionário Talian

Vèneto Brasilian

Portoghese

 

Dicionário Talian

Vêneto Brasileiro

Português

 

Darcy Loss Luzzato

2000

478 p.

Apresentação p. 13-24

18,5 X 25 cm

Dissionàrio: la grande stòria

 

Darcy Loss Luzzatto nunca esqueceu a sua língua. E, através da língua, nunca esqueceu a sua gente, a sua história. Ele não se pergunta apenas:

– Como eram o avô, o bisavô, a avó, a bisavó?

Mas pergunta-se, também:

– O que dizia o avô, o que dizia avó, o que diziam os bisavós?

Darcy tem razão, e muita razão, porque as fotografias perdem-se facilmente. E mais, são poucas, pois poucos são os que têm retratos de todos os seus parentes. E muitos nem os conservam! Outros entregaram-nas aos museus!

Então, a cara dos avós, bisavós e parentes está presente apenas naqueles que falaram com eles, ou que os conheceram, ou naqueles que se empenharam em conhecê-los. E, ainda assim, não terão uma idéia precisa, porque as pessoas, do nascimento ao fim da vida, mudam muito. Crescem os cabelos aos homens e às mulheres, a barba aos homens, os seios às mulheres, os cabelos brancos a todos... Enfim um destino diferente, que faz com que um seja pai, outra seja mãe, outra seja freira, outro padre ou frade; e outros e outras, mais raros, estejam ainda pensando o que ser e o que fazer na vida.

Então as fotos também mudam. E raros, muito raros, são os que têm todas essas fotos de ontem e de hoje.

Mas a palavra, meus caros, voa como o vento, vai longe, as pessoas levam-na consigo para onde vão. Não há bibliotecas, não há nada que passe de uma pessoa a outra como a palavra. Nem o sentimento, nem o amor, porque as pessoas podem desentender-se, e antes brigam com palavras, depois vão aos fatos; as pessoas podem voltar a entender-se umas com as outras, e entendem-se com palavras; as pessoas podem não dar bola às outras pessoas, então elas negam a palavra.

Uma palavra pode provocar uma guerra, como construir a paz. A palavra de Deus criou o mundo, o homem e a mulher, feitos à sua imagem e semelhança; mas a palavra do Senhor entregou ao homem e à mulher, a família, isto é, a vida e também a morte.

Amor e ódio, vida e morte, tudo vem da palavra que se fala.

Deus, o Pai de tudo, falou, e sua palavra se fez amor, salvação, pessoa, fez-se Jesus.

E Jesus, como palavra de Deus, assumiu a nossa natureza. Assim fomos salvos do pecado, do ódio, da terra do demônio; e fomos postos na terra da promissão, que é a fé, e a segurança que o Senhor nos ama, como ama eternamente a sua palavra, que é Jesus. Ele nos quer felizes, como é feliz Jesus, passando da cruz e da morte à sua gloriosa ressurreição.

Escutando e divulgando a palavra de Jesus, estaremos com Ele no paraíso, terminadas as vicissitudes e lidas deste mundo.

A nossa gente, quando veio da Itália, trouxe palavras de esperança, vontade de trabalhar e fé. Quando eles não sabiam o que dizer um ao outro, porque já não se entendiam e as coisas iam realmente mal, pois estavam desiludidos de tudo e de todos, falavam com o Senhor, rezavam. E logo encontravam uma palavra de conforto (Is 50,4), uma maneira de entender-se, sem perder a esperança, porque, com a palavra de Deus no coração, avançaram, não perderam a vereda da fé, da vida e da salvação.

Assim também na palavra dos avós encontramos tudo o que necessitamos: palavras de amor, palavras de esperança, palavras de coragem. Essas palavras, dentro de cada um, são como uma força que tudo muda a nosso favor, porque a palavra de Deus já assegurou:

“O mundo é vosso, cuidai de trabalhar bem, de progredir, de encontrar lado certo e justo das coisas que vos confiei.”

Então, depois de 125 anos, aqui estamos por efeito da palavra de nossos avós, que um dia disseram:

“Vamos para a América, e lá poderemos criar nossa família, fazer fortuna, viver a nossa fé, auxiliando-nos uns aos outros. O Senhor não disse apenas a seus apóstolos: ‘Ide para longe levar a minha palavra!’ Mas o mesmo disse aos nossos antepassados – e diz a todos nós – a todos os cristãos, pois no dia do batismo nos transformamos em migrantes da fé, para levar a palavra de Deus a todo o mundo, como cristãos no mundo.”

Então, como migrantes da fome, e também da fé, levamos conosco não apenas a fome, mas também e sobretudo a palavra do Senhor. Construímos vilas e cidades de taliani, junto com todos os outros, pois os outros também receberam a palavra do Senhor.

E o Darcy escutou também em alemão a palavra do Senhor, pois o seu coração, um dia, encontrou uma alemã, e perguntou-lhe: “O que achas de formarmos uma família? Podemos não nos entender perfeitamente através das palavras, nos compreenderemos na fé e no amor.”

– Isso mesmo, respondeu a Elisa, vamos fazê-lo, que o Senhor nos dará sua bênção.

E, agora, eles têm sua família alemã e taliana. E tanto o Darcy como a Elisa deram-se conta de que levam junto duas palavras, uma taliana e uma alemã. E seus filhos são herdeiros de duas tradições, uma alemã e outra taliana, então estudam as duas línguas, pois não querem perder nem a história do pai, nem a da mãe.

E o Darcy sistematizou, num dicionário – o dicionário mais completo que até agora se conhece – todas as palavras do talian; e seus filhos, no futuro, farão uma mistura de palavras talianas e alemãs, pois eles são taliani e alemães ao mesmo tempo.

Salvando as palavras, salva-se a vida, pois salva-se o sim do pai e da mãe, que nos permitiram vir ao mundo, porque assim o quiseram.

No Brasil sempre se disse que a imigração italiana era vêneta. E a afirmativa é correta, sobretudo se incluirmos os trivênetos. Mas o Brasil é grande. Somos 159.630.000 habitantes, em 8.511.966 km2, e deles mais de 25 milhões somos italianos e descendentes de italianos, cálculo feito sobre a grande imigração, de 1875 até o fim da Segunda Guerra. Não contamos que, desde a descoberta do Brasil, os italianos sempre se fizeram presentes, sobretudo na educação e na religião, através de sacerdotes e religiosos italianos. Estes eram bem-vistos, pois a Itália não litigava em termos de colonização, com o reino de Portugal, como era o caso da Espanha, da França e da Inglaterra, tanto que a entrada de sacerdotes espanhóis e franceses era controlada, da mesma maneira que a de pastores calvinistas holandeses.

Em 1575, em Lisboa, o procurador dos Jesuítas para a Índia e o Brasil escrevia ao Superior Geral que a Corte de Portugal não queria que fossem enviados jesuítas espanhóis à Índia, China e Molucas, e que para o Brasil, não queria nem espanhóis, nem franceses, nem ingleses, mas apenas italianos, portugueses e alemães. E logo chegaram os primeiros italianos Giuseppe Morinelli, Leonardo Armìnio e mais quatro, até 1600.

Como a grande imigração vem das mesmas regiões, províncias e municípios, se fizermos uma comparação com o Rio Grande do Sul, onde dos aproximadamente 100 mil imigrantes italianos, 54% são vênetos, 33% são lombardos, 7% são trentinos, 4,5% são friulanos e 1,5% são de outras regiões, incluindo os trivênetos, teríamos: 65,5% de trivênetos, 33% de lombardos e 1,5% de outras regiões da Itália (Frosi, Vitalina e Mioranza, Ciro. Imigração italiana no nordeste do Rio Grande do Sul, 1975).

O Rio Grande do Sul recebeu mais de cem mil imigrantes da grande imigração, e ainda muitos italianos, dos quais não temos estatísticas, que vieram através das fronteiras, reimigrados do Uruguai, da Argentina e do Paraguai, através dos Campos Neutrais, como se dizia então. Assim, no Rio Grande do Sul, nós, imigrantes italianos e seus descendentes, ultrapassamos hoje a casa dos 2,5 milhões, numa população total de 9.135.439 habitantes.

Mas aqueles que vieram ao Rio Grande, em busca de terra, levaram adiante uma experiência diferente daquele milhão de italianos que entraram em São Paulo, estado hoje com 31.546.473 habitantes, a maioria no início da imigração, para trabalhar nas fazendas de café.

Por isso, quando já não havia terras no Rio Grande do Sul, muitos descendentes foram buscá-las no Mato Grosso, hoje com 2.022.524 habitantes; no Mato Grosso do Sul, hoje com 1.778.741 habitantes; em Goiás, hoje com 4.012.562 habitantes; no Paraná, hoje com 8.443.299 habitantes; em Santa Catarina, hoje com 4.538.248 habitantes; e um pouco em outros estados da Federação.

Em todos os lugares, os taliani do Rio Grande do Sul levaram o Talian, divulgaram o Nanetto Pipetta e a Stafetta Rio-grandense (hoje Correio Riograndense), duas bíblias do Talian. Levaram consigo a nossa história, através de palavras.

E isto é importante (veremos em seguida), pois levaram adiante a experiência do Rio Grande do Sul e dos outros estados do Sul, diferente daquela de São Paulo, Espírito Santo, Minas Gerais e outros estados.

Aos taliani que saíram do Rio Grande do Sul, e que estão no Paraná, em Santa Catarina, no Mato Grosso, em Goiás e em outros estados, quando contarem sua história, contam-na a partir da Itália, pois seus antepassados vieram de lá; também a partir do Rio Grande do Sul, pois da Itália eles foram para o Rio Grande; e finalmente, têm de considerar a história do estado em que vivem.

Quando dizemos que o Brasil tem mais de vinte milhões de italianos e descendentes, temos de pensar que a grande imigração dividiu-se em pouco mais de um milhão em São Paulo, cem mil no Rio Grande do Sul, e menos de trinta mil, em média, em cada um dos estados de Santa Catarina, Paraná, Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia, e uns poucos em cada um dos demais estados.

O total de imigrantes italianos no Brasil acredita-se tenha chegado a um milhão e 200 mil, e nós, seus descendentes, seríamos hoje, segundo as estatísticas, aproximadamente 25 milhões. E desses 25 milhões a quase totalidade falava uma das línguas que agora constituem o Talian. Então, lingüisticamente, quase todos taliani.

 

Taliani e Italianos, Talian

e Italiano, por quê?

Nós, aqui no Rio Grande do Sul, começamos a chamar de taliani aos descendentes da grande imigração, majoritariamente trivêneto-lombarda (1875-1945), embora houvesse alguns imigrantes de cada uma das demais regiões da Itália; e italiani, aqueles que vivem atualmente no Brasil, mas nascidos na Itália e com o passaporte italiano.

Chamamos de Talian a língua aqui formada pelos imigrantes e descendentes da grande imigração (1875-1945), gente que, pelo menos até a Primeira Guerra (1914), vinha em busca de pão e que, para ter esse pão, aceitava qualquer trabalho, fosse nas fazendas de café, fosse na agricultura autônoma. Tais imigrantes eram originários de pequenos povoados, vilas, municípios, províncias e regiões que possuíam seu falar característico, trouxeram-no para cá e mantiveram seu próprio idioma.

O Talian ter-se-ia formado mais ou menos assim. No navio que vinha de Gênova, por exemplo, havia gente de várias províncias, e os de uma mesma província, não eram todos do mesmo município, cada um falando à sua maneira e, viajando juntos no navio, estabeleceram amizades, e puderam falar bastante, pois levava-se quarenta dias em ‘navio a vapor’ – como dizia a canção – para chegar ao Brasil.

A necessidade de falar, de comunicar-se e, depois de chegarem ao Rio Grande do Sul, assentados em colônias etnicamente homogêneas, ou pelo menos em distritos etnicamente homogêneos (ao lado poderia haver um distrito só de poloneses), sem nenhuma comunicação com o falar português, começaram a trocar palavras, e os que constituíam a maioria impuseram sua maneira de falar.

Então, por exemplo, a minha família que era a única cremonesa em meio aos trevisanos, como os Zandonà, os Bernardi, os Gasparini, e aos trentinos, como os Frainer, e aos vicentinos, como os Andrighetto, e ainda com os pais Costa/Ponzoni, cremoneses, e com a mãe dos pais trevisana/paduana, Moretto/Simioni, falava-se cada vez menos o cremonês, e sempre mais o vêneto. O cremonês era falado em casa, e ainda o é hoje quando se está com parentes, mas não na comunidade, para não sermos ridicularizados pelos demais.

Então, o Talian é uma língua formada pelos falares trivêneto-lombardos,principalmente, com superioridade trivêneta, como língua única falada e entendida por todos, na escola, na igreja, mormente até a Propaganda de Nacionalização do Estado Novo (1937-l945).

O Estado Novo proibiu importar livros estrangeiros, falar e ensinar línguas estrangeiras a menores de quatorze anos. E, em nosso caso, de taliani colonos ou colonisti que éramos, que só sabíamos falar o talian, fomos proibidos de falá-lo, mas não o italiano toscano que apenas um colono sobre mil, segundo as estatísticas, sabia falá-lo (Franceschi, Temistocle e Cammelli, Antonio. Dialetti italiani dell’Ottocento nel Brasile d’Oggi, 1977).

Aqueles que falavam o italiano, ou quase isso, eram freis (estes menos mal, pois eram franceses), padres, um que outro comerciante, o médico e algum artesão, que tinham vindo com o subterfúgio da imigração.

Os padres, sobretudo os frades, faziam suas prédicas em Talian, para melhor serem entendidos. O jornal La Libertà (1909), depois Il Colono Italiano (1910), Stafetta Riograndense (1917) e, em parte ainda hoje o Correio Rio-grandense (1941), escreviam em Talian, e este ainda escreve alguma coisa, como La vita, stòria e fròtole.

O Nanetto Pipetta (1924), o Togno Brusafrati (1929), e no pós-guerra, a Stòria de Nino, fradelo de Nanetto Pipetta (1965), foram escritos em Talian, e são lidos mais do que qualquer outro livro entre os descendentes.

Quer dizer que, terminada a guerra, tudo voltou a ser como antes, mas a escola não, a escola cresceu nas mãos de professores que falavam português. Então as crianças iam à escola e, se não soubessem português, os demais chamavam-nas de gringos, por isso todas as famílias queriam que seus filhos falassem português.

 

Por que no Sul do Brasil

as coisas são diferentes?

No Rio Grande do Sul a colonização foi feita com alemães (1824), italianos e poloneses (1875) nas assim chamadas colônias italianas, imperial e provincial, em forma de pequena propriedade autônoma e, também, de grupos homogêneos: alemães de uma parte, poloneses de outra, e taliani em outra mais, mesmo se colônias italianas absorvessem uma parte dos poloneses.

Cada um com seu pedaço de terra, vizinhando com taliani. Todos os taliani de um lado, e os poloneses do outro. Nos centros urbanos, muitos comerciantes, artesãos, o padre, o médico, estavam ali em função dos colonos: o padre para dar assistência religiosa, e os outros esperando que os colonos progredissem na agricultura, para melhor aproveitá-los, fazendo bons negócios.

Teria havido uma cultura urbana e uma cultura campesina no sentido geográfico, mas não no sentido lingüístico, pois todos, cada vez mais, falavam como a grande maioria. E assim podemos dizer que o que sobrou da cultura italiana no Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e outros estados, é a cultura baseada no Talian como língua única, com prevalência de usos e costumes campesinos.

A cultura italiana urbana não existe. Em São Paulo, não, porque nas fazendas de café os patrões eram brasileiros, e os colonos não tinham como imiscuir-se em capelas, escolas, comunidades homogêneas, e logo se acaboclaram, isto é, aceitaram plenamente a cultura brasileira; no Espírito Santo, também não, porque lá também, nas fazendas de café, começaram logo a falar o português, e perderam quase tudo, seja o talian, seja o italiano, os poucos que o sabiam.

Então, podemos dizer que os trivêneto-lombardos do Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Rondônia..., onde houve uma migração direta desde a Itália e, também, indireta, pois muitos descendentes de taliani do Rio Grande do Sul foram para esses e para outros estados, formaram uma maneira própria de colonização em pequenas propriedades. Com colonos, todos ou em parte italianos, que podiam viver em paz, falar sua língua e viver sua cultura. Nesses estados formou-se esta língua, o talian.

Segundo o estudioso Antonio Martellini (Correio Riograndense, 1999), o Talian é a última língua neoitaliana ou neolatina, que se conhece.

A cultura, a culinária, os costumes que nós no Brasil dizemos italianos, nem sempre ou quase nunca são os mesmos da Itália moderna, pois tanto eles, como nós, respondemos de maneira própria às diversas realidades, com os meios de que dispomos. Se, às vezes, aqui tivéssemos apenas pinhões para comer, sobrevivia-se assim. Se houvesse apenas polenta e almeirão, também se sobrevivia. Alcachofrras, beterrabas, cenouras, não havia como cultivá-las, pois não havia sementes, enquanto que pássaros voando havia; almeirão silvestre também; milho era plantado e produzia bem. Então o importante da culinária era encontrar um motivo para comer polenta, ou seja, o presigo. Um colono convidou seu compadre para comer em sua casa, e preparou-lhe apenas polenta e almeirão. Então o amigo lhe disse:

– O que é isso, compadre, apenas polenta e almeirão preparas para mim?

– Poxa!, respondeu-lhe. Não vês que embaixo do almeirão também há vinagre?

A resposta era essa: “Come o que tens, e cala o que sabes!”

As palavras se modificam, mudam como o presigo, para dar sabor à vida. E assim surgiu o Talian, de palavras escolhidas e maturadas pelos falantes, com o jeito que cada um lhe imprimiu. Palavras brotadas fora da realidade, da dor, do prazer, da luta, do trabalho, e da vitória e da colheita.

Então, como taliani do Rio Grande do Sul, temos motivo para pedir aos italianos da Itália geográfica algo de grande importância para nós, pois já tem a idade comprovada de cento e vinte e cinco anos:

Antes de mais nada, que os italianos, sejam vênetos ou de outras regiões, venham ao Brasil respeitando a nossa cultura ‘taliana’, a nossa língua, que é o talian, e não tentar impor seu modo de ver e fazer. E isso a Itália sabe fazê-lo e bem. Parece-me que a Itália esqueceu que já fazem cento e vinte e cinco anos que nós vivemos no Brasil, em silêncio total, sem nunca termos ouvido sequer uma palavra da nossa mãe Itália. Agora, porém, ouvem-se palavras de mercenários de todos os lados. A maioria ou vêm ao Brasil por interesses econômicos, em especial políticos, ou quando por interesses culturais, olham-nos como se fôssemos animais de circo.

A Itália tem de entender que nós viemos para Fazer a América, enquanto que sua gente, hoje, em grande parte vem por interesses políticos, às custas do governo, para fazer negócios com a desculpa de fazer cultura, eles vêm Fazer a Itália. Eles vêm para cá e não se tornam brasileiros, continuam italianos, porque lhes convém ter privilégios em dobro, seja como italianos ou brasileiros, sem compromissos nem de uma, nem de outra parte.

Não quero dizer que a Itália, sobretudo o Vêneto, não tenham nada a nos ensinar. Eles têm muito a nos ensinar. Mas o ensinamento verdadeiro é aquele que respeita cada pessoa nas suas condições, na sua cultura.

E agora eu perguntaria: – O que significa ser vêneto, ou ser lombardo, ou ser trentino, ou ser friulano? Da maneira como a Itália oficial nos trata hoje, com a imposição de sua língua e de sua cultura, como se somente a geográfica fosse Itália, tudo isso, no futuro, nada mais será do que uma parte geográfica da Itália e nada mais.

Culturalmente, quando se perdem as línguas típicas de cada região, não sobra nada de novo, de típico, de alicerce de uma identidade. Hoje, graças a Deus, na Itália, ainda se ouve o falar comunal, provincial, regional, mas quase só entre operários e camponeses. Eliminado-se os falares típicos, o que distinguirá uma região de outra serão os preconceitos, as mazelas, as rivalidades políticas, culturais e econômicas.

Perguntaria ainda, como antropólogo: – Seria possível, em nosso caso, a identidade trivêneto-lombarda sem uma língua?

Por que os vênetos, inclusos, para nós do Talian, os trivêneto-lombardos, não conseguem fazer um acordo de como escrever, de pôr sob tutela constitucional a língua vêneta? O parlamento, constituído também de deputados trivêneto-lombardos, tutelou as línguas das minorias: o albanês da Calábria, Puglia, Sicília, Molise e Abruzzo, com 96.000 falantes; os cárnicos de Belluno, com 1.400 falantes; os croatas de Molise, com 2.500 falantes; os friulanos de Údine, Pordenone e Gorízia, com 526.000 falantes; os moquenos de Trento, com 1.000 falantes; os eslovenos de Trieste, Gorízia e Údine, com 70.000 falantes; os altoatesinos de Bolzano, com 290.000 falantes; os catalães de Alghero in Sassari, com 18.000 falantes; os franco-provençais de Aosta, Torino e Foggia, com mais de 90.000 falantes; os gregos da Calábria e Lecce, com 20.000 falantes; os occitanos de Cuneo, Torino, Impéria e Cosenza, com 78.000 falantes; os valeses da Aosta, Vercelli, Verbano-Cusio-Ossola, com 2.900 falantes; os carinzianos de Údine, com 2.000 falantes; os cimbros de Trento, Verona e Vicenza, com 650 falantes; os francófonos de Val d’Aosta, com 20.000 falantes; os ladinos de Bolzano, Belluno e Trento, com 50.000 falantes; os sardos, com 1.269.000 falantes, na Sardegna (Bolletino Migrazione Notizie, 1998).

O texto da Comissão de Assuntos Culturais, como explica o relator Deputado Domenico Maselli, prevê o ensino facultativo dessas línguas de minorias nas escolas elementares e maternais; e obrigatória nas escolas médias e superiores. São três milhões que representam dezoito minorias lingüísticas.

E quantos milhões de trivêneto-lombardos existem na Itália e no mundo?

Se eles não conseguem entrar em acordo entre as províncias e as regiões, que alguém pelo menos diga, por exemplo: – Queremos conservar, falar e ensinar o fondassin ou o feltrin!, se não conseguirem entrar em acordo de ensinar o belunese no âmbito da província.

Os antropólogos dizem que, das 12 mil línguas que já foram faladas em todo o mundo, sobreviverão apenas 6 mil, e que 50% dessas são faladas exclusivamente por velhos. E a cada dia morre uma palavra, como se fosse uma filha de uma língua-mãe (Carlini, Franco. Seis mil línguas a menos. Em Il manifesto, 12/03/1995).

E o trivêneto-lombardo, caso não seja falado, até quando sobreviverá? E o Vêneto, o Trentino, a Lombardia, o Fríuli... sem sua língua, e com a migração interna e a imigração, o que mais serão, além de uma região geográfica da Itália, com seus preconceitos e suas mazelas?

Os italianos que hoje estão no Brasil, ou que vão para o Brasil, vão por causa de interesses, vão fazer a Itália, enquanto que os colonos vieram para fazer a América. Os imigrantes, mais que língua e cultura, trouxeram seus interesses.

A política, com a perspectiva do voto no exterior, traz para o Brasil as desavenças dos partidos da Itália.

Nós nunca tínhamos sabido das rixas de região contra região, mas agora tudo isso chega ao Brasil.

Antes de virem para o Brasil para ensinar e impor o ponto de vista deles – sejam vênetos, sejam de qualquer outra região da Itália – eles deveriam perguntar-se:

– Como isso aconteceu?

Não vivemos nós cento e vinte e cinco anos, com a Itália chegando através de suas autoridades apenas até os centros maiores, nunca alcançando às colônias, onde se formou a cultura que conservamos até hoje?

A Itália tem interesses no Brasil. E poder-se-ia perguntar: – Que interesses ela tem para o Brasil?

O Vêneto, o Trivêneto também, no plano lingüístico, não demonstra interesse nem em sua própria casa, na própria base lingüística, por isso em pouco tempo será apenas Vêneto, ou apenas Norte contra Sul. E aqui, entre nós, nunca houve esse tipo de rixas. Só após o surgimento da lei da dupla cidadania, a grande maioria veio a descobrir de onde provinham seus antepassados. Tanto é verdade que grande parte de meu tempo é gasto respondendo perguntas de onde vieram as famílias.

E não é uma injustiça, agora, misturar as rivalidades regionais, as rivalidades políticas da Itália geográfica, com a cultura espontânea dos nossos descendentes?

Para nós é importante o italiano, como é importante o talian, principalmente este, pois o falamos até o dia de hoje. Nossos pais foram proibidos de falar o talian, mas não o foram de falar o italiano, que nunca aprenderam.

Então, o que pedimos ao Vêneto, ao Trivêneto-Lombardo, é a solução lingüística, é um acordo sobre como escrever, respeitando todas as manifestações, inclusive a nossa. A verdadeira pedagogia, válida para o ensino da língua italiana, é a que parte das experiências de cada um.

Dizer que apenas o italiano é prático, porque é falado em toda a Itália, é um argumento válido para 2% dos 25 milhões que do Brasil têm oportunidade de ir à Itália. O talian, como língua, formada pelos campesinos da grande imigração, é falado de maneira semelhante em várias partes do mundo, em cada uma, porém, com palavras do idioma local. Por exemplo, na Argentina e Uruguai, usam-se palavras argentinas e uruguaias.

O Vêneto e a Itália precisam entender que não é apenas a geografia que define a Itália, pois a Itália de hoje é a Itália no mondo. A Itália geográfica será sempre e cada mais um ponto de referência. Como italianos e como cristãos, somos cidadãos do mundo, e não estrangeiros no mundo. Este é o verdadeiro jus sanguinis.

Com a formação do talian, que está todo dentro do Dicionário de Luzzatto, nós levamos a diante a cultura com uma forma lingüística única, embora ainda estejam vivas as línguas que o formaram.

Tivemos um ganho e uma perda: um ganho, porque assim nos entendemos bem, e uma perda, pois as línguas constituintes do talian estão perdendo-se cada vez mais. Na Itália, porém, elas continuam faladas. Então é preciso que a Itália preserve essas diferenças lingüísticas, para assim preservar sua história, e também a nossa história como italianos no mundo.

Darcy Luzzatto entendeu que o Senhor o escolheu a dedo para salvar as palavras da nossa história. As nossas maneiras de falar e de rezar. As nossas maneiras de ser, de viver e de proceder.

Darcy imprimiu em livros a história de sua família e de toda a nossa gente. Vejam só quantos livros ele já escreveu: Ghen’avemo fato arquante...; El mio paese l’è così!; Ostregheta, semo drio deventar veci; Stòrie dela nostra gente; El nostro parlar; Noantri semo taliani, gràssie a Dio; Talian: noções de gramática, história e cultura; e Talian (vêneto brasileiro) sem mestre.

Cada um desses livros conta um capítulo especial de nossa história e, todos juntos, são a nossa própria história.

Mas, nem todos sabem todas as palavras, muitos esqueceram uma ou outra. Muitas palavras podem ser conhecidas por uns e desconhecidas por outros, pois provêm de todas as partes da Itália, de todas as línguas que permitiram o surgimento dessa nova e bela língua que é o talian.

Então, para ajudar a todos, Luzzatto criou este belo dicionário, o mais completo que se conhece, que encerra todas as palavras do talian. Se por acaso alguma palavra foi esquecida, faça-a chegar à Editora SAGRA, que, na próxima edição, com certeza esta estará contemplada no dicionário.

Assim, Darcy, o nosso muito obrigado, pois não estás envelhecendo por nada. Sabes melhor do que ninguém da importância do nosso talian. Escreveste e falaste em nome de todos nós. Então, em nome de nossos antepassados, que o Senhor já chamou ao reino dos céus, e de todos nós que ainda giramos por este mundo, te agradecemos.

Faz de conta, Darcy, que cada palavra que puseste no dicionário seja um filho teu que andará pelo mundo, sem nunca morrer, pois da língua de um passará à língua de outro e, todos juntos, reviverão e preservarão por completo a nossa história.

A palavra, Darcy, é eterna, como é eterna a palavra de Deus. É São João que diz, com precisão: “A palavra de Deus fez-se natureza humana.” Então a palavra humana também é eterna como a natureza divina.

O teu Dicionário do Talian contém palavras dos sessenta milhões de taliani que andam pelo mundo e, quem sabe de quantos que, depois da experiência migratória, continuam a falar esta língua, agora definitiva, com palavras definitivas, porque o Senhor já os chamou para o definitivo, sereno, feliz e alegre destino.

 

Porto Alegre, maio de 2000.

ROVÍLIO COSTA

Academia Rio-Grandense de Letras

Instituto Histórico de São Leopoldo, RS

 

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