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FREI SEBASTIÃO |
Frei Rovílio Costa |
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O missionário Frei Domingos Bortoli Bruzamarello: 1939-2004 |
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Frei Nédio Pertile* A 5-3-2004, no Hospital Saúde de Caxias do Sul, faleceu Frei Domingos Bortoli Bruzamarello (Frei Sebastião), de falência múltipla de órgãos. Transladado a Sananduva, foi velado na Matriz São João Batista. Da missa exequial, dia 6, participaram os bispos Dom Orlando Dotti, Dom Osório Bebber e Dom Pedro Sbalchiero, bispo de Vacaria, e 24 sacerdotes, 50 religiosos e numerosos fiéis. |
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Frei Domingos nasceu na Linha Mão Curta, em Sananduva, a 19-1-1939, filho de †Henrique Bruzamarello e Maria Thereza Zanella, hoje com 90 anos, pais de três filhos e 11 filhas, uma das quais é Irmã Mafalda Bruzamarello, franciscana de Nossa Senhora Aparecida. A 25-1-1939, na capela São Paulo, Frei Domingos foi batizado pelo capuchinho Frei Domingos Rigon, pároco de Sananduva, e a 19-2-1941, foi crismado pelo capuchinho Dom Frei Cândido Maria Bampi, bispo de Vacaria. A 22-2-1952, ingressou no Seminário Seráfico São José, em Veranópolis, onde cursou, de 1952-4, as três primeiras séries ginasiais. Em Ipê, no Seminário Nossa Senhora de Fátima, concluiu o ginásio e cursou o 1° Ano Colegial. Em Marau, no Convento São Boaventura, concluiu o curso colegial. De 1960-2, bacharelou-se em Filosofia, na UNIJUÍ, e de 1963-7, cursou Teologia no Convento São Lourenço de Brindes de Porto Alegre. A 24-1-1957 ingressou no Noviciado dos Capuchinhos no Convento Sagrado Coração de Jesus de Flores da Cunha, tendo por mestre o Frei Urbano Poli, emitindo os votos temporários a 25-1-1958 e, a 25-1-1961, fez a Profissão solene, no Convento São Geraldo de Ijuí. Foi ordenado subdiácono, diácono e sacerdote em Porto Alegre, respectivamente aos 14 de setembro, 15 de setembro, e 10 de dezembro de 1967, na Paróquia Santo Antônio do Partenon, por Dom Vicente Scherer. Atuou como vigário paroquial, em Veranópolis (1968), Bom Jesus (1969-70) e Soledade (1971-2). De 1973-6 percorreu o Sul do Brasil, pregando missões populares. Em 1977, em Medellin, na Colômbia, realizou um curso de Missiologia. Retornou em 1978 às Missões Populares. A partir de 1979, integrou a Província do Brasil Central, trabalhando até junho como Vigário paroquial em Piracanjuba-GO, e de 1979-88 em Brasília. De 1989-90, com desejo de aprofundar sua definição vocacional, viveu fora da fraternidade, trabalhando num sítio ao sul do Tocantins. De 1991-3 foi vigário paroquial em Coxim-MS. No primeiro semestre de 1994, cursou Missiologia na Faculdade Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo. A partir do 2° semestre de 1994 até fim de 1995, atuou nas Missões Populares. De 1996-9, foi superior do Convento São Sebastião, em Anápolis-GO, e vigário paroquial; de 2000-1, foi vigário paroquial em Piracanjuba-GO. A 23-10-2001 se reintegrou à Província do Rio Grande do Sul, atuando como vigário paroquial de Tramandaí, de 2001-2. Em 2003, atuava como capelão do Hospital São Paulo de Lagoa Vermelha-RS, quando um exame de rotina diagnosticou câncer no esôfago, que meses depois lhe ceifou a vida. Em seus 43 anos de vida religiosa e 37 anos de sacerdócio me encantou como religioso e sacerdote. Recordo suas palavras candentes na minha ordenação sacerdotal na Linha Mão Curta, em Sananduva, sua e minha terra natal, a 22-1-1989. Devo a Frei Domingos o despertar de minha vocação de sacerdote capuchinho. Conheci-o desde a infância, recordo suas visitas aos irmãos, parentes e amigos nos tempos de férias, especialmente à minha mãe, Ana Bruzamarello. Cada vez que ele partia, eu dizia que queria ir junto com ele. Tinha um carinho especial pelo meu pai, Felix Justino Pertile. Sua figura capuchinha de hábito, barba, cabelos longos e sandália, me cativava. Sempre animado, caminhava leve como pássaro, sorria e brincava. Eu e meus irmãos o amávamos. Antes que eu ingressasse no Seminário, celebrou uma missa na casa de meus pais e, na homilia, me disse: “Você vai ao Seminário, mas não esqueça das mãos e os pés calejados do teu pai, a dedicação da mãe, e sobretudo, não esqueça os chinelos que recordam as tuas origens”. Estas palavras breves, densas de significado, me acompanham até hoje. Em 1986, meu pai precisava de cirurgia, mas estava sem condições financeiras. Frei Sebastião o levou a Brasília, e conseguiu a cirurgia no Hospital Militar, onde o visitava todos os dias e, depois, na residência dos freis o assistiu nos três meses que lá passou engessado, sem condições de andar. Assim Frei Sebastião procedia com todos os doentes que estavam sob seus cuidados nos hospitais e fora. Em Brasília, acompanhou de perto o frei Odorico Dalmolin que, nos últimos anos, precisava ser auxiliado em tudo, dando-lhe banho diário, e levando-o a passeio. No início de 1970, acompanhou o longo sofrimento do próprio pai, vítima de câncer no esôfago. A uma senhora que chorava a morte de um familiar, disse: “Olha, eu não tenho nada para dizer a você, mas eu estou aqui”. Em 1985, em Brasília, arrecadou alimentos, roupas, dinheiro e jóias para socorrer famílias nordestinas, vítimas da seca e/ou das enchentes. Conseguiu um caminhão e um avião cargueiro para lhes enviar os resultados da campanha. Com parte do dinheiro arrecadado fez abrir cisternas em vilarejos do sertão, e outra parte foi enviado à Cáritas Arquidiocesana de Fortaleza (7 milhões de cruzeiros), para socorrer às vítimas das enchentes. Frei Domingos era um missionário carismático, tinha dom da palavra. Ouvindo seus sermões a viva voz ou ao microfone, muitos se converteram. Na Igrejinha de Fátima, em Brasília, era denominado de João Batista. Através da palavra sorria, fazia rir, chorava e fazia chorar. Com linguajar simples, ilustrava suas mensagens com comparações da vida e da natureza. Falava com poesia e emoção. Já de cabelos e barbas brancas, nos últimos anos, continuava a exercer o fascínio do tempo das missões. Brincava de papai Noel, para melhor atrair as crianças. Em Brasília, além de atuar na paróquia e capelinha de Fátima, nas escolas e na OAB, notabilizou-se pelos programas religiosos radiofônicos e televisivos: ave-maria, momento da prece, missas dominicais, através dos quais levava palavras de esperança e respondia a questões sociais e religiosas. Rádio Planalto (Ondas Médias), Rádio Nacional de Brasília e Rádio da Amazônia, disputavam sua participação, sem esquecer a atuação de Frei Domingos e dos Capuchinhos de Brasília em programas religiosos e educativos da TV Globo, TV Manchete e TV Nacional. Em Lagoa Vermelha-RS, conquistou os ouvintes com o programa “Paróquia Santo Antônio”, pela Rádio Cacique. Dedicava-se ao estudo do Grego e do Hebraico para melhor conhecimento das Escrituras e nas suas pregações fundamentava os valores da família, os princípios da justiça social, da moral e da religião, com citações bíblicas precisas, no original. Frei Domingos cultivou o carisma paulino e franciscano da itinerância missionária, do desapego a lugares, do amor incondicional à evangelização. Nas homilias mostrava a necessidade da vida espiritual, através da oração pessoal, da contemplação e da oração comunitária, com o povo. Era decididamente a favor da paz, energicamente contra a luta armada, a guerra, a violência. Ao mencionar estes temas, nas pregações, ia às lágrimas. Na homilia em minha primeira missa, ao lembrar que os seguidores de Jesus e os filhos espirituais de São Francisco de Assis são portadores da paz, suplicou que eu resistisse incondicionalmente à luta armada, como meio para salvaguardar os direitos humanos. Disse: “Francisco não foi violento. Mas a vida, Nédio, reserva as suas surpresas. Se eu pudesse lhe dizer, dentro do possível, não seja violento. Não é do seu estilo, nem de seu pai, nem de sua mãe. Mas quando a dor é demais, quando a fome faz cantar o estômago e faz das tripas viola, quando o coração não tem mais nada a perder, quando os desamores da vida arrebentarem com os olhos e não se enxerga mais, o homem precisa viver. E, além da obediência à lei, além da obediência à instituição, está a obediência à lei de viver. Você precisa viver. Sempre você terá que dizer: eu não quero morrer. Eu quero viver! Nédio, hoje é fácil. E para mim é fácil falar, mas você terá que dizer ‘eu quero viver’. E tudo isso junto à comunidade”. Na missa funeral, um dos símbolos apresentados foi o microfone, instrumento que usou para anunciar o Evangelho. Logo que tomou conhecimento de sua morte, Dom Pedro Sbalchiero Neto, bispo de Vacaria, enviou uma mensagem ao provincial Frei Luiz Sebastião Turra, expressando sua gratidão pela vida apostólica de Frei Domingos, evocando a imagem do pregador que guarda desde a infância: “Conheci o frei Domingos numa festa de Nossa Senhora da Salette, na capela do Santuário em Marcelino Ramos, quando animava a procissão. Conservo a imagem em minha memória. Agradeço a Deus por tê-lo conhecido assim”.
* Capuchinho, superior da Casa N. Sra. Aparecida (Campo da Tuca) e Diretor da ESTEF, em Porto Alegre (tuca@capuchinhosrs.org.br). |