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PASSADO PRESENTE: ENTREVISTA COM FREI ROVÍLIO COSTA

(Porto Alegre, Zero Hora, Cultura, 9-8-2003, p. 1,4, 5 e 6)

 
 

 

       Há coisas do mundo intelectual que dificilmente são compreendidas fora dele. Alguém poderá dizer que é assim em qualquer campo de atuação, e será verdade. Não importa; o caso é que certos valores, no mundo da produção intelectual, vivem de fato uma espécie de vida provisória, sujeita a fenecer ao menor sopro contrário. Um desses valores diz respeito à edição. Fica o historiador pesquisando solitariamente seu objeto, muitas vezes sem apoios que não os da convicção pessoal, por meses, anos a fio. Chega o momento crucial de oferecer sua interpretação ao leitor, ao mundo; e tantas vezes isso falha, fica nas gavetas, sobretudo em função das dificuldades da vida culta e impressa em nosso país.

       Agora, imagine alguém que tenha se dedicado a editar trabalhos de pesquisa histórica e social durante os duros e burros anos da ditadura militar, quando pesquisar ou divulgar temas de História, de Sociologia ou mesmo de Literatura era passaporte para a incomodação política, senão de coisas piores. E acrescente outro traço: desde aquele período, esse mesmo alguém continua editando pesquisas de interesse aparentemente apenas local, como histórias de municípios pequenos, feitas por autores totalmente desconhecidos, que de outra maneira nunca teriam saído à luz do dia.

       Talvez nem precisasse ir mais adiante nesse perfil para o leitor ter diante de si um sujeito de valor. Ocorre que tais qualidades são apenas parte do trabalho de Rovílio Costa. Outra faceta imprescindível de sua personalidade está em ter ele desenvolvido um intenso (e, como em quase todos os outros campos de sua atividade, discretíssimo, subterrâneo) trabalho de fixação e registro da cultura dos descendentes de italianos, especialmente no que se refere às histórias e costumes que o mundo popular preservava apenas na tradição oral. Quer outra? Pois bem: não bastasse ter editado cerca de 2 mil títulos - não há engano: 2 mil títulos mesmo -, quase todos daqueles autores sem prestígio, ele paga os direitos autorais de seus editados assim que o livro fica pronto, isso num mundo editorial em que a praxe é o editor considerar a edição como um favor ao editado. Rovílio Costa trata com muito respeito os pesquisadores, os estudiosos, os intelectuais. E é admirado por eles, tenham a orientação teórica que tiverem. Por sobre tudo isso, há ainda um sentido maior, em que todas essas características se agrupam: ele é frade capuchinho, e há décadas concilia a vida de editor e pesquisador com uma forte dedicação ao trabalho pastoral, exercido junto a presos do sistema penitenciário gaúcho e a pobres da região Leste de Porto Alegre. E ainda não falamos de seu longo traba1ho no magistério superior, na Faculdade de Educação da UFRGS. Num mundo leigo e tantas vezes anti-religioso, como é o mundo das idéias, frei Rovílio é estimado e respeitado por todos.

       Nascido em família católica de ascendência italiana, criado num meio de agricultores, Rovílio seguiu uma trajetória não rara entre nós: ainda na meninice, saiu direto da roça para o seminário, percorrendo os estudos necessários para sua ordenação como padre. Nesse tempo, foi vivendo essas várias vidas paralelas, em todos os casos granjeando amigos e admiradores.

       Nem sempre a coisa foi fácil assim, como a entrevista demonstra. Em certos momentos, Rovílio precisou enfrentar concepções elitistas e excludentes, que floresciam tanto entre seus conterrâneos, em sentido amplo, quanto entre seus correligionários, em sentido estrito: foi quando, no começo dos anos 70, resolveu reeditar o já antigo Nanetto Pipetta, exemplo de literatura decalcada na experiência popular, que alguns julgavam uma velharia insuportável e Rovílio entendia manter um grande valor identitário e popular. Estava dando os primeiros passos da editora EST, que ele dirige desde então. Da mesma forma, muito antes que a universidade falasse em história oral, micro-história e assemelhados, ele já praticava isso em suas pesquisas e incentivava outros a fazerem o mesmo, sempre procurando salvar do esquecimento as vivências do mundo colonial italiano. De todo modo, sua luta foi bem sucedida - e já é reconhecida: basta saber que, na altura de seus 65 anos, foi editado um volume em sua homenagem, com depoimentos diretos e artigos alusivos, num total de 1.168 páginas (chama-se Etnias & Carismas, organizado por Antônio Suliani, Ed. da PUCRS). Ainda se recuperando de alguns contra-tempos de saúde, que porém não lhe roubaram o discreto humor, nem a verve, e vivamente entusiasmado com uma nova e imensa fonte de trabalho e pesquisa (a vida dos negros em Porto Alegre, no século 19), Frei Rovílio foi entrevistado na tarde do dia 10 de julho deste ano, em sua casa, cheia de livros e gatos - estes, tanto ao vivo como em imagem (há toda uma parede de fotos de gatos e algumas dezenas de representações escultóricas do bichano) (Texto de Luís Augusto Fischer, professor do Departamento de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, doutor em Letras, escritor, autor de Rua desconhecida, entre outros livros e de Eduardo Wolf, professor de Literatura do Colégio Leonardo Da Vinci).

 

 


Entrevista


Cultura - O senhor tem sobrenome Costa mas é descendente de italianos pelo lado materno, é isso?

Rovílio - Pelos lados materno e paterno. Costa é um nome que, na Itália, não tem significado ligado a pessoas mas a lugares. Por exemplo, Costa de San Marino. É o homem que vem da costa. Há o sobrenome Dalla Costa, inclusive, de parentes nossos.

Cultura - Costa parece português...

Rovílio - Remotamente tem ligação com aquela companhia de navegação Enrico C, que é portuguesa. Eles foram para Gênova, então a origem última da família seria ali.

Cultura - O senhor nasceu no Brasil?

Rovílio - Nasci em Veranópolis, em 1934. Meu pai já era nascido no Brasil, meus avós vinham de Cremona, de um lugarejo chamado Ca’ de’ Soresini, município de San Martin del Lago, um lugar de agricultores. Eles tinham pouca terra, coisa de um ou dois hectares. Trabalhavam em terras alugadas. Trabalhavam com frutas e tinham uma espécie de albergue, numa cidade que contava na época 712 habitantes.

Cultura - Aqui seus avós eram agricultores também?

Rovílio - Sim, todos nós sempre trabalhamos com agricultura. Meus irmãos ainda trabalham, apenas alguns sobrinhos diversificaram um pouco as atividades. Mas a maior parte trabalhou com agricultura e serraria.

Cultura - Como foi sua educação, ainda em Veranópolis?

Rovílio - Eu estudava numa escola que era da minha madrinha, de ascendência portuguesa, mas na minha casa só se falava o cremonês. Não se falava o cremonês na comunidade de capela ou na cidade, porque a maioria falava o vêneto, e quem falasse o cremonês, por exemplo, era zombado. Em função da campanha de nacionalização do Estado Novo, fui alfabetizado em português. Meu pai tinha uma bodega na colônia, a uns oito quilômetros de Veranópolis, onde passavam tropeiros que iam para Guaporé, depois Passo Fundo, Lagoa Vermelha, Vacaria..., e eles paravam lá em casa. Eu sabia que existia italiano e negro: quem não era italiano, era negro (risos). Quem não falava italiano, falava português, e quem falava português era negro. O negro era interessante porque era jocoso, brincalhão. Meu pai não entendia quase nada, mas eu, como ia à escola, entendia.

Cultura - O senhor lembra de dificuldades pelas quais a família passou em função da nacionalização ou da guerra?

Rovílio - Durante a guerra, meu pai tinha que ficar escondido durante quase o dia todo, porque caçavam as pessoas que não sabiam falar português. Durante a noite, como não tinha luz elétrica, ele podia ficar em casa. Se alguém chegasse, os cachorros acoariam.

Cultura - Como o senhor foi parar na vida religiosa?

Rovílio - Fui para a vida religiosa quando tinha 11 anos. Na escola sempre passava um irmão marista, fazendo propaganda, e fazia muita questão de que eu fosse estudar na escola deles. Eu pensei: se não vou ficar em casa, que era o que meu pai queria, vou estudar para ser padre. Meu pai dizia que quem não se organiza em casa tem que buscar trabalho fora. Então, mesmo com os padres indo lá em casa o tempo todo, nunca falei nada. Quando, enfim, me decidi, pedi a Frei Cosme Gradaschi de conversar com meus pais. Meu pai achou que era coisa passageira, mas fui para o seminário já com tudo alinhavado.

Cultura - Mas a escolha do seminário foi por algum sentido místico? Ou era o caminho mais prático para estudar?

Rovílio - Quando eu era criança, tive meningite. Fiquei praticamente três anos no hospital. Minha mãe trabalhava no hospital, exatamente para cuidar de mim, pagava uma parte da minha hospitalização com serviços. E o padre ia muito lá, visitar os doentes. Minha mãe, depois, ia muito visitar os doentes, e, como eu era o filho menor, ia junto com ela. O que era importante para as famílias de então não era a parteira, ou algo assim, mas o padre. Morrer sem um padre era uma coisa de outro mundo.

Cultura - Para que seminário o senhor vai?

Rovílio - Para o Seminário Menor, ali em Veranópolis, onde hoje tem a escola do MST. Era um seminário pequeno.

Cultura - Qual era a Ordem?

Rovílio - A dos capuchinhos, à qual eu ainda pertenço.

Cultura - Mas o senhor é frei, não? Chegou a se ordenar padre?

Rovílio - Sim, me ordenei padre em 1960.

Cultura - Qual é a diferença entre frei e padre diocesano?

Rovílio - Frei é uma palavra que vem de frade, irmão, então são fraternidades que vivem em comunhão dos bens. Embora eu more aqui, é em nome da ordem que está a casa, eu presto contas à ordem, etc. Esse trabalho como editor é o meu, pessoal, não é o meu encargo com a ordem. Sou vigário cooperador da Igreja Nossa Senhora do Líbano.

Cultura - Qual é a marca específica dos capuchinhos, entre as várias ordens religiosas?

Rovílio - A pregação nas áreas de pouca assistência religiosa, organizando a Igreja onde não tem, confissões, essa área de espiritualidade.

Cultura - Em Veranópolis o senhor fez somente o equivalente ao ginásio?

Rovílio - Fiz até a terceira série em Veranópolis, depois fui para Ipê, onde fiz a quarta série e o primeiro colegial. Depois fiz o noviciado em Flores da Cunha, seguindo para Ijuí, onde fiz o segundo e terceiro colegial, além do primeiro de Filosofia. O segundo e terceiro de Filosofia, cursei em Marau.

Cultura - E o curso de Teologia?

Rovílio - O primeiro ano de Teologia cursei em Garibaldi, depois vim para Porto Alegre, na Escola Superior de Teologia, hoje Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana. Era nesse percurso que se percebia a diversidade, porque havia capuchinhos que eram freis e capuchinhos que eram freis e padres. Por isso que antigamente se dizia "padre frei fulano de tal", e se não fosse padre se dizia só "frei fulano de tal". Hoje acabamos com essa prática para não criar uma diferença entre ser e não ser ordenado, até porque essa não é uma característica capuchinha; o que é característico dos capuchinhos é ser frei, não padre.

Cultura - Quando o senhor se ordenou, em 1960, a vinculação da Igreja com aquilo que depois veio a ser chamado de comunidades de base era uma questão clara?

Rovílio - Na época nem existia o nome comunidade de base. Mas tive uma experiência muito boa. Eu dava aulas de religião no colégio Apeles Porto Alegre, e havia, na época, uma febre chamada febre asiática que pegou fortemente nas vilas. Eu atendia na Vila Santa Luzia, que depois deu origem à Restinga Velha. Eu dava injeções nas pessoas para prevenir a tal da febre. Como todo mundo foi pegando a doença, acabou sobrando só eu. E uma das coisas que me chamou a atenção foi como aquelas pessoas eram desligadas umas das outras, na sua miséria. Tanto assim que eu atendia um senhor que morava sozinho e no dia seguinte o encontrei morto. Perguntei aos vizinhos: "Não viram que ele estava morto?". Eles responderam: "É, a gente viu mas...". E ficou por isso.

Cultura - O senhor chegou a ser uma espécie de reitor, não?

Rovílio - Sim, eu era diretor do Teologado. Em 1968, a escola estava sob minha direção. Tinha um grupo com 15 alunos, e eu disse para eles que poderiam escolher o que fazer. A primeira opção era estudar em São Leopoldo, na escola dos jesuítas; depois, ir para Petrópolis, no Rio, na escola dos franciscanos; e havia, ainda, um bispo da Bahia com um trabalho popular, então seria possível irmos para lá. Eles, os estudantes, escolheram estudar no Seminário Maior de Viamão. Como eram alunos concluintes de Teologia, no ano seguinte eu ficaria com apenas quatro deles. Não havia necessidade de manter uma escola para isso. Foi então que começamos a fazer esse trabalho alternativo, de inserção nas comunidades necessitadas e pobres. Os alunos disseram que não queriam viver apadrinhados, queriam ganhar o próprio pão. Então eu disse que o único requisito para alguém permanecer no grupo é que quisesse ser religioso e, eventualmente, sacerdote. A partir daí passamos a procurar um monte de alternativas, uma das quais era morar na Restinga Velha. Isso coincidiu com a prisão daqueles padres franceses (pela ditadura militar brasileira) e, nesse meio tempo, apareceu por ali um padre italiano, de maneira que já não precisava mais de assistência religiosa na Restinga Velha, que é o que justificaria junto à Província (a administração regional da Ordem dos Capuchinhos) nossa transferência para lá.

Cultura - Foi nessa ocasião que começou o trabalho de vocês junto aos presidiários?

Rovílio - Sim. Os rapazes decidiram que iriam trabalhar no presídio. Nos estabelecemos em Charqueadas, na Penitenciária Estadual do Jacuí. Trabalhei lá de 1969 a 1976. Um pouquinho antes de 1976, os rapazes foram trabalhar no Leprosário de Itapoã, porque houve certo atrito com a nova direção do presídio. Na penitenciária do Jacuí, organizamos biblioteca, hortas, assumimos responsabilidades com prisões externas, etc.

Cultura - Seu trabalho era supervisionar isso?

Rovílio - Sim. O curioso é que tivemos que fazer concurso para entrar na polícia. Como queríamos viver só com o que ganhávamos, sem depender da ajuda da comunidade, morávamos na ilha e ajudamos a fazer hortas familiares, organizamos a comunidade.

Cultura - Tecnicamente eram funcionários do presídio?

Rovílio - Somente dois de nós, um deles e eu. Éramos agentes penitenciários. Trabalhei até 1980, quando o Valdyr Barrili assumiu o Presídio Central, aqui em Porto Alegre, e eu vim trabalhar com ele. A gente fazia trabalhos de grupo com os detentos, segundo o princípio de que era preciso ser feliz na prisão; então eles tinham um momento chamado "o choro é livre", no qual podiam desabafar, falar mal de quem ou do que quisessem. A partir desse princípio, eu tirava muitos presos para o trabalho externo, passando apenados para outras instituições, paróquias... Eles tinham opções para uma vida melhor.

Cultura - Vocês tinham contato com todos os presos?

Rovílio - Sim. Ficávamos sabendo de tudo que se passava lá dentro, por causa da necessidade que o preso tem de contar tudo. Certa ocasião, fugiram uns 27 presos. A fuga estava planejada havia meses. Perguntei a um dos presos: "Tu vais fugir?". E ele, de tão covarde e inteligente - é autor de um romance que tenho aqui comigo, mas que não pôde ser publicado -, só dizia: "Olha, eu não sei se vou fugir...". Era quem armava tudo. Decidimos fotografar a fuga (risos). Nosso trabalho era educativo e religioso e não policial.

Cultura - Vocês sabiam da fuga?

Rovílio - Sim, ficamos o dia à margem do rio, tomando chimarrão. Queríamos fotografar esse preso que tinha ajudado a planejar tudo, mas ele não foi, evidentemente (risos).

Cultura - Quando o senhor esteve em Porto Alegre pela primeira vez? Que tal

lhe pareceu a cidade?

Rovílio- Eu vim a Porto Alegre para continuar a Teologia, em 1958. A diferença era o tamanho da cidade, a dificuldade de se locomover. Tinha um ônibus que ia até o Partenon, era o Santo Antônio sobe a lomba. O Zeferino Sorgato, que foi estudante do meu curso, chegou a publicar um livro com esse nome, ele até esteve preso por causa do livro.

Cultura - Nunca lhe ocorreu deixar a ordem dos capuchinhos?

Rovílio - Não. Como eu disse, o motivo da minha entrada para a vida religiosa era ser padre, estar com as famílias, algo ligado à celebração da missa. Meu pai dizia dos freis: "Ora, ser padre e não rezar missa, isso não faz sentido". Isso fez com que eu nunca perdesse o encantamento, até hoje, com a vida religiosa. Nunca celebrei uma missa sem experimentar certo temor. Pelo contrário, por várias vezes apareceram momentos em que eu reafirmei essa convicção. Uma vez, uma aluna me disse: "É a última proposta que lhe faço" (risos). E eu disse: "Como assim? Tu fizeste outras?". Ela queria casar comigo, segundo me disse, e eu brinquei com ela, dizendo que ela só queria casar comigo para ficar com o que eu tinha. E ela: "O senhor é tão rico assim?". Eu respondi que era mais do que rico, tinha estimado quantas mil jovens tinham sido minhas alunas, aproximadamente 6 mil. Disse a ela: "Se eu escolher a ti, perco 6 mil (risos). Prefiro 6 mil amizades do que uma exclusividade". Deixar o outro livre é o mais importante.

Cultura - Isso é uma premissa da vida no seminário?

Rovílio - Trabalhei muito no seminário, e a rapaziada não era muito aberta no voto de castidade. São três votos: pobreza, que o brasileiro vive ao natural, obediência e castidade. A castidade só tem sentido quando tem um destino ao outro.

Cultura - E a sua vida como professor?

Rovílio - Entrei para a UFRGS em 1972, como professor de Psicologia da Educação na Faculdade de Educação e ali fiquei mais de 20 anos. Foi então que fundei a revista Educação e Realidade. Depois fiz o mestrado em Psicologia. Me aposentei lá.

Cultura - O senhor parece ter sempre vidas paralelas: foi professor da UFRGS enquanto trabalhava no presídio, foi pesquisador, tudo simultaneamente...

Rovílio - Sim. A atividade de que eu mais gostava era a de professor da UFRGS. Também dei aula de Cultura Religiosa numa universidade católica particular, onde me aconteceu uma coisa curiosa. Um aluno me disse: "sou obrigado a pagar para estudar religião e não tenho religião nenhuma". Eu respondi: "Olha, você tem razão. Estou substituindo um outro professor, não tenho contrato nem nada, mas tenho compromisso de apresentar tua verificação, a tua nota para a direção da universidade. Então, façamos o seguinte: tu escreves um trabalho, justificando o teu ateísmo, e eu te subsídio com a literatura necessária". Ele gostou dessa provocação, na outra aula apareceu, e na outra também, e assim foi.

Cultura - Como surgiu seu primeiro livro sobre imigração?

Rovílio - Na ocasião do centenário da imigração italiana (1975) e do sesquicentenário da alemã (1974), fui convidado para o chamado Grupo do Biênio, que estava organizando as comemorações. Um amigo havia escrito Colonização Italiana no Rio Grande do Sul: Implicações Econômicas, Políticas e Culturais e mandou a tese para ser traduzida. Inscrevi em concurso essa tese, mas o primeiro lugar ficou com Tales de Azevedo e o seu Italianos e Gaúchos. Me deparei com o seguinte problema: se eu desse o livro para minha mãe, ela não entenderia nada daquilo, implicações econômicas, políticas e culturais. E ela tinha vivido tudo o que a colônia tinha passado.- Então juntei um material gravado no período em que trabalhava em lpê, que eu tinha feito para publicar histórias de vida no jornal Correio Riograndense e que o diretor do jornal fez o favor de não publicar e jogar fora... . A sorte é que eu tinha degravado parte daquilo e tinha muitas anotações. Juntei alguns alunos e fiz um livrinho, Imigração Italiana: Vida, Costumes e Tradições, e mandei para a comissão do biênio. Recebeu menção honrosa. Ali eu comecei a colocar o dialeto, provérbios, receitas, tudo sobre a vida na colônia. Publiquei. Era só o que havia sobre o tema. Foi sucesso.

Cultura - Como o senhor descobriu o Nanetto Pipetta (conjunto de narrativas ficcionais sobre personagem popular, de raízes italianas)?

Rovílio - Quando o professor Luis Alberto De Boni voltou de seus estudos na Europa, ele foi trabalhar na redação do Correio Riograndense, em Caxias. Lá descobriu cerca de 5 mil exemplares em miolo, não encadernados, do tal do Nanetto Pipetta.

Cultura - Por que Nanetto Pipetta estava nessas condições, sem circular?

Rovílio - Por causa da guerra, quando não se podia mais vendê-lo porque o livro era em italiano (talian). Um frade, numa reunião da Província, disse que deveria ser proibida a circulação do livro, porque era um "atestado de ignorância", por ser em dialeto, por conter historietas de rir, etc. Quando resolvi publicar, o seu Leopoldo (Leopoldo Boeck, então editor da Sulina) disse que não venderia, principalmente porque estava em dialeto, lancei-lhe, então, um desafio: "Pega uma rua em Caxias e manda para aqueles endereços um volante, um panfleto. Se não vender para pagar o volante, eu pago o volante". Enviamos 600 cartas e vendemos quase 200 livros. Depois, com idéia do De Boni, fizemos o livro Pioneiros às margens do Uruguai, do Frei Aleixo Polesso e do Frei Gentil de Caravaggio, com as crônicas desses frades que andaram pelo interior do Estado. Eram figuras folclóricas, que andavam pelo Interior de faca na bota. Depois lançamos o Togno Brusafrati, de Frei Luís Maria Liberali, também um seriado dialetal que havia circulado no Correio Riograndense (1941) como o Nanetto, de 1924-1925.

Cultura - Quem havia escrito o Nanetto?

Rovílio - Um tal de Frei Paulino (Aquiles Bernardi), que era um frade de Caxias. Não se julgava culto, mas era um homem bem brincalhão, chegou a ser vice-diretor do jornal (1924). Ele recolheu isso, indo nas capelas e anotando palavras pronunciadas pelos colonos, perguntando para os próprios colonos se eles estavam de acordo com o vocabulário das crônicas, antes de publicá-las. Durante a II Guerra, o livro parou de circular; em seriado ele parou de circular em 1927, porque assumiu o jornal um sujeito que disse que tinha que botar fora aquele negócio em dialeto. E resolveu publicar o Robinson Crusoé em italiano culto (ironia).

Cultura - Funcionou esse Robinson Crusoé em italiano culto?

Rovílio - Acredito que não tenha tido grande repercussão, já que até hoje os colonos não entendem o italiano culto. E veja que coisa curiosa: num jornal dos padres, como era o Correio Riograndense, o personagem principal, o Nanetto, morre afogado e, portanto, sem os sacramentos, o que era, como eu disse, impensável. Agora, desde 1999, retomamos a publicação do Nanetto Pipetta.

Cultura - Como se deu essa morte do personagem?

Rovílio - Ele se teria afogado sem sacramentos, no rio das Antas, entre Veranópolis e Bento. Mas, em verdade, para enganar o diabo que estava à sua espera no lado do rio, Nanetto mergulhou e foi sair em Santa Teresa. Ele estava num lugar estranho, começou a trabalhar, precisava de dinheiro, construiu sua casa e, quando ficou bem, fez uma viagem até Caxias para conhecer o jornal dos frades que tinha falado dele ainda em vida e também depois da sua morte provisória. Por isto estava indo avisar que ainda estava vivo.

Cultura - Isso tudo é invenção posterior aos anos 20?

Rovílio - Sim, feita pelo Pedro Parente, de Caxias. Era uma continuação do Nanetto Pipetta do Bernardi. Estava indo muito bem, até que, de repente, morre o Pedro, pessoa jovem, de um enfarte.

Cultura - Parente seguia pelo mesmo método de Bernardi, de recolher histórias entre os colonos?

Rovílio - Ele fazia uma análise mais atual da condição do italiano, do colono, sobre o comércio, os bancos, com uma crítica econômica, política e social. O Nanetto do Bernardi era uma crítica religioso-social. O Bernardi, depois da guerra, na década de 60, começou um outro seriado que também foi cortado, que era La Stòria de Nino, Fradello de Nanetto Pipetta. O Nino soube da morte do irmão dele aqui, que tinha ficado para pagar meia colônia ao governo, vem da Itália a pedido da mãe dele para trabalhar e pagar essa dívida. Só que o Nino fez muito progresso e enriqueceu, comprando uma carroça e mulas para fretear. Um dia, ele sentou debaixo de uma árvore e pensou: "Como era o bom o tempo em que a gente chegava em casa, comia uma boa polenta, rezava o terço, e agora não sobra mais tempo para nada". Então o frei faz análise: quantos, depois de enriquecer, esqueceram o terço, esqueceram a fé... envolvendo-se apenas com o material.

Cultura - Vocês continuaram a publicar outros livros?

Rovílio - Sim, continuamos a coleção do centenário da imigração italiana, que ficou muito grande. Hoje, são mais de 300 títulos. Dos mais de 2 mil títulos que publiquei, mais de 300 são sobre assuntos italianos. O De Boni era professor da Universidade de Caxias e lecionava uma disciplina imposta, Estudos Brasileiros. Sugeri a ele que tomasse o estudo mais interessante aos alunos, pedindo que fizessem pesquisas sobre suas origens. Disso resultaram mais de 22 mil páginas de entrevistas feitas pelos alunos com velhos da região de Caxias e entorno.

Cultura - O interesse de vocês era mapear esse mundo imigrante?

Rovílio - Nosso interesse era numa literatura participativa. Isso quer dizer que, se , eu falo de uma pessoa de minha família, pelas relações que vão se estabelecendo, eu falo na verdade de umas mil pessoas. Se eu falar de cem pessoas, provavelmente vou falar na verdade de cem mil pessoas. E essas pessoas nunca ouvem falar ou lêem aquilo que elas realmente gostariam de ver: seu jeito de viver, seus costumes, suas tradições... E é essa literatura de famílias, de municípios, de histórias locais, que nos interessavam, seja dos italianos, alemães, polacos, negros, indígenas, judeus... De todos publicamos algumas coisas.

Cultura - E vocês tinham a preocupação de registrar as formas variantes nos dialetos?

Rovílio - Só tínhamos dois critérios. Primeiro: cada um tem o direito de falar como quiser. O Ramiz Galvão, meu patrono na Academia Rio-grandense de Letras, dizia que a língua só é fixa dentro da Academia Brasileira de Letras, já que o povo está sempre inventando novas formas de falar. Então, dentro desse princípio, nós registrávamos como as pessoas falavam. Nunca havia uma palavra errada. Assim nós chegávamos na linguagem familiar. E como eram famílias que trabalhavam quase que isoladamente, é óbvio que elas criavam expressões próprias de família para família; depois vem uma outra língua, ao estar em comunidade e, depois, ao ir para a cidade, surge uma outra língua, tentando falar o português, que sofre influências do dialeto, tanto quanto o dialeto vai ser afetado pelo contato com o português das cidades.

Cultura - O senhor nunca estudou lingüística?

Rovílio - Uma vez, surgiu a oportunidade de ir estudar metalinguagem na França. Mas quem de fato acabou indo foi um tal de Valter Beber. Ele foi em função de um projeto de formação dos professores para a Província. Eu estava em Ipê, trabalhando com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Estava lendo, por essa época, sobre São Luís Gonzaga, quando me apresentaram a proposta. Dei uma baita risada e disse: "Quid hoc ad eternitatem?", quer dizer, "O que me adianta isso (metalinguagem) para a eternidade?" (risos).

Cultura - O senhor prefere a vida à teoria, é isso?

Rovílio - Sim. Aquilo que traduz a vida é o que importa. Não adianta sofisticar, se isso não traduz a vida. Por exemplo, a literatura: o que é para uma elite é para uma elite, não adianta.

Cultura - Durante certo momento, nos anos 70, o senhor foi o grande editor de todo o pessoal de esquerda. Por que isso?

Rovílio - (Risos). Eu sempre admirei a pessoa que pensa, que escreve. Na universidade, por exemplo, nós tínhamos a revista Educação e Realidade, com um conselho editorial. E eu dizia: "Pra quê?". Nós temos que ter orgulho de que o professor escreva, porque o professor que escreve é o professor que tem coragem de mostrar sua capacidade ou sua incompetência. Quanto mais modos de pensar se expressarem, melhor. E não me importava se o Décio Freitas, que eu publiquei, ou o Voltaire Schilling, que eu não cheguei a publicar, fossem de esquerda. Publiquei os primeiros livros do Charles Kiefer. E eu sempre disse que onde houver idealismo há construção. O esquerdista, quanto mais radical for, mais interessa, porque é uma pessoa que constrói. Se uma pessoa é de esquerda ou de direita, não interessa, me interessa que tenham posição. Por exemplo, eu sempre fiz parte do Conselho Estadual da Cultura, desde o tempo do governador Amaral de Sousa. Mas no governo Olívio Dutra, eu senti a diferença do que é um governo de esquerda. Pela primeira vez, vi o que é apostar numa coisa mais reduzida, talvez, mas com mais élan. Parece que a direita é mais burocrática e a esquerda é mais renovadora, mais ágil.

Cultura - No período de 1968 em diante, vocês sofreram com a repressão?

Rovílio - Sim, eu rezava missas numa escola ali no Beco do Carvalho, missas que eram mais uma desculpa para pregar idéias. Eu tinha uma caderneta com pseudônimo do Diário de Notícias, e, numa ocasião, os militares me pediram documentos e levaram essa caderneta. Fui para o Diário de Notícias, eu tinha sido correspondente quando ainda estava em Ipê, e disse: "Zerem tudo isso aí". Como não tinha fotografia, nunca associaram um animal com o outro (risos).

Cultura - Uma coisa que todo mundo comenta em relação ao senhor é que além de publicar, o senhor pagava os direitos autorais adiantados.

Rovílio - Sim. O livro publicado e não pago era sempre um problema. Numa redação dos meus 12 anos, que me valeu o meu primeiro diploma (era para um concurso de rádio), eu concorri com o texto: "Pobre, mas livre". Então como é que eu vou publicar um livro e ficar com dívidas com o autor, que vai ficar me cobrando? Eu prefiro assim. (ZH,Caderno de Cultura, 9-08-2003, p. 1,4, 5 e 6).

 

 

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